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O futebolicídio dos europeus

Rui Gomes, em 26.07.17

 

Europa criou o maior toxicodependente de todos os tempos. E ainda não lhe chega.

 

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FC Porto e Sporting focam-se na teia de poder do Benfica, que julgam ameaçá-los e excluí-los. O Benfica, maquiavélico, imagina-se realeza e candidato (candidato único!) a um lugar na mesa dos ricos da Europa, ou pelo menos às migalhas que eles deixarem cair, neste golpe de Estado à Erdogan que as quatro grandes ligas puseram em andamento na UEFA.

 

A Liga não consegue sair das conversas à Octávio Machado e do dossiê retretes de balneário, assembleia sim, assembleia não. E a FPF delira com o sucesso das selecções nacionais, como todas as federações fariam, porque não me lembro de nenhuma que pensasse para além disso. São os quatro mundos à parte em que vivem as maiores instituições do futebol em Portugal, enquanto o verdadeiro futuro do campeonato português e a expressão internacional dos clubes vão sendo obliterados, às pazadas de 50 e 80 milhões de euros injectadas nas veias roxas e salientes do maior toxicodependente de todos os tempos, que é o futebol europeu.

 

Confirmado, e reconfirmado, o efeito inflacionista dos últimos contratos televisivos das ligas inglesa (sobretudo esta) e espanhola, cada transferência alucinada e cada salário demencial são atentados aos países pequenos e vistos gold para o banditismo descontrolado que tomou conta da FIFA, das transferências, talvez da Federação espanhola e sabe-se lá de mais quantos organismos. O Manchester City gastou 183 milhões de euros em três laterais (dois para o mesmo lado, obviamente) e um guarda-redes. É monopólio, açambarcamento, obscenidade, luxúria, descaramento, cegueira, degradação, inconsciência. Mas parece que no futebol do século XXI só se encontra dois tipos de pessoas: os demasiado espertos e os que pensam que são espertos o suficiente.

 

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

 

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publicado às 04:55

Octávio passageiro

Rui Gomes, em 24.07.17

 

Não era difícil prever que a relação entre Octávio Machado e Bruno de Carvalho chegasse ao fim com estrondo.

 

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Há mais ou menos dois anos, quando foi anunciada a contratação de Octávio Machado pelo Sporting, antecipei neste espaço que a relação entre o novo director-geral e Bruno de Carvalho tinha tudo para funcionar mais ou menos como os submarinos que, como todos sabemos, até podem flutuar, mas foram feitos para afundar.

 

De resto, considerando a rigidez, beligerância e inflexibilidade das personalidades em causa, era tão previsível a rotura que agora se confirma, como fatal o estrondo provocado pelo inevitável choque que se lhe seguiu. Expressões como "cobarde", "passarinho", "terceira escolha" ou "isto não é a Santa Casa" e "um especialista em áreas mentais que trate dele" são tão duras como pouco surpreendentes, considerando os protagonistas.

 

Quanto a consequências, também é possível antecipar algumas. Para Octávio Machado, que já tinha batido a porta do FC Porto com a mesma violência e que passou os últimos dois anos nas trincheiras de Alvalade a disparar sobre o Benfica, o tumultuoso processo de saída do Sporting significa muito provavelmente o fim do envolvimento directo no futebol português ao mais alto nível. Para Bruno de Carvalho, mais uma separação litigiosa pode encerrar pelo menos uma lição importante: é muito complicado apontar ao futuro apostando em soluções do passado.

 

Mais difíceis de prever são as consequências que tudo isto poderá ter no relacionamento entre o presidente leonino e Jorge Jesus, principal responsável pela chegada de Octávio a Alvalade. Talvez depois de ouvirmos o que o treinador terá a dizer sobre o assunto tudo fique mais claro.

 

 

Jorge Maia, jornal O Jogo

 

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Entretanto, Octávio Machado, em declarações ao jornal O Jogo, deu o caso da guerra aberta entre ele e Bruno de Carvalho por encerrado:

 

«O Sporting e os sportinguistas não merecem que isto se estenda no tempo. Dado todo o respeito que tenho pela instituição e a sua massa associativa e adepta, é 'finito'.

