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Os primeiros jogos oficiais do Sporting saldaram-se por duas vitórias e um empate e mostraram uma equipa sólida defensivamente mas com grandes problemas em criar oportunidades de golo – e em concretizar as poucas que tem criado. Seguramente que Jorge Jesus já identificou o que tem de mudar. Ou seja, Seydou Doumbia e Bruno Fernandes, nesta altura da época, têm de estar no onze inicial. De outra forma, arriscamo-nos a ter dissabores, porque os jogos não se ganham só com boas defesas – exigem também que se marquem alguns golos. Até agora sofremos zero golos e marcámos três, à média de um por jogo. Um campeão só o é com uma defesa de betão e a marcar, por jogo, uma média de 2,5 a 3 golos.

 

Contra o Desportivo das Aves fora fizemos um jogo enfadonho, mas seguro. O Aves não teve nenhuma oportunidade, quase não passou do seu meio-campo e quando o 0-1 se ameaçava arrastar até ao final, deixando sempre a dúvida se num lance fortuito não poderia surgir o empate, um mau alívio da defesa avense colocou a bola em Gelson Martins que não perdoou. Uma vitória justíssima, sem discussão, mas sem brilho.

 

Seguiu-se o jogo com o Setúbal e mais uma vez se constatou a solidez defensiva da equipa. O Setúbal não criou nenhuma oportunidade e passou sempre a ideia que a sua única ambição era sair de Alvalade com um ponto. Bruno Paixão, que já tinha perdoado um empate aos sadinos por uma falta na sua área sobre Coates, teve a coragem de assinalar um penálti indiscutível aos 87 minutos, que Bas Dost converteu. Ganhámos justamente por 1-0 mas ficou claramente a ideia de que estamos a ter enormes dificuldades em criar oportunidades de golo e, mais ainda em concretizá-las.

 

O jogo com o Steaua de Bucareste era um teste de maior exigência, mas mesmo assim desta vez, pensávamos nós, os deuses do futebol estavam connosco, tendo afastado da nossa frente, por uma incrível conjugação astral, as equipas mais fortes no play-off da Champions. Pois o jogo de terça à noite em Alvalade provou que temos um osso muito duro para roer se queremos entrar mesmo na Champions. E sim, como disse Jesus, é bom não ter sofrido golos. Mas é péssimo não os termos marcado. Sim, lá podemos marcar um. Mas se eles marcam dois, a jogar perante o seu público, que lhes dará um apoio fanático?

 

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O que este último jogo confirmou foi que:

 

1) Piccini não é defesa direito para o Sporting. Esperemos que o Stefan Ristovski seja bem melhor. Mas já agora, não haverá na equipa B ninguém melhorzinho para o lugar do que o Piccini?! É que o Piccini, valha-nos Deus!;

 

2) o centro da defesa parece estar a tornar-se de betão e Mathieu é um grande, um enorme reforço. Corta, desarma, não inventa, vai à frente, puxa pela equipa e tenta mesmo o remate. Dou a mão à palmatória de novo: Mathieu é um excelente reforço;

 

3) do lado esquerdo, não se percebeu a aposta em Coentrão para o jogo com o Steaua. Se não estava em condições nem tinha sido convocado como é que aparece a jogar? E o certo é que mostrou que não estava em condições: não houve piques, centros de jeito, remates e foi pelo seu lado que os romenos podiam ter chegado ao golo numa bola que saiu juntinho ao poste direito de Patrício. Neste momento, Jonathan Silva está melhor que Coentrão e dá mais garantias;

 

4) no meio-campo, enquanto não sabemos se William fica ou não, sabemos seguramente que Adrien não está em forma ou então está com a cabeça noutro lugar. Longe da exuberância e da assertividade que já mostrou em épocas anteriores, Adrien está, neste momento, claramente abaixo da forma de Bruno Fernandes, que tenta mais e melhor o golo e que faz passes bem mais perigosos.

 

5) Finalmente, no ataque, eu gosto muito de Podence, mas até agora a sua eficácia em matéria de golos foi nula. Com Doumbia em campo, a defesa da equipa adversária está sempre mais em causa.

 

Por tudo isto, e por o Sporting estar num ciclo de jogos importantes (e o da Champions é decisivo) espero eu e todos os sportinguistas que Jesus não invente contra o Guimarães nem contra o Steaua em Bucareste. A equipa inicial tem de ser esta: Patrício; Piccini (que remédio…), Coates, Mathieu e Jonathan; Battaglia, Bruno Fernandes, Acuña e Gelson; Doumbia e Bas Dost. É o melhor onze que temos neste momento, o mais perigoso, o que pode causar mais estragos ao adversário, o que marcará golos sem qualquer dúvida. De outra forma, arriscamo-nos a começar a perder pontos em Guimarães e a dizer adeus à Champions mais uma vez. Bom, e se o William não for vendido, claro que entra de caras para o lugar de Battaglia e a música passa logo a ser outra.

 

Vamos repetir todos juntos para Jorge Jesus ouvir: sem Bruno Fernandes nem Doumbia não vamos lá!

 

 

Nicolau Santos, jornal Expresso

 

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publicado às 12:30

 

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A segunda edição da época oficial de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo da 2.ª jornada da I Liga com o Vitória de Setúbal. Começa por nos deixar esta apreciação generalizada sobre uma das características desta equipa do Sporting: "Cruzamentos sempre razoáveis e sempre inofensivos - uma especialidade que deve ser treinada arduamente em Alcochete".

 

O leitor deve notar que apesar do semblante humorístico da sua coluna, Rogério Casanova deixa-nos um certo número de verdades para ponderar. Também inconfudível é o facto de Cristiano Piccini ser o seu alvo favorito.

 

Rui Patrício

Um daqueles jogos - a que está condenado 4 ou 5 vezes por época - em que podia perfeitamente ter entrado em campo com um casaquinho e um tablet. Agora já nem sequer se pode entreter com atrasos desesperados de Zeegelaar feitos invariavelmente para o seu pior pé. Certamente por tédio, ainda ensaiou uma saída algo maluca dos postes ao minuto 38, que acabou por compensar com uma mancha aérea em forma de suástica, e respectivo corte para canto com a panturrilha esquerda.

 

Piccini

Mas, afinal, o que é que vocês querem? Incursão confiante com a bola no pé ao minuto 5, derivando para o meio e libertando Gelson na ala no momento exacto. Outra boa jogada no minuto seguinte, ganhando lançamento. Idem idem aspas aspas aos 14, a conseguir ganhar canto quanto estava em inferioridade numérica. Aos 17, com a bola imobilizada, encarou de frente o adversário directo, sentou-o e cruzou. É certo que a coisa não melhorou a partir daí. É certo que provavelmente piorou. E algures a meio da primeira parte, transformou-se numa espécie de periscópio com pernas, emergindo de tempos a tempos para procurar Gelson e entregar-lhe a bola o mais depressa possível, e à menor distância possível. Mas um lateral de equipa grande, nos jogos em casa, tem qualquer coisa como uma ordem de prioridades: ou desequilibra com bola; ou ajuda a desequilibrar sem bola; ou pelo menos tenta não atrapalhar.

 

O homem não sabe cruzar, é um facto. Mas já há demasiada gente a cruzar neste clube, e mal. Não é necessariamente um drama termos um lateral que não saiba cruzar. O drama é ele perder o medo de cruzar mal. Aquele medo de cruzar que mostrou na pré-época? É isso! Isso é que tem de ser recuperado. Medo, muito medo, que é para continuar fazer só as poucas coisas que sabe fazer bem. O resto há-de vir com calma, nem que seja de outro cidadão, aparentemente macedónio.

 

Coates

Encarregou-se tranquilamente de algumas funções distributivas, mas perante uma das equipas mais inofensivas que passou por Alvalade nos últimos anos, o seu principal papel foi geoestratégico: encarnar numa forma visível, e de carne e osso, as reservas estratégicas de testosterona do clube, não fosse alguém ter ideias de fazer alguma jogada de ataque perto de si. Ninguém teve, por acaso.

 

Mathieu

Membro mais proeminente da vaga de neo-turismo a assolar Lisboa, passeou-se tranquilamente pelo jogo com a placidez de quem passou três anos seguidos a aturar Messi e Iniesta a fazer-lhe fintas nos treinos e veio agora tirar fotografias pitorescas com pelourinhos e sardinhas, Edinhos e Costinhas. Sempre atento a dobrar Jonathan e a varrer sobras, impávido com a bola no pé, fazendo passes milimétricos mesmo pressionado, e mostrando na última meia-hora a energia e lucidez que já faltavam a alguns colegas para fazer coisas inteligentes e passíveis de criar perigo na baliza certa. Foi provavelmente o melhor em campo.

 

Jonathan Silva 

Foi o primeiro a iniciar uma jogada depois da saída de bola do apito inicial (mandou um criativo chutão lá para a molhada). Foi também o primeiro jogador do Sporting a ser ultrapassado em velocidade por um jogador do Setúbal (minuto 58, aflição entretanto resolvida por Matthieu).

 

Jonathan é raçudo. Não é lento. Não é tosco. Mas quem achar que hoje, por exemplo, fez um jogo melhor do que Piccini, ou que é, nesta altura, um lateral claramente superior a Piccini, deve rever o jogo inteiro outra vez: não para observar erros clamorosos, que não os teve, mas para observar a gritante falta de jeito que tem a escolher os espaços certos para ocupar quando a equipa ataca, quer tenha ou não a bola no pé.

 

Battaglia 

Vê-lo jogar no lugar de William é um pouco como ver as montagens de treino paralelas num dos filmes da saga Rocky: um gajo a esmurrar lombos de porco num matadouro em Filadélfia e a engolir gemadas de penálti, enquanto outro anda a fazer jogging em cima de casacos de peles, com um daiquiri na mão.

 

A maioria dos adeptos de futebol tem, creio, um afecto instintivo pela prática dos cortes em carrinho, desde que sinta que não são um acto de desespero, mas sim uma maneira de ser. Battaglia tem portanto, e logo à partida, características ideais para cair no goto das pessoas de bem. Voltou a fazer um belo jogo, mas vê-lo a pegar na bola à frente dos centrais para iniciar circulações lentas, como fez na primeira parte, mais do que um erro de casting, parece um desperdício de recursos. Alargou o raio de acção depois do intervalo e começou a causar chatices sempre que cavalgava pela faixa esquerda ou aparecia em corrida perto da área. É cada vez mais improvável que não tenha sido uma óptima contratação.

 

Adrien Silva

Mais uns treinos em cima, mais uns minutos de correria desenfreada, e começam a vir à tona, lentamente, as coisas em que é exímio: não a "pensar" nem a "organizar", mas a reagir mais depressa do que todos os outros aos momentos em que a organização claudica e é preciso responder a emergências locais - o calcanhar instintivo na área a desviar um cruzamento atrasado de Gelson para a zona exacta onde estavam os dois colegas em condições de fazer alguma coisa útil; ou o outro calcanhar à saída da área do Vitória, impedindo o que podia ter sido um contra-ataque perigoso.

 

Definiu mal um ou outro lance de ataque, mas lá foi a correr resolver o problema. E quase marcou um golinho logo a abrir a segunda parte, mas o remate bateu no ferro. Devem faltar mais dois ou três jogos inteiros para voltar a algo parecido com a sua melhor forma, seja aqui, seja no Reino Unido.

 

Gelson Martins

Tentou um golo à Mancini aos 8 minutos, respondendo a um cruzamento de Acuña rematando em voo com o quinto metatarso. Foi por cima, e não voltou a aparecer em zonas de finalização para repetir as gracinhas do fim-de-semana passado. Passou grande parte do jogo longe da área e em inferioridade numérica - sozinho contra dois, contra três, ou por vezes contra quatro, se contabilizarmos entre os seus adversários um ou outro colega que aparecia na sua zona apenas como mais um obstáculo a ultrapassar. No passado, jogar sozinho contra o mundo nem sempre foi impeditivo de grandes exibições. Não foi o caso hoje.

 

Acuña

Hão-de sair imensas alegrias daquele pé esquerdo; hoje, num jogo algo apagado, o que se viram, quando muito, foram presságios. Mas insistiu demasiado no cruzamento (e a qualidade dos mesmos foi-se deteriorando com o correr do jogo); e procurou muito menos as zonas interiores do que tinha feito na 1ª jornada, e até na estreia contra o Mónaco. Deve haver qualquer coisa tremendamente apelativa nas faixas laterais deste estádio, tal é a devoção que inspira nas pessoas.

