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A “Questão Jorge Vieira”

Leão Zargo, em 21.02.16

 

SCP 1928-29.jpg

 

O Sporting Clube de Portugal, instituição histórica com invulgar identidade, sempre gerou entre os seus associados um grande sentimento de pertença que implica formas de sociabilidade e de solidariedade específicas. As assembleias gerais do Clube que se realizaram em 2 e 22 de Fevereiro de 1929 são bem reveladoras desta asserção num tempo em que ainda não se tinha verificado a transformação do futebol numa indústria cultural de massas e os grandes atletas leoninos preenchiam o imaginário colectivo dos adeptos.

 

Estas duas assembleias gerais decorreram da chamada “Questão Jorge Vieira”, atleta leonino entre 1911 e 1932, capitão geral e capitão de equipa que pelo seu extraordinário sportinguismo e desempenho desportivo foi agraciado com a Medalha de Mérito e Dedicação (1931), patrono de “Os Cinquentenários” (1969), Prémio Stromp (1973), dirigente do Sporting (1985) e o primeiro sócio a receber o emblema de 75 anos de filiação (1985). Em 1981, nas Bodas de Diamante do Sporting, Jorge Vieira foi agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique, sendo presidente da República o General Ramalho Eanes. Pelo seu carácter excepcional, foi intitulado o “capitão perfeito”.

 

19285594_HtdyD.jpg

Nem o facto de Jorge Vieira ser o jogador do Sporting mais carismático do seu tempo o livrou de ficar envolvido numa situação que nunca desejou. Por ser o capitão geral abordou o presidente Joaquim Oliveira Duarte no sentido de serem revistas determinadas compensações materiais aos jogadores. Naquele tempo, em 1928, o amadorismo já tinha terminado nos grandes clubes e os atletas da 1.ª categoria da equipa de futebol do Sporting consideravam insuficiente a remuneração que recebiam.

 

No final da década de 1920, Joaquim Oliveira Duarte defendia a prática do amadorismo e não revelou receptividade à solicitação de Jorge Vieira. O Clube vivia uma situação financeira difícil agravada por sucessivos défices anuais. Em consequência, o atleta decidiu abandonar a actividade desportiva, alegando razões do foro pessoal. Voltaria algum tempo depois, mas o treinador Charles Bell considerou que ele não tinha condições físicas para jogar futebol. Houve divergências, em consequência dessa decisão. Tudo culminaria na suspensão de Jorge Vieira como sócio do Sporting até à realização de uma Assembleia Geral, porque a Direcção entendeu que o atleta teve um comportamento desrespeitoso para com os superiores hierárquicos.

 

Foi convocada uma Assembleia Geral Extraordinária para 2 de Fevereiro de 1929, onde o presidente do Clube e o antigo capitão geral apresentaram as suas razões. A maioria dos associados presentes manifestou apoio ao jogador, o que deu origem à demissão da Direcção. Devido ao adiantado da hora e ao extremar de posições entendeu-se suspender a Assembleia Geral, ficando decidido a convocação de outra para eleger uma nova Direcção e deliberar sobre a “Questão Jorge Vieira”, como se passou a chamar. Em 22 de Fevereiro, a maioria dos sócios presentes (144 contra 130 e 5 abstenções) aprovou uma moção onde se exaltavam as qualidades do atleta e se declaravam nulas as sanções que lhe foram aplicadas. Jorge Vieira voltou a jogar futebol e vestiu a camisola leonina até 1932, a única que envergou durante a sua carreira desportiva.

 

A “Questão Jorge Vieira” envolve duas lições importantes para nós, sportinguistas. A primeira refere-se a dois leões invulgares que discordaram e se confrontaram em determinado momento das suas vidas por se manterem fiéis às suas convicções. Ortega y Gasset escreveu um dia que “o homem é o homem e a sua circunstância”, princípio que se aplica de forma cristalina ao presidente Joaquim Oliveira Duarte e ao atleta Jorge Vieira, duas figuras maiores da História do Sporting.

