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Futebol com humor à mistura (14)

Rui Gomes, em 11.12.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, e a sua usual análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, esta do jogo da 14.ª jornada diante do Boavista, no Bessa. Como sempre, com humor e a brincar diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Mais um jogo a líbero, mais um jogo em que as pequenas criaturas olhavam dos centrais para o guarda-redes e do guarda-redes para os centrais, mas já era impossível distinguir quem era central e quem era guarda-redes. Embora, na sua forma actual, talvez fosse preferível ser ele e não Coates a tentar fintar avançados à entrada da área.
 

Piccini

O seu valor é de uma estabilidade tão grande nestes tempos de incerteza que começa a ser ridículo encarar a sua cotação como flutuante. Aliás, é uma questão de tempo até aparecerem maluquinhos na Internet a defender a organização das economias mundiais num regime cambial de padrão-Piccini, em que uma autoridade monetária é obrigada a possuir Piccinis suficientes para converter todo o dinheiro representativo que emite em Piccinis, de acordo com taxas de câmbio fixas. Neste sistema, seria a quantidade de reservas de Piccinis de cada país a determinar a sua oferta monetária. Depois, se um país for superavitário na sua balança de pagamentos, deve importar Piccinis de países deficitários, elevando a sua oferta interna de moeda, e levando a uma expansão da base monetária. Caso tenha uma balança comercial deficitária, exportaria então Piccinis, sofrendo a respectiva contracção monetária e aumentando a competitividade de seus produtos no exterior. Não sei, quer dizer, já ouvi ideias piores.

 

Coates

São legíveis no seu rosto os vestígios do ancestral combate entre o instinto animal e o protocolo social. O instinto diz-lhe para pegar numa submetralhadora MP5 da Heckler & Koch e despejar uma rajada ininterrupta de metal fundido na direcção de um jogador do Boavista, sacundindo-lhe o cadáver numa tarantela blasfema sob a torrente de balas até nada restar a não ser um charco de espuma carmesim no relvado, com alguns farrapos dispersos de Rochinha lá no meio. Mas as pressões da sociedade dizem-lhe para fazer antes um corte em carrinho e ver o consequente cartão amarelo, ou então para o tentar fintar à entrada da área e perder a bola. Mesmo que nem sempre se tome a decisão mais correcta, é nestes impulsos contraditórios - e nas respectivas lições - que se forma o carácter humano.
 

Mathieu

Um jogo - mais um - à altura de uma parábola Zen: «O Sporting foi ter com um monge sábio que se retirara para meditar e perguntou-lhe: 'Mestre, qual o caminho que devo seguir?' E o monge sábio respondeu-lhe "a luz do amor é como um relâmpago, mas a luz da sabedoria é como um cometa. E metal do arado que lavra a terra é o mesmo da espada que deixa a água incólume". E enquanto o discípulo fez uma vénia e ficou a reflectir sobre o assunto, o jogo já estava ganho, e a equipa provisoriamente em primeiro lugar.
 

Fábio Coentrão

Travou o que se costuma chamar "um duelo interessante" com Kuca, um daqueles extremos chatos que nunca param quietos e que, por algum motivo, têm quase sempre tranças. Fez o primeiro remate da equipa, que saiu por cima, levando-me de imediato a fazer o único comentário que a situação exigia: "Mas este gajo remata à baliza porquê? Ele alguma vez marcou um golo sequer?".
 

William Carvalho

Porque é que as coisas acontecem como acontecem dentro de campo? Ninguém sabe, nem nunca ninguém soube. Um dos efeitos colaterais curiosos do actual momento de forma de William é que acaba por reforçar a ideia de causalidade, denunciando um jogo repleto de ecos, relações, processos, movimentos - mas fá-lo denunciando ao mesmo tempo essa causalidade como refém perpétua de forças que lhe escapam, deixando-a assim suspensa no território indeterminado entre a Razão e o Desconhecido, e entretanto pelo menos até Domingo à noite estamos isolados no primeiro lugar, portanto não pensem mais nisto.
 

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Gelson Martins

Talvez por ser o jogador mais capacitado para o fazer, foi também o primeiro a perceber que alguém tinha urgentemente de começar a deixar jogadores do Boavista para trás, de forma a evitar que nos aparecessem tantos jogadores do Boavista à frente. O facto de esse esquema revolucionário o ter deixado muitas vezes sozinho (já que os colegas ficavam também eles para trás) não foi especialmente problemático, pois Gelson é uma pessoa paciente, além de que pode aproveitar esses momentos de solidão para descansar. Um grande slalom individual (o quarto na partida) já nos descontos, foi uma lição de como defender desesperadamente um resultado perigoso nos últimos minutos: fintar depois da linha do meio-campo, e não antes; e a finta ser feita por Gelson e não por Coates.

Bruno Fernandes

Fez a exibição possível para alguém que dá todas as indicações físicas de ter saído de uma unidade de cuidados intensivos cinco minutos antes de o jogo começar. O talento não é propriamente afectado, apenas a velocidade a que opera. Bruno Fernandes demora mais três quartos de segundo a pensar no que vai fazer a seguir, e entretanto já um ou outro chato do Boavista lhe cancelou os planos. A fadiga - física e mental - acumulada foi óbvia para todos, excepto talvez para Alan Ruiz, que assistiu do banco boquiaberto a esta demonstração de energia, agilidade e rapidez de execução. Útil nas bolas paradas, residualmente melhor na segunda parte do que na primeira, foi substituído só a cinco minutos do fim. "Até que enfim", pensaram os adeptos. "Este gajo precisa é de descanso". "Incrível", pensou Alan Ruiz, "como ele se mexe!"
 

Bruno César

Um médio-ala pós-moderno, na medida em que apenas finta, cruza ou remata ironicamente. Criou a melhor oportunidade da equipa nos primeiros 25 minutos de jogo, e fê-lo sem sequer tocar na bola (desviou-se para deixar a bola chegar a Coentrão). Ainda voltou a não tocar na bola várias vezes, mas sem o mesmo sucesso. Aliás, as vezes em que tocou na bola e as vezes em que não tocou na bola tiveram, daí em diante, resultados equivalentes.
 

Daniel Podence

Estreou nos relvados o seu novo visual - um cruzamento estilístico entre o Dunga dos Sete Anões e um teledisco do Billy Idol - e passou quarenta e quatro minutos essencialmente a dancing with himself. Quando finalmente concluíu que nada lhe estava a sair bem à primeira, deu-lhe um assomo de perfeccionismo e decidiu repetir a mesma acção várias vezes (no caso, uma finta no corredor direito) até a mesma atingir o ponto, altura em que fez o único cruzamento decente do jogo inteiro para Coentrão inaugurar o marcador. Na segunda parte, antes de sair, ainda voltou a desenhar uma jogada de golo que Dost preferiu não aproveitar. Com altos e baixos, o certo é que vai sendo decisivo.
 

Bas Dost

Eis o milagre da conversão brusca da matéria: de um lado o material em bruto, informe (uma esfera, perdida no ar), do outro, o objecto perfeito, humano, acabado (a bola dentro da porra da baliza); e entre os dois extremos nada, a não ser um trajecto quase invisível de sublimação, vigiado e fiscalizado apenas por Bas Dost, uma mistura de autómato, demiurgo e melhor pessoa do mundo de todos os tempos.
 

Marcus Acuña

Nos seus pés, o cruzamento continua a ser um signo que, semiologicamente falando, opera excessivamente, desacreditando-se ao expor de forma tão óbvia a sua finalidade. Mas o canto que deu origem ao 0-2 foi ganho por ele, e não seria, numa reprodução exacta das mesmas circunstâncias, ganho por muitos outros jogadores.
 

Rodrigo Battaglia

Entrou para recuperar bolas e foi exactamente o que fez, que os tempos não estão para desobedecer a ordens.
 

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publicado às 09:57

Futebol com humor à mistura (13)

Rui Gomes, em 02.12.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística da performance dos jogadores do Sporting no jogo da 13.ª jornada da I Liga. Com humor e a brincar, diz-se muitas verdades...

 

Rui Patrício

Como o participante mais passivo num jogo de Cluedo com a cronologia invertida, Patrício voltou a passar o tempo tentando adivinhar a solução do crime que costuma ocorrer nos últimos minutos, e que consiste em fazê-lo sofrer um golo após um jogo inteiro sem trabalho algum. Quem seria hoje? Quem, onde e como? O mordomo, com um punhal, na biblioteca? O Pereirinha, com um charuto, nos descontos? Incaracteristicamente, a Ordem e a Justiça prevaleceram.

 

Piccini

Aquele corte de cabeça a um cruzamento do corredor contrário ao minuto 23? Ou o desarme simples e higiénico quando apanhou um adversário de frente no 1x1 dentro da área ao minuto 31? Ou a paragem de peito a controlar um pontapé de baliza aos 58? Tudo coisas simples. Tudo episódios cumulativamente avaliáveis em 3 milhões de euros. Tudo frases não podiam ser escritas sobre laterais-direitos do Sporting até este ano. Mais do que qualquer outro futebolista contemporâneo, Cristiano Piccini faz-me querer fumar menos cigarros.

 

Sebastián Coates

A reificação de um poder estrutural que deriva a sua eficácia totalizante de um sistema interseccional de relações de domínio e submissão, permitindo que o estatuto de subordinação dos indivíduos do Belenenses ao heteropatriarcado fosse de tal forma internalizado que na verdade Coates não precisou de exercer conscientemente os seus privilégios para sair triunfante das várias interacções sociais, sobrando-lhe inclusive tempo de lazer para ir lá à frente duas vezes brincar aos avançados.

 

Jérémy Mathieu

Exibe a serenidade de um prestigiado faquir oriental em pleno exercício das suas místicas funções, sejam estas levitar, engolir cacos de vidro ou evitar chatices na área. Ainda assim não foi dos seus jogos mais brilhantes, e acumulou dois ou três lances esquisitos no último quarto de hora. Ao minuto 83, por exemplo, subiu em posse de forma esquisita, perdeu a bola de forma esquisita e acabou por ver amarelo, depois de cometer uma falta esquisita. Foi a sua maneira de perguntar, como Shylock “Se me picarem, não sangro eu? Se me fizerem cócegas, não desato a rir?” não vá a gente pensar que o homem não é homem, nem humano.

 

Fábio Coentrão

Cumpriu os noventa minutos pelo segundo jogo consecutivo, e com um fôlego que nem sequer permitiu ao espectador mais ansioso pensar em problemas musculares. Deu, no entanto, demasiado espaço a Diogo Viana na primeira meia-hora, deixando-o rematar ou cruzar por três ocasiões. E mesmo no ataque foi menos influente do que é hábito, estragando algumas combinações promissoras não com más decisões, mas com execuções deficientes, sugerindo que os recentes elogios a Zeegelaar em Inglaterra podem ter afectado a sua solidez psicológica. Se for esse o caso, posso garantir-lhe que não está sozinho.

 

William Carvalho

Jogando bem ou mal (hoje terá jogado mais ou menos), transmite sempre a sensação de existir fora do tempo. Uma atemporalidade que por vezes o leva a transcender a natureza efémera das circunstâncias do jogo, e por vezes o isola dentro delas. Ao minuto 40 fez um passe intrigante para um painel publicitário, num gesto que foi em simultâneo uma comovente manifestação de solidariedade com um colega de selecção e também um gesto modernista, mostrando-nos o medo numa mão cheia de pó. Soltou-se mais na segunda parte, conduziu alguns contra-ataques, e teve a serenidade necessária, quando confrontado com uma oportunidade de golo, para não alargar uma vantagem que deixaria toda a gente nervosa.

 

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Bruno Fernandes

Impecável na recepção orientada seguida de abertura rápida para um flanco. Menos rigoroso quanto variou a metodologia (tentando a progressão em drible ou o passe longo), falhando tantas vezes como as que acertou. Com a entrada de Battaglia, subiu no terreno e começou a tentar o remate de fora da área com uma veemência que cada espectador – no estádio ou em casa – comprendeu perfeitamente. Estamos a chegar ao ponto em que, quando voltar a conseguir um golo num remate de longe, corremos o sério risco de Bruno assassinar alguém na euforia dos festejos.

 

Gelson Martins

É cansativo, é tudo muito cansativo, produzindo por isso, e consequentemente, cansaço. Gelson chegou ao fim do jogo cansado, tal como os colegas, tal como os adversários, tal como eu, tal como vocês. Anda ali de um lado para o outro a esfalfar-se, tenta uma coisa, tenta outra, percebe que não vai ser assim, volta para trás, volta a tentar – numa espiral que este parágrafo percebe perfeitamente, como podem reparar. A procura de desequilíbrios, na relva ou no parágrafo, é uma actividade desgastante, às vezes precisamos todos de descansar um bocadinho.

 

Marcus Acuña

Um remate de primeira com o pé esquerdo e um remate de primeira com o pé direito foram a soma da sua contribuição ofensiva relevante. De alguém para quem o andamento e a rotatividade representam 50% do orçamento qualitativo, é natural que pareça metade do jogador que é após uma paragem. Além disso, apanhou Pereirinha pela frente, factor que compreensivelmente desperta muito menos o instinto competitivo e muito mais a curiosidade antropológica.

 

Daniel Podence

Como qualquer agente vanguardista, a sua violência tem sempre um alvo duplo: os filisteus adversários são alvo da violência estética; mas a violência moral é contra a sua própria casta, da qual recebeu o paradoxal encargo da auto-contestação. Nas suas esporádicas aparições a titular, Podence mostra-se sempre capaz de acelerar o metabolismo da equipa, que hoje, e não pela primeira vez, lhe deve directa ou indirectamente as melhores manobras colectivas. Foi o melhor em campo na primeira parte, e o posterior eclipse (já uns minutos antes da substituição) redistribuiu igualitariamente a qualidade exibicional da equipa, que passou toda a jogar ao mesmo nível, com a pulsação 15 batidas mais baixa.

 

Bas Dost

Falhou um golo de cabeça logo ao segundo minuto, mas seria ele a inaugurar o marcador, num penalty que o fez chegar ao golo 50 com a camisola do clube – e seguido de uma celebração indicativa de que descartou definitivamente os abraços personalizados, aderindo agora a uma política de festejos estritamente comunista. Na 2ª parte tentou ser a diástole da equipa – relaxando-lhe os ventrículos e promovendo uma circulação serena sempre que a bola lhe chegava em condições. Já era um grande ponta-de-lança quando chegou, mas é cada vez mais um grande jogador.

 

Rodrigo Battaglia

Impediu que acontecessem coisas graves. Pelo menos em Alvalade. No outro estádio não, a julgar pela algazarra que aqui vai no café.

 

Bryan Ruiz

Uma primeira intervenção promissora, ganhando um ressalto e desenhando uma combinação que viria a resultar num canto. A cinco minutos do fim, rematou a bola para uma baliza onde o guarda-redes já não estava. Exactamente. Foi isso mesmo. Uma simetria entusiasmante, daquelas que quase nos convencem que as variáveis secretas do Universo, no conforto da sua privacidade inacessível, respeitam as mesmas leis que nos regem.

 

Bruno César

Entrou para marcar um pontapé de canto e para ceder um pontapé de baliza, tarefas que cumpriu por esta ordem, e no pleno respeito dos termos e condições do contrato.

 

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publicado às 04:56

Futebol com humor à mistura (12)

Rui Gomes, em 27.11.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo deste domingo frente ao Paços de Ferreira. Como sempre, com humor e a "brincar", diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

 

À excepção de duas defesas de grau médio-baixo de dificuldade, serviu acima de tudo como órgão consultivo para os colegas, que de vez em quando lhe entregavam a bola para ver se, por acaso, Patrício tinha algum projecto de jogada mais promissor do que os deles. Sofreu o golo da praxe nos últimos minutos (depois de ter feito a melhor defesa da noite), de forma a impulsionar a venda de tabaco em território nacional.

 

Piccini

 

Alguém que não seja adepto do Sporting tem toda a legitimidade em ver a exibição de Piccini esta noite e defini-la como meramente razoável, apontando as ocasionais falhas que teve e os poucos momentos em que as suas insuficiências se fizeram notar. Um adepto do Sporting, por outro lado, tem a obrigação moral de comparar a exibição de Piccini com as exibições hipotéticas de todos os titulares prévios do seu cargo nos últimos anos e, depois de observar, por exemplo, os cortes na área que fez aos minutos 16 e 67, chega rapidamente à conclusão de que, sem Piccini, o clube regressaria hoje de Paços de Ferreira com três milhões de euros a mais e três pontos a menos.

 

Coates

 

Escolheu bem o momento (na medida em que se revelou, ao fim de contas, não precisarmos de mais do que isto) para fazer talvez o seu jogo mais trôpego desde o play-off da Champions. Em especial na primeira parte – quando toda a gente, desde Whelton a Tom Bombadil, o conseguiu ultrapassar em drible ou numa simples corrida em linha recta – pareceu menos o defesa-central que sabemos ser, do que um anónimo participante recrutado pela Aximage para aparecer hoje na Capital do Móvel e fazer perguntas simpáticas.

 

Mathieu

 

Calmo e clarividente, foi a última redundância no sistema imunitário da equipa. Tentou apostar na prevenção, para que o perigo não chegasse sequer a começar. Quando isso não foi possível, fez sempre o necessário para prestar às jogadas moribundas os melhores cuidados paliativos, como ao minuto 33, quando foi a correr interromper o resultado aparentemente inevitável de uma sequência de falhas sistémicas – um gesto que repetiu, com menos espectacularidade, mas igual eficiência, mais 5 ou 6 vezes durante o resto do jogo.

 

Fábio Coentrão

 

Jogou com o desespero compreensível de quem sabia que Jonathan Silva não estava no banco para o substituir aos 80 minutos, circunstância que lhe trouxe a responsabilidade acrescida de tentar não apanhar uma lesão ou doença gravíssima até ao apito final. Nesse sentido dedicou-se, com sucesso retumbante, a não contrair uma distensão muscular, ou uma artrite enteropática, ou hipofosfatemia, ou gliconecose de tipo IX, ou osteocondrite dissecante. Depois de arranjar tempo para fabricar o segundo golo da equipa, e sobreviver à autoestrada que Bruno César ajudou a abrir, conseguiu ainda chegar ao fim do jogo sem qualquer quisto sinovial, espondiloartropatia, policondrite recidivante, ou trombastenia de Glanzmann.

 

William Carvalho

Uma exibição acima do esperado, tendo em conta que se encontra claramente num dos seus já lendários momentos de má forma. Atento e bem posicionado a defender, a má forma acabou por se notar menos em erros comprometedores do que nos inevitáveis dois segundos extra que demora a concluir as suas sessões de auto-esclarecimento quando em posse de bola.

 

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Battaglia

 

Estreou-se a marcar na Liga, aplicando o seu temível e reputado golpe de cabeça ao segundo poste, e fez um belíssimo jogo. Nota-se-lhe um conforto maior (que até pode ser ilusório) com a bola no pé, tendo até arriscado algumas variações de flanco bem sucedidas; quando optou pelo expediente mais familiar de queimar metros em transporte, fê-lo hoje com timing quase sempre imaculado. Saiu a 20 minutos do fim, por dois motivos muito fáceis de explicar: eu não percebo patavina de futebol, e vocês também não.

 

Gelson Martins

 

O seu estilo de finta assemelha-se cada vez mais a um distúrbio obsessivo-compulsivo, que se manifesta na tendência para tentar sempre recuperar as condições iniciais, mas na verdade é um artifício mais astucioso do que isso. Aquele maneirismo de simular o início de dois dribles em direcções opostas, traçando duas linhas invisíveis equidistantes na relva, antes de uma rotação rápida do corpo devolver todos os intervenientes ao posicionamento original, como quem recorda um itinerário cognitivo assombrado pelas próprias vésperas, é uma forma metafórica de se colocar a si próprio entre aspas, reduzindo-se a uma abstracção, para ser mais fácil materializar-se de repente, para perene espanto dos adversários, a fazer cortes importantes na defesa, ou a matar o jogo antes que o jogo me mate a mim.

