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A segunda edição da época oficial de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo da 2.ª jornada da I Liga com o Vitória de Setúbal. Começa por nos deixar esta apreciação generalizada sobre uma das características desta equipa do Sporting: "Cruzamentos sempre razoáveis e sempre inofensivos - uma especialidade que deve ser treinada arduamente em Alcochete".

 

O leitor deve notar que apesar do semblante humorístico da sua coluna, Rogério Casanova deixa-nos um certo número de verdades para ponderar. Também inconfudível é o facto de Cristiano Piccini ser o seu alvo favorito.

 

Rui Patrício

Um daqueles jogos - a que está condenado 4 ou 5 vezes por época - em que podia perfeitamente ter entrado em campo com um casaquinho e um tablet. Agora já nem sequer se pode entreter com atrasos desesperados de Zeegelaar feitos invariavelmente para o seu pior pé. Certamente por tédio, ainda ensaiou uma saída algo maluca dos postes ao minuto 38, que acabou por compensar com uma mancha aérea em forma de suástica, e respectivo corte para canto com a panturrilha esquerda.

 

Piccini

Mas, afinal, o que é que vocês querem? Incursão confiante com a bola no pé ao minuto 5, derivando para o meio e libertando Gelson na ala no momento exacto. Outra boa jogada no minuto seguinte, ganhando lançamento. Idem idem aspas aspas aos 14, a conseguir ganhar canto quanto estava em inferioridade numérica. Aos 17, com a bola imobilizada, encarou de frente o adversário directo, sentou-o e cruzou. É certo que a coisa não melhorou a partir daí. É certo que provavelmente piorou. E algures a meio da primeira parte, transformou-se numa espécie de periscópio com pernas, emergindo de tempos a tempos para procurar Gelson e entregar-lhe a bola o mais depressa possível, e à menor distância possível. Mas um lateral de equipa grande, nos jogos em casa, tem qualquer coisa como uma ordem de prioridades: ou desequilibra com bola; ou ajuda a desequilibrar sem bola; ou pelo menos tenta não atrapalhar.

 

O homem não sabe cruzar, é um facto. Mas já há demasiada gente a cruzar neste clube, e mal. Não é necessariamente um drama termos um lateral que não saiba cruzar. O drama é ele perder o medo de cruzar mal. Aquele medo de cruzar que mostrou na pré-época? É isso! Isso é que tem de ser recuperado. Medo, muito medo, que é para continuar fazer só as poucas coisas que sabe fazer bem. O resto há-de vir com calma, nem que seja de outro cidadão, aparentemente macedónio.

 

Coates

Encarregou-se tranquilamente de algumas funções distributivas, mas perante uma das equipas mais inofensivas que passou por Alvalade nos últimos anos, o seu principal papel foi geoestratégico: encarnar numa forma visível, e de carne e osso, as reservas estratégicas de testosterona do clube, não fosse alguém ter ideias de fazer alguma jogada de ataque perto de si. Ninguém teve, por acaso.

 

Mathieu

Membro mais proeminente da vaga de neo-turismo a assolar Lisboa, passeou-se tranquilamente pelo jogo com a placidez de quem passou três anos seguidos a aturar Messi e Iniesta a fazer-lhe fintas nos treinos e veio agora tirar fotografias pitorescas com pelourinhos e sardinhas, Edinhos e Costinhas. Sempre atento a dobrar Jonathan e a varrer sobras, impávido com a bola no pé, fazendo passes milimétricos mesmo pressionado, e mostrando na última meia-hora a energia e lucidez que já faltavam a alguns colegas para fazer coisas inteligentes e passíveis de criar perigo na baliza certa. Foi provavelmente o melhor em campo.

 

Jonathan Silva 

Foi o primeiro a iniciar uma jogada depois da saída de bola do apito inicial (mandou um criativo chutão lá para a molhada). Foi também o primeiro jogador do Sporting a ser ultrapassado em velocidade por um jogador do Setúbal (minuto 58, aflição entretanto resolvida por Matthieu).

 

Jonathan é raçudo. Não é lento. Não é tosco. Mas quem achar que hoje, por exemplo, fez um jogo melhor do que Piccini, ou que é, nesta altura, um lateral claramente superior a Piccini, deve rever o jogo inteiro outra vez: não para observar erros clamorosos, que não os teve, mas para observar a gritante falta de jeito que tem a escolher os espaços certos para ocupar quando a equipa ataca, quer tenha ou não a bola no pé.

 

Battaglia 

Vê-lo jogar no lugar de William é um pouco como ver as montagens de treino paralelas num dos filmes da saga Rocky: um gajo a esmurrar lombos de porco num matadouro em Filadélfia e a engolir gemadas de penálti, enquanto outro anda a fazer jogging em cima de casacos de peles, com um daiquiri na mão.

 

A maioria dos adeptos de futebol tem, creio, um afecto instintivo pela prática dos cortes em carrinho, desde que sinta que não são um acto de desespero, mas sim uma maneira de ser. Battaglia tem portanto, e logo à partida, características ideais para cair no goto das pessoas de bem. Voltou a fazer um belo jogo, mas vê-lo a pegar na bola à frente dos centrais para iniciar circulações lentas, como fez na primeira parte, mais do que um erro de casting, parece um desperdício de recursos. Alargou o raio de acção depois do intervalo e começou a causar chatices sempre que cavalgava pela faixa esquerda ou aparecia em corrida perto da área. É cada vez mais improvável que não tenha sido uma óptima contratação.

 

Adrien Silva

Mais uns treinos em cima, mais uns minutos de correria desenfreada, e começam a vir à tona, lentamente, as coisas em que é exímio: não a "pensar" nem a "organizar", mas a reagir mais depressa do que todos os outros aos momentos em que a organização claudica e é preciso responder a emergências locais - o calcanhar instintivo na área a desviar um cruzamento atrasado de Gelson para a zona exacta onde estavam os dois colegas em condições de fazer alguma coisa útil; ou o outro calcanhar à saída da área do Vitória, impedindo o que podia ter sido um contra-ataque perigoso.

 

Definiu mal um ou outro lance de ataque, mas lá foi a correr resolver o problema. E quase marcou um golinho logo a abrir a segunda parte, mas o remate bateu no ferro. Devem faltar mais dois ou três jogos inteiros para voltar a algo parecido com a sua melhor forma, seja aqui, seja no Reino Unido.

 

Gelson Martins

Tentou um golo à Mancini aos 8 minutos, respondendo a um cruzamento de Acuña rematando em voo com o quinto metatarso. Foi por cima, e não voltou a aparecer em zonas de finalização para repetir as gracinhas do fim-de-semana passado. Passou grande parte do jogo longe da área e em inferioridade numérica - sozinho contra dois, contra três, ou por vezes contra quatro, se contabilizarmos entre os seus adversários um ou outro colega que aparecia na sua zona apenas como mais um obstáculo a ultrapassar. No passado, jogar sozinho contra o mundo nem sempre foi impeditivo de grandes exibições. Não foi o caso hoje.

 

Acuña

Hão-de sair imensas alegrias daquele pé esquerdo; hoje, num jogo algo apagado, o que se viram, quando muito, foram presságios. Mas insistiu demasiado no cruzamento (e a qualidade dos mesmos foi-se deteriorando com o correr do jogo); e procurou muito menos as zonas interiores do que tinha feito na 1ª jornada, e até na estreia contra o Mónaco. Deve haver qualquer coisa tremendamente apelativa nas faixas laterais deste estádio, tal é a devoção que inspira nas pessoas.

 

Podence

Couberam-lhe os dois primeiros desequilíbrios do jogo, ultrapassando duas vezes Pedro Pinto no espaço de sessenta segundos. Os cruzamentos (quase sempre a procurar Dost ao segundo poste) saíram-lhe sempre razoáveis e sempre inofensivos - uma especialidade que deve ser treinada arduamente em Alcochete. Remexeu, deambulou, acelerou, agitou - mas o último passe teimava em sair mal. Ainda não é um jogador acabado, mas a acumulação de exemplos sugere que não é exactamente feito para criar ocasiões de golo, mas sim para criar o caos onde outros as possam criar. Um jogador de repentes beneficiará mais de lucidez à sua volta (Bruno Fernandes, por exemplo) do que de jogadores igualmente instintivos ou repentistas (como Adrien e Gelson). Além de que, no somatório actual das suas qualidades e defeitos, começa cada vez mais a parecer formatado para médio-ala e não para avançado.

 

Bas Dost

Teve um gravíssimo momento de inépcia ao minuto 43, daqueles que merecia ser imortalizado em .gif: sozinho na área, isolado perante uns escassos cinco jogadores do Setúbal, não conseguiu levar a melhor e acabou por perder a bola. Como é possível? Talvez pior ainda foi a figura patética que fez em dois lances semelhantes, um em cada parte, quando não teve arte para ultrapassar sozinho os duzentos e noventa e cinco defesas vitorianos que guardavam o desfiladeiro das Termópilas, e preferiu servir colegas com toques de calcanhar. Acabou por marcou o golo da vitória a três minutos dos 90, arrancando o seguinte comentário a um senhor na mesa ao lado do café: "este é como o Jardel, também só marca de penálti". O senhor era adepto do Sporting e estava a falar a sério.

 

Bruno César

Um sistema de freios e contrapesos autodireccionado, cujo único propósito é corrigir as suas próprias debilidades.

 

Doumbia

Bem vindo ao Sporting, o clube onde a bola só entra depois de aprenderes quatro palavrões novos.

 

Bruno Fernandes

Não foi titular, e foi o último suplente a entrar: são estes os factos relevantes; tudo o resto - o que fez enquanto esteve em campo, foi a coisa menos surpreendente do mundo.

 

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publicado às 04:31

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, está de volta para o primeiro jogo oficial da época com a sua usual e muito popular análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, no seu triunfo diante o Desportivo das Aves:

 

Rui Patrício

O primeiro toque na bola surgiu aos 10 minutos. A primeira defesa acrobática a safar erro de um colega aos 24. O primeiro golo sofrido sem quaisquer culpas terá de ficar para a próxima oportunidade. 