 

Nada disto deveria ter acontecido. O Sporting precisa de estabilidade, mas lamento profundamente. Não podia permitir as ofensas que me foram feitas. Fico-me por aqui».

 

Ainda bem que o bom senso prevaleceu, tardio mas ainda assim bem vindo, e esperamos que isto seja mesmo o fim de um episódio indecoroso em que só o Sporting saiu a perder.

 

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publicado às 04:25

O Selecções FC

Rui Gomes, em 17.07.17

 

O caminho internacional é mais dos subtítulos do que dos títulos...

 

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O futebol dos clubes está fora do controlo para os portugueses em tudo. Não têm, nem terão, mercado para competir com ingleses, espanhóis e alemães; não têm receitas alternativas a esse mercado; e não têm voz na UEFA ou na FIFA, onde a péssima e suicidária redistribuição da riqueza quase não é tema. Restam as selecções, porque (ainda) não é possível aos ingleses, espanhóis e alemães pilharem os talentos dos outros países "à la carte", como fazem nos clubes.

 

Talvez no futuro a animação que mais esta final do Europeu de sub-19 provocou por cá seja tudo a que Portugal poderá aspirar fora das suas fronteiras. Talvez estejamos prestes a tornar-nos um novo tipo de adeptos dos subtítulos, em vez dos títulos. Talvez o PSD, quando quis dar um tiro na Liga de futebol profissional esta semana, estivesse só a ser misericordioso.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 03:43

Maus hábitos e boas práticas

Rui Gomes, em 09.07.17

 

Fernando Gomes sentiu a necessidade de recordar que à mulher de César não basta ser honesta

 

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Não deixa de ser relevante que Fernando Gomes tenha sentido a necessidade de recordar, por carta dirigida aos presidentes dos órgãos sociais da Federação Portuguesa de Futebol, que os elementos que os integram não devem solicitar nenhum tipo de oferta a qualquer agente desportivo. Nem deixa de ser significativo que a missiva mencione de forma específica os pedidos de bilhetes para jogos de futebol. Afinal, a oferta de ingressos, precisamente a elementos de órgãos sociais da FPF, é um dos temas levantados em alguns dos alegados emails recentemente divulgados pelo FC Porto.

 

Sendo obviamente de louvar a preocupação do presidente da Federação com a moralização do futebol português, o facto de sentir a necessidade de o fazer precisamente agora e de forma pública há de significar alguma coisa. Quer dizer, se os maus hábitos não existissem, não havia necessidade de recordar as boas práticas, pois não?

 

Jorge Maia, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:41

Desejo de morte

Rui Gomes, em 23.06.17

 

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O Red Bull Leipzig e o Red Bull Salzburgo foram autorizados a participar na Liga dos Campeões, apesar de serem ambos controlados pela Red Bull. Diz a UEFA que "não há violação" do artigo 5.º, em que se protege a integridade das competições e a verdade da concorrência. Vai passar-nos despercebido, mas é um precedente grave, que abre todo um novo campo de atuação à concentração capitalista, à mercantilização do jogo e - pior - à mentira desportiva, já sob ameaça pelo recrudescimento das apostas ilegais.

 

Às vezes acho que este jogo tem um desejo de morte.

 

Joel Neto, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:57

Tem a palavra a Federação

Rui Gomes, em 16.06.17

 

A confirmação da existência dos emails divulgados pelo FC Porto obriga a FPF a agir rapidamente.

 

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Bem espremido, o essencial do comunicado emitido ontem por Mário Figueiredo, ex-presidente da Liga, é fácil de resumir: os emails divulgados pelo FC Porto na véspera existem mesmo. Depois há o facto de não chegar a explicar porque se despede de Luís Filipe Vieira dizendo "sempre tenho estado e estou ao TEU LADO", assim mesmo, em maiúsculas, embora por esta altura se perceba que a linguagem utilizada nestas trocas de mensagens é muitas vezes carinhosa e até ternurenta, como fica evidente no "só quero ser um menino querido para vocês" enviado por Nuno Cabral a Paulo Gonçalves.