 

Acuña

 

Ainda mal o jogo tinha começado e assistiu, com consternação argentina, a um fenómeno estranhíssimo: o árbitro brandia uma cartolina rectangular na sua direcção, tão amarelo como o Sol, tão amarelo como os narcisos do campo, tão amarelo como os dedos de um fumador que sabe sempre encontrar o seu isqueiro. Acuña esboçou uma expressão incrédula, irada. O General Videla devia fazer a mesma cara sempre que lhe mostravam um cartaz numa manifestação estudantil. O quarto de hora que se seguiu a esse lance consistiu em Acuña a tentar transcender-se, numa proeza de auto-domínio, para não ver o segundo amarelo, tarefa que, contra todas as expectativas, conseguiu cumprir.

 

Bruno Fernandes

 

As suas três primeiras intervenções no jogo foram bolas perdidas (passes demasiado longos, fintas demasiado curtas) e a bola teimou em sair-lhe mal dos pés um número incaracterístico de vezes. Depois do intervalo, mergulhou num revigorante período de hibernação, do qual emergiu 25 minutos depois para rematar de primeira ao poste.

 

Bas Dost

 

Passou por um episódio invulgar ao minuto 18, falhando um golo só com o guarda-redes pela frente, meras horas depois de ter efectuado uma longa viagem de autocarro na companhia de Bryan Ruiz, circunstância em nada relacionada com a primeira e que se menciona apenas a título de curiosidade. O certo é que a partir daí deu (mais) uma lição de como jogar ao primeiro toque, em que cada devolução sua funcionou como um solvente artifical a corroer o tecido colectivo, apontado aos restantes neurónios um caminho desobstruído pela soma de todas as opções rejeitadas. Raras vezes faz sentido descrever um ponta-de-lança como o cérebro da equipa, mas foi isso que Dost foi hoje.

 

Bruno César

 

Ajudou Coentrão a desenhar a jogada do 0-2, mas fez uma exibição bem mais fraca do que costuma fazer na Champions ou em jogos “grandes” (aos quais a sua utilização devia ser limitada em exclusivo). Três deslizes comprometedores a defender: um valeu-lhe um amarelo, outro um breve susto colectivo, o terceiro um cigarro nervosamente acendido ao contrário da minha parte.

 

Bryan Ruiz

 

Interrompeu uma curta carreira enquanto Afonso Martins do século XXI para fazer a sua estreia esta época, numa notícia que trará certamente uma explosão de alegria a todos os cidadãos da Costa Rica, pelo menos até lhes explicarem que Ruiz jogou a trinco.

 

André Pinto

 

Entrou numa altura do jogo em que provavelmente havia mais nervos fora de campo do que dentro.

 

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publicado às 03:35

Futebol com humor à mistura (11)

Rui Gomes, em 06.11.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting, agora diante do SC Braga. A "brincar", diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

No regresso a um campeonato que teima em conspirar para não o deixar fazer qualquer defesa impressionante, preservou a dignidade com os únicos recursos à sua disposição nas competições domésticas: devolver a bola em condições aos colegas (hoje falhou um passe, algo que, salvo erro, não acontecia desde o jogo com o Steaua), encaixar alguns remates inofensivos, e aceitar com calma resignação a diferença entre Dybalas e Danilos: enquanto um faz 2 ou 3 bons remates por jogo, outro faz 1 remate indefensável por ano – contra si.

 

Stefan Ristovski

Apesar do resultado, foi uma noite extremamente positiva e elogiosa para a maneira como o clube gasta dinheiro em jogadores. Após duas exibições impressionantes em duas competições que não interessam a ninguém (Taça da Liga e Champions), Ristovski mostrou hoje dois dos indicadores que a mão invisível do mercado utilizou para avaliar correctamente o seu preço: que será um pouco mais ágil e multidimensional em posse ofensiva, mas que no 1x1 não é o muro intransponível que Piccini é quase sempre. São contas a fazer no fim da época, mas é provável que cheguemos à conclusão de que os setecentos mil euros que os separam até fazem imenso sentido.

 

Sebastián Coates

Depois do passe desastrado logo ao quarto minuto, fez uma exibição globalmente positiva até meio da segunda parte, dobrando Ristovski com eficácia um par de vezes, bloqueando no último segundo um remate de Paulinho na área, e proporcionando até, na área contrária, a defesa da noite a Matheus. Um dos muitos jogadores em sobrecarga de esforço, foi pena aquela gravíssima rotura simultânea dos lóbulos frontal, temporal e parietal, que o obrigou a jogar os últimos 20 minutos física e intelectualmente diminuído.

 

André Pinto

Uma contratação a custo zero, tal como fez questão de recordar nos últimos minutos, em mais uma demonstração triunfante da maneira como o mercado avalia os preços de jogadores.

 

Jonathan Silva

Ao minuto 33, aproveitando uma interrupção, foi à linha lateral receber instruções de Jorge Jesus, que lhe explicou sucintamente o que era uma bola, e qual devia ser a sua conduta na presença de um objecto tão inesperado. Foi uma intervenção necessária, e talvez tardia, pois Jonathan comporta-se perante a bola como qualquer pessoa normal se comporta perante um cão enorme: dedica todos os seus esforços a mostrar que não tem medo. Mas tem, e a bola, tal como o cão, consegue senti-lo a léguas. A defender, não foi a catástrofe habitual: foi apenas uma catástrofe ligeiramente mais contida (a diferença, digamos, entre um furacão de nível 4 e uma tempestade tropical). Uma decisão incompreensível da equipa de arbitragem impediu que ficasse hoje associado a mais golo sofrido: um erro que, ao apagar dos registos oficiais um motivo adicional para dispensar Jonathan, acaba por prejudicar gravemente o Sporting.

 

Rodrigo Battaglia

É um homem de convicções fortes. Acontece que essas convicções são apenas duas: a bola não deve estar perto de si, e a bola não deve estar longe de si. Na tensão irreconciliável entre estes dois objectivos antagónicos residem todas as suas virtudes e defeitos – que, tal como as convicções, também são muito fortes, e também são apenas duas em número. Fez hoje, de todas as coisas possíveis e imaginárias, aquilo que menos se espera dele: um jogo discreto e quase anónimo.

 

Bruno César

Para surpresa de exactamente ninguém, jogou pior contra o Braga do que contra a Juventus, tal como no passado jogou pior contra o Rio Ave do que contra o Real Madrid e tal como num futuro próximo, jogará pior no Bessa do que no Camp Nou. E até teve uma primeira parte razoável, sempre que jogou simples e ao primeiro toque, e com a disponibilidade que se lhe reconhece para nunca deixar ninguém sem linhas de passe. Depois da saída de Acuña derivou para a esquerda e, tal como Freitas do Amaral, raramente voltou a acertar uma. Ainda assim, pertence-lhe um dos melhores cruzamentos do jogo, ao minuto 63.

 

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Gelson Martins

Continua a exibir, embora só uma ou duas vezes por jogo, uma facilidade tão grande em desembaraçar-se de adversários e deixá-los para trás em velocidade, que até parece mal não o fazer mais vezes. Reagimos como se não o fizesse por não querer fazê-lo, o que faz tanto sentido como ficar chateado com alguém que gagueja. Manteve o nível que apresenta desde Setembro, pecando na decisão ou na execução quase sempre que conseguiu ganhar espaço no último terço. Acção mais meritória (como também começa a ser hábito) aconteceu a defender: ao minuto 76 impediu com o corpo o que podia perfeitamente ter sido um golo de Ricardo Esgaio. Quer dizer, era o que faltava.

 

Marcus Acuña

Um bom índice da sua qualidade é a rapidez com que se transformou na solução automática para todo e qualquer colega que não sabe o que fazer à bola. Num passado não muito distante, em situações de aperto, o último recurso era centrar para a área adversária, mesmo que estivessem atrás do meio-campo. Hoje em dia, preferem disparar a bola na direcção geral de Acuña, na perfeita confiança de que ela vai lá chegar e sentir-se em casa. Pouco antes do intervalo, finalizou um sprint ao pé coxinho e agarrado à coxa, mimetizando na perfeição o que aconteceu ao meu estado de espírito nesse preciso instante.

 

Bruno Fernandes

Teve o golo nos pés logo a abrir, mas não estava a quarenta metros da baliza e portanto não teve confiança para tentar o remate, optando por servir um colega. Não fez um bom jogo, Bruno Fernandes. Mas mais interessante e pertinente do que o facto de Bruno Fernandes não ter feito um bom jogo é o facto de ter estado nos dois golos, e ter sido o jogador da equipa que mais bolas recuperou, que mais ocasiões criou, que mais lucidez demonstrou.

 

Bas Dost

Foi o melhor da equipa. Sempre bem a solicitar colegas ao primeiro toque, fartou-se de aliviar bolas defensivas em cantos, e inaugurou o marcador com um remate onde se viu cada cêntimo dos milhões de euros que custou. Leva 42 golos em 42 jogos na Liga e, no momento em que caiu no relvado agarrado à coxa, levou 42 mil pessoas a sentir o que devem ter sentido os amigos do Willem Defoe no "Platoon", quando viram do helicóptero o que lhe estava a acontecer.

 

Daniel Podence

Entrou bem, conduzindo um contra-ataque rápido na saída de um canto e sacando um amarelo. Ao segundo minuto da segunda parte, perdeu um sprint contra Esgaio, um evento traumático que talvez lhe tenha toldado o discernimento no resto do jogo. Criou esporádicos focos de algazarra e confusão, mas hoje viu-se rodeado de gente também ela demasiado confusa para os saber aproveitar. Ao minuto 64 tentou rematar à baliza, algo que, francamente, devia ser proibido de fazer, nem que seja através de uma cláusula contratual explícita para esse efeito.

 

Seydou Doumbia

Foi menos útil e decisivo que Alan Ruiz, um destino improvável e que não se deseja a ninguém.

 

Alan Ruiz

Usou a sua inteligência para cometer uma importante falta ofensiva já nos descontos, quando a equipa estava a perder, certamente para gastar tempo e evitar o 1-3 do Braga. Ao sentir que os ânimos estavam mais calmos, decidiu sofrer uma falta, em vez de a cometer, e ganhou o penálti do empate.

 

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publicado às 04:35

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no embate desta terça-feira da Liga dos Campeões, frente à Juventus. A "brincar", diz-se muitas verdades...

 

Rui Patrício

 

Uma noite atípica, mas apenas na medida em que se viu rodeado de caras pouco familiares, como naquelas festas em casa do amigo de um amigo, em que não conhecemos praticamente ninguém. Fora isso, tudo dentro da normalidade, tanto no golo sofrido, como no punhado de defesas seguras, como na quantidade de passes longos precisos (com superior taxa de acerto aos de Anderson Polga), como na discrição com que voltou a lembrar-nos que, algures nos últimos dois anos, por um qualquer processo misterioso, deixou de ser um bom guarda-redes e passou a ser um grande guarda-redes - ou pelo menos o mais próximo que é possível chegar a ser um grande guarda-redes e ainda assim passar a carreira inteira em Portugal.
 
Stefan Ristovski
 
A saída de bola da Juventus após o apito inicial confirmou que os olheiros italianos não brincam em serviço; podem não ter tido oportunidade prévia de observar Ristovski, mas observaram certamente todos os laterais-direitos do Sporting na última década e fizeram recomendações em conformidade: despejar-lhes bolas para as costas. Com Schelotto, com João Pereira (e, nos piores dias, até com Cedric) era quase sempre o plano A do adversário, e quase nunca era preciso um plano B. Bastou uma verba acumulada de 5,2 milhões de euros para os obrigar a pensar noutras letras do alfabeto. Fez um grande jogo, e teve até direito ao seu baptismo oficial: ao minuto 23 fez um cruzamento completamente disparatado que saiu perto da bandeirola de canto. Levantou o braço e pediu desculpa aos adeptos, que, num gesto de grande cumplicidade, lhe dedicaram uma salva de palmas, como quem diz: "escusas de estar com merdas que já percebemos que és um achado".
 
Sebastián Coates
 
Está em tão boa forma, e interpreta de tal maneira à letra o conceito de consistência, que transformou as suas acções em campo num repertório, limitando-se a reproduzir o mesmo material de palco em palco. A ousada intercepção de um cruzamento de frente para a baliza e com a sola do pé, cedendo um canto quando muitos marcariam um auto-golo? Hoje surgiu ao minuto 16. O habitual truque de fintar o primeiro adversário, entusiasmar-se, passar por mais dois, galopar até à área contrária, e só perder a bola para o quarto? Hoje veio ao minuto 28. O cartão amarelo que o afasta da recepção ao Olympiacos, e que viu por protestos, de forma a compensar o seu desejo secreto de enforcar Higuain com os atacadores das próprias chuteiras, rasgar-lhe o abdómen de alto a baixo com uma unha pontiaguda, e brandir o seu coração ainda palpitante à luz dos holofotes, gritando "ARE YOU NOT ENTERTAINED?" Tudo isso foi ao minuto 79.
 
André Pinto
 
Foi já por volta do minuto 60 que me ocorreu subitamente que ainda não tinha pensado uma única vez em Mathieu, sussurrando o seu nome com um sorriso melancólico e o olhar perdido no horizonte de pixels ensaboados e pop-ups de sites de apostas. Não fez um jogo perfeito: uma falha de coordenação com Coates na primeira parte permitiu a Khedira cabecear isolado na área, e por uma ou outra ocasião não tratou a bola com a devida serenidade gaulesa (apesar de, nesse aspecto específico, ser um claro upgrade em relação a Paulo Oliveira). Mas esteve sóbrio, certinho e, até pela oposição que encontrou, terá deixado muita gente mais descansada com a qualidade do plantel.
 
Jonathan Silva
 
Entrou cheio de confiança e estreou-se logo aos 35 segundos com um passe triunfante e inesperado para os pés de um colega de equipa. Foi o mote para uma noite repleta de novidades em que chegou até a fazer um cruzamento bastante razoável para Dost (minuto 32) e a ganhar dois ou três lances no um-para-um com Cuadrado. Não descartou por completo (era o que faltava) os cortes erráticos, os passes absurdos e as más decisões ofensivas, mas, acima de tudo, conseguiu não ser um desastre de proporções Bíblicas, o que é desde logo uma vitória. Soube, grande parte do tempo, refugiar-se nos hábitos e formalismos da posição, e guiar-se pela regra básica de poupar esforços e não arranjar sarilhos, talvez o antídoto mais eficaz ao seu estilo de jogo instintivo - que é um estilo de jogo essencialmente histérico.
 

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Rodrigo Battaglia
 
Representa um interessante desafio técnico aos responsáveis por agregar estatísticas sobre "posse de bola". Porque a "posse de bola", quando Battaglia está envolvido, ou apenas nas imediações, será sempre um conceito problemático e contestado. Estará a equipa adversária verdadeiramente "em posse de bola" com Battaglia por perto? Duvidoso. Por outro lado, estará a sua equipa em "posse de bola" quando é Battaglia a conduzi-la? Não por muito tempo (e hoje até esteve melhor no passe do que é habitual). Porque Battaglia parece alimentar profundas objecções de princípio a que alguém tenha "a posse de bola" e dedica todo o seu esforço a este meritório combate filosófico: demonstrar a precariedade básica de um conceito que, tal como o gato de Schrödinger e a localização do material de Tancos, é mais uma sobreposição quântica do que uma condição estável e observável.
 
Gelson Martins
 
Tal como inteligentemente se explicou neste espaço nas últimas semanas, Gelson encontra-se num mau momento de forma, incapaz de criar desequilíbrios ofensivos, e propenso a tomar más decisões. Por conseguinte, criou o golo num lance individual, fartou-se de desenhar boas combinações (especialmente com Bruno Fernandes) e foi dos que mais lutou para esticar o jogo na pior fase da equipa, entre os 60 e os 85 minutos.
 
Bruno César
 
Depois de algumas experiências entre o inconclusivo e o penoso a médio-ala e a lateral, recuperou finalmente a posição onde fez as exibições mais agradáveis ao serviço do clube, e a única onde ainda pode ser útil (em particular contra este tipo de oposição): terceiro homem do meio-campo, mas a subir até à linha de Dost quando a equipa perdia a posse. Inaugurou o marcador com o seu polivalente remate de pé esquerdo (hoje adaptado a pé direito), viu outros dois passarem perto dos ferros, e não deu descanso a ninguém. Até pode ser coincidência, mas é depois da sua saída que a equipa recua 10 metros e que a Juventus parte para os minutos de maior sufoco. Belo jogo.
 
Mascus Acuña
 
Continua a implementar a sua abordagem revolucionária à pressão alta: correr do ponto a ao ponto b à mesma velocidade com que a bola é trocada entre o adversário no ponto a e o adversário no ponto b, de forma a conseguir pressioná-los alternadamente, mas, na prática, ao mesmo tempo. É um processo tão contra-intuitivo e, por um par de ocasiões, deixou os jogadores da Juventus tão incrédulos que acabaram por entregar a bola a Acunã e foram reflectir um bocadinho. Terá jogos mais influentes ofensivamente, marcará mais golos, fará mais assistências, mas suspeita-se que os seus lances paradigmáticos serão sempre parecidos com o do minuto 49, quando veio fechar ao meio, recuperou uma bola na meia-lua, passou por Pjanic em velocidade e desmarcou Dost, tudo em menos tempo do que demora a dizer "nove milhões extremamente bem gastos".
 
Bruno Fernandes
 
Estreou um novo penteado, respondendo assim às dúvidas de todos aqueles que um dia perguntaram qual seria o aspecto de um contabilista da Gestapo que decidisse integrar uma boys band. Fez uma excelente primeira parte, cheia de rodopios e recepções orientadas para ganhar tempo e espaço, e sempre com boas ideias para aproveitar o tempo e espaço que conseguia ganhar. Hibernou por meia-hora depois do intervalo, deixou de conseguir segurar a bola, e a equipa ressentiu-se. Voltou a sair da toca ao minuto 88, livrando-se de um adversário no corredor central e rematando de longe, por cima da trave: reagiu como se tivesse falhado um penalty, o que, no seu caso, até se compreende.
 
Bas Dost
 
Não marcou, mas fez um daqueles grandes jogos que aprendeu a fazer nestas ocasiões: ágil a mover-se e a pensar, e exímio a encontrar uma solução ao primeiro toque, mesmo quando essa solução estava nas suas costas. Foi assim que isolou Gelson na primeira jogada da 2ª parte, e que assistiu Bruno César para dois remates perigosos. Falhou, salvo erro, um único passe: uma devolução demasiado curta no círculo de meio-campo ao minuto 47, que o fez levar imediatamente as mãos à cabeça em desespero. (Se Jonathan Silva reagisse da mesma forma sempre que comete um erro semelhante, já estaria careca). Antes de sair, viu um amarelo justíssimo, que mais não seja porque, presenteado com a oportunidade de desfazer as trombas de Chiellini à cotovelada, não a soube aproveitar.
 
João Palhinha
 
Conseguiu trazer ao meio-campo alguma da agressividade de Bruno César, mas vários metros atrás, ou seja, viu-se mais a bloquear remates do que a recuperar bolas. Sempre que tentou subir no terreno cometeu faltas, algumas das quais até foram bem assinaladas.
 
Doumbia
 
Hoje não resultou.
 
