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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo com a Juventus. Como sempre, a "brincar" diz-se muitas verdades... 

 

Rui Patrício

Na melhor tradição de Schmeichel, detectou premonitoriamente um livre directo executado na perfeição e limitou-se a supervisionar a trajectória da bola. E livres directos executados na perfeição são algo para o qual Patrício deve ter um radar apuradíssimo, tendo em conta a quantidade deles que já testemunhou. Bruno Alves, Carlos Eduardo, Tiago Silva, Valbuena, Cristiano Ronaldo (x2), Lindelof: não há ninguém que não execute livres directos na perfeição contra Rui Patrício. Adrien Silva saiu do clube com a reputação de não saber marcar livres directos. É esperar pelo primeiro Leicester-Sporting.
 

Cristiano Piccini

Intratável a defender, quase sempre insuperável no 1x1, e a fazer aquilo que eludiu gerações inteiras de laterais do clube, direitos ou esquerdos: fechar por dentro os cruzamentos da faixa oposta. Teve a primeira boa incursão ofensiva ao minuto 47, num lance que começou com uma das suas maiores virtudes - nunca perder a calma - e culminou no que não é propriamente o seu maior defeito, mas sim o principal motivo que o fará custar três (bem gastos!) milhões de euros para todo o sempre: a falta de capacidade de improviso no último terço. Piccini é uma heurística com pernas, uma navalha de Occam ambulante: em qualquer situação de escolha múltipla, escolhe invariavelmente a menos complicada (para ele, para os colegas e para o adversário). É um alívio permanente para os defesas - da sua equipa e da outra; e um obstáculo permanente e insuperável para os extremos - idem aspas.
 

Sebastián Coates

Algumas falhas no controlo da profundidade na primeira parte e um ou outro calafrio faziam temer o pior, mas acabou para embalar para uma exibição positiva, e esteve imperial dentro da área, com a cabeça ou com os pés. A três minutos do intervalo, cabeceou por cima, depois de um dos livres "ensaiados" mais bem sucedidos que me lembro de ver o clube fazer nos últimos tempos.
 

Jérémy Mathieu

Um deslize ao minuto 23 deixou Dybala em posição de remate. Um deslize de Mathieu. Mais do que um percalço conjuntural, vi o episódio como um cataclismo, algo que abalou a minha fé na estrutura básica da Natureza. Após o incidente, olhei ao meu redor à procura de qualquer coisa: de um cigarro, ou da minha identidade enquanto indivíduo. Tudo o que encontrei foi uma pilha de cromossomas arrumada a um canto, e que baptizei como "Jonathan". Mathieu, por seu lado, e como era de esperar, fez o que costuma fazer: amnesiou-se instantaneamente e fez um jogo ao seu nível - calmo, clarividente e eficaz.
 

Fábio Coentrão

É o melhor funcionário público do mundo: integra uma burocracia sólida e experiente, é extremamente competente, está persuadido até à medula das suas responsabilidades colectivas, executa todas as suas tarefas com brio, independência e orgulho profissional - e nunca abdica do impulso de picar o ponto uns minutos antes da hora. Fez um jogo quase perfeito até danificar uma das peças sobressalentes. Uma pena que as suas saídas prematuras de campo sejam agora o equivalente futebolístico à presença de Sean Bean num ecrã: um spoiler irrevogável sobre o resto do filme.
 

William Carvalho

Não fez um jogo ao nível do que fez contra o Barça e até contra o Porto, algo que evidentemente não é culpa sua, mas do jogo em particular, do desporto em geral, da sociedade e, por inerência, do Universo. Quando a inadequada interiorização de normas colectivas dá origem a comportamentos desviantes, William penetra linhas de ruptura conceptual, procedendo à segmentação das opções que previamente o constituiram como agente estruturado-estruturante capaz de se articular na complexa relação de domínio ideológico com o grupo-matriz, permitindo-lhe assim redefinir-se, na sequência de tal segmentação, e através da reconfiguração dos vectores significante do espaço técnico-táctico, enquanto alternativa à praxis. Quer dizer, isto nem sequer tem discussão.
 

Gelson Martins

Mostrou uma precoce e exemplar memória corporativa ao falhar um golo isolado perante Buffon, deixando a um colega de equipa do mesmo a tarefa ingrata de fazer passar a bola por ele, a caminho das redes. Uma coisa é tratar Marcelos e Busquets com condescendência, outra é faltar ao respeito ao Senhor Doutor Gianluigi. Para quem achasse que tinha sido um mero acidente e não uma decisão deliberada, dez minutos mais tarde tentou fintar outro "histórico", Chiellini, em velocidade - algo que muitos tentaram antes dele, e com o mesmo sucesso (zero). De resto, fica a mesma ideia que tem ficado nos últimos jogos: anda a oferecer ao mundo apenas excertos avulsos do seu talento, abreviados e parafraseados, sem nunca propriamente abrir o livro.
 

Rodrigo Battaglia

Tanto nos contos de fadas como na literatura épica - Virgílio, Dante, Milton - a floresta é o lugar encantado onde uma pessoa vai. Onde vai o bom rapaz (para perceber se é heróico) ou o gajo complicado (para perceber se é vilão). Acima de tudo, é um lugar onde se vai para ser testado. Injectado à bruta no meio da floresta densa que foi o meio-campo da Juventus, Battaglia não emergiu com uma espada mágica, mas também conseguiu não ser engolido. Incomodou as progressões pelo meio o melhor que pode, e ainda ensaiou algumas vezes (a do minuto 24 foi a que mais agradou) o expediente que desenvolveu para compensar o facto de não conseguir fazer passes a colega algum: galopar por ali fora até perder a bola de forma a conseguir recuperá-la logo de seguida numa zona mais adiantada. Não é bonito, mas de vez em quando é tremendamente eficaz.
 

Marcus Acuña

Aproveitando certamente o facto de pela primeira vez em muito tempo não ter jogado 78 jogos numa semana, entrou espevitado e alerta, acumulou uma mão cheia de recuperações (o golo inaugural começou com uma) e na primeira parte foi dos poucos, com a ajuda de Coentrão, a conseguir fazer alguma retenção de bola em zonas mais avançadas. Veio do intervalo com a mesma genica, fazendo mais algumas recuperações ofensivas, mas aí começou a apostar no cruzamento automático, algo que, dadas as circunstâncias (Dost sozinho na área, rodeado de toda a população de Itália) é menos uma opção estratégica do que um apelo à magia, como lançar uma moeda à fonte, ou comprar uma raspadinha.
 

Bruno Fernandes

Foi forçado a jogar inúmeras vezes sozinho contra uma multidão entusiasmada e num pico de adrenalina, e as multidões entusiasmadas e num pico de adrenalina são quase sempre de evitar. Num momento estão apenas a curtir o som, mas no momento seguinte desatam a derrubar governos ou querem matar judeus. Neste caso específico, a multidão só queria a bola, vontade que Bruno Fernandes nem sempre lhes fez. Mostrou a profunda dignidade que reside sempre no esforço para mostrar lucidez e generosidade, mesmo quando rodeado de bárbaros e, além de lançar Alex Sandro no lance do golo, ainda sacou livres perigosos e criou a última e melhor oportunidade da equipa na segunda parte.
 

Bas Dost

Passou os primeiros momentos a chegar demasiado tarde a passes demasiado curtos, a saltar demasiado baixo a bolas demasiado altas (e demasiado optimistas), e a tentar incomodar com a sua presença demasiada isolada dois corpos demasiado italianos. Por quatro ou cinco ocasiões mostrou uma qualidade ao primeiro toque que nem todos os colegas tiveram. Convém é que se criem condições para lhe permitir direccionar esse toque para a baliza. E isso é tarefa de outros, não dele.
 

João Palhinha

Entrou com mais energia que todos os colegas que ainda permaneciam em campo, circunstância que se manifestou na alacridade com que chegou a cortar bolas em lances de antecipação não apenas ao adversário, mas a colegas de equipa que já lá estavam a tratar do assunto.
 

Jonathan Silva

A maneira como ficou a olhar para a bola durante o cruzamento de Douglas Costa lembrou a reacção de uma tribo amazónica quando o primeiro missionário entrou pela aldeia dentro com um fonógrafo ou um guarda-chuva. Que criatura é esta, capaz de tamanha magia? Devo ajoelhar-me e venerá-lo? Cozinhá-lo e comê-lo? Na conferência de imprensa pós-jogo, Jorge Jesus chamou-lhe "Jonas", com toda a certeza uma das coisas mais simpáticas que alguém lhe vai chamar hoje.
 

Seydou Doumbia

Ao minuto sporting chegou uns meros dois milisportings de sporting atrasado em relação a uma oportunidade de golo extremamente não-sporting, tendo o lance corrido de acordo com os trâmites.
 

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publicado às 04:17

Futebol com humor à mistura (8)

Rui Gomes, em 02.10.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, brinda-nos com a sua usual humorística análise à performance dos jogadores do Sporting no jogo deste domingo frente ao FC Porto. E, com este humor, diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Passam-se meses sem termos oportunidade para recordar que Patrício é um bom guarda-redes, e de repente, como os autocarros, chegam várias ao mesmo tempo. Boa defesa a remate traiçoeiro de Brahimi ao minuto 2, grande saída aos pés de Aboubakar ao minuto 40 e mais uma ou outra demonstração de segurança e estabilidade. A coroa de glória, no entanto, surgiu aos setenta e nove minutos, quando evitou um golo certo de Marega, no momento mais importante da sua carreira desde que se estreou no futebol profissional em Novembro de 2006.

 

Trave da Baliza Vítor Damas, no Topo Sul

Passam-se meses sem termos oportunidade para recordar o que é que a trave está exactamente ali a fazer, e hoje parecia outra noite igual, sem trabalho, em que se limita a ser uma espectadora atenta dos acontecimentos. A coroa de glória, no entanto, surgiu aos quarenta e quatro minutos, quando evitou um golo certo de Marega, no momento mais importante da sua carreira desde que se estreou no futebol profissional em Agosto de 2003.

 

Piccini

Ganhou um primeiro canto da equipa aos sete minutos, depois de um lance que ele próprio iniciou exibindo um dos seus melhores atributos: o imaculado controlo de bola ao receber passes longos. Pouco tempo depois, foi inteligente a temporizar e a conter Brahimi, esperando que ele perdesse a bola sozinho. Nem sempre conseguiu fazê-lo, mas mesmo nos lances em que foi ultrapassado (e não há muita gente no planeta que consiga passar um jogo inteiro sem ser ultrapassado por Brahimi) encarnou sempre um semáforo amarelo: Brahimi conseguiu avançar, mas com cautela e sem maluquices. Ao minuto 33 conseguiu ainda mostrar aos adeptos mais impacientes (que teimam em querer vê-lo cruzar) porque é que isso quase nunca acontece: porque Piccini, além de perceber muito de futebol, também percebe muito de Piccini.

 

Coates

Não adoptou a sua habitual postura de hostilidade reprimida em relação a espécies invasoras, comportando-se mais com a distante competência que costumamos associar aos assistentes pessoais de celebridades – um daqueles intermediários na relação entre entidades VIP (neste caso a baliza) e os impulsos voyeurísticos ou predatórios do mundo exterior. Sem espalhafato, mas com intransigente competência, encarnou o papel de relações-públicas taciturno, ou guarda-costas aborrecido, e desfiou 90 minutos de intercepções à porta de entrada e cancelamento abrupto de credenciais. Houve gente que passou, mas poucos passaram por ele.

 

Mathieu

O corte crucial sobre Marega na área ao minuto 36 já seria mais do que suficiente para lhe garantir uma futura estátua no museu, mas é de assinalar também a demonstração de inteligência emocional que deu na segunda parte. Ao perceber, com a perspicácia dos predestinados, que Jonathan é incapaz de receber um bom passe, começou a fazer-lhe maus passes, em série, dando o mote para o resto da equipa começar a fazer o mesmo. Foi uma brilhante jogada psicológica, que alcançou o objectivo essencial: Jonathan não voltou a estragar jogadas com a sua incompetência, porque as jogadas já lhe chegavam competentemente estragadas.

 

Jonathan Silva

Algures num arquipélago remoto no Pacífico, numa daquelas grutas que só costumam aparecer em filmes de terror de série B, um soldado japonês com 90 anos de idade, que passou as últimas sete décadas sozinho, convencido que a II Guerra Mundial nunca terminou, a comer ratos assados e a conversar lunaticamente com pássaros, a cumprir obedientemente as suas obsoletas instruções para não abandonar o posto e proteger o Império Nipónico contra o inimigo, dedicou o último segundo da sua existência terrena a pensar: “Sabem que mais, pássaros? Tenho mais controlo de bola, sentido posicional, e juízo nos cornos que o Jonathan Silva”.

 

William Carvalho

O seu estilo ilusoriamente elaborado e deliberado tem o condão de transformar quase todos os espectadores, olheiros e adversários em puristas estéticos, convencendo-se que as superfícies visíveis que admiram contêm profundezas ocultas. Aquele movimento vagaroso não parece minimalista, portanto deve ser barroco. Aquela mudança de direcção não parece realista, portanto a jogada que inicia deve ser surreal. E enquanto eles ficam entretidos a fazer crítica de Arte, William dedica-se ao único propósito que o motiva: o respeito por princípios elementares, a procura da linha recta mais próxima e da distância mais segura entre dois pontos. Conseguiu jogar bem, num meio-campo que não existiu além dele.

 

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Battaglia

Como o funcionário mais diligente de uma ONG humanitária, passou grande parte do jogo a corrigir desigualdades e a tentar construir um campeonato mais justo através da redistribuição de posse de bola. Fez um passe extremamente bem sucedido para um jogador do Porto logo ao sexto minuto, outro ao minuto 12, e depois foi vê-lo entusiasmar-se, tentando, com alguma megalomania, fazer passes para jogadores do Porto com grau de dificuldade cada vez mais elevado, o que o levou, naturalmente, a falhar alguns, que foram parar aos pés de colegas de equipa. Na segunda parte retraiu mais os seus impulsos filantrópicos e pareceu mais sintonizado com a ética da equipa, como se viu no facto de, também ele, ter feito um passe demasiado forte para Jonathan.

 

Gelson Martins

Sem conseguir desequilibrar, rodeado de carraças sem bola, comportou-se como uma carraça com bola, tentando mantê-la junto a si o máximo tempo possível, expediente que, pelo menos durante a primeira parte, era a única forma de a equipa não a perder de imediato. Após o intervalo derivou para o flanco esquerdo, onde artilhou o toque mais artístico do jogo inteiro: um toque de calcanhar que desposicionou momentaneamente a defesa do Porto, e isolou... Jonathan Silva. Foi o equivalente a construir um Stradivarius para tocar o “Jardim da Celeste”, mas fica a intenção.

 

Bruno Fernandes

Foi o último jogador em campo a tocar na bola, o que pode parecer um dado estatístico puramente acidental, mas que reflecte as dificuldades que sentiu para encontrar espaço. Mesmo quando o encontrou, e talvez mais por mérito do Porto do que por demérito próprio, ficou a ideia que lhe faltou sempre uma fracção de segundos adicional para desenvolver a ideia que tinha na cabeça. Caiu-lhe aos pés a melhor oportunidade da equipa ao minuto 59: Bruno Fernandes optou por fazer um remate de longe, opção que se compreende, mas que funciona muito melhor quando está realmente longe, e não, como era o caso, perto.

 

Marcos Acuña

Logo aos quatro minutos, a bola fez uma daquelas coisas que as bolas de futebol fazem de tempos a tempos: colidiu com a bandeirola de campo quando toda a gente pensava que ia sair e virara costas ao lance. Toda a gente, salvo seja, pois Acuña foi quem lá chegou primeiro para resolver o assunto. O lance é uma boa ilustração do jogo que fez: precioso na ajuda defensiva (muitas vezes foi obrigado a ser, por motivos óbvios, lateral-esquerdo), sempre útil na contenção a meio-campo (tem uma esperteza característica a bloquear linhas de passe quando a jogada decorre no centro ou no flanco oposto), e um verdadeiro líbero avançado em situações potenciais de contra-ataque adversário. Travou dois assim, um dos quais perto do fim, quando já não devia ter energia para tal. Tivessem as bolas paradas estado ao mesmo nível – inúmeros cantos demasiado curtos – e seria o melhor do Sporting hoje.

 

Bas Dost

Entre 2007 e 2010, o velejador americano Reid Stowe completou uma viagem marítima de mil cento e cinquenta e dois dias, sem meter o pé em terra, e sem contactar directamente com qualquer outro ser humano, uma experiência talvez um pouco mais isolada e solitária do que a noite de Bas Dost.

 

Bruno César

Duas boas intervenções em que conseguiu jogar bem ao primeiro toque, dois toques que conseguiram ao mesmo tempo descomplicar e acelerar a jogada. Não deram em nada, mas não por sua culpa. Tal como não foi (exclusivamente) culpa sua o anonimato que lhe pautou o resto da exibição.

 

Podence

Ganhou uma falta assim que entrou, através do expediente revolucionário de se mexer mais depressa com a bola do que dois jogadores do Porto sem ela, uma manobra que não testemunhava há tanto tempo que nem me lembrava que era legal: quando o árbitro apitou, julguei que ia marcar falta a Podence.

 

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publicado às 06:00

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Barcelona. Para o efeito deste post, escolhi apenas meia dúzia dos "leões" que ontem "venderam" a derrota bem cara:

 

Rui Patrício

Longe vão os tempos em que Rui Patrício alternava entre não ter qualquer trabalho (e não ter culpas no golo sofrido) aos fins-de-semana - e ser o melhor em campo (e não ter culpas nos 3, 5 ou 7 golos sofridos) às quartas-feiras. Hoje tem uma rotina muito mais estável, que lhe permite fazer o mesmo tipo de exibições a qualquer dia da semana, e sofrer o mesmo número de golos (nos quais não teve qualquer culpa) de Moreirense e Barcelona. Trabalho não teve muito, e só precisou de puxar dos galões já perto do fim, quando alguém chamado Paulinho pretendeu marcar-lhe um golo. Patrício não se importa de sofrer golos de uma pessoa chamada Paulinho. Mas só uma. E nos treinos. E não é este Paulinho.

