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A usual obra humorística de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise da performance dos jogadores do Sporting em Santa Maria da Feira, em jogo da 5.ª jornada da I Liga.

 

Rui Patrício

Foi há menos de uma semana que Rui Patrício sofreu o último golo no qual não teve quaisquer culpas: um golo marcado por um futebolista cujo último golo antes desse tinha ocorrido num amigável contra a selecção de Malta, um futebolista que representa um clube da 2.ª divisão norueguesa, um futebolista que provavelmente acumula as funções de futebolista com as de decorador de interiores ou notário em part-time. Tudo o que aconteceu hoje em Santa Maria da Feira - o ter estado bem, interventivo, atento, ter safado um golo feito com uma tradicional saída em mancha, e ter sofrido dois golos nos quais nada podia fazer - representa portante um considerável upgrade na semana de Rui Patrício, em termos de dignidade profissional.

 

Piccini

Começou bem, fazendo o primeiro cruzamento logo aos dois minutos, e ganhando um canto pouco depois. Lá atrás destacou-se uma boa cobertura num lance complicado perto da bandeirola de canto, do qual conseguiu sair a jogar. Num lance posterior, viria a sentar-se no chão, agarrado ao pé esquerdo que normalmente utiliza para fazer atrasos comprometedores, e com um esgar de dor no rosto - o tipo de acontecimento que costuma levar Bruno César a despir imediatamente o fato-de-treino (ainda ameaçou, mas não foi o caso). Que recupere depressa, até porque, como ficou mais uma vez demonstrado hoje, está longe de ser o principal problema nas laterais da equipa.

 

Coates

Partilhou alguma da desinspiração geral, no sentido em que alguns dos cortes que a sua eficácia costuma transformar em passes hoje limitaram-se quase sempre a ser apenas cortes (e às vezes nem isso). Mas a sua velocidade de reacção no lance do 0-1 merece todo o mérito do mundo: a urgência com que foi à segunda bola e a violência com que a rematou foram um testemunho à noção imediata do perigo que representava a possibilidade de Alan Ruiz lá chegar primeiro e tentar ele tratar do assunto.

 

Mathieu

Alguns vão tentar focar-se na destrambelhada perda de bola ao minuto 42, que quase dava golo do Feirense, mas é cada vez mais claro que o defeso do Barcelona assinou a certidão de óbito num dos períodos mais fascinantes de hegemonia no futebol moderno - e tudo começou com Mathieu, ou mais precisamente com a decisão tomada pela direcção de Bartomeu em permitir a sua saída (juntamente com a de um avançado brasileiro) por uma verba agregada de 222 milhões de euros. A moral dos adeptos ainda não foi restaurada, e o mês de Agosto foi uma epopeia de negociações falhadas e negas peremptórias por parte de jogadores compreensivelmente relutantes em integrar um plantel desprovido de Mathieu (e de um avançado brasileiro). Quem ficou a ganhar foi o Sporting (e o clube para onde foi o avançado brasileiro).

 

Jonathan Silva

Muita agressividade e pouca lucidez a defender, muita agressividade e pouca lucidez a atacar, muita agressividade e pouca lucidez na maneira como eu começo a olhar para ele. Fica-se com a sensação que não tem um único problema que não se resolvesse com um transplante de cérebro. Os mais cépticos dirão que a ciência médica ainda não chegou a esse ponto, mas podia experimentar-se na mesma, a ver o que dá.

 

William Carvalho

Extraordinariamente desmoralizado com a transferência falhada para um clube que joga a meros sete quilómetros de distância da Sala de Leitura do Museu Britânico, arrastou-se hoje desmoralizadamente pelo relvado do Marcolino de Castro (a meros sete quilómetros de distância do Zoo de Lourosa), dominando desmoralizadamente o meio-campo, recuperando desmoralizadamente várias bolas, iniciando desmoralizadamente várias jogadas com passes desmoralizados, e ocupando a cabeça nos momentos mortos do jogo a reflectir desmoralizadamente na maneira como qualquer manifold tridimensional fechado e simplesmente conexo é homeomórfico a uma esfera tridimensional num plano euclidiano.