 

A segunda lição decorre do descontentamento exibido por alguns sportinguistas quanto à opinião crítica de outros adeptos ao Conselho Directivo em funções. É frequente que essa insatisfação se manifeste de forma impaciente e agressiva, dando origem a uma fraseologia bem conhecida por todos nós. Afinal, a “Questão Jorge Vieira” remete para o ADN leonino quanto à forma do envolvimento dos sportinguistas naquilo que consideram ser a matriz identitária do seu Clube.

 

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publicado às 12:04

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10 comentários

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De Rui Gomes a 21.02.2016 às 13:09

Mais um excelente artigo caro Leão Zargo, sobre a gloriosa história do nosso Clube.

Aos poucos, estamos a ficar com um arquivo fabuloso aqui no Camarote Leonino.

Abraço
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De Leão Zargo a 21.02.2016 às 13:16

Caro Rui Gomes
Huuummmm... esse arquivo já existe no Camarote Leonino há algum tempo!
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De Profeta a 21.02.2016 às 13:46

Interessante. Faz-me lembrar coisas do presente... Sócios suspensos, ou guerras contra activos do clube (Marco Silva), com o presidente a baixar a bolinha perante os adeptos em Dezembro de 2014 :-)
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De Leão Zargo a 21.02.2016 às 15:37

Caro Profeta
Por vezes parece que a história se repete, mas as circunstâncias são diferentes. Pelo menos, é o que me parece. O presidente Oliveira Duarte era um homem do seu tempo. Oficial da Marinha (Comandante) tinha em 1928-29 uma determinada visão do Mundo e do Desporto. Talvez por isso não percebeu que a pretensão dos jogadores leoninos era normal naquele tempo: todos tinham profissão, mas através do futebol melhoravam um pouco as condições materiais de vida.

Curiosamente, quando voltou a ser eleito presidente em 1932 surgiu com uma mentalidade diferente, parecendo bem integrando no futebol de então. Foi este presidente que entre 1932 e 1942 lançou as bases do Sporting hegemónico dos “5 violinos” e contratou o Mestre Szabo.
Em 1929 na “Questão Jorge Vieira” foi coerente consigo próprio, mas não compreendeu os sinais do tempo.
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De Trinco a 21.02.2016 às 14:14

Muito bom! Já conhecia pela rama a existência da “Questão Jorge Vieira”, mas sem esta profundidade. A nossa real diferença é esta. É este ADN de defesa da matriz identitária do Clube, mesmo que menos evidente nos últimos anos e mal entendido por quem é confrontado.
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De Leão Zargo a 21.02.2016 às 15:44

Excelente Trinco!
A História permite tirar determinadas ilações muito proveitosas para o presente. E perspectivar o futuro, é claro.
No caso do tempo presente do Sporting percebe-se melhor como tudo é conjuntural e efémero. Embora andem por aí uns fulanos de peito feito convencidos que descobriram a pólvora e que, antes deles, pouco ou nada existia.
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De Angelo Pereira a 21.02.2016 às 14:37

O Sporting sempre foi difícil de governar tanto socialmente
como financeiramente, também é por estes motivos que infelizmente
não somos campeões mais vezes, compreendo que haja discordancias
mas há momentos que temos que estar do mesmo lado e este é um deles
pois o poder do futebol está a levar um concorrente ao colo e aí temos
todos que defender a nossa dama (SPORTING), pois comemos o pão
que o diabo amassou.
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De Leão Zargo a 21.02.2016 às 15:48

Ângelo Pereira
O Sporting nunca foi difícil de governar para além do que é comum em instituições do género. Cada uma tem as suas particularidades e o nosso Clube terá as suas.
Acontece que não é qualquer um que tem capacidade para presidir ao Sporting. Mas, isto já é outra história.
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De sloct a 21.02.2016 às 16:08

Excelente post!
Ao nível do que o Leão Zargo nos tem habituado!
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De Leão Zargo a 21.02.2016 às 16:17

sloct,
obrigado...
... e um abraço leonino!

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