 

Podence

Couberam-lhe os dois primeiros desequilíbrios do jogo, ultrapassando duas vezes Pedro Pinto no espaço de sessenta segundos. Os cruzamentos (quase sempre a procurar Dost ao segundo poste) saíram-lhe sempre razoáveis e sempre inofensivos - uma especialidade que deve ser treinada arduamente em Alcochete. Remexeu, deambulou, acelerou, agitou - mas o último passe teimava em sair mal. Ainda não é um jogador acabado, mas a acumulação de exemplos sugere que não é exactamente feito para criar ocasiões de golo, mas sim para criar o caos onde outros as possam criar. Um jogador de repentes beneficiará mais de lucidez à sua volta (Bruno Fernandes, por exemplo) do que de jogadores igualmente instintivos ou repentistas (como Adrien e Gelson). Além de que, no somatório actual das suas qualidades e defeitos, começa cada vez mais a parecer formatado para médio-ala e não para avançado.

 

Bas Dost

Teve um gravíssimo momento de inépcia ao minuto 43, daqueles que merecia ser imortalizado em .gif: sozinho na área, isolado perante uns escassos cinco jogadores do Setúbal, não conseguiu levar a melhor e acabou por perder a bola. Como é possível? Talvez pior ainda foi a figura patética que fez em dois lances semelhantes, um em cada parte, quando não teve arte para ultrapassar sozinho os duzentos e noventa e cinco defesas vitorianos que guardavam o desfiladeiro das Termópilas, e preferiu servir colegas com toques de calcanhar. Acabou por marcou o golo da vitória a três minutos dos 90, arrancando o seguinte comentário a um senhor na mesa ao lado do café: "este é como o Jardel, também só marca de penálti". O senhor era adepto do Sporting e estava a falar a sério.

 

Bruno César

Um sistema de freios e contrapesos autodireccionado, cujo único propósito é corrigir as suas próprias debilidades.

 

Doumbia

Bem vindo ao Sporting, o clube onde a bola só entra depois de aprenderes quatro palavrões novos.

 

Bruno Fernandes

Não foi titular, e foi o último suplente a entrar: são estes os factos relevantes; tudo o resto - o que fez enquanto esteve em campo, foi a coisa menos surpreendente do mundo.

 

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publicado às 04:31

 

Caro Nuno Saraiva,

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Depois da nossa recente troca de pontos de vista, escrevo-te para reconhecer que tens toda a razão. Ainda agora começou o campeonato mas já se vê que temos equipa para sermos campeões. Melhor, vamos ser campeões, ponto final. Todos juntos conseguiremos esse objectivo.

 

E o fundamental para alcançar o troféu é termos um treinador como Jorge Jesus, com provas dadas há muitos e muitos anos, sobretudo em matéria de invenções. Ricardo Soares, treinador do Aves, que na época passada enquanto treinador do Chaves nos eliminou para a Taça de Portugal e nos voltou a roubar pontos no último suspiro do jogo em casa deles para o campeonato, pensava que eram favas contadas e que nos ia depenar de novo. Deve ter visto todos os jogos da pré-época do Sporting e idealizou a táctica com base nessas observações.

 

Mas Jorge Jesus, escaldado como estava da época passada, disse para os seus botões: “Espera aí que já te tramo”. E zás, colocou a jogar uma equipa que nunca tinha jogado na pré-época. Ou melhor, parte da equipa. Podence, que era dado como titularíssimo, para jogar nas costas de Bas Dost, ficou no banco. Bruno Fernandes, que era dado como titularíssimo mas com Adrien no banco, jogou com Adrien, mas numa posição que nunca Jesus tinha testado na pré-época. E assim foi como se o Sporting desta vez não começasse só com dez: desta vez foi mesmo com nove, porque Bas Dost e Bruno Fernandes pareciam peixes fora de água.

 

Mas tudo isto foi mais uma jogada genial de Jesus: ai pensam que é o Bas Dost que marca? Pois então tomem lá o Gelson. E para provar que esta táctica foi genial, tomem lá o Gelson em dose dupla: não um, mas dois golos. Pelo meio, fizemos aquele jogo assim para o entediante para ver se os rapazes do Aves se distraíam. E não é que se distraíram mesmo? Duas vezes. Foi o que bastou.

 

Portanto, temos que o nosso Houdini das tácticas deu um banho ao Ricardo Soares. E o certo, certo é que já vamos na frente do campeonato, depois de termos passado esta perigosíssima deslocação contra o poderoso Desportivo das Aves. Agora estou muito expectante para o próximo jogo que penso que é contra o Setúbal. Suspeito que vai jogar o Bruno César a defesa direito (ele é sempre muito feliz com o Setúbal), o Doumbia ao meio e o Iuri Medeiros, se ainda não foi despachado, à esquerda. O José Couceiro que se cuide. Quando der por ela já está a perder por dois.

 

Finalmente, um grande bem haja para a nossa defesa que não sofreu golos. O Piccini é um portento de segurança na direita. E que belas jogadas de ataque que fez! Vai lá, o homem, vai lá! No meio, a coisa estava tão sensaborona, que o Coates deixou fugir um jogador do Aves, que felizmente rematou contra o Patrício. Mas foi só para o animar. O Coates quando quer mete o turbo e parece o Usain Bolt. E o Mathieu, senhores, o Mathieu? Aquilo é que é técnica, velocidade, rapidez de raciocínio, rins flexíveis! Vai dar-nos muitas alegrias! E até marca livres! Que bem que os marca!

 

É verdade que o Jesus só o deixou marcar um, mas é para surpreender os adversários, de certeza. Quando quis marcar outro, Jesus disse que era o Adrien e quase dava golo. O Coentrão é que me tem calado. A sério. Está de regresso o velho Coentrão e já fez coisas bem interessantes.

 

Ah, desta vez não foi preciso vídeo-árbitro. Ganhámos mesmo sem o VAR. Foi só preciso inventar uma táctica nova. Ou uma equipa que nunca tinha jogado assim. Ou colocar o Bas Dost e o Bruno Fernandes sem bola que é para eles saberem que a vida não é fácil. Grande Jesus!

 

Está feito, grande Nuno! Manda reservar o Marquês! Estamos a caminho!

 

Nicolau Santos, jornal Expresso

 

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publicado às 04:30

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, está de volta para o primeiro jogo oficial da época com a sua usual e muito popular análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, no seu triunfo diante o Desportivo das Aves:

 

Rui Patrício

O primeiro toque na bola surgiu aos 10 minutos. A primeira defesa acrobática a safar erro de um colega aos 24. O primeiro golo sofrido sem quaisquer culpas terá de ficar para a próxima oportunidade. 

 

Piccini

Passou os primeiros 15/20 minutos do jogo muito resguardado: pela única faixa de sombra do relvado; pelo facto de ocupar o lado mais distante das câmaras; pelo software japonês de qualidade dúbia utilizado ainda em alguns lares portugueses; pelo flagelo dos anúncios pop-up; pela diminuta constelação de pixels que filtrava a sua presença através de um par de óculos de mergulho besuntados com margarina. Quando conseguiu emergir deste nevoeiro tecnológico, os resultados foram desiguais: cada recuperação crucial ou contenção inteligente era equilibrada com uma cueca sofrida ou uma perda de bola comprometedora. Melhorou na segunda parte (como Matthieu, aliás), soube dar algum apoio rudimentar ao ataque e ainda ia marcando o 0-3, depois de uma finta de corpo dentro da área contrária, num movimento físico que, se algum dia fosse observado no corpo de Schelotto, levaria as pessoas a chamar imediatamente um exorcista.

 

Coates

Com bola: ensaiou duas incursões ofensivas pela faixa direita, uma em cada parte, a segunda das quais só travada em falta já perto da área contrária, depois de deixar dois adversários para trás. Sem bola: emboscou a linha avançada do Aves com um lenço embebido em clorofórmio, enfiou-os todos na bagageira do carro, e levou-os até Monsanto.

 

Mathieu

Marcou dois golos de livre directo na carreira, um pelo Toulouse, em 2007, e outro pelo Barcelona, em 2015. É portanto, pelos padrões de Adrien Silva, um especialista. Hoje tentou mais um, ao minuto 9, mostrando estar já plenamente adaptado ao espírito do clube que um dia, há não muito tempo, encorajou Anderson Polga a tratar das bolas paradas. A defender, optou quase sempre pela solução mais segura. Ao minuto 29, por exemplo, apanhou Agra de frente, já na área, numa jogada em que Semedo tentaria desarmá-lo com um toque de calcanhar, seguido de túnel, seguido de pirueta à Zidane ainda dentro da área, e posterior saída em galope na direcção do meio-campo - com elevadas probabilidades de acontecer golo, fosse numa baliza ou na outra. Matthieu cedeu canto, sacudiu as mãos, e foi trabalhar.

 

Fábio Coentrão

Enternecedora a rapidez com que os colegas perceberam que lhe podem passar a bola de qualquer maneira, em qualquer zona do campo, sejam quais forem as circunstâncias. Coentrão não se vai atrapalhar, não vai perder a bola, não vai precisar de fazer falta, não vai obrigar ninguém a acender um cigarro, por muita vontade que ele próprio sinta de o fazer. A pujança física também vai melhorando, e o número de sprints por jogo tem subido, desde a pré-época, em progressão aritmética. (Pelos meus cálculos, lá para a décima jornada, vai fazer oitocentos por jogo.)

 

Hoje esteve bem em tudo, menos a cruzar. Ou seja: é finalmente o lateral certo no clube certo.

 

William Carvalho

Para explicar o intervalo criativo entre uma indicação cénica e o trabalho do encenador, Tom Stoppard gostava de falar, em entrevistas, numa encenação de A Tempestade feita em Oxford, nos anos 70. O palco era o extenso relvado da Universidade, com um lago ao fundo. Depois da sua última deixa, Ariel virava-se e corria através do relvado, até chegar à beira do lago — e depois continuava a correr, pois a produção instalara uma espécie de passadeira sólida, um centímetro abaixo da superfície da água. O público via Ariel a correr devagarinho pelo lago fora, e a ouvir o som líquido das suas passadas, até desaparecer de vista, e uma explosão de fogo-de-artifício assinalar o seu desaparecimento num chuveiro de faíscas contra o pôr-do-sol. No texto de Shakespeare, a única indicação que se lê é "Ariel sai de cena".

 

No jogo de hoje, de acordo com as instruções tácticas que recebeu, William Carvalho jogou no meio-campo.

 

Gelson Martins

Estreou-se esta época na arte do cruzamento com um banano para trás da baliza. Alguns minutos mais tarde, ultrapassou Nélson Lenho num par de patins invisíveis e voltou a cruzar mal, embora desta vez rasteiro e atrasado. À terceira ocasião de perigo, deixou-se de subterfúgios e aceitou o fardo de fazer (quase) tudo sozinho. Viria a marcar também o golo do descanso, antes que houvesse chatices. Tal como no início da época passada, voltou a mostrar a capacidade de ser decisivo, mesmo nos dias em que não é consistentemente desequilibrante.

 

Adrien Silva

Teve um livre directo ao seu jeito ao minuto 38, daqueles em que não costuma perdoar e acerta normalmente com a bola em cheio na barreira. Desta vez o remate não lhe saiu bem e a bola acabou por sair na direcção do guarda-redes, algo que acontece aos melhores, aos piores, e aos assim-assim. Como a época passada demonstrou, é talvez o jogador do plantel que mais precisa de estar no pico da condição física para ser o jogador que é; e para lá chegar tem de ir jogando, mesmo que jogue como hoje, mesmo que... enfim, sabem aquela piada de John Lennon sobre a hipótese de Ringo Starr ser o melhor baterista do mundo? Adrien, nesta altura, nem sequer é o melhor baterista dos Beatles. Precisa de tempo e da paciência dos adeptos, dois bens escassos até 31 de Agosto.

 

Marcos Acuña

Sofreu a primeira falta do campeonato aos 30 segundos. Será a primeira de muitas. Recuperou a bola aos 7 minutos (depois de falhar um cruzamento). Será a primeira de muitas. Molhou o pincel pela primeira vez ao minuto 21, recebendo a bola na, chamemos-lhe, "zona Alan Ruiz" (quina da área, do lado direito), e conseguindo virar-se, ajeitar a bola e rematar, tudo em menos de meia-hora. É ele quem lança Gelson para o golo inaugural. E nunca foi menos do que inteligente a posicionar-se no momento defensivo (já no jogo de apresentação se tinha percebido que tem jeitinho para cortar linhas de passe e impedir variações de flanco). Pelas primeiras impressões, sugere que aconteceu ao Sporting uma coisa sem precedentes: gastou-se um camião de euros num canhoto sul-americano - e ficou-se com um bom jogador.