 

Também faltou a Mário Figueiredo explicar a diligente resposta ao "pedido" do mesmo Paulo Gonçalves, quando o assessor jurídico da SAD do Benfica intercedeu a favor do "menino querido" para lhe garantir a presença num jogo da I Liga, mas talvez ainda venha a ter oportunidade de o fazer. Aliás, aquilo que é justo esperar de toda esta polémica é que tudo seja devida e cabalmente explicado, conforme, de resto, foi solicitado pela APAF aos organismos competentes da Federação Portuguesa de Futebol.

 

Neste momento há uma incontornável suspeita sobre a forma como o atual quadro de árbitros e delegados foi sendo definido ao longo dos últimos anos para favorecer os interesses de um clube, a começar pelas evidências de influência sobre o sistema de avaliação. Uma suspeita que não pode ficar sem resposta, sob risco de descrédito de todo o edifício do futebol português. Sendo os árbitros que estão em causa, é natural que sejam eles os primeiros a querer levar o caso até às últimas consequências, mas não podem ser os únicos. Tem a palavra a Federação.

 

 

Jorge Maia, jornal O Jogo

 

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publicado às 03:53

Liga profissional de clubes a vapor

Rui Gomes, em 15.06.17

 

Lugares pouco recomendáveis no futebol: túneis, televisões, becos escuros à volta dos estádios e assembleias da Liga.

 

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Os cigarros eletrónicos venceram as claques ilegais enquanto maior ameaça para a segurança das crianças, mães e avós que querem ver futebol e não podem (a acreditar em alguns freis beneditinos). Seguem-se as chicletes e o gel de cabelo.

 

Ao fim de uma época tão abominável como esta, a imagem que os clubes profissionais quiseram passar em Assembleia Geral foi a de marionetas noutro joguinho barato de directores de comunicação. Não é que acrescentar ao regulamento a interdição de estádios por apoio às claques ilegais fosse muito diferente, mas pelo menos não reduzia um órgão nobre da Liga à função de instrumento de anedotas e pirraças. Apesar de tudo, seria menos absurdo propor regras contra um clube (o Benfica) do que contra uma pessoa (o presidente do Sporting), embora tanto um como o outro se desviem quilómetros dos debates que o futebol profissional devia estar agora a fazer, e sejam igualmente inúteis.

 

Em Portugal, não se interdita estádios, de resto uma punição que o Instituto Português do Desporto já podia ter aplicado ao Benfica há muito tempo, e que poderá aplicar no futuro. Isto não significa que tenha lógica fechar os olhos ao primeiro lugar destacado que os adeptos do Benfica ocupam no número de incidentes registados nos últimos anos (ver revista Sábado do dia 4 de maio); ou fazer de conta que as atitudes de Bruno de Carvalho não cultivam legiões de germes. Significa apenas que um grupo de adultos assumiria estes problemas em voz alta e negociaria formas de os resolver em conjunto, em vez de se transformar apenas noutra arena de mesquinhez, a juntar aos túneis, às televisões e aos becos escuros em volta dos estádios.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:01

As missas negras de Adão Mendes

Rui Gomes, em 08.06.17

 

O apuramento da raça e a confiança ilimitada do Benfica na arbitragem

 

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O FC Porto divulgou, ontem, um pingue-pongue de e-mails entre o ex-árbitro Adão Mendes e o diretor da Benfica TV, e comentador, Pedro Guerra. Esses e-mails falam, sobretudo, de uma confiança sem limites na arbitragem, especialmente bem traduzida por uma frase que vem ao encontro de um diagnóstico feito, desde há alguns anos, por muita gente ligada aos apitos e que (não duvido) esteve na origem do afastamento do anterior presidente do Conselho de Arbitragem da FPF: "Vamos ter os padres que escolhemos e ordenámos nas missas que celebramos." (Aqui devemos marcar um limite: nas conversas reveladas pelo FC Porto, são mencionados oito árbitros, mas isso não faz deles culpados.)