 

Piccini

É um risco que correm as pessoas que custam três milhões de euros com tão inusitada correcção: começam a ser vistas não como pessoas, mas como três milhões de euros. Foi provavelmente o que pensaram, além dos espertalhões que produzem conteúdos digitais, os jogadores do Barcelona nos cumprimentos pré-jogo, ao passarem pela figura familiar de Piccini, com quem se cruzaram na Liga Espanhola: “olha, aqueles três milhões de euros que fintei no ano passado”. Mas as pessoas não são números, e ao minuto 17 Piccini, um ser humano, recebeu de peito junto à linha, galopou dez metros, desviou-se de vários adversários, e rematou forte de pé esquerdo. A língua alemã tem uma palavra para designar estas situações: a palavra é “Chüpem”. Bom jogo, como é hábito.

 

Coates

Uma exibição despreocupadíssima durante toda a primeira parte, típica de quem percebeu, se calhar ainda no balneário, que o seu colega de sector ia dar conta da maioria dos recados. Esteve mais activo na última meia hora e fez alguns cortes importantes (não obstante um deslize comprometedor já perto do fim). Foi vítima de um azar imerecido e incaracterístico, marcando um auto-golo que julgava só acontecer ao Paulo Oliveira, daqueles em que até a geometria abana a cabeça, quanto mais um adepto de carne e osso.

 

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Mathieu

O tipo de exibição que levou à invenção do bloco de notas, e da cassete de vídeo: corte na área sobre Messi aos 4 minutos, calma sobrenatural na saída de bola (rodeado de adversários e sem linhas de passe) aos 11, outro corte sobre Suárez aos 12, um desvio milagroso depois de um livre a safar um golo certo no último segundo aos 37, e assim sucessivamente. O seu melhor momento (e a escolha é difícil) foi talvez ao minuto 41: no primeiro slalom bem sucedido de Messi, daqueles que deixa meia equipa espalhada pelo relvado depois de carrinhos mal sucedidos, decidiu não se mexer e esperar tranquilamente que a bola viesse ter consigo de livre vontade. O que veio a acontecer. Mesmo a única falta que cometeu foi exemplarmente escolhida: uma cacetada em Busquets, que só pecou por não ter sido dada com mais força, e num órgão vital. É um génio. Chegou ao Sporting com 33 anos, cumpriu 29 assim que começaram os jogos oficiais e festejou hoje os 25. A continuar assim, chegará a Maio sem precisar de fazer a barba.

 

William Carvalho

É a solidez estrutural que suporta efemeridades menores, como paixões humanas, destinos colectivos, e outras questões de vida ou morte. Uma massa compacta de calma e lucidez, William limita-se a ser a temperatura a que decorrem todas estas coisas, a gramática que permite que os outros transeuntes articulem frases. Não fez um jogo perfeito porque, como ele seria o primeiro a lembrar, não existem jogos perfeitos. Actos esporádicos como o passe para Doumbia que fez na direcção de Bas Dost, por exemplo, ou o remate por cima da barra, são apenas a sua maneira de imitar o Rei Canuto, que mandou colocar o trono à beira-mar e ordenou à maré que não subisse, numa tentativa de esclarecer os seus cortesãos sobre os limites do poder secular.

 

Battaglia

O melhor em campo e um debate na internet em forma humana. Apresentou-se ao serviço com os caninos à mostra, os pitons untados com adrenalina, e um cabaz de opiniões. Não tem a menor importância se as opiniões são correctas, ou sequer baseadas em factos. O que é importante é arremessá-las com muita força às trombas de quem possui opiniões contrárias. Do primeiro ao último minuto, ninguém conseguiu ganhar uma discussão consigo: Battaglia falou mais alto, fez mais memes, fez mais barulho, mudou mais vezes de assunto, nunca se cansou, nunca se calou. Toda a gente já fez log-out nesta altura, e metade do plantel já está em casa a dormir, excepto Battaglia, que deve estar em tronco nu, a mudar a mobília toda de sítio, e cheio de vontade que um vizinho venha queixar-se do barulho.

 

Bruno Fernandes

Está mais do que na altura de falarmos naquele rosto. Visto a contra-luz, a silhueta recortada contra os holofotes, podia ser o logotipo da Associação dos Técnicos Oficiais de Contas. É só quando o vemos em movimento que as características ganham definição, e percebemos que podíamos estar perante uma personagem de um romance russo, um daqueles niilistas tuberculosos saídos de Turgenev, que sabem quão pouco o mundo tem para lhes oferecer, que transportam um ressentimento do tamanho da sua geração, e que discutem imenso com o pai e com os amigos, não porque os odeiam, mas porque os amam demasiado. Hoje mostrou que também estes são jogos para ele. Mesmo com os altos e baixos que terá naturalmente ao longo da época, haverá poucos que não sejam.

 

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publicado às 11:28

Futebol com humor à mistura (7)

Rui Gomes, em 24.09.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise análise humorística à performance dos jogadores do Sporting pela visita a Moreira de Cónegos:

 

Rui Patrício

A bonita carreira de Patrício na Liga Portuguesa arrisca-se a ser o seu arquipélago das Galápagos: um lugar traiçoeiramente confortável onde os seus instintos vão sendo gradualmente suprimidos na ausência de predadores naturais, até ao momento fatídico em que aparece a primeira espécie invasora com trombas de Ruben Micael a emboscá-lo junto ao rio. Daqui a trezentos milhões de anos, é possível que Rui Patrício ainda jogue por cá, já anatomicamente alterado pela selecção natural: com um pescoço musculado que lhe permita abanar a cabeça antes de levantar a cabeça; e com um único braço – o suficiente para ir buscar a bola ao fundo das redes, depois de todos os golos onde não teve quaisquer culpas.

 

Piccini

Foram exibições como esta que levaram o ser humano a desenvolver o hábito de falar no tempo. Uma exibição razoável, em que não cometeu qualquer erro grave, nem somou qualquer acção de destaque, com ou sem bola e, parecendo que não, as noites já começam a ficar mais frescas e dá muito jeito um casaquinho.

 

Coates

O seu principal atributo defensivo é a fé absoluta – e muitas vezes justificada – no poder sacramental da sua própria presença: a crença de que basta aparecer e mostrar o seu rosto taciturno para que toda a gente pare imediatamente de fazer o que está a fazer, arrume os brinquedos no caixote e vá para a cama sem sobremesa, de livre vontade. Resulta muitas vezes, mas há dias em que dava jeito que também ajudasse um bocado na cozinha e fosse meter o lixo lá fora.

 

Mathieu

Em situações análogas no passado recente, conseguiu ser o elemento mais esclarecido da equipa nos minutos finais. Hoje, pelo contrário (e depois de um jogo discreto mas sem mácula) não foi o habitual ponto de estabilidade na fase em que o jogo se partiu ao meio, e ainda se deixou antecipar duas vezes na defesa, em lances aparentemente controlados.

 

Fábio Coentrão

Em boa forma física, totalmente rejuvenescido depois de uma semana sequestrado numa tenda de campanha e submetido a periódicas transfusões de sangue, medula óssea, nicotina e fita-cola. Fez um jogo bastante razoável se não contarmos os centros efectuados para o corte de cabeça do defesa ao primeiro poste. E não os vamos contar, pois não é possível. Há números tão elevados que deixariam até as pessoas responsáveis por calcular a dívida pública momentaneamente atrapalhadas.

 

William Carvalho

Cumpriu a função táctica de narrador omnisciente e heterodiegético, à procura de uma organização e de uma forma que hão-de emergir espontaneamente da história que tem para contar e na qual não participa, embora por vezes seja obrigado a interrompê-la para comentar a organização e articulação do texto, ou para introduzir um deus ex machina. De resto limita-se a afirmar a validade da informação que transmite e o grau de precisão da mesma, com uma focalização autoritária que nunca deixa dúvidas ao leitor: sabe infinitamente mais do que todas as personagens que ali andam.

 

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Bruno Fernandes

Se há jogo no campeonato que se deve evitar a todo o custo resolver com uma bujarda de nove milhões de euros, é precisamente um jogo contra uma equipa treinada por Manuel Machado. Perderam-se dois pontos, é um facto, mas por outro lado ganhou-se paz e sossego, e evitou-se um solilóquio polissilábico de duas horas sobre justiça, orçamentos e competitividade. Vale a pena a troca.

 

Gelson Martins

Um daqueles dias em que cada uma das suas inegáveis qualidades se apresentou em campo juntamente com a etiqueta do preço, que no seu caso não vem em moeda, mas em esforço. Gelson jogou hoje como tem jogado ultimamente: como se o talento fosse um fardo pesadíssimo que é sua tarefa andar ali a arrastar transpiradamente de um lado para o outro. Escorregou a receber passes, tropeçou a fazer cruzamentos, assistiu através de ressaltos, fintou através de quedas. Duvido muito que uma curta paragem beneficiasse a equipa, mas é provável que o beneficiasse a ele.

 

Bruno César

Jogou mais ou menos como uma criança de três anos comunica: sempre de forma expressiva e urgente, raramente de forma elaborada ou elucidativa. Não há cá muitos “por conseguinte” com Bruno César. Não há cá muitos “todavia” ou “em suma”. O que há é a manifestação histérica de estados de alma instantâneos. “Está frio!” “Tenho fome!” “Quero um cão!” Sem qualquer ligação intuitiva com os ritmos de domínio de um jogo, cada movimento seu é uma resposta e não uma ideia. E nem esteve mal a reagir – a sua velocidade de reacção pareceu, aliás, sempre uma fracção de segundo acima dos colegas. Não lhe peçam é para ter ideias.

 

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Alan Ruiz

Sofreu a primeira falta da equipa, ao segundo e ao terceiro minuto. A frase anterior não significa que Alan Ruiz sofreu duas faltas nesse período: significa apenas que Alan Ruiz demora em média cento e vinte segundos a sofrer uma única falta, tal como demora em média cento e vinte segundos a mudar de direcção ou a preparar um remate. Após algumas bolas perdidas de outras maneiras, dedicou-se a um novo projecto, o de tirar adversários da frente através de fintas, para de seguida rematar à baliza. Fê-lo com a convicção de quem leu recentemente um artigo de jornal sobre tirar adversários da frente através de fintas e decidiu puxar o assunto no café ou na paragem de autocarro para impressionar as pessoas. A finta não resultou. Mas as fintas tentadas e falhadas por Alan Ruiz possuem uma vantagem óbvia sobre as fintas tentadas e falhadas por qualquer outro jogador: permitem-lhe estragar uma única jogada no período de tempo em que qualquer outro jogador poderia estragar duas ou três. Esse mérito ninguém lhe tira.

 

Bas Dost

Jogo ingrato, em que passou a segunda parte a fazer o papel de controlador aéreo, tentando desviar bolas altas para as correspondentes pistas de aterragem, em que passou a primeira parte enrodilhado num competentíssimo espartilho táctico constituído pelos defesas-centrais do Moreirense e pelas cláusulas do contrato de Alan Ruiz espalhadas pelo relvado.

 

Doumbia

Já se viu dele o suficiente para comprovar que a vida de qualquer defesa é sempre um bocadinho mais complicada com ele em campo. E ele próprio também já deve ter visto o suficiente para perceber que a sua vida vai ser um bocadinho mais complicada do que na Suíça.

 

Battaglia

Cada bola dividida pertencia ao Moreirense, que por sua vez encarava cada transição ofensiva como um corredor deserto entre as duas áreas: foi este o regular funcionamento das instituições até a entrada de Battaglia em campo demonstrar que há mais do que uma maneira de organizar a sociedade.

 

Iuri Medeiros

Não ter custado oito milhões de euros é o aspecto mais positivo das suas últimas exibições.

 

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publicado às 07:09

A "brincar" diz-se muitas verdades

Rui Gomes, em 20.09.17

 

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Na realidade, estamos perante mais uma crónica humorística do nosso bem conhecido Rogério Casanova, jornal Expresso, que eu optei por não apresentar no usual formato da rubrica "Futebol bom humor à mistura", por ser um jogo da Taça da Liga.

 

Deste modo, escolhi meia dúzia de apontamentos do autor sobre a performance de jogadores do Sporting que até ao momento não tínhamos tido oportunidade de ver jogar em competição oficial. Isso, e mais um ou dois dos usuais.

 

Ristovski

Pode parecer pouca coisa, mas a Macedónia detinha, na Antiguidade Clássica, uma invejável reputação enquanto líder na tecnologia de cercos militares. Para o Cerco de Rodes, por exemplo, o Rei Demétrio I encomendou de propósito uma torre com catapulta de quarenta metros de altura, oito rodas gigantescas e operada por milhares de soldados, capaz de espatifar a mais bonita arquitectura. Ristovski, de acordo com a internet, mede apenas um metro e oitenta, e não tem rodas, embora a sua omnipresença hoje deixe dúvidas sobre esta última informação. Foi o melhor em campo e, mesmo não sendo as circunstâncias ideais para conclusões entusiásticas, é inevitável pensar que os dois milhões e duzentos mil euros que custou configuram um caso óbvio de avaliação incorrecta.

 

Petrovic

Depois de um longo blackout abandonou hoje a pose serena de mutismo institucional e apresentou-se em campo cheio de vontade de implementar uma estratégia de comunicação. Fartou-se de fazer comunicados pertinentes, anúncios competentes, updates concisos. A dada altura chegou mesmo a promover uma conferência de imprensa simultânea com as canelas e a anca de um jogador do Marítimo, tendo conseguido esclarecer todos os envolvidos de forma robusta. Mostrou a habitual simplicidade lúcida na construção, sendo, além de Ruiz, o único jogador em campo a conseguir passar a bola a colegas que se encontrassem a mais de dois metros. Bom jogo.

 

Iuri Medeiros

Começou mal, com uma corrida desenfreada do lado errado da linha lateral, e nunca conseguiu melhorar. Pouco preciso nos cruzamentos, tanto de bola parada como de bola corrida, e pouco hábil a livrar-se das marcações, passou a noite assombrado por sucessivos ataques de esprit de l'escalier: a pensar nas jogadas que devia ter feito, em vez daquelas.

 

Mattheus Oliveira

Jogou não como o recipiente de instruções tácticas pormenorizadas, mas sim como o portador de um segredo terrível, cuja natureza era sua missão proteger a qualquer custo. Sente-se que grande parte das suas acções no terreno são concebidas para poupar tempo. Mas poupar tempo para quê? Para quem? O que é que acontece a todo esse tempo poupado? Onde é que o guardou? Para que efeito? Dá para ir lá buscar algum? Não é mau jogador. Sabe jogar ao primeiro toque, por exemplo (o pior são os toques seguintes). Mas o motivo da sua contratação continua a não ser claro. Um mistério quase tão grande como aquela consoante duplicada no seu nome, como se alguém tivesse tentado fazer batota no Scrabble.

 

Doumbia

Num jogador tão compenetrado em fazer o seu trabalho, que é marcar golos, podem notar-se poucas diferenças na sua linguagem corporal entre as ocasiões em que o consegue e aquelas em que não consegue, como hoje. Mas há que ter em atenção que Doumbia é imortal, e não mede o tempo como nós, nem, por conseguinte, avalia os acontecimentos da mesma forma. Ricardo Quaresma sempre me pareceu jogar como se não soubesse qual era o adversário nem a competição em que se encontrava. Doumbia joga como se não soubesse sequer em que década estamos. Muito menos há cá "jogos", no plural: na sua percepção tudo o que acontece faz parte do mesmo interminável jogo de futebol, em que de vez em quando se marcam golos, e de vez em quando não se marca. Ele não está ali para vistas curtas, mas para a eternidade. Não fiquem nervosos que ele também não.

 

Battaglia

Comprovou o que já se suspeitava: se a ideia é utilizá-lo vindo do banco, será sempre um suplente mais útil em ocasiões de risco, quando é preciso segurar um resultado perigoso, como nos jogos em que nos encontramos tragicamente a ganhar por 3-0 a dez minutos do fim. Para empates a 0 como o de hoje, quando está toda a gente calma e descontraída, as suas características não são as mais indicadas.

 

Alan Ruiz

Esta frase, recentemente inaugurada, e ainda, de certa maneira, tocada pela recordação - é a palavra certa - de outras frases que a antecederam no tempo, deverá, por assim dizer, iniciar um processo que, expondo humildemente as suas fraquezas intrínsecas - de um modo consciente e até, dir-se-ia, orgulhoso da sua condição precária - se predisponha ainda assim, sem a precipitação tantas vezes funesta do entusiasmo, à execução das manobras que pareçam as mais apropriadas, na medida em que, não renegando a sua natureza efectiva de manobras, evitem um compromisso inequívoco com a concisão, a concluir um raciocínio sobre o paciente estilo de jogo de Alan Ruiz, e demonstrando por isso uma fidelidade extrema à sua própria maneira de executar uma jogada, não sei se me faço entender.

 

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publicado às 04:43

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, viajou até à Grécia para nos brindar com a sua análise humorística da performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Olympiacos, a contar para a primeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões:

 

Rui Patrício

Não sei se repararam que logo ao oitavo minuto, fez um passe por alto para Piccini que levou a bola a flutuar aproximadamente 50 metros por cima da cabeça do colega. Meia-hora depois tentou fazer-lhe um passe rasteiro, tendo a bola saído pela linha lateral, aproximadamente a 10 metro do sítio onde estava Piccini. E na segunda parte lá continuou a mandar a bola pela linha lateral várias vezes. Repetiu o procedimento com tamanha convicção que a única hipótese razoável é que se trata de um obscuro ritual maçónico. De certeza que à mesma hora, em lojas de todo o mundo, milhares de irmãos vestidos de avental atiravam formas esféricas pela janela.

