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O sportinguista tem medo de ter sucesso

Drake Wilson, em 27.01.17

 

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*Recentemente, o meu estimado colega Ricardo Leão escreveu um artigo onde destacou uma frase do célebre filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Original, de facto, e nem a propósito...

 

Desconheço se a maioria dos leitores partilham da minha opinião, mas amiúde dou por mim a pensar que nós, adeptos do Sporting, somos provavelmente os adeptos de Futebol mais complicados deste planeta. Talvez por responsabilidade da génese de Alvalade ou pelos moldes como desenvolvemos a nossa militância clubística perante expectativas e fracassos constantes. Talvez mesmo pela incessante imprescindibilidade de identificar responsáveis por crises auto-infligidas, em que a culpa é sempre “daqueles que por cá passaram”. Por vezes, personificamos dilemas semelhantes à ambição de Infante Dom Henrique como da obra non-sense de Friedrich Nietzsche – ora somos progressistas e inovadores ao nível do Quinto Império, ora colapsamos tragicamente agarrados a um cavalo, pela demência dos diversos dogmas que acreditamos serem reais. Infelizmente, tanto a glória dos feitos do Infante fazem parte de um passado, como a obra do filósofo alemão inflige a demência do autor a quem a tenta compreender. Um, realizou e alguém por ele relatou. O outro, relatou como realidade aquilo que nunca foi realizável, nem muito menos real – triste sina de quem alguma vez tentou compreender Nietzsche.

 

O Sporting já vive cheio de dogmas. De doutrinas. De prescrições. O passado glorioso da década de 50 é um dogma. Os Campeonatos de Portugal são um dogma. A formação e o seu real aproveitamento é um dogma. A equipa B é um dogma. Comparar Sporting com Barcelona é um dogma. Treinador “7 Milhões” é um dogma. As cadeiras e o relvado do Estádio são um dogma. A recuperação financeira é um dogma. José Eduardo é um dogma. Dogmas para dar e vender, que tanto entretenimento como mediocridade nos confunde e nos embebeda. O Sporting transformou-se no Clube da discórdia porque religiosamente deixámos que o Dogma se alimentasse ao longo destes anos, perante o inebriamento da palavra do papagaio no poleiro que sabe o que diz, mas não sabe como fazer. Toda esta classe de dirigismo a que o Sporting se tem entregue ao longo das últimas duas décadas, surgiu envergando um manto de grandeza. A verdade, é que com eles ou sem eles, o Sporting continua exactamente igual – perante a falência de um trajecto delineado, percebe-se que afinal não existia consistência alguma, ou projecto algum. Existiam um conjunto de ideias – uma série de Dogmas e problemas de puberdade mal resolvidos – e nada mais. Parafraseando aquele que eu gostaria de um dia ver à frente dos destinos do meu Clube, estes dirigentes foram e são “um nojo de A a Z”.

 

Waterloo, e a teoria de como o Sporting nunca aprende.

 

Perdoa-se Elias. Faz-se um cortejo no aeroporto a Markovic. Despreza-se a formação. Louva-se a Jesus. Uma pré-época do mais amador que poderia haver. Tudo isto ao som da balada de André, com o adorno orgásmico da poesia de Carvalho e a prosa desatinada de Saraiva. Renovam-se os lugares anuais. Eleva-se a esperança. Épico, como o desembarque na Normadia. Afinal, nada mais do que uma espécie de Napoleão em Waterloo, em que tudo apontava para a tragédia mesmo antes de esta acontecer. Não funcionou? Ok, vamos desfazer e voltar a fazer, exactamente ao contrário. Rua Elias, rua Markovic, bem-vinda rapaziada da formação que tanta felicidade proporcionou a quem de vós usufruiu. Pode ser que assim funcione… Em Setembro de 2016, lá dizia eu algumas coisas a este respeito. A resposta foi esta: “…o projecto actual pode não ser ao gosto do Drake Wilson, mas os sportinguistas o que querem é vitórias. É difícil construir um projecto melhor que este.” Afinal, estimado leitor, o que nos trouxe este projecto?

 

Ninguém percebe porque corre tudo mal no Sporting?

 

Tudo corre mal porque o Sporting tem sido gerido por um tal feudo de amigalhaços solidários entre si, alimentados pela esperança de uma massa adepta que não tem culpa de ter escolhido ser sportinguista. Estes feudais, colocam os dogmas em cima da mesa para que o debate entre adeptos se circunscreva em torno de assuntos para os quais não existe resposta, ou assuntos que simplesmente não têm qualquer tipo de interesse. Os adeptos não entendem, mas ficam felizes porque aparenta que “quem de direito diz que é bom”. Não se discute o futuro do Clube, mas discute-se o passado. Ninguém percebe. Somos fantásticos na formação onde coleccionamos títulos, mas poucos são aproveitados para o plantel sénior, exceptuando quando uma época corre mal. Ninguém percebe. Não se discute uma liderança actual, porque simplesmente as anteriores eram piores. Ninguém percebe. A reestruturação financeira é óptima, mas nada mais reduziu do que encargos de tesouraria imediatos. Ninguém percebe. Em Março de 2016 existiam cerca de €134 Milhões em financiamentos a curto e longo prazo, com reservas  acumuladas de €194 Milhões negativos. Ninguém percebe. Constrói-se um pavilhão, com um Director de Encargos que faz parte da Comissão de Honra da actual presidência. Ninguém percebe. Em 2008, o Passivo situava-se nos €150 Milhões, em 2016 apresentou-se a descoberto não-consolidado nos €390 Milhões. Ninguém percebe. 

 

O problema, estimado leitor, não é Bruno de Carvalho. É tudo isto, que ninguém muda. O actual presidente inclusivé.

 

A disciplina do Dogma

 

Tal como em diversas disciplinas da nossa sociedade e da própria vida, é a servidão de um adepto por um Dogma que torna irrealizável qualquer possibilidade de vanguarda. O indivíduo que vive envolvido dogmaticamente com o que acredita, apenas discute o que é periférico. Inibe toda a sua capacidade intelectual e torna-se refém do obsoleto fora-de-prazo. A vanguarda está presente diariamente na vida de todos nós, e é inversamente proporcional à capacidade de um ser humano comum em se adaptar a circunstâncias e progredir – por esse motivo, e por ser esta tão bem explorada por quem a desenvolve, a vanguarda se torna, de facto, cara. Porque para além de depender da genialidade de quem a materializa, é inclusivamente rara.

 

As minhas confidências com o estimado leitor, terminam com algo que defendo há alguns anos: para colocar o Sporting no mapa, o Sporting tem de chamar a si não apenas aqueles que têm desenhado o mapa do Futebol nos últimos anos, como aqueles que têm dado provas na sua vida profissional por este mundo fora, e que são tão sportinguistas quanto nós. Acabar com a esta clandestinidade promovida por actores incompetentes, rasgar o papel de “ser tão grandes quanto os maiores da Europa” e definir uma estratégia autónoma de redimensionamento, afim de promover a discussão contínua de títulos num prazo dos próximos 10 anos, não ano a ano. Se tivermos de perder a maioria do Capital Social, e como tal, sermos geridos por Administradores competentes umbilicalmente ligados ao desenvolvimento e sucesso da marca Sporting, por mim seria já.

 

Portugal foi uma grande nação no passado. Hoje, divaga no podium do País mais pobre da Europa. Temos de acabar definitivamente com este tal encorajamento de vitória por encomenda e grandiosidade do passado, senão um dia, sem percebermos, o Sporting também acaba.

 

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publicado às 14:00

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