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Peyroteo, Goleador e Cavalheiro

Leão Zargo, em 10.10.15

 

Há citações de determinados autores que se colam de tal maneira à pele de jogadores de futebol que, quando pensamos neles, imaginamos cada palavra desenhada no seu corpo. É o caso de uma afirmação escrita por Albert Camus, em Argel, na década de 1950: “Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol e ao que aprendi no Racing Universitário de Argel".

 

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Quando me vem à ideia esta frase do autor de “O Estrangeiro” que teve uma carreira de guarda-redes interrompida pela tuberculose, e a associo a um jogador, é em Fernando Peyroteo que penso em primeiro lugar. O jogador leonino é uma figura incontornável do futebol português pela qualidade e eficácia do seu desempenho como avançado de centro, pela honestidade e galhardia com que se batia contra os adversários e pela ética e sentido de honra que revelou sempre como praticante desportivo.

 

Nascido em Angola, chegou a Lisboa apenas com 19 anos para jogar nos leões, vindo da filial de Luanda. Esperavam-no, para além de familiares, o amigo de adolescência e jogador leonino Aníbal Paciência e directores do Sporting, dirigindo-se todos de imediato à sede do Clube no Palácio Foz. Apesar de muito jovem, Peyroteo já era um futebolista conhecido o que explica o assédio apertado feito pelo Benfica e pelo Porto nas semanas que se seguiram. Recusou os dois clubes de modo peremptório, garantindo que já tinha contrato assinado, embora na realidade ainda não o tivesse formalizado. A sua palavra valia como uma assinatura.

 

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Ficou conhecido o cavalheirismo com que se relacionava com todos aqueles que o rodeavam no futebol, nomeadamente os rivais. Entre estes destacava-se outro angolano, o avançado benfiquista Guilherme Espírito Santo com quem manteve uma longa relação fraterna. Sobre ele, o grande Peyroteo que muitos consideram o melhor avançado português de sempre, afirmou o seguinte: “O Guilherme sempre foi melhor jogador de futebol do que eu, mais técnica, mais jogo. Menos prático, menos golos? Sim, também é verdade. Mas mais jogador.” O futebol e as suas histórias. E o que seria do futebol sem histórias para contar?

 

Peyroteo encarava o futebol com uma seriedade e integridade inultrapassáveis. Na sua festa de despedida em 5 de Outubro de 1949 num jogo frente ao Atlético de Madrid, justificou o abandono que muitos consideraram prematuro por ter marcado 40 golos em 23 jogos do Campeonato Nacional: "Fui soldado nas fileiras do desporto nacional e um soldado não foge ao cumprimento do seu dever, seja qual for e em que circunstâncias for! Mas, de hoje em diante, reconheço que sou um soldado velho, não posso corresponder às exigências de preparação de um jogador de futebol que queira manter-se em forma e ser útil ao seu Clube e à modalidade que pratica. Quando entro em campo, vou cheio de vontade de jogar, mas, depois de meia dúzia de pontapés na bola, apodera-se de mim um enfastiamento inexplicável.” Afinal de contas, um campo de futebol é como que um arquivo de memórias e o jogador não quis aceitar que a realidade do seu declínio físico ensombrasse o imaginário que os adeptos construíram de uma carreira invulgarmente prodigiosa e épica.

 

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José do Carmo Francisco dedicou a Peyroteo um belíssimo poema publicado em "Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e  outros retratos”, livro que já foi referido aqui no Camarote Leonino. O poeta invocou a chegada de Peyroteo ao Cais da Rocha do Conde de Óbidos, em 1937, embarcado no navio Niassa.

 

Peyroteo – 1937

 

Como são lentos os eléctricos da carreira de Belém

Que vejo passar bem perto da amurada deste navio

Cheguei de Angola com saudades da minha mãe

Sem nada saber do que se diz nos cafés do Rossio

 

Há um comboio em Sintra a sair pela madrugada

Que me larga no Rossio para apanhar um amarelo

É muito duro o caminho. Triunfar é uma estrada

Talvez demasiado longa para o meu olhar singelo

 

Os golos que vou marcar no país e no estrangeiro

Nascem destas longas manhãs de treino e cansaço

Tudo o que faço é sincero e verdadeiro

A mentira desonesta não tem lugar no meu espaço

 

Sem carta de desobrigação eu aqui não jogava

Ainda hoje estou para saber qual foi a razão

Em Lisboa os directores e toda a gente evitava

Explicar porque não a trouxe eu na minha mão

 

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publicado às 12:37

Obras de José do Carmo Francisco

Rui Gomes, em 06.09.15

 

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Algumas outras obras do grande sportinguista José do Carmo Francisco, figura central do post de Leão Zargo com o seu livro "Retratos" de sportinguistas.

 

 

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publicado às 05:19

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