 

Piccini

Os três milhões de euros que custou são um pilar de estabilidade no mundo volátil das coisas que custam três milhões de euros. Já tentaram comprar alguma coisa por três milhões de euros? Tentem comprar qualquer coisa por três milhões de euros: é quase impossível os três milhões de euros ficarem quietos. Mais tarde ou mais cedo, aquilo que custou três milhões de euros vai valer dois milhões e meio, ou quatro milhões, ou sete, ou quinze, ou quatrocentos mil euros, ou zero. Piccini continua a valer três milhões de euros e vai continuar a valer três milhões de euros até abandonar a carreira, altura em que vai ser incluído na 28ª edição do Nordhaus e Samuelson, e revolucionar toda a teoria económica. Bom jogo.

 

Coates

Ao minuto 22 já com o resultado em 0-2, teve uma estranha sensação de déja vu: percebeu que o corredor central do Olympiacos era essencialmente uma réplica do corredor central do Sporting nos momentos mais suaves da última época: uma tranquila zona pedonal. Portanto avançou por ali fora cheio de vontade de, também ele, falhar um golo isolado frente ao guarda-redes, tarefa na qual foi bem sucedido. Viria ainda a fazer um passe perfeito para o golo de Bruno Fernandes e dois cortes cruciais na segunda parte que impediram o pesadelo de começar mais cedo.

 

Mathieu

Aconteça o que acontecer durante o resto da época e do seu percurso no clube, saberei sempre isolar o momento exacto em que decidi casar-me e ter filhos com Jeremy Mathieu: ao minuto 50 do jogo de hoje, num momento de pressão alta do adversário, recebeu um passe à queima de Patrício efectuado mais ou menos para o seu estômago, com um jogador do Olympiacos a correr feito louco na sua direcção e outro a aproximar-se pelas costas. Dois toques e três segundos mais tarde, a bola estava em segurança, nos pés de um colega, a vinte metros daquela zona. Tem feito isto quatro ou cinco vezes por jogo, e é nesta altura a coisa mais parecida que a equipa tem com um comprimido para os nervos.

 

Jonathan Franzen

Claramente não consegue sozinho dar resposta a todas as exigências de uma tarefa tão complexa. Há muitas pessoas em campo, e metade delas não procuram defender os seus melhores interesses. Porque não um lateral-esquerdo-assistente para o auxiliar? Ou um vídeo-lateral-esquerdo que possa validar as suas decisões? É certo que tornará o jogo mais lento, mas se a tecnologia existe é uma pena não a utilizarmos, deixando assim um rapaz esforçado cruelmente entregue os seus próprios erros.

 

William Carvalho

A facilidade com que conseguiu mandar naquilo tudo sem sequer ser preciso verter uma gota de transpiração tornou o jogo aborrecido para si logo nos minutos iniciais. Como um chef de elite que renuncia aos restaurantes e passa o resto da vida a preparar bonsais de bróculos e origamis de ostras para os amigos, William passou o resto do jogo a fazer experiências. Fazer um passe em corte de carrinho? Ora essa, minuto 44. Roubar a bola a um adversário desviando-o do caminho com um sopro? Com certeza, minuto 45. Fazer uma recuperação com o calcanhar, pelo meio das pernas, depois de tropeçar? Minuto 53. Roubar a bola a Battaglia no segundo exacto antes de ele fazer um passe disparatado? Minuto 55. Hoje era daqueles dias em que podia ter jogado com uma venda nos olhos.

 

 

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Gelson Martins

Depois de uma época em que quase nunca conseguiu participar em contra-ataques por falta de companhia, hoje apanhou a companhia perfeita no outro lado do campo. Na ausência de Schelotto, o único que chegava aos sítios à mesma hora, e com quem sentia uma obrigação ética de tentar tabelar, bastou-lhe furar por ali fora sozinho e marcar um golo. E ainda teve tempo, numa comovente homenagem a outro ex-colega, hoje em Itália, para falhar outro.

 

Battaglia

Percebeu cedo que discordâncias filosóficas insanáveis o separavam dos jogadores adversários. Por conseguinte, e numa tentativa de reconciliar escolas de pensamento opostas, pregou uma cacetada nos joelhos de Marin, que é como se assinala uma diferença de opinião entre pessoas civilizadas. Obstinadamente agarrados aos seus sofismas, às suas falácias, os jogadores do Olympiacos insistiram em tentar passear com a bola ao seu lado, acções que pouco avançam a causa do conhecimento, e que obrigaram Battaglia a esclarecê-los sucessivamente sobre a verdade dos factos.

 

Acuña

Sofreu a falta na origem do golo inaugural e contabilizou mais uma assistência. De resto, esteve muito, muito bem sem bola; e entre o razoável e o fraco com bola. Deixou-se, um número quase indesculpável de vezes, antecipar por pessoas que se aproximaram sorrateiramente pelas suas costas. Pode ser uma questão de frescura física, ou falta de experiência a jogar à apanhada na infância, embora a primeira opção seja mais plausível, pois é algo que ele próprio costuma fazer aos adversários.

 

Bruno Fernandes

Estreou-se hoje a marcar golos normais. O momento tinha de chegar, mais tarde ou mais cedo, e Bruno Fernandes estava com certeza psicologicamente preparado. Habituado a enfrentar cenários adversos, não irá naturalmente baixar a cabeça, tal como não o fizeram Ibrahimovic e Messi que, quando se estrearam a marcar golos normais, marcaram golos muitíssimo mais normais do que este.

 

Doumbia

É um homem simples, mas sério, e está ali para trabalhar. Metam-no a titular e, pronto, ele marca um golo. Metessem-no numa carpintaria e pronto, ele fazia uma mesa. Depois dedicou-se a servir outros colegas para que eles próprios fizessem o seu trabalho. Foi substituído na segunda parte, foi tomar o seu banhinho, comer uma canjinha, e repousar antes de uma viagem longa.

 

Bas Dost

Em perfeita sintonia com o espírito e objectivos da equipa, tratou de rematar uma bola contra a barriga do guarda-redes e outra à barra, tal como praticamente toda a gente fez hoje.

 

Bruno César

Cumpriu, ao seu nível habitual, as instruções que recebera para entrar em campo e ser o futebolista mais razoável do mundo.

 

Ristovski

Uma boa estreia, permitindo a todas as pessoas responsáveis por escrever o seu nome no futuro uma oportunidade para memorizarem a correcta sequência de caracteres.

 

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publicado às 03:35

 

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A usual obra humorística de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise da performance dos jogadores do Sporting em Santa Maria da Feira, em jogo da 5.ª jornada da I Liga.

 

Rui Patrício

Foi há menos de uma semana que Rui Patrício sofreu o último golo no qual não teve quaisquer culpas: um golo marcado por um futebolista cujo último golo antes desse tinha ocorrido num amigável contra a selecção de Malta, um futebolista que representa um clube da 2.ª divisão norueguesa, um futebolista que provavelmente acumula as funções de futebolista com as de decorador de interiores ou notário em part-time. Tudo o que aconteceu hoje em Santa Maria da Feira - o ter estado bem, interventivo, atento, ter safado um golo feito com uma tradicional saída em mancha, e ter sofrido dois golos nos quais nada podia fazer - representa portante um considerável upgrade na semana de Rui Patrício, em termos de dignidade profissional.

 

Piccini

Começou bem, fazendo o primeiro cruzamento logo aos dois minutos, e ganhando um canto pouco depois. Lá atrás destacou-se uma boa cobertura num lance complicado perto da bandeirola de canto, do qual conseguiu sair a jogar. Num lance posterior, viria a sentar-se no chão, agarrado ao pé esquerdo que normalmente utiliza para fazer atrasos comprometedores, e com um esgar de dor no rosto - o tipo de acontecimento que costuma levar Bruno César a despir imediatamente o fato-de-treino (ainda ameaçou, mas não foi o caso). Que recupere depressa, até porque, como ficou mais uma vez demonstrado hoje, está longe de ser o principal problema nas laterais da equipa.

 

Coates

Partilhou alguma da desinspiração geral, no sentido em que alguns dos cortes que a sua eficácia costuma transformar em passes hoje limitaram-se quase sempre a ser apenas cortes (e às vezes nem isso). Mas a sua velocidade de reacção no lance do 0-1 merece todo o mérito do mundo: a urgência com que foi à segunda bola e a violência com que a rematou foram um testemunho à noção imediata do perigo que representava a possibilidade de Alan Ruiz lá chegar primeiro e tentar ele tratar do assunto.

 

Mathieu

Alguns vão tentar focar-se na destrambelhada perda de bola ao minuto 42, que quase dava golo do Feirense, mas é cada vez mais claro que o defeso do Barcelona assinou a certidão de óbito num dos períodos mais fascinantes de hegemonia no futebol moderno - e tudo começou com Mathieu, ou mais precisamente com a decisão tomada pela direcção de Bartomeu em permitir a sua saída (juntamente com a de um avançado brasileiro) por uma verba agregada de 222 milhões de euros. A moral dos adeptos ainda não foi restaurada, e o mês de Agosto foi uma epopeia de negociações falhadas e negas peremptórias por parte de jogadores compreensivelmente relutantes em integrar um plantel desprovido de Mathieu (e de um avançado brasileiro). Quem ficou a ganhar foi o Sporting (e o clube para onde foi o avançado brasileiro).

 

Jonathan Silva

Muita agressividade e pouca lucidez a defender, muita agressividade e pouca lucidez a atacar, muita agressividade e pouca lucidez na maneira como eu começo a olhar para ele. Fica-se com a sensação que não tem um único problema que não se resolvesse com um transplante de cérebro. Os mais cépticos dirão que a ciência médica ainda não chegou a esse ponto, mas podia experimentar-se na mesma, a ver o que dá.

 

William Carvalho

Extraordinariamente desmoralizado com a transferência falhada para um clube que joga a meros sete quilómetros de distância da Sala de Leitura do Museu Britânico, arrastou-se hoje desmoralizadamente pelo relvado do Marcolino de Castro (a meros sete quilómetros de distância do Zoo de Lourosa), dominando desmoralizadamente o meio-campo, recuperando desmoralizadamente várias bolas, iniciando desmoralizadamente várias jogadas com passes desmoralizados, e ocupando a cabeça nos momentos mortos do jogo a reflectir desmoralizadamente na maneira como qualquer manifold tridimensional fechado e simplesmente conexo é homeomórfico a uma esfera tridimensional num plano euclidiano.

 

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Gelson Martins

A perpétua confiança para arriscar no drible (que lhe é conferida pela certeza de que, na esmagadora maioria das vezes, consegue ir a correr recuperar a bola mesmo que o drible falhe, como aconteceu hoje em três ou quatro ocasiões) não teve correspondência prática. Foi um jogo de persistência e labor defensivo, mas poucos desequilíbrios, o tipo de jogo, em suma, que não costuma ocupar os sonhos húmidos de monarcas persas ou oligarcas eslavos, levando-os a reproduzir, mesmo enquanto dormem, os gestos associados ao preenchimento de um cheque. (O que, na verdade, era uma excelente ideia na semana passada, e voltará a ser uma excelente ideia em Janeiro). O certo é que voltou a aparecer no momento certo, com um passe bem medido para o golo de Bruno Fernandes.

 

Battaglia

Terá feito falta no meio-campo, mas conseguiu que não faltasse nada na lateral direita. A mudança de posição depois da saída de Piccini acabou por prejudicar o resto da equipa mais do que prejudicou Battaglia. Com ele exilado para a linha, perdeu-se o panopticon portátil que ali anda no meio-campo a distribuir vigilância, e o número de adversários que conseguiu disciplinar e punir foi reduzido em 30% ou 40%. O habitual superavit de energia foi útil nos últimos minutos, onde foi aplicar os seus hábitos de trinco para recuperar bolas lá na frente.

 

Acuña

As bolas que continua a perder quase sempre que arrisca o 1x1 hoje notaram-se menos, perante a desinspiração que assolou os outros talentos ofensivos da equipa. O que se notou - e não pela primeira vez - é que Acuña é um jogador útil mesmo quando está desinspirado, pela simples virtude de não deixar ninguém respirar. Ao minuto 13, pressionou o lateral-direito do Feirense durante tanto tempo que em certas culturas primitivas seriam obrigados a casar. E aqui e ali vai sempre surgindo um cruzamento perfeito (para B. Fernandes logo a abrir a 2.ª parte) ou um remate perigoso, como o que fez ao minuto 76, num grande momento para os apreciadores de ilusões de óptica.

 

 

Bruno Fernandes

No dia em que completou 23 anos, a primeira coisa a dizer é que fez exibições muito mais impressionantes nesse período longínquo em que tinha apenas 22 anos. Nada lhe correu bem na primeira parte, onde não conseguiu fazer uma única das coisas que tentou. Os seus passes pareciam repletos de boas ideias e excelente informação, como mensagens pacientemente encriptadas. Mas as únicas pessoas que os compreenderam foram os adversários, que agradeceram cada remessa. Felizmente a classe veio ao de cima no lance do 0-2, o golo que serviria para matar o jogo, caso este fosse um clube normal e não uma experiência cardíaca.

 

Bas Dost

Depois de um começo de época pouco preciso, parece estar a recuperar a forma exibida no último terço da época passada nas combinações com os colegas e no jogo de costas para a baliza: na retina fica um passe de primeira para Bruno Fernandes a rasgar o campo de um lado ao outro. De realçar a calma no momento decisivo: não só no penalty, mas também nos festejos, ao decidir não abraçar a pessoa que invadiu o campo claramente com o propósito de ser abraçada. Era abrir um precedente perigoso.

 

Alan Ruiz

Entrou aos 23 minutos e só pisou o primeiro tornozelo adversário aos 26, mostrando mais uma vez a sua habitual lentidão. Teve um grande momento no jogo, perto do intervalo, em que se viu com a bola perto da quina da área sem linhas de passe, e portanto inventou uma do nada, isolando Acuña na linha. O lance é típico, na medida em que revela a capacidade de Alan Ruiz para ver coisas que mais ninguém vê. O resto da exibição também foi típico, na medida em que revela a capacidade das pessoas que contrataram Alan Ruiz e apostam repetidamente em Alan Ruiz para ver coisas que mais ninguém vê.

 

Iuri Medeiros

Dois bons momentos de sacrifício defensivo, e um excelente momento ofensivo já nos descontos, sacando um livre perigoso com uma recepção orientada perfeita (um livre que, de resto, podia perfeitamente ter sido ele a marcar).

 

Doumbia

Enquanto entrar em campo apenas em situações nas quais o cronista está mais preocupado em não sofrer um enfarte do que em estar atento ao que os jogadores fazem, sairá sempre prejudicado neste tipo de textos.

 

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publicado às 03:49

 

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Rogério Casanova, Expresso, com a sua segunda análise humorística à performance dos jogadores do Sporting num  jogo da Liga dos Campeões, neste caso frente ao Steaua Bucareste:

 

Rui Patrício

Depois de 360 minutos descansadíssimos, o espectáculo insólito de que foi hoje espectador na primeira fila - o colapso nervoso em câmara lenta de Coates - despromoveu-o temporariamente a uma condição fictícia, com todos os ajustamentos e reorganizações que isso implica. Foi possível, por exemplo, vê-lo a fazer o tipo de coisas que só é feito por personagens de maus romances: arregalar os olhos de espanto, franzir uma sobrancelha intrigada, suspirar resignadamente, etc. O facto de ter sofrido um golo no qual não teve quaisquer culpas conseguiu por fim restaurar alguma normalidade, e torná-lo humano outra vez.

 

Piccini

Nomeado responsável pela maxipereiração de lançamentos laterais para dentro da área adversária, tem-se dedicado com brio à tarefa, colhendo hoje os primeiros frutos no lance do primeiro golo. Acumulou mais uma mão-cheia de iniciativas ofensivas "interessantes" ao seu currículo, correndo um bocadinho mais devagar do que Schelotto, e escolhendo um bocadinho melhor os sítios para onde corre. Interessante é igualmente o seu hábito de fazer um atraso mal medido por jogo. Hoje tem a desculpa de a bola parecer ter prendido num relvado demasiado seco. É possível que não tivesse acontecido caso o relvado fosse regado à mangueirada antes de o jogo começar. E é possível que não volte a acontecer caso a cabeça de Piccini seja regada com os perdigotos de Jesus depois de o jogo terminar.

 

Coates

Apesar de todos os alertas de segurança difundidos por toda a parte, houve pelo menos uma pessoa no planeta que olhou directamente para o Sol durante o eclipse de segunda-feira, e passou o jogo inteiro ainda a padecer dos efeitos. Será temporário, em princípio.

 

Mathieu

Tal como Coates, deixou-se antecipar por Alibec um número de vezes suficiente para levar algumas pessoas a acreditar que o que aconteceu se deve aos méritos de Alibec e não, como previamente explicado, ao eclipse do sol. Ao contrário de Coates, começou a assentar ainda na primeira parte, melhorou na saída de bola, e tratou o esporádico chuveirinho romeno na segunda parte com a condescendência devida.

 

Fábio Coentrão

Os cuidados com a sua condição física fizeram hipocondríacos de todos nós. Ao mínimo piscar de olhos de Coentrão, centenas de adeptos alarmados suspeitam imediatamente o pior: distrofia muscular, febre hemorrágica, hantavirose, raquitismo, rubéola, diplopia, miomas uterinos ou candidíase vaginal. E no entanto foi um jogador romeno que chocou contra ele no seguimento de um canto a precisar de assistência médica imediata, enquanto Coentrão se levantou de pronto, a piscar os olhos (glaucoma? cataratas? o eclipse?). Na verdade, se alguma coisa representa um risco imediato para a sua saúde, é o posicionamento defensivo dos colegas: a repetirem-se erros colectivos ao seu redor como os da primeira parte, é possível que o homem sofra um torcicolo, de tanto abanar a cabeça. Fez um grande jogo.