 

Piccini

Passou os primeiros 15/20 minutos do jogo muito resguardado: pela única faixa de sombra do relvado; pelo facto de ocupar o lado mais distante das câmaras; pelo software japonês de qualidade dúbia utilizado ainda em alguns lares portugueses; pelo flagelo dos anúncios pop-up; pela diminuta constelação de pixels que filtrava a sua presença através de um par de óculos de mergulho besuntados com margarina. Quando conseguiu emergir deste nevoeiro tecnológico, os resultados foram desiguais: cada recuperação crucial ou contenção inteligente era equilibrada com uma cueca sofrida ou uma perda de bola comprometedora. Melhorou na segunda parte (como Matthieu, aliás), soube dar algum apoio rudimentar ao ataque e ainda ia marcando o 0-3, depois de uma finta de corpo dentro da área contrária, num movimento físico que, se algum dia fosse observado no corpo de Schelotto, levaria as pessoas a chamar imediatamente um exorcista.

 

Coates

Com bola: ensaiou duas incursões ofensivas pela faixa direita, uma em cada parte, a segunda das quais só travada em falta já perto da área contrária, depois de deixar dois adversários para trás. Sem bola: emboscou a linha avançada do Aves com um lenço embebido em clorofórmio, enfiou-os todos na bagageira do carro, e levou-os até Monsanto.

 

Mathieu

Marcou dois golos de livre directo na carreira, um pelo Toulouse, em 2007, e outro pelo Barcelona, em 2015. É portanto, pelos padrões de Adrien Silva, um especialista. Hoje tentou mais um, ao minuto 9, mostrando estar já plenamente adaptado ao espírito do clube que um dia, há não muito tempo, encorajou Anderson Polga a tratar das bolas paradas. A defender, optou quase sempre pela solução mais segura. Ao minuto 29, por exemplo, apanhou Agra de frente, já na área, numa jogada em que Semedo tentaria desarmá-lo com um toque de calcanhar, seguido de túnel, seguido de pirueta à Zidane ainda dentro da área, e posterior saída em galope na direcção do meio-campo - com elevadas probabilidades de acontecer golo, fosse numa baliza ou na outra. Matthieu cedeu canto, sacudiu as mãos, e foi trabalhar.

 

Fábio Coentrão

Enternecedora a rapidez com que os colegas perceberam que lhe podem passar a bola de qualquer maneira, em qualquer zona do campo, sejam quais forem as circunstâncias. Coentrão não se vai atrapalhar, não vai perder a bola, não vai precisar de fazer falta, não vai obrigar ninguém a acender um cigarro, por muita vontade que ele próprio sinta de o fazer. A pujança física também vai melhorando, e o número de sprints por jogo tem subido, desde a pré-época, em progressão aritmética. (Pelos meus cálculos, lá para a décima jornada, vai fazer oitocentos por jogo.)

 

Hoje esteve bem em tudo, menos a cruzar. Ou seja: é finalmente o lateral certo no clube certo.

 

William Carvalho

Para explicar o intervalo criativo entre uma indicação cénica e o trabalho do encenador, Tom Stoppard gostava de falar, em entrevistas, numa encenação de A Tempestade feita em Oxford, nos anos 70. O palco era o extenso relvado da Universidade, com um lago ao fundo. Depois da sua última deixa, Ariel virava-se e corria através do relvado, até chegar à beira do lago — e depois continuava a correr, pois a produção instalara uma espécie de passadeira sólida, um centímetro abaixo da superfície da água. O público via Ariel a correr devagarinho pelo lago fora, e a ouvir o som líquido das suas passadas, até desaparecer de vista, e uma explosão de fogo-de-artifício assinalar o seu desaparecimento num chuveiro de faíscas contra o pôr-do-sol. No texto de Shakespeare, a única indicação que se lê é "Ariel sai de cena".

 

No jogo de hoje, de acordo com as instruções tácticas que recebeu, William Carvalho jogou no meio-campo.

 

Gelson Martins

Estreou-se esta época na arte do cruzamento com um banano para trás da baliza. Alguns minutos mais tarde, ultrapassou Nélson Lenho num par de patins invisíveis e voltou a cruzar mal, embora desta vez rasteiro e atrasado. À terceira ocasião de perigo, deixou-se de subterfúgios e aceitou o fardo de fazer (quase) tudo sozinho. Viria a marcar também o golo do descanso, antes que houvesse chatices. Tal como no início da época passada, voltou a mostrar a capacidade de ser decisivo, mesmo nos dias em que não é consistentemente desequilibrante.

 

Adrien Silva

Teve um livre directo ao seu jeito ao minuto 38, daqueles em que não costuma perdoar e acerta normalmente com a bola em cheio na barreira. Desta vez o remate não lhe saiu bem e a bola acabou por sair na direcção do guarda-redes, algo que acontece aos melhores, aos piores, e aos assim-assim. Como a época passada demonstrou, é talvez o jogador do plantel que mais precisa de estar no pico da condição física para ser o jogador que é; e para lá chegar tem de ir jogando, mesmo que jogue como hoje, mesmo que... enfim, sabem aquela piada de John Lennon sobre a hipótese de Ringo Starr ser o melhor baterista do mundo? Adrien, nesta altura, nem sequer é o melhor baterista dos Beatles. Precisa de tempo e da paciência dos adeptos, dois bens escassos até 31 de Agosto.

 

Marcos Acuña

Sofreu a primeira falta do campeonato aos 30 segundos. Será a primeira de muitas. Recuperou a bola aos 7 minutos (depois de falhar um cruzamento). Será a primeira de muitas. Molhou o pincel pela primeira vez ao minuto 21, recebendo a bola na, chamemos-lhe, "zona Alan Ruiz" (quina da área, do lado direito), e conseguindo virar-se, ajeitar a bola e rematar, tudo em menos de meia-hora. É ele quem lança Gelson para o golo inaugural. E nunca foi menos do que inteligente a posicionar-se no momento defensivo (já no jogo de apresentação se tinha percebido que tem jeitinho para cortar linhas de passe e impedir variações de flanco). Pelas primeiras impressões, sugere que aconteceu ao Sporting uma coisa sem precedentes: gastou-se um camião de euros num canhoto sul-americano - e ficou-se com um bom jogador.

 

Bruno Fernandes

Depois de uma pré-época promissora e entusiasmante, em que ocupou com qualidade um dos dois lugares do meio-campo, era historicamente necessário pô-lo hoje a jogar numa posição nova, fenómeno que no fundo é um produto das condições materiais do nosso tempo. A sua velocidade de pensamento e de execução ainda se notaram, a espaços: no repentismo com que rematou cruzado para grande defesa de Adriano, ou na composição artística de calcanhares com naturezas mortas com que prefaciou a jogada do 0-1. Foi ideologicamente saneado ao fim de uma hora.

 

Bas Dost

O que foi verdadeiramente impressionante na sua época de estreia em Portugal não foram os números que acumulou, mas ver esses números aliados a uma presença tão espectral que por vezes quase pareceu uma ausência. Em vez de assistirmos a duelos entre defesas-centrais e Bas Dost, assistimos a duelos entre defesas-centrais e um vazio nos arredores da bola que, por acaso, ia sendo empurrada para dentro da baliza. Trinta e cinco vezes seguidas. Outros pontas-de-lança fazem remates estrondosos à barra, gritam palavrões nas repetições em câmara lenta, têm cortes de cabelo interessantes. Bas Dost marca golos e cumprimenta os amigos. Hoje, à falta de oportunidades claras (tirando uma ocasião já perto do fim), dedicou-se a servir quase toda a gente à sua volta, na procura desesperada de uma assistência e, possivelmente, de um abraço.

 

Podence

Após alguns ensaios inconclusivos ou interrompidos, lá conduziu um contra-ataque perfeito, largando a bola no momento certo e com um passe bem medido, algo que (suspeita-se) fará mais vezes em proporção directa aos minutos que jogar.

 

Battaglia

Veio fornecer ao meio-campo a capacidade que começava a faltar: mexer-se depressa de um lado para o outro. E mostrou o truque que começa a dominar como poucos: intercepção, progressão rápida com a bola, desaceleração súbita, e novo arranque em velocidade, obrigando o adversário a cometer falta. É um truque limitado, mas útil, e o certo é que até agora nunca falhou. Continua a parecer o melhor suplente possível que a equipa podia ter tido nas duas épocas anteriores.

 

Jonathan Silva

Nota-se que está um jogador mais maduro e contido: não cometeu qualquer falta nem viu um único cartão amarelo nos 17 segundos que esteve em campo.

 

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publicado às 04:44

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 30.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, comenta as performances individuais dos jogadores do Sporting no jogo com a Fiorentina, na disputa do Troféu Cinco Violinos, com o seu usual humor:

 

Rui Patrício

 

Na maior ocasião de perigo criada pela Fiorentina, saiu bem a fazer a mancha aos pés do filho de Hagi, vendo depois sair por cima da barra um remate feito pelo filho de Chiesa, num jogo tão descansadinho que o seu lugar até podia ter sido ocupado pelo filho do pai do Azbe Jug.

 

Piccini

 

A sua primeira intervenção depois do intervalo foi uma homenagem tão sentida ao antecessor que quase parecia copy-paste: falhou a receção de uma bola alta, perdeu-a para o adversário, conseguiu recuperar na raça, iniciou um galope de vários metros que desequilibrou toda a gente e no momento decisivo falhou a abertura para Gelson, antes de desatar a correr para vir recuperar a posição. Schelotto fez umas oitenta jogadas semelhantes; Piccini, arrisco, fará umas vinte. A principal diferença entre ambos não é sequer o lance em que circum-navegou a Fiorentina inteira antes de servir Podence na pequena área; Schelotto também fez umas quantas avarias parecidas. A diferença é um incremento moderado, mas real de solidez defensiva e de capacidade global, mas, acima de tudo, uma noção bastante mais saudável das suas qualidades e defeitos. Piccini, tal como Schelotto e Zeegelaar, não é, nem nunca, será um grande lateral. Mas ao contrário deles, sabe o que é e o que não é, e sabe proteger-se. O que acaba por me proteger a mim também, especialmente ao nível psiquiátrico.

 

Tobias Figueiredo

 

Um defesa-central dos anos 80 com uma fidelidade intempestiva a exigências de cariz quase arqueológico, trasladado para esta cruel modernidade que já não aprecia nem tolera os tempos que a linha de fora-de-jogo podia ser medida por bigodes e patilhas, em que a lama era mais confortável do que a relva, em que uma bola podia e devia ser chutada com a maior força possível, de preferência para fora do estádio, e onde mariquices como a construção de jogo eram melhor deixadas a colegas com técnica mais apurada, como William, ou Patrício, ou o massagista. Teve o seu melhor e mais característico lance ao minuto 83, quando conseguiu dar uma joelhada no pâncreas de um adversário sem nunca tirar os olhos da bola, uma proeza de coordenação motora que deixaria qualquer defesa do Millwall orgulhoso.

