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Futebol com humor à mistura (11)

Rui Gomes, em 06.11.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting, agora diante do SC Braga. A "brincar", diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

No regresso a um campeonato que teima em conspirar para não o deixar fazer qualquer defesa impressionante, preservou a dignidade com os únicos recursos à sua disposição nas competições domésticas: devolver a bola em condições aos colegas (hoje falhou um passe, algo que, salvo erro, não acontecia desde o jogo com o Steaua), encaixar alguns remates inofensivos, e aceitar com calma resignação a diferença entre Dybalas e Danilos: enquanto um faz 2 ou 3 bons remates por jogo, outro faz 1 remate indefensável por ano – contra si.

 

Stefan Ristovski

Apesar do resultado, foi uma noite extremamente positiva e elogiosa para a maneira como o clube gasta dinheiro em jogadores. Após duas exibições impressionantes em duas competições que não interessam a ninguém (Taça da Liga e Champions), Ristovski mostrou hoje dois dos indicadores que a mão invisível do mercado utilizou para avaliar correctamente o seu preço: que será um pouco mais ágil e multidimensional em posse ofensiva, mas que no 1x1 não é o muro intransponível que Piccini é quase sempre. São contas a fazer no fim da época, mas é provável que cheguemos à conclusão de que os setecentos mil euros que os separam até fazem imenso sentido.

 

Sebastián Coates

Depois do passe desastrado logo ao quarto minuto, fez uma exibição globalmente positiva até meio da segunda parte, dobrando Ristovski com eficácia um par de vezes, bloqueando no último segundo um remate de Paulinho na área, e proporcionando até, na área contrária, a defesa da noite a Matheus. Um dos muitos jogadores em sobrecarga de esforço, foi pena aquela gravíssima rotura simultânea dos lóbulos frontal, temporal e parietal, que o obrigou a jogar os últimos 20 minutos física e intelectualmente diminuído.

 

André Pinto

Uma contratação a custo zero, tal como fez questão de recordar nos últimos minutos, em mais uma demonstração triunfante da maneira como o mercado avalia os preços de jogadores.

 

Jonathan Silva

Ao minuto 33, aproveitando uma interrupção, foi à linha lateral receber instruções de Jorge Jesus, que lhe explicou sucintamente o que era uma bola, e qual devia ser a sua conduta na presença de um objecto tão inesperado. Foi uma intervenção necessária, e talvez tardia, pois Jonathan comporta-se perante a bola como qualquer pessoa normal se comporta perante um cão enorme: dedica todos os seus esforços a mostrar que não tem medo. Mas tem, e a bola, tal como o cão, consegue senti-lo a léguas. A defender, não foi a catástrofe habitual: foi apenas uma catástrofe ligeiramente mais contida (a diferença, digamos, entre um furacão de nível 4 e uma tempestade tropical). Uma decisão incompreensível da equipa de arbitragem impediu que ficasse hoje associado a mais golo sofrido: um erro que, ao apagar dos registos oficiais um motivo adicional para dispensar Jonathan, acaba por prejudicar gravemente o Sporting.

 

Rodrigo Battaglia

É um homem de convicções fortes. Acontece que essas convicções são apenas duas: a bola não deve estar perto de si, e a bola não deve estar longe de si. Na tensão irreconciliável entre estes dois objectivos antagónicos residem todas as suas virtudes e defeitos – que, tal como as convicções, também são muito fortes, e também são apenas duas em número. Fez hoje, de todas as coisas possíveis e imaginárias, aquilo que menos se espera dele: um jogo discreto e quase anónimo.

 

Bruno César

Para surpresa de exactamente ninguém, jogou pior contra o Braga do que contra a Juventus, tal como no passado jogou pior contra o Rio Ave do que contra o Real Madrid e tal como num futuro próximo, jogará pior no Bessa do que no Camp Nou. E até teve uma primeira parte razoável, sempre que jogou simples e ao primeiro toque, e com a disponibilidade que se lhe reconhece para nunca deixar ninguém sem linhas de passe. Depois da saída de Acuña derivou para a esquerda e, tal como Freitas do Amaral, raramente voltou a acertar uma. Ainda assim, pertence-lhe um dos melhores cruzamentos do jogo, ao minuto 63.

 

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Gelson Martins

Continua a exibir, embora só uma ou duas vezes por jogo, uma facilidade tão grande em desembaraçar-se de adversários e deixá-los para trás em velocidade, que até parece mal não o fazer mais vezes. Reagimos como se não o fizesse por não querer fazê-lo, o que faz tanto sentido como ficar chateado com alguém que gagueja. Manteve o nível que apresenta desde Setembro, pecando na decisão ou na execução quase sempre que conseguiu ganhar espaço no último terço. Acção mais meritória (como também começa a ser hábito) aconteceu a defender: ao minuto 76 impediu com o corpo o que podia perfeitamente ter sido um golo de Ricardo Esgaio. Quer dizer, era o que faltava.

 

Marcus Acuña

Um bom índice da sua qualidade é a rapidez com que se transformou na solução automática para todo e qualquer colega que não sabe o que fazer à bola. Num passado não muito distante, em situações de aperto, o último recurso era centrar para a área adversária, mesmo que estivessem atrás do meio-campo. Hoje em dia, preferem disparar a bola na direcção geral de Acuña, na perfeita confiança de que ela vai lá chegar e sentir-se em casa. Pouco antes do intervalo, finalizou um sprint ao pé coxinho e agarrado à coxa, mimetizando na perfeição o que aconteceu ao meu estado de espírito nesse preciso instante.

 

Bruno Fernandes

Teve o golo nos pés logo a abrir, mas não estava a quarenta metros da baliza e portanto não teve confiança para tentar o remate, optando por servir um colega. Não fez um bom jogo, Bruno Fernandes. Mas mais interessante e pertinente do que o facto de Bruno Fernandes não ter feito um bom jogo é o facto de ter estado nos dois golos, e ter sido o jogador da equipa que mais bolas recuperou, que mais ocasiões criou, que mais lucidez demonstrou.

 

Bas Dost

Foi o melhor da equipa. Sempre bem a solicitar colegas ao primeiro toque, fartou-se de aliviar bolas defensivas em cantos, e inaugurou o marcador com um remate onde se viu cada cêntimo dos milhões de euros que custou. Leva 42 golos em 42 jogos na Liga e, no momento em que caiu no relvado agarrado à coxa, levou 42 mil pessoas a sentir o que devem ter sentido os amigos do Willem Defoe no "Platoon", quando viram do helicóptero o que lhe estava a acontecer.

 

Daniel Podence

Entrou bem, conduzindo um contra-ataque rápido na saída de um canto e sacando um amarelo. Ao segundo minuto da segunda parte, perdeu um sprint contra Esgaio, um evento traumático que talvez lhe tenha toldado o discernimento no resto do jogo. Criou esporádicos focos de algazarra e confusão, mas hoje viu-se rodeado de gente também ela demasiado confusa para os saber aproveitar. Ao minuto 64 tentou rematar à baliza, algo que, francamente, devia ser proibido de fazer, nem que seja através de uma cláusula contratual explícita para esse efeito.

 

Seydou Doumbia

Foi menos útil e decisivo que Alan Ruiz, um destino improvável e que não se deseja a ninguém.

 

Alan Ruiz

Usou a sua inteligência para cometer uma importante falta ofensiva já nos descontos, quando a equipa estava a perder, certamente para gastar tempo e evitar o 1-3 do Braga. Ao sentir que os ânimos estavam mais calmos, decidiu sofrer uma falta, em vez de a cometer, e ganhou o penálti do empate.

 

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publicado às 04:35

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