 

Battaglia

É um trinco tão à moda antiga que se julgaria quase uma espécie em vias de extinção, e com uma qualquer campanha de recolha de fundos em curso para o salvar. Aquele estilo de escangalhar as linhas de passe da outra equipa aliado a uma miopia parcial (ou mesmo total) às linhas de passe da sua própria equipa sobrevive no futebol de hoje apenas em diluições contemporâneas e doses homeopáticas. Ou então nessa singular catarata do Niagara chamada Battaglia, que, honra lhe seja feita, ainda não tinha jogado tão mal como jogou hoje. Tentou o remate de meia distância ao minuto 46, avançando até ao espaço entre linhas: a bola acabou em Entrecampos. Acabaria por fechar a contagem, com um remate muito mais preciso, efectuado a três centímetros e meio da linha de golo.

 

Gelson Martins

Na primeira parte destacou-se acima de tudo pelas intervenções defensivas quase sempre perfeitas, pois passou o tempo quase todo lá na frente a percorrer sozinho espaços desabitados, um braço erguido como se segurasse um candelabro, como um fantasma num castelo evacuado, a perguntar onde se enfiou toda a gente. (É possível que nem tenha dado conta dos vários romenos que fintou, tal a insubstancialidade dos mesmos). Depois do intervalo, decidiu matar o jogo, antes que o jogo me matasse a mim.

 

Adrien

Fez talvez a exibição mais agradável desde o início de época, portanto como é óbvio saiu lesionado depois de levar uma cotovelada nas costelas. A realidade precisa de novos argumentistas.

 

Acuña

A sua reputação de nunca desistir de um lance precedeu a sua chegada e tem-se confirmado de jogo para jogo. E hoje deu imenso jeito, este hábito de nunca desistir de um lance à primeira - até porque raramente conseguiu ganhar um lance à primeira. Mas foi frequente ganhar um lance à segunda, desarmando ou atrapalhando adversários atordoados com o sucesso de terem ganho o lance à primeira. Não deixa de ser animador que numa exibição com vários erros de decisão e que nunca passou do razoável tenha sido tão decisivo e tenha estado envolvido em tantos golos. Mas naqueles lances em que tem a bola no pé e encara de frente o defesa contrário, a verdade é que continua a ser pouco impressionante.

 

Bruno Fernandes

Na retina e na memória de todos ficou e ficará a jogada absolutamente ridícula ao minuto 77, quando arruinou um contra-ataque promissor com uma abertura patética de pé esquerdo, demasiado curta, e portanto fácil e triunfantemente interceptada pelo defesa do Steaua.

 

Tirando isso não esteve mal.

 

Doumbia

A surpresa no onze inicial, relegando Dost para o banco e estreando-se assim a titular em Bucareste, cidade que se notabilizou na história recente pela maneira como trata líderes que acumulam más decisões: não com um despedimento por justa causa, mas colocando-os perante um pelotão de fuzilamento e enfiando-lhes 120 balas no corpo. Felizmente para todos marcou um golo à primeira oportunidade, só não marcou outro porque um toque demasiado pesado impediu que se isolasse, e esteve geralmente bem.

 

Bas Dost

Destacou-se por ser suplente, destacou-se ao entrar na segunda parte, destacou-se na recuperação de bolas no flanco direito, destacou-se em enfiar mais uma batata lá dentro, destacou-se nos afectos, nos abraços, no pegar crianças ao colo. Acabou por ser uma noite normal.

 

Petrovic

Entrou antes de Bruno César, tem motivos para se sentir optimista em relação ao futuro.

 

Bruno César

De todas as pessoas chamadas César que continuam a ocupar os cargos que ocupam perante uma reacção quase consensual de incompreensão, Bruno César é talvez o que menos laços de parentesco tem com Carlos César.

 

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publicado às 05:23

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting, na terceira jornada da I Liga contra o Vitória de Guimarães:

 

Rui Patrício

A sua longa especialização em evitar que erros de jogadores do Sporting resultem em golos contra o Sporting começou a render frutos ao minuto 18, quando evitou que o erro de um jogador do Sporting (no caso, Rui Patrício) resultasse num golo contra o Sporting. Mesmo nestes jogos desprovidos de traumas ou fricções, entra sempre com todos os seus recursos físicos e psicológicos em estado de alerta, como mostrou no lance ao minuto 32, em que interceptou um cruzamento perigoso com o queixo, o nariz, o lábio inferior, o ombro esquerdo, e a mão direita, mais ou menos por esta ordem. Exemplar a mancha na segunda parte, evitando não apenas o golo, mas também um destacável ilustrado de 16 páginas sobre o erro de Piccini na edição de amanhã do Correio da Manhã.

 

Piccini

Exibiu toda a sua visão de jogo no lance do 0-1, ao encontrar o único jogador em campo (e um dos poucos na história recente do clube) capaz de marcar um golo daquela posição. A atacar, somou o tipo de iniciativas cuja designação correcta é "interessantes", no sentido em que não foram (hoje) bem sucedidas, mas foram bem pensadas, bem executadas, e sugerem um lateral-direito com um QI que não pode ser medido em apenas dois dígitos. O que é interessante, até por ser novidade. A defender, teve uma única falha no jogo inteiro. Mas o certo é que viemos de duas épocas consecutivas em que a organização ofensiva de qualquer adversário tinha sempre um Plano A - fazer lançamentos longos para as costas de João Pereira ou Schelotto - e raramente precisava de um Plano B. Agora isso não é suficiente. Piccini costuma estar no lugar certo para isso não ser suficiente. O que, pelo menos para já, é suficiente.

 

Coates

Com o cordão sanitário devidamente instalado à volta da pequena área, limitou-se a pequenas patrulhas de circunstância e a dois ou três lances incaracteristicamente cautelosos, em que decidiu não arriscar e ceder canto. Na verdade pode nem ter sido cautela, mas sim a sua formidável leitura de jogo, que o informou a tempo e horas que hoje nem de canto ia haver problemas.

 

Jérémy Mathieu

Depois de oitenta e quatro minutos a explicar com heróica paciência aos jogadores vimaranenses que não, que eles não tinham razão, que não era assim que se fazia, e que todos os seus argumentos eram inválidos, sofreu um toque no tornozelo direito e saiu para o balneário, presumivelmente para receber a assistência médica de que eu próprio senti necessidade quando percebi que ele saiu lesionado.

 

Fábio Coentrão

Primeira assistência para a sua conta pessoal, estando agora apenas a um abraço de Dost de igualar o total de Zeegelaar na época anterior. Intratável no 1x1 com Raphinha, nunca passou por apuros de maior a defender, excepto a meio da primeira parte, quando se viu numa situação de inferioridade numérica perante uma falange de adeptos do Guimarães organizados num sistema táctico 40-40-20 e munidos de papéis amarrotados, esferográficas, farrapos de plásticos e uma dezena de isqueiros intrigantemente familiares.

 

Rodrigo Battaglia

O melhor passe longo da sua curta carreira no clube deu início à jogada do 0-3 e esse inesperado sucesso pareceu ter-lhe aberto o apetite para testar novos raios de alcance: na segunda parte era vê-lo a ensaiar variações de flanco à mínima oportunidade. De resto, perdeu-se a conta ao número de iniciativas do adversário que abortou. Como um psicopata num safari, encarregou-se de assassinar tudo o que mexia. Tão ágeis e atarefadas pareciam aquelas pequenas combinações do Vitória no meio-campo! Tão iludidamente optimistas aquelas jogadas - e aquelas crias de jogadas - a saltitar pela relva no seu habitat natural! Átila, o Huno, gostava de dizer que por onde ele passasse, a relva não voltaria a crescer. Mais modesto, mais lúcido, mais profissional, Battaglia contenta-se em deixar a relva no sítio e exterminar apenas toda a vida inteligente.

 

 

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Adrien Silva

O raio de acção parece infinitesimalmente maior de jogo para jogo - hoje tanto aparecia a fazer desarmes na sua área (minuto 5) como a fazer recuperações no último terço (segundos depois). A velocidade de reacção é que não parece estar a ser recuperada ao mesmo ritmo. Continuam a surgir múltiplas ocasiões de jogo em que o corte, ou o passe, ou o toque de habilidade, chega uma fracção de segundos depois do pretendido. Não jogou mal; mas também ainda não jogou o que (ele) sabe e (a gente) precisa. E há, de resto, sempre um índice infalível para perceber se o próprio Adrien está satisfeito com a sua exibição: deixá-lo marcar um golo e examinar a sua cara nos festejos.

 

Gelson Martins

Não vá o rapaz sentir a ânsia dos "novos desafios" ou de "conhecer novas paragens", arranjou-se um expediente para evitar que mude de clube, e de país: mudá-lo de posição. É eminentemente argumentável que já podia e devia ter acontecido há mais tempo e em mais ocasiões. Obriga-o a pensar de maneira diferente, e a não transformar aquela transtornante facilidade de drible numa colecção de automatismos. Hoje foi frequente vê-lo com espaço livre à sua frente e com um espalhafato de adversários na sua esteira - uma Guernica de pitons no ar, chuteiras viradas, meias do avesso - para hesitar no momento de definição, ao ver-se confrontado com um insólito excesso de opções. Mas é insistir, que só lhe faz bem. A ele e à equipa.

 

Marcos Acuña

Começou no seu posto habitual na esquerda, onde se empenhou em correr uns metros, levantar a cabeça, procurar Dost, e sofrer falta. A meio da primeira parte foi desviado para a faixa direita, onde revelou uma impressionante capacidade de adaptação, tendo de imediato corrido uns metros, puxado para dentro, levantado a cabeça, procurado Dost, e sofrido falta. Nas bolas paradas, de livre ou de canto, continua a semear a esperança entre os colegas: braços erguem-se por toda a grande área, como numa sala de aula em que o professor faz de repente uma pergunta fácil. De bola corrida, continua a falhar demasiados passes simples e terá obrigatoriamente de mostrar muito mais do que mostrou hoje.

 

Bruno Fernandes

A pré-época foi suficiente para perceber que rende muito mais numa posição mais recuada do que nest... olha, golo! Que grande remate. Mas como ia dizendo, a sua visão de jogo, a capacidade de ver todas as linhas de passe numa única matriz, tudo isto são características muito mais úteis numa posiç... outro remate! Passou a milímetros. Mas como estava a explicar, esta é a posição errad... golo! Bom, são óptimas notícias, mas nada disto refuta a ideia central deste parágrafo, que é a de a sua posição ideal no terreno ser mais rec... grande jogada. Uma pena ter ido à barra. Mas lá está, se estivesse mais recuado, se calhar tinha entrado. Tal como eu sempre defendi, e com toda a razão.

 

Bas Dost

Completamente fora de forma, tendo marcado apenas 40% dos golos que a equipa marcou hoje, quando na época anterior chegou aos 50%.

 

Iuri Medeiros

Fez tudo - rigorosamente tudo - bem nos minutos em que esteve em campo - excepto quando tentou rematar à baliza, prometendo assim, e desta forma um bocado literal, uma época em que pode atenuar algumas das saudades que os adeptos ainda sentem de João Mário.

 

Jonathan Silva

Jogou os últimos 14 minutos, permitindo que Coentrão fosse levado para o seu santuário de elixires, unguentos e pomadas. Teve tempo para conduzir (com bastante competência) parte da jogada do quinto golo, para falhar uma recepção de bola, e para agredir o oxigénio ao tentar fazer um corte de cabeça, acção ainda assim preferível a agredir uma cabeça ao tentar fazer um corte de oxigénio.

 

Bruno César

Jogou os últimos sete minutos a central, no lugar de Math... Foi André Pinto, aliás. André Pinto! Peço imensa desculpa, é o hábito.

 

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publicado às 04:22

 

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A segunda edição da época oficial de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo da 2.ª jornada da I Liga com o Vitória de Setúbal. Começa por nos deixar esta apreciação generalizada sobre uma das características desta equipa do Sporting: "Cruzamentos sempre razoáveis e sempre inofensivos - uma especialidade que deve ser treinada arduamente em Alcochete".

 

O leitor deve notar que apesar do semblante humorístico da sua coluna, Rogério Casanova deixa-nos um certo número de verdades para ponderar. Também inconfudível é o facto de Cristiano Piccini ser o seu alvo favorito.

 

Rui Patrício

Um daqueles jogos - a que está condenado 4 ou 5 vezes por época - em que podia perfeitamente ter entrado em campo com um casaquinho e um tablet. Agora já nem sequer se pode entreter com atrasos desesperados de Zeegelaar feitos invariavelmente para o seu pior pé. Certamente por tédio, ainda ensaiou uma saída algo maluca dos postes ao minuto 38, que acabou por compensar com uma mancha aérea em forma de suástica, e respectivo corte para canto com a panturrilha esquerda.

 

Piccini

Mas, afinal, o que é que vocês querem? Incursão confiante com a bola no pé ao minuto 5, derivando para o meio e libertando Gelson na ala no momento exacto. Outra boa jogada no minuto seguinte, ganhando lançamento. Idem idem aspas aspas aos 14, a conseguir ganhar canto quanto estava em inferioridade numérica. Aos 17, com a bola imobilizada, encarou de frente o adversário directo, sentou-o e cruzou. É certo que a coisa não melhorou a partir daí. É certo que provavelmente piorou. E algures a meio da primeira parte, transformou-se numa espécie de periscópio com pernas, emergindo de tempos a tempos para procurar Gelson e entregar-lhe a bola o mais depressa possível, e à menor distância possível. Mas um lateral de equipa grande, nos jogos em casa, tem qualquer coisa como uma ordem de prioridades: ou desequilibra com bola; ou ajuda a desequilibrar sem bola; ou pelo menos tenta não atrapalhar.

 

O homem não sabe cruzar, é um facto. Mas já há demasiada gente a cruzar neste clube, e mal. Não é necessariamente um drama termos um lateral que não saiba cruzar. O drama é ele perder o medo de cruzar mal. Aquele medo de cruzar que mostrou na pré-época? É isso! Isso é que tem de ser recuperado. Medo, muito medo, que é para continuar fazer só as poucas coisas que sabe fazer bem. O resto há-de vir com calma, nem que seja de outro cidadão, aparentemente macedónio.

 

Coates

Encarregou-se tranquilamente de algumas funções distributivas, mas perante uma das equipas mais inofensivas que passou por Alvalade nos últimos anos, o seu principal papel foi geoestratégico: encarnar numa forma visível, e de carne e osso, as reservas estratégicas de testosterona do clube, não fosse alguém ter ideias de fazer alguma jogada de ataque perto de si. Ninguém teve, por acaso.

 

Mathieu

Membro mais proeminente da vaga de neo-turismo a assolar Lisboa, passeou-se tranquilamente pelo jogo com a placidez de quem passou três anos seguidos a aturar Messi e Iniesta a fazer-lhe fintas nos treinos e veio agora tirar fotografias pitorescas com pelourinhos e sardinhas, Edinhos e Costinhas. Sempre atento a dobrar Jonathan e a varrer sobras, impávido com a bola no pé, fazendo passes milimétricos mesmo pressionado, e mostrando na última meia-hora a energia e lucidez que já faltavam a alguns colegas para fazer coisas inteligentes e passíveis de criar perigo na baliza certa. Foi provavelmente o melhor em campo.

 

Jonathan Silva 

Foi o primeiro a iniciar uma jogada depois da saída de bola do apito inicial (mandou um criativo chutão lá para a molhada). Foi também o primeiro jogador do Sporting a ser ultrapassado em velocidade por um jogador do Setúbal (minuto 58, aflição entretanto resolvida por Matthieu).

 

Jonathan é raçudo. Não é lento. Não é tosco. Mas quem achar que hoje, por exemplo, fez um jogo melhor do que Piccini, ou que é, nesta altura, um lateral claramente superior a Piccini, deve rever o jogo inteiro outra vez: não para observar erros clamorosos, que não os teve, mas para observar a gritante falta de jeito que tem a escolher os espaços certos para ocupar quando a equipa ataca, quer tenha ou não a bola no pé.

 

Battaglia 

Vê-lo jogar no lugar de William é um pouco como ver as montagens de treino paralelas num dos filmes da saga Rocky: um gajo a esmurrar lombos de porco num matadouro em Filadélfia e a engolir gemadas de penálti, enquanto outro anda a fazer jogging em cima de casacos de peles, com um daiquiri na mão.

 

A maioria dos adeptos de futebol tem, creio, um afecto instintivo pela prática dos cortes em carrinho, desde que sinta que não são um acto de desespero, mas sim uma maneira de ser. Battaglia tem portanto, e logo à partida, características ideais para cair no goto das pessoas de bem. Voltou a fazer um belo jogo, mas vê-lo a pegar na bola à frente dos centrais para iniciar circulações lentas, como fez na primeira parte, mais do que um erro de casting, parece um desperdício de recursos. Alargou o raio de acção depois do intervalo e começou a causar chatices sempre que cavalgava pela faixa esquerda ou aparecia em corrida perto da área. É cada vez mais improvável que não tenha sido uma óptima contratação.

 

Adrien Silva

Mais uns treinos em cima, mais uns minutos de correria desenfreada, e começam a vir à tona, lentamente, as coisas em que é exímio: não a "pensar" nem a "organizar", mas a reagir mais depressa do que todos os outros aos momentos em que a organização claudica e é preciso responder a emergências locais - o calcanhar instintivo na área a desviar um cruzamento atrasado de Gelson para a zona exacta onde estavam os dois colegas em condições de fazer alguma coisa útil; ou o outro calcanhar à saída da área do Vitória, impedindo o que podia ter sido um contra-ataque perigoso.

 

Definiu mal um ou outro lance de ataque, mas lá foi a correr resolver o problema. E quase marcou um golinho logo a abrir a segunda parte, mas o remate bateu no ferro. Devem faltar mais dois ou três jogos inteiros para voltar a algo parecido com a sua melhor forma, seja aqui, seja no Reino Unido.