Petrovic
 
Muito bem a fazer exercícios de aquecimento antes de entrar, mostrando que merece novas oportunidades para dar saltinhos intensos e vigorosos na linha lateral a um minuto dos noventa.
 

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publicado às 11:50

Futebol com humor à mistura (10)

Rui Gomes, em 28.10.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo frente ao Rio Ave. A "brincar"... diz-se muitas verdades.

 

Rui Patrício

 

Um jogo com sabor aos bons velhos tempos, antes deste recente e lamentável acréscimo geral de segurança defensiva que o transforma em figurante na maioria das ocasiões. Entre meia dúzia de encaixes seguros, fez pelo menos duas "defesas da noite": uma a evitar um golo de cabeça do advogado João Nabais, e outra em resposta a um remate de longe do sociólogo António Barreto. O grande momento, no entanto, surgiu ao minuto 84, quando safou o 1-0 usando apenas o seu prestígio: depois de esbofetear para a frente um remate traiçoeiro, deixou a bola à mercê de Guedes, que, em vez de calcular a altura de Patrício (1,90m), optou por avaliar correctamente a sua estatura moral (cerca de 40 metros), tendo por isso rematado por cima da barra, e na direcção do meu cardiologista.
 
Cristiano Piccini
 
Piccini, não sei se já repararam, nunca pensa em movimento; os seus instantes de reflexão acontecem invariavelmente antes de começar a correr. É fácil verificar isto, porque é sempre possível perceber quando Piccini está a pensar. Quando não está a pensar parece um concorrente do Secret Story que perdeu o depilador de sobrancelhas e portanto aguarda que os pelos caiam naturalmente. Quando está a pensar tem exactamente o mesmo aspecto, mas um bocadinho mais intenso: os globos oculares estremecem e perscrutam o horizonte, à procura de Gelson, Coates ou Rui Patrício, as únicas pessoas no hemisfério Norte a quem alguma vez tentou passar a bola. Não fez a sua melhor exibição, mas foi um lateral de quatrocentos mil euros a atacar e um lateral de cinco milhões e seiscentos mil euros a defender, mantendo dessa forma a estabilidade da sua cotação.
 
Sebastián Coates
 
Deixou-se antecipar uma única vez (ao minuto 32), mas antes e depois foi acumulando uma série de cortes de grau de dificuldade elevado, com destaque para uma bola que conseguiu aliviar para canto em vez de marcar o auto-golo que tanto o historial do clube como Paulo Oliveira nos habituaram a esperar. Já na segunda parte, percebeu também que a manobra ofensiva não estava a carburar e recuperou um hábito da época passada, ensaiando uma maradonice por ali fora, em que conseguiu passar por todos os adversários menos pelo adversário que não passou.
 
Jérémy Mathieu
 
Como diz a velha maldição chinesa, estamos prestes a viver umas semanas interessantes.
 
Fábio Coentrão
 
Pouco antes do intervalo, após um sprint pela faixa esquerda, caiu ao chão e ficou agarrado a várias partes do corpo em simultâneo, como de resto Nostradamus previu numa das suas centúrias. Temeu-se o pior, mas uma das vantagens de ter 50% do corpo constituído por próteses, enxertos e placas de metal unidas com adesivo e elásticos é a invulnerabilidade a lesões menores. Felizmente. Até nem teve uma noite muito inspirada, mas o simples facto de não ser substituído a dez minutos do fim foi o suficiente para garantir os três pontos.
 
William Carvalho
 
Grande parte do que acontece num meio-campo, qualquer meio-campo, sendo essencialmente o resultado de efémeros acordos de cooperação entre a vontade humana e a arbitrariedade do Universo, consiste em momentos nos quais um futebolista revela sensibilidade suficiente para resgatar ao caos ao possibilidade mais próxima, normalmente escondida uns centímetros à direita ou à esquerda da sua intenção consciente (a consciência curva-se na direcção da verdade, mas é o instinto que lá chega primeiro). No caso de William, que por vezes nem parece um terráqueo, quanto mais um centrocampista, a analogia mais correcta é um orador muito talentoso a ler um discurso no teleponto, com a nuance de que não só foi ele a escrever o discurso, mas também foi ele a construir o teleponto na sua oficina. Essa sensação de que joga sem improvisar, cumprindo um plano prévio, e num plano temporal alternativo ao resto do jogo, está sempre presente, quer quando descongestiona qualquer barafunda com decisões tão clarividentes que parecem inevitáveis (como aconteceu várias vezes esta noite) quer quando os adversários passeiam à vontade pelos calendários de espaço que deixa sistematicamente vazios nas suas costas (como também aconteceu várias vezes esta noite).
 
Gelson Martins
 
A utilidade do costume a fazer de segundo lateral-direito, ou a corrigir na recuperação defensiva as bolas que ele próprio perdeu, mas o certo é que já vamos quase em Novembro e a sua prestação ofensiva mais desequilibrante da época continua a ser a do jogo de apresentação aos sócios contra o Mónaco. E apesar de a temperatura continuar a mesma, já lá vão mais de três meses, a hora está quase a mudar, e começa a ser altura de termos uma conversa séria sobre fontes de energia alternativas.
 

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Bruno Fernandes
 
Sem estar muito em jogo - como seria de esperar numa ocasião em que a sua equipa foi para o intervalo com 40% de posse de bola - foi o elemento mais esclarecido em posse durante toda a primeira parte, e o único a conseguir fazer com sucesso quase tudo o que tentou, ou seja, descobrir a única linha de passe ofensiva que por acaso não estava bloqueada por setenta jogadores do Rio Ave. Na segunda parte avançou no terreno e continuou a fazer o seu melhor para descobrir espaços vazios; encontrou alguns, o maior dos quais na minha alma, depois de festejar o que ambos julgámos ser o golo inaugural com um chorrilho de palavrões que as circunstâncias confirmaram pouco depois ser inteiramente justificado.
 
Marcus Acuña
 
Adoptou alguma da aura polivalente de Bruno César, com a (significativa) diferença de que, enquanto Bruno César podia ser médio-ala, médio-centro e defesa-lateral no mesmo jogo, Acuña pode ser médio-ala, médio-centro e defesa-lateral na mesma jogada. É uma situação de superioridade numérica em forma humana. É possível que a sua esposa esteja a praticar poligamia apenas por ser casada com ele.
 
Daniel Podence
 
Pareceu desde o primeiro minuto o candidato mais forte a criar ocasiões de perigo (ou pelo menos de desequilíbrio pré-perigo, a sua especialidade), e o único capaz de receber a bola com um adversário nas costas, e conseguir virar-se e ultrapassá-lo com apenas dois toques. O facto de ter sido ele, e não Gelson, a sair ao intervalo, só tem uma explicação, que é também o maior elogio ao Rio Ave feito esta noite: Gelson defende melhor.
 
Bas Dost
 
A sequência de jogos sem marcar (ou sequer rematar) conferiu-lhe o aspecto de vítima de maldição, convertendo geometricamente todos os seus escrúpulos e receios numa linha recta que lhe trespassava os ombros como um cabide, deixando-o suspenso no deserto de cinco metros quadrados permanentemente instalado à sua volta. O hat-trick da semana passada restaurou a normalidade e devolveu-lhe uma confiança que se nota até quando anda para ali a correr atrás de bolas impossíveis ou a disputar na mesosfera pontapés de Rui Patrício. Marcou o golo da vitória: caído do céu, tal como ele.
 
André Pinto
 
Defensivamente, as coisas não pioraram quando substituiu Mathieu. Uma vez que a expectativa mais optimista era que as coisas piorassem apenas um pouco (em vez de piorarem de forma catastrófica) acabou por ser uma surpresa positiva. Lá na frente, pouco antes do intervalo, uma carga de ombro ilegal sobre Bas Dost, impedindo-o de marcar golo, devia ter sido punida com falta, cartão amarelo, e um calduço na nuca.
 
Rodrigo Battaglia
 
Entrou para dar músculo ao meio-campo e reforçar a capacidade defensiva da equipa, portanto evidentemente não recuperou uma única bola e fez o cruzamento para o golo com o seu pior pé. #Sistemas_Tácticos
 
Seydou Doumbia
 
Aposto mil euros em como Doumbia não se lembrava do resultado do jogo quando tentou marcar o que podia ser o golo da tranquilidade com toda a brandura de um trovador medieval a dedilhar o seu alaúde. Aposto outros quinhentos em como nesta altura já se voltou a esquecer.
 

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publicado às 11:00

Futebol com humor à mistura (9)

Rui Gomes, em 23.10.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, através da qual, a brincar, se diz muitas verdades. O seu alvo neste dia, o jogo com o Desportivo de Chaves.

 

Rui Patrício

 

Um jogo agradável como elemento mais recuado do meio-campo ofensivo, dando sempre linhas de passe aos colegas e revelando segurança com a bola no pé. Falta-lhe algum rasgo para arriscar mais no drible, no remate, e nos cruzamentos, mas no geral esteve bem nas suas novas funções. Nos últimos minutos recuou para guarda-redes, onde voltou a mostrar que não possui a característica essencial que, como aprendemos esta semana, distingue os grandes guarda-redes: ter culpa nos golos sofridos.
 
 
Cristiano Piccini
 
O tipo de exibição que deve obrigatoriamente levar muitos adeptos a levar à mão à consciência e a pistola ao cepticismo. Eu próprio faço desde já um mea culpa, autorizando que Piccini, a partir de hoje, possa ser valorizado em três milhões oitocentos e setenta e cinco mil euros. Insuperável no 1x1, mesmo dentro da área, a qualidade habitual na recepção com pé, coxa e peitorais, e intervenção directa em três dos golos, a última das quais com uma daquelas situações em que um futebolista profissional encosta o pé a uma forma esférica no sítio correcto e com força suficiente para fazer essa forma esférica sobrevoar um grupo de cidadãos adversários até chegar à cabeça de um cidadão amigo.Há um nome para isso, que nunca será escrito neste espaço, pelos mesmos motivos que os actores nunca dizem o nome de uma certa peça de Shakespeare, chamando-lhe sempre "a peça escocesa".
 
 
Sebastián Coates
 
Negou o direito à auto-determinação dos avançados flavienses e tomou todas as medidas necessárias durante o jogo para subjugar pontuais focos independentistas, administrando com tranquilidade a sua zona de soberania. Ao minuto 69 foi dar uma perninha ao meio-campo e fez uma pirueta por entre dois elementos subversivos, um dos quais o derrubou em falta. Revejam o sorriso que Coates esboçou nesse momento: é aquele o rosto do Poder; é assim que o Leviathan arreganha os dentes quando algo o diverte.
 
 
Jérémy Mathieu
 
Mathieu fez hoje um jogo esquisito. Quanto mais penso no assunto, mais esse me parece o termo técnico adequado para descrever o seu jogo hoje.
 
 
Fábio Coentrão
 
Voltou a sair a 10 minutos do fim, e a equipa voltou a sofrer um golo. Era certamente isto que imaginava o Dr. Alfredo Augusto das Neves Holtreman, quando numa luminosa manhã estival há cento e onze anos decidiu emprestar dinheiro ao seu visionário sobrinho para que este fundasse um clube tão grande como os maiores da Europa: que um século mais tarde esse clube conseguisse lutar arduamente para se reposicionar na senda dos triunfos domésticos - DESDE QUE ESTEJA SEMPRE TUDO RESOLVIDO AO MINUTO 79.
 
 
William Carvalho
 
Estão a ver aqueles dias em que William encarna uma presença remota e autónoma, como se impelida por forças estritamente naturais - o resultado de equações intemporais e não de algo tão banal como "características técnicas" ou "indicações tácticas" - preenchendo o firmamento com a cintilante astronomia das suas aberturas por alto, desenhando uma canópia de ângulos e perspectivas convergentes, e efectuando translações incandescentes sobre o seu próprio eixo, numa órbita de adversários pálidos que circundam o seu corpo com o respeito equidistante típico dos anéis de Saturno?... Hoje não foi um desses dias.
 
 
Gelson Martins
 
Como um blogger libertário ou praticamente qualquer colunista nacional, Gelson comportou-se hoje como um iconoclasta: uma voz livre contra o consenso bien pensant, uma viatura em controversa contra-mão perante o fluxo de ideias feitas e opiniões não-examinadas. Se o lugar-comum da ocasião é que os centros devem ser feitos de uma maneira, lá vai Gelson fazê-los de outra maneira. Se o rebanho determina que a bola deve ir numa determinada direcção, lá vai Gelson atirá-la numa direcção oposta. A postura serviu-lhe para falhar inúmeros passes, contabilizar uma assistência, ajudar q.b. na defesa da causa defensiva, e sair de campo convencido de que, ame-se ou odeie-se a sua exibição, "não deixou ninguém indiferente".
 
 

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Bruno Fernandes
 
Algumas perdas de posse escusadas na primeira meia-hora por apostar demasiado na sua capacidade para se desenvencilhar de situações de inferioridade numérica num centro do terreno com excesso de população. Melhorou quando passou a usar a mobilidade e inteligência para encontrar espaços vazios, e encarregou-se de fazer circular a bola, algo que conseguiu quase sempre, excepto quando, como aconteceu ao minuto 50, o árbitro conseguia interceptar atentamente um dos seus passes. Tentou por duas vezes o remate de longe, algo que claramente não é o seu ponto forte. Aliás, é duvidoso que Bruno Fernandes alguma vez consiga voltar a marcar golos de fora da área. Diria até que é impossível que tal aconteça. Certinho. (Pode ser que resulte).
 
 
Marcus Acuña
 
Um jogo indelével que fica marcado por algo que fez duas vezes - e nem sequer me refiro a ter marcado dois golos. Em duas ocasiões, Acuña foi perseguir desalmadamente uma bola perdida que se encaminhava para fora das quatro linhas com o intuito de impedir um lançamento lateral para o adversário, objectivo que em ambas as ocasiões, falhou por milímetros. Fê-lo quando o resultado estava 3-0, fê-lo quando o resultado estava 4-0, e voltaria a fazê-lo, com o mesmo esforço, com um resultado de 750-0 e no último minuto de descontos, circunstância que considero tão sugestiva, profunda e comovente como o último parágrafo d' Os Maias.
 
 
Daniel Podence
 
Usou os primeiros minutos do jogo para declarar os termos da sua dupla abordagem ao jogo desta noite: sem bola, procurar em velocidade o espaço vazio entre as costas do central e as costas do lateral; com bola, procurar o espaço vazio cinco centímetros à frente do pé ou da cabeça da Bas Dost. Demorou apenas um quarto de hora a unir essas duas propensões, assistindo para o 2-0. Foi o melhor em campo na primeira parte, e saiu cedo para descansar, com o jogo resolvido - uma frase bonita e improvável que não me importaria de repetir imensas vezes.
 
 
Bas Dost
 
Muitas conversas entre um adepto sportinguista que tenta informar outro adepto sportinguista sobre um jogo que o segundo não pode, por algum motivo, acompanhar costumam incluir o seguinte diálogo: "então e depois, o que é que aconteceu?" "O que aconteceu? Bem, não vais acreditar, mas..."
 
Só que o interlocutor normalmente acredita, mesmo que aquilo que lhe é dito seja inacreditável, porque a vida nos foi ensinando coisas suficientes para aprendermos algumas. Bas Dost é o futebolista ideal para o clube porque, tal como nós, nunca parece achar nada "inacreditável". Tal como a Alice de Lewis Carroll, consegue acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço: que vai chegar àquela bola antes dos adversários; que um hat-trick é uma resposta perfeitamente natural a 360 minutos com um único remate à baliza; que o País das Maravilhas existe; que a felicidade é possível, mesmo que seja efémera.
 
 
Rodrigo Battaglia
 
Ficou na retina uma jogada ao minuto 83, em que se esfarrapou todo para travar a progressão de Djavan e roubar-lhe a bola, como se o resultado estivesse 0-0 e do sucesso dessa acção dependesse a viabilidade das democracias Ocidentais.
 
 
Seydou Doumbia
 
Estava ainda a pensar na melhor maneira de festejar o golo mais feio da sua carreira quando reparou, com visível e compreensível alívio, que o mesmo fora anulado. Pode assim dormir em paz esta noite.
 
 
Bruno César
 
Não foi um alívio ver que ele ia entrar, mas foi um alívio ver que era ele quem ia entrar, se é que me faço entender.
 

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publicado às 04:41

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo com a Juventus. Como sempre, a "brincar" diz-se muitas verdades... 

 

Rui Patrício

Na melhor tradição de Schmeichel, detectou premonitoriamente um livre directo executado na perfeição e limitou-se a supervisionar a trajectória da bola. E livres directos executados na perfeição são algo para o qual Patrício deve ter um radar apuradíssimo, tendo em conta a quantidade deles que já testemunhou. Bruno Alves, Carlos Eduardo, Tiago Silva, Valbuena, Cristiano Ronaldo (x2), Lindelof: não há ninguém que não execute livres directos na perfeição contra Rui Patrício. Adrien Silva saiu do clube com a reputação de não saber marcar livres directos. É esperar pelo primeiro Leicester-Sporting.
 

Cristiano Piccini

Intratável a defender, quase sempre insuperável no 1x1, e a fazer aquilo que eludiu gerações inteiras de laterais do clube, direitos ou esquerdos: fechar por dentro os cruzamentos da faixa oposta. Teve a primeira boa incursão ofensiva ao minuto 47, num lance que começou com uma das suas maiores virtudes - nunca perder a calma - e culminou no que não é propriamente o seu maior defeito, mas sim o principal motivo que o fará custar três (bem gastos!) milhões de euros para todo o sempre: a falta de capacidade de improviso no último terço. Piccini é uma heurística com pernas, uma navalha de Occam ambulante: em qualquer situação de escolha múltipla, escolhe invariavelmente a menos complicada (para ele, para os colegas e para o adversário). É um alívio permanente para os defesas - da sua equipa e da outra; e um obstáculo permanente e insuperável para os extremos - idem aspas.
 

Sebastián Coates

Algumas falhas no controlo da profundidade na primeira parte e um ou outro calafrio faziam temer o pior, mas acabou para embalar para uma exibição positiva, e esteve imperial dentro da área, com a cabeça ou com os pés. A três minutos do intervalo, cabeceou por cima, depois de um dos livres "ensaiados" mais bem sucedidos que me lembro de ver o clube fazer nos últimos tempos.
 

Jérémy Mathieu

Um deslize ao minuto 23 deixou Dybala em posição de remate. Um deslize de Mathieu. Mais do que um percalço conjuntural, vi o episódio como um cataclismo, algo que abalou a minha fé na estrutura básica da Natureza. Após o incidente, olhei ao meu redor à procura de qualquer coisa: de um cigarro, ou da minha identidade enquanto indivíduo. Tudo o que encontrei foi uma pilha de cromossomas arrumada a um canto, e que baptizei como "Jonathan". Mathieu, por seu lado, e como era de esperar, fez o que costuma fazer: amnesiou-se instantaneamente e fez um jogo ao seu nível - calmo, clarividente e eficaz.
 

Fábio Coentrão

É o melhor funcionário público do mundo: integra uma burocracia sólida e experiente, é extremamente competente, está persuadido até à medula das suas responsabilidades colectivas, executa todas as suas tarefas com brio, independência e orgulho profissional - e nunca abdica do impulso de picar o ponto uns minutos antes da hora. Fez um jogo quase perfeito até danificar uma das peças sobressalentes. Uma pena que as suas saídas prematuras de campo sejam agora o equivalente futebolístico à presença de Sean Bean num ecrã: um spoiler irrevogável sobre o resto do filme.
 