 

A tese de que houve uma espécie de apuramento cuidadoso da raça nos últimos anos, levando à constituição de um lote de árbitros de acordo com gostos muito específicos, não é estranha a ninguém, nem à FPF, nem ao actual Conselho de Arbitragem, que enfrenta esse problema a cada nomeação. Eu próprio escrevi sobre o tema várias vezes, até para explicar a prisão de movimentos do CA de Fontelas Gomes, e nunca recebi reclamações.

 

O diálogo de Adão Mendes com Pedro Guerra, datado de 2013/14, vem apenas tornar mais desconfortável a posição de quem não quer explicar como acabou o futebol profissional nesta camisa de forças, manietado ao ponto de ser irrelevante quem preside ao CA. A conversa está ali, existe (como existem as escutas do Apito Dourado, sim, e essas foram julgadas), provavelmente passará em claro na Imprensa de Lisboa, porque é assim a vida, mas era bom, num mundo perfeito, que esclarecêssemos bem esclarecida essa confiança tão grande de Adão Mendes na arbitragem e também, se não for já muito incómodo, quem castiga, afinal, os incautos que ainda se atrevem a prejudicar o Benfica.

 

José Manuel Ribeiro , jornal O Jogo

 

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publicado às 13:34

O erro de Simão

Rui Gomes, em 01.06.17

 

Faltou a inteligência

 

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Não me juntarei ao coro dos que entendem que um futebolista não pode eleger o pior onze com que jogou. O discurso de futebol em Portugal está tão formatado, esvaziado e banalizado que censurar tal possibilidade já nem fica no domínio do politicamente correto, mas no do (digamos) insuportavelmente bafiento.

 

Falta sentido de humor entre nós. Falta ironia e falta autocrítica, e um jogador escolher o pior onze da carreira pode não só constituir uma importante ressalva a essa melancolia, mas trazer uma nova perspectiva a um debate que o excesso de "soundbite" ameaça reduzir a quase nada.

 

Tudo isto em abstracto, claro. Em concreto, Simão foi Simão. Esqueceu-se da delicadeza essencial de se colocar a si mesmo no dito onze. Não por verosimilhança, mas por cortesia: ele próprio, no ataque, ao lado de Ouattara.

 

Teria sido um acto de inteligência capaz de proteger todo o humor da entrevista sem, por exemplo, provocar a reacção - humana, evidentemente - de Fernando Aguiar. Mas eu não esperava melhor de alguém que tantas vezes vilipendiou o clube que o foi buscar pré-adolescente a Trás-os-Montes e lhe deu tecto e sustento até o entregar à oportunidade de se tornar um homem...

 

 

Joel Neto, jornal O Jogo

 

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publicado às 03:52

Eles vingam-se

Rui Gomes, em 31.05.17

 

Já era tempo disso...

 

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E, de repente, podemos bem vir a ficar sem nenhum dos guarda-redes titulares dos grandes: Ederson, Rui Patrício e Casillas estão todos (ou parecem estar) em diferentes estágios de negociação de contratos melhores. Tem uma série de significados, essa coincidência. Mas um sobre todos os outros: os homens da baliza vingam-se.

 

Ainda bem, porque são os jogadores mais negligenciados do futebol. Basta ver o ranking dos mais caros de sempre: apenas três ultrapassam os 25 milhões, e só dois nos últimos quinze anos. Apesar disso, são eles os mais frequentes bodes expiatórios de um fracasso. A eles cabe muitas vezes a conservação da mística do balneário. E nenhuma outra posição prevê tão pouca margem para errar.

 

Os guarda-redes são os bateristas do futebol. Não são tão famosos como os vocalistas, não são tão bem pagos como os guitarristas e só em casos muito excepcionais - como o de Buffon - lhes pertence a liderança da banda. O único consolo que têm é que, como os bateristas, são eles quem parte mais corações às raparigas.

 

É mais uma prova de como elas fazem falta a este jogo: há pelo menos um aspecto em que o percebem melhor do que nós. Não é um aspecto pequeno: sabem bem onde está o heroísmo.