 

William

 

Formou uma excelente dupla de centrais consigo próprio, passando o jogo inteiro a explicar calmamente aos avançados da Fiorentina que "estes não são os dróides que vocês procuram", e a fazer a sua própria fotossíntese, nutrindo-se directamente da luz do sol sem precisar de comida, ou de colegas.

 

Fábio Coentrão

 

I dress a wound in the side, deep, deep,

But a day or two more, for see the frame all wasted and sinking,

And the yellow-blue countenance see.

I dress the perforated shoulder, the foot with the bullet-wound,

Cleanse the one with a gnawing and putrid gangrene, so sickening, so offensive,

While the attendant stands behind aside me holding the tray and pail.

I am faithful, I do not give out,

The fractur’d thigh, the knee, the wound in the abdomen,

These and more I dress with impassive hand, (yet deep in my breast a fire, a burning flame.)

- Walt Whitman, "The Wound Dresser"

 

Battaglia

 

O estilo de jogo de alguns trincos com as suas características físicas e limitações técnicas costuma ser justamente comparado ao de um cachorrinho a perseguir automóveis. Battaglia hoje pareceu um automóvel a perseguir cachorrinhos. Escangalhou uma dúzia de jogadas da Fiorentina na primeira parte, com uma impressionante colecção de desarmes, jogadas de antecipação, impondo o físico, enchendo o seu terço do campo, e saindo várias vezes a rinaudar, com transportes verticais que mudavam rapidamente o centro de operações. Não tem recursos para variações rápidas de flanco ou para verticalizar o jogo com passes longos; mas tem inteligência para substituir essas opções por outras igualmente eficazes. E, não sendo um fora-de-série, representa talvez o tipo de jogador que mais falta fez no plantel nos últimos doze meses.

 

Gelson Martins

 

Na vastidão do cosmos, o conceito de "agora" é mais ou menos irrelevante. Devido à ligação inextricável entre tempo distância e velocidade de sinal, é impossível saber o que se está a passar "agora", por exemplo em Alpha Centauri. Sabemos apenas o que se passou há 4 anos e meio, o tempo que a luz demora a fazer a viagem. Acontecia algo parecido com os contra-ataques do Sporting conduzidos por Gelson na época anterior, e que o resto da equipa acompanhava invariavelmente a vários anos-luz de distância, muitas vezes descobrindo o que se tinha passado apenas ao ver as repetições em casa. Esta época, o facto de ter um colega com igual capacidade supersónica abre-lhe novas opções. Apesar de tudo, esteve hoje bem pior no cruzamento e no último passe do que tinha estado contra o Mónaco, E ainda bem, que as bancadas estão repletas de gente estrangeira com montes de dinheiro e más intenções.

 

Bruno Fernandes

 

Um par de bolas perdidas e uma exibição globalmente menos impressionante do que já fez nesta pré-época, mas continua incapaz de provocar o mais leve vestígio de dúvidas a alguém: qualidade de recepção e de passe, rapidez de raciocínio e de execução, e a capacidade para já saber quase sempre o que vai fazer à bola um segundo e meio antes de esta lhe chegar aos pés.

 

Acuña

 

Já deu para perceber que o seu estilo no 1x1 é semelhante ao de Coentrão: dar um toque na bola três metros para a frente e apostar em chegar lá antes dos outros. Quanto melhor for a pujança física, mais vezes vai resultar. Para já, o que salta à vista é a sua invulgar qualidade sem bola: a ajudar o lateral, a cortar linhas de passe, a saber quando ir fazer superioridade numérica no meio. Percebe muito de futebol, o que é logo meia batalha ganha. Se revelar em devido tempo a mesma qualidade a desequilibrar que já mostra a equilibrar, será um enorme reforço.

 

Podence

 

Aos 12 minutos, rompeu sozinho pelo meio e só foi travado em falta por Vitor Hugo, homónimo de um escritor francês também ele com um historial de anões problemáticos. A jogada mais candidata a aparecer no resumo televisivo será a do minuto 27, quando girou sobre Astori e rematou em arco para uma grande defesa. Tão ou mais impressionante foi o que fez 5 minutos antes, quando mostrou aquilo que faz melhor do que ninguém no Sporting actual: recuou, recebeu a bola de costas para o ataque, rodopiou para tirar o marcador directo da jogada, e descobriu uma diagonal de Dost sem sequer olhar, isolando-o na área. É o melhor jogador do clube a fazer este movimento específico desde João Vieira Pinto. Agora falta fazê-lo 30 vezes por ano, se faz favor.

 

Bas Dost

 

Testemunhou na primeira fila mais um caso gravíssimo de assassinato tecnológico do futebol. Um momento penoso para a saúde do desporto-Rei, onde foi tão indisfarçável o desconforto dos adeptos, cruelmente obrigados a festejar o mesmo golo duas vezes, como a preocupação de Dost perante este novo desafio à sua capacidade para distribuir afectos com justiça e celeridade pelas pessoas que o assistem.

 

Jonathan

 

Sofreu mais faltas duras do que as que fez, talvez uma estreia na sua carreira. Perto do fim, conseguiu não ser expulso por agressão depois de um adversário lhe puxar os cabelos, numa das situações menos argentinas em toda a história do futebol.

 

Bruno César

 

Muito bem a sofrer faltas na faixa direita. É nesta altura um dos mais competentes jogadores do plantel a sofrer faltas, tanto na faixa direita, como na esquerda, como no meio.

 

Adrien

 

Logo que entrou teve uma oportunidade de ouro para mostrar a sua recém-adquirida especialidade: a cobrança inofensiva de bolas paradas. Não desiludiu.

 

Alan Ruiz

 

Às dezanove horas e cinquenta e sete minutos do dia vinte e nove de julho do ano dois mil e dezassete da era cristã, Alan Nahuel Ruiz, mais conhecido como El Mago, foi fintado por um guarda-redes.

 

Doumbia

 

Compreende-se-lhe algum desalento com esta insistência em obrigá-lo a fazer jogadas de combinação com Alan Ruiz, especialmente quando a ocasião mais promissora em que se viu envolvido resultou não de uma combinação com o colega, mas de uma combinação com um adversário: o defesa da Fiorentina que o deixou roubar a bola.

 

Matias Fernández

 

Foi muito agradável voltar a vê-lo.

 

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publicado às 06:09

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 24.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com o seu bem conhecido humor, analisa as performances dos jogadores do Sporting no jogo de apresentação da equipa frente ao campeão francês Mónaco, com destaque para Matheus Oliveira:

 

"Há algo de bidimensional na sua presença - em campo, no estágio, no plantel - como se não fosse resultado de carne, osso e cartilagem, mas de um efeito tromp l'oeil. Uma coisa no entanto ninguém pode negar: Mattheus Oliveira é extremamente parecido com as imagens de Cristo que costumam aparecer nas revistas Sentinela e Despertai! a ilustrar artigos como "O Que Vai Deixar de Existir Quando o Reino de Deus Chegar?", "A Minha Luta Como Soldado de Cristo", e "Compre Este Médio Talentoso Mas Desnecessário Por Apenas 1 Milhão de Euros Mais Portes de Envio".

 

Rui Patrício

Lidou horrivelmente com um atraso numa das suas primeiras intervenções, num lance que ia dando golo, mas foi só para testar os nervos dos adeptos que, como se sabe, nesta altura do ano, ainda andam à procura da melhor forma. Acabou por se redimir com uma defesa do outro mundo a um cabeceamento de alguém chamado Carrillo, mostrando uma comovente preocupação em evitar que alguém chamado Carrillo marcasse um golo em Alvalade, preocupação de resto não partilhada por todos os colegas.

 

Piccini

Teve direito a praxe mais violenta da pré-temporada. Depois de Valbuena, hoje apanhou com Mbappé, que descaiu várias vezes para o seu corredor, mostrando que não deve haver relatório de olheiros feito sobre o Sporting de há dois anos para cá que não aponte, em letras maiúsculas, a fragilidade da equipa a defender lançamentos em profundidade para a faixa direita. Piccini voltou a mostrar que é melhor a fechar por dentro do que a solucionar esse problema de longa data; que é menos rápido do que Schelotto, mas que usa a velocidade com muito mais inteligência; que sabe usar o físico e tem bom tempo de corte; que sobe pouco, cruza menos, e sempre visivelmente contrariado; que é um upgrade, mas não o desejado; que não é um grande lateral-direito (o que daria jeito ao Sporting), nem um desastre (o que daria jeito aos adversários, e possivelmente a esta plataforma digital).

 

Coates

Um "defesa de corpo inteiro" era algo que eu julgava ser um cliché, até ter visto o seu jogo de hoje. Ultrapassado por Mbappé aos 6', foi ao chão, mas virou-se com agilidade suficiente para interceptar a bola (com a nádega). Substituiu Patrício na linha de golo e fez uma grande defesa aos oito minutos (com o abdómen). Aos 16' foi cabecear a centímetros do poste (com a testa). Cortou uma bola de perigo já na pequena área ainda antes do intervalo (com a barriga da perna). Aos 68', grande intervenção no 1x1 com um avançado do Mónaco que vinha embalado direito a si, desarmando-o (com o pé, para variar). É um descanso tê-lo por cá (no campo e no coração).

 

Mathieu

Jogo certinho e sem as aflições que marcaram os jogos na Suíça. Com a bola no pé, enfim... andou três anos a trocar a bola com o Iniesta sem destoar, vamos dar-lhe tempo.

 

Fábio Coentrão

É um grande jogador ainda a recuperar a melhor forma, portanto vão sendo as pequenas coisas: o transformar de um alívio numa desmarcação, o proteger a bola com o corpo sem qualquer vestígio de nervosismo, a lucidez a encontrar a melhor opção, a capacidade para receber bolas bombeadas a meia-altura e junto a linha, deixando-as jogáveis ao primeiro toque, as acelerações súbitas (e, por enquanto, de poucos metros) para se livrar da pressão dos extremos contrários, e acima de tudo a forma corajosa como conseguiu até agora disfarçar os vários sintomas que apresenta - de hipotermia, escorbuto, cólera, febre do Nilo, etc, - e fingir que não é uma pessoa lesionadíssima.