 

Bruno Fernandes

Depois de uma pré-época promissora e entusiasmante, em que ocupou com qualidade um dos dois lugares do meio-campo, era historicamente necessário pô-lo hoje a jogar numa posição nova, fenómeno que no fundo é um produto das condições materiais do nosso tempo. A sua velocidade de pensamento e de execução ainda se notaram, a espaços: no repentismo com que rematou cruzado para grande defesa de Adriano, ou na composição artística de calcanhares com naturezas mortas com que prefaciou a jogada do 0-1. Foi ideologicamente saneado ao fim de uma hora.

 

Bas Dost

O que foi verdadeiramente impressionante na sua época de estreia em Portugal não foram os números que acumulou, mas ver esses números aliados a uma presença tão espectral que por vezes quase pareceu uma ausência. Em vez de assistirmos a duelos entre defesas-centrais e Bas Dost, assistimos a duelos entre defesas-centrais e um vazio nos arredores da bola que, por acaso, ia sendo empurrada para dentro da baliza. Trinta e cinco vezes seguidas. Outros pontas-de-lança fazem remates estrondosos à barra, gritam palavrões nas repetições em câmara lenta, têm cortes de cabelo interessantes. Bas Dost marca golos e cumprimenta os amigos. Hoje, à falta de oportunidades claras (tirando uma ocasião já perto do fim), dedicou-se a servir quase toda a gente à sua volta, na procura desesperada de uma assistência e, possivelmente, de um abraço.

 

Podence

Após alguns ensaios inconclusivos ou interrompidos, lá conduziu um contra-ataque perfeito, largando a bola no momento certo e com um passe bem medido, algo que (suspeita-se) fará mais vezes em proporção directa aos minutos que jogar.

 

Battaglia

Veio fornecer ao meio-campo a capacidade que começava a faltar: mexer-se depressa de um lado para o outro. E mostrou o truque que começa a dominar como poucos: intercepção, progressão rápida com a bola, desaceleração súbita, e novo arranque em velocidade, obrigando o adversário a cometer falta. É um truque limitado, mas útil, e o certo é que até agora nunca falhou. Continua a parecer o melhor suplente possível que a equipa podia ter tido nas duas épocas anteriores.

 

Jonathan Silva

Nota-se que está um jogador mais maduro e contido: não cometeu qualquer falta nem viu um único cartão amarelo nos 17 segundos que esteve em campo.

 

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publicado às 04:44

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 30.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, comenta as performances individuais dos jogadores do Sporting no jogo com a Fiorentina, na disputa do Troféu Cinco Violinos, com o seu usual humor:

 

Rui Patrício

 

Na maior ocasião de perigo criada pela Fiorentina, saiu bem a fazer a mancha aos pés do filho de Hagi, vendo depois sair por cima da barra um remate feito pelo filho de Chiesa, num jogo tão descansadinho que o seu lugar até podia ter sido ocupado pelo filho do pai do Azbe Jug.

 

Piccini

 

A sua primeira intervenção depois do intervalo foi uma homenagem tão sentida ao antecessor que quase parecia copy-paste: falhou a receção de uma bola alta, perdeu-a para o adversário, conseguiu recuperar na raça, iniciou um galope de vários metros que desequilibrou toda a gente e no momento decisivo falhou a abertura para Gelson, antes de desatar a correr para vir recuperar a posição. Schelotto fez umas oitenta jogadas semelhantes; Piccini, arrisco, fará umas vinte. A principal diferença entre ambos não é sequer o lance em que circum-navegou a Fiorentina inteira antes de servir Podence na pequena área; Schelotto também fez umas quantas avarias parecidas. A diferença é um incremento moderado, mas real de solidez defensiva e de capacidade global, mas, acima de tudo, uma noção bastante mais saudável das suas qualidades e defeitos. Piccini, tal como Schelotto e Zeegelaar, não é, nem nunca, será um grande lateral. Mas ao contrário deles, sabe o que é e o que não é, e sabe proteger-se. O que acaba por me proteger a mim também, especialmente ao nível psiquiátrico.

 

Tobias Figueiredo

 

Um defesa-central dos anos 80 com uma fidelidade intempestiva a exigências de cariz quase arqueológico, trasladado para esta cruel modernidade que já não aprecia nem tolera os tempos que a linha de fora-de-jogo podia ser medida por bigodes e patilhas, em que a lama era mais confortável do que a relva, em que uma bola podia e devia ser chutada com a maior força possível, de preferência para fora do estádio, e onde mariquices como a construção de jogo eram melhor deixadas a colegas com técnica mais apurada, como William, ou Patrício, ou o massagista. Teve o seu melhor e mais característico lance ao minuto 83, quando conseguiu dar uma joelhada no pâncreas de um adversário sem nunca tirar os olhos da bola, uma proeza de coordenação motora que deixaria qualquer defesa do Millwall orgulhoso.

 

William

 

Formou uma excelente dupla de centrais consigo próprio, passando o jogo inteiro a explicar calmamente aos avançados da Fiorentina que "estes não são os dróides que vocês procuram", e a fazer a sua própria fotossíntese, nutrindo-se directamente da luz do sol sem precisar de comida, ou de colegas.

 

Fábio Coentrão

 

I dress a wound in the side, deep, deep,

But a day or two more, for see the frame all wasted and sinking,

And the yellow-blue countenance see.

I dress the perforated shoulder, the foot with the bullet-wound,

Cleanse the one with a gnawing and putrid gangrene, so sickening, so offensive,

While the attendant stands behind aside me holding the tray and pail.

I am faithful, I do not give out,

The fractur’d thigh, the knee, the wound in the abdomen,

These and more I dress with impassive hand, (yet deep in my breast a fire, a burning flame.)

- Walt Whitman, "The Wound Dresser"

 

Battaglia

 

O estilo de jogo de alguns trincos com as suas características físicas e limitações técnicas costuma ser justamente comparado ao de um cachorrinho a perseguir automóveis. Battaglia hoje pareceu um automóvel a perseguir cachorrinhos. Escangalhou uma dúzia de jogadas da Fiorentina na primeira parte, com uma impressionante colecção de desarmes, jogadas de antecipação, impondo o físico, enchendo o seu terço do campo, e saindo várias vezes a rinaudar, com transportes verticais que mudavam rapidamente o centro de operações. Não tem recursos para variações rápidas de flanco ou para verticalizar o jogo com passes longos; mas tem inteligência para substituir essas opções por outras igualmente eficazes. E, não sendo um fora-de-série, representa talvez o tipo de jogador que mais falta fez no plantel nos últimos doze meses.

 

Gelson Martins

 

Na vastidão do cosmos, o conceito de "agora" é mais ou menos irrelevante. Devido à ligação inextricável entre tempo distância e velocidade de sinal, é impossível saber o que se está a passar "agora", por exemplo em Alpha Centauri. Sabemos apenas o que se passou há 4 anos e meio, o tempo que a luz demora a fazer a viagem. Acontecia algo parecido com os contra-ataques do Sporting conduzidos por Gelson na época anterior, e que o resto da equipa acompanhava invariavelmente a vários anos-luz de distância, muitas vezes descobrindo o que se tinha passado apenas ao ver as repetições em casa. Esta época, o facto de ter um colega com igual capacidade supersónica abre-lhe novas opções. Apesar de tudo, esteve hoje bem pior no cruzamento e no último passe do que tinha estado contra o Mónaco, E ainda bem, que as bancadas estão repletas de gente estrangeira com montes de dinheiro e más intenções.

 

Bruno Fernandes

 

Um par de bolas perdidas e uma exibição globalmente menos impressionante do que já fez nesta pré-época, mas continua incapaz de provocar o mais leve vestígio de dúvidas a alguém: qualidade de recepção e de passe, rapidez de raciocínio e de execução, e a capacidade para já saber quase sempre o que vai fazer à bola um segundo e meio antes de esta lhe chegar aos pés.

 

Acuña

 

Já deu para perceber que o seu estilo no 1x1 é semelhante ao de Coentrão: dar um toque na bola três metros para a frente e apostar em chegar lá antes dos outros. Quanto melhor for a pujança física, mais vezes vai resultar. Para já, o que salta à vista é a sua invulgar qualidade sem bola: a ajudar o lateral, a cortar linhas de passe, a saber quando ir fazer superioridade numérica no meio. Percebe muito de futebol, o que é logo meia batalha ganha. Se revelar em devido tempo a mesma qualidade a desequilibrar que já mostra a equilibrar, será um enorme reforço.

 

Podence

 

Aos 12 minutos, rompeu sozinho pelo meio e só foi travado em falta por Vitor Hugo, homónimo de um escritor francês também ele com um historial de anões problemáticos. A jogada mais candidata a aparecer no resumo televisivo será a do minuto 27, quando girou sobre Astori e rematou em arco para uma grande defesa. Tão ou mais impressionante foi o que fez 5 minutos antes, quando mostrou aquilo que faz melhor do que ninguém no Sporting actual: recuou, recebeu a bola de costas para o ataque, rodopiou para tirar o marcador directo da jogada, e descobriu uma diagonal de Dost sem sequer olhar, isolando-o na área. É o melhor jogador do clube a fazer este movimento específico desde João Vieira Pinto. Agora falta fazê-lo 30 vezes por ano, se faz favor.

 

Bas Dost

 

Testemunhou na primeira fila mais um caso gravíssimo de assassinato tecnológico do futebol. Um momento penoso para a saúde do desporto-Rei, onde foi tão indisfarçável o desconforto dos adeptos, cruelmente obrigados a festejar o mesmo golo duas vezes, como a preocupação de Dost perante este novo desafio à sua capacidade para distribuir afectos com justiça e celeridade pelas pessoas que o assistem.

 

Jonathan

 

Sofreu mais faltas duras do que as que fez, talvez uma estreia na sua carreira. Perto do fim, conseguiu não ser expulso por agressão depois de um adversário lhe puxar os cabelos, numa das situações menos argentinas em toda a história do futebol.

 

Bruno César

 

Muito bem a sofrer faltas na faixa direita. É nesta altura um dos mais competentes jogadores do plantel a sofrer faltas, tanto na faixa direita, como na esquerda, como no meio.

 

Adrien

 

Logo que entrou teve uma oportunidade de ouro para mostrar a sua recém-adquirida especialidade: a cobrança inofensiva de bolas paradas. Não desiludiu.

 

Alan Ruiz

 

Às dezanove horas e cinquenta e sete minutos do dia vinte e nove de julho do ano dois mil e dezassete da era cristã, Alan Nahuel Ruiz, mais conhecido como El Mago, foi fintado por um guarda-redes.

 

Doumbia

 

Compreende-se-lhe algum desalento com esta insistência em obrigá-lo a fazer jogadas de combinação com Alan Ruiz, especialmente quando a ocasião mais promissora em que se viu envolvido resultou não de uma combinação com o colega, mas de uma combinação com um adversário: o defesa da Fiorentina que o deixou roubar a bola.

 

Matias Fernández

 

Foi muito agradável voltar a vê-lo.

 

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publicado às 06:09

Carta aberta a Nuno Saraiva

Rui Gomes, em 29.07.17

 

Nicolau Santos, director-adjunto do jornal Expresso, responde à missiva de Facebook de Nuno Saraiva, director de comunicação do Sporting:

 

Meu caro Nuno Saraiva,

 

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Conhecemo-nos há alguns anos e chegámos mesmo a trabalhar juntos no Expresso. Sempre mostraste ser um grande profissional e uma excelente pessoa. Hoje vi o que escreveste na tua página oficial do Facebook sobre a crónica que ontem publiquei na Tribuna Expresso. E compreendo-te. Trabalhas para o Sporting, tens de defender o clube. É normal: ninguém que trabalha para uma empresa ou instituição critica publicamente o patrão ou o presidente. E se é paga para as defender, tem de vir a terreiro fazê-lo.

 

O Sporting, contudo, é uma instituição de utilidade pública. Tem milhares de sócios, já teve muitos presidentes e muitos mais treinadores, terá mais presidentes e treinadores. Vivemos num país livre, logo num universo tão alargado de associados haverá sempre quem não concorde com o presidente de plantão ou com as opções do treinador que está de momento aos comandos.

 

Vamos então por partes. Bruno de Carvalho devolveu aos sócios do Sporting o orgulho de pertencerem ao clube e a fé de voltarem a acreditar em novas conquistas em todas as modalidades. Construiu o pavilhão, uma falha inadmissível num clube com a dimensão do Sporting. Renegociou com os bancos, ganhou folga financeira para não asfixiar a possibilidade de serem comprados novos jogadores que, a nível do futebol, nos dêem a possibilidade de ganhar a I Liga. Fez propostas para tornar muito mais transparente o futebol nacional. Relançou modalidades que estavam abandonadas e onde o clube tinha pergaminhos. Deixando de lado as suas afirmações truculentas e atitudes completamente desnecessárias, Bruno de Carvalho tem sido um grande presidente, que resgatou o Sporting daquele declínio irreversível em que parecia ter entrado.

