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Uma temática que não é subjectiva

Rui Gomes, em 02.04.13

 

Não presumo saber a real intenção de Bruno de Carvalho ao sentar-se no banco dos suplentes em Braga; se apenas satisfazer o seu desde sempre sonho ou emular as acções daquele que, em contexto, tem sido o mehor director de futebol em Portugal nas últimas duas ou três décadas, ou, até, se o seu pensamento incluiu as duas disposições. Identifico-me perfeitamente com a situação, pelas centenas de jogos ao longo dos anos em que ocupei esse lugar, raramente como presidente de clubes, que fui, durante algum tempo, sempre, pelos muitos mais anos em que chefiei equipas de futebol amador, não-amador e profissional.

O impacto da presença de qualquer um é muito relativo à pessoa, à sua reputação, à sua personalidade, aos seus conhecimentos futebolísticos e ao respeito que é sentido por treinadores e jogadores por ter sido merecido e conquistado pelas suas acções ao longo dos anos. Claramente, poucas se algumas destas considerações podem ser atribuídas a Bruno de Carvalho por nunca ter tido qualquer tipo de associação ao futebol na sua vida. Qualquer influência poderá surgir pela novidade, pelo fazer sentir que há um novo «patrão na loja», pouco mais. Pelos verdadeiros homens do futebol, que não assumam uma postura subserviente, será inevitavelmente olhado como um intruso porque não o respeitam nesse singular contexto. Por outros, é tolerado por não se atreverem a manifestar o seu desacordo. Atrevo-me a garantir que a situação não é do agrado de Jesualdo Ferreira, sem ser necessário ele verbalizar uma única palavra.

Um dos homens que mais admirei no futebol, como jogador e posteriormente como treinador, chama-se Johan Cruyff. Foi ele, como técnico, que recuperou o Barcelona do abismo e que o conduziu pelo percurso em que ainda hoje se encontra. Recordo-me, como se fosse hoje, uma das suas mais famosas frases quando assumiu a liderança do Barça: «o sr. presidente não entra no balneário sem a minha permissão.»

Para ser sincero, não estou muito preocupado com acções desta natureza por Bruno de Carvalho, embora não considere que o presidente de uma Instituição da dimensão do Sporting deva entrar pelo relvado dentro a celebrar uma vitória como um adepto de 18 anos. O relvado pertence a quem nele faz a sua vida e todos os outros devem-se manter na sua periferia. Já a sua presença no balneário no início e no final de jogos é totalmente inaceitável e, como já indiquei num outro escrito, é uma situação tolerada por muito poucos treinadores. Pode entrar, desejar boa sorte à equipa e então ocupar o seu lugar na bancada. O mesmo no final dos jogos, mediante os resultados. Já o vi ser comparado a José Sousa Sintra, pelos métodos interventivos deste, no mesmo sentido. Não resultou com ele e não vai resultar com Bruno e Carvalho. Daqui a uns anos, talvez, se ele ainda lá se encontrar, não agora.

Esta é uma daquelas temáticas que só é subjectiva nas mentes dos teóricos que nunca exerceram funções do género e que nunca mantiveram qualquer tipo de associação ao futebol, à raiz. É uma realidade incontornável, indiferente das paixões populistas.

 

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publicado às 21:48

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4 comentários

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De Lionheart a 02.04.2013 às 23:23

Simples e conciso, Rui. Está tudo dito.

Basicamente, o Sporting passa por mais uma experiência no dirigismo. Se a anterior fase foi caracterizada por dirigentes distantes e mais racionais (com a excepção do Bettencourt), agora temos um que se comporta como um adepto. O panegerismo virtual reguzija-se com isso, mas como bem disse, este tipo de comportamento cria outro tipo de problemas.

Uma vez, no primeiro jogo, por ser um embate difícil, escapa. Se for por sistema vai ser mal aceite. Nem vale a pena comparar com Pinto da Costa. Este começou por ir para o banco por ser o chefe do departamento de futebol profissional. Fazia parte da estrutura. Estava lá quando o Pedroto criou a "escola" Porto. E depois de ser eleito presidente continuou a sentar-se no banco durante muitos anos.