 

É FAZER AS CONTAS

 

Mais glória que plantel

 

Foi uma das melhores épocas da história do Benfica, e Rui Vitória merece-a. Mas vale a pena perguntar se este é um dos melhores plantéis da história encarnada também. Se não for, então as contas são evidentes: foi uma das piores épocas das histórias do FC Porto e do Sporting.

 

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publicado às 05:15

A idade adulta

Rui Gomes, em 22.05.17

 

Jorge Jesus e Bruno de Carvalho estão agrilhoados um ao outro, mas o que lhes convém é uma autoavaliação. Dura.

 

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Antes de ser uma decisão, a permanência de Jesus no Sporting era uma fatalidade e, depois de ser uma fatalidade, tornou-se uma condenação. Uma condenação dupla, para um treinador incapaz de perceber os seus limites ou a responsabilidade que o ordenado e o egocentrismo lhe dão, e para um presidente que gera vinte problemas desnecessários por cada um que resolve.

 

A culpa há de ser nossa, dos jornais, porque a melhor forma de administrar a má relação entre os dois é mentindo, mas nós não somos importantes. Importante, para o Sporting e para os sportinguistas, seria que, sendo um belo treinador, Jesus intuísse o temperamento, a preparação e o equilíbrio que lhe faltam para ser o senhor absoluto de um grande clube no século XXI. E que Bruno de Carvalho percebesse algo parecido sobre si próprio, mais, eventualmente, a noção de que terá de ser outro o interlocutor de Jesus no Sporting. Alguém com mais futebol no sangue e uma bagagem profissional que o ponha meio degrau acima do treinador.

 

Provavelmente, qualquer uma destas premissas é pedir de mais a duas pessoas inflexíveis e ao mercado de diretores desportivos carismáticos, mas já não seria mau para esta nova época que Jesus metesse, finalmente, na cabeça que o Sporting não o contratou para gastar o mesmo dinheiro que ele gastava no Benfica: contratou-o porque era suposto ele ser um génio a produzir craques do vácuo (palavra do senhor, quase literal). Por outro lado, ser presidente implica compreender o que está à volta; perceber as dificuldades alheias; assumir que ir ao mercado comprar jogadores exige conhecimento e experiência; admitir as culpas próprias, quer na montagem da equipa, quer na instabilidade que tantas vezes provoca com aquela ingenuidade mascarada de convicção.

 

A palavra que vou usar para acabar pesa como chumbo, mas é justa: o Sporting precisa de adultos.

 

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 12:00

Fantasmas

Rui Gomes, em 18.05.17

 

Mais do que fazer questão de manter Jesus em Alvalade, Bruno de Carvalho não o quer ver no Dragão.

 

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Jorge Jesus tem uma dívida de gratidão para com o FC Porto que se mede em milhões de euros. Muitos milhões de euros, para ser mais exacto, que o agora treinador do Sporting e antes treinador do Benfica ganhou ao longo dos últimos anos graças ao FC Porto.

 

Ou pelo menos ao fantasma do FC Porto que assombrou Luís Filipe Vieira, levando-o a inflacionar-lhe catastroficamente os ordenados, e que agora assombra Bruno de Carvalho, mantendo o presidente leonino pouco menos do que refém do treinador.

 

Afinal, por esta altura, parece evidente que, mais do que querer manter Jesus em Alvalade, o presidente do Sporting não quer correr o risco de o ver no Dragão. Exactamente até onde estará disposto a ir para o garantir é o que resta saber. Isso e quanto Jesus ganhará ao certo desta vez.

 

 

Texto da autoria de Jorge Maia, jornal O Jogo.

 

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publicado às 15:00

Pequenos passos

Rui Gomes, em 17.05.17

 

Se quiserem reduzir a diferença para o Benfica, Sporting e FC Porto têm de meter pés ao caminho.

 

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Enquanto o Benfica festejava a conquista do tetra, desta vez na Câmara Municipal de Lisboa, Sporting e FC Porto davam passos na preparação da próxima temporada. Os leões anunciaram a contratação de Piccini e Mattheus para juntar na lista de reforços a André Pinto, enquanto os dragões oficializavam as renovações com Galeno e Kayembe, ambos com lugar reservado pelo menos na pré-época.