 

Battaglia

Vê-lo jogar é uma experiência estranhamente fatigante, em que uma bola perdida no meio-campo é apenas o primeiro capítulo de uma espécie de epopeia. Carrinhos, desarmes, faltas, arranques, carros a capotar, alguém a fazer rapel pela Torre Eiffel abaixo, outra pessoa a escapar por um triz a uma avalanche, um edifício a explodir, uma bomba em contagem decrescente, etc. É como assistir ao trailer de um filme de acção, onde cortaram todas as partes chatas é tudo condensado a dois minutos de efeitos especiais impressionantes e diálogo não muito bem escrito. Nunca vai (nem ele nem ninguém, em boa verdade) dar à equipa o que William dá em posse. Mas tem uma disponibilidade física fora do vulgar, e o tipo de agressividade que obriga constantemente o adversário a mudar de ideias. Pode ser que vá mudando as nossas também.

 

Gelson Martins

Scouting report by H. P. Lovecraft:

Vastly overrated attacking midfielder, whose eldritch proclivities when in possession of the hallowed sphere should make any sensitive scouting soul this side of Massachussets shudder in unnamable horror. Occasional ghoulish glimpses of a freakish abominable talent can be seen as they bubble up putrescently under the gibbous stadium floodlights, but his vile, batrachian movements offer no beauty and no freedom to the discerning eye of someone not bewitched by the horrid reputation of Alcochete's infested swamps.

 

Beware, o Greats of Manchester and Spain, perusing the dark horizons for the next shining star: all you will ever find here is gibbering hideousness and squamous perversity twitching and slithering in the endless night!

 

#Gelson #scouting #flops

 

Bruno Fernandes

Ao minuto 10, com todas as linhas de passe cortadas, teve calma e confiança suficientes para resguardar a posse de bola em zonas tradicionalmente proibidas até sofrer falta. Dois minutos depois, Battaglia efectuou um remate à queima contra os seus tornozelos, a meio metro de distância; Bruno Fernandes conseguiu, não me perguntem como, transformar o lance numa tabelinha. Marcou o golo do 1-0, aparecendo de repente em zona de finalização. Perto do intervalo, é ele quem vai ganhar o espaço a Sidibé na faixa esquerda, depois de este ter ultrapassado Acuña e Coentrão. Ao minuto 50, fez exactamente o mesmo na faixa direita, dobrando Gelson e Piccini. E foi ele, inclusive, quem veio escrever metade deste parágrafo, porque eu estou muito cansado.

 

Marcos Acuña

Deve ter decorado com afinco meia dúzia de instruções tácticas específicas, pois procurou insistentemente desmarcações interiores nos primeiros minutos, e mostrou sempre um cuidado patológico em ajudar o lateral do seu lado - mostrando ainda algum desacerto posicional, que compensou com tenacidade e uma surpreendente capacidade de desarme. Quanto à qualidade (já conhecida e anunciada) a bater livres e cantos, deu exemplos suficientes para comover um público que não via um novo reforço tão competente nas bolas paradas desde Didier Lang - comparação pela qual peço desde já imensa desculpa a todos os envolvidos.

 

Podence

Se Podence fosse um animal não seria propriamente daqueles que inspiram medo, como os predadores de grande porte, mas sim um daqueles que provocam irritação, como a melga. Estamos descansadinhos no sofá, ouvimos o zumbido de uma coisa diminuta a passar e quando damos por isso temos uma probóscide enfiada na pele, e um insecto a gargarejar o nosso sangue. Embora, enfim, neste caso não literalmente.

 

Melhor momento do jogo: o livre directo que ganhou ao minuto 56 depois de fazer um túnel a si próprio.

 

Bas Dost

Quem é que remata de cabeça ao ângulo, com aquela força, e àquela distância, quando a bola vem a fazer a curva ao contrário e não particularmente tensa? Mas quem é que este gajo julga que é?

 

Jonathan

Exibe, na minha maneira de ver as coisas, duas sobrancelhas excessivamente depiladas para o seu estilo de jogo.

 

William

O Sol brilhou, as nuvens escangalharam-se em hemorragias de luz, dos céus ouviu-se o som de trombetas, montanhas afastaram-se amavelmente da frente, vales abriram-se de livre e espontânea vontade, o horizonte recheou-se de portentos. Foi, por outras palavras, mais uma tarde de Sábado na vida de William Carvalho.

 

Adrien

Mas isto agora dos livres directos veio de onde e porquê?

 

Alan Ruiz

Qualquer ordem constitucional só é verdadeiramente democrática quando tolera e promove o acesso das oposições ao poder como resposta espontânea ao desgaste e descrédito dos titulares governativos, como diz o povo.

 

Doumbia

"A girar e a girar, em círculos cada vez mais amplos, o falcão já não ouve o falcoeiro", como explicou Yeats em "The Second Coming", o seu célebre poema sobre a armadilha do fora-de-jogo.

 

Iuri Medeiros

Pouco depois de entrar e pouco antes de sair, conseguiu fazer um movimento interior, uma boa recepção, um passe de primeira, uma perda de bola e uma falta sofrida em zona perigosa, tudo na mesma jogada. Não é bem o mesmo tipo de "polivalência" de Bruno César, mas não deixou de ser impressionante.

 

Tobias Figueiredo

Tem de melhorar a sua estratégia de comunicação.

 

Francisco de Oliveira Geraldes

Fez uma pausa no preenchimento da papelada necessária para pedir asilo político no Império Austro-Húngaro e veio ao campo fazer três passes bons e um mau.

 

Beto

Fez uma única defesa e sofreu um golo em que nada podia fazer: a média de Rui Patrício numa boa mão-cheia de jogos da época transacta.

 

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publicado às 09:24

Futebol com humor à mistura

Rui Gomes, em 20.07.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, analisa com o seu já bem conhecido humor - sem deixar de dizer algumas verdades - a performance dos jogadores do Sporting no jogo de pré-época diante o Marselha:

 

Pedro Silva

Cumprido o ritual anual que consite em incinerar um esloveno na fogueira dos seus defeitos, oferecendo-o em humilde sacrifício a Estagius, o Deus das pré-épocas, chegou a altura de utilizar um guarda-redes à altura da história do clube, capaz de defender remates de longe (´4), sair bem fora da área para evitar contra-ataques (´19), e não ter culpas nos golos sofridos (´2 e ´52). De realçar também uma excelente mancha ao minuto 89, talvez a melhor interceção de um lance de perigo feita COM O PEITO por um atleta do Sporting chamado Pedro Silva desde março de 2009.

 

Piccini

Imaginemos então que o espelho retrovisor do lado direito da nossa viatura se partiu há uma carrada de anos. Que durante o último ano e meio andámos a prendê-lo ao sítio com fita adesiva, permitindo-nos assim cumprir os mínimos exigíveis em matéria de retrovisão, mas não deixando de ter imensos problemas na manobra, pois a fita adesiva foi comprada no Lidl por oitenta e nove cêntimos, e teima em descolar-se nas alturas mais inoportunas. Imaginemos agora que ao fim deste ano e meio de problemas compramos uma fita adesiva de qualidade obviamente superior, mais resistente, emborrachada, flexível e relativamente impermeável, tipo Flex Tape: uma fita adesiva com melhor aspecto, com maior conhecimento dos princípios gerais da adesividade, capaz de dominar o espelho retrovisor ao primeiro toque, de fornecer apoios, etc. A situação é claramente melhor, mas não deixa de sugerir a pergunta: PORQUE RAIO É QUE NÃO SE GASTOU DINHEIRO E SE COMPROU A PORRA DE UM RETROVISOR NOVO?

 

Coates

Deixou fugir Clinton N'Jie logo a abrir, tornando-se assim a única pessoa do mundo a perder uma corrida contra uma pessoa chamada Clinton nos últimos oito meses. De resto, sem estar mal, comportou-se um pouco como um monarca no exílio, que se vê rodeado de gente nova e sente a soberania transformar-se em clandestinidade de um dia para o outro.

 

Mathieu

Contratado para substituir o Rúben Semedo de 2016, revelou-se hoje um substituto à altura do Rúben Semedo de 2017: pouco ágil a resistir a momentos de pressão dos avançados, e com tendência para a perda de bola comprometedora, seja em passes aparentemente simples para o lateral (minuto 36), seja depois de incursões abortadas com a bola no pé (como aconteceu perto do intervalo). Ao contrário do que acontece com um ou dois outros reforços, há pelo menos a firme expectativa de que é (e vai voltar a ser) muito melhor do que isto.

 

Fábio Coentrão

Aquele ruído colossal registado ao minuto 17 pelos sismógrafos de todo o mundo? Não há motivo para preocupações: foi apenas o grito colectivo de seiscentos mil adeptos do Sporting e dois milhões e meio de adeptos do Benfica a gritar em simultâneo “aleijou-se, eu já sabia!” quando Coentrão caiu ao relvado agarrado ao joelho. Foi falso alarme. Há que levantar a cabeça e continuar à espera.

 

Petrovic

Tutelou a construção de jogo e a contenção defensiva a partir de um quadradinho de relva tão formal, limitado e opressivo como uma residência oficial. O combustível extra que a forma física lhe conferiu no primeiro jogo de preparação parece estar a esgotar-se, e a tornar as suas limitações mais visíveis.

 

Bruno Fernandes

Um lance ao minuto 31 demonstrou a utilidade dessa misteriosa característica chamada velocidade de reação: com uma simples recepção orientada no meio e um passe instantâneo para as costas da defesa critou numa fracção de segundos um desequilíbrio temporário em toda a organização defensiva do Marselha (temporário porque a bola chegou pouco depois a Alan Ruiz). Antes disso já tinha permitido o primeiro remate perigoso da equipa, amortecendo a bola para Battaglia. E até à entrada de Podence foi o único a tentar o transporte rápido de bola, mesmo que a definição nem sempre tenha saído bem. Num jogo em que até nem esteve particularmente inspirado, inventou os principais momentos de qualidade da primeira parte.

 

Battaglia

Como se esperava, e na linha do que mostrou no Braga, mostra uma tremenda utilidade sem bola: esfarrapa-se todo na pressão, farta-se de ganhar ressaltos e até protege bem a posse com o corpo quando a consegue recuperar. Quando tenta construir, especialmente ao recuar para trinco, notam-se as limitações conhecidas (em duas ou três ocasiões em que podia ter variado o flanco com rapidez com um passe mais longo, optou por bolas curtas e seguras aos centrais). Mas tê-lo no plantel continua, até provas em contrário, a parecer boa ideia.