Bruno de Carvalho nunca fez nada no futebol. Apenas ganhou umas eleições (como muitos outros no Sporting que nunca fizeram nada de jeito no clube) e por isso mesmo não adquire um respeito por aí além da parte de profissionais que têm mais mundo no futebol do que ele, e que vão continuar a andar no meio muito depois do Carvalho sair do Sporting. Nem se percebe sequer quem tenta imitar. Num dia comparam-no a João Rocha, noutro a Pinto da Costa. Andam mas é à deriva, é o que é. O Sporting continua a ser um "Ferrari" na mão de quem mal sabe guiar.
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De Rui Gomes a 02.04.2013 às 23:37

streCaro Lionheart,

Se me permite a imodéstia, fala a experiência de muitos anos, de muitos jogos, de muitos treinos, de muitas dores de cabeça no «olho do furação». Experiência essa que recordo com nostalgia mas que me arrasou em muitos aspectos: financeiros, familiares e em detrimento da minha saúde. Muito por isto, mas não exclusivamente, acabei por sofrer um evento cardíaco por excessiva acumulação de stress ao longo dos anos.

Não deixo de sentir algum exaspero ao ler os teóricos cá do burgo. A minha alusão, como verificou, era precisamente a Pinto da Costa, um homem que aprendeu à raiz e durante escola de anos, sob mestres.

Bruno de Carvalho está a viver, fundamentalmente, o seu sonho, mas rápido terá que enfrentar outras duras realidades.

SL
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De Lionheart a 03.04.2013 às 00:04

Lamento que tenha tido problemas cardíacos. É muito comum no mundo do futebol, infelizmente. A ansiedade, o stress e a depressão em alguns geram problemas cardíacos nos dirigentes e pessoal de apoio. Não é só uma questão congénita. Mesmo em jogadores novos estou convencido que a dificuldade que alguns têm em lidar com a pressão contribui para o aparecimento de condições cardíacas, que são quase sempre fatais para uma carreira na alta competição.

O futebol de alta competição dá cabo da saúde a uma pessoa. Quando o Guardiola saiu do Barcelona, lembro-me de ver uma reportagem que tinha uma retrospectiva da carreira dele como treinador e impressionou-me como um homem que ganhou tudo o que havia para ganhar no Barcelona, envelheceu mais de dez anos enquanto lá esteve. Demolidor. Só mostra como por detrás do sucesso está muita preocupação e sofrimento psicológico.

Tem toda a razão sobre o que diz quanto a Pinto da Costa. Não apreciamos os seus métodos, mas não deixa de ser evidente que fez todo um percurso no seu clube e com pessoas como Pedroto, que foram imprescindíveis para que ele pudesse depois evoluir como dirigente.

Métodos à parte (embora seja precisamente devida uma analogia fantasista entre Bruno de Carvalho e Pinto da Costa que muitos Sportinguistas votaram no primeiro) eu ficaria muito contente que o actual presidente soubesse um décimo do que Pinto da Costa sabe sobre futebol. Porque o que seria mais reproduzível no Sporting - o "saber-fazer" no futebol - é porventura o que os sócios menos valorizam, tendo ao invés projectado no actual presidente do clube um "modus faciendi" que o Porto durante muitos anos até dispensou, devido à superioridade que adquiriu dentro do campo.
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De Rui Gomes a 03.04.2013 às 00:19

Caro Lionheart,

Só para finalizar, chegou ao ponto que me retirava para o balneário pelas grandes penalidades decisivas. Começaram a surgir os ataques de ansiedade e mais tarde o resto.

Conheço pessoalmente Pinto da Costa, não direi com intimidade, e sempre o admirei, salvo a partir do ponto que ele determinou que os fins justificam todos e quaisquer meios. Diria, até, que é o único genuino director técnico de futebol em Portugal, à parte das suas funções presidenciais. É muito amável e prestável em pessoa e contrário à ideia popular, não é ditador dentro do seu grupo, trabalha em equipa. Só assim conseguiu o sucesso que se sabe, à parte do resto.

Direi também , caro Amigo, que por variadíssimas razões, nunca seria possível ele fazer em Lisboa o que fez no Porto. Uma cultura muito diferente.

O Guadiola, penso eu, retirou-se do Barça precisamente pela pressão, especialmente pela chegada de Mourinho. Escolheu o Bayern porque, verdadeiramente, não tem muita competição.

SL

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