William Carvalho

Não fez um jogo ao nível do que fez contra o Barça e até contra o Porto, algo que evidentemente não é culpa sua, mas do jogo em particular, do desporto em geral, da sociedade e, por inerência, do Universo. Quando a inadequada interiorização de normas colectivas dá origem a comportamentos desviantes, William penetra linhas de ruptura conceptual, procedendo à segmentação das opções que previamente o constituiram como agente estruturado-estruturante capaz de se articular na complexa relação de domínio ideológico com o grupo-matriz, permitindo-lhe assim redefinir-se, na sequência de tal segmentação, e através da reconfiguração dos vectores significante do espaço técnico-táctico, enquanto alternativa à praxis. Quer dizer, isto nem sequer tem discussão.
 

Gelson Martins

Mostrou uma precoce e exemplar memória corporativa ao falhar um golo isolado perante Buffon, deixando a um colega de equipa do mesmo a tarefa ingrata de fazer passar a bola por ele, a caminho das redes. Uma coisa é tratar Marcelos e Busquets com condescendência, outra é faltar ao respeito ao Senhor Doutor Gianluigi. Para quem achasse que tinha sido um mero acidente e não uma decisão deliberada, dez minutos mais tarde tentou fintar outro "histórico", Chiellini, em velocidade - algo que muitos tentaram antes dele, e com o mesmo sucesso (zero). De resto, fica a mesma ideia que tem ficado nos últimos jogos: anda a oferecer ao mundo apenas excertos avulsos do seu talento, abreviados e parafraseados, sem nunca propriamente abrir o livro.
 

Rodrigo Battaglia

Tanto nos contos de fadas como na literatura épica - Virgílio, Dante, Milton - a floresta é o lugar encantado onde uma pessoa vai. Onde vai o bom rapaz (para perceber se é heróico) ou o gajo complicado (para perceber se é vilão). Acima de tudo, é um lugar onde se vai para ser testado. Injectado à bruta no meio da floresta densa que foi o meio-campo da Juventus, Battaglia não emergiu com uma espada mágica, mas também conseguiu não ser engolido. Incomodou as progressões pelo meio o melhor que pode, e ainda ensaiou algumas vezes (a do minuto 24 foi a que mais agradou) o expediente que desenvolveu para compensar o facto de não conseguir fazer passes a colega algum: galopar por ali fora até perder a bola de forma a conseguir recuperá-la logo de seguida numa zona mais adiantada. Não é bonito, mas de vez em quando é tremendamente eficaz.
 

Marcus Acuña

Aproveitando certamente o facto de pela primeira vez em muito tempo não ter jogado 78 jogos numa semana, entrou espevitado e alerta, acumulou uma mão cheia de recuperações (o golo inaugural começou com uma) e na primeira parte foi dos poucos, com a ajuda de Coentrão, a conseguir fazer alguma retenção de bola em zonas mais avançadas. Veio do intervalo com a mesma genica, fazendo mais algumas recuperações ofensivas, mas aí começou a apostar no cruzamento automático, algo que, dadas as circunstâncias (Dost sozinho na área, rodeado de toda a população de Itália) é menos uma opção estratégica do que um apelo à magia, como lançar uma moeda à fonte, ou comprar uma raspadinha.
 

Bruno Fernandes

Foi forçado a jogar inúmeras vezes sozinho contra uma multidão entusiasmada e num pico de adrenalina, e as multidões entusiasmadas e num pico de adrenalina são quase sempre de evitar. Num momento estão apenas a curtir o som, mas no momento seguinte desatam a derrubar governos ou querem matar judeus. Neste caso específico, a multidão só queria a bola, vontade que Bruno Fernandes nem sempre lhes fez. Mostrou a profunda dignidade que reside sempre no esforço para mostrar lucidez e generosidade, mesmo quando rodeado de bárbaros e, além de lançar Alex Sandro no lance do golo, ainda sacou livres perigosos e criou a última e melhor oportunidade da equipa na segunda parte.
 

Bas Dost

Passou os primeiros momentos a chegar demasiado tarde a passes demasiado curtos, a saltar demasiado baixo a bolas demasiado altas (e demasiado optimistas), e a tentar incomodar com a sua presença demasiada isolada dois corpos demasiado italianos. Por quatro ou cinco ocasiões mostrou uma qualidade ao primeiro toque que nem todos os colegas tiveram. Convém é que se criem condições para lhe permitir direccionar esse toque para a baliza. E isso é tarefa de outros, não dele.
 

João Palhinha

Entrou com mais energia que todos os colegas que ainda permaneciam em campo, circunstância que se manifestou na alacridade com que chegou a cortar bolas em lances de antecipação não apenas ao adversário, mas a colegas de equipa que já lá estavam a tratar do assunto.
 

Jonathan Silva

A maneira como ficou a olhar para a bola durante o cruzamento de Douglas Costa lembrou a reacção de uma tribo amazónica quando o primeiro missionário entrou pela aldeia dentro com um fonógrafo ou um guarda-chuva. Que criatura é esta, capaz de tamanha magia? Devo ajoelhar-me e venerá-lo? Cozinhá-lo e comê-lo? Na conferência de imprensa pós-jogo, Jorge Jesus chamou-lhe "Jonas", com toda a certeza uma das coisas mais simpáticas que alguém lhe vai chamar hoje.
 

Seydou Doumbia

Ao minuto sporting chegou uns meros dois milisportings de sporting atrasado em relação a uma oportunidade de golo extremamente não-sporting, tendo o lance corrido de acordo com os trâmites.
 

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publicado às 04:17

Futebol com humor à mistura (8)

Rui Gomes, em 02.10.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, brinda-nos com a sua usual humorística análise à performance dos jogadores do Sporting no jogo deste domingo frente ao FC Porto. E, com este humor, diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Passam-se meses sem termos oportunidade para recordar que Patrício é um bom guarda-redes, e de repente, como os autocarros, chegam várias ao mesmo tempo. Boa defesa a remate traiçoeiro de Brahimi ao minuto 2, grande saída aos pés de Aboubakar ao minuto 40 e mais uma ou outra demonstração de segurança e estabilidade. A coroa de glória, no entanto, surgiu aos setenta e nove minutos, quando evitou um golo certo de Marega, no momento mais importante da sua carreira desde que se estreou no futebol profissional em Novembro de 2006.

 

Trave da Baliza Vítor Damas, no Topo Sul

Passam-se meses sem termos oportunidade para recordar o que é que a trave está exactamente ali a fazer, e hoje parecia outra noite igual, sem trabalho, em que se limita a ser uma espectadora atenta dos acontecimentos. A coroa de glória, no entanto, surgiu aos quarenta e quatro minutos, quando evitou um golo certo de Marega, no momento mais importante da sua carreira desde que se estreou no futebol profissional em Agosto de 2003.

 

Piccini

Ganhou um primeiro canto da equipa aos sete minutos, depois de um lance que ele próprio iniciou exibindo um dos seus melhores atributos: o imaculado controlo de bola ao receber passes longos. Pouco tempo depois, foi inteligente a temporizar e a conter Brahimi, esperando que ele perdesse a bola sozinho. Nem sempre conseguiu fazê-lo, mas mesmo nos lances em que foi ultrapassado (e não há muita gente no planeta que consiga passar um jogo inteiro sem ser ultrapassado por Brahimi) encarnou sempre um semáforo amarelo: Brahimi conseguiu avançar, mas com cautela e sem maluquices. Ao minuto 33 conseguiu ainda mostrar aos adeptos mais impacientes (que teimam em querer vê-lo cruzar) porque é que isso quase nunca acontece: porque Piccini, além de perceber muito de futebol, também percebe muito de Piccini.

 

Coates

Não adoptou a sua habitual postura de hostilidade reprimida em relação a espécies invasoras, comportando-se mais com a distante competência que costumamos associar aos assistentes pessoais de celebridades – um daqueles intermediários na relação entre entidades VIP (neste caso a baliza) e os impulsos voyeurísticos ou predatórios do mundo exterior. Sem espalhafato, mas com intransigente competência, encarnou o papel de relações-públicas taciturno, ou guarda-costas aborrecido, e desfiou 90 minutos de intercepções à porta de entrada e cancelamento abrupto de credenciais. Houve gente que passou, mas poucos passaram por ele.

 

Mathieu

O corte crucial sobre Marega na área ao minuto 36 já seria mais do que suficiente para lhe garantir uma futura estátua no museu, mas é de assinalar também a demonstração de inteligência emocional que deu na segunda parte. Ao perceber, com a perspicácia dos predestinados, que Jonathan é incapaz de receber um bom passe, começou a fazer-lhe maus passes, em série, dando o mote para o resto da equipa começar a fazer o mesmo. Foi uma brilhante jogada psicológica, que alcançou o objectivo essencial: Jonathan não voltou a estragar jogadas com a sua incompetência, porque as jogadas já lhe chegavam competentemente estragadas.

 

Jonathan Silva

Algures num arquipélago remoto no Pacífico, numa daquelas grutas que só costumam aparecer em filmes de terror de série B, um soldado japonês com 90 anos de idade, que passou as últimas sete décadas sozinho, convencido que a II Guerra Mundial nunca terminou, a comer ratos assados e a conversar lunaticamente com pássaros, a cumprir obedientemente as suas obsoletas instruções para não abandonar o posto e proteger o Império Nipónico contra o inimigo, dedicou o último segundo da sua existência terrena a pensar: “Sabem que mais, pássaros? Tenho mais controlo de bola, sentido posicional, e juízo nos cornos que o Jonathan Silva”.

 

William Carvalho

O seu estilo ilusoriamente elaborado e deliberado tem o condão de transformar quase todos os espectadores, olheiros e adversários em puristas estéticos, convencendo-se que as superfícies visíveis que admiram contêm profundezas ocultas. Aquele movimento vagaroso não parece minimalista, portanto deve ser barroco. Aquela mudança de direcção não parece realista, portanto a jogada que inicia deve ser surreal. E enquanto eles ficam entretidos a fazer crítica de Arte, William dedica-se ao único propósito que o motiva: o respeito por princípios elementares, a procura da linha recta mais próxima e da distância mais segura entre dois pontos. Conseguiu jogar bem, num meio-campo que não existiu além dele.

 

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Battaglia

Como o funcionário mais diligente de uma ONG humanitária, passou grande parte do jogo a corrigir desigualdades e a tentar construir um campeonato mais justo através da redistribuição de posse de bola. Fez um passe extremamente bem sucedido para um jogador do Porto logo ao sexto minuto, outro ao minuto 12, e depois foi vê-lo entusiasmar-se, tentando, com alguma megalomania, fazer passes para jogadores do Porto com grau de dificuldade cada vez mais elevado, o que o levou, naturalmente, a falhar alguns, que foram parar aos pés de colegas de equipa. Na segunda parte retraiu mais os seus impulsos filantrópicos e pareceu mais sintonizado com a ética da equipa, como se viu no facto de, também ele, ter feito um passe demasiado forte para Jonathan.

 

Gelson Martins

Sem conseguir desequilibrar, rodeado de carraças sem bola, comportou-se como uma carraça com bola, tentando mantê-la junto a si o máximo tempo possível, expediente que, pelo menos durante a primeira parte, era a única forma de a equipa não a perder de imediato. Após o intervalo derivou para o flanco esquerdo, onde artilhou o toque mais artístico do jogo inteiro: um toque de calcanhar que desposicionou momentaneamente a defesa do Porto, e isolou... Jonathan Silva. Foi o equivalente a construir um Stradivarius para tocar o “Jardim da Celeste”, mas fica a intenção.

 

Bruno Fernandes

Foi o último jogador em campo a tocar na bola, o que pode parecer um dado estatístico puramente acidental, mas que reflecte as dificuldades que sentiu para encontrar espaço. Mesmo quando o encontrou, e talvez mais por mérito do Porto do que por demérito próprio, ficou a ideia que lhe faltou sempre uma fracção de segundos adicional para desenvolver a ideia que tinha na cabeça. Caiu-lhe aos pés a melhor oportunidade da equipa ao minuto 59: Bruno Fernandes optou por fazer um remate de longe, opção que se compreende, mas que funciona muito melhor quando está realmente longe, e não, como era o caso, perto.

 

Marcos Acuña

Logo aos quatro minutos, a bola fez uma daquelas coisas que as bolas de futebol fazem de tempos a tempos: colidiu com a bandeirola de campo quando toda a gente pensava que ia sair e virara costas ao lance. Toda a gente, salvo seja, pois Acuña foi quem lá chegou primeiro para resolver o assunto. O lance é uma boa ilustração do jogo que fez: precioso na ajuda defensiva (muitas vezes foi obrigado a ser, por motivos óbvios, lateral-esquerdo), sempre útil na contenção a meio-campo (tem uma esperteza característica a bloquear linhas de passe quando a jogada decorre no centro ou no flanco oposto), e um verdadeiro líbero avançado em situações potenciais de contra-ataque adversário. Travou dois assim, um dos quais perto do fim, quando já não devia ter energia para tal. Tivessem as bolas paradas estado ao mesmo nível – inúmeros cantos demasiado curtos – e seria o melhor do Sporting hoje.

 

Bas Dost

Entre 2007 e 2010, o velejador americano Reid Stowe completou uma viagem marítima de mil cento e cinquenta e dois dias, sem meter o pé em terra, e sem contactar directamente com qualquer outro ser humano, uma experiência talvez um pouco mais isolada e solitária do que a noite de Bas Dost.

 

Bruno César

Duas boas intervenções em que conseguiu jogar bem ao primeiro toque, dois toques que conseguiram ao mesmo tempo descomplicar e acelerar a jogada. Não deram em nada, mas não por sua culpa. Tal como não foi (exclusivamente) culpa sua o anonimato que lhe pautou o resto da exibição.

 

Podence

Ganhou uma falta assim que entrou, através do expediente revolucionário de se mexer mais depressa com a bola do que dois jogadores do Porto sem ela, uma manobra que não testemunhava há tanto tempo que nem me lembrava que era legal: quando o árbitro apitou, julguei que ia marcar falta a Podence.

 

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publicado às 06:00

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Barcelona. Para o efeito deste post, escolhi apenas meia dúzia dos "leões" que ontem "venderam" a derrota bem cara:

 

Rui Patrício

Longe vão os tempos em que Rui Patrício alternava entre não ter qualquer trabalho (e não ter culpas no golo sofrido) aos fins-de-semana - e ser o melhor em campo (e não ter culpas nos 3, 5 ou 7 golos sofridos) às quartas-feiras. Hoje tem uma rotina muito mais estável, que lhe permite fazer o mesmo tipo de exibições a qualquer dia da semana, e sofrer o mesmo número de golos (nos quais não teve qualquer culpa) de Moreirense e Barcelona. Trabalho não teve muito, e só precisou de puxar dos galões já perto do fim, quando alguém chamado Paulinho pretendeu marcar-lhe um golo. Patrício não se importa de sofrer golos de uma pessoa chamada Paulinho. Mas só uma. E nos treinos. E não é este Paulinho.

 

Piccini

É um risco que correm as pessoas que custam três milhões de euros com tão inusitada correcção: começam a ser vistas não como pessoas, mas como três milhões de euros. Foi provavelmente o que pensaram, além dos espertalhões que produzem conteúdos digitais, os jogadores do Barcelona nos cumprimentos pré-jogo, ao passarem pela figura familiar de Piccini, com quem se cruzaram na Liga Espanhola: “olha, aqueles três milhões de euros que fintei no ano passado”. Mas as pessoas não são números, e ao minuto 17 Piccini, um ser humano, recebeu de peito junto à linha, galopou dez metros, desviou-se de vários adversários, e rematou forte de pé esquerdo. A língua alemã tem uma palavra para designar estas situações: a palavra é “Chüpem”. Bom jogo, como é hábito.

 

Coates

Uma exibição despreocupadíssima durante toda a primeira parte, típica de quem percebeu, se calhar ainda no balneário, que o seu colega de sector ia dar conta da maioria dos recados. Esteve mais activo na última meia hora e fez alguns cortes importantes (não obstante um deslize comprometedor já perto do fim). Foi vítima de um azar imerecido e incaracterístico, marcando um auto-golo que julgava só acontecer ao Paulo Oliveira, daqueles em que até a geometria abana a cabeça, quanto mais um adepto de carne e osso.

 

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Mathieu

O tipo de exibição que levou à invenção do bloco de notas, e da cassete de vídeo: corte na área sobre Messi aos 4 minutos, calma sobrenatural na saída de bola (rodeado de adversários e sem linhas de passe) aos 11, outro corte sobre Suárez aos 12, um desvio milagroso depois de um livre a safar um golo certo no último segundo aos 37, e assim sucessivamente. O seu melhor momento (e a escolha é difícil) foi talvez ao minuto 41: no primeiro slalom bem sucedido de Messi, daqueles que deixa meia equipa espalhada pelo relvado depois de carrinhos mal sucedidos, decidiu não se mexer e esperar tranquilamente que a bola viesse ter consigo de livre vontade. O que veio a acontecer. Mesmo a única falta que cometeu foi exemplarmente escolhida: uma cacetada em Busquets, que só pecou por não ter sido dada com mais força, e num órgão vital. É um génio. Chegou ao Sporting com 33 anos, cumpriu 29 assim que começaram os jogos oficiais e festejou hoje os 25. A continuar assim, chegará a Maio sem precisar de fazer a barba.

 

William Carvalho

É a solidez estrutural que suporta efemeridades menores, como paixões humanas, destinos colectivos, e outras questões de vida ou morte. Uma massa compacta de calma e lucidez, William limita-se a ser a temperatura a que decorrem todas estas coisas, a gramática que permite que os outros transeuntes articulem frases. Não fez um jogo perfeito porque, como ele seria o primeiro a lembrar, não existem jogos perfeitos. Actos esporádicos como o passe para Doumbia que fez na direcção de Bas Dost, por exemplo, ou o remate por cima da barra, são apenas a sua maneira de imitar o Rei Canuto, que mandou colocar o trono à beira-mar e ordenou à maré que não subisse, numa tentativa de esclarecer os seus cortesãos sobre os limites do poder secular.

 

Battaglia

O melhor em campo e um debate na internet em forma humana. Apresentou-se ao serviço com os caninos à mostra, os pitons untados com adrenalina, e um cabaz de opiniões. Não tem a menor importância se as opiniões são correctas, ou sequer baseadas em factos. O que é importante é arremessá-las com muita força às trombas de quem possui opiniões contrárias. Do primeiro ao último minuto, ninguém conseguiu ganhar uma discussão consigo: Battaglia falou mais alto, fez mais memes, fez mais barulho, mudou mais vezes de assunto, nunca se cansou, nunca se calou. Toda a gente já fez log-out nesta altura, e metade do plantel já está em casa a dormir, excepto Battaglia, que deve estar em tronco nu, a mudar a mobília toda de sítio, e cheio de vontade que um vizinho venha queixar-se do barulho.

 

Bruno Fernandes

Está mais do que na altura de falarmos naquele rosto. Visto a contra-luz, a silhueta recortada contra os holofotes, podia ser o logotipo da Associação dos Técnicos Oficiais de Contas. É só quando o vemos em movimento que as características ganham definição, e percebemos que podíamos estar perante uma personagem de um romance russo, um daqueles niilistas tuberculosos saídos de Turgenev, que sabem quão pouco o mundo tem para lhes oferecer, que transportam um ressentimento do tamanho da sua geração, e que discutem imenso com o pai e com os amigos, não porque os odeiam, mas porque os amam demasiado. Hoje mostrou que também estes são jogos para ele. Mesmo com os altos e baixos que terá naturalmente ao longo da época, haverá poucos que não sejam.