 

Gelson Martins

Tentou um golo à Mancini aos 8 minutos, respondendo a um cruzamento de Acuña rematando em voo com o quinto metatarso. Foi por cima, e não voltou a aparecer em zonas de finalização para repetir as gracinhas do fim-de-semana passado. Passou grande parte do jogo longe da área e em inferioridade numérica - sozinho contra dois, contra três, ou por vezes contra quatro, se contabilizarmos entre os seus adversários um ou outro colega que aparecia na sua zona apenas como mais um obstáculo a ultrapassar. No passado, jogar sozinho contra o mundo nem sempre foi impeditivo de grandes exibições. Não foi o caso hoje.

 

Acuña

Hão-de sair imensas alegrias daquele pé esquerdo; hoje, num jogo algo apagado, o que se viram, quando muito, foram presságios. Mas insistiu demasiado no cruzamento (e a qualidade dos mesmos foi-se deteriorando com o correr do jogo); e procurou muito menos as zonas interiores do que tinha feito na 1ª jornada, e até na estreia contra o Mónaco. Deve haver qualquer coisa tremendamente apelativa nas faixas laterais deste estádio, tal é a devoção que inspira nas pessoas.

 

Podence

Couberam-lhe os dois primeiros desequilíbrios do jogo, ultrapassando duas vezes Pedro Pinto no espaço de sessenta segundos. Os cruzamentos (quase sempre a procurar Dost ao segundo poste) saíram-lhe sempre razoáveis e sempre inofensivos - uma especialidade que deve ser treinada arduamente em Alcochete. Remexeu, deambulou, acelerou, agitou - mas o último passe teimava em sair mal. Ainda não é um jogador acabado, mas a acumulação de exemplos sugere que não é exactamente feito para criar ocasiões de golo, mas sim para criar o caos onde outros as possam criar. Um jogador de repentes beneficiará mais de lucidez à sua volta (Bruno Fernandes, por exemplo) do que de jogadores igualmente instintivos ou repentistas (como Adrien e Gelson). Além de que, no somatório actual das suas qualidades e defeitos, começa cada vez mais a parecer formatado para médio-ala e não para avançado.

 

Bas Dost

Teve um gravíssimo momento de inépcia ao minuto 43, daqueles que merecia ser imortalizado em .gif: sozinho na área, isolado perante uns escassos cinco jogadores do Setúbal, não conseguiu levar a melhor e acabou por perder a bola. Como é possível? Talvez pior ainda foi a figura patética que fez em dois lances semelhantes, um em cada parte, quando não teve arte para ultrapassar sozinho os duzentos e noventa e cinco defesas vitorianos que guardavam o desfiladeiro das Termópilas, e preferiu servir colegas com toques de calcanhar. Acabou por marcou o golo da vitória a três minutos dos 90, arrancando o seguinte comentário a um senhor na mesa ao lado do café: "este é como o Jardel, também só marca de penálti". O senhor era adepto do Sporting e estava a falar a sério.

 

Bruno César

Um sistema de freios e contrapesos autodireccionado, cujo único propósito é corrigir as suas próprias debilidades.

 

Doumbia

Bem vindo ao Sporting, o clube onde a bola só entra depois de aprenderes quatro palavrões novos.

 

Bruno Fernandes

Não foi titular, e foi o último suplente a entrar: são estes os factos relevantes; tudo o resto - o que fez enquanto esteve em campo, foi a coisa menos surpreendente do mundo.

 

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publicado às 04:31

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, está de volta para o primeiro jogo oficial da época com a sua usual e muito popular análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, no seu triunfo diante o Desportivo das Aves:

 

Rui Patrício

O primeiro toque na bola surgiu aos 10 minutos. A primeira defesa acrobática a safar erro de um colega aos 24. O primeiro golo sofrido sem quaisquer culpas terá de ficar para a próxima oportunidade. 

 

Piccini

Passou os primeiros 15/20 minutos do jogo muito resguardado: pela única faixa de sombra do relvado; pelo facto de ocupar o lado mais distante das câmaras; pelo software japonês de qualidade dúbia utilizado ainda em alguns lares portugueses; pelo flagelo dos anúncios pop-up; pela diminuta constelação de pixels que filtrava a sua presença através de um par de óculos de mergulho besuntados com margarina. Quando conseguiu emergir deste nevoeiro tecnológico, os resultados foram desiguais: cada recuperação crucial ou contenção inteligente era equilibrada com uma cueca sofrida ou uma perda de bola comprometedora. Melhorou na segunda parte (como Matthieu, aliás), soube dar algum apoio rudimentar ao ataque e ainda ia marcando o 0-3, depois de uma finta de corpo dentro da área contrária, num movimento físico que, se algum dia fosse observado no corpo de Schelotto, levaria as pessoas a chamar imediatamente um exorcista.

 

Coates

Com bola: ensaiou duas incursões ofensivas pela faixa direita, uma em cada parte, a segunda das quais só travada em falta já perto da área contrária, depois de deixar dois adversários para trás. Sem bola: emboscou a linha avançada do Aves com um lenço embebido em clorofórmio, enfiou-os todos na bagageira do carro, e levou-os até Monsanto.

 

Mathieu

Marcou dois golos de livre directo na carreira, um pelo Toulouse, em 2007, e outro pelo Barcelona, em 2015. É portanto, pelos padrões de Adrien Silva, um especialista. Hoje tentou mais um, ao minuto 9, mostrando estar já plenamente adaptado ao espírito do clube que um dia, há não muito tempo, encorajou Anderson Polga a tratar das bolas paradas. A defender, optou quase sempre pela solução mais segura. Ao minuto 29, por exemplo, apanhou Agra de frente, já na área, numa jogada em que Semedo tentaria desarmá-lo com um toque de calcanhar, seguido de túnel, seguido de pirueta à Zidane ainda dentro da área, e posterior saída em galope na direcção do meio-campo - com elevadas probabilidades de acontecer golo, fosse numa baliza ou na outra. Matthieu cedeu canto, sacudiu as mãos, e foi trabalhar.

 

Fábio Coentrão

Enternecedora a rapidez com que os colegas perceberam que lhe podem passar a bola de qualquer maneira, em qualquer zona do campo, sejam quais forem as circunstâncias. Coentrão não se vai atrapalhar, não vai perder a bola, não vai precisar de fazer falta, não vai obrigar ninguém a acender um cigarro, por muita vontade que ele próprio sinta de o fazer. A pujança física também vai melhorando, e o número de sprints por jogo tem subido, desde a pré-época, em progressão aritmética. (Pelos meus cálculos, lá para a décima jornada, vai fazer oitocentos por jogo.)

 

Hoje esteve bem em tudo, menos a cruzar. Ou seja: é finalmente o lateral certo no clube certo.

 

William Carvalho

Para explicar o intervalo criativo entre uma indicação cénica e o trabalho do encenador, Tom Stoppard gostava de falar, em entrevistas, numa encenação de A Tempestade feita em Oxford, nos anos 70. O palco era o extenso relvado da Universidade, com um lago ao fundo. Depois da sua última deixa, Ariel virava-se e corria através do relvado, até chegar à beira do lago — e depois continuava a correr, pois a produção instalara uma espécie de passadeira sólida, um centímetro abaixo da superfície da água. O público via Ariel a correr devagarinho pelo lago fora, e a ouvir o som líquido das suas passadas, até desaparecer de vista, e uma explosão de fogo-de-artifício assinalar o seu desaparecimento num chuveiro de faíscas contra o pôr-do-sol. No texto de Shakespeare, a única indicação que se lê é "Ariel sai de cena".

 

No jogo de hoje, de acordo com as instruções tácticas que recebeu, William Carvalho jogou no meio-campo.

 

Gelson Martins

Estreou-se esta época na arte do cruzamento com um banano para trás da baliza. Alguns minutos mais tarde, ultrapassou Nélson Lenho num par de patins invisíveis e voltou a cruzar mal, embora desta vez rasteiro e atrasado. À terceira ocasião de perigo, deixou-se de subterfúgios e aceitou o fardo de fazer (quase) tudo sozinho. Viria a marcar também o golo do descanso, antes que houvesse chatices. Tal como no início da época passada, voltou a mostrar a capacidade de ser decisivo, mesmo nos dias em que não é consistentemente desequilibrante.

 

Adrien Silva

Teve um livre directo ao seu jeito ao minuto 38, daqueles em que não costuma perdoar e acerta normalmente com a bola em cheio na barreira. Desta vez o remate não lhe saiu bem e a bola acabou por sair na direcção do guarda-redes, algo que acontece aos melhores, aos piores, e aos assim-assim. Como a época passada demonstrou, é talvez o jogador do plantel que mais precisa de estar no pico da condição física para ser o jogador que é; e para lá chegar tem de ir jogando, mesmo que jogue como hoje, mesmo que... enfim, sabem aquela piada de John Lennon sobre a hipótese de Ringo Starr ser o melhor baterista do mundo? Adrien, nesta altura, nem sequer é o melhor baterista dos Beatles. Precisa de tempo e da paciência dos adeptos, dois bens escassos até 31 de Agosto.

 

Marcos Acuña

Sofreu a primeira falta do campeonato aos 30 segundos. Será a primeira de muitas. Recuperou a bola aos 7 minutos (depois de falhar um cruzamento). Será a primeira de muitas. Molhou o pincel pela primeira vez ao minuto 21, recebendo a bola na, chamemos-lhe, "zona Alan Ruiz" (quina da área, do lado direito), e conseguindo virar-se, ajeitar a bola e rematar, tudo em menos de meia-hora. É ele quem lança Gelson para o golo inaugural. E nunca foi menos do que inteligente a posicionar-se no momento defensivo (já no jogo de apresentação se tinha percebido que tem jeitinho para cortar linhas de passe e impedir variações de flanco). Pelas primeiras impressões, sugere que aconteceu ao Sporting uma coisa sem precedentes: gastou-se um camião de euros num canhoto sul-americano - e ficou-se com um bom jogador.

 

Bruno Fernandes

Depois de uma pré-época promissora e entusiasmante, em que ocupou com qualidade um dos dois lugares do meio-campo, era historicamente necessário pô-lo hoje a jogar numa posição nova, fenómeno que no fundo é um produto das condições materiais do nosso tempo. A sua velocidade de pensamento e de execução ainda se notaram, a espaços: no repentismo com que rematou cruzado para grande defesa de Adriano, ou na composição artística de calcanhares com naturezas mortas com que prefaciou a jogada do 0-1. Foi ideologicamente saneado ao fim de uma hora.

 

Bas Dost

O que foi verdadeiramente impressionante na sua época de estreia em Portugal não foram os números que acumulou, mas ver esses números aliados a uma presença tão espectral que por vezes quase pareceu uma ausência. Em vez de assistirmos a duelos entre defesas-centrais e Bas Dost, assistimos a duelos entre defesas-centrais e um vazio nos arredores da bola que, por acaso, ia sendo empurrada para dentro da baliza. Trinta e cinco vezes seguidas. Outros pontas-de-lança fazem remates estrondosos à barra, gritam palavrões nas repetições em câmara lenta, têm cortes de cabelo interessantes. Bas Dost marca golos e cumprimenta os amigos. Hoje, à falta de oportunidades claras (tirando uma ocasião já perto do fim), dedicou-se a servir quase toda a gente à sua volta, na procura desesperada de uma assistência e, possivelmente, de um abraço.

 

Podence

Após alguns ensaios inconclusivos ou interrompidos, lá conduziu um contra-ataque perfeito, largando a bola no momento certo e com um passe bem medido, algo que (suspeita-se) fará mais vezes em proporção directa aos minutos que jogar.

 

Battaglia

Veio fornecer ao meio-campo a capacidade que começava a faltar: mexer-se depressa de um lado para o outro. E mostrou o truque que começa a dominar como poucos: intercepção, progressão rápida com a bola, desaceleração súbita, e novo arranque em velocidade, obrigando o adversário a cometer falta. É um truque limitado, mas útil, e o certo é que até agora nunca falhou. Continua a parecer o melhor suplente possível que a equipa podia ter tido nas duas épocas anteriores.

 

Jonathan Silva

Nota-se que está um jogador mais maduro e contido: não cometeu qualquer falta nem viu um único cartão amarelo nos 17 segundos que esteve em campo.

 

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publicado às 04:44

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 30.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, comenta as performances individuais dos jogadores do Sporting no jogo com a Fiorentina, na disputa do Troféu Cinco Violinos, com o seu usual humor:

 

Rui Patrício

 

Na maior ocasião de perigo criada pela Fiorentina, saiu bem a fazer a mancha aos pés do filho de Hagi, vendo depois sair por cima da barra um remate feito pelo filho de Chiesa, num jogo tão descansadinho que o seu lugar até podia ter sido ocupado pelo filho do pai do Azbe Jug.

 

Piccini

 

A sua primeira intervenção depois do intervalo foi uma homenagem tão sentida ao antecessor que quase parecia copy-paste: falhou a receção de uma bola alta, perdeu-a para o adversário, conseguiu recuperar na raça, iniciou um galope de vários metros que desequilibrou toda a gente e no momento decisivo falhou a abertura para Gelson, antes de desatar a correr para vir recuperar a posição. Schelotto fez umas oitenta jogadas semelhantes; Piccini, arrisco, fará umas vinte. A principal diferença entre ambos não é sequer o lance em que circum-navegou a Fiorentina inteira antes de servir Podence na pequena área; Schelotto também fez umas quantas avarias parecidas. A diferença é um incremento moderado, mas real de solidez defensiva e de capacidade global, mas, acima de tudo, uma noção bastante mais saudável das suas qualidades e defeitos. Piccini, tal como Schelotto e Zeegelaar, não é, nem nunca, será um grande lateral. Mas ao contrário deles, sabe o que é e o que não é, e sabe proteger-se. O que acaba por me proteger a mim também, especialmente ao nível psiquiátrico.

 

Tobias Figueiredo

 

Um defesa-central dos anos 80 com uma fidelidade intempestiva a exigências de cariz quase arqueológico, trasladado para esta cruel modernidade que já não aprecia nem tolera os tempos que a linha de fora-de-jogo podia ser medida por bigodes e patilhas, em que a lama era mais confortável do que a relva, em que uma bola podia e devia ser chutada com a maior força possível, de preferência para fora do estádio, e onde mariquices como a construção de jogo eram melhor deixadas a colegas com técnica mais apurada, como William, ou Patrício, ou o massagista. Teve o seu melhor e mais característico lance ao minuto 83, quando conseguiu dar uma joelhada no pâncreas de um adversário sem nunca tirar os olhos da bola, uma proeza de coordenação motora que deixaria qualquer defesa do Millwall orgulhoso.

 

William

 

Formou uma excelente dupla de centrais consigo próprio, passando o jogo inteiro a explicar calmamente aos avançados da Fiorentina que "estes não são os dróides que vocês procuram", e a fazer a sua própria fotossíntese, nutrindo-se directamente da luz do sol sem precisar de comida, ou de colegas.

 

Fábio Coentrão

 

I dress a wound in the side, deep, deep,

But a day or two more, for see the frame all wasted and sinking,

And the yellow-blue countenance see.

I dress the perforated shoulder, the foot with the bullet-wound,

Cleanse the one with a gnawing and putrid gangrene, so sickening, so offensive,

While the attendant stands behind aside me holding the tray and pail.

I am faithful, I do not give out,

The fractur’d thigh, the knee, the wound in the abdomen,

These and more I dress with impassive hand, (yet deep in my breast a fire, a burning flame.)

- Walt Whitman, "The Wound Dresser"

 

Battaglia

 

O estilo de jogo de alguns trincos com as suas características físicas e limitações técnicas costuma ser justamente comparado ao de um cachorrinho a perseguir automóveis. Battaglia hoje pareceu um automóvel a perseguir cachorrinhos. Escangalhou uma dúzia de jogadas da Fiorentina na primeira parte, com uma impressionante colecção de desarmes, jogadas de antecipação, impondo o físico, enchendo o seu terço do campo, e saindo várias vezes a rinaudar, com transportes verticais que mudavam rapidamente o centro de operações. Não tem recursos para variações rápidas de flanco ou para verticalizar o jogo com passes longos; mas tem inteligência para substituir essas opções por outras igualmente eficazes. E, não sendo um fora-de-série, representa talvez o tipo de jogador que mais falta fez no plantel nos últimos doze meses.

 

Gelson Martins

 

Na vastidão do cosmos, o conceito de "agora" é mais ou menos irrelevante. Devido à ligação inextricável entre tempo distância e velocidade de sinal, é impossível saber o que se está a passar "agora", por exemplo em Alpha Centauri. Sabemos apenas o que se passou há 4 anos e meio, o tempo que a luz demora a fazer a viagem. Acontecia algo parecido com os contra-ataques do Sporting conduzidos por Gelson na época anterior, e que o resto da equipa acompanhava invariavelmente a vários anos-luz de distância, muitas vezes descobrindo o que se tinha passado apenas ao ver as repetições em casa. Esta época, o facto de ter um colega com igual capacidade supersónica abre-lhe novas opções. Apesar de tudo, esteve hoje bem pior no cruzamento e no último passe do que tinha estado contra o Mónaco, E ainda bem, que as bancadas estão repletas de gente estrangeira com montes de dinheiro e más intenções.

 

Bruno Fernandes

 

Um par de bolas perdidas e uma exibição globalmente menos impressionante do que já fez nesta pré-época, mas continua incapaz de provocar o mais leve vestígio de dúvidas a alguém: qualidade de recepção e de passe, rapidez de raciocínio e de execução, e a capacidade para já saber quase sempre o que vai fazer à bola um segundo e meio antes de esta lhe chegar aos pés.