 

A esta distância, não se pode dizer que sejam passos enormes, mas são passos e, se não significarem mais nada, significam que tanto em Alvalade como no Dragão há a consciência de que é preciso pôr os pés ao caminho. Nos festejos do tetra, Luís Filipe Vieira disse que o Benfica tinha pelo menos dez anos de avanço sobre os rivais. Até olhando para aquilo que foi o campeonato até há um par de jornadas, talvez dez anos seja um exagero, mas é verdade que os encarnados partem para a próxima temporada como partiram para as últimas quatro: em vantagem.

 

 

Jorge Maia, jornal O Jogo

 

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publicado às 17:35

A faca e o queijo

Rui Gomes, em 13.05.17

 

Tudo na mesma mão

 

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É possível que eu esteja a ler tudo isto à luz errada, e de qualquer modo ainda vai ser preciso esperar algum tempo até que não restem dúvidas sobre os resultados desta crise no Sporting. Hoje, o que me parece é que Jesus saiu fortalecido no status quo leonino.

 

Bruno de Carvalho criticou-o e criticou-o bem. Jesus é um grande treinador e faz agora um ano que quase operava um dos mais extraordinários milagres da história do futebol português. Mas era o que faltava o presidente de um clube como o Sporting não poder indignar-se com uma época tão miserável como a que agora finda.

 

Apesar disso, e menos curiosamente do que talvez fosse conveniente, Jesus conservou com facilidade não só o ónus, mas o próprio (digamos) privilégio da palavra sobre a sua continuidade. Vendeu a mensagem de que poderia ouvir outras propostas e ainda conseguiu mobilizar José Maria Ricciardi para um (vá lá) casualíssimo encontro de intercedência beata.

 

Já então os sinais apontavam todos no mesmo sentido: vitória do treinador. Teria de ser o inevitável post vespertino de BdC - sobretudo se fosse mal escrito, provando autoria efetiva - a declinar a impressão. Pois, feliz ou infelizmente, por cada burocrático sinal de autoridade há nele um ruidoso ponto de exclamação (ou outro superlativo qualquer) a brindar o treinador.

 

Quem saiba mais de semiótica poderá fazer melhor leitura. A mim, o que isto sugere é que Bruno de Carvalho quer muito reclamar a soberania, mas desconfia que não pode dar-se a esse luxo.

 

Resta saber porquê. Se é porque está demasiado amarrado ao treinador, contratual e estrategicamente, não será bom. Se é porque nem sequer concebe outra solução - e represente o Conselho Leonino o papel que nisso representar -, será pior.

 

 

Joel Neto, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:03

O herói Bruno e o juiz Vieira

Rui Gomes, em 08.05.17

 

Afinal, foi a Liga quem atropelou um adepto e o bom senso. Sporting e Benfica estão aí para nos salvar.

 

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A Federação Portuguesa de Futebol teve um enorme rasgo de génio comunicacional e fez implodir as más arbitragens (i.e. a raiz de todos os males) com a aceleração do video-árbitro (VAR) já para 2017/18. Esse anúncio resultou em duas excrescências, para além das reações normais e adultas das pessoas adultas e normais: a primeira foi partir à descoberta de a quem dar a bicicleta, se ao comentador Rui Santos, se ao presidente do Sporting.

 

Aparentemente, foi por genial intervenção de um deles que, ao fim de duas décadas de debate e intransigência, o International Board lá aprovou o uso do VAR, em junho de 2016. Consta que do dossiê de apoio faziam parte 4667 entrevistas de Bruno de Carvalho e dez cópias autografadas da petição "Pela Verdade Desportiva". A segunda excrescência é a transformação de um ato normal da FPF (a arbitragem pertence-lhe e a liquidez financeira também) numa derrota da Liga, através de um comunicado extraordinário do Benfica. Ou seja, menos de duas semanas depois de uma morte, os dois clubes diretamente implicados no conflito querem sair dele por cima.