 

Bruno César

Muito versátil e polivalente a perder sprints quando lançado em profundidade e a fazer faltas imediatas sobre o lateral adversário para evitar contra-ataques. Muito versátil e polivalente a marcar livres indirectos para as mãos do guarda-redes e a recuar logo para manter a forma táctica. Muito versátil e polivalente a perder bolas na meia-lua contrária e a pressionar de imediato. Como toda a sua versatilidade e polivalência é nesta altura como um cinto de castidade táctica, colocado em campo para garantir que ninguém se diverte, sejam colegas, adversários ou espectadores.

 

Alan Ruiz

Conseguiu fazer o seu número habitual ao minuto 32, recebendo na meia-direita, derivando para o meio e rematando de fora da área, tudo isto em menos de meia-hora. E manteve a sua já mítica abordagem voyeur à pressão alta, optando por não incomodar os adversários e limitando-se a bisbilhotar os seus movimentos a uma distância segura, como se tivesse receio de ser apanhado a espreitar. Continua a ser exasperante que tanto talento consiga ser tantas vezes problema e tão raras vezes solução, a não ser em câmara lenta. Mas é o que temos.

 

Bas Dost

Habituou-nos a finalizar no plural majestático: o golo é dele, mas ele diz que é nosso. É da mais elementar justiça retribuir a gentileza e explicar que hoje tivemos poucas oportunidades, que nem sempre soubemos ligar o jogo com o resto da equipa (fomos melhores na idealização do que na execução), e assumir que na única semi-ocasião que tivemos dentro da área, a bola nos bateu na cabeça em vez de ser a nossa cabeça a bater na bola. Com este, no entanto, não é preciso comprar água potável, conservas e munições: as coisas vão evidentemente regressar ao normal em breve.

 

Jonathan Silva

Fazendo as contas à distância a que eu me encontrava da televisão e à distância a que a câmara se encontrava da faixa que ocupou, a única coisa que é possível garantir com 100% de certeza é que Jonathan Silva não viu um cartão amarelo, estando por isso de parabéns.

 

Podence

Entrou com a missão de rejeitar a ordem burguesa e perturbar o regular funcionamento das instituições, tarefa que cumpriu com a vivacidade habitual.

 

Mattheus Oliveira

Atarefou-se com grande profissionalismo a gerir a correlação de forças no meio-campo: procurando isolar a facção x, neutralizar o opositor y, ou auxiliar o aliado z – não à custa de retórica inspiradora, mas de tacticismos parlamentares, mostrando sempre bom toque de bola, lucidez na distribuição, uma brilhante capacidade para ser inofensivo, e uma comovente esperança em ser útil no plantel actual.

 

Matheus Pereira

Seria extremamente curioso e extremamente engraçado emprestá-lo a outro clube. Extremamente curioso e extremamente engraçado.

 

Tobias Figueiredo

Continua a parecer uma sombra do central que chegou a parecer aos 17 anos, mas reconheça-se que não tem estado mal na pré-temporada.

 

Doumbia

Aguarda-se com algum frisson a altura em que consiga aliar o andamento para acompanhar as incursões-relâmpago de Podence e Bruno Fernandes com uma sintonia na mesma frequência – perderam-se dois contra-ataques promissores não por falta de pernas ou jeito, mas por terem todos pensado de maneiras diferentes. Marcou (bem) o penálti, e ainda podia ter bisado ao minuto 74, mas foi bem bloqueado pelo ex-futuro colega, Dória.

 

Palhinha

Mostrou, tal como o já tinha feito várias vezes no final da época anterior, alguma evolução com a bola no pé e uma agressividade e raio de acção a pressionar que poucos têm no plantel.

 

Francisco de Oliveira Geraldes

... Desprendeu-se a vontade de Francisco Sete-Sóis, mas ao relvado não subiu, pois ao banco pertencia, e à Barafunda”.

 

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publicado às 11:37

 

Balakov, Barbosa, err... Hanuch e Ghilas: as melhores contratações da história, enfim, recente do Sporting (por Rogério Casanova).

 

Confuso? Talvez. Mas o autor da prosa justifica as suas escolhas quando enumera os melhors negócios do Sporting nos últimos tempos.

 

 

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                  Gary M. Prior

 

Balakov (1991)

Será difícil de convencer – ou sequer de explicar a – adeptos de futebol nascidos depois dos anos 80, mas houve uma altura em que era possível, e até com algum grau de conforto, não saber o que pensar sobre determinada situação, e sobreviver sem uma opinião firme. Nos tempos remotos e antediluvianos da modalidade – a era pré-YouTube, pré-Lei Bosman, pré-diários desportivos, pré-painéis de comentadores, pré-apostas online, pré-streams ilegais – uma nova contratação, por exemplo, era um fenómeno encharcado em mistério, e cada reforço cujo nome terminava em -ic, -ov, ou -inho não era uma página da wikipédia e um vasto conjunto de amostras, mas um emblema de expectativa e potencial. Uma opinião informada era a última coisa que nos passava pela cabeça.

 

Não saber o que pensar e não sentir vontade de divulgar o que pensamos deixaram de ser hipóteses viáveis. Em alguns casos recentes (Celsinho, Slavchev), terei visto mais minutos de um jogador via internet nas semanas que antecederam a contratação do que os minutos que os vi jogar com a camisola do clube depois da contratação. Quando Balakov chegou, em Janeiro de 1991 (vindo de um clube chamado, pela minha saúde, Etar), não só a maioria dos adeptos não o tinha visto jogar: nunca sequer tínhamos ouvido falar nele. Quem o contratou, aparentemente, também não. O infalível Sousa Cintra apresentou-o como ponta-de-lança e um “suplente quatro estrelas para o Gomes”.

 

Por tudo isto, mas não só, Balakov parece pertencer a um estágio anterior do desporto, o futebol tal como era construído na imaginação solene de uma criança a brincar aos adultos. Chegou na época em que a imagem platónica de um “grande” jogador” era ainda Maradona (e o seu sucedâneo europeu, Hagi): um esquerdino talentoso, ocupando uma posição indeterminadamente vagabunda entre o meio-campo e o ataque, com liberdade para não respeitar espartilhos tácticos e para resolver sozinho problemas colectivos. E assim foi. Um adulto não vê propriamente futebol à espera que um jogador marque um golo do meio-campo. Aos dez segundos de jogo. Num derby. Ou que o mesmo jogador finte toda a população da península de Setúbal antes de empurrar a bola para dentro da baliza. Para não falar de expectativas menos irreais, mas de certa maneira ainda mais inocentes, como a crença de que qualquer livre directo ou pontapé de canto pode ser uma genuína ocasião de perigo.

 

Fez 168 jogos pelo Sporting, e marcou 60 golos. Ganhou um único troféu, uma Taça de Portugal, no seu jogo de despedida. A sua saída deixou na memória de alguns adeptos o equivalente a cicatrizes de acne. Tudo o que veio a seguir fez já parte do desconforto bem informado da idade adulta.

 

Pedro Barbosa (1995)

 

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                                        Getty Images

 

Se para alguém nascido em 1980, Balakov foi o derradeiro representante do futebol edénico, Pedro Barbosa foi o primeiro ídolo na transição para a maturidade problemática: a pessoa ideal para nos agradar, ao mesmo tempo que anunciava o fim da era de emoções puras (no sentido em que qualquer emoção passou a ser necessariamente diluída por emoções paralelas e por vezes contraditórias).

 

A longevidade é parte da questão, e carreiras como a sua são hoje praticamente impossíveis: serão pouco mais do que residuais as probabilidades de um jogador talentoso emergir no campeonato nacional e resistir fora da órbita dos três grandes até aos 25 anos – muito antes disso será contratado pelo Benfica e emprestado ao Desportivo das Aves.

 

Barbosa chegou ao Sporting e cá ficou dez anos, o tempo suficiente para estar em campo nos jogos de estreia de Simão Sabrosa, Quaresma, Cristiano Ronaldo e João Moutinho. O tempo suficiente para participar na supertaça de Paris, no fim do jejum em Vidal Pinheiro, na semana do quase em 2005. O tempo suficiente para que a sua tantas vezes frustrante lentidão se adequasse ao bilhete de identidade. O tempo suficiente para nos ensinar que é possível manter uma franja mesmo sendo completamente careca.

 

Não deixando de ser uma figura “de culto” (está para certos adeptos de futebol como Captain Beefheart para certos melómanos) é possível que o seu estatuto fosse ainda mais sólido caso representasse uma anomalia clara na tradição futebolística a que pertence (como Le Tissier, por exemplo, foi para o futebol inglês). Na realidade, limitou-se a encarnar anacronicamente uma sublimação – ora esplêndida, ora caricatural – do que a sua tradição tinha sido na década anterior, mas também de um estranho futuro alternativo do futebol português em que a ”geração de ouro" nunca emigrasse: a frustrante estagnação produzida por um superavit de talento aliado ao défice crónico de consistência; a execução de um futebol de curvas, elipses e parábolas num período em que o jogo já convergia para procurar a distância mais curta e eficaz entre dois pontos.

 

Tivesse sido um bocadinho melhor e não teria ficado dez anos. Um bocadinho pior e teria sido provavelmente linchado pelos adeptos em pleno relvado. Combinou qualidades e defeitos na proporção exacta para alcançar uma congruência trágica com a identidade do clube a que dedicou os melhores anos, e que lhe dedicou os mais comovidos aplausos e mais exasperadas vaias.

 

Hanuch (1999)

Na cabeça de cada adepto existe uma pequena utopia sobre a maneira correcta de fazer as coisas e preparar uma época. Idealmente, os defeitos do plantel anterior são atempadamente diagnosticados; decide-se um naipe de “4 ou 5 contratações cirúrgicas” para colmatar essas lacunas e acrescentar real qualidade; preenche-se o resto do plantel dando “oportunidades” a talentos “da formação”; todos os jogadores cruciais chegam antes do regresso aos trabalhos na nova época; tudo corre bem daí para a frente, pois tamanha eficiência preparatória é meio caminho andado para o sucesso.

 

A época de 1999/00 que culminaria no final de um jejum de 18 anos, começou com a venda do melhor jogador ao Barcelona. Era mais ou menos unânime que o ponto fraco da equipa era o lugar de ponta-de-lança, onde pontuava uma colecção argentina de artrites reumatóides chamada Acosta. Portanto contratou-se um guarda-redes campeão europeu. E um médio espanhol chamado Robaina. E outro médio espanhol chamado Toñito. E por fim espatifou-se quase todo o orçamento da época num extremo argentino chamado Hanuch, “roubado” triunfantemente ao rival. O treinador que fez a pré-época foi despedido em Setembro, e os erros do plantel corrigidos só em Dezembro, com recurso a trocos, a veteranos e promessas adiadas repescadas ao campeonato belga, e a excedentes do Real Madrid B.