 

Acuña

 

Já deu para perceber que o seu estilo no 1x1 é semelhante ao de Coentrão: dar um toque na bola três metros para a frente e apostar em chegar lá antes dos outros. Quanto melhor for a pujança física, mais vezes vai resultar. Para já, o que salta à vista é a sua invulgar qualidade sem bola: a ajudar o lateral, a cortar linhas de passe, a saber quando ir fazer superioridade numérica no meio. Percebe muito de futebol, o que é logo meia batalha ganha. Se revelar em devido tempo a mesma qualidade a desequilibrar que já mostra a equilibrar, será um enorme reforço.

 

Podence

 

Aos 12 minutos, rompeu sozinho pelo meio e só foi travado em falta por Vitor Hugo, homónimo de um escritor francês também ele com um historial de anões problemáticos. A jogada mais candidata a aparecer no resumo televisivo será a do minuto 27, quando girou sobre Astori e rematou em arco para uma grande defesa. Tão ou mais impressionante foi o que fez 5 minutos antes, quando mostrou aquilo que faz melhor do que ninguém no Sporting actual: recuou, recebeu a bola de costas para o ataque, rodopiou para tirar o marcador directo da jogada, e descobriu uma diagonal de Dost sem sequer olhar, isolando-o na área. É o melhor jogador do clube a fazer este movimento específico desde João Vieira Pinto. Agora falta fazê-lo 30 vezes por ano, se faz favor.

 

Bas Dost

 

Testemunhou na primeira fila mais um caso gravíssimo de assassinato tecnológico do futebol. Um momento penoso para a saúde do desporto-Rei, onde foi tão indisfarçável o desconforto dos adeptos, cruelmente obrigados a festejar o mesmo golo duas vezes, como a preocupação de Dost perante este novo desafio à sua capacidade para distribuir afectos com justiça e celeridade pelas pessoas que o assistem.

 

Jonathan

 

Sofreu mais faltas duras do que as que fez, talvez uma estreia na sua carreira. Perto do fim, conseguiu não ser expulso por agressão depois de um adversário lhe puxar os cabelos, numa das situações menos argentinas em toda a história do futebol.

 

Bruno César

 

Muito bem a sofrer faltas na faixa direita. É nesta altura um dos mais competentes jogadores do plantel a sofrer faltas, tanto na faixa direita, como na esquerda, como no meio.

 

Adrien

 

Logo que entrou teve uma oportunidade de ouro para mostrar a sua recém-adquirida especialidade: a cobrança inofensiva de bolas paradas. Não desiludiu.

 

Alan Ruiz

 

Às dezanove horas e cinquenta e sete minutos do dia vinte e nove de julho do ano dois mil e dezassete da era cristã, Alan Nahuel Ruiz, mais conhecido como El Mago, foi fintado por um guarda-redes.

 

Doumbia

 

Compreende-se-lhe algum desalento com esta insistência em obrigá-lo a fazer jogadas de combinação com Alan Ruiz, especialmente quando a ocasião mais promissora em que se viu envolvido resultou não de uma combinação com o colega, mas de uma combinação com um adversário: o defesa da Fiorentina que o deixou roubar a bola.

 

Matias Fernández

 

Foi muito agradável voltar a vê-lo.

 

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publicado às 06:09

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 24.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com o seu bem conhecido humor, analisa as performances dos jogadores do Sporting no jogo de apresentação da equipa frente ao campeão francês Mónaco, com destaque para Matheus Oliveira:

 

"Há algo de bidimensional na sua presença - em campo, no estágio, no plantel - como se não fosse resultado de carne, osso e cartilagem, mas de um efeito tromp l'oeil. Uma coisa no entanto ninguém pode negar: Mattheus Oliveira é extremamente parecido com as imagens de Cristo que costumam aparecer nas revistas Sentinela e Despertai! a ilustrar artigos como "O Que Vai Deixar de Existir Quando o Reino de Deus Chegar?", "A Minha Luta Como Soldado de Cristo", e "Compre Este Médio Talentoso Mas Desnecessário Por Apenas 1 Milhão de Euros Mais Portes de Envio".

 

Rui Patrício

Lidou horrivelmente com um atraso numa das suas primeiras intervenções, num lance que ia dando golo, mas foi só para testar os nervos dos adeptos que, como se sabe, nesta altura do ano, ainda andam à procura da melhor forma. Acabou por se redimir com uma defesa do outro mundo a um cabeceamento de alguém chamado Carrillo, mostrando uma comovente preocupação em evitar que alguém chamado Carrillo marcasse um golo em Alvalade, preocupação de resto não partilhada por todos os colegas.

 

Piccini

Teve direito a praxe mais violenta da pré-temporada. Depois de Valbuena, hoje apanhou com Mbappé, que descaiu várias vezes para o seu corredor, mostrando que não deve haver relatório de olheiros feito sobre o Sporting de há dois anos para cá que não aponte, em letras maiúsculas, a fragilidade da equipa a defender lançamentos em profundidade para a faixa direita. Piccini voltou a mostrar que é melhor a fechar por dentro do que a solucionar esse problema de longa data; que é menos rápido do que Schelotto, mas que usa a velocidade com muito mais inteligência; que sabe usar o físico e tem bom tempo de corte; que sobe pouco, cruza menos, e sempre visivelmente contrariado; que é um upgrade, mas não o desejado; que não é um grande lateral-direito (o que daria jeito ao Sporting), nem um desastre (o que daria jeito aos adversários, e possivelmente a esta plataforma digital).

 

Coates

Um "defesa de corpo inteiro" era algo que eu julgava ser um cliché, até ter visto o seu jogo de hoje. Ultrapassado por Mbappé aos 6', foi ao chão, mas virou-se com agilidade suficiente para interceptar a bola (com a nádega). Substituiu Patrício na linha de golo e fez uma grande defesa aos oito minutos (com o abdómen). Aos 16' foi cabecear a centímetros do poste (com a testa). Cortou uma bola de perigo já na pequena área ainda antes do intervalo (com a barriga da perna). Aos 68', grande intervenção no 1x1 com um avançado do Mónaco que vinha embalado direito a si, desarmando-o (com o pé, para variar). É um descanso tê-lo por cá (no campo e no coração).

 

Mathieu

Jogo certinho e sem as aflições que marcaram os jogos na Suíça. Com a bola no pé, enfim... andou três anos a trocar a bola com o Iniesta sem destoar, vamos dar-lhe tempo.

 

Fábio Coentrão

É um grande jogador ainda a recuperar a melhor forma, portanto vão sendo as pequenas coisas: o transformar de um alívio numa desmarcação, o proteger a bola com o corpo sem qualquer vestígio de nervosismo, a lucidez a encontrar a melhor opção, a capacidade para receber bolas bombeadas a meia-altura e junto a linha, deixando-as jogáveis ao primeiro toque, as acelerações súbitas (e, por enquanto, de poucos metros) para se livrar da pressão dos extremos contrários, e acima de tudo a forma corajosa como conseguiu até agora disfarçar os vários sintomas que apresenta - de hipotermia, escorbuto, cólera, febre do Nilo, etc, - e fingir que não é uma pessoa lesionadíssima.

 

Battaglia

Vê-lo jogar é uma experiência estranhamente fatigante, em que uma bola perdida no meio-campo é apenas o primeiro capítulo de uma espécie de epopeia. Carrinhos, desarmes, faltas, arranques, carros a capotar, alguém a fazer rapel pela Torre Eiffel abaixo, outra pessoa a escapar por um triz a uma avalanche, um edifício a explodir, uma bomba em contagem decrescente, etc. É como assistir ao trailer de um filme de acção, onde cortaram todas as partes chatas é tudo condensado a dois minutos de efeitos especiais impressionantes e diálogo não muito bem escrito. Nunca vai (nem ele nem ninguém, em boa verdade) dar à equipa o que William dá em posse. Mas tem uma disponibilidade física fora do vulgar, e o tipo de agressividade que obriga constantemente o adversário a mudar de ideias. Pode ser que vá mudando as nossas também.

 

Gelson Martins

Scouting report by H. P. Lovecraft:

Vastly overrated attacking midfielder, whose eldritch proclivities when in possession of the hallowed sphere should make any sensitive scouting soul this side of Massachussets shudder in unnamable horror. Occasional ghoulish glimpses of a freakish abominable talent can be seen as they bubble up putrescently under the gibbous stadium floodlights, but his vile, batrachian movements offer no beauty and no freedom to the discerning eye of someone not bewitched by the horrid reputation of Alcochete's infested swamps.

 

Beware, o Greats of Manchester and Spain, perusing the dark horizons for the next shining star: all you will ever find here is gibbering hideousness and squamous perversity twitching and slithering in the endless night!

 

#Gelson #scouting #flops

 

Bruno Fernandes

Ao minuto 10, com todas as linhas de passe cortadas, teve calma e confiança suficientes para resguardar a posse de bola em zonas tradicionalmente proibidas até sofrer falta. Dois minutos depois, Battaglia efectuou um remate à queima contra os seus tornozelos, a meio metro de distância; Bruno Fernandes conseguiu, não me perguntem como, transformar o lance numa tabelinha. Marcou o golo do 1-0, aparecendo de repente em zona de finalização. Perto do intervalo, é ele quem vai ganhar o espaço a Sidibé na faixa esquerda, depois de este ter ultrapassado Acuña e Coentrão. Ao minuto 50, fez exactamente o mesmo na faixa direita, dobrando Gelson e Piccini. E foi ele, inclusive, quem veio escrever metade deste parágrafo, porque eu estou muito cansado.

 

Marcos Acuña

Deve ter decorado com afinco meia dúzia de instruções tácticas específicas, pois procurou insistentemente desmarcações interiores nos primeiros minutos, e mostrou sempre um cuidado patológico em ajudar o lateral do seu lado - mostrando ainda algum desacerto posicional, que compensou com tenacidade e uma surpreendente capacidade de desarme. Quanto à qualidade (já conhecida e anunciada) a bater livres e cantos, deu exemplos suficientes para comover um público que não via um novo reforço tão competente nas bolas paradas desde Didier Lang - comparação pela qual peço desde já imensa desculpa a todos os envolvidos.

 

Podence

Se Podence fosse um animal não seria propriamente daqueles que inspiram medo, como os predadores de grande porte, mas sim um daqueles que provocam irritação, como a melga. Estamos descansadinhos no sofá, ouvimos o zumbido de uma coisa diminuta a passar e quando damos por isso temos uma probóscide enfiada na pele, e um insecto a gargarejar o nosso sangue. Embora, enfim, neste caso não literalmente.

 

Melhor momento do jogo: o livre directo que ganhou ao minuto 56 depois de fazer um túnel a si próprio.

 

Bas Dost

Quem é que remata de cabeça ao ângulo, com aquela força, e àquela distância, quando a bola vem a fazer a curva ao contrário e não particularmente tensa? Mas quem é que este gajo julga que é?

 

Jonathan

Exibe, na minha maneira de ver as coisas, duas sobrancelhas excessivamente depiladas para o seu estilo de jogo.

 

William

O Sol brilhou, as nuvens escangalharam-se em hemorragias de luz, dos céus ouviu-se o som de trombetas, montanhas afastaram-se amavelmente da frente, vales abriram-se de livre e espontânea vontade, o horizonte recheou-se de portentos. Foi, por outras palavras, mais uma tarde de Sábado na vida de William Carvalho.

 

Adrien

Mas isto agora dos livres directos veio de onde e porquê?

 

Alan Ruiz

Qualquer ordem constitucional só é verdadeiramente democrática quando tolera e promove o acesso das oposições ao poder como resposta espontânea ao desgaste e descrédito dos titulares governativos, como diz o povo.

 

Doumbia

"A girar e a girar, em círculos cada vez mais amplos, o falcão já não ouve o falcoeiro", como explicou Yeats em "The Second Coming", o seu célebre poema sobre a armadilha do fora-de-jogo.

 

Iuri Medeiros

Pouco depois de entrar e pouco antes de sair, conseguiu fazer um movimento interior, uma boa recepção, um passe de primeira, uma perda de bola e uma falta sofrida em zona perigosa, tudo na mesma jogada. Não é bem o mesmo tipo de "polivalência" de Bruno César, mas não deixou de ser impressionante.

 

Tobias Figueiredo

Tem de melhorar a sua estratégia de comunicação.

 

Francisco de Oliveira Geraldes

Fez uma pausa no preenchimento da papelada necessária para pedir asilo político no Império Austro-Húngaro e veio ao campo fazer três passes bons e um mau.

 

Beto

Fez uma única defesa e sofreu um golo em que nada podia fazer: a média de Rui Patrício numa boa mão-cheia de jogos da época transacta.

 

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publicado às 09:24

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 20.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, analisa com o seu já bem conhecido humor - sem deixar de dizer algumas verdades - a performance dos jogadores do Sporting no jogo de pré-época diante o Marselha:

 

Pedro Silva

Cumprido o ritual anual que consite em incinerar um esloveno na fogueira dos seus defeitos, oferecendo-o em humilde sacrifício a Estagius, o Deus das pré-épocas, chegou a altura de utilizar um guarda-redes à altura da história do clube, capaz de defender remates de longe (´4), sair bem fora da área para evitar contra-ataques (´19), e não ter culpas nos golos sofridos (´2 e ´52). De realçar também uma excelente mancha ao minuto 89, talvez a melhor interceção de um lance de perigo feita COM O PEITO por um atleta do Sporting chamado Pedro Silva desde março de 2009.

 

Piccini

Imaginemos então que o espelho retrovisor do lado direito da nossa viatura se partiu há uma carrada de anos. Que durante o último ano e meio andámos a prendê-lo ao sítio com fita adesiva, permitindo-nos assim cumprir os mínimos exigíveis em matéria de retrovisão, mas não deixando de ter imensos problemas na manobra, pois a fita adesiva foi comprada no Lidl por oitenta e nove cêntimos, e teima em descolar-se nas alturas mais inoportunas. Imaginemos agora que ao fim deste ano e meio de problemas compramos uma fita adesiva de qualidade obviamente superior, mais resistente, emborrachada, flexível e relativamente impermeável, tipo Flex Tape: uma fita adesiva com melhor aspecto, com maior conhecimento dos princípios gerais da adesividade, capaz de dominar o espelho retrovisor ao primeiro toque, de fornecer apoios, etc. A situação é claramente melhor, mas não deixa de sugerir a pergunta: PORQUE RAIO É QUE NÃO SE GASTOU DINHEIRO E SE COMPROU A PORRA DE UM RETROVISOR NOVO?

 

Coates

Deixou fugir Clinton N'Jie logo a abrir, tornando-se assim a única pessoa do mundo a perder uma corrida contra uma pessoa chamada Clinton nos últimos oito meses. De resto, sem estar mal, comportou-se um pouco como um monarca no exílio, que se vê rodeado de gente nova e sente a soberania transformar-se em clandestinidade de um dia para o outro.

 

Mathieu

Contratado para substituir o Rúben Semedo de 2016, revelou-se hoje um substituto à altura do Rúben Semedo de 2017: pouco ágil a resistir a momentos de pressão dos avançados, e com tendência para a perda de bola comprometedora, seja em passes aparentemente simples para o lateral (minuto 36), seja depois de incursões abortadas com a bola no pé (como aconteceu perto do intervalo). Ao contrário do que acontece com um ou dois outros reforços, há pelo menos a firme expectativa de que é (e vai voltar a ser) muito melhor do que isto.

 

Fábio Coentrão

Aquele ruído colossal registado ao minuto 17 pelos sismógrafos de todo o mundo? Não há motivo para preocupações: foi apenas o grito colectivo de seiscentos mil adeptos do Sporting e dois milhões e meio de adeptos do Benfica a gritar em simultâneo “aleijou-se, eu já sabia!” quando Coentrão caiu ao relvado agarrado ao joelho. Foi falso alarme. Há que levantar a cabeça e continuar à espera.

 

Petrovic

Tutelou a construção de jogo e a contenção defensiva a partir de um quadradinho de relva tão formal, limitado e opressivo como uma residência oficial. O combustível extra que a forma física lhe conferiu no primeiro jogo de preparação parece estar a esgotar-se, e a tornar as suas limitações mais visíveis.

 

Bruno Fernandes

Um lance ao minuto 31 demonstrou a utilidade dessa misteriosa característica chamada velocidade de reação: com uma simples recepção orientada no meio e um passe instantâneo para as costas da defesa critou numa fracção de segundos um desequilíbrio temporário em toda a organização defensiva do Marselha (temporário porque a bola chegou pouco depois a Alan Ruiz). Antes disso já tinha permitido o primeiro remate perigoso da equipa, amortecendo a bola para Battaglia. E até à entrada de Podence foi o único a tentar o transporte rápido de bola, mesmo que a definição nem sempre tenha saído bem. Num jogo em que até nem esteve particularmente inspirado, inventou os principais momentos de qualidade da primeira parte.

 

Battaglia

Como se esperava, e na linha do que mostrou no Braga, mostra uma tremenda utilidade sem bola: esfarrapa-se todo na pressão, farta-se de ganhar ressaltos e até protege bem a posse com o corpo quando a consegue recuperar. Quando tenta construir, especialmente ao recuar para trinco, notam-se as limitações conhecidas (em duas ou três ocasiões em que podia ter variado o flanco com rapidez com um passe mais longo, optou por bolas curtas e seguras aos centrais). Mas tê-lo no plantel continua, até provas em contrário, a parecer boa ideia.

 

Bruno César

Muito versátil e polivalente a perder sprints quando lançado em profundidade e a fazer faltas imediatas sobre o lateral adversário para evitar contra-ataques. Muito versátil e polivalente a marcar livres indirectos para as mãos do guarda-redes e a recuar logo para manter a forma táctica. Muito versátil e polivalente a perder bolas na meia-lua contrária e a pressionar de imediato. Como toda a sua versatilidade e polivalência é nesta altura como um cinto de castidade táctica, colocado em campo para garantir que ninguém se diverte, sejam colegas, adversários ou espectadores.