 

Contratou dois grandes treinadores, Leonardo Jardim e Marco Silva, que infelizmente entendeu dispensar. Mal, claro, como se tem visto. Mas quando conseguiu trazer Jorge Jesus para o Sporting, fez algo de extraordinário: encontrou a peça que fez o click para galvanizar os sócios e os jogadores, ao mesmo tempo que traumatizava profundamente os nossos rivais da segunda circular. Foi um dois em um, que só não resultou logo na conquista do campeonato porque nessa altura não havia videoárbitro.

 

Tudo isso, contudo, não me faz esquecer outras coisas. Jesus está há duas épocas no Sporting e a começar a terceira. O que ganhou com os jogadores que herdou (e que tinham ganho uma Taça de Portugal) e com os muitos outros entretanto adquiridos? Uma Supertaça. É pouco, lamentavelmente pouco para a sua apregoada genialidade. E o pior é que os resultados tem vindo a descer.

 

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Na sua primeira época à frente do Sporting, a equipa principal ficou em segundo lugar, marcou 79 golos e sofreu 21. Na época passada, o clube ficou em terceiro, marcou 68 golos (menos 11) e sofreu 36 (mais 15). Ora o guarda-redes foi sempre o mesmo (Rui Patrício), o meio-campo também (William e Adrien). Logo, o problema só pode ter estado na defesa.

 

E Jesus tem um manifesta esquizofrenia com as defesas dos clubes que treina. Já tinha no Benfica, onde os defesas esquerdos se sucederam com tanta regularidade que nem o mais acérrimo dos prosélitos do clube da Luz se consegue lembrar dos respetivos nomes. Inventou num célebre jogo no Dragão, onde colocou David Luiz, um defesa central, a jogar à esquerda. O Benfica perdeu por 5-0.

 

No Sporting, depois de termos feito uma monumental exibição em Madrid, fomos jogar com o Rio Ave. Perdemos 3-1, com Bruno César a defesa esquerdo. Os avançados passavam por ele como se fossem de mota e ele estivesse de bicicleta. Jesus só corrigiu o erro depois de termos o jogo perdido. Durante muitos jogos no ano passado resolveu apostar em Zeegelaar, embirrando claramente com Jefferson, que defende menos mal que Zeegellar mas é muito melhor a marcar livres, a centrar e a apoiar o ataque.

 

Também não deu quase oportunidades a Paulo Oliveira e não desistiu enquanto não o correu do clube. A dupla central de defesas mudou tanto que os sócios eram surpreendidos a cada jogo. Depois ficou-se por Ruben Semedo e Coates. Agora indicou a porta de saída a Semedo para contratar um tal Mathieu, que não tem, pela sua morfologia, nenhumas características de ser um defesa rápido e de ter rins flexíveis. E Coates precisa de um parceiro rápido ao seu lado, como eram Semedo ou Paulo Oliveira. Sem eles, a vida também lhe vai correr pior. E que dizer da dispensa de Schelotto para ser substituído por Piccini, que por sua vez ficou (descobriu-se agora em Alvalade!) sem nenhum concorrente para a sua posição?

 

Aliás, leio hoje no Record: “Urgente – Jesus quer lateral e central – Técnico procura alternativa válida a Piccini e Coates”. Pergunto: agora é que descobriram isso? A 15 dias de começar o campeonato? É que o problema não foi termos perdido com o Guimarães por 3-0. O problema é que não se vê como vamos solucionar o problema para o campeonato. E as grandes equipas constroem-se a partir da defesa, porque são aquelas que sofrem poucos golos.

 

Sim, eu sei que o André Pinto está lesionado. Mas o Tobias alguma vez é melhor que o Paulo Oliveira? E porque é que dispensámos o Schelotto? É pior que o Piccini? E agora o Coates também já não serve? Mais: o Mattheus Oliveira é melhor que o Francisco Geraldes? Não, não e não.

 

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E vamos jogar com três centrais, em 3-4-3? Temos jogadores para isso? Até quando vamos experimentar o sistema? Vejam-se os resultados em sete jogos de preparação: 1 golo sofrido com o Belenenses, dois com o Marselha, 1 com o Fenerbahce, 3 com o Basileia, 3 com o Valência, 1 com o Mónaco, 3 com o Guimarães. 14 golos sofridos, média de dois por jogo. É assim que nos vamos candidatar a campeões? Isto não faz acender inúmeras campainhas de alarme nos comandos técnicos do Sporting e na direcção? E não será que, mais que por causa dos jogadores, é o sistema que está errado?

 

Por outro lado, Jesus está a reproduzir no Sporting o que fez no Benfica: a contratação de uma avalanche de jogadores sul-americanos em detrimento de oportunidades para os jovens da formação ou para jogadores portugueses que não foi ele que contratou. Não é o modelo do Sporting Clube de Portugal e é um enorme erro, que nos vai custar caro quando ele deixar o clube.

 

Meu caro Nuno, recebi o ano passado o meu emblema de sócio do Sporting Clube de Portugal há 25 anos. Mas na verdade deveria ter recebido outro emblema, porque desde os seis anos fui sócio do Sporting Clube de Luanda, um tempo que infelizmente não conta para a contabilidade do SCP.

 

Há 13 anos que pago a Gamebox. Tenho as quotas em dia. As maiores alegrias que tive foram a conquista dos dois últimos campeonatos pelo Sporting. No primeiro não estava em Portugal, mas no segundo andei a buzinar pelas ruas de Lisboa, bebi champanhe, pintei a cara de verde e branco e festejei exuberantemente com os meus filhos desde o Marquês, passando pela Avenida da Liberdade, até ao Largo do Pelourinho. Para sportinguista híbrido não está mal de todo.

 

Sabes, meu caro Nuno, quando fui do Conselho Leonino e tinha assento na parte da bancada principal destinada aos corpos sociais (coisa que pouco fiz porque prefiro de longe o meu lugar cativo), havia um senhor que se sentava ao meu lado e que passava o tempo a dizer que o Sporting não ganhava porque toda a comunicação social estava contra o clube.

 

E eu a olhar para o campo e a ver os nossos avançados a falhar golos de baliza aberta ou a nossa defesa a abrir alas para os adversários marcarem. O que é que a comunicação social tem a ver com a inépcia de jogadores e treinadores? O que é que a comunicação social tem a ver com contratações falhadas, programações de temporada erradas, escolhas de sistemas desadequados? Nada. Zero.

 

Mas eu acredito. Acredito sempre que o Sporting vai ultrapassar todos os obstáculos, todas as dificuldades, todas as barreiras. Acredito que os jogadores suarão e honrarão aquela camisola. Acredito que os sócios encherão de novo Alvalade esta época, com uma média de espectadores acima dos 40 mil (muito por causa do Presidente e do bom futebol que a equipa, apesar da falta de resultados, tem jogado) e que empurrarão o Sporting para muitas vitórias. E sei, como tu também sabes, meu caro Nuno, que se esta época for tão paupérrima de títulos como foi até agora, o reinado de Jesus termina em Alvalade. Ah, também sei que não há sócios de primeira e outros de segunda. Todos tem direito a dizer o que pensam, mesmo se não pensam o mesmo que o Presidente ou o treinador. E não será seguramente por causa de um artigo na Tribuna Expresso que o Sporting não ganhará a Liga 2017/2018. Estamos de acordo, meu caro Nuno?

 

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publicado às 05:00

Sporting. Assim não vamos lá !

Rui Gomes, em 27.07.17

 

Sporting. Assim não vamos lá. Esqueçam, vamos ter mais um ano perdido.

 

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O Sporting perdeu ontem com o Vitória de Guimarães por 3-0 num jogo de preparação para a nova época que, para os leões, arranca no dia 6 de agosto, na Vila de Aves, o jogo que abre a Liga 2017/18. E o mínimo que se pode dizer é que os sinais foram preocupantes, não pelas experiências que Jorge Jesus fez ou pelas adaptações que foi obrigado a fazer, mas pelas manifestas fragilidades que se estão a tornar evidentes como resultado de uma má política de dispensas e de um sistema táctico que agrava essas fragilidades.

 

Guarda-redes: o Sporting não pode vender Beto e vender também Rui Patrício. Patrício é o melhor guarda-redes português, um dos melhores a nível mundial e garante vários pontos por época, além de dar uma enorme tranquilidade a quem está à sua frente. Beto colmata bem os jogos em que ele não puder estar presente. Vender os dois será uma desgraça, a não ser que se consiga uma alternativa magnífica.

 

Defesa: como é possível o Sporting iniciar um jogo com Bruno César a defesa-direito? É possível porque Schelotto foi dispensado, João Pereira foi vendido a meio da época passada e só há um tal Piccini, que já esta lesionado – e que, quando não estiver, não terá concorrência para o lugar. Erro crasso na política de dispensas e contratações. E o responsável chama-se Jorge Jesus. Coates não parece, para já, o jogador da época passada. O erro que ontem cometeu e que lhe valeu a expulsão aos 20 minutos de jogo é inadmissível no jogador de uma equipa que tem pretensões a ganhar títulos. Mas a intranquilidade de Coates resulta também da venda de Ruben Semedo, que colmatava em rapidez o que lhe faltava em serenidade e experiência, bem como a venda de Paulo Oliveira, com quem Jesus nunca foi à bola, mas que era de longe o mais rápido dos defesas sportinguistas e um jogador de grande entrega e muita qualidade. Em contrapartida, veio Mathieu que é pesadão, lento, com rins duros e que, a cereja em cima do bolo, já está lesionado. Se sofremos muitos golos o ano passado, cheira-me que este ano vamos sofrer muitos mais. Basta ver o que tem acontecido na pré-época.

 

Para a esquerda temos um jogador com problemas emocionais e que estava quase arrumado (Coentrão) e um jovem que precisa de jogar para ganhar confiança, mas que está longe de ser melhor que Jefferson (outro com quem Jesus nunca foi à bola e que, enquanto não despachou, não descansou). Conclusão: temos um enorme problema na defesa por culpa exclusiva de Jesus e das más opções que tem tomado, quer ao nível das dispensas, quer no plano das contratações. Esperemos que André Pinto recupere da lesão para sentar Mathieu.

 

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No meio-campo, temos duas incógnitas fundamentais: Adrien e William Carvalho ficam ou vão? Ficam os dois ou só um? Não fica nenhum? E se ficar um, qual será? Dos contratados, Matheus Oliveira pode ser filho de Bebeto, mas não é jogador para uma equipa que luta pelo título. Vai ser despachado rapidamente ou jogará muito pouco. Palhinha está uns furos acima dele – e é da casa. Petrovic e Battaglia também são melhores e dão mais garantias. Acima da média, contudo, só mesmo Bruno Fernandes, que tem excelentes pés e magnífica capacidade de passe. Mas lá está: sem Adrien e William, este meio-campo é pior do que o que existia com eles.

 

Finalmente, no ataque, Podence devia ter lugar obrigatório, assim como Bas Dost. Mas o que fazer com Doumbia, que é um avançado possante que pode ser muito importante contra equipas fortes? Iuri Medeiros também merece jogar. Mas o lado direito, onde ontem jogou, não é o seu terreno natural. Acuña voltou a mostrar empenho e combatividade e Gelson Dala tem a alegria dos miúdos que jogam à bola na rua. Devia ser emprestado para rodar e marcar.

 

Conclusão: o nosso calcanhar de Aquiles está, para já, na defesa – e, já agora, no sistema táctico que, pelos vistos, Jesus, quer implementar, um 3-4-3 que pode ser útil para jogos com equipas fraquinhas, mas que é um perigo contra equipas boas ou excelentes – como se viu ontem, em que a defesa foi manteiga a ser cortada por faca aquecida.

 

Com quem está neste momento no plantel, o melhor seria mesmo voltar ao 4-3-3, assim escalonado: Patrício; Piccini (que remédio), Coates, Mathieu (ai, ai… - mete o André Pinto, Jesus!) e Coentrão (ai, ai, ai!); William, Adrien e Bruno Fernandes; Podence (Iuri Medeiros), Doumbia (Acunã) e Bas Dost. E precisamos de ir rapidamente ao mercado comprar um defesa direito.

 

Mas, de qualquer modo, deixem-me ser tremendista: com estes desequilíbrios na equipa, como resultado de más opções nas compras e vendas, sobretudo para a defesa (Jesus tem um problema com os defesas esquerdos desde o tempo em que esteve no Benfica…), vamos ter mais um ano perdido. É melhor Bruno Carvalho e Jorge Jesus começarem a preparar desde já os discursos que vão fazer aos sócios no final da época.