 

Um é o herói da revolução, que descobriu a penicilina do futebol; o outro é o juiz supremo, inimputável e acusador, que escolheu acusar a Liga, com certeza porque é a Liga que inflama os adeptos e é na Liga que estão a arbitragem e o poder disciplinar. Claro que não o faz por causa disso: fá-lo porque Pedro Proença tem o apoio do FC Porto e porque a ilação a tirar deste período de poucas-vergonhas é que faz falta uma guerra nova já a seguir, para branquear os aborrecimentos (houve algum?) da anterior. E se ajudar a levar também esse restinho de futebol para Lisboa, perfeito.

 

 

José Manuel Ribeiro - jornal O Jogo

 

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publicado às 03:31

Continua a ser cada um por si

Rui Gomes, em 29.04.17

 

Antes de começarem a cantar cumbayá todos juntos, os presidentes dos principais clubes podiam começar por serem capazes de trabalhar em conjunto.

 

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Como já se tornou habitual, Bruno de Carvalho exagerou. Outra vez. Ninguém espera que os presidentes dos três grandes digam que se dão muito bem e cantem cumbayá todos juntos, até porque de cânticos deprimentes está o futebol português cheio. Aquilo que se devia poder esperar de qualquer pessoa, de todos os dirigentes, e por maioria de razão dos responsáveis pelos principais clubes era, isso sim, que actuassem de forma responsável e não passassem a vida a trocar insultos, acusações e suspeitas.

 

Sendo isso aparentemente impossível, talvez fosse razoável esperar que, no mínimo, fossem capazes de trabalhar juntos para proteger a credibilidade, se não do desporto em si, pelo menos do negócio. Afinal, independentemente das respectivas cores, pelo menos esse é certamente um interesse que todos têm em comum.

 

Claro que quando se ouve o presidente do Sporting dizer que as intervenções dos dirigentes "tiram a pressão da panela" e nos recordamos de como, à força de os ouvirmos a eles e aos ecos que têm espalhados em cada esquina, todos a adivinhamos prestes a explodir ainda antes da morte de Marco Ficini, percebe-se que não há muito a fazer. Vai continuar a ser cada um por si e salve-se quem puder, com a certeza de que nesta, como em qualquer luta de elefantes, quem perde é o capim.

 

 

Jorge Maia - jornal O Jogo

 

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publicado às 13:05

Falta um incêndio a cada oito dias

Rui Gomes, em 28.04.17

 

É a constatação amadurecida por Bruno de Carvalho depois da tragédia. Mas parece que Vieira pensa o mesmo.

 

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Reduzir o reboliço dos últimos anos a uma "troca de piropos entre presidentes" é tão descarado que pode ser entendido como um reconhecimento, por Bruno de Carvalho, da contribuição que deu para esta quase guerra civil no futebol. Os dirigentes e as políticas de comunicação que teceram, várias delas explorando a mentira e o insulto sem uma sombra de escrúpulo, podem não ter matado ninguém, mas viraram muitas mesas de café pelo país fora.

 

Só que Bruno não esteve sozinho, nem mesmo quando, perante uma morte, foi a correr para os tribunais jogar o milionésimo pingue-pongue da leviandade com Vieira, que, aliás, iniciara a partida: no momento mais trágico, os presidentes de Benfica e Sporting puseram as indignações pessoalíssimas à frente do travão que se impunha e com isso disseram exactamente a que ponto aquele drama os incomodava. Não vale muito a Luís Filipe Vieira a pose de Estado tão cultivada se a primeira reacção a uma morte é processar Bruno de Carvalho, em vez de parar apenas, como se impunha.

 

É demasiado fácil dizer que os "piropos" não contam para depois poder continuar, alegremente, o tiroteio da Segunda Circular. Tudo conta e nada conta, se quisermos. Quatro dias depois, o presidente do Sporting, que desconfia da justiça desportiva de 40 mil maneiras diferentes, estava na FPF a pedir o regresso dos processos sumaríssimos, com grande probabilidade responsáveis pelo título do Benfica em 2004/05. A constatação que Bruno faz deste cúmulo que o futebol atingiu é aritmética: faz falta, precisamente, mais um incêndio por semana.