 

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publicado às 11:28

Futebol com humor à mistura (7)

Rui Gomes, em 24.09.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise análise humorística à performance dos jogadores do Sporting pela visita a Moreira de Cónegos:

 

Rui Patrício

A bonita carreira de Patrício na Liga Portuguesa arrisca-se a ser o seu arquipélago das Galápagos: um lugar traiçoeiramente confortável onde os seus instintos vão sendo gradualmente suprimidos na ausência de predadores naturais, até ao momento fatídico em que aparece a primeira espécie invasora com trombas de Ruben Micael a emboscá-lo junto ao rio. Daqui a trezentos milhões de anos, é possível que Rui Patrício ainda jogue por cá, já anatomicamente alterado pela selecção natural: com um pescoço musculado que lhe permita abanar a cabeça antes de levantar a cabeça; e com um único braço – o suficiente para ir buscar a bola ao fundo das redes, depois de todos os golos onde não teve quaisquer culpas.

 

Piccini

Foram exibições como esta que levaram o ser humano a desenvolver o hábito de falar no tempo. Uma exibição razoável, em que não cometeu qualquer erro grave, nem somou qualquer acção de destaque, com ou sem bola e, parecendo que não, as noites já começam a ficar mais frescas e dá muito jeito um casaquinho.

 

Coates

O seu principal atributo defensivo é a fé absoluta – e muitas vezes justificada – no poder sacramental da sua própria presença: a crença de que basta aparecer e mostrar o seu rosto taciturno para que toda a gente pare imediatamente de fazer o que está a fazer, arrume os brinquedos no caixote e vá para a cama sem sobremesa, de livre vontade. Resulta muitas vezes, mas há dias em que dava jeito que também ajudasse um bocado na cozinha e fosse meter o lixo lá fora.

 

Mathieu

Em situações análogas no passado recente, conseguiu ser o elemento mais esclarecido da equipa nos minutos finais. Hoje, pelo contrário (e depois de um jogo discreto mas sem mácula) não foi o habitual ponto de estabilidade na fase em que o jogo se partiu ao meio, e ainda se deixou antecipar duas vezes na defesa, em lances aparentemente controlados.

 

Fábio Coentrão

Em boa forma física, totalmente rejuvenescido depois de uma semana sequestrado numa tenda de campanha e submetido a periódicas transfusões de sangue, medula óssea, nicotina e fita-cola. Fez um jogo bastante razoável se não contarmos os centros efectuados para o corte de cabeça do defesa ao primeiro poste. E não os vamos contar, pois não é possível. Há números tão elevados que deixariam até as pessoas responsáveis por calcular a dívida pública momentaneamente atrapalhadas.

 

William Carvalho

Cumpriu a função táctica de narrador omnisciente e heterodiegético, à procura de uma organização e de uma forma que hão-de emergir espontaneamente da história que tem para contar e na qual não participa, embora por vezes seja obrigado a interrompê-la para comentar a organização e articulação do texto, ou para introduzir um deus ex machina. De resto limita-se a afirmar a validade da informação que transmite e o grau de precisão da mesma, com uma focalização autoritária que nunca deixa dúvidas ao leitor: sabe infinitamente mais do que todas as personagens que ali andam.

 

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Bruno Fernandes

Se há jogo no campeonato que se deve evitar a todo o custo resolver com uma bujarda de nove milhões de euros, é precisamente um jogo contra uma equipa treinada por Manuel Machado. Perderam-se dois pontos, é um facto, mas por outro lado ganhou-se paz e sossego, e evitou-se um solilóquio polissilábico de duas horas sobre justiça, orçamentos e competitividade. Vale a pena a troca.

 

Gelson Martins

Um daqueles dias em que cada uma das suas inegáveis qualidades se apresentou em campo juntamente com a etiqueta do preço, que no seu caso não vem em moeda, mas em esforço. Gelson jogou hoje como tem jogado ultimamente: como se o talento fosse um fardo pesadíssimo que é sua tarefa andar ali a arrastar transpiradamente de um lado para o outro. Escorregou a receber passes, tropeçou a fazer cruzamentos, assistiu através de ressaltos, fintou através de quedas. Duvido muito que uma curta paragem beneficiasse a equipa, mas é provável que o beneficiasse a ele.

 

Bruno César

Jogou mais ou menos como uma criança de três anos comunica: sempre de forma expressiva e urgente, raramente de forma elaborada ou elucidativa. Não há cá muitos “por conseguinte” com Bruno César. Não há cá muitos “todavia” ou “em suma”. O que há é a manifestação histérica de estados de alma instantâneos. “Está frio!” “Tenho fome!” “Quero um cão!” Sem qualquer ligação intuitiva com os ritmos de domínio de um jogo, cada movimento seu é uma resposta e não uma ideia. E nem esteve mal a reagir – a sua velocidade de reacção pareceu, aliás, sempre uma fracção de segundo acima dos colegas. Não lhe peçam é para ter ideias.

 

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Alan Ruiz

Sofreu a primeira falta da equipa, ao segundo e ao terceiro minuto. A frase anterior não significa que Alan Ruiz sofreu duas faltas nesse período: significa apenas que Alan Ruiz demora em média cento e vinte segundos a sofrer uma única falta, tal como demora em média cento e vinte segundos a mudar de direcção ou a preparar um remate. Após algumas bolas perdidas de outras maneiras, dedicou-se a um novo projecto, o de tirar adversários da frente através de fintas, para de seguida rematar à baliza. Fê-lo com a convicção de quem leu recentemente um artigo de jornal sobre tirar adversários da frente através de fintas e decidiu puxar o assunto no café ou na paragem de autocarro para impressionar as pessoas. A finta não resultou. Mas as fintas tentadas e falhadas por Alan Ruiz possuem uma vantagem óbvia sobre as fintas tentadas e falhadas por qualquer outro jogador: permitem-lhe estragar uma única jogada no período de tempo em que qualquer outro jogador poderia estragar duas ou três. Esse mérito ninguém lhe tira.

 

Bas Dost

Jogo ingrato, em que passou a segunda parte a fazer o papel de controlador aéreo, tentando desviar bolas altas para as correspondentes pistas de aterragem, em que passou a primeira parte enrodilhado num competentíssimo espartilho táctico constituído pelos defesas-centrais do Moreirense e pelas cláusulas do contrato de Alan Ruiz espalhadas pelo relvado.

 

Doumbia

Já se viu dele o suficiente para comprovar que a vida de qualquer defesa é sempre um bocadinho mais complicada com ele em campo. E ele próprio também já deve ter visto o suficiente para perceber que a sua vida vai ser um bocadinho mais complicada do que na Suíça.

 

Battaglia

Cada bola dividida pertencia ao Moreirense, que por sua vez encarava cada transição ofensiva como um corredor deserto entre as duas áreas: foi este o regular funcionamento das instituições até a entrada de Battaglia em campo demonstrar que há mais do que uma maneira de organizar a sociedade.

 

Iuri Medeiros

Não ter custado oito milhões de euros é o aspecto mais positivo das suas últimas exibições.

 

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publicado às 07:09

A "brincar" diz-se muitas verdades

Rui Gomes, em 20.09.17

 

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Na realidade, estamos perante mais uma crónica humorística do nosso bem conhecido Rogério Casanova, jornal Expresso, que eu optei por não apresentar no usual formato da rubrica "Futebol bom humor à mistura", por ser um jogo da Taça da Liga.

 

Deste modo, escolhi meia dúzia de apontamentos do autor sobre a performance de jogadores do Sporting que até ao momento não tínhamos tido oportunidade de ver jogar em competição oficial. Isso, e mais um ou dois dos usuais.

 

Ristovski

Pode parecer pouca coisa, mas a Macedónia detinha, na Antiguidade Clássica, uma invejável reputação enquanto líder na tecnologia de cercos militares. Para o Cerco de Rodes, por exemplo, o Rei Demétrio I encomendou de propósito uma torre com catapulta de quarenta metros de altura, oito rodas gigantescas e operada por milhares de soldados, capaz de espatifar a mais bonita arquitectura. Ristovski, de acordo com a internet, mede apenas um metro e oitenta, e não tem rodas, embora a sua omnipresença hoje deixe dúvidas sobre esta última informação. Foi o melhor em campo e, mesmo não sendo as circunstâncias ideais para conclusões entusiásticas, é inevitável pensar que os dois milhões e duzentos mil euros que custou configuram um caso óbvio de avaliação incorrecta.

 

Petrovic

Depois de um longo blackout abandonou hoje a pose serena de mutismo institucional e apresentou-se em campo cheio de vontade de implementar uma estratégia de comunicação. Fartou-se de fazer comunicados pertinentes, anúncios competentes, updates concisos. A dada altura chegou mesmo a promover uma conferência de imprensa simultânea com as canelas e a anca de um jogador do Marítimo, tendo conseguido esclarecer todos os envolvidos de forma robusta. Mostrou a habitual simplicidade lúcida na construção, sendo, além de Ruiz, o único jogador em campo a conseguir passar a bola a colegas que se encontrassem a mais de dois metros. Bom jogo.

 

Iuri Medeiros

Começou mal, com uma corrida desenfreada do lado errado da linha lateral, e nunca conseguiu melhorar. Pouco preciso nos cruzamentos, tanto de bola parada como de bola corrida, e pouco hábil a livrar-se das marcações, passou a noite assombrado por sucessivos ataques de esprit de l'escalier: a pensar nas jogadas que devia ter feito, em vez daquelas.

 

Mattheus Oliveira

Jogou não como o recipiente de instruções tácticas pormenorizadas, mas sim como o portador de um segredo terrível, cuja natureza era sua missão proteger a qualquer custo. Sente-se que grande parte das suas acções no terreno são concebidas para poupar tempo. Mas poupar tempo para quê? Para quem? O que é que acontece a todo esse tempo poupado? Onde é que o guardou? Para que efeito? Dá para ir lá buscar algum? Não é mau jogador. Sabe jogar ao primeiro toque, por exemplo (o pior são os toques seguintes). Mas o motivo da sua contratação continua a não ser claro. Um mistério quase tão grande como aquela consoante duplicada no seu nome, como se alguém tivesse tentado fazer batota no Scrabble.

 

Doumbia

Num jogador tão compenetrado em fazer o seu trabalho, que é marcar golos, podem notar-se poucas diferenças na sua linguagem corporal entre as ocasiões em que o consegue e aquelas em que não consegue, como hoje. Mas há que ter em atenção que Doumbia é imortal, e não mede o tempo como nós, nem, por conseguinte, avalia os acontecimentos da mesma forma. Ricardo Quaresma sempre me pareceu jogar como se não soubesse qual era o adversário nem a competição em que se encontrava. Doumbia joga como se não soubesse sequer em que década estamos. Muito menos há cá "jogos", no plural: na sua percepção tudo o que acontece faz parte do mesmo interminável jogo de futebol, em que de vez em quando se marcam golos, e de vez em quando não se marca. Ele não está ali para vistas curtas, mas para a eternidade. Não fiquem nervosos que ele também não.

 

Battaglia

Comprovou o que já se suspeitava: se a ideia é utilizá-lo vindo do banco, será sempre um suplente mais útil em ocasiões de risco, quando é preciso segurar um resultado perigoso, como nos jogos em que nos encontramos tragicamente a ganhar por 3-0 a dez minutos do fim. Para empates a 0 como o de hoje, quando está toda a gente calma e descontraída, as suas características não são as mais indicadas.

 

Alan Ruiz

Esta frase, recentemente inaugurada, e ainda, de certa maneira, tocada pela recordação - é a palavra certa - de outras frases que a antecederam no tempo, deverá, por assim dizer, iniciar um processo que, expondo humildemente as suas fraquezas intrínsecas - de um modo consciente e até, dir-se-ia, orgulhoso da sua condição precária - se predisponha ainda assim, sem a precipitação tantas vezes funesta do entusiasmo, à execução das manobras que pareçam as mais apropriadas, na medida em que, não renegando a sua natureza efectiva de manobras, evitem um compromisso inequívoco com a concisão, a concluir um raciocínio sobre o paciente estilo de jogo de Alan Ruiz, e demonstrando por isso uma fidelidade extrema à sua própria maneira de executar uma jogada, não sei se me faço entender.

 

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publicado às 04:43

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, viajou até à Grécia para nos brindar com a sua análise humorística da performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Olympiacos, a contar para a primeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões:

 

Rui Patrício

Não sei se repararam que logo ao oitavo minuto, fez um passe por alto para Piccini que levou a bola a flutuar aproximadamente 50 metros por cima da cabeça do colega. Meia-hora depois tentou fazer-lhe um passe rasteiro, tendo a bola saído pela linha lateral, aproximadamente a 10 metro do sítio onde estava Piccini. E na segunda parte lá continuou a mandar a bola pela linha lateral várias vezes. Repetiu o procedimento com tamanha convicção que a única hipótese razoável é que se trata de um obscuro ritual maçónico. De certeza que à mesma hora, em lojas de todo o mundo, milhares de irmãos vestidos de avental atiravam formas esféricas pela janela.

 

Piccini

Os três milhões de euros que custou são um pilar de estabilidade no mundo volátil das coisas que custam três milhões de euros. Já tentaram comprar alguma coisa por três milhões de euros? Tentem comprar qualquer coisa por três milhões de euros: é quase impossível os três milhões de euros ficarem quietos. Mais tarde ou mais cedo, aquilo que custou três milhões de euros vai valer dois milhões e meio, ou quatro milhões, ou sete, ou quinze, ou quatrocentos mil euros, ou zero. Piccini continua a valer três milhões de euros e vai continuar a valer três milhões de euros até abandonar a carreira, altura em que vai ser incluído na 28ª edição do Nordhaus e Samuelson, e revolucionar toda a teoria económica. Bom jogo.

 

Coates

Ao minuto 22 já com o resultado em 0-2, teve uma estranha sensação de déja vu: percebeu que o corredor central do Olympiacos era essencialmente uma réplica do corredor central do Sporting nos momentos mais suaves da última época: uma tranquila zona pedonal. Portanto avançou por ali fora cheio de vontade de, também ele, falhar um golo isolado frente ao guarda-redes, tarefa na qual foi bem sucedido. Viria ainda a fazer um passe perfeito para o golo de Bruno Fernandes e dois cortes cruciais na segunda parte que impediram o pesadelo de começar mais cedo.

 

Mathieu

Aconteça o que acontecer durante o resto da época e do seu percurso no clube, saberei sempre isolar o momento exacto em que decidi casar-me e ter filhos com Jeremy Mathieu: ao minuto 50 do jogo de hoje, num momento de pressão alta do adversário, recebeu um passe à queima de Patrício efectuado mais ou menos para o seu estômago, com um jogador do Olympiacos a correr feito louco na sua direcção e outro a aproximar-se pelas costas. Dois toques e três segundos mais tarde, a bola estava em segurança, nos pés de um colega, a vinte metros daquela zona. Tem feito isto quatro ou cinco vezes por jogo, e é nesta altura a coisa mais parecida que a equipa tem com um comprimido para os nervos.

 

Jonathan Franzen

Claramente não consegue sozinho dar resposta a todas as exigências de uma tarefa tão complexa. Há muitas pessoas em campo, e metade delas não procuram defender os seus melhores interesses. Porque não um lateral-esquerdo-assistente para o auxiliar? Ou um vídeo-lateral-esquerdo que possa validar as suas decisões? É certo que tornará o jogo mais lento, mas se a tecnologia existe é uma pena não a utilizarmos, deixando assim um rapaz esforçado cruelmente entregue os seus próprios erros.

 

William Carvalho

A facilidade com que conseguiu mandar naquilo tudo sem sequer ser preciso verter uma gota de transpiração tornou o jogo aborrecido para si logo nos minutos iniciais. Como um chef de elite que renuncia aos restaurantes e passa o resto da vida a preparar bonsais de bróculos e origamis de ostras para os amigos, William passou o resto do jogo a fazer experiências. Fazer um passe em corte de carrinho? Ora essa, minuto 44. Roubar a bola a um adversário desviando-o do caminho com um sopro? Com certeza, minuto 45. Fazer uma recuperação com o calcanhar, pelo meio das pernas, depois de tropeçar? Minuto 53. Roubar a bola a Battaglia no segundo exacto antes de ele fazer um passe disparatado? Minuto 55. Hoje era daqueles dias em que podia ter jogado com uma venda nos olhos.

 

 

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Gelson Martins

Depois de uma época em que quase nunca conseguiu participar em contra-ataques por falta de companhia, hoje apanhou a companhia perfeita no outro lado do campo. Na ausência de Schelotto, o único que chegava aos sítios à mesma hora, e com quem sentia uma obrigação ética de tentar tabelar, bastou-lhe furar por ali fora sozinho e marcar um golo. E ainda teve tempo, numa comovente homenagem a outro ex-colega, hoje em Itália, para falhar outro.

 

Battaglia

Percebeu cedo que discordâncias filosóficas insanáveis o separavam dos jogadores adversários. Por conseguinte, e numa tentativa de reconciliar escolas de pensamento opostas, pregou uma cacetada nos joelhos de Marin, que é como se assinala uma diferença de opinião entre pessoas civilizadas. Obstinadamente agarrados aos seus sofismas, às suas falácias, os jogadores do Olympiacos insistiram em tentar passear com a bola ao seu lado, acções que pouco avançam a causa do conhecimento, e que obrigaram Battaglia a esclarecê-los sucessivamente sobre a verdade dos factos.

 

Acuña

Sofreu a falta na origem do golo inaugural e contabilizou mais uma assistência. De resto, esteve muito, muito bem sem bola; e entre o razoável e o fraco com bola. Deixou-se, um número quase indesculpável de vezes, antecipar por pessoas que se aproximaram sorrateiramente pelas suas costas. Pode ser uma questão de frescura física, ou falta de experiência a jogar à apanhada na infância, embora a primeira opção seja mais plausível, pois é algo que ele próprio costuma fazer aos adversários.

 

Bruno Fernandes

Estreou-se hoje a marcar golos normais. O momento tinha de chegar, mais tarde ou mais cedo, e Bruno Fernandes estava com certeza psicologicamente preparado. Habituado a enfrentar cenários adversos, não irá naturalmente baixar a cabeça, tal como não o fizeram Ibrahimovic e Messi que, quando se estrearam a marcar golos normais, marcaram golos muitíssimo mais normais do que este.

 

Doumbia

É um homem simples, mas sério, e está ali para trabalhar. Metam-no a titular e, pronto, ele marca um golo. Metessem-no numa carpintaria e pronto, ele fazia uma mesa. Depois dedicou-se a servir outros colegas para que eles próprios fizessem o seu trabalho. Foi substituído na segunda parte, foi tomar o seu banhinho, comer uma canjinha, e repousar antes de uma viagem longa.

 

Bas Dost

Em perfeita sintonia com o espírito e objectivos da equipa, tratou de rematar uma bola contra a barriga do guarda-redes e outra à barra, tal como praticamente toda a gente fez hoje.

 

Bruno César

Cumpriu, ao seu nível habitual, as instruções que recebera para entrar em campo e ser o futebolista mais razoável do mundo.

 

Ristovski

Uma boa estreia, permitindo a todas as pessoas responsáveis por escrever o seu nome no futuro uma oportunidade para memorizarem a correcta sequência de caracteres.

 

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publicado às 03:35

 

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A usual obra humorística de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise da performance dos jogadores do Sporting em Santa Maria da Feira, em jogo da 5.ª jornada da I Liga.

 

Rui Patrício

Foi há menos de uma semana que Rui Patrício sofreu o último golo no qual não teve quaisquer culpas: um golo marcado por um futebolista cujo último golo antes desse tinha ocorrido num amigável contra a selecção de Malta, um futebolista que representa um clube da 2.ª divisão norueguesa, um futebolista que provavelmente acumula as funções de futebolista com as de decorador de interiores ou notário em part-time. Tudo o que aconteceu hoje em Santa Maria da Feira - o ter estado bem, interventivo, atento, ter safado um golo feito com uma tradicional saída em mancha, e ter sofrido dois golos nos quais nada podia fazer - representa portante um considerável upgrade na semana de Rui Patrício, em termos de dignidade profissional.