 

 

Niculau Santos, director-adjunto jornal Expresso

 

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publicado às 17:11

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 24.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com o seu bem conhecido humor, analisa as performances dos jogadores do Sporting no jogo de apresentação da equipa frente ao campeão francês Mónaco, com destaque para Matheus Oliveira:

 

"Há algo de bidimensional na sua presença - em campo, no estágio, no plantel - como se não fosse resultado de carne, osso e cartilagem, mas de um efeito tromp l'oeil. Uma coisa no entanto ninguém pode negar: Mattheus Oliveira é extremamente parecido com as imagens de Cristo que costumam aparecer nas revistas Sentinela e Despertai! a ilustrar artigos como "O Que Vai Deixar de Existir Quando o Reino de Deus Chegar?", "A Minha Luta Como Soldado de Cristo", e "Compre Este Médio Talentoso Mas Desnecessário Por Apenas 1 Milhão de Euros Mais Portes de Envio".

 

Rui Patrício

Lidou horrivelmente com um atraso numa das suas primeiras intervenções, num lance que ia dando golo, mas foi só para testar os nervos dos adeptos que, como se sabe, nesta altura do ano, ainda andam à procura da melhor forma. Acabou por se redimir com uma defesa do outro mundo a um cabeceamento de alguém chamado Carrillo, mostrando uma comovente preocupação em evitar que alguém chamado Carrillo marcasse um golo em Alvalade, preocupação de resto não partilhada por todos os colegas.

 

Piccini

Teve direito a praxe mais violenta da pré-temporada. Depois de Valbuena, hoje apanhou com Mbappé, que descaiu várias vezes para o seu corredor, mostrando que não deve haver relatório de olheiros feito sobre o Sporting de há dois anos para cá que não aponte, em letras maiúsculas, a fragilidade da equipa a defender lançamentos em profundidade para a faixa direita. Piccini voltou a mostrar que é melhor a fechar por dentro do que a solucionar esse problema de longa data; que é menos rápido do que Schelotto, mas que usa a velocidade com muito mais inteligência; que sabe usar o físico e tem bom tempo de corte; que sobe pouco, cruza menos, e sempre visivelmente contrariado; que é um upgrade, mas não o desejado; que não é um grande lateral-direito (o que daria jeito ao Sporting), nem um desastre (o que daria jeito aos adversários, e possivelmente a esta plataforma digital).

 

Coates

Um "defesa de corpo inteiro" era algo que eu julgava ser um cliché, até ter visto o seu jogo de hoje. Ultrapassado por Mbappé aos 6', foi ao chão, mas virou-se com agilidade suficiente para interceptar a bola (com a nádega). Substituiu Patrício na linha de golo e fez uma grande defesa aos oito minutos (com o abdómen). Aos 16' foi cabecear a centímetros do poste (com a testa). Cortou uma bola de perigo já na pequena área ainda antes do intervalo (com a barriga da perna). Aos 68', grande intervenção no 1x1 com um avançado do Mónaco que vinha embalado direito a si, desarmando-o (com o pé, para variar). É um descanso tê-lo por cá (no campo e no coração).

 

Mathieu

Jogo certinho e sem as aflições que marcaram os jogos na Suíça. Com a bola no pé, enfim... andou três anos a trocar a bola com o Iniesta sem destoar, vamos dar-lhe tempo.

 

Fábio Coentrão

É um grande jogador ainda a recuperar a melhor forma, portanto vão sendo as pequenas coisas: o transformar de um alívio numa desmarcação, o proteger a bola com o corpo sem qualquer vestígio de nervosismo, a lucidez a encontrar a melhor opção, a capacidade para receber bolas bombeadas a meia-altura e junto a linha, deixando-as jogáveis ao primeiro toque, as acelerações súbitas (e, por enquanto, de poucos metros) para se livrar da pressão dos extremos contrários, e acima de tudo a forma corajosa como conseguiu até agora disfarçar os vários sintomas que apresenta - de hipotermia, escorbuto, cólera, febre do Nilo, etc, - e fingir que não é uma pessoa lesionadíssima.

 

Battaglia

Vê-lo jogar é uma experiência estranhamente fatigante, em que uma bola perdida no meio-campo é apenas o primeiro capítulo de uma espécie de epopeia. Carrinhos, desarmes, faltas, arranques, carros a capotar, alguém a fazer rapel pela Torre Eiffel abaixo, outra pessoa a escapar por um triz a uma avalanche, um edifício a explodir, uma bomba em contagem decrescente, etc. É como assistir ao trailer de um filme de acção, onde cortaram todas as partes chatas é tudo condensado a dois minutos de efeitos especiais impressionantes e diálogo não muito bem escrito. Nunca vai (nem ele nem ninguém, em boa verdade) dar à equipa o que William dá em posse. Mas tem uma disponibilidade física fora do vulgar, e o tipo de agressividade que obriga constantemente o adversário a mudar de ideias. Pode ser que vá mudando as nossas também.

 

Gelson Martins

Scouting report by H. P. Lovecraft:

Vastly overrated attacking midfielder, whose eldritch proclivities when in possession of the hallowed sphere should make any sensitive scouting soul this side of Massachussets shudder in unnamable horror. Occasional ghoulish glimpses of a freakish abominable talent can be seen as they bubble up putrescently under the gibbous stadium floodlights, but his vile, batrachian movements offer no beauty and no freedom to the discerning eye of someone not bewitched by the horrid reputation of Alcochete's infested swamps.

 

Beware, o Greats of Manchester and Spain, perusing the dark horizons for the next shining star: all you will ever find here is gibbering hideousness and squamous perversity twitching and slithering in the endless night!

 

#Gelson #scouting #flops

 

Bruno Fernandes

Ao minuto 10, com todas as linhas de passe cortadas, teve calma e confiança suficientes para resguardar a posse de bola em zonas tradicionalmente proibidas até sofrer falta. Dois minutos depois, Battaglia efectuou um remate à queima contra os seus tornozelos, a meio metro de distância; Bruno Fernandes conseguiu, não me perguntem como, transformar o lance numa tabelinha. Marcou o golo do 1-0, aparecendo de repente em zona de finalização. Perto do intervalo, é ele quem vai ganhar o espaço a Sidibé na faixa esquerda, depois de este ter ultrapassado Acuña e Coentrão. Ao minuto 50, fez exactamente o mesmo na faixa direita, dobrando Gelson e Piccini. E foi ele, inclusive, quem veio escrever metade deste parágrafo, porque eu estou muito cansado.

 

Marcos Acuña

Deve ter decorado com afinco meia dúzia de instruções tácticas específicas, pois procurou insistentemente desmarcações interiores nos primeiros minutos, e mostrou sempre um cuidado patológico em ajudar o lateral do seu lado - mostrando ainda algum desacerto posicional, que compensou com tenacidade e uma surpreendente capacidade de desarme. Quanto à qualidade (já conhecida e anunciada) a bater livres e cantos, deu exemplos suficientes para comover um público que não via um novo reforço tão competente nas bolas paradas desde Didier Lang - comparação pela qual peço desde já imensa desculpa a todos os envolvidos.

 

Podence

Se Podence fosse um animal não seria propriamente daqueles que inspiram medo, como os predadores de grande porte, mas sim um daqueles que provocam irritação, como a melga. Estamos descansadinhos no sofá, ouvimos o zumbido de uma coisa diminuta a passar e quando damos por isso temos uma probóscide enfiada na pele, e um insecto a gargarejar o nosso sangue. Embora, enfim, neste caso não literalmente.

 

Melhor momento do jogo: o livre directo que ganhou ao minuto 56 depois de fazer um túnel a si próprio.

 

Bas Dost

Quem é que remata de cabeça ao ângulo, com aquela força, e àquela distância, quando a bola vem a fazer a curva ao contrário e não particularmente tensa? Mas quem é que este gajo julga que é?

 

Jonathan

Exibe, na minha maneira de ver as coisas, duas sobrancelhas excessivamente depiladas para o seu estilo de jogo.

 

William

O Sol brilhou, as nuvens escangalharam-se em hemorragias de luz, dos céus ouviu-se o som de trombetas, montanhas afastaram-se amavelmente da frente, vales abriram-se de livre e espontânea vontade, o horizonte recheou-se de portentos. Foi, por outras palavras, mais uma tarde de Sábado na vida de William Carvalho.

 

Adrien

Mas isto agora dos livres directos veio de onde e porquê?

 

Alan Ruiz

Qualquer ordem constitucional só é verdadeiramente democrática quando tolera e promove o acesso das oposições ao poder como resposta espontânea ao desgaste e descrédito dos titulares governativos, como diz o povo.

 

Doumbia

"A girar e a girar, em círculos cada vez mais amplos, o falcão já não ouve o falcoeiro", como explicou Yeats em "The Second Coming", o seu célebre poema sobre a armadilha do fora-de-jogo.

 

Iuri Medeiros

Pouco depois de entrar e pouco antes de sair, conseguiu fazer um movimento interior, uma boa recepção, um passe de primeira, uma perda de bola e uma falta sofrida em zona perigosa, tudo na mesma jogada. Não é bem o mesmo tipo de "polivalência" de Bruno César, mas não deixou de ser impressionante.

 

Tobias Figueiredo

Tem de melhorar a sua estratégia de comunicação.

 

Francisco de Oliveira Geraldes

Fez uma pausa no preenchimento da papelada necessária para pedir asilo político no Império Austro-Húngaro e veio ao campo fazer três passes bons e um mau.

 

Beto

Fez uma única defesa e sofreu um golo em que nada podia fazer: a média de Rui Patrício numa boa mão-cheia de jogos da época transacta.

 

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publicado às 09:24

 

Balakov, Barbosa, err... Hanuch e Ghilas: as melhores contratações da história, enfim, recente do Sporting (por Rogério Casanova).

 

Confuso? Talvez. Mas o autor da prosa justifica as suas escolhas quando enumera os melhors negócios do Sporting nos últimos tempos.

 

 

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                  Gary M. Prior

 

Balakov (1991)

Será difícil de convencer – ou sequer de explicar a – adeptos de futebol nascidos depois dos anos 80, mas houve uma altura em que era possível, e até com algum grau de conforto, não saber o que pensar sobre determinada situação, e sobreviver sem uma opinião firme. Nos tempos remotos e antediluvianos da modalidade – a era pré-YouTube, pré-Lei Bosman, pré-diários desportivos, pré-painéis de comentadores, pré-apostas online, pré-streams ilegais – uma nova contratação, por exemplo, era um fenómeno encharcado em mistério, e cada reforço cujo nome terminava em -ic, -ov, ou -inho não era uma página da wikipédia e um vasto conjunto de amostras, mas um emblema de expectativa e potencial. Uma opinião informada era a última coisa que nos passava pela cabeça.

 

Não saber o que pensar e não sentir vontade de divulgar o que pensamos deixaram de ser hipóteses viáveis. Em alguns casos recentes (Celsinho, Slavchev), terei visto mais minutos de um jogador via internet nas semanas que antecederam a contratação do que os minutos que os vi jogar com a camisola do clube depois da contratação. Quando Balakov chegou, em Janeiro de 1991 (vindo de um clube chamado, pela minha saúde, Etar), não só a maioria dos adeptos não o tinha visto jogar: nunca sequer tínhamos ouvido falar nele. Quem o contratou, aparentemente, também não. O infalível Sousa Cintra apresentou-o como ponta-de-lança e um “suplente quatro estrelas para o Gomes”.

 

Por tudo isto, mas não só, Balakov parece pertencer a um estágio anterior do desporto, o futebol tal como era construído na imaginação solene de uma criança a brincar aos adultos. Chegou na época em que a imagem platónica de um “grande” jogador” era ainda Maradona (e o seu sucedâneo europeu, Hagi): um esquerdino talentoso, ocupando uma posição indeterminadamente vagabunda entre o meio-campo e o ataque, com liberdade para não respeitar espartilhos tácticos e para resolver sozinho problemas colectivos. E assim foi. Um adulto não vê propriamente futebol à espera que um jogador marque um golo do meio-campo. Aos dez segundos de jogo. Num derby. Ou que o mesmo jogador finte toda a população da península de Setúbal antes de empurrar a bola para dentro da baliza. Para não falar de expectativas menos irreais, mas de certa maneira ainda mais inocentes, como a crença de que qualquer livre directo ou pontapé de canto pode ser uma genuína ocasião de perigo.

 

Fez 168 jogos pelo Sporting, e marcou 60 golos. Ganhou um único troféu, uma Taça de Portugal, no seu jogo de despedida. A sua saída deixou na memória de alguns adeptos o equivalente a cicatrizes de acne. Tudo o que veio a seguir fez já parte do desconforto bem informado da idade adulta.