 

Ninguém sabe porque é que as coisas boas acontecem.

 

Enakarhire (2004)

 

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                   Miguel Riopa

 

Num clube que durante largos anos raramente fez negócios lucrativos com jogadores que não viessem da formação, Enakarhire foi uma das mais intrigantes exceções. Chegou da Bélgica com 21 anos, custou um milhão de euros, fez 19 jogos para o campeonato (nunca chegou propriamente a ser titular indiscutível), mais um punhado de exibições imponentes na caminhada até à final da EUFA, e foi vendido por seis milhões ao Dínamo de Moscovo.

 

Num espaço de dezoito meses, o mesmo clube russo contratou Nuno Espírito Santo, Maniche, Costinha, Derlei, Seitaridis, Frechaut, Danny. Jorge Ribeiro, Luis Loureiro, e mais uns quantos cujo nome só o Google ainda recorda. Enakarhire praticamente nem jogou em Moscovo: passou duas épocas emprestado, e abandonou prematuramente o futebol aos 26 anos (acabaria por regressar aos 30, no campeonato de San Marino).

 

Terá sido o primeiro vislumbre da deterioração lógica a que foi submetido o mercado de transferências, um prenúncio da entropia que, de acordo com a segunda lei da termodinâmica, vai fazendo com que a entropia de um sistema fechado permaneça a mesma em quantidade, mas decline gradualmente em qualidade – um processo físico cujo culminar será um período não muito distante em que todo o mercado de transferências vai consistir no Wolverhampton a vender o mesmo jogador a si próprio, todos os dias, para sempre.

 

Ghilas (2013)

 

No defeso de 2013/14 era preciso um avançado para fazer concorrência a Montero, e a escolha parecia óbvia: um promissor avançado argelino, alto, forte, raçudo, de crânio rapado, que parecia marcar golos de toda a maneira e feitio. Foi uma contratação bem f... não, não, afinal não, o FC Porto chegou-se à frente, pelo que se teve de ir buscar outra pessoa, da mesma nacionalidade, e com morfologia semelhante, mas com menos potencial, sem qualquer experiência no futebol europeu, e pelo embaraçoso preço de 300 mil euros. Paciência, há momentos assim.

 

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publicado às 13:57

 

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O nosso "amigo" Rogério Casanova, jornal Expresso, está de volta depois de gozar umas boas férias e brinda-nos com a sua análise ao plantel do Sporting, nomeadamente no que diz respeito aos casos mais problemáticos, como sempre, com uma boa dose de humor à mistura. Optámos por não dividir a crónica em capítulos, tornando-se, portanto, um pouco extensa para o que é habitual.

 

Problema: Schelotto e Zeegelaar

 

Para evocar a escala verdadeiramente geológica da questão, apresento o seguinte facto: em conjunto, estes dois defesas-laterais jogaram mais minutos pelo Sporting do que os minutos gastos por Fábio Coentrão a desbloquear a sua situação fiscal em Espanha antes de poder assinar contrato (e com menos resultados práticos). E ainda cá estão, tecnicamente, mas presume-se que não por muito tempo. Ambos, na verdade, reúnem as condições para irem embora muito depressa. Schelotto, honra lhe seja feita, sempre demonstrou a capacidade para ir embora muito depressa; é talvez a sua característica mais elogiável, embora seja frequente vê-lo ir embora muito depressa na direcçãoerrada, com toda a lucidez táctica de um fluxo piroclástico. Se Schelotto vivesse em Pompeia aquando da erupção do Vesúvio em 79, seria hoje um meme viral: uma figura petrificada, preservada para sempre na postura de quem cavalgava a toda a velocidade direito ao vulcão. Entreguem-lhe uma bola e ele cavalga muito depressa até ao adversário. Entreguem-lhe uma lista de compras pararisotto e ele cavalga muito depressa até à secção do esparguete. Existe aparentemente uma proposta para o levar para o Médio Oriente, a troco de cinco cabeças de gado e uma saca de cereais. O principal risco é que apanhe um avião para o Canadá, portanto esperemos que esteja a ser devidamente assessorado.

 

Quanto a Zeegelaar, líder isolado dos rankings Opta e GoalPoint no parâmetro "Jogador Que Mais Vezes Obrigou os Adeptos a Erguer As Sobrancelhas Com um Ar Incrédulo", a explicação mais plausível é que se trata neste momento de um homem paralisado por uma hipertrofia de autoconfiança. O homem deixou o insucesso subir-lhe à cabeça. Acredito que atenda cada telefonema do empresário com genuína perplexidade por o mesmo não lhe apresentar convites do Chelsea ou da Juventus. Não será um qualquer Feyenoord a demovê-lo deste elevadíssimo altar: que hipóteses tem a modesta liga holandesa, quando até o planeta Terra parece demasiado pequeno para os seus talentos? O melhor será enviá-lo para um dos exoplanetas habitáveis cuja descoberta a NASA anuncia de meia em meia hora, e deixá-lo criar sozinho a sua própria equipa, o seu próprio desporto, a sua própria sociedade.

 

Solução: Se aquilo que ambicionamos é um mero upgrade, a solução estará mais ou menos encontrada. Um Fábio Coentrão que entre em campo com um cigarro em cada mão e um esporão calcâneo em cada pé, e que precise de constantes transfusões de sangue durante o jogo para se manter vivo, não conseguirá jogar pior do que Zeegelaar. E arrisco que Piccini conseguirá jogar melhor do que Schelotto até depois de uma lobotomia - ou até durante uma lobotomia.

 

E no entanto: será sonhar demasiado alto exprimir o desejo de que se contrate um lateral cujo pai é um diplomata marfinense que se apaixonou por uma advogada uruguaia num baile de máscaras organizado na embaixada em Brasília? Que tenha passado a infância no Brasil, antes de se mudar com a família para Alemanha aos 9 anos, onde foi prontamente integrado na Academia do Borussia Mönchengladbach, tendo alinhado em todos os escalões jovens da selecção do seu país adoptivo, embora não ponha de parte a hipótese de escolher a Costa do Marfim ou o Uruguai para a sua carreira sénior? Que se encontre neste momento tapado num clube do meio da tabela na Bundesliga pelo experiente titular, mas não deixe por isso de custar pelo menos 8 milhões de euros, tendo em conta o seu inquestionável potencial? Que seja rápido, forte, potente, meça 1,85m, exiba peitorais de titânio e tranças oxigenadas, tenha um bom primeiro toque e saiba cruzar por alto, embora prefira o cruzamento rasteiro e atrasado? Que se chame, por exemplo, Maximiliano Cissé ou Juan Ramón Traoré ou Pablito Coulibaly?

 

Não é um conjunto assim tão utópico de características: é meter o scouting a trabalhar, e passar o cheque.

 

Problema(s): a venda de Rúben Semedo, o pé direito de Paulo Oliveira, o pé esquerdo de Paulo Oliveira, o título de 1999/00, a persistência da memória, a ilusão tóxica da nostalgia

 

É a característica mais pitoresca do coro dogmático constituído pelos adeptos de um clube durante o defeso: a convicção de que o propósito central do período de transferências é a regeneração da memória colectiva, e a consequente vontade de reproduzir as condições exactas do maior sucesso do passado recente. A juntar a isto, precisamos de um defesa-central.

 

Solução: Era uma questão de tempo até tentarmos encontrar uma sequela de André Cruz. Um central trintão, experiente, esquerdino, internacional pelo seu país e com passagens por grandes clubes, mas com uma reputação surpreendentemente periférica para a qualidade que tem e o currículo que acumulou. Que seja alto e até algo corpulento, embora com uma pujança mais etérea do que propriamente física, que seja mais esperto do que rápido, mas que se destaque acima de tudo com a bola no pé, que é como vai passar 90% do tempo em 90% dos jogos. Deste ponto de vista, bem vistas as coisas, o principal problema na contratação de Mathieu é ter acontecido agora e não em Dezembro, como medida desesperada. (E não saber marcar livres, o que é uma pena).

 

Problema: Francisco de Oliveira Geraldes continua a ler livros.

 

Solução: Pô-lo a jogar, sempre.

 

Problema(s): a provável perda de William, a natureza efémera da felicidade

 

Não deve passar desta pré-época: William Carvalho vai levar o seu roupão de flanela e banhar-se numa outra cascata de Martinis, lá longe, no estrangeiro. No seu lugar deixa um vazio, mais profundo ainda no coração de quem sabe quão injusto é o cepticismo que o rodeia. Apesar de tudo, é possível que, caso as coisas sejam bem feitas, os adeptos percam mais do que a equipa, que, para usufruir regularmente de uma fracção do seu talento precisa de transcender limitações razoáveis, com benefícios nem sempre aparentes. William joga como um espelho cuja superfície não reflecte a luz, optando por absorvê-la, anexando confiantemente as suas características. E debaixo daquela elegante solidariedade, notava-se quase sempre uma impaciência severa, um juízo moral em plena execução. Resta-nos colmatar a perda dos inúmeros momentos em que sentimos o cérebro subitamente inundado por químicos de altíssima qualidade (um passe imaculado produz muitas vezes este efeito, especialmente quando se é adepto do Sporting) com a sensação semi-exultante e semi-fraudulenta de que se conseguiu algo a troco de nada.

 

Solução: Antes de mais, assimilar a noção de que a vida continua. De seguida, resistir à tentação de o substituir por uma réplica e apostar num modelo diferente: um trinco brutamontes, que se comporte como um senhor feudal à procura de camponeses para subjugar, e não como um Prometeu moderno, que nos tenta mostrar o segredo do fogo perante o nosso olhar cretino e ingrato.

 

Problema: a birra de Aquiles

 

É uma história antiga. Na verdade, é a mais antiga de todas: a Literatura começou assim. No último ano da Guerra de Tróia, décima temporada de Aquiles com a camisola dos Aqueus, o valoroso guerreiro sentiu-se desrespeitado por Agamemnon, quando este lhe roubou Briseia (uma escrava de quem Aquiles se tornara personal trainer a título pro bono) e lhe bloqueou uma transferência milionária para o exército Eólio. Aquiles artilhou uma birra épica, retirou-se para a tenda de campanha, e garantiu numa entrevista exclusiva concedida ao pergaminho diário Jogus que não voltava a sair enquanto a situação não fosse resolvida, comportamento de resto caucionado pelo pai, que tratou de explicar a quem o quisesse ouvir que o seu filho "sempre honrou a camisola grega, e não merece ser tratado desta maneira". A situação ficou bastante complicada, mas Aquiles acabou por ceder e sair da tenda, prometendo dar tudo em prol do grupo de forma a ajudar as tropas de Agamemnon a conquistar os objectivos, mas o certo é que a qualidade das suas exibições no campo de batalha nunca mais foi a mesma, e o seu estatuto entre os adeptos sofreu por arrasto, e portanto cá estamos.