 

Piccini

Começou bem, fazendo o primeiro cruzamento logo aos dois minutos, e ganhando um canto pouco depois. Lá atrás destacou-se uma boa cobertura num lance complicado perto da bandeirola de canto, do qual conseguiu sair a jogar. Num lance posterior, viria a sentar-se no chão, agarrado ao pé esquerdo que normalmente utiliza para fazer atrasos comprometedores, e com um esgar de dor no rosto - o tipo de acontecimento que costuma levar Bruno César a despir imediatamente o fato-de-treino (ainda ameaçou, mas não foi o caso). Que recupere depressa, até porque, como ficou mais uma vez demonstrado hoje, está longe de ser o principal problema nas laterais da equipa.

 

Coates

Partilhou alguma da desinspiração geral, no sentido em que alguns dos cortes que a sua eficácia costuma transformar em passes hoje limitaram-se quase sempre a ser apenas cortes (e às vezes nem isso). Mas a sua velocidade de reacção no lance do 0-1 merece todo o mérito do mundo: a urgência com que foi à segunda bola e a violência com que a rematou foram um testemunho à noção imediata do perigo que representava a possibilidade de Alan Ruiz lá chegar primeiro e tentar ele tratar do assunto.

 

Mathieu

Alguns vão tentar focar-se na destrambelhada perda de bola ao minuto 42, que quase dava golo do Feirense, mas é cada vez mais claro que o defeso do Barcelona assinou a certidão de óbito num dos períodos mais fascinantes de hegemonia no futebol moderno - e tudo começou com Mathieu, ou mais precisamente com a decisão tomada pela direcção de Bartomeu em permitir a sua saída (juntamente com a de um avançado brasileiro) por uma verba agregada de 222 milhões de euros. A moral dos adeptos ainda não foi restaurada, e o mês de Agosto foi uma epopeia de negociações falhadas e negas peremptórias por parte de jogadores compreensivelmente relutantes em integrar um plantel desprovido de Mathieu (e de um avançado brasileiro). Quem ficou a ganhar foi o Sporting (e o clube para onde foi o avançado brasileiro).

 

Jonathan Silva

Muita agressividade e pouca lucidez a defender, muita agressividade e pouca lucidez a atacar, muita agressividade e pouca lucidez na maneira como eu começo a olhar para ele. Fica-se com a sensação que não tem um único problema que não se resolvesse com um transplante de cérebro. Os mais cépticos dirão que a ciência médica ainda não chegou a esse ponto, mas podia experimentar-se na mesma, a ver o que dá.

 

William Carvalho

Extraordinariamente desmoralizado com a transferência falhada para um clube que joga a meros sete quilómetros de distância da Sala de Leitura do Museu Britânico, arrastou-se hoje desmoralizadamente pelo relvado do Marcolino de Castro (a meros sete quilómetros de distância do Zoo de Lourosa), dominando desmoralizadamente o meio-campo, recuperando desmoralizadamente várias bolas, iniciando desmoralizadamente várias jogadas com passes desmoralizados, e ocupando a cabeça nos momentos mortos do jogo a reflectir desmoralizadamente na maneira como qualquer manifold tridimensional fechado e simplesmente conexo é homeomórfico a uma esfera tridimensional num plano euclidiano.

 

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Gelson Martins

A perpétua confiança para arriscar no drible (que lhe é conferida pela certeza de que, na esmagadora maioria das vezes, consegue ir a correr recuperar a bola mesmo que o drible falhe, como aconteceu hoje em três ou quatro ocasiões) não teve correspondência prática. Foi um jogo de persistência e labor defensivo, mas poucos desequilíbrios, o tipo de jogo, em suma, que não costuma ocupar os sonhos húmidos de monarcas persas ou oligarcas eslavos, levando-os a reproduzir, mesmo enquanto dormem, os gestos associados ao preenchimento de um cheque. (O que, na verdade, era uma excelente ideia na semana passada, e voltará a ser uma excelente ideia em Janeiro). O certo é que voltou a aparecer no momento certo, com um passe bem medido para o golo de Bruno Fernandes.

 

Battaglia

Terá feito falta no meio-campo, mas conseguiu que não faltasse nada na lateral direita. A mudança de posição depois da saída de Piccini acabou por prejudicar o resto da equipa mais do que prejudicou Battaglia. Com ele exilado para a linha, perdeu-se o panopticon portátil que ali anda no meio-campo a distribuir vigilância, e o número de adversários que conseguiu disciplinar e punir foi reduzido em 30% ou 40%. O habitual superavit de energia foi útil nos últimos minutos, onde foi aplicar os seus hábitos de trinco para recuperar bolas lá na frente.

 

Acuña

As bolas que continua a perder quase sempre que arrisca o 1x1 hoje notaram-se menos, perante a desinspiração que assolou os outros talentos ofensivos da equipa. O que se notou - e não pela primeira vez - é que Acuña é um jogador útil mesmo quando está desinspirado, pela simples virtude de não deixar ninguém respirar. Ao minuto 13, pressionou o lateral-direito do Feirense durante tanto tempo que em certas culturas primitivas seriam obrigados a casar. E aqui e ali vai sempre surgindo um cruzamento perfeito (para B. Fernandes logo a abrir a 2.ª parte) ou um remate perigoso, como o que fez ao minuto 76, num grande momento para os apreciadores de ilusões de óptica.

 

 

Bruno Fernandes

No dia em que completou 23 anos, a primeira coisa a dizer é que fez exibições muito mais impressionantes nesse período longínquo em que tinha apenas 22 anos. Nada lhe correu bem na primeira parte, onde não conseguiu fazer uma única das coisas que tentou. Os seus passes pareciam repletos de boas ideias e excelente informação, como mensagens pacientemente encriptadas. Mas as únicas pessoas que os compreenderam foram os adversários, que agradeceram cada remessa. Felizmente a classe veio ao de cima no lance do 0-2, o golo que serviria para matar o jogo, caso este fosse um clube normal e não uma experiência cardíaca.

 

Bas Dost

Depois de um começo de época pouco preciso, parece estar a recuperar a forma exibida no último terço da época passada nas combinações com os colegas e no jogo de costas para a baliza: na retina fica um passe de primeira para Bruno Fernandes a rasgar o campo de um lado ao outro. De realçar a calma no momento decisivo: não só no penalty, mas também nos festejos, ao decidir não abraçar a pessoa que invadiu o campo claramente com o propósito de ser abraçada. Era abrir um precedente perigoso.

 

Alan Ruiz

Entrou aos 23 minutos e só pisou o primeiro tornozelo adversário aos 26, mostrando mais uma vez a sua habitual lentidão. Teve um grande momento no jogo, perto do intervalo, em que se viu com a bola perto da quina da área sem linhas de passe, e portanto inventou uma do nada, isolando Acuña na linha. O lance é típico, na medida em que revela a capacidade de Alan Ruiz para ver coisas que mais ninguém vê. O resto da exibição também foi típico, na medida em que revela a capacidade das pessoas que contrataram Alan Ruiz e apostam repetidamente em Alan Ruiz para ver coisas que mais ninguém vê.

 

Iuri Medeiros

Dois bons momentos de sacrifício defensivo, e um excelente momento ofensivo já nos descontos, sacando um livre perigoso com uma recepção orientada perfeita (um livre que, de resto, podia perfeitamente ter sido ele a marcar).

 

Doumbia

Enquanto entrar em campo apenas em situações nas quais o cronista está mais preocupado em não sofrer um enfarte do que em estar atento ao que os jogadores fazem, sairá sempre prejudicado neste tipo de textos.

 

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publicado às 03:49

 

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Rogério Casanova, Expresso, com a sua segunda análise humorística à performance dos jogadores do Sporting num  jogo da Liga dos Campeões, neste caso frente ao Steaua Bucareste:

 

Rui Patrício

Depois de 360 minutos descansadíssimos, o espectáculo insólito de que foi hoje espectador na primeira fila - o colapso nervoso em câmara lenta de Coates - despromoveu-o temporariamente a uma condição fictícia, com todos os ajustamentos e reorganizações que isso implica. Foi possível, por exemplo, vê-lo a fazer o tipo de coisas que só é feito por personagens de maus romances: arregalar os olhos de espanto, franzir uma sobrancelha intrigada, suspirar resignadamente, etc. O facto de ter sofrido um golo no qual não teve quaisquer culpas conseguiu por fim restaurar alguma normalidade, e torná-lo humano outra vez.

 

Piccini

Nomeado responsável pela maxipereiração de lançamentos laterais para dentro da área adversária, tem-se dedicado com brio à tarefa, colhendo hoje os primeiros frutos no lance do primeiro golo. Acumulou mais uma mão-cheia de iniciativas ofensivas "interessantes" ao seu currículo, correndo um bocadinho mais devagar do que Schelotto, e escolhendo um bocadinho melhor os sítios para onde corre. Interessante é igualmente o seu hábito de fazer um atraso mal medido por jogo. Hoje tem a desculpa de a bola parecer ter prendido num relvado demasiado seco. É possível que não tivesse acontecido caso o relvado fosse regado à mangueirada antes de o jogo começar. E é possível que não volte a acontecer caso a cabeça de Piccini seja regada com os perdigotos de Jesus depois de o jogo terminar.

 

Coates

Apesar de todos os alertas de segurança difundidos por toda a parte, houve pelo menos uma pessoa no planeta que olhou directamente para o Sol durante o eclipse de segunda-feira, e passou o jogo inteiro ainda a padecer dos efeitos. Será temporário, em princípio.

 

Mathieu

Tal como Coates, deixou-se antecipar por Alibec um número de vezes suficiente para levar algumas pessoas a acreditar que o que aconteceu se deve aos méritos de Alibec e não, como previamente explicado, ao eclipse do sol. Ao contrário de Coates, começou a assentar ainda na primeira parte, melhorou na saída de bola, e tratou o esporádico chuveirinho romeno na segunda parte com a condescendência devida.

 

Fábio Coentrão

Os cuidados com a sua condição física fizeram hipocondríacos de todos nós. Ao mínimo piscar de olhos de Coentrão, centenas de adeptos alarmados suspeitam imediatamente o pior: distrofia muscular, febre hemorrágica, hantavirose, raquitismo, rubéola, diplopia, miomas uterinos ou candidíase vaginal. E no entanto foi um jogador romeno que chocou contra ele no seguimento de um canto a precisar de assistência médica imediata, enquanto Coentrão se levantou de pronto, a piscar os olhos (glaucoma? cataratas? o eclipse?). Na verdade, se alguma coisa representa um risco imediato para a sua saúde, é o posicionamento defensivo dos colegas: a repetirem-se erros colectivos ao seu redor como os da primeira parte, é possível que o homem sofra um torcicolo, de tanto abanar a cabeça. Fez um grande jogo.

 

Battaglia

É um trinco tão à moda antiga que se julgaria quase uma espécie em vias de extinção, e com uma qualquer campanha de recolha de fundos em curso para o salvar. Aquele estilo de escangalhar as linhas de passe da outra equipa aliado a uma miopia parcial (ou mesmo total) às linhas de passe da sua própria equipa sobrevive no futebol de hoje apenas em diluições contemporâneas e doses homeopáticas. Ou então nessa singular catarata do Niagara chamada Battaglia, que, honra lhe seja feita, ainda não tinha jogado tão mal como jogou hoje. Tentou o remate de meia distância ao minuto 46, avançando até ao espaço entre linhas: a bola acabou em Entrecampos. Acabaria por fechar a contagem, com um remate muito mais preciso, efectuado a três centímetros e meio da linha de golo.

 

Gelson Martins

Na primeira parte destacou-se acima de tudo pelas intervenções defensivas quase sempre perfeitas, pois passou o tempo quase todo lá na frente a percorrer sozinho espaços desabitados, um braço erguido como se segurasse um candelabro, como um fantasma num castelo evacuado, a perguntar onde se enfiou toda a gente. (É possível que nem tenha dado conta dos vários romenos que fintou, tal a insubstancialidade dos mesmos). Depois do intervalo, decidiu matar o jogo, antes que o jogo me matasse a mim.

 

Adrien

Fez talvez a exibição mais agradável desde o início de época, portanto como é óbvio saiu lesionado depois de levar uma cotovelada nas costelas. A realidade precisa de novos argumentistas.

 

Acuña

A sua reputação de nunca desistir de um lance precedeu a sua chegada e tem-se confirmado de jogo para jogo. E hoje deu imenso jeito, este hábito de nunca desistir de um lance à primeira - até porque raramente conseguiu ganhar um lance à primeira. Mas foi frequente ganhar um lance à segunda, desarmando ou atrapalhando adversários atordoados com o sucesso de terem ganho o lance à primeira. Não deixa de ser animador que numa exibição com vários erros de decisão e que nunca passou do razoável tenha sido tão decisivo e tenha estado envolvido em tantos golos. Mas naqueles lances em que tem a bola no pé e encara de frente o defesa contrário, a verdade é que continua a ser pouco impressionante.

 

Bruno Fernandes

Na retina e na memória de todos ficou e ficará a jogada absolutamente ridícula ao minuto 77, quando arruinou um contra-ataque promissor com uma abertura patética de pé esquerdo, demasiado curta, e portanto fácil e triunfantemente interceptada pelo defesa do Steaua.

 

Tirando isso não esteve mal.

 

Doumbia

A surpresa no onze inicial, relegando Dost para o banco e estreando-se assim a titular em Bucareste, cidade que se notabilizou na história recente pela maneira como trata líderes que acumulam más decisões: não com um despedimento por justa causa, mas colocando-os perante um pelotão de fuzilamento e enfiando-lhes 120 balas no corpo. Felizmente para todos marcou um golo à primeira oportunidade, só não marcou outro porque um toque demasiado pesado impediu que se isolasse, e esteve geralmente bem.

 

Bas Dost

Destacou-se por ser suplente, destacou-se ao entrar na segunda parte, destacou-se na recuperação de bolas no flanco direito, destacou-se em enfiar mais uma batata lá dentro, destacou-se nos afectos, nos abraços, no pegar crianças ao colo. Acabou por ser uma noite normal.

 

Petrovic

Entrou antes de Bruno César, tem motivos para se sentir optimista em relação ao futuro.

 

Bruno César

De todas as pessoas chamadas César que continuam a ocupar os cargos que ocupam perante uma reacção quase consensual de incompreensão, Bruno César é talvez o que menos laços de parentesco tem com Carlos César.

 

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publicado às 05:23

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting, na terceira jornada da I Liga contra o Vitória de Guimarães:

 

Rui Patrício

A sua longa especialização em evitar que erros de jogadores do Sporting resultem em golos contra o Sporting começou a render frutos ao minuto 18, quando evitou que o erro de um jogador do Sporting (no caso, Rui Patrício) resultasse num golo contra o Sporting. Mesmo nestes jogos desprovidos de traumas ou fricções, entra sempre com todos os seus recursos físicos e psicológicos em estado de alerta, como mostrou no lance ao minuto 32, em que interceptou um cruzamento perigoso com o queixo, o nariz, o lábio inferior, o ombro esquerdo, e a mão direita, mais ou menos por esta ordem. Exemplar a mancha na segunda parte, evitando não apenas o golo, mas também um destacável ilustrado de 16 páginas sobre o erro de Piccini na edição de amanhã do Correio da Manhã.

 

Piccini

Exibiu toda a sua visão de jogo no lance do 0-1, ao encontrar o único jogador em campo (e um dos poucos na história recente do clube) capaz de marcar um golo daquela posição. A atacar, somou o tipo de iniciativas cuja designação correcta é "interessantes", no sentido em que não foram (hoje) bem sucedidas, mas foram bem pensadas, bem executadas, e sugerem um lateral-direito com um QI que não pode ser medido em apenas dois dígitos. O que é interessante, até por ser novidade. A defender, teve uma única falha no jogo inteiro. Mas o certo é que viemos de duas épocas consecutivas em que a organização ofensiva de qualquer adversário tinha sempre um Plano A - fazer lançamentos longos para as costas de João Pereira ou Schelotto - e raramente precisava de um Plano B. Agora isso não é suficiente. Piccini costuma estar no lugar certo para isso não ser suficiente. O que, pelo menos para já, é suficiente.

 

Coates

Com o cordão sanitário devidamente instalado à volta da pequena área, limitou-se a pequenas patrulhas de circunstância e a dois ou três lances incaracteristicamente cautelosos, em que decidiu não arriscar e ceder canto. Na verdade pode nem ter sido cautela, mas sim a sua formidável leitura de jogo, que o informou a tempo e horas que hoje nem de canto ia haver problemas.

 

Jérémy Mathieu

Depois de oitenta e quatro minutos a explicar com heróica paciência aos jogadores vimaranenses que não, que eles não tinham razão, que não era assim que se fazia, e que todos os seus argumentos eram inválidos, sofreu um toque no tornozelo direito e saiu para o balneário, presumivelmente para receber a assistência médica de que eu próprio senti necessidade quando percebi que ele saiu lesionado.

 

Fábio Coentrão

Primeira assistência para a sua conta pessoal, estando agora apenas a um abraço de Dost de igualar o total de Zeegelaar na época anterior. Intratável no 1x1 com Raphinha, nunca passou por apuros de maior a defender, excepto a meio da primeira parte, quando se viu numa situação de inferioridade numérica perante uma falange de adeptos do Guimarães organizados num sistema táctico 40-40-20 e munidos de papéis amarrotados, esferográficas, farrapos de plásticos e uma dezena de isqueiros intrigantemente familiares.

 

Rodrigo Battaglia

O melhor passe longo da sua curta carreira no clube deu início à jogada do 0-3 e esse inesperado sucesso pareceu ter-lhe aberto o apetite para testar novos raios de alcance: na segunda parte era vê-lo a ensaiar variações de flanco à mínima oportunidade. De resto, perdeu-se a conta ao número de iniciativas do adversário que abortou. Como um psicopata num safari, encarregou-se de assassinar tudo o que mexia. Tão ágeis e atarefadas pareciam aquelas pequenas combinações do Vitória no meio-campo! Tão iludidamente optimistas aquelas jogadas - e aquelas crias de jogadas - a saltitar pela relva no seu habitat natural! Átila, o Huno, gostava de dizer que por onde ele passasse, a relva não voltaria a crescer. Mais modesto, mais lúcido, mais profissional, Battaglia contenta-se em deixar a relva no sítio e exterminar apenas toda a vida inteligente.

 

 

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Adrien Silva

O raio de acção parece infinitesimalmente maior de jogo para jogo - hoje tanto aparecia a fazer desarmes na sua área (minuto 5) como a fazer recuperações no último terço (segundos depois). A velocidade de reacção é que não parece estar a ser recuperada ao mesmo ritmo. Continuam a surgir múltiplas ocasiões de jogo em que o corte, ou o passe, ou o toque de habilidade, chega uma fracção de segundos depois do pretendido. Não jogou mal; mas também ainda não jogou o que (ele) sabe e (a gente) precisa. E há, de resto, sempre um índice infalível para perceber se o próprio Adrien está satisfeito com a sua exibição: deixá-lo marcar um golo e examinar a sua cara nos festejos.