 

Alan Ruiz

Conseguiu fazer o seu número habitual ao minuto 32, recebendo na meia-direita, derivando para o meio e rematando de fora da área, tudo isto em menos de meia-hora. E manteve a sua já mítica abordagem voyeur à pressão alta, optando por não incomodar os adversários e limitando-se a bisbilhotar os seus movimentos a uma distância segura, como se tivesse receio de ser apanhado a espreitar. Continua a ser exasperante que tanto talento consiga ser tantas vezes problema e tão raras vezes solução, a não ser em câmara lenta. Mas é o que temos.

 

Bas Dost

Habituou-nos a finalizar no plural majestático: o golo é dele, mas ele diz que é nosso. É da mais elementar justiça retribuir a gentileza e explicar que hoje tivemos poucas oportunidades, que nem sempre soubemos ligar o jogo com o resto da equipa (fomos melhores na idealização do que na execução), e assumir que na única semi-ocasião que tivemos dentro da área, a bola nos bateu na cabeça em vez de ser a nossa cabeça a bater na bola. Com este, no entanto, não é preciso comprar água potável, conservas e munições: as coisas vão evidentemente regressar ao normal em breve.

 

Jonathan Silva

Fazendo as contas à distância a que eu me encontrava da televisão e à distância a que a câmara se encontrava da faixa que ocupou, a única coisa que é possível garantir com 100% de certeza é que Jonathan Silva não viu um cartão amarelo, estando por isso de parabéns.

 

Podence

Entrou com a missão de rejeitar a ordem burguesa e perturbar o regular funcionamento das instituições, tarefa que cumpriu com a vivacidade habitual.

 

Mattheus Oliveira

Atarefou-se com grande profissionalismo a gerir a correlação de forças no meio-campo: procurando isolar a facção x, neutralizar o opositor y, ou auxiliar o aliado z – não à custa de retórica inspiradora, mas de tacticismos parlamentares, mostrando sempre bom toque de bola, lucidez na distribuição, uma brilhante capacidade para ser inofensivo, e uma comovente esperança em ser útil no plantel actual.

 

Matheus Pereira

Seria extremamente curioso e extremamente engraçado emprestá-lo a outro clube. Extremamente curioso e extremamente engraçado.

 

Tobias Figueiredo

Continua a parecer uma sombra do central que chegou a parecer aos 17 anos, mas reconheça-se que não tem estado mal na pré-temporada.

 

Doumbia

Aguarda-se com algum frisson a altura em que consiga aliar o andamento para acompanhar as incursões-relâmpago de Podence e Bruno Fernandes com uma sintonia na mesma frequência – perderam-se dois contra-ataques promissores não por falta de pernas ou jeito, mas por terem todos pensado de maneiras diferentes. Marcou (bem) o penálti, e ainda podia ter bisado ao minuto 74, mas foi bem bloqueado pelo ex-futuro colega, Dória.

 

Palhinha

Mostrou, tal como o já tinha feito várias vezes no final da época anterior, alguma evolução com a bola no pé e uma agressividade e raio de acção a pressionar que poucos têm no plantel.

 

Francisco de Oliveira Geraldes

... Desprendeu-se a vontade de Francisco Sete-Sóis, mas ao relvado não subiu, pois ao banco pertencia, e à Barafunda”.

 

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publicado às 11:37

 

Balakov, Barbosa, err... Hanuch e Ghilas: as melhores contratações da história, enfim, recente do Sporting (por Rogério Casanova).

 

Confuso? Talvez. Mas o autor da prosa justifica as suas escolhas quando enumera os melhors negócios do Sporting nos últimos tempos.

 

 

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                  Gary M. Prior

 

Balakov (1991)

Será difícil de convencer – ou sequer de explicar a – adeptos de futebol nascidos depois dos anos 80, mas houve uma altura em que era possível, e até com algum grau de conforto, não saber o que pensar sobre determinada situação, e sobreviver sem uma opinião firme. Nos tempos remotos e antediluvianos da modalidade – a era pré-YouTube, pré-Lei Bosman, pré-diários desportivos, pré-painéis de comentadores, pré-apostas online, pré-streams ilegais – uma nova contratação, por exemplo, era um fenómeno encharcado em mistério, e cada reforço cujo nome terminava em -ic, -ov, ou -inho não era uma página da wikipédia e um vasto conjunto de amostras, mas um emblema de expectativa e potencial. Uma opinião informada era a última coisa que nos passava pela cabeça.

 

Não saber o que pensar e não sentir vontade de divulgar o que pensamos deixaram de ser hipóteses viáveis. Em alguns casos recentes (Celsinho, Slavchev), terei visto mais minutos de um jogador via internet nas semanas que antecederam a contratação do que os minutos que os vi jogar com a camisola do clube depois da contratação. Quando Balakov chegou, em Janeiro de 1991 (vindo de um clube chamado, pela minha saúde, Etar), não só a maioria dos adeptos não o tinha visto jogar: nunca sequer tínhamos ouvido falar nele. Quem o contratou, aparentemente, também não. O infalível Sousa Cintra apresentou-o como ponta-de-lança e um “suplente quatro estrelas para o Gomes”.

 

Por tudo isto, mas não só, Balakov parece pertencer a um estágio anterior do desporto, o futebol tal como era construído na imaginação solene de uma criança a brincar aos adultos. Chegou na época em que a imagem platónica de um “grande” jogador” era ainda Maradona (e o seu sucedâneo europeu, Hagi): um esquerdino talentoso, ocupando uma posição indeterminadamente vagabunda entre o meio-campo e o ataque, com liberdade para não respeitar espartilhos tácticos e para resolver sozinho problemas colectivos. E assim foi. Um adulto não vê propriamente futebol à espera que um jogador marque um golo do meio-campo. Aos dez segundos de jogo. Num derby. Ou que o mesmo jogador finte toda a população da península de Setúbal antes de empurrar a bola para dentro da baliza. Para não falar de expectativas menos irreais, mas de certa maneira ainda mais inocentes, como a crença de que qualquer livre directo ou pontapé de canto pode ser uma genuína ocasião de perigo.

 

Fez 168 jogos pelo Sporting, e marcou 60 golos. Ganhou um único troféu, uma Taça de Portugal, no seu jogo de despedida. A sua saída deixou na memória de alguns adeptos o equivalente a cicatrizes de acne. Tudo o que veio a seguir fez já parte do desconforto bem informado da idade adulta.

 

Pedro Barbosa (1995)

 

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                                        Getty Images

 

Se para alguém nascido em 1980, Balakov foi o derradeiro representante do futebol edénico, Pedro Barbosa foi o primeiro ídolo na transição para a maturidade problemática: a pessoa ideal para nos agradar, ao mesmo tempo que anunciava o fim da era de emoções puras (no sentido em que qualquer emoção passou a ser necessariamente diluída por emoções paralelas e por vezes contraditórias).

 

A longevidade é parte da questão, e carreiras como a sua são hoje praticamente impossíveis: serão pouco mais do que residuais as probabilidades de um jogador talentoso emergir no campeonato nacional e resistir fora da órbita dos três grandes até aos 25 anos – muito antes disso será contratado pelo Benfica e emprestado ao Desportivo das Aves.

 

Barbosa chegou ao Sporting e cá ficou dez anos, o tempo suficiente para estar em campo nos jogos de estreia de Simão Sabrosa, Quaresma, Cristiano Ronaldo e João Moutinho. O tempo suficiente para participar na supertaça de Paris, no fim do jejum em Vidal Pinheiro, na semana do quase em 2005. O tempo suficiente para que a sua tantas vezes frustrante lentidão se adequasse ao bilhete de identidade. O tempo suficiente para nos ensinar que é possível manter uma franja mesmo sendo completamente careca.

 

Não deixando de ser uma figura “de culto” (está para certos adeptos de futebol como Captain Beefheart para certos melómanos) é possível que o seu estatuto fosse ainda mais sólido caso representasse uma anomalia clara na tradição futebolística a que pertence (como Le Tissier, por exemplo, foi para o futebol inglês). Na realidade, limitou-se a encarnar anacronicamente uma sublimação – ora esplêndida, ora caricatural – do que a sua tradição tinha sido na década anterior, mas também de um estranho futuro alternativo do futebol português em que a ”geração de ouro" nunca emigrasse: a frustrante estagnação produzida por um superavit de talento aliado ao défice crónico de consistência; a execução de um futebol de curvas, elipses e parábolas num período em que o jogo já convergia para procurar a distância mais curta e eficaz entre dois pontos.

 

Tivesse sido um bocadinho melhor e não teria ficado dez anos. Um bocadinho pior e teria sido provavelmente linchado pelos adeptos em pleno relvado. Combinou qualidades e defeitos na proporção exacta para alcançar uma congruência trágica com a identidade do clube a que dedicou os melhores anos, e que lhe dedicou os mais comovidos aplausos e mais exasperadas vaias.

 

Hanuch (1999)

Na cabeça de cada adepto existe uma pequena utopia sobre a maneira correcta de fazer as coisas e preparar uma época. Idealmente, os defeitos do plantel anterior são atempadamente diagnosticados; decide-se um naipe de “4 ou 5 contratações cirúrgicas” para colmatar essas lacunas e acrescentar real qualidade; preenche-se o resto do plantel dando “oportunidades” a talentos “da formação”; todos os jogadores cruciais chegam antes do regresso aos trabalhos na nova época; tudo corre bem daí para a frente, pois tamanha eficiência preparatória é meio caminho andado para o sucesso.

 

A época de 1999/00 que culminaria no final de um jejum de 18 anos, começou com a venda do melhor jogador ao Barcelona. Era mais ou menos unânime que o ponto fraco da equipa era o lugar de ponta-de-lança, onde pontuava uma colecção argentina de artrites reumatóides chamada Acosta. Portanto contratou-se um guarda-redes campeão europeu. E um médio espanhol chamado Robaina. E outro médio espanhol chamado Toñito. E por fim espatifou-se quase todo o orçamento da época num extremo argentino chamado Hanuch, “roubado” triunfantemente ao rival. O treinador que fez a pré-época foi despedido em Setembro, e os erros do plantel corrigidos só em Dezembro, com recurso a trocos, a veteranos e promessas adiadas repescadas ao campeonato belga, e a excedentes do Real Madrid B.

 

Ninguém sabe porque é que as coisas boas acontecem.

 

Enakarhire (2004)

 

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                   Miguel Riopa

 

Num clube que durante largos anos raramente fez negócios lucrativos com jogadores que não viessem da formação, Enakarhire foi uma das mais intrigantes exceções. Chegou da Bélgica com 21 anos, custou um milhão de euros, fez 19 jogos para o campeonato (nunca chegou propriamente a ser titular indiscutível), mais um punhado de exibições imponentes na caminhada até à final da EUFA, e foi vendido por seis milhões ao Dínamo de Moscovo.

 

Num espaço de dezoito meses, o mesmo clube russo contratou Nuno Espírito Santo, Maniche, Costinha, Derlei, Seitaridis, Frechaut, Danny. Jorge Ribeiro, Luis Loureiro, e mais uns quantos cujo nome só o Google ainda recorda. Enakarhire praticamente nem jogou em Moscovo: passou duas épocas emprestado, e abandonou prematuramente o futebol aos 26 anos (acabaria por regressar aos 30, no campeonato de San Marino).

 

Terá sido o primeiro vislumbre da deterioração lógica a que foi submetido o mercado de transferências, um prenúncio da entropia que, de acordo com a segunda lei da termodinâmica, vai fazendo com que a entropia de um sistema fechado permaneça a mesma em quantidade, mas decline gradualmente em qualidade – um processo físico cujo culminar será um período não muito distante em que todo o mercado de transferências vai consistir no Wolverhampton a vender o mesmo jogador a si próprio, todos os dias, para sempre.

 

Ghilas (2013)

 

No defeso de 2013/14 era preciso um avançado para fazer concorrência a Montero, e a escolha parecia óbvia: um promissor avançado argelino, alto, forte, raçudo, de crânio rapado, que parecia marcar golos de toda a maneira e feitio. Foi uma contratação bem f... não, não, afinal não, o FC Porto chegou-se à frente, pelo que se teve de ir buscar outra pessoa, da mesma nacionalidade, e com morfologia semelhante, mas com menos potencial, sem qualquer experiência no futebol europeu, e pelo embaraçoso preço de 300 mil euros. Paciência, há momentos assim.

 

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publicado às 13:57

 

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O nosso "amigo" Rogério Casanova, jornal Expresso, está de volta depois de gozar umas boas férias e brinda-nos com a sua análise ao plantel do Sporting, nomeadamente no que diz respeito aos casos mais problemáticos, como sempre, com uma boa dose de humor à mistura. Optámos por não dividir a crónica em capítulos, tornando-se, portanto, um pouco extensa para o que é habitual.

 

Problema: Schelotto e Zeegelaar

 

Para evocar a escala verdadeiramente geológica da questão, apresento o seguinte facto: em conjunto, estes dois defesas-laterais jogaram mais minutos pelo Sporting do que os minutos gastos por Fábio Coentrão a desbloquear a sua situação fiscal em Espanha antes de poder assinar contrato (e com menos resultados práticos). E ainda cá estão, tecnicamente, mas presume-se que não por muito tempo. Ambos, na verdade, reúnem as condições para irem embora muito depressa. Schelotto, honra lhe seja feita, sempre demonstrou a capacidade para ir embora muito depressa; é talvez a sua característica mais elogiável, embora seja frequente vê-lo ir embora muito depressa na direcçãoerrada, com toda a lucidez táctica de um fluxo piroclástico. Se Schelotto vivesse em Pompeia aquando da erupção do Vesúvio em 79, seria hoje um meme viral: uma figura petrificada, preservada para sempre na postura de quem cavalgava a toda a velocidade direito ao vulcão. Entreguem-lhe uma bola e ele cavalga muito depressa até ao adversário. Entreguem-lhe uma lista de compras pararisotto e ele cavalga muito depressa até à secção do esparguete. Existe aparentemente uma proposta para o levar para o Médio Oriente, a troco de cinco cabeças de gado e uma saca de cereais. O principal risco é que apanhe um avião para o Canadá, portanto esperemos que esteja a ser devidamente assessorado.

 

Quanto a Zeegelaar, líder isolado dos rankings Opta e GoalPoint no parâmetro "Jogador Que Mais Vezes Obrigou os Adeptos a Erguer As Sobrancelhas Com um Ar Incrédulo", a explicação mais plausível é que se trata neste momento de um homem paralisado por uma hipertrofia de autoconfiança. O homem deixou o insucesso subir-lhe à cabeça. Acredito que atenda cada telefonema do empresário com genuína perplexidade por o mesmo não lhe apresentar convites do Chelsea ou da Juventus. Não será um qualquer Feyenoord a demovê-lo deste elevadíssimo altar: que hipóteses tem a modesta liga holandesa, quando até o planeta Terra parece demasiado pequeno para os seus talentos? O melhor será enviá-lo para um dos exoplanetas habitáveis cuja descoberta a NASA anuncia de meia em meia hora, e deixá-lo criar sozinho a sua própria equipa, o seu próprio desporto, a sua própria sociedade.

 

Solução: Se aquilo que ambicionamos é um mero upgrade, a solução estará mais ou menos encontrada. Um Fábio Coentrão que entre em campo com um cigarro em cada mão e um esporão calcâneo em cada pé, e que precise de constantes transfusões de sangue durante o jogo para se manter vivo, não conseguirá jogar pior do que Zeegelaar. E arrisco que Piccini conseguirá jogar melhor do que Schelotto até depois de uma lobotomia - ou até durante uma lobotomia.

 

E no entanto: será sonhar demasiado alto exprimir o desejo de que se contrate um lateral cujo pai é um diplomata marfinense que se apaixonou por uma advogada uruguaia num baile de máscaras organizado na embaixada em Brasília? Que tenha passado a infância no Brasil, antes de se mudar com a família para Alemanha aos 9 anos, onde foi prontamente integrado na Academia do Borussia Mönchengladbach, tendo alinhado em todos os escalões jovens da selecção do seu país adoptivo, embora não ponha de parte a hipótese de escolher a Costa do Marfim ou o Uruguai para a sua carreira sénior? Que se encontre neste momento tapado num clube do meio da tabela na Bundesliga pelo experiente titular, mas não deixe por isso de custar pelo menos 8 milhões de euros, tendo em conta o seu inquestionável potencial? Que seja rápido, forte, potente, meça 1,85m, exiba peitorais de titânio e tranças oxigenadas, tenha um bom primeiro toque e saiba cruzar por alto, embora prefira o cruzamento rasteiro e atrasado? Que se chame, por exemplo, Maximiliano Cissé ou Juan Ramón Traoré ou Pablito Coulibaly?

 

Não é um conjunto assim tão utópico de características: é meter o scouting a trabalhar, e passar o cheque.

 

Problema(s): a venda de Rúben Semedo, o pé direito de Paulo Oliveira, o pé esquerdo de Paulo Oliveira, o título de 1999/00, a persistência da memória, a ilusão tóxica da nostalgia

 

É a característica mais pitoresca do coro dogmático constituído pelos adeptos de um clube durante o defeso: a convicção de que o propósito central do período de transferências é a regeneração da memória colectiva, e a consequente vontade de reproduzir as condições exactas do maior sucesso do passado recente. A juntar a isto, precisamos de um defesa-central.

 

Solução: Era uma questão de tempo até tentarmos encontrar uma sequela de André Cruz. Um central trintão, experiente, esquerdino, internacional pelo seu país e com passagens por grandes clubes, mas com uma reputação surpreendentemente periférica para a qualidade que tem e o currículo que acumulou. Que seja alto e até algo corpulento, embora com uma pujança mais etérea do que propriamente física, que seja mais esperto do que rápido, mas que se destaque acima de tudo com a bola no pé, que é como vai passar 90% do tempo em 90% dos jogos. Deste ponto de vista, bem vistas as coisas, o principal problema na contratação de Mathieu é ter acontecido agora e não em Dezembro, como medida desesperada. (E não saber marcar livres, o que é uma pena).

 

Problema: Francisco de Oliveira Geraldes continua a ler livros.