 

Pedro Barbosa (1995)

 

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                                        Getty Images

 

Se para alguém nascido em 1980, Balakov foi o derradeiro representante do futebol edénico, Pedro Barbosa foi o primeiro ídolo na transição para a maturidade problemática: a pessoa ideal para nos agradar, ao mesmo tempo que anunciava o fim da era de emoções puras (no sentido em que qualquer emoção passou a ser necessariamente diluída por emoções paralelas e por vezes contraditórias).

 

A longevidade é parte da questão, e carreiras como a sua são hoje praticamente impossíveis: serão pouco mais do que residuais as probabilidades de um jogador talentoso emergir no campeonato nacional e resistir fora da órbita dos três grandes até aos 25 anos – muito antes disso será contratado pelo Benfica e emprestado ao Desportivo das Aves.

 

Barbosa chegou ao Sporting e cá ficou dez anos, o tempo suficiente para estar em campo nos jogos de estreia de Simão Sabrosa, Quaresma, Cristiano Ronaldo e João Moutinho. O tempo suficiente para participar na supertaça de Paris, no fim do jejum em Vidal Pinheiro, na semana do quase em 2005. O tempo suficiente para que a sua tantas vezes frustrante lentidão se adequasse ao bilhete de identidade. O tempo suficiente para nos ensinar que é possível manter uma franja mesmo sendo completamente careca.

 

Não deixando de ser uma figura “de culto” (está para certos adeptos de futebol como Captain Beefheart para certos melómanos) é possível que o seu estatuto fosse ainda mais sólido caso representasse uma anomalia clara na tradição futebolística a que pertence (como Le Tissier, por exemplo, foi para o futebol inglês). Na realidade, limitou-se a encarnar anacronicamente uma sublimação – ora esplêndida, ora caricatural – do que a sua tradição tinha sido na década anterior, mas também de um estranho futuro alternativo do futebol português em que a ”geração de ouro" nunca emigrasse: a frustrante estagnação produzida por um superavit de talento aliado ao défice crónico de consistência; a execução de um futebol de curvas, elipses e parábolas num período em que o jogo já convergia para procurar a distância mais curta e eficaz entre dois pontos.

 

Tivesse sido um bocadinho melhor e não teria ficado dez anos. Um bocadinho pior e teria sido provavelmente linchado pelos adeptos em pleno relvado. Combinou qualidades e defeitos na proporção exacta para alcançar uma congruência trágica com a identidade do clube a que dedicou os melhores anos, e que lhe dedicou os mais comovidos aplausos e mais exasperadas vaias.

 

Hanuch (1999)

Na cabeça de cada adepto existe uma pequena utopia sobre a maneira correcta de fazer as coisas e preparar uma época. Idealmente, os defeitos do plantel anterior são atempadamente diagnosticados; decide-se um naipe de “4 ou 5 contratações cirúrgicas” para colmatar essas lacunas e acrescentar real qualidade; preenche-se o resto do plantel dando “oportunidades” a talentos “da formação”; todos os jogadores cruciais chegam antes do regresso aos trabalhos na nova época; tudo corre bem daí para a frente, pois tamanha eficiência preparatória é meio caminho andado para o sucesso.

 

A época de 1999/00 que culminaria no final de um jejum de 18 anos, começou com a venda do melhor jogador ao Barcelona. Era mais ou menos unânime que o ponto fraco da equipa era o lugar de ponta-de-lança, onde pontuava uma colecção argentina de artrites reumatóides chamada Acosta. Portanto contratou-se um guarda-redes campeão europeu. E um médio espanhol chamado Robaina. E outro médio espanhol chamado Toñito. E por fim espatifou-se quase todo o orçamento da época num extremo argentino chamado Hanuch, “roubado” triunfantemente ao rival. O treinador que fez a pré-época foi despedido em Setembro, e os erros do plantel corrigidos só em Dezembro, com recurso a trocos, a veteranos e promessas adiadas repescadas ao campeonato belga, e a excedentes do Real Madrid B.

 

Ninguém sabe porque é que as coisas boas acontecem.

 

Enakarhire (2004)

 

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                   Miguel Riopa

 

Num clube que durante largos anos raramente fez negócios lucrativos com jogadores que não viessem da formação, Enakarhire foi uma das mais intrigantes exceções. Chegou da Bélgica com 21 anos, custou um milhão de euros, fez 19 jogos para o campeonato (nunca chegou propriamente a ser titular indiscutível), mais um punhado de exibições imponentes na caminhada até à final da EUFA, e foi vendido por seis milhões ao Dínamo de Moscovo.

 

Num espaço de dezoito meses, o mesmo clube russo contratou Nuno Espírito Santo, Maniche, Costinha, Derlei, Seitaridis, Frechaut, Danny. Jorge Ribeiro, Luis Loureiro, e mais uns quantos cujo nome só o Google ainda recorda. Enakarhire praticamente nem jogou em Moscovo: passou duas épocas emprestado, e abandonou prematuramente o futebol aos 26 anos (acabaria por regressar aos 30, no campeonato de San Marino).

 

Terá sido o primeiro vislumbre da deterioração lógica a que foi submetido o mercado de transferências, um prenúncio da entropia que, de acordo com a segunda lei da termodinâmica, vai fazendo com que a entropia de um sistema fechado permaneça a mesma em quantidade, mas decline gradualmente em qualidade – um processo físico cujo culminar será um período não muito distante em que todo o mercado de transferências vai consistir no Wolverhampton a vender o mesmo jogador a si próprio, todos os dias, para sempre.

 

Ghilas (2013)

 

No defeso de 2013/14 era preciso um avançado para fazer concorrência a Montero, e a escolha parecia óbvia: um promissor avançado argelino, alto, forte, raçudo, de crânio rapado, que parecia marcar golos de toda a maneira e feitio. Foi uma contratação bem f... não, não, afinal não, o FC Porto chegou-se à frente, pelo que se teve de ir buscar outra pessoa, da mesma nacionalidade, e com morfologia semelhante, mas com menos potencial, sem qualquer experiência no futebol europeu, e pelo embaraçoso preço de 300 mil euros. Paciência, há momentos assim.

 

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publicado às 13:57

 

 

Há uma verdade na bola que diz que o futebol é um jogo colectivo e que o colectivo com melhor rendimento é que ganha campeonatos. E isso é... verdade, mas até um certo ponto: esta época, o FC Porto rematou mais vezes à baliza, rematou mais vezes enquadrado e também fintou e cruzou mais do que o Benfica - e permitiu menos remates. Só que as mesmas estatísticas que aparentam superioridade colectiva do FC Porto mostram que o Benfica é muito, muito superior quando comparamos os craques de cada clube. E uma nota adicional: o Nacional, que desceu de divisão, rematou mais do que o Sporting. Jornalismo de dados em dois minutos e 59 segundos. Para explicar o mundo - neste caso, o da bola.

 

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publicado às 12:35

Futebol com humor à mistura (30)

Rui Gomes, em 24.05.17

 

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Terceira série - e última edição desta época - de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting na 34.ª jornada a I Liga diante o Chaves:

 

Podence

Vê-lo a receber a bola sozinho no meio de calmeirões continua a estimular o instinto maternal de qualquer pessoa saudável, mas na verdade precisa tanto de protecção como um troll do 4chan a semear a discórdia por motivo de lulz. Aquele constante frenesim de agitação, e a capacidade para acelerar o jogo com e sem bola, deram frutos logo aos 10 minutos, quando sacou um penalty - e proporcionou um divertidíssimo momento ao minuto 36, quando conseguiu colocar - sozinho - dois defesas do Chaves em inferioridade numérica.

 

Bas Dost

Acumulam-se os sinais de uma incompreensível falta de egoísmo. Ao minuto 26, com tempo e espaço na área para receber a bola, sentar-se, puxar de um tablet, preencher a declaração de IRS, esperar que a aplicação Java carregasse, validar, submeter, levantar-se, e consumar o hat-trick, preferiu assistir de cabeça um colega que não chegou a tempo. Mais preocupante ainda foi o momento em que veio dobrar Jefferson à lateral esquerda, recuperando uma bola em esforço e atrasando para Beto.

 

Não sei se o merecemos. Despediu-se do jogo, e encerrou oficialmente a Liga, com mais um golo (o segundo penalty do jogo), que agradeceu de forma típica, envolvendo nos seus braços o amor que emanava das bancadas.

 

Bruno César

Adaptado a Bryan Ruiz, cumpriu, na medida em que, certamente, e, portanto e em suma, sem dúvida.

 

Francisco de Oliveira Geraldes, visconde de Alvaláxia, e futuro Prémio Nobel da Literatura em 2053

Entrou bem, para surpresa de exactamente ninguém.

 

Gelson Dala

A última substituição da época, que assim a definiu na perfeição: não chegou a tocar na bola.

 

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publicado às 04:21

Futebol com humor à mistura (29)

Rui Gomes, em 23.05.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo de domingo passado com o Chaves:

 

Palhinha

Lance paradigmático aos 7 minutos: depois de uma perda de bola de Gelson e desposicionamento de Esgaio, mostrou noção perfeita do espaço que podia cobrir, deu passos na direcção certa, desarmou um contra-ataque potencialmente perigoso antes sequer de o rastilho acender, e transformou o sobressalto em novo ataque com dois toques simples. A segunda parte da equação nem sempre lhe corre tão bem (e falhou o único passe mais arriscado que tentou), mas é intratável nos duelos individuais, sabe usar o corpo como poucos, e desde que se refugie na lucidez que possui, pode vir a dar melhor jogador do que alguns (eu, por exemplo) adivinhavam.

 

Gelson Martins

Uma exibição de capoeira a decorrer em permanência no interior de um TGV: para o bem e para o mal, Gelson é isto. E é quase tão difícil assimilar aquela hiperactividade enquanto colega do que enquanto adversário. Formou, nos primeiros 45 minutos, uma intrigante tripla de trincos todo-o-terreno com Adrien e Podence: um vendaval de intensidade sem bola que mostrou um vislumbre daquilo que poderia ter sido uma época diferente. Com bola, a intermitência do costume na decisão, mas capacidade suficiente para desequilibrar sempre que quer, e para somar mais uma assistência.

 

Adrien

O grande passe para isolar Jefferson na esquerda logo a abrir terá sido a sua intervenção ofensiva mais vistosa, mas mostrou mais esclarecimento intuitivo com bola e mais energia nas compensações frenéticas sem ela do que tem sido norma nas últimas semanas e isso contribuiu subterraneamente para aquilo de bom que a equipa fez. Ao minuto 38, aproveitou a primeira ocasião que teve para protestar (uma falta que, de facto, não cometeu) para soltar alguns meses de frustração acumulada. Como eu o compreendo.

 

Matheus Pereira

Entrou com quilos a mais no pé esquerdo e, não pela primeira vez, mostrou mais boas ideias (raramente toma uma má opção ofensiva, excepto quando não arrisca o que sabe) do que boa execução. Toque com demasiada força ao minuto 8, outra excelente ideia estragada com passe demasiado longo ao minuto 24, e um livre indirecto pouco depois que proporcionou à bola a oportunidade de conhecer a mesosfera. À passagem da meia hora, desconfiando que se calhar isto de ser canhoto foi uma mentira que lhe contaram na infância, puxou para o pé direito e marcou golo. Ainda não mostra a intensidade e solidariedade defensiva de Gelson, e deixou por duas vezes o seu lateral sozinho contra dois, mas compensou vindo à faixa contrária cancelar um contra-ataque, numa jogada que lhe valeu o amarelo. Saiu pouco depois.

 

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publicado às 04:11

Futebol com humor à mistura (28)

Rui Gomes, em 22.05.17

 

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A última edição da época 2016/17 de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting diante o Chaves:

 

Beto

Assim que se soube a notícia da sua merecida presença no onze inicial havia apenas uma dúvida a esclarecer: seria Beto capaz, depois de tão longo período de inactividade, de se mostrar à altura do titular e não ter culpas no golo sofrido? Não ter culpas no golo sofrido nem sempre é tarefa tão fácil quanto Rui Patrício a faz parecer, e as perspectivas não eram animadoras. Só ao fim de 20 minutos (no segundo exacto em que a greve das claques terminou) Beto conseguiu mostrar trabalho, com uma saída aos pés de Elhouny. E a partir daí pouco mais teve a fazer, excepto resolver episódicos atrasos. O seu ânimo já certamente esmorecia quando, com uma hora de jogo, não teve - de forma triunfante - quaisquer hipóteses de defesa, e portanto quaisquer culpas, no golo do Chaves. Antes do apito final ainda fez mais uma excelente defesa a um livre, mas uma saída atabalhoada num cruzamento podia ter corrido mal. Apesar dessa única falha, provou que podem continuar a confiar nele para não ter, de vez em quando, culpas nos golos sofridos.