 

Gelson Martins

Não vá o rapaz sentir a ânsia dos "novos desafios" ou de "conhecer novas paragens", arranjou-se um expediente para evitar que mude de clube, e de país: mudá-lo de posição. É eminentemente argumentável que já podia e devia ter acontecido há mais tempo e em mais ocasiões. Obriga-o a pensar de maneira diferente, e a não transformar aquela transtornante facilidade de drible numa colecção de automatismos. Hoje foi frequente vê-lo com espaço livre à sua frente e com um espalhafato de adversários na sua esteira - uma Guernica de pitons no ar, chuteiras viradas, meias do avesso - para hesitar no momento de definição, ao ver-se confrontado com um insólito excesso de opções. Mas é insistir, que só lhe faz bem. A ele e à equipa.

 

Marcos Acuña

Começou no seu posto habitual na esquerda, onde se empenhou em correr uns metros, levantar a cabeça, procurar Dost, e sofrer falta. A meio da primeira parte foi desviado para a faixa direita, onde revelou uma impressionante capacidade de adaptação, tendo de imediato corrido uns metros, puxado para dentro, levantado a cabeça, procurado Dost, e sofrido falta. Nas bolas paradas, de livre ou de canto, continua a semear a esperança entre os colegas: braços erguem-se por toda a grande área, como numa sala de aula em que o professor faz de repente uma pergunta fácil. De bola corrida, continua a falhar demasiados passes simples e terá obrigatoriamente de mostrar muito mais do que mostrou hoje.

 

Bruno Fernandes

A pré-época foi suficiente para perceber que rende muito mais numa posição mais recuada do que nest... olha, golo! Que grande remate. Mas como ia dizendo, a sua visão de jogo, a capacidade de ver todas as linhas de passe numa única matriz, tudo isto são características muito mais úteis numa posiç... outro remate! Passou a milímetros. Mas como estava a explicar, esta é a posição errad... golo! Bom, são óptimas notícias, mas nada disto refuta a ideia central deste parágrafo, que é a de a sua posição ideal no terreno ser mais rec... grande jogada. Uma pena ter ido à barra. Mas lá está, se estivesse mais recuado, se calhar tinha entrado. Tal como eu sempre defendi, e com toda a razão.

 

Bas Dost

Completamente fora de forma, tendo marcado apenas 40% dos golos que a equipa marcou hoje, quando na época anterior chegou aos 50%.

 

Iuri Medeiros

Fez tudo - rigorosamente tudo - bem nos minutos em que esteve em campo - excepto quando tentou rematar à baliza, prometendo assim, e desta forma um bocado literal, uma época em que pode atenuar algumas das saudades que os adeptos ainda sentem de João Mário.

 

Jonathan Silva

Jogou os últimos 14 minutos, permitindo que Coentrão fosse levado para o seu santuário de elixires, unguentos e pomadas. Teve tempo para conduzir (com bastante competência) parte da jogada do quinto golo, para falhar uma recepção de bola, e para agredir o oxigénio ao tentar fazer um corte de cabeça, acção ainda assim preferível a agredir uma cabeça ao tentar fazer um corte de oxigénio.

 

Bruno César

Jogou os últimos sete minutos a central, no lugar de Math... Foi André Pinto, aliás. André Pinto! Peço imensa desculpa, é o hábito.

 

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publicado às 04:22

 

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A segunda edição da época oficial de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo da 2.ª jornada da I Liga com o Vitória de Setúbal. Começa por nos deixar esta apreciação generalizada sobre uma das características desta equipa do Sporting: "Cruzamentos sempre razoáveis e sempre inofensivos - uma especialidade que deve ser treinada arduamente em Alcochete".

 

O leitor deve notar que apesar do semblante humorístico da sua coluna, Rogério Casanova deixa-nos um certo número de verdades para ponderar. Também inconfudível é o facto de Cristiano Piccini ser o seu alvo favorito.

 

Rui Patrício

Um daqueles jogos - a que está condenado 4 ou 5 vezes por época - em que podia perfeitamente ter entrado em campo com um casaquinho e um tablet. Agora já nem sequer se pode entreter com atrasos desesperados de Zeegelaar feitos invariavelmente para o seu pior pé. Certamente por tédio, ainda ensaiou uma saída algo maluca dos postes ao minuto 38, que acabou por compensar com uma mancha aérea em forma de suástica, e respectivo corte para canto com a panturrilha esquerda.

 

Piccini

Mas, afinal, o que é que vocês querem? Incursão confiante com a bola no pé ao minuto 5, derivando para o meio e libertando Gelson na ala no momento exacto. Outra boa jogada no minuto seguinte, ganhando lançamento. Idem idem aspas aspas aos 14, a conseguir ganhar canto quanto estava em inferioridade numérica. Aos 17, com a bola imobilizada, encarou de frente o adversário directo, sentou-o e cruzou. É certo que a coisa não melhorou a partir daí. É certo que provavelmente piorou. E algures a meio da primeira parte, transformou-se numa espécie de periscópio com pernas, emergindo de tempos a tempos para procurar Gelson e entregar-lhe a bola o mais depressa possível, e à menor distância possível. Mas um lateral de equipa grande, nos jogos em casa, tem qualquer coisa como uma ordem de prioridades: ou desequilibra com bola; ou ajuda a desequilibrar sem bola; ou pelo menos tenta não atrapalhar.

 

O homem não sabe cruzar, é um facto. Mas já há demasiada gente a cruzar neste clube, e mal. Não é necessariamente um drama termos um lateral que não saiba cruzar. O drama é ele perder o medo de cruzar mal. Aquele medo de cruzar que mostrou na pré-época? É isso! Isso é que tem de ser recuperado. Medo, muito medo, que é para continuar fazer só as poucas coisas que sabe fazer bem. O resto há-de vir com calma, nem que seja de outro cidadão, aparentemente macedónio.

 

Coates

Encarregou-se tranquilamente de algumas funções distributivas, mas perante uma das equipas mais inofensivas que passou por Alvalade nos últimos anos, o seu principal papel foi geoestratégico: encarnar numa forma visível, e de carne e osso, as reservas estratégicas de testosterona do clube, não fosse alguém ter ideias de fazer alguma jogada de ataque perto de si. Ninguém teve, por acaso.

 

Mathieu

Membro mais proeminente da vaga de neo-turismo a assolar Lisboa, passeou-se tranquilamente pelo jogo com a placidez de quem passou três anos seguidos a aturar Messi e Iniesta a fazer-lhe fintas nos treinos e veio agora tirar fotografias pitorescas com pelourinhos e sardinhas, Edinhos e Costinhas. Sempre atento a dobrar Jonathan e a varrer sobras, impávido com a bola no pé, fazendo passes milimétricos mesmo pressionado, e mostrando na última meia-hora a energia e lucidez que já faltavam a alguns colegas para fazer coisas inteligentes e passíveis de criar perigo na baliza certa. Foi provavelmente o melhor em campo.

 

Jonathan Silva 

Foi o primeiro a iniciar uma jogada depois da saída de bola do apito inicial (mandou um criativo chutão lá para a molhada). Foi também o primeiro jogador do Sporting a ser ultrapassado em velocidade por um jogador do Setúbal (minuto 58, aflição entretanto resolvida por Matthieu).

 

Jonathan é raçudo. Não é lento. Não é tosco. Mas quem achar que hoje, por exemplo, fez um jogo melhor do que Piccini, ou que é, nesta altura, um lateral claramente superior a Piccini, deve rever o jogo inteiro outra vez: não para observar erros clamorosos, que não os teve, mas para observar a gritante falta de jeito que tem a escolher os espaços certos para ocupar quando a equipa ataca, quer tenha ou não a bola no pé.

 

Battaglia 

Vê-lo jogar no lugar de William é um pouco como ver as montagens de treino paralelas num dos filmes da saga Rocky: um gajo a esmurrar lombos de porco num matadouro em Filadélfia e a engolir gemadas de penálti, enquanto outro anda a fazer jogging em cima de casacos de peles, com um daiquiri na mão.

 

A maioria dos adeptos de futebol tem, creio, um afecto instintivo pela prática dos cortes em carrinho, desde que sinta que não são um acto de desespero, mas sim uma maneira de ser. Battaglia tem portanto, e logo à partida, características ideais para cair no goto das pessoas de bem. Voltou a fazer um belo jogo, mas vê-lo a pegar na bola à frente dos centrais para iniciar circulações lentas, como fez na primeira parte, mais do que um erro de casting, parece um desperdício de recursos. Alargou o raio de acção depois do intervalo e começou a causar chatices sempre que cavalgava pela faixa esquerda ou aparecia em corrida perto da área. É cada vez mais improvável que não tenha sido uma óptima contratação.

 

Adrien Silva

Mais uns treinos em cima, mais uns minutos de correria desenfreada, e começam a vir à tona, lentamente, as coisas em que é exímio: não a "pensar" nem a "organizar", mas a reagir mais depressa do que todos os outros aos momentos em que a organização claudica e é preciso responder a emergências locais - o calcanhar instintivo na área a desviar um cruzamento atrasado de Gelson para a zona exacta onde estavam os dois colegas em condições de fazer alguma coisa útil; ou o outro calcanhar à saída da área do Vitória, impedindo o que podia ter sido um contra-ataque perigoso.

 

Definiu mal um ou outro lance de ataque, mas lá foi a correr resolver o problema. E quase marcou um golinho logo a abrir a segunda parte, mas o remate bateu no ferro. Devem faltar mais dois ou três jogos inteiros para voltar a algo parecido com a sua melhor forma, seja aqui, seja no Reino Unido.

 

Gelson Martins

Tentou um golo à Mancini aos 8 minutos, respondendo a um cruzamento de Acuña rematando em voo com o quinto metatarso. Foi por cima, e não voltou a aparecer em zonas de finalização para repetir as gracinhas do fim-de-semana passado. Passou grande parte do jogo longe da área e em inferioridade numérica - sozinho contra dois, contra três, ou por vezes contra quatro, se contabilizarmos entre os seus adversários um ou outro colega que aparecia na sua zona apenas como mais um obstáculo a ultrapassar. No passado, jogar sozinho contra o mundo nem sempre foi impeditivo de grandes exibições. Não foi o caso hoje.

 

Acuña

Hão-de sair imensas alegrias daquele pé esquerdo; hoje, num jogo algo apagado, o que se viram, quando muito, foram presságios. Mas insistiu demasiado no cruzamento (e a qualidade dos mesmos foi-se deteriorando com o correr do jogo); e procurou muito menos as zonas interiores do que tinha feito na 1ª jornada, e até na estreia contra o Mónaco. Deve haver qualquer coisa tremendamente apelativa nas faixas laterais deste estádio, tal é a devoção que inspira nas pessoas.

 

Podence

Couberam-lhe os dois primeiros desequilíbrios do jogo, ultrapassando duas vezes Pedro Pinto no espaço de sessenta segundos. Os cruzamentos (quase sempre a procurar Dost ao segundo poste) saíram-lhe sempre razoáveis e sempre inofensivos - uma especialidade que deve ser treinada arduamente em Alcochete. Remexeu, deambulou, acelerou, agitou - mas o último passe teimava em sair mal. Ainda não é um jogador acabado, mas a acumulação de exemplos sugere que não é exactamente feito para criar ocasiões de golo, mas sim para criar o caos onde outros as possam criar. Um jogador de repentes beneficiará mais de lucidez à sua volta (Bruno Fernandes, por exemplo) do que de jogadores igualmente instintivos ou repentistas (como Adrien e Gelson). Além de que, no somatório actual das suas qualidades e defeitos, começa cada vez mais a parecer formatado para médio-ala e não para avançado.

 

Bas Dost

Teve um gravíssimo momento de inépcia ao minuto 43, daqueles que merecia ser imortalizado em .gif: sozinho na área, isolado perante uns escassos cinco jogadores do Setúbal, não conseguiu levar a melhor e acabou por perder a bola. Como é possível? Talvez pior ainda foi a figura patética que fez em dois lances semelhantes, um em cada parte, quando não teve arte para ultrapassar sozinho os duzentos e noventa e cinco defesas vitorianos que guardavam o desfiladeiro das Termópilas, e preferiu servir colegas com toques de calcanhar. Acabou por marcou o golo da vitória a três minutos dos 90, arrancando o seguinte comentário a um senhor na mesa ao lado do café: "este é como o Jardel, também só marca de penálti". O senhor era adepto do Sporting e estava a falar a sério.

 

Bruno César

Um sistema de freios e contrapesos autodireccionado, cujo único propósito é corrigir as suas próprias debilidades.

 

Doumbia

Bem vindo ao Sporting, o clube onde a bola só entra depois de aprenderes quatro palavrões novos.

 

Bruno Fernandes

Não foi titular, e foi o último suplente a entrar: são estes os factos relevantes; tudo o resto - o que fez enquanto esteve em campo, foi a coisa menos surpreendente do mundo.

 

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publicado às 04:31

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, está de volta para o primeiro jogo oficial da época com a sua usual e muito popular análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, no seu triunfo diante o Desportivo das Aves:

 

Rui Patrício

O primeiro toque na bola surgiu aos 10 minutos. A primeira defesa acrobática a safar erro de um colega aos 24. O primeiro golo sofrido sem quaisquer culpas terá de ficar para a próxima oportunidade. 

 

Piccini

Passou os primeiros 15/20 minutos do jogo muito resguardado: pela única faixa de sombra do relvado; pelo facto de ocupar o lado mais distante das câmaras; pelo software japonês de qualidade dúbia utilizado ainda em alguns lares portugueses; pelo flagelo dos anúncios pop-up; pela diminuta constelação de pixels que filtrava a sua presença através de um par de óculos de mergulho besuntados com margarina. Quando conseguiu emergir deste nevoeiro tecnológico, os resultados foram desiguais: cada recuperação crucial ou contenção inteligente era equilibrada com uma cueca sofrida ou uma perda de bola comprometedora. Melhorou na segunda parte (como Matthieu, aliás), soube dar algum apoio rudimentar ao ataque e ainda ia marcando o 0-3, depois de uma finta de corpo dentro da área contrária, num movimento físico que, se algum dia fosse observado no corpo de Schelotto, levaria as pessoas a chamar imediatamente um exorcista.

 

Coates

Com bola: ensaiou duas incursões ofensivas pela faixa direita, uma em cada parte, a segunda das quais só travada em falta já perto da área contrária, depois de deixar dois adversários para trás. Sem bola: emboscou a linha avançada do Aves com um lenço embebido em clorofórmio, enfiou-os todos na bagageira do carro, e levou-os até Monsanto.

 

Mathieu

Marcou dois golos de livre directo na carreira, um pelo Toulouse, em 2007, e outro pelo Barcelona, em 2015. É portanto, pelos padrões de Adrien Silva, um especialista. Hoje tentou mais um, ao minuto 9, mostrando estar já plenamente adaptado ao espírito do clube que um dia, há não muito tempo, encorajou Anderson Polga a tratar das bolas paradas. A defender, optou quase sempre pela solução mais segura. Ao minuto 29, por exemplo, apanhou Agra de frente, já na área, numa jogada em que Semedo tentaria desarmá-lo com um toque de calcanhar, seguido de túnel, seguido de pirueta à Zidane ainda dentro da área, e posterior saída em galope na direcção do meio-campo - com elevadas probabilidades de acontecer golo, fosse numa baliza ou na outra. Matthieu cedeu canto, sacudiu as mãos, e foi trabalhar.

 

Fábio Coentrão

Enternecedora a rapidez com que os colegas perceberam que lhe podem passar a bola de qualquer maneira, em qualquer zona do campo, sejam quais forem as circunstâncias. Coentrão não se vai atrapalhar, não vai perder a bola, não vai precisar de fazer falta, não vai obrigar ninguém a acender um cigarro, por muita vontade que ele próprio sinta de o fazer. A pujança física também vai melhorando, e o número de sprints por jogo tem subido, desde a pré-época, em progressão aritmética. (Pelos meus cálculos, lá para a décima jornada, vai fazer oitocentos por jogo.)

 

Hoje esteve bem em tudo, menos a cruzar. Ou seja: é finalmente o lateral certo no clube certo.

 

William Carvalho

Para explicar o intervalo criativo entre uma indicação cénica e o trabalho do encenador, Tom Stoppard gostava de falar, em entrevistas, numa encenação de A Tempestade feita em Oxford, nos anos 70. O palco era o extenso relvado da Universidade, com um lago ao fundo. Depois da sua última deixa, Ariel virava-se e corria através do relvado, até chegar à beira do lago — e depois continuava a correr, pois a produção instalara uma espécie de passadeira sólida, um centímetro abaixo da superfície da água. O público via Ariel a correr devagarinho pelo lago fora, e a ouvir o som líquido das suas passadas, até desaparecer de vista, e uma explosão de fogo-de-artifício assinalar o seu desaparecimento num chuveiro de faíscas contra o pôr-do-sol. No texto de Shakespeare, a única indicação que se lê é "Ariel sai de cena".

 

No jogo de hoje, de acordo com as instruções tácticas que recebeu, William Carvalho jogou no meio-campo.

 

Gelson Martins

Estreou-se esta época na arte do cruzamento com um banano para trás da baliza. Alguns minutos mais tarde, ultrapassou Nélson Lenho num par de patins invisíveis e voltou a cruzar mal, embora desta vez rasteiro e atrasado. À terceira ocasião de perigo, deixou-se de subterfúgios e aceitou o fardo de fazer (quase) tudo sozinho. Viria a marcar também o golo do descanso, antes que houvesse chatices. Tal como no início da época passada, voltou a mostrar a capacidade de ser decisivo, mesmo nos dias em que não é consistentemente desequilibrante.

 

Adrien Silva

Teve um livre directo ao seu jeito ao minuto 38, daqueles em que não costuma perdoar e acerta normalmente com a bola em cheio na barreira. Desta vez o remate não lhe saiu bem e a bola acabou por sair na direcção do guarda-redes, algo que acontece aos melhores, aos piores, e aos assim-assim. Como a época passada demonstrou, é talvez o jogador do plantel que mais precisa de estar no pico da condição física para ser o jogador que é; e para lá chegar tem de ir jogando, mesmo que jogue como hoje, mesmo que... enfim, sabem aquela piada de John Lennon sobre a hipótese de Ringo Starr ser o melhor baterista do mundo? Adrien, nesta altura, nem sequer é o melhor baterista dos Beatles. Precisa de tempo e da paciência dos adeptos, dois bens escassos até 31 de Agosto.

 

Marcos Acuña

Sofreu a primeira falta do campeonato aos 30 segundos. Será a primeira de muitas. Recuperou a bola aos 7 minutos (depois de falhar um cruzamento). Será a primeira de muitas. Molhou o pincel pela primeira vez ao minuto 21, recebendo a bola na, chamemos-lhe, "zona Alan Ruiz" (quina da área, do lado direito), e conseguindo virar-se, ajeitar a bola e rematar, tudo em menos de meia-hora. É ele quem lança Gelson para o golo inaugural. E nunca foi menos do que inteligente a posicionar-se no momento defensivo (já no jogo de apresentação se tinha percebido que tem jeitinho para cortar linhas de passe e impedir variações de flanco). Pelas primeiras impressões, sugere que aconteceu ao Sporting uma coisa sem precedentes: gastou-se um camião de euros num canhoto sul-americano - e ficou-se com um bom jogador.

 

Bruno Fernandes

Depois de uma pré-época promissora e entusiasmante, em que ocupou com qualidade um dos dois lugares do meio-campo, era historicamente necessário pô-lo hoje a jogar numa posição nova, fenómeno que no fundo é um produto das condições materiais do nosso tempo. A sua velocidade de pensamento e de execução ainda se notaram, a espaços: no repentismo com que rematou cruzado para grande defesa de Adriano, ou na composição artística de calcanhares com naturezas mortas com que prefaciou a jogada do 0-1. Foi ideologicamente saneado ao fim de uma hora.

