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Arquivo do passado (22)

Rui Gomes, em 23.05.13

 

Esta foi a equipa do Sporting que participou na Volta a Portugal no ano de 1958; da esquerda para a direita: José Pedro de Carvalho, Carlos André, Artur Correia, Pedro polainas, António Pedro Júnior, José Calquinhas, Américo Raposo e Manuel Graça.

 

Há muito que pretendo publicar neste espaço uma breve mas singela homenagem a um excelente ciclista da minha juventude, meu amigo e conterrâneo, que representou a equipa do Sangalhos nos seus anos gloriosos e, mais tarde, na segunda metade da década de 50 e na de 60, o nosso Sporting Clube de Portugal. As referências são muitas mas os detalhes escassam, o que dificulta mesmo um resumo biográfico. Recorri a um trecho do eloquente artigo de João Boavida, antes publicado no diário "As Beiras":

 

 

«O ciclista subindo a montanha, solitário, pedalando, pedalando sem fim, é a imagem do excesso de esforço face ao efémero do triunfo. Que só um alcança, mas que todos desejam. O homem vencendo a subida, que não termina, nunca, morrendo e ressuscitando a cada instante. Pelo esforço, pelo sacrifício sem medida o rei da montanha é a imagem da humanidade desde o mais fundo da sua origem e da sua luta. (...) Mas que continuava a subir, sempre, à medida que se sucediam, como labaredas, escos de que os corredores já tinham passado acolá, não podiam estar longe, já vinham perto, já estavam aí e com a sirene da outra Harley cortando o vento, aí estavam eles, como o Alves Barbosa de peito à frente, comandando as hostes, e todos logo num enxame de aço, a mais pura leveza, num zut zut zut zut zut de cores traços manchas ruscos, que nos cruzavam os olhos nos atravessavam os peitos entre gritos porque vira Ribeiro da Silva, ou o Onofre Tavares, ou o Pedro Polainas ou o José Firmino, ou o Perna Coelho ou o José Calquinhas ou, mais tarde, o João Roque e, anos depois, o Joaquim Agostinho, zut zut zut zut.. o urgente era, naqueles relâmpagos, reconhecer alguns, ficar com essa glória para depois contar, trocar imagens, repetir, imaginar, recordar tais instantes de glória zut zut zut zut... e pronto, já lá iam»

 

José Calquinhas não foi um fora de série, um Alves Barbosa, um Ribeiro da Silva nem um Joaquim Agostinho. Era um ciclista que trabalhava para a equipa e, mesmo assim, cometeu a proeza de vencer diversas etapas e no ano da fotografia classificou-se em 10.º lugar na classificação geral, em uma Volta ganha pelo seu ex-colega do Sangalhos, o lendário Alves Barbosa. A minha memória não é adequada a detalhes sobre eventos de outrora que eu não vivi em pessoa, mas uma das histórias que o Zé mais gostava de contar foi da Volta em que ele chegou isolado a Alvalade e a meio da pista a corrente partiu-se e ele viu-se obrigado a levar a bicicleta às costas até à meta, já não conseguindo vencer a etapa final. 

 

Como escreveu João Boavida, e bem, no seu artigo: «vem-me a paixão do ciclismo pelo entusiasmo que, na infância, era a Volta a Portugal, com os altifalantes logo pela manhã a anunciá-la em ecos e papeis esvoaçantes.» O ciclismo era a alma do clube da minha terra natal - o Sport Clube Escolar Bombarralense - e pela minha estadia em Portugal enquanto estudante, a rapaziada corria a "Volta a Portugal" todos os dias, só que no lugar de bicicletas de corrida - um luxo dos tempos - utilizávamos volantes feitos de arame. Nem isso travava a emoção do momento, e lá corríamos nós zut zut zut zut... mas com as pernas e as solas dos sapatos. E, depois, escrevia o meu pai: «Eu não ganho para os sapatos que tu estragas!».

 

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publicado às 01:06

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12 comentários

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De sloct a 23.05.2013 às 14:50

Magnífico!

Não há mais nada a dizer.
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De Rui Gomes a 23.05.2013 às 15:26

Obrigado pelas simpáticas palavras, caro Sloct. É sempre um pouco emocionante escrever sobre algo que nos marcou na vida e a minha juventude em torno do ciclismo de outrora (e também do futebol) é mais do que uma memória, é uma emoção que fica connosco pela eternidade.

Cumprimentos
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De haja luz a 23.05.2013 às 17:42

O mundo na altura era outro, com maiores dificuldades,mas mais puro, talvez mais bonito.
A terra natal do Rui, tem uma equipa vez ciclismo.
Nesse tempo Rui, quase toda a gente vinha á rua ver os ciclistas, eram milhares e milhares de pessoas.
Quando era a chegada a alvalade o estádio estava cheio, ou melhor muitíssimo cheio
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De Rui Gomes a 23.05.2013 às 17:49

A sociedade era outra, de facto, e o ciclismo também se tornou numa modalidsde muito cara. No entanto, acredito que ainda hoje seria muito popular se tivessemos equipas nos principais clubes.

Ainda há muito ciclismo em Portugal, simplesmente não ao nível competitivo e emocional de outrora. Bons tempos.
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De haja luz a 23.05.2013 às 18:00

Por exemplo, até há poucos anos as maiores voltas, principalmente o tour, tinha milhões de pessoas nas estradas.
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De Rui Gomes a 23.05.2013 às 19:14

É verdade, os tempos mudaram mas a modalidade ainda é muito popular.
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De haja luz a 24.05.2013 às 21:19

Hipócritas

\" O diretor do Giro, Michele Acquarone, disse que o controlo positivo por EPO do ciclista italiano Danilo Di Luca se deve a \"um caso de dependência\". \"Eu acredito num corredor que me olha nos olhos e me diz \'errei\'. Mas, quando ele reincide, para mim trata-se de uma dependência. É um rapaz que precisa de ajuda\", defendeu.