 

Solução: Pô-lo a jogar, sempre.

 

Problema(s): a provável perda de William, a natureza efémera da felicidade

 

Não deve passar desta pré-época: William Carvalho vai levar o seu roupão de flanela e banhar-se numa outra cascata de Martinis, lá longe, no estrangeiro. No seu lugar deixa um vazio, mais profundo ainda no coração de quem sabe quão injusto é o cepticismo que o rodeia. Apesar de tudo, é possível que, caso as coisas sejam bem feitas, os adeptos percam mais do que a equipa, que, para usufruir regularmente de uma fracção do seu talento precisa de transcender limitações razoáveis, com benefícios nem sempre aparentes. William joga como um espelho cuja superfície não reflecte a luz, optando por absorvê-la, anexando confiantemente as suas características. E debaixo daquela elegante solidariedade, notava-se quase sempre uma impaciência severa, um juízo moral em plena execução. Resta-nos colmatar a perda dos inúmeros momentos em que sentimos o cérebro subitamente inundado por químicos de altíssima qualidade (um passe imaculado produz muitas vezes este efeito, especialmente quando se é adepto do Sporting) com a sensação semi-exultante e semi-fraudulenta de que se conseguiu algo a troco de nada.

 

Solução: Antes de mais, assimilar a noção de que a vida continua. De seguida, resistir à tentação de o substituir por uma réplica e apostar num modelo diferente: um trinco brutamontes, que se comporte como um senhor feudal à procura de camponeses para subjugar, e não como um Prometeu moderno, que nos tenta mostrar o segredo do fogo perante o nosso olhar cretino e ingrato.

 

Problema: a birra de Aquiles

 

É uma história antiga. Na verdade, é a mais antiga de todas: a Literatura começou assim. No último ano da Guerra de Tróia, décima temporada de Aquiles com a camisola dos Aqueus, o valoroso guerreiro sentiu-se desrespeitado por Agamemnon, quando este lhe roubou Briseia (uma escrava de quem Aquiles se tornara personal trainer a título pro bono) e lhe bloqueou uma transferência milionária para o exército Eólio. Aquiles artilhou uma birra épica, retirou-se para a tenda de campanha, e garantiu numa entrevista exclusiva concedida ao pergaminho diário Jogus que não voltava a sair enquanto a situação não fosse resolvida, comportamento de resto caucionado pelo pai, que tratou de explicar a quem o quisesse ouvir que o seu filho "sempre honrou a camisola grega, e não merece ser tratado desta maneira". A situação ficou bastante complicada, mas Aquiles acabou por ceder e sair da tenda, prometendo dar tudo em prol do grupo de forma a ajudar as tropas de Agamemnon a conquistar os objectivos, mas o certo é que a qualidade das suas exibições no campo de batalha nunca mais foi a mesma, e o seu estatuto entre os adeptos sofreu por arrasto, e portanto cá estamos.

 

Solução: Vender o homem por 30 milhões a um clube que os queira pagar será o primeiro passo. Para o seu lugar, quem sabe? Bruno Fernandes parece a escolha óbvia, mas discernir as intenções de Jorge Jesus transformou-se numa actividade cabalística, onde se procura adivinhar a sequência correcta dos caracteres que compõem o Nome divino. Há quem olhe para Bruno Fernandes e veja alguém que pode ter um papel semelhante ao de João Mário, derivando das linhas para fornecer apoios interiores. Há quem olhe para Marcos Acuña e veja alguém que pode ter um papel semelhante ao de Adrien, uma espécie de charrua topo de gama para lavrar o terreno inteiro entre duas áreas. Battaglia, cujas características serão talvez as mais semelhantes, fica a perder em termos estritamente qualitativos, e parece aliás ser candidato a uma posição mais recuada.

 

Ou seja, a época pode teoricamente começar com um médio-centro adaptado á faixa direita, um médio-ala adaptado ao centro do terreno, e um todo-o-terreno adaptado a trinco posicional. É um cenário intrigante (e que não creio vir a cumprir-se), mas que colocaria estimulantes dúvidas adicionais. Como se comporta Jorge Jesus no seu dia-a-dia? O que faz, por exemplo, quando lhe apetece comer um prego? Compra uma carcaça e um bife de vaca? Ou compra uma almofada e uma courgette e tenta adaptá-las?

 

Problema: Orçamento

 

De acordo com a internet, continua a existir uma situação de seu nome VMOCs, com respectivos "prazos de conversão", que pelos vistos não sei quê e não sei que mais.

 

Solução: Aprender a pronunciar a palavra VMOC de forma mais criativa - o "O" homossexualmente prolongado, um semi-mudo "E" antes do "M" - como se invocássemos o nome de um obscuro poeta simbolista francês, e conduzir todas as conversas, especialmente com adeptos de clubes adversários, para esse campo ("pouca gente fala na profunda influência em Apollinaire da obra de Vemôque", etc).

 

Problema: Iuri Medeiros

 

Iuri Medeiros não é propriamente um problema, mesmo que não saibamos ainda o que é. Sabemos o que parecia ser, e sabemos o que pode vir a ser, que são duas coisas algo diferentes, e o jogador lá vai deambulando de empréstimo em empréstimo com este ontologicamente problemático estatuto.

 

Num conto de Henry James intitulado The Private Life, há uma personagem chamada Lord Mellifont, universalmente reconhecido como a figura mais carismática de toda a Grã-Bretanha, com o dom de dizer sempre a palavra certa na situação certa, e a capacidade para dominar qualquer grupo onde seja inserido. A dada altura no conto, outra personagem (e o leitor) faz uma descoberta assombrosa: Lord Mellifont só existe na presença de terceiros, e desmaterializa-se quando sozinho. A temporária não-existência é o preço da sua enérgica e assídua incisividade: "que outra forma de repouso", pergunta o narrador, "poderia restaurar tamanha plenitude de presença?"

 

Gelson Martins e Podence jogam como talentos precoces de 16 anos, e continuarão a jogar dessa maneira durante muito tempo; Iuri joga como um veterano de 34, e joga dessa maneira pelo menos desde os juvenis: como quem protege o segredo do seu declínio, como quem se sabe obrigado a conservar energias, como quem aposta as fichas todas num ataque furtivo e quase sempre bem sucedido. É o equivalente futebolístico a um submarino, cuja eficácia depende de não ser visto até ser tarde demais. Apesar da aposta contra-intuitiva em Alan Ruiz (que, no somatório de qualidades e defeitos, tem mais em comum com Iuri Medeiros do que com qualquer outro jogador do plantel), sabe-se que o actual treinador prefere lanchas rápidas a submarinos atómicos, e que o seu naipe de preconceitos tem menos a ver com tipologias físicas do que com estilos de intensidade. O que ele quer é alguém 90 minutos ligado à corrente, e não quem aparece cinco vezes por jogo a carregar no botão para uma demolição controlada.

 

Solução: A tentação é escrever "Iuri Medeiros", mas Iuri Medeiros não é propriamente uma solução para o problema de Iuri Medeiros, mesmo que não saibamos ainda o que é. A solução alternativa é espatifar 16 milhões de euros em Pity Martinez, que a julgar por três jogos e alguns vídeos do YouTube, já fez mais cuecas na vida do que a Victoria's Secrets, e rezar que tudo corra bem.

 

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publicado às 16:11

Futebol com humor à mistura (30)

Rui Gomes, em 24.05.17

 

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Terceira série - e última edição desta época - de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting na 34.ª jornada a I Liga diante o Chaves:

 

Podence

Vê-lo a receber a bola sozinho no meio de calmeirões continua a estimular o instinto maternal de qualquer pessoa saudável, mas na verdade precisa tanto de protecção como um troll do 4chan a semear a discórdia por motivo de lulz. Aquele constante frenesim de agitação, e a capacidade para acelerar o jogo com e sem bola, deram frutos logo aos 10 minutos, quando sacou um penalty - e proporcionou um divertidíssimo momento ao minuto 36, quando conseguiu colocar - sozinho - dois defesas do Chaves em inferioridade numérica.

 

Bas Dost

Acumulam-se os sinais de uma incompreensível falta de egoísmo. Ao minuto 26, com tempo e espaço na área para receber a bola, sentar-se, puxar de um tablet, preencher a declaração de IRS, esperar que a aplicação Java carregasse, validar, submeter, levantar-se, e consumar o hat-trick, preferiu assistir de cabeça um colega que não chegou a tempo. Mais preocupante ainda foi o momento em que veio dobrar Jefferson à lateral esquerda, recuperando uma bola em esforço e atrasando para Beto.

 

Não sei se o merecemos. Despediu-se do jogo, e encerrou oficialmente a Liga, com mais um golo (o segundo penalty do jogo), que agradeceu de forma típica, envolvendo nos seus braços o amor que emanava das bancadas.

 

Bruno César

Adaptado a Bryan Ruiz, cumpriu, na medida em que, certamente, e, portanto e em suma, sem dúvida.

 

Francisco de Oliveira Geraldes, visconde de Alvaláxia, e futuro Prémio Nobel da Literatura em 2053

Entrou bem, para surpresa de exactamente ninguém.

 

Gelson Dala

A última substituição da época, que assim a definiu na perfeição: não chegou a tocar na bola.

 

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publicado às 04:21

Futebol com humor à mistura (29)

Rui Gomes, em 23.05.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo de domingo passado com o Chaves:

 

Palhinha

Lance paradigmático aos 7 minutos: depois de uma perda de bola de Gelson e desposicionamento de Esgaio, mostrou noção perfeita do espaço que podia cobrir, deu passos na direcção certa, desarmou um contra-ataque potencialmente perigoso antes sequer de o rastilho acender, e transformou o sobressalto em novo ataque com dois toques simples. A segunda parte da equação nem sempre lhe corre tão bem (e falhou o único passe mais arriscado que tentou), mas é intratável nos duelos individuais, sabe usar o corpo como poucos, e desde que se refugie na lucidez que possui, pode vir a dar melhor jogador do que alguns (eu, por exemplo) adivinhavam.

 

Gelson Martins

Uma exibição de capoeira a decorrer em permanência no interior de um TGV: para o bem e para o mal, Gelson é isto. E é quase tão difícil assimilar aquela hiperactividade enquanto colega do que enquanto adversário. Formou, nos primeiros 45 minutos, uma intrigante tripla de trincos todo-o-terreno com Adrien e Podence: um vendaval de intensidade sem bola que mostrou um vislumbre daquilo que poderia ter sido uma época diferente. Com bola, a intermitência do costume na decisão, mas capacidade suficiente para desequilibrar sempre que quer, e para somar mais uma assistência.

 

Adrien

O grande passe para isolar Jefferson na esquerda logo a abrir terá sido a sua intervenção ofensiva mais vistosa, mas mostrou mais esclarecimento intuitivo com bola e mais energia nas compensações frenéticas sem ela do que tem sido norma nas últimas semanas e isso contribuiu subterraneamente para aquilo de bom que a equipa fez. Ao minuto 38, aproveitou a primeira ocasião que teve para protestar (uma falta que, de facto, não cometeu) para soltar alguns meses de frustração acumulada. Como eu o compreendo.

 

Matheus Pereira

Entrou com quilos a mais no pé esquerdo e, não pela primeira vez, mostrou mais boas ideias (raramente toma uma má opção ofensiva, excepto quando não arrisca o que sabe) do que boa execução. Toque com demasiada força ao minuto 8, outra excelente ideia estragada com passe demasiado longo ao minuto 24, e um livre indirecto pouco depois que proporcionou à bola a oportunidade de conhecer a mesosfera. À passagem da meia hora, desconfiando que se calhar isto de ser canhoto foi uma mentira que lhe contaram na infância, puxou para o pé direito e marcou golo. Ainda não mostra a intensidade e solidariedade defensiva de Gelson, e deixou por duas vezes o seu lateral sozinho contra dois, mas compensou vindo à faixa contrária cancelar um contra-ataque, numa jogada que lhe valeu o amarelo. Saiu pouco depois.

 

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publicado às 04:11

Futebol com humor à mistura (28)

Rui Gomes, em 22.05.17

 

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A última edição da época 2016/17 de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting diante o Chaves:

 

Beto

Assim que se soube a notícia da sua merecida presença no onze inicial havia apenas uma dúvida a esclarecer: seria Beto capaz, depois de tão longo período de inactividade, de se mostrar à altura do titular e não ter culpas no golo sofrido? Não ter culpas no golo sofrido nem sempre é tarefa tão fácil quanto Rui Patrício a faz parecer, e as perspectivas não eram animadoras. Só ao fim de 20 minutos (no segundo exacto em que a greve das claques terminou) Beto conseguiu mostrar trabalho, com uma saída aos pés de Elhouny. E a partir daí pouco mais teve a fazer, excepto resolver episódicos atrasos. O seu ânimo já certamente esmorecia quando, com uma hora de jogo, não teve - de forma triunfante - quaisquer hipóteses de defesa, e portanto quaisquer culpas, no golo do Chaves. Antes do apito final ainda fez mais uma excelente defesa a um livre, mas uma saída atabalhoada num cruzamento podia ter corrido mal. Apesar dessa única falha, provou que podem continuar a confiar nele para não ter, de vez em quando, culpas nos golos sofridos.

 

Esgaio

Um indivíduo tão discreto, tão pacato, com tamanha aura de boa e anónima pessoa, que a obrigação profissional de jogar futebol à frente de tanta gente parece sempre uma maldade que lhe estão a fazer. Ricardo Esgaio faz lembrar uma encarnação de Fernando Pessoa que nunca publicou um verso, e que passou toda a sua santa e tranquila vidinha a traduzir correspondência comercial, a beber um casto copo de vinho ao fim da tarde no Abel Ferreira da Fonseca, e a escrever o ocasional bilhete à Ophélia, antes de se retirar para um quarto alugado e adormecer a inventar heterónimos: o veloz lateral Esgainho, o possante lateral Ricky Esgailéz, o implacável lateral Ryszard Esgayolov...

 

Coates

Um jogo tranquilo, em que algumas pessoas más invadiram de vez em quando a sua privacidade, perturbando assim o funcionamento regular do heteropatriarcado normativo que transporta constantemente num perímetro de 5 centímetros à volta da sua pessoa.

 

Rúben Semedo

O brilhante deslize aos 4 minutos, com uma recepção deficiente dentro da área em que deixou a bola patinar-lhe alegremente pelos pitons a caminho de outra pessoa, podia prometer uma exibição desastrada. Como Semedo reage nestas ocasiões é sempre uma lotaria, mas começa a detectar-se um padrão: encarar a calamidade latente como um desafio, e encontrar o mais depressa possível um ritual de passagem que lhe permita superá-lo. Hoje optou por ensaiar um desarme arriscadíssimo ao minuto 22, em que conseguiu roubar uma bola numa posição quase impossível, e em que o risco de fracasso seria quase de certeza uma grande penalidade e uma penalização disciplinar.

 

Rúben: pardonne-leur, car ils ne savent ce qu'ils font.

 

Jefferson

A cidade de Tebas era assolada por uma cena bué medonha chamada Esfinge, e Édipo, recém-nomeado director-adjunto do Departamento de Lidar Com As Esfinges, foi ao terreno avaliar a situação. Cruzando-se com ela num relvado secundário, abordou-a. A Esfinge pousou a mão na sua fronte e presenteou-o com um enigma: "Qual é a criatura que no início da época tem zero pernas; a meio da época tem uma única perna, mas coxa; e no último jogo, quando já nada interessa, parece ter o número correcto de pernas, o mesmo que tinha durante a época 2013/14?".

 

Édipo pensou um pouco no enigma da Esfinge, e foi nesse dia que começou a fumar.

 

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publicado às 05:30

Futebol com humor à mistura (26)

Rui Gomes, em 15.05.17

 

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A segunda edição de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no embate com o Feirense:

 

William Carvalho

A diferença entre a boa forma e a má forma não redefine ontologicamente um jogador, mas ver os mesmos atributos na sua versão satírica tem a rara capacidade de ampliar drasticamente a nossa capacidade para dizer palavrões, dos quais, se formos justos, logo nos arrependemos. Não deixa de ser triste, ver aquele fluído rodopiar sobre flanela reduzido nos últimos tempos a uma colecção de maneirismos de barroca futilidade – como as vénias protocolares diante da Raínha de Inglaterra, em que é preciso um algoritmo para memorizar a sequência correcta de movimentos.

 

Gelson Martins

Marcou o único golo da equipa, na sequência de um lançamento lateral em que a bola não passou pelo pé de nenhum colega antes de chegar ao seu, uma jogada que transporta uma lição valiosa sobre quais as partes do corpo que os futebolistas do Sporting devem evitar usar nesta fase complicada. Além disso, cumpriu a sua função: imprimir desorganização à manobra defensiva adversária, algo que seria colectivamente mais eficaz caso os colegas tivessem a mesma capacidade de improvisar no meio do caos, em vez de parecerem tão surpreendidos como os defesas fintados por Gelson. Mas continua a nem sempre decidir bem. Aos 48 minutos deixou Schelotto isolado na área, com um passe, por definição, indesculpável.

 

Adrien Silva

Ao minuto 72, num espaço de 3 segundos, a bola atingiu a barra da equipa do Feirense, o poste da equipa do Feirense, e a luva direita do guarda-redes do Feirense (neste último caso, rematada por Adrien). Seria a imagem perfeita da época de Adrien, caso a bola tivesse também sofrido um estiramento muscular antes de sair pela linha de fundo.

 

Bruno César

Numa época em que foi médio-esquerdo, médio-direito, médio-centro, segundo avançado, lateral-esquerdo, lateral-direito, vogal da Mesa da Assembleia Geral, fisioterapeuta adjunto, cantoneiro, motorista, nadador-salvador, e czar de todas as Rússias, foi hoje adaptado a nova posição: homem invisível. Cumpriu a tarefa, como faz sempre, com brio e imensa competência.

 

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publicado às 19:14

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