 

Solução: Vender o homem por 30 milhões a um clube que os queira pagar será o primeiro passo. Para o seu lugar, quem sabe? Bruno Fernandes parece a escolha óbvia, mas discernir as intenções de Jorge Jesus transformou-se numa actividade cabalística, onde se procura adivinhar a sequência correcta dos caracteres que compõem o Nome divino. Há quem olhe para Bruno Fernandes e veja alguém que pode ter um papel semelhante ao de João Mário, derivando das linhas para fornecer apoios interiores. Há quem olhe para Marcos Acuña e veja alguém que pode ter um papel semelhante ao de Adrien, uma espécie de charrua topo de gama para lavrar o terreno inteiro entre duas áreas. Battaglia, cujas características serão talvez as mais semelhantes, fica a perder em termos estritamente qualitativos, e parece aliás ser candidato a uma posição mais recuada.

 

Ou seja, a época pode teoricamente começar com um médio-centro adaptado á faixa direita, um médio-ala adaptado ao centro do terreno, e um todo-o-terreno adaptado a trinco posicional. É um cenário intrigante (e que não creio vir a cumprir-se), mas que colocaria estimulantes dúvidas adicionais. Como se comporta Jorge Jesus no seu dia-a-dia? O que faz, por exemplo, quando lhe apetece comer um prego? Compra uma carcaça e um bife de vaca? Ou compra uma almofada e uma courgette e tenta adaptá-las?

 

Problema: Orçamento

 

De acordo com a internet, continua a existir uma situação de seu nome VMOCs, com respectivos "prazos de conversão", que pelos vistos não sei quê e não sei que mais.

 

Solução: Aprender a pronunciar a palavra VMOC de forma mais criativa - o "O" homossexualmente prolongado, um semi-mudo "E" antes do "M" - como se invocássemos o nome de um obscuro poeta simbolista francês, e conduzir todas as conversas, especialmente com adeptos de clubes adversários, para esse campo ("pouca gente fala na profunda influência em Apollinaire da obra de Vemôque", etc).

 

Problema: Iuri Medeiros

 

Iuri Medeiros não é propriamente um problema, mesmo que não saibamos ainda o que é. Sabemos o que parecia ser, e sabemos o que pode vir a ser, que são duas coisas algo diferentes, e o jogador lá vai deambulando de empréstimo em empréstimo com este ontologicamente problemático estatuto.

 

Num conto de Henry James intitulado The Private Life, há uma personagem chamada Lord Mellifont, universalmente reconhecido como a figura mais carismática de toda a Grã-Bretanha, com o dom de dizer sempre a palavra certa na situação certa, e a capacidade para dominar qualquer grupo onde seja inserido. A dada altura no conto, outra personagem (e o leitor) faz uma descoberta assombrosa: Lord Mellifont só existe na presença de terceiros, e desmaterializa-se quando sozinho. A temporária não-existência é o preço da sua enérgica e assídua incisividade: "que outra forma de repouso", pergunta o narrador, "poderia restaurar tamanha plenitude de presença?"

 

Gelson Martins e Podence jogam como talentos precoces de 16 anos, e continuarão a jogar dessa maneira durante muito tempo; Iuri joga como um veterano de 34, e joga dessa maneira pelo menos desde os juvenis: como quem protege o segredo do seu declínio, como quem se sabe obrigado a conservar energias, como quem aposta as fichas todas num ataque furtivo e quase sempre bem sucedido. É o equivalente futebolístico a um submarino, cuja eficácia depende de não ser visto até ser tarde demais. Apesar da aposta contra-intuitiva em Alan Ruiz (que, no somatório de qualidades e defeitos, tem mais em comum com Iuri Medeiros do que com qualquer outro jogador do plantel), sabe-se que o actual treinador prefere lanchas rápidas a submarinos atómicos, e que o seu naipe de preconceitos tem menos a ver com tipologias físicas do que com estilos de intensidade. O que ele quer é alguém 90 minutos ligado à corrente, e não quem aparece cinco vezes por jogo a carregar no botão para uma demolição controlada.

 

Solução: A tentação é escrever "Iuri Medeiros", mas Iuri Medeiros não é propriamente uma solução para o problema de Iuri Medeiros, mesmo que não saibamos ainda o que é. A solução alternativa é espatifar 16 milhões de euros em Pity Martinez, que a julgar por três jogos e alguns vídeos do YouTube, já fez mais cuecas na vida do que a Victoria's Secrets, e rezar que tudo corra bem.

 

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publicado às 16:11

Futebol com humor à mistura (30)

Rui Gomes, em 24.05.17

 

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Terceira série - e última edição desta época - de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting na 34.ª jornada a I Liga diante o Chaves:

 

Podence

Vê-lo a receber a bola sozinho no meio de calmeirões continua a estimular o instinto maternal de qualquer pessoa saudável, mas na verdade precisa tanto de protecção como um troll do 4chan a semear a discórdia por motivo de lulz. Aquele constante frenesim de agitação, e a capacidade para acelerar o jogo com e sem bola, deram frutos logo aos 10 minutos, quando sacou um penalty - e proporcionou um divertidíssimo momento ao minuto 36, quando conseguiu colocar - sozinho - dois defesas do Chaves em inferioridade numérica.

 

Bas Dost

Acumulam-se os sinais de uma incompreensível falta de egoísmo. Ao minuto 26, com tempo e espaço na área para receber a bola, sentar-se, puxar de um tablet, preencher a declaração de IRS, esperar que a aplicação Java carregasse, validar, submeter, levantar-se, e consumar o hat-trick, preferiu assistir de cabeça um colega que não chegou a tempo. Mais preocupante ainda foi o momento em que veio dobrar Jefferson à lateral esquerda, recuperando uma bola em esforço e atrasando para Beto.

 

Não sei se o merecemos. Despediu-se do jogo, e encerrou oficialmente a Liga, com mais um golo (o segundo penalty do jogo), que agradeceu de forma típica, envolvendo nos seus braços o amor que emanava das bancadas.

 

Bruno César

Adaptado a Bryan Ruiz, cumpriu, na medida em que, certamente, e, portanto e em suma, sem dúvida.

 

Francisco de Oliveira Geraldes, visconde de Alvaláxia, e futuro Prémio Nobel da Literatura em 2053

Entrou bem, para surpresa de exactamente ninguém.

 

Gelson Dala

A última substituição da época, que assim a definiu na perfeição: não chegou a tocar na bola.

 

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publicado às 04:21

Futebol com humor à mistura (29)

Rui Gomes, em 23.05.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo de domingo passado com o Chaves:

 

Palhinha

Lance paradigmático aos 7 minutos: depois de uma perda de bola de Gelson e desposicionamento de Esgaio, mostrou noção perfeita do espaço que podia cobrir, deu passos na direcção certa, desarmou um contra-ataque potencialmente perigoso antes sequer de o rastilho acender, e transformou o sobressalto em novo ataque com dois toques simples. A segunda parte da equação nem sempre lhe corre tão bem (e falhou o único passe mais arriscado que tentou), mas é intratável nos duelos individuais, sabe usar o corpo como poucos, e desde que se refugie na lucidez que possui, pode vir a dar melhor jogador do que alguns (eu, por exemplo) adivinhavam.

 

Gelson Martins

Uma exibição de capoeira a decorrer em permanência no interior de um TGV: para o bem e para o mal, Gelson é isto. E é quase tão difícil assimilar aquela hiperactividade enquanto colega do que enquanto adversário. Formou, nos primeiros 45 minutos, uma intrigante tripla de trincos todo-o-terreno com Adrien e Podence: um vendaval de intensidade sem bola que mostrou um vislumbre daquilo que poderia ter sido uma época diferente. Com bola, a intermitência do costume na decisão, mas capacidade suficiente para desequilibrar sempre que quer, e para somar mais uma assistência.

 

Adrien

O grande passe para isolar Jefferson na esquerda logo a abrir terá sido a sua intervenção ofensiva mais vistosa, mas mostrou mais esclarecimento intuitivo com bola e mais energia nas compensações frenéticas sem ela do que tem sido norma nas últimas semanas e isso contribuiu subterraneamente para aquilo de bom que a equipa fez. Ao minuto 38, aproveitou a primeira ocasião que teve para protestar (uma falta que, de facto, não cometeu) para soltar alguns meses de frustração acumulada. Como eu o compreendo.

 

Matheus Pereira

Entrou com quilos a mais no pé esquerdo e, não pela primeira vez, mostrou mais boas ideias (raramente toma uma má opção ofensiva, excepto quando não arrisca o que sabe) do que boa execução. Toque com demasiada força ao minuto 8, outra excelente ideia estragada com passe demasiado longo ao minuto 24, e um livre indirecto pouco depois que proporcionou à bola a oportunidade de conhecer a mesosfera. À passagem da meia hora, desconfiando que se calhar isto de ser canhoto foi uma mentira que lhe contaram na infância, puxou para o pé direito e marcou golo. Ainda não mostra a intensidade e solidariedade defensiva de Gelson, e deixou por duas vezes o seu lateral sozinho contra dois, mas compensou vindo à faixa contrária cancelar um contra-ataque, numa jogada que lhe valeu o amarelo. Saiu pouco depois.

 

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publicado às 04:11

Futebol com humor à mistura (28)

Rui Gomes, em 22.05.17

 

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A última edição da época 2016/17 de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting diante o Chaves:

 

Beto

Assim que se soube a notícia da sua merecida presença no onze inicial havia apenas uma dúvida a esclarecer: seria Beto capaz, depois de tão longo período de inactividade, de se mostrar à altura do titular e não ter culpas no golo sofrido? Não ter culpas no golo sofrido nem sempre é tarefa tão fácil quanto Rui Patrício a faz parecer, e as perspectivas não eram animadoras. Só ao fim de 20 minutos (no segundo exacto em que a greve das claques terminou) Beto conseguiu mostrar trabalho, com uma saída aos pés de Elhouny. E a partir daí pouco mais teve a fazer, excepto resolver episódicos atrasos. O seu ânimo já certamente esmorecia quando, com uma hora de jogo, não teve - de forma triunfante - quaisquer hipóteses de defesa, e portanto quaisquer culpas, no golo do Chaves. Antes do apito final ainda fez mais uma excelente defesa a um livre, mas uma saída atabalhoada num cruzamento podia ter corrido mal. Apesar dessa única falha, provou que podem continuar a confiar nele para não ter, de vez em quando, culpas nos golos sofridos.