 

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Gelson Martins

A perpétua confiança para arriscar no drible (que lhe é conferida pela certeza de que, na esmagadora maioria das vezes, consegue ir a correr recuperar a bola mesmo que o drible falhe, como aconteceu hoje em três ou quatro ocasiões) não teve correspondência prática. Foi um jogo de persistência e labor defensivo, mas poucos desequilíbrios, o tipo de jogo, em suma, que não costuma ocupar os sonhos húmidos de monarcas persas ou oligarcas eslavos, levando-os a reproduzir, mesmo enquanto dormem, os gestos associados ao preenchimento de um cheque. (O que, na verdade, era uma excelente ideia na semana passada, e voltará a ser uma excelente ideia em Janeiro). O certo é que voltou a aparecer no momento certo, com um passe bem medido para o golo de Bruno Fernandes.

 

Battaglia

Terá feito falta no meio-campo, mas conseguiu que não faltasse nada na lateral direita. A mudança de posição depois da saída de Piccini acabou por prejudicar o resto da equipa mais do que prejudicou Battaglia. Com ele exilado para a linha, perdeu-se o panopticon portátil que ali anda no meio-campo a distribuir vigilância, e o número de adversários que conseguiu disciplinar e punir foi reduzido em 30% ou 40%. O habitual superavit de energia foi útil nos últimos minutos, onde foi aplicar os seus hábitos de trinco para recuperar bolas lá na frente.

 

Acuña

As bolas que continua a perder quase sempre que arrisca o 1x1 hoje notaram-se menos, perante a desinspiração que assolou os outros talentos ofensivos da equipa. O que se notou - e não pela primeira vez - é que Acuña é um jogador útil mesmo quando está desinspirado, pela simples virtude de não deixar ninguém respirar. Ao minuto 13, pressionou o lateral-direito do Feirense durante tanto tempo que em certas culturas primitivas seriam obrigados a casar. E aqui e ali vai sempre surgindo um cruzamento perfeito (para B. Fernandes logo a abrir a 2.ª parte) ou um remate perigoso, como o que fez ao minuto 76, num grande momento para os apreciadores de ilusões de óptica.

 

 

Bruno Fernandes

No dia em que completou 23 anos, a primeira coisa a dizer é que fez exibições muito mais impressionantes nesse período longínquo em que tinha apenas 22 anos. Nada lhe correu bem na primeira parte, onde não conseguiu fazer uma única das coisas que tentou. Os seus passes pareciam repletos de boas ideias e excelente informação, como mensagens pacientemente encriptadas. Mas as únicas pessoas que os compreenderam foram os adversários, que agradeceram cada remessa. Felizmente a classe veio ao de cima no lance do 0-2, o golo que serviria para matar o jogo, caso este fosse um clube normal e não uma experiência cardíaca.

 

Bas Dost

Depois de um começo de época pouco preciso, parece estar a recuperar a forma exibida no último terço da época passada nas combinações com os colegas e no jogo de costas para a baliza: na retina fica um passe de primeira para Bruno Fernandes a rasgar o campo de um lado ao outro. De realçar a calma no momento decisivo: não só no penalty, mas também nos festejos, ao decidir não abraçar a pessoa que invadiu o campo claramente com o propósito de ser abraçada. Era abrir um precedente perigoso.

 

Alan Ruiz

Entrou aos 23 minutos e só pisou o primeiro tornozelo adversário aos 26, mostrando mais uma vez a sua habitual lentidão. Teve um grande momento no jogo, perto do intervalo, em que se viu com a bola perto da quina da área sem linhas de passe, e portanto inventou uma do nada, isolando Acuña na linha. O lance é típico, na medida em que revela a capacidade de Alan Ruiz para ver coisas que mais ninguém vê. O resto da exibição também foi típico, na medida em que revela a capacidade das pessoas que contrataram Alan Ruiz e apostam repetidamente em Alan Ruiz para ver coisas que mais ninguém vê.

 

Iuri Medeiros

Dois bons momentos de sacrifício defensivo, e um excelente momento ofensivo já nos descontos, sacando um livre perigoso com uma recepção orientada perfeita (um livre que, de resto, podia perfeitamente ter sido ele a marcar).

 

Doumbia

Enquanto entrar em campo apenas em situações nas quais o cronista está mais preocupado em não sofrer um enfarte do que em estar atento ao que os jogadores fazem, sairá sempre prejudicado neste tipo de textos.

 

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publicado às 03:49

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