 

Esgaio

Um indivíduo tão discreto, tão pacato, com tamanha aura de boa e anónima pessoa, que a obrigação profissional de jogar futebol à frente de tanta gente parece sempre uma maldade que lhe estão a fazer. Ricardo Esgaio faz lembrar uma encarnação de Fernando Pessoa que nunca publicou um verso, e que passou toda a sua santa e tranquila vidinha a traduzir correspondência comercial, a beber um casto copo de vinho ao fim da tarde no Abel Ferreira da Fonseca, e a escrever o ocasional bilhete à Ophélia, antes de se retirar para um quarto alugado e adormecer a inventar heterónimos: o veloz lateral Esgainho, o possante lateral Ricky Esgailéz, o implacável lateral Ryszard Esgayolov...

 

Coates

Um jogo tranquilo, em que algumas pessoas más invadiram de vez em quando a sua privacidade, perturbando assim o funcionamento regular do heteropatriarcado normativo que transporta constantemente num perímetro de 5 centímetros à volta da sua pessoa.

 

Rúben Semedo

O brilhante deslize aos 4 minutos, com uma recepção deficiente dentro da área em que deixou a bola patinar-lhe alegremente pelos pitons a caminho de outra pessoa, podia prometer uma exibição desastrada. Como Semedo reage nestas ocasiões é sempre uma lotaria, mas começa a detectar-se um padrão: encarar a calamidade latente como um desafio, e encontrar o mais depressa possível um ritual de passagem que lhe permita superá-lo. Hoje optou por ensaiar um desarme arriscadíssimo ao minuto 22, em que conseguiu roubar uma bola numa posição quase impossível, e em que o risco de fracasso seria quase de certeza uma grande penalidade e uma penalização disciplinar.

 

Rúben: pardonne-leur, car ils ne savent ce qu'ils font.

 

Jefferson

A cidade de Tebas era assolada por uma cena bué medonha chamada Esfinge, e Édipo, recém-nomeado director-adjunto do Departamento de Lidar Com As Esfinges, foi ao terreno avaliar a situação. Cruzando-se com ela num relvado secundário, abordou-a. A Esfinge pousou a mão na sua fronte e presenteou-o com um enigma: "Qual é a criatura que no início da época tem zero pernas; a meio da época tem uma única perna, mas coxa; e no último jogo, quando já nada interessa, parece ter o número correcto de pernas, o mesmo que tinha durante a época 2013/14?".

 

Édipo pensou um pouco no enigma da Esfinge, e foi nesse dia que começou a fumar.

 

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publicado às 05:30

Futebol com humor à mistura (27)

Rui Gomes, em 16.05.17

 

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A terceira e última edição de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo contra o Feirense:

 

Podence

Notou-se, logo nas primeiras duas ou três intervenções, a preocupação em procurar Dost o mais rapidamente possível – o que serve, nas actuais circunstâncias da equipa, como uma boa definição do que constitui esse raro atributo a que chamamos “objectividade”. O impulso pragmático não durou muito e a sua exibição, até por ter deixado o jetpack em casa, terá sido das mais discretas desde que se estreou.

 

Bas Dost

Assistiu Gelson para o 0-1 e passou o resto do jogo a pensar como raio é possível esta gente ter-lhe permitido marcar a carrada de golos que acumulou ao longo da época. Terá sido uma alucinação? Um erro de contabilidade? Hoje à noite vai adormecer a olhar para a tabela oficial de melhores marcadores, repetindo com a força de quem se agarra à última réstia de sanidade: “eu, Bas Dost, marquei mesmo estes golos todos. Marquei-os todos. Ninguém me pode tirar isso. Ninguém”.

 

Bryan Ruiz

Excelente vitória portuguesa na Eurovisão, os meus parabéns a Salvador Sobral!

 

Matheus Pereira

Ultrapassou dois adversários em velocidade assim que entrou. Pouco depois, com espaço para arriscar novo lance no 1x1, apercebeu-se das intrigantes parecenças fisionómicas entre o lateral do Feirense, Barge, e Pedro Madeira Rodrigues, tendo portanto optado por esborrachar-lhe a bola em cheio nas trombas, uma opção de dúbia eficácia para os objectivos competitivos da equipa, mas que acaba por se compreender, e até aplaudir.

 

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publicado às 03:45

Futebol com humor à mistura (26)

Rui Gomes, em 15.05.17

 

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A segunda edição de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no embate com o Feirense:

 

William Carvalho

A diferença entre a boa forma e a má forma não redefine ontologicamente um jogador, mas ver os mesmos atributos na sua versão satírica tem a rara capacidade de ampliar drasticamente a nossa capacidade para dizer palavrões, dos quais, se formos justos, logo nos arrependemos. Não deixa de ser triste, ver aquele fluído rodopiar sobre flanela reduzido nos últimos tempos a uma colecção de maneirismos de barroca futilidade – como as vénias protocolares diante da Raínha de Inglaterra, em que é preciso um algoritmo para memorizar a sequência correcta de movimentos.

 

Gelson Martins

Marcou o único golo da equipa, na sequência de um lançamento lateral em que a bola não passou pelo pé de nenhum colega antes de chegar ao seu, uma jogada que transporta uma lição valiosa sobre quais as partes do corpo que os futebolistas do Sporting devem evitar usar nesta fase complicada. Além disso, cumpriu a sua função: imprimir desorganização à manobra defensiva adversária, algo que seria colectivamente mais eficaz caso os colegas tivessem a mesma capacidade de improvisar no meio do caos, em vez de parecerem tão surpreendidos como os defesas fintados por Gelson. Mas continua a nem sempre decidir bem. Aos 48 minutos deixou Schelotto isolado na área, com um passe, por definição, indesculpável.

 

Adrien Silva

Ao minuto 72, num espaço de 3 segundos, a bola atingiu a barra da equipa do Feirense, o poste da equipa do Feirense, e a luva direita do guarda-redes do Feirense (neste último caso, rematada por Adrien). Seria a imagem perfeita da época de Adrien, caso a bola tivesse também sofrido um estiramento muscular antes de sair pela linha de fundo.

 

Bruno César

Numa época em que foi médio-esquerdo, médio-direito, médio-centro, segundo avançado, lateral-esquerdo, lateral-direito, vogal da Mesa da Assembleia Geral, fisioterapeuta adjunto, cantoneiro, motorista, nadador-salvador, e czar de todas as Rússias, foi hoje adaptado a nova posição: homem invisível. Cumpriu a tarefa, como faz sempre, com brio e imensa competência.

 

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publicado às 19:14

 

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Este campeonato ficou decidido no Estádio da Luz, no jogo entre o Benfica e o Sporting, que os encarnados venceram por 2-1, apesar de terem sido dominados durante grande parte dos 90 minutos. E pelo despedimento do treinador do Braga, José Peseiro, na semana seguinte. Eu já explico.

 

Houvesse videoárbitro a funcionar no dia daquele Benfica-Sporting e outro galo cantaria. Mas o árbitro Jorge Sousa, ao não assinalar duas penalidades a favor do Sporting – e na sequência da primeira, o clube da Luz, num rápido contra-ataque, marcou o primeiro golo – determinou quem seria o campeão este ano.

 

Já sei que vai cair o Carmo e Trindade por causa desta afirmação. Mas o certo é que o mood leonino mudou a partir daí. Convenhamos que até essa altura havia dois candidatos ao título: Benfica e Sporting. O FC Porto nunca mostrou estofo de campeão e Nuno Espírito Santo, enredado em várias indefinições, não conseguiu jamais que a sua equipa tivesse o killer instinct que faz os verdadeiros campeões e que matam os jogos quando eles têm de ser mortos e que não desperdiça oportunidades de recuperar pontos quando elas surgem. Foi assim todo o campeonato e, só por isso, o FC Porto não merece ser campeão.

 

Voltemos, portanto, a esse dia 11 de dezembro de 2016. Pois bem, depois de uma primeira parte repartida, na segunda parte o Sporting menorizou o Benfica, encostou-o às cordas, fez dele um clube pequeno e de bairro, a defender, defender, defender, o Ederson a voar para aqui, a voar para ali, os adeptos a roer as unhas e em taquicardia, o Bas Dost faz o 1-2 e aí o Benfica entrou em desespero, não conseguia respirar, não saía do seu meio-campo, e o Jorge Sousa a não ver nem as duas mãozinhas do Pizzi, nem o bracinho direito do Nelson Semedo – mas a cinco minutos do final o genial Jorge Jesus tira o Bas Dost e mete o André e finalmente o Benfica descansou; sempre na retranca, mas descansou e depois festejou como se tivesse ganho o campeonato.

 

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E fez bem. Foi lá que o ganhou. O Sporting, em vez de sair um ponto à frente do Benfica se tivesse ganho, saiu com cinco de atraso. E a mossa foi tão grande no estado psicológico dos jogadores do Sporting, o desânimo e o sentimento de injustiça foram tão pesados, como se houvesse forças poderosas que sempre se movem contra o clube nos momentos decisivos, que na semana seguinte a equipa voltou a perder por 0-1, desta vez em casa e contra o Braga, que tinha acabado de despedir José Peseiro, substituído interinamente por Abel Ferreira, que por acaso tinha sido despedido da equipa B do Sporting por Bruno de Carvalho assim que este chegou a Alvalade, que colocou no seu lugar João de Deus, que como se provou é um treinador medíocre, que quase conseguiu colocar a equipa B a descer de divisão, foi despedido, apareceu a treinar o Nacional, que acabou na II divisão.

 

O futebol nem sempre tem lógica mas há coisas que têm toda a lógica.

 

Mas depois dos penáltis que Jorge de Sousa não marcou na Luz, a substituição de José Peseiro à frente do Sporting de Braga antes do jogo com o Sporting foi a segunda razão que decidiu o campeonato a favor do Benfica. É que com Peseiro como treinador, o Sporting ganharia com mais ou menos dificuldade ao Braga, atendendo a que Peseiro é conhecido e reconhecido como um magnífico “pé frio”, um homem que sabe muito de futebol mas nunca ganha nada e perde mesmo quando tem tudo a seu favor (Grrrr! Aquela final da Liga Europa perdida em casa com uns russos quaisquer, depois de na semana anterior termos perdido o campeonato na Luz, com um golo do Luisão em falta sobre o Ricardo, ainda me está atravessadíssima!).

 

Mas logo haviam de despedir o Peseiro antes do Braga jogar com o Sporting e de colocar o Abel Ferreira, que estava ressabiado com o Bruno de Carvalho, a orientar a equipa apenas naquele jogo. E bastou para o Braga nos ganhar em Alvalade por 1-0 – e em vez de cinco pontos de atraso, passámos a ter oito. O campeonato acabou aí para o Sporting, apesar de na segunda volta termos tido uma séria consecutiva de vitórias, culminada com a vergonhosa derrota de domingo contra o Belenenses, em casa e com muitas mulheres e crianças nas bancadas, que ficam desde já traumatizadas para a vida e prontas para a aderir a outro emblema que lhes garanta vitórias.

 

Resumindo e concluindo, o Benfica ganha este campeonato porque o FC Porto nunca mostrou que o podia vencer e ao Sporting lhe cortaram as pernas no jogo da Luz. Parabéns, pois, ao Benfica. É um campeão poucochinho, nunca entusiasmou, nunca fez um grande jogo, só tem dois jogadores de classe acima da média, o Jonas e o Ederson, o resto é assim assim e claro que uma equipa que tem como cérebro o Dumbo não pode ser uma grande equipa.

 

Mas pronto, levem lá a Taça e parabéns ao Rui Vitória, que segue o velho provérbio, segundo o qual se a vida te dá limões, então faz limonadas.

 

Para o ano cá vos esperamos. Ou melhor, para o ano é que é. Não sei o quê, mas para o ano é que é. Eu pelo menos acredito. E como disse o presidente Bruno de Carvalho, que vai no segundo mandato e que já conseguiu ganhar uma Supertaça, basta! Já não há paciência para tanta desgraça! Para o ano ou isto muda ou mudam os sportinguistas: de treinador – e de presidente! Queremos vitórias.

 

Estamos sedentos de vitórias. Alguma vitória que nos anime e nos encha de orgulho. Não, não queremos jogar muito bem contra o Real Madrid e perder lá e cá. Não, não queremos jogar muito bem contra o FC Porto e perder lá por 2-1. Não, não queremos encurralar o Benfica e perder na Luz 2-1. Não, não queremos mais desculpas.

 

Queremos ganhar, ganhar, ganhar – por nós, pelos nossos filhos, pelos nosso netos, pelos filhos dos nossos netos, pelos nossos avós, pelos nossos bisavós, pelos nossos tetravós. O que é que não perceberam?