Para o diretor do Giro, foi \"estúpido\" da parte de Di Luca não perceber que \"a música mudou\". \"Trata-se de um ciclista antigo que não conseguiu perceber que o mundo do ciclismo já não é o mesmo\", completou Acquarone, que não se arrepende de ter convidado a equipa Vini Fantini para a sua prova e que não exclui processar o veterano de 37 anos.

Di Luca, que já tinha sido condenado por recurso a EPO em 2009, estava sem equipa no início da temporada e assinou um contrato com a Vini Fantini, tendo participado apenas no GP Industria & Artigianato Larciano e na Volta à Toscana, em 27 e 28 de abril. A equipa italiana desvinculou-se hoje totalmente do italiano, revelando que apenas o contratou por pressão de um patrocinador.

O resultado positivo de Di Luca, que após 18 etapas ocupava o 26.º lugar do Giro a 33.33 minutos do compatriota Vincenzo Nibali (Astana), decorreu de um controlo fora de competição feito na casa do corredor, a 29 de abril. \"Não o esperava, é uma surpresa para mim\", reagiu o ciclista à saída do hotel onde estava instalado com a Vini Fantini, remetendo mais explicações para depois da contra-análise.

Vencedor do Giro\'2007, Di Luca teve duas análises que acusaram o recurso a EPO (recombinante, CERA) durante a edição de 2009 do Giro, que terminou no segundo lugar atrás do russo Denis Menchov. Depois de ter negado a utilização de EPO, Di Luca acabou por colaborar com as autoridades para obter uma atenuação na pena, que foi revista de dois anos para 15 meses de suspensão.

Anteriormente, o corredor, apontado como uma coqueluche do ciclismo italiano, já tinha tido problemas com o doping quando, em abril de 2008, as autoridades antidopagem defenderam a sua suspensão por dois anos devido a um controlo \"anormal\" durante o seu vitorioso Giro em 2007, mas do qual foi absolvido pelo Comité Olímpico Italiano (CONI).\"
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De horacio marcelino a 22.10.2013 às 18:21

Prezados amigos,
Creio que, na foto, onde dizem "Artur Correia" está o Artur Carreira. Depois quando referem alguns nomes de rivais (amigos) do José Calquinhas, também podem considerar o João Marcelino e o Fernando Maltês, ambos do Benfica e que com ele participaram em muitas provas e em diversas Voltas a Portugal.

Saudações
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De Rui Gomes a 22.10.2013 às 18:31

Obrigado pela informação. Quanto ao "Correia" ou "Carreira", de momento não posso confirmar se foi equívoco meu ou do documento onde obti os dados.
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De horácio marcelino a 23.10.2013 às 19:52

Grato pela cordial resposta, conheço o Artur Carreira, espero que se mantenha de saúde e sempre amável para quem se dirige à sua casa de bicicletas em Queluz, que, nos últimos anos, não tenho tido oportunidade de visitar. Ele é dessa geração de grandes ciclistas. Quanto aos manos "Correias", o Manuel e o Carlos, apareceram em equipas do Sporting, alguns anos mais tarde, com outros grandes ciclistas, como o Agostinho (o maior), o Roque, o Miranda, o Emiliano, talvez o Firmino e o Curto, etc. etc.
Parabéns pelo seu trabalho e pela homenagem que presta aos nossos "Ídolos do Passado".
Aquele abraço.
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De Rui Gomes a 23.10.2013 às 20:16

Obrigado pelas suas simpáticas palavras. Faço o possível para relembrar o nosso histórico passado.

Sendo natural do Bombarral, tenho uma ligação natural com o ciclismo e, daí, ao Zé Calquinhas .

Pela minha juventude, as férias de verão eram passadas em Tavira e, nessa localidade, assistia à respectiva etapa da Volta a Portugal e o tradicional Circuito de Tavira, o últimos dos quais a que eu assisti foi ganho por João Roque. O Ginásio de Tavira tinha uma grande equipa nesses tempos, liderada por Jorge Corvo.

Os meus cumprimentos e apreço por acompanhar o nosso blogue.
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De horácio marcelino a 23.10.2013 às 22:14

Caro Rui Gomes,
Eu também, desde muito novo, alimento uma enorme paixão pelo ciclismo, talvez justificada pelo facto de ser irmão do João Marcelino, que que foi campeão nacional de estrada em 1957 e 3.-º na volta desse ano, infelizmente já não está entre nós, tinha mais dezoito anos que eu. Nos anos cinquenta e até meados dos anos sessenta, assistia a todas as chegada ao Estádio José Alvalade e aos circuitos que aí se realizavam. Recordo-me das impolgantes vitórias do Américo Raposo, do Artur Coelho e do Alves Barbosa, entre outros. Sou natural da outra vertente da Serra de Montejunto, de Arrifana, que fica entre Rio Maior, Santarém e Cartaxo, regiôes, tal como o Bombarral, o Cadaval e Torres Vedras, de grande paixão pelo ciclismo e de grandes valores dessa modalidade. Nesses tempos, da sua região, grande ciclista e amigo do meu irmão era o Miguel Rodrigues.
Aquele abraço.

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