 

Esgaio

Um indivíduo tão discreto, tão pacato, com tamanha aura de boa e anónima pessoa, que a obrigação profissional de jogar futebol à frente de tanta gente parece sempre uma maldade que lhe estão a fazer. Ricardo Esgaio faz lembrar uma encarnação de Fernando Pessoa que nunca publicou um verso, e que passou toda a sua santa e tranquila vidinha a traduzir correspondência comercial, a beber um casto copo de vinho ao fim da tarde no Abel Ferreira da Fonseca, e a escrever o ocasional bilhete à Ophélia, antes de se retirar para um quarto alugado e adormecer a inventar heterónimos: o veloz lateral Esgainho, o possante lateral Ricky Esgailéz, o implacável lateral Ryszard Esgayolov...

 

Coates

Um jogo tranquilo, em que algumas pessoas más invadiram de vez em quando a sua privacidade, perturbando assim o funcionamento regular do heteropatriarcado normativo que transporta constantemente num perímetro de 5 centímetros à volta da sua pessoa.

 

Rúben Semedo

O brilhante deslize aos 4 minutos, com uma recepção deficiente dentro da área em que deixou a bola patinar-lhe alegremente pelos pitons a caminho de outra pessoa, podia prometer uma exibição desastrada. Como Semedo reage nestas ocasiões é sempre uma lotaria, mas começa a detectar-se um padrão: encarar a calamidade latente como um desafio, e encontrar o mais depressa possível um ritual de passagem que lhe permita superá-lo. Hoje optou por ensaiar um desarme arriscadíssimo ao minuto 22, em que conseguiu roubar uma bola numa posição quase impossível, e em que o risco de fracasso seria quase de certeza uma grande penalidade e uma penalização disciplinar.

 

Rúben: pardonne-leur, car ils ne savent ce qu'ils font.

 

Jefferson

A cidade de Tebas era assolada por uma cena bué medonha chamada Esfinge, e Édipo, recém-nomeado director-adjunto do Departamento de Lidar Com As Esfinges, foi ao terreno avaliar a situação. Cruzando-se com ela num relvado secundário, abordou-a. A Esfinge pousou a mão na sua fronte e presenteou-o com um enigma: "Qual é a criatura que no início da época tem zero pernas; a meio da época tem uma única perna, mas coxa; e no último jogo, quando já nada interessa, parece ter o número correcto de pernas, o mesmo que tinha durante a época 2013/14?".

 

Édipo pensou um pouco no enigma da Esfinge, e foi nesse dia que começou a fumar.

 

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publicado às 05:30

Futebol com humor à mistura (26)

Rui Gomes, em 15.05.17

 

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A segunda edição de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no embate com o Feirense:

 

William Carvalho

A diferença entre a boa forma e a má forma não redefine ontologicamente um jogador, mas ver os mesmos atributos na sua versão satírica tem a rara capacidade de ampliar drasticamente a nossa capacidade para dizer palavrões, dos quais, se formos justos, logo nos arrependemos. Não deixa de ser triste, ver aquele fluído rodopiar sobre flanela reduzido nos últimos tempos a uma colecção de maneirismos de barroca futilidade – como as vénias protocolares diante da Raínha de Inglaterra, em que é preciso um algoritmo para memorizar a sequência correcta de movimentos.

 

Gelson Martins

Marcou o único golo da equipa, na sequência de um lançamento lateral em que a bola não passou pelo pé de nenhum colega antes de chegar ao seu, uma jogada que transporta uma lição valiosa sobre quais as partes do corpo que os futebolistas do Sporting devem evitar usar nesta fase complicada. Além disso, cumpriu a sua função: imprimir desorganização à manobra defensiva adversária, algo que seria colectivamente mais eficaz caso os colegas tivessem a mesma capacidade de improvisar no meio do caos, em vez de parecerem tão surpreendidos como os defesas fintados por Gelson. Mas continua a nem sempre decidir bem. Aos 48 minutos deixou Schelotto isolado na área, com um passe, por definição, indesculpável.

 

Adrien Silva

Ao minuto 72, num espaço de 3 segundos, a bola atingiu a barra da equipa do Feirense, o poste da equipa do Feirense, e a luva direita do guarda-redes do Feirense (neste último caso, rematada por Adrien). Seria a imagem perfeita da época de Adrien, caso a bola tivesse também sofrido um estiramento muscular antes de sair pela linha de fundo.

 

Bruno César

Numa época em que foi médio-esquerdo, médio-direito, médio-centro, segundo avançado, lateral-esquerdo, lateral-direito, vogal da Mesa da Assembleia Geral, fisioterapeuta adjunto, cantoneiro, motorista, nadador-salvador, e czar de todas as Rússias, foi hoje adaptado a nova posição: homem invisível. Cumpriu a tarefa, como faz sempre, com brio e imensa competência.

 

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publicado às 19:14

Futebol com humor à mistura (25)

Rui Gomes, em 14.05.17

 

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Mais uma edição de comentários humorísticos da autoria de Rogério Casanova, jornal Expresso, relativamente à performance dos jogadores do Sporting nos jogos da I Liga, desta vez no jogo deste sábado com o Feirense:

 

Rui Patrício

Uma pequena viagem no tempo, e um jogo bastante diferente do que tem sido hábito nesta época penosa. Teve culpas nos golos sofridos? Não, não exactamente. Mas o que teve no primeiro golo foi, num certo sentido, ainda melhor, mais profundo, mais característico: teve um bocado de azar! Antes já tinha evitado outro, com uma defesa por instinto aos 13 minutos, e voltou a fazer excelentes defesas aos 38 e 87. Nos descontos, com todos os colegas animicamente de rastos e sem vontade alguma de estar em campo, deu uma corrida desenfreada para ir buscar a bola fora da área e acelerar a reposição em jogo, na esperança de que o empate ainda fosse possível. Foi o momento mais comovente da noite, e talvez da época.

 

Schelotto

“Onde reside a contradição cómica?”, perguntam vocês, tendo fumado a quantidade suficiente de charros para tal. Aqui, por exemplo, respondo eu, a partir das profundezas intoxicadas da minha total incredulidade: na colisão entre as leis imutáveis e inorgânicas que regulam o universo material (que não possui telos) e o comportamento de criaturas vivas e conscientes – que são dirigidas por impulsos de curto ou longo prazo, ou então, em casos raros, se chamam Schelotto. Ignorar o presente em função do futuro é o que nos torna humanos. Mas também é o que nos faz tropeçar no obstáculo ignorado, ou espatifar passes simples contra tornozelos não antecipados, ou então, em casos raros, ganhar uma internacionalização pela Itália e jogar no Sporting. “Porquê, porquê”, perguntam vocês, acendendo mais uma. Porque lol, porque nothing matters, porque um dia vamos todos morrer.

 

Coates

Quase sempre intransponível nos lances disputados com os avançados do Feirense, roubando bolas no confronto directo com a tranquilidade do costume. A construir esteve menos bem, e participou em algumas saídas de bola atabalhoadas e precipitadas, o que pode reflectir apenas uma vontade de se integrar no espírito de grupo. Aos 92, numa altura em que ainda podia haver algumas dúvidas sobre a exibição do guarda-redes adversário, teve a generosidade suficiente para ir lá à frente permitir-lhe uma defesa para acabar com as dúvidas.

 

Rúben Semedo

Adivinhou-se-lhe cedo a intenção de conceder imunidade diplomática ao adversário, e a defender foi intransigente na aplicação da doutrina da coexistência pacífica. A bola, quando existe, é para todos, e não seria Rúben Semedo a criar as condições de opressão para impedir 50% da população em campo de se divertir também com ela, tendo por esse motivo evitado fazer muitos cortes. Mas quando um avançado do Feirense lhe ganhou espaço já dentro da grande área, considerou que isso era ir longe demais e abusar da sua magnanimidade, tendo retaliado de pronto.

 

Jefferson

Ronaldinho Gaúcho patenteou a habilidade que consiste em olhar para um ponto indefinido à sua frente e passar a bola para o colega ao seu lado. Imbuído da mesma criatividade brasileira, Jefferson desenvolveu a proeza análoga de olhar para um colega ao seu lado e passar a bola para a bancada à sua frente. Apesar de tudo, não fez um jogo horrível (é este o padrão de avaliação actual), e ganhou algumas faltas com jogadas de insistência. Nota artística também ao minuto 82, quando teve algum espaço na linha, mas antes de efectuar novo cruzamento, decidiu ensaiar uma pequena dança regional em cima da bola.

 

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publicado às 15:00

Futebol com humor à mistura (24)

Rui Gomes, em 10.05.17

 

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A terceira e última série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no encontro da última jornada com o Belenenses:

 

Bryan Ruiz

Grande momento ao minuto 33 quando apalpou a bola com a perícia de um connoisseur e exigiu ao árbitro a sua troca imediata. "A bola", esclareceu o comentador da Sport TV, "que é um instrumento fundamental neste jogo". É irrefutável. Outro instrumento fundamental neste jogo é a presença em campo de jogadores que saibam fazer mais do que perceber se a bola tem ar ou não.

 

Bas Dost

Um jogo em que supervisionou atentamente o tráfego aéreo de bolas que sobrevoaram o seu instinto finalizador ao longo de noventa minutos. A época que fez, o número de golos que marcou, é própria de um titular num clube campeão (embora em jogos como o de hoje pareça um milagre). Por outro lado, sem Dost, a época seria um cadáver encontrado num contentor nas traseiras de um armazém em Xabregas.

 

Joel Campbell

Substituiu Ruiz e assumiu ele as despesas de fazer maus cruzamentos a partir da faixa esquerda. Entrou cheio de vontade de cumprir essa honrosa missão, e nos primeiros minutos em campo conseguiu fazer maus cruzamentos por alto, maus cruzamentos rasteiros, e maus cruzamentos contra os adversários. Depois foi-lhe faltando a versatilidade necessária para conseguir não tropeçar na bola