 

 

José Manuel Ribeiro - jornal O Jogo

 

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publicado às 03:10

Os homens da bola (23)

Rui Gomes, em 26.04.17

 

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«(...) O que fica do fim de semana é o espectáculo deplorável proporcionado por Luís Filipe Vieira e Bruno de Carvalho. Ou vice-versa: nem sequer me interessa quem começou.

 

A simples crispação entre os dois, no momento que o futebol - e o futebol português em particular - atravessa, já era uma irresponsabilidade. Os termos que utilizaram para se qualificarem um ao outro são intoleráveis, não apenas para dois presidentes de grandes clubes, mas para dois homens.

 

Não tenhamos dúvidas: este disparate, esta boçalidade, faz mais em favor da violência do que fazem contra ela todos os hipócritas apelos anteriores. Devia haver maturidade nestas pessoas. Ou ao menos vergonha».

 

 

Joel Neto, jornal O Jogo, num artigo intitulado "Tenham vergonha".

 

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publicado às 10:00

 

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Um homicídio, qualquer homicídio, é um caso de polícia. O de Marco Ficini não será diferente. Há um homicida, há cúmplices, há instigadores e há fugitivos, incluindo os alegados comparsas da vítima, que, entre outras coisas, são culpados de não lhe prestar auxílio, naquela que é uma repugnante demonstração de cobardia.

 

Marco Ficini cometeu o erro de se imaginar entre amigos e morreu sozinho, longe de casa, numa rua de Lisboa, vítima de uma guerra que até pode ter comprado, mas que não era dele. Também por isso, mas sobretudo porque um país decente não pode tolerar assassinos e muito menos corpos abandonados pelas ruas, é importante que todos os responsáveis directos sejam rapidamente identificados, detidos e levados à justiça.

 

Em simultâneo, é fundamental assumir que é mesmo de uma guerra que se trata e que há mais culpados pela tragédia da madrugada de sábado na Avenida Machado Santos. A começar pelos dirigentes dos clubes, que usam a virtude dos comunicados públicos de repúdio para esconder os vícios das provocações subliminares e dos apoios mais ou menos encapotados a claques e grupos de adeptos para quem a provocação, a intimidação e a violência são uma forma de vida. Mas também do poder político, que se limita a assobiar para o lado, muito mais preocupado em não beliscar clientelas ou arriscar a antipatia de grupos com peso eleitoral do que em assumir medidas claras de controlo e prevenção da violência.

 

E depois de todos nós, adeptos, comentadores e jornalistas, que contribuímos com a nossa quota-parte de irresponsabilidade e indiferença para o clima que proporcionou o homicídio de Marco Ficini. Fomos todos, dirigentes, governantes, adeptos, comentadores e jornalistas, ignorando os sinais de alarme e adiando a solução do problema, convencidos de que podíamos esconder-nos atrás do reconfortante "um dia destes ainda morre alguém". Pois bem, esse dia foi ontem.

 

 

Artigo da autoria de Jorge Maia, jornal O Jogo

 

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publicado às 11:30

Inflamável

Rui Gomes, em 28.03.17

 

A Selecção não se livrou de ficar chamuscada pelo clássico. E ainda lhe falta disputar mais um jogo...

 

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Optimista como é, Fernando Santos declarou na conferência de antevisão do jogo com a Hungria que o clássico ficava à porta da Selecção. Enganou-se. Alguma vez tinha de ser. O clássico forçou a entrada, como já se esperava que fizesse, pelo menos desde que o Benfica tratou de arrastar a Selecção para o meio da mais recente guerra com a FPF, ao boicotar o jogo com a Hungria realizado na Luz. O resto, as ameaças a Jaime Marta Soares à chegada ao estádio, a troca de insultos entre a "claque" da Selecção e adeptos do Benfica, as inevitáveis trocas de acusações nas redes sociais e as ameaças de processos cruzados são apenas o resultado disso e, há falta de erros de arbitragem fresquinhos, o pretexto desta semana para que a habitual corja de incendiários profissionais possa começar já a regar o clássico de gasolina.

 

Às vezes, o futebol português é tão previsível que já enjoa por antecipação.

 

 

Jorge Maia - jornal O Jogo

 

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publicado às 11:32

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