 

 

Nicolau Santos, director-adjunto, jornal Expresso

 

 

Nota: É por de mais óbvio que o teor textual do escrito visa estimular debate. Enquanto esse debate for construtivo, a moderação do blogue não será activada.

 

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publicado às 15:00

Futebol com humor à mistura (25)

Rui Gomes, em 14.05.17

 

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Mais uma edição de comentários humorísticos da autoria de Rogério Casanova, jornal Expresso, relativamente à performance dos jogadores do Sporting nos jogos da I Liga, desta vez no jogo deste sábado com o Feirense:

 

Rui Patrício

Uma pequena viagem no tempo, e um jogo bastante diferente do que tem sido hábito nesta época penosa. Teve culpas nos golos sofridos? Não, não exactamente. Mas o que teve no primeiro golo foi, num certo sentido, ainda melhor, mais profundo, mais característico: teve um bocado de azar! Antes já tinha evitado outro, com uma defesa por instinto aos 13 minutos, e voltou a fazer excelentes defesas aos 38 e 87. Nos descontos, com todos os colegas animicamente de rastos e sem vontade alguma de estar em campo, deu uma corrida desenfreada para ir buscar a bola fora da área e acelerar a reposição em jogo, na esperança de que o empate ainda fosse possível. Foi o momento mais comovente da noite, e talvez da época.

 

Schelotto

“Onde reside a contradição cómica?”, perguntam vocês, tendo fumado a quantidade suficiente de charros para tal. Aqui, por exemplo, respondo eu, a partir das profundezas intoxicadas da minha total incredulidade: na colisão entre as leis imutáveis e inorgânicas que regulam o universo material (que não possui telos) e o comportamento de criaturas vivas e conscientes – que são dirigidas por impulsos de curto ou longo prazo, ou então, em casos raros, se chamam Schelotto. Ignorar o presente em função do futuro é o que nos torna humanos. Mas também é o que nos faz tropeçar no obstáculo ignorado, ou espatifar passes simples contra tornozelos não antecipados, ou então, em casos raros, ganhar uma internacionalização pela Itália e jogar no Sporting. “Porquê, porquê”, perguntam vocês, acendendo mais uma. Porque lol, porque nothing matters, porque um dia vamos todos morrer.

 

Coates

Quase sempre intransponível nos lances disputados com os avançados do Feirense, roubando bolas no confronto directo com a tranquilidade do costume. A construir esteve menos bem, e participou em algumas saídas de bola atabalhoadas e precipitadas, o que pode reflectir apenas uma vontade de se integrar no espírito de grupo. Aos 92, numa altura em que ainda podia haver algumas dúvidas sobre a exibição do guarda-redes adversário, teve a generosidade suficiente para ir lá à frente permitir-lhe uma defesa para acabar com as dúvidas.

 

Rúben Semedo

Adivinhou-se-lhe cedo a intenção de conceder imunidade diplomática ao adversário, e a defender foi intransigente na aplicação da doutrina da coexistência pacífica. A bola, quando existe, é para todos, e não seria Rúben Semedo a criar as condições de opressão para impedir 50% da população em campo de se divertir também com ela, tendo por esse motivo evitado fazer muitos cortes. Mas quando um avançado do Feirense lhe ganhou espaço já dentro da grande área, considerou que isso era ir longe demais e abusar da sua magnanimidade, tendo retaliado de pronto.

 

Jefferson

Ronaldinho Gaúcho patenteou a habilidade que consiste em olhar para um ponto indefinido à sua frente e passar a bola para o colega ao seu lado. Imbuído da mesma criatividade brasileira, Jefferson desenvolveu a proeza análoga de olhar para um colega ao seu lado e passar a bola para a bancada à sua frente. Apesar de tudo, não fez um jogo horrível (é este o padrão de avaliação actual), e ganhou algumas faltas com jogadas de insistência. Nota artística também ao minuto 82, quando teve algum espaço na linha, mas antes de efectuar novo cruzamento, decidiu ensaiar uma pequena dança regional em cima da bola.

 

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publicado às 15:00

Futebol com humor à mistura (24)

Rui Gomes, em 10.05.17

 

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A terceira e última série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no encontro da última jornada com o Belenenses:

 

Bryan Ruiz

Grande momento ao minuto 33 quando apalpou a bola com a perícia de um connoisseur e exigiu ao árbitro a sua troca imediata. "A bola", esclareceu o comentador da Sport TV, "que é um instrumento fundamental neste jogo". É irrefutável. Outro instrumento fundamental neste jogo é a presença em campo de jogadores que saibam fazer mais do que perceber se a bola tem ar ou não.

 

Bas Dost

Um jogo em que supervisionou atentamente o tráfego aéreo de bolas que sobrevoaram o seu instinto finalizador ao longo de noventa minutos. A época que fez, o número de golos que marcou, é própria de um titular num clube campeão (embora em jogos como o de hoje pareça um milagre). Por outro lado, sem Dost, a época seria um cadáver encontrado num contentor nas traseiras de um armazém em Xabregas.

 

Joel Campbell

Substituiu Ruiz e assumiu ele as despesas de fazer maus cruzamentos a partir da faixa esquerda. Entrou cheio de vontade de cumprir essa honrosa missão, e nos primeiros minutos em campo conseguiu fazer maus cruzamentos por alto, maus cruzamentos rasteiros, e maus cruzamentos contra os adversários. Depois foi-lhe faltando a versatilidade necessária para conseguir não tropeçar na bola quando progride com ela, o que dificultou naturalmente a execução de maus cruzamentos adicionais.

 

Luc Castaignos

A "Hipótese Campbell-Castaignos" poderia ser um bom nome para uma teoria científica sobre o comportamento de partículas sub-atómicas. Nunca poderia, nem nunca poderá, ser uma dupla substituição feita na segunda parte para tentar ganhar um jogo.

 

Francisco Geraldes

DÊEM-LHE. MAIS. MINUTOS. PORRA.

 

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publicado às 05:12

Futebol com humor à mistura (23)

Rui Gomes, em 09.05.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Belenenses:

 

William Carvalho

Desde que a época deixou de proporcionar expectativas realistas para a conquista de algum troféu, William tem alternado exibições no limite inferior do razoável e exibições francamente incompreensíveis. A de hoje esteve num ponto intermédio desse penoso eixo, sempre naquele estilo de deus otiosus: a divindade que imaginou o futebol e todas as suas implicações num passado longínquo, mas que agora encara a Criação com a apatia perplexa de quem sente o fragmentar da sua infalibilidade, de quem vê a sinistra obstinação dos objectos em resistir às suas intenções, de quem prefere retirar-se para o Olimpo e pintar aguarelas em vez de continuar ali a tentar perceber o que raio nos aconteceu a todos, e a ele.

 

Adrien Silva

Na melhor oportunidade da primeira parte, rematou ao lado, e foi ele quem fez a falta que resultou no 1-2. É outro caso de fadiga mental permanente, que lhe parece reduzir a cada lance o número de alvos ao dispor da sua frenética intuição. Dedicou quase toda a energia hoje a recuperar bolas que ele próprio tinha perdido, dissipando o resto em más faltas, e más ideias. O esforço que se lhe vê é nesta altura mais desespero do que garra - joga como um revolucionário cujo objectivo inconsciente não é a tomada do poder, mas a gloriosa auto-imolação.

 

Matheus Pereira

Entrou muito mal na tomada de decisão e presidiu ao velório de algumas jogadas promissoras nos primeiros minutos. Quando passou para a faixa esquerda teve mais bola, e mais espaço - dádivas que encarou sempre com a desconfiança de quem acordou em Tróia e encontrou um enorme cavalo de madeira no sítio onde deviam estar os chinelos de praia. Os gemidos de impaciência da bancada fizeram-se ouvir infalivelmente nas situações erradas - as raras vezes em que arriscou o lance individual, nalgumas perdendo a bola, noutras criando esporádicos desequilíbrios - quando o que devia ser assobiado sem contemplações é a sua propensão para se livrar da bola o mais depressa possível. A ideia que fica desde que se estreou na equipa principal é que lhe falta arrogância à altura do talento.

 

Bruno César

Marcou cantos (com a inócua competência do costume). Tentou desequilíbrios (com a inócua competência do costume). Na sua passagem pela faixa esquerda (jogou, também como é costume, em quatro posições diferentes) construiu a melhor jogada ofensiva da primeira parte, deixando Adrien em boa posição para fazer golo. Acabaria por ser ele a fazê-lo, finalizando em esforço um centro disparatado de Ruiz e embatendo com violência no poste. Para surpresa de todos, não se auto-adaptou a médico para resolver ele mesmo o problema.

 

Terá sido, não pela primeira vez, dos menos maus hoje.

 

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publicado às 04:07

Futebol com humor à mistura (22)

Rui Gomes, em 08.05.17

 

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A já bem conhecida rubrica de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no desaire diante o Belenenses:

 

Rui Patrício

Não teve culpas no primeiro golo sofrido! Ainda adivinhou o lado para o qual Camará rematou, mas era impossível adivinhar que o remate de Camará transportava informação encriptada directamente por Eurípedes sobre a fúria de Medeia, cidades incendiadas, o assassinato de Glauce e Creonte, e a honra ferida da cidade de Corinto, pelo que não era justo pedir-lhe mais. Também não teve culpas no segundo golo sofrido. Nem no terceiro golo sofrido. Durasse o jogo mais noventa minutos e estaria igualmente ilibado de quaisquer culpas no quarto, quinto e sexto golos sofridos. #consistência.

 

Schelotto

Aos cinco minutos, em vez de cruzar, preferiu poupar tempo a todos os envolvidos (colegas, adversários, público) chutando a bola directamente contra os painéis publicitários em vez de a catapultar para trás da baliza de Ventura. Decisão que se compreende a aplaude, e que chegou a sugerir aos mais optimistas o florescer de uma nova maturidade competitiva. Ainda voltou a fazê-lo na segunda parte, mas um episódio de recidivismo levou-o depois a tentar cruzar para a área. Também na segunda parte - antes, muito antes, de perder criativamente a bola que viria a resultar no penálti para o Belenenses - mostrou toda a sua capacidade para a inesperada proeza de coordenação motora, ao fazer um carrinho em esforço para conseguir chegar a uma bola que lhe tinha sido passada para os pés, e quando estava sozinho junto à linha. O dia em que usa o "carrinho em esforço" até para entrar em campo não deve estar longe.

 

Paulo Oliveira

Quando nos metemos em cima de uma balança, estamos essencialmente a aprender a soma dos núcleos dos nossos átomos, essas centelhas de massa que nos dotam de integridade e (em casos excepcionais) competência, no interior de uma nanovastidão de espaço vazio; subtraíssemos essa massa e pesávamos todos 20 gramas. É tudo uma questão de escala: se o núcleo de um átomo fosse uma bola de futebol no centro do planeta, os electrões seriam uma nuvem de pevides a pairar nas camadas exteriores da atmosfera. Entre a bola e as pevides, não haveria nada: nem níquel, nem ferro, nem magma, nem solo, nem Terra, nem ar, nem amor, nem sorte, nem a perna esquerda do Paulo Oliveira, nem tão pouco a direita, e muito menos a cabeça. Apenas a presença solidamente espectral de Gonçalo Silva, natural do Barreiro, onde se situam, de resto, imensos electrões.

 

Coates

Começou o jogo a dobrar William, que tentava dobrar Bruno César, que tentava dobrar Zeegelaar, que tentava dobrar Hezron, que tentava dobrar Amminadab, que tentava dobrar Jehoshaphat, que tentava dobrar Eliakim - e assim sucessivamente, na intrigante recriação do Evangelho segundo São Mateus que foi hoje o processo defensivo do Sporting. Ao minuto 57, depois de nova dobra defensiva em que desarmou Camará depois de este ultrapassar Paulo Oliveira, ensaiou uma dobra ofensiva, desenvolvendo a melhor jogada feita por um indivíduo na posição de lateral-direito durante a partida de hoje.

 

Zeegelaar

Tal como filmes e romances, os desportistas também se podem dividir em géneros. Há desportistas trágicos, com carreiras dramaticamente enriquecidas por várias calibrações de desgraça e acidente; desportistas épicos, destinados a percursos coroados com momentos de glória. Há desportistas que são ficção científica (Messi); e desportistas que são epopeias bélicas ao estilo Tora! Tora! Tora! (Ronaldo). Há desportistas da Harlequin, cuja popularidade depende menos da qualidade do que de satisfazerem outras preferências (Nuno Capucho, Anna Kournikova). E depois há desportistas que laboram a vida inteira num equívoco, absolutamente convencidos de que são um soneto de Petrarca, quando na verdade são uma curta-metragem de Ed Wood: tentáculos de borracha presos por arames, erguidos no topo de um ego inexplicável.

 

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publicado às 03:30

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