 

Bas Dost

O que foi verdadeiramente impressionante na sua época de estreia em Portugal não foram os números que acumulou, mas ver esses números aliados a uma presença tão espectral que por vezes quase pareceu uma ausência. Em vez de assistirmos a duelos entre defesas-centrais e Bas Dost, assistimos a duelos entre defesas-centrais e um vazio nos arredores da bola que, por acaso, ia sendo empurrada para dentro da baliza. Trinta e cinco vezes seguidas. Outros pontas-de-lança fazem remates estrondosos à barra, gritam palavrões nas repetições em câmara lenta, têm cortes de cabelo interessantes. Bas Dost marca golos e cumprimenta os amigos. Hoje, à falta de oportunidades claras (tirando uma ocasião já perto do fim), dedicou-se a servir quase toda a gente à sua volta, na procura desesperada de uma assistência e, possivelmente, de um abraço.

 

Podence

Após alguns ensaios inconclusivos ou interrompidos, lá conduziu um contra-ataque perfeito, largando a bola no momento certo e com um passe bem medido, algo que (suspeita-se) fará mais vezes em proporção directa aos minutos que jogar.

 

Battaglia

Veio fornecer ao meio-campo a capacidade que começava a faltar: mexer-se depressa de um lado para o outro. E mostrou o truque que começa a dominar como poucos: intercepção, progressão rápida com a bola, desaceleração súbita, e novo arranque em velocidade, obrigando o adversário a cometer falta. É um truque limitado, mas útil, e o certo é que até agora nunca falhou. Continua a parecer o melhor suplente possível que a equipa podia ter tido nas duas épocas anteriores.

 

Jonathan Silva

Nota-se que está um jogador mais maduro e contido: não cometeu qualquer falta nem viu um único cartão amarelo nos 17 segundos que esteve em campo.

 

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publicado às 04:44

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 30.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, comenta as performances individuais dos jogadores do Sporting no jogo com a Fiorentina, na disputa do Troféu Cinco Violinos, com o seu usual humor:

 

Rui Patrício

 

Na maior ocasião de perigo criada pela Fiorentina, saiu bem a fazer a mancha aos pés do filho de Hagi, vendo depois sair por cima da barra um remate feito pelo filho de Chiesa, num jogo tão descansadinho que o seu lugar até podia ter sido ocupado pelo filho do pai do Azbe Jug.

 

Piccini

 

A sua primeira intervenção depois do intervalo foi uma homenagem tão sentida ao antecessor que quase parecia copy-paste: falhou a receção de uma bola alta, perdeu-a para o adversário, conseguiu recuperar na raça, iniciou um galope de vários metros que desequilibrou toda a gente e no momento decisivo falhou a abertura para Gelson, antes de desatar a correr para vir recuperar a posição. Schelotto fez umas oitenta jogadas semelhantes; Piccini, arrisco, fará umas vinte. A principal diferença entre ambos não é sequer o lance em que circum-navegou a Fiorentina inteira antes de servir Podence na pequena área; Schelotto também fez umas quantas avarias parecidas. A diferença é um incremento moderado, mas real de solidez defensiva e de capacidade global, mas, acima de tudo, uma noção bastante mais saudável das suas qualidades e defeitos. Piccini, tal como Schelotto e Zeegelaar, não é, nem nunca, será um grande lateral. Mas ao contrário deles, sabe o que é e o que não é, e sabe proteger-se. O que acaba por me proteger a mim também, especialmente ao nível psiquiátrico.

 

Tobias Figueiredo

 

Um defesa-central dos anos 80 com uma fidelidade intempestiva a exigências de cariz quase arqueológico, trasladado para esta cruel modernidade que já não aprecia nem tolera os tempos que a linha de fora-de-jogo podia ser medida por bigodes e patilhas, em que a lama era mais confortável do que a relva, em que uma bola podia e devia ser chutada com a maior força possível, de preferência para fora do estádio, e onde mariquices como a construção de jogo eram melhor deixadas a colegas com técnica mais apurada, como William, ou Patrício, ou o massagista. Teve o seu melhor e mais característico lance ao minuto 83, quando conseguiu dar uma joelhada no pâncreas de um adversário sem nunca tirar os olhos da bola, uma proeza de coordenação motora que deixaria qualquer defesa do Millwall orgulhoso.

 

William

 

Formou uma excelente dupla de centrais consigo próprio, passando o jogo inteiro a explicar calmamente aos avançados da Fiorentina que "estes não são os dróides que vocês procuram", e a fazer a sua própria fotossíntese, nutrindo-se directamente da luz do sol sem precisar de comida, ou de colegas.

 

Fábio Coentrão

 

I dress a wound in the side, deep, deep,

But a day or two more, for see the frame all wasted and sinking,

And the yellow-blue countenance see.

I dress the perforated shoulder, the foot with the bullet-wound,

Cleanse the one with a gnawing and putrid gangrene, so sickening, so offensive,

While the attendant stands behind aside me holding the tray and pail.

I am faithful, I do not give out,

The fractur’d thigh, the knee, the wound in the abdomen,

These and more I dress with impassive hand, (yet deep in my breast a fire, a burning flame.)

- Walt Whitman, "The Wound Dresser"

 

Battaglia

 

O estilo de jogo de alguns trincos com as suas características físicas e limitações técnicas costuma ser justamente comparado ao de um cachorrinho a perseguir automóveis. Battaglia hoje pareceu um automóvel a perseguir cachorrinhos. Escangalhou uma dúzia de jogadas da Fiorentina na primeira parte, com uma impressionante colecção de desarmes, jogadas de antecipação, impondo o físico, enchendo o seu terço do campo, e saindo várias vezes a rinaudar, com transportes verticais que mudavam rapidamente o centro de operações. Não tem recursos para variações rápidas de flanco ou para verticalizar o jogo com passes longos; mas tem inteligência para substituir essas opções por outras igualmente eficazes. E, não sendo um fora-de-série, representa talvez o tipo de jogador que mais falta fez no plantel nos últimos doze meses.

 

Gelson Martins

 

Na vastidão do cosmos, o conceito de "agora" é mais ou menos irrelevante. Devido à ligação inextricável entre tempo distância e velocidade de sinal, é impossível saber o que se está a passar "agora", por exemplo em Alpha Centauri. Sabemos apenas o que se passou há 4 anos e meio, o tempo que a luz demora a fazer a viagem. Acontecia algo parecido com os contra-ataques do Sporting conduzidos por Gelson na época anterior, e que o resto da equipa acompanhava invariavelmente a vários anos-luz de distância, muitas vezes descobrindo o que se tinha passado apenas ao ver as repetições em casa. Esta época, o facto de ter um colega com igual capacidade supersónica abre-lhe novas opções. Apesar de tudo, esteve hoje bem pior no cruzamento e no último passe do que tinha estado contra o Mónaco, E ainda bem, que as bancadas estão repletas de gente estrangeira com montes de dinheiro e más intenções.

 

Bruno Fernandes

 

Um par de bolas perdidas e uma exibição globalmente menos impressionante do que já fez nesta pré-época, mas continua incapaz de provocar o mais leve vestígio de dúvidas a alguém: qualidade de recepção e de passe, rapidez de raciocínio e de execução, e a capacidade para já saber quase sempre o que vai fazer à bola um segundo e meio antes de esta lhe chegar aos pés.

 

Acuña

 

Já deu para perceber que o seu estilo no 1x1 é semelhante ao de Coentrão: dar um toque na bola três metros para a frente e apostar em chegar lá antes dos outros. Quanto melhor for a pujança física, mais vezes vai resultar. Para já, o que salta à vista é a sua invulgar qualidade sem bola: a ajudar o lateral, a cortar linhas de passe, a saber quando ir fazer superioridade numérica no meio. Percebe muito de futebol, o que é logo meia batalha ganha. Se revelar em devido tempo a mesma qualidade a desequilibrar que já mostra a equilibrar, será um enorme reforço.

 

Podence

 

Aos 12 minutos, rompeu sozinho pelo meio e só foi travado em falta por Vitor Hugo, homónimo de um escritor francês também ele com um historial de anões problemáticos. A jogada mais candidata a aparecer no resumo televisivo será a do minuto 27, quando girou sobre Astori e rematou em arco para uma grande defesa. Tão ou mais impressionante foi o que fez 5 minutos antes, quando mostrou aquilo que faz melhor do que ninguém no Sporting actual: recuou, recebeu a bola de costas para o ataque, rodopiou para tirar o marcador directo da jogada, e descobriu uma diagonal de Dost sem sequer olhar, isolando-o na área. É o melhor jogador do clube a fazer este movimento específico desde João Vieira Pinto. Agora falta fazê-lo 30 vezes por ano, se faz favor.

 

Bas Dost

 

Testemunhou na primeira fila mais um caso gravíssimo de assassinato tecnológico do futebol. Um momento penoso para a saúde do desporto-Rei, onde foi tão indisfarçável o desconforto dos adeptos, cruelmente obrigados a festejar o mesmo golo duas vezes, como a preocupação de Dost perante este novo desafio à sua capacidade para distribuir afectos com justiça e celeridade pelas pessoas que o assistem.

 

Jonathan

 

Sofreu mais faltas duras do que as que fez, talvez uma estreia na sua carreira. Perto do fim, conseguiu não ser expulso por agressão depois de um adversário lhe puxar os cabelos, numa das situações menos argentinas em toda a história do futebol.

 

Bruno César

 

Muito bem a sofrer faltas na faixa direita. É nesta altura um dos mais competentes jogadores do plantel a sofrer faltas, tanto na faixa direita, como na esquerda, como no meio.

 

Adrien

 

Logo que entrou teve uma oportunidade de ouro para mostrar a sua recém-adquirida especialidade: a cobrança inofensiva de bolas paradas. Não desiludiu.

 

Alan Ruiz

 

Às dezanove horas e cinquenta e sete minutos do dia vinte e nove de julho do ano dois mil e dezassete da era cristã, Alan Nahuel Ruiz, mais conhecido como El Mago, foi fintado por um guarda-redes.

 

Doumbia

 

Compreende-se-lhe algum desalento com esta insistência em obrigá-lo a fazer jogadas de combinação com Alan Ruiz, especialmente quando a ocasião mais promissora em que se viu envolvido resultou não de uma combinação com o colega, mas de uma combinação com um adversário: o defesa da Fiorentina que o deixou roubar a bola.

 

Matias Fernández

 

Foi muito agradável voltar a vê-lo.

 

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publicado às 06:09

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 24.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com o seu bem conhecido humor, analisa as performances dos jogadores do Sporting no jogo de apresentação da equipa frente ao campeão francês Mónaco, com destaque para Matheus Oliveira:

 

"Há algo de bidimensional na sua presença - em campo, no estágio, no plantel - como se não fosse resultado de carne, osso e cartilagem, mas de um efeito tromp l'oeil. Uma coisa no entanto ninguém pode negar: Mattheus Oliveira é extremamente parecido com as imagens de Cristo que costumam aparecer nas revistas Sentinela e Despertai! a ilustrar artigos como "O Que Vai Deixar de Existir Quando o Reino de Deus Chegar?", "A Minha Luta Como Soldado de Cristo", e "Compre Este Médio Talentoso Mas Desnecessário Por Apenas 1 Milhão de Euros Mais Portes de Envio".

 

Rui Patrício

Lidou horrivelmente com um atraso numa das suas primeiras intervenções, num lance que ia dando golo, mas foi só para testar os nervos dos adeptos que, como se sabe, nesta altura do ano, ainda andam à procura da melhor forma. Acabou por se redimir com uma defesa do outro mundo a um cabeceamento de alguém chamado Carrillo, mostrando uma comovente preocupação em evitar que alguém chamado Carrillo marcasse um golo em Alvalade, preocupação de resto não partilhada por todos os colegas.

 

Piccini

Teve direito a praxe mais violenta da pré-temporada. Depois de Valbuena, hoje apanhou com Mbappé, que descaiu várias vezes para o seu corredor, mostrando que não deve haver relatório de olheiros feito sobre o Sporting de há dois anos para cá que não aponte, em letras maiúsculas, a fragilidade da equipa a defender lançamentos em profundidade para a faixa direita. Piccini voltou a mostrar que é melhor a fechar por dentro do que a solucionar esse problema de longa data; que é menos rápido do que Schelotto, mas que usa a velocidade com muito mais inteligência; que sabe usar o físico e tem bom tempo de corte; que sobe pouco, cruza menos, e sempre visivelmente contrariado; que é um upgrade, mas não o desejado; que não é um grande lateral-direito (o que daria jeito ao Sporting), nem um desastre (o que daria jeito aos adversários, e possivelmente a esta plataforma digital).

 

Coates

Um "defesa de corpo inteiro" era algo que eu julgava ser um cliché, até ter visto o seu jogo de hoje. Ultrapassado por Mbappé aos 6', foi ao chão, mas virou-se com agilidade suficiente para interceptar a bola (com a nádega). Substituiu Patrício na linha de golo e fez uma grande defesa aos oito minutos (com o abdómen). Aos 16' foi cabecear a centímetros do poste (com a testa). Cortou uma bola de perigo já na pequena área ainda antes do intervalo (com a barriga da perna). Aos 68', grande intervenção no 1x1 com um avançado do Mónaco que vinha embalado direito a si, desarmando-o (com o pé, para variar). É um descanso tê-lo por cá (no campo e no coração).

 

Mathieu

Jogo certinho e sem as aflições que marcaram os jogos na Suíça. Com a bola no pé, enfim... andou três anos a trocar a bola com o Iniesta sem destoar, vamos dar-lhe tempo.

 

Fábio Coentrão

É um grande jogador ainda a recuperar a melhor forma, portanto vão sendo as pequenas coisas: o transformar de um alívio numa desmarcação, o proteger a bola com o corpo sem qualquer vestígio de nervosismo, a lucidez a encontrar a melhor opção, a capacidade para receber bolas bombeadas a meia-altura e junto a linha, deixando-as jogáveis ao primeiro toque, as acelerações súbitas (e, por enquanto, de poucos metros) para se livrar da pressão dos extremos contrários, e acima de tudo a forma corajosa como conseguiu até agora disfarçar os vários sintomas que apresenta - de hipotermia, escorbuto, cólera, febre do Nilo, etc, - e fingir que não é uma pessoa lesionadíssima.

 

Battaglia

Vê-lo jogar é uma experiência estranhamente fatigante, em que uma bola perdida no meio-campo é apenas o primeiro capítulo de uma espécie de epopeia. Carrinhos, desarmes, faltas, arranques, carros a capotar, alguém a fazer rapel pela Torre Eiffel abaixo, outra pessoa a escapar por um triz a uma avalanche, um edifício a explodir, uma bomba em contagem decrescente, etc. É como assistir ao trailer de um filme de acção, onde cortaram todas as partes chatas é tudo condensado a dois minutos de efeitos especiais impressionantes e diálogo não muito bem escrito. Nunca vai (nem ele nem ninguém, em boa verdade) dar à equipa o que William dá em posse. Mas tem uma disponibilidade física fora do vulgar, e o tipo de agressividade que obriga constantemente o adversário a mudar de ideias. Pode ser que vá mudando as nossas também.

 

Gelson Martins

Scouting report by H. P. Lovecraft:

Vastly overrated attacking midfielder, whose eldritch proclivities when in possession of the hallowed sphere should make any sensitive scouting soul this side of Massachussets shudder in unnamable horror. Occasional ghoulish glimpses of a freakish abominable talent can be seen as they bubble up putrescently under the gibbous stadium floodlights, but his vile, batrachian movements offer no beauty and no freedom to the discerning eye of someone not bewitched by the horrid reputation of Alcochete's infested swamps.

 

Beware, o Greats of Manchester and Spain, perusing the dark horizons for the next shining star: all you will ever find here is gibbering hideousness and squamous perversity twitching and slithering in the endless night!

 

#Gelson #scouting #flops

 

Bruno Fernandes

Ao minuto 10, com todas as linhas de passe cortadas, teve calma e confiança suficientes para resguardar a posse de bola em zonas tradicionalmente proibidas até sofrer falta. Dois minutos depois, Battaglia efectuou um remate à queima contra os seus tornozelos, a meio metro de distância; Bruno Fernandes conseguiu, não me perguntem como, transformar o lance numa tabelinha. Marcou o golo do 1-0, aparecendo de repente em zona de finalização. Perto do intervalo, é ele quem vai ganhar o espaço a Sidibé na faixa esquerda, depois de este ter ultrapassado Acuña e Coentrão. Ao minuto 50, fez exactamente o mesmo na faixa direita, dobrando Gelson e Piccini. E foi ele, inclusive, quem veio escrever metade deste parágrafo, porque eu estou muito cansado.

 

Marcos Acuña

Deve ter decorado com afinco meia dúzia de instruções tácticas específicas, pois procurou insistentemente desmarcações interiores nos primeiros minutos, e mostrou sempre um cuidado patológico em ajudar o lateral do seu lado - mostrando ainda algum desacerto posicional, que compensou com tenacidade e uma surpreendente capacidade de desarme. Quanto à qualidade (já conhecida e anunciada) a bater livres e cantos, deu exemplos suficientes para comover um público que não via um novo reforço tão competente nas bolas paradas desde Didier Lang - comparação pela qual peço desde já imensa desculpa a todos os envolvidos.

 

Podence

Se Podence fosse um animal não seria propriamente daqueles que inspiram medo, como os predadores de grande porte, mas sim um daqueles que provocam irritação, como a melga. Estamos descansadinhos no sofá, ouvimos o zumbido de uma coisa diminuta a passar e quando damos por isso temos uma probóscide enfiada na pele, e um insecto a gargarejar o nosso sangue. Embora, enfim, neste caso não literalmente.

 

Melhor momento do jogo: o livre directo que ganhou ao minuto 56 depois de fazer um túnel a si próprio.

 

Bas Dost

Quem é que remata de cabeça ao ângulo, com aquela força, e àquela distância, quando a bola vem a fazer a curva ao contrário e não particularmente tensa? Mas quem é que este gajo julga que é?

 

Jonathan

Exibe, na minha maneira de ver as coisas, duas sobrancelhas excessivamente depiladas para o seu estilo de jogo.

 

William

O Sol brilhou, as nuvens escangalharam-se em hemorragias de luz, dos céus ouviu-se o som de trombetas, montanhas afastaram-se amavelmente da frente, vales abriram-se de livre e espontânea vontade, o horizonte recheou-se de portentos. Foi, por outras palavras, mais uma tarde de Sábado na vida de William Carvalho.

 

Adrien

Mas isto agora dos livres directos veio de onde e porquê?

 

Alan Ruiz

Qualquer ordem constitucional só é verdadeiramente democrática quando tolera e promove o acesso das oposições ao poder como resposta espontânea ao desgaste e descrédito dos titulares governativos, como diz o povo.

 

Doumbia

"A girar e a girar, em círculos cada vez mais amplos, o falcão já não ouve o falcoeiro", como explicou Yeats em "The Second Coming", o seu célebre poema sobre a armadilha do fora-de-jogo.

 

Iuri Medeiros

Pouco depois de entrar e pouco antes de sair, conseguiu fazer um movimento interior, uma boa recepção, um passe de primeira, uma perda de bola e uma falta sofrida em zona perigosa, tudo na mesma jogada. Não é bem o mesmo tipo de "polivalência" de Bruno César, mas não deixou de ser impressionante.

 

Tobias Figueiredo

Tem de melhorar a sua estratégia de comunicação.

 

Francisco de Oliveira Geraldes

Fez uma pausa no preenchimento da papelada necessária para pedir asilo político no Império Austro-Húngaro e veio ao campo fazer três passes bons e um mau.

 

Beto

Fez uma única defesa e sofreu um golo em que nada podia fazer: a média de Rui Patrício numa boa mão-cheia de jogos da época transacta.

 

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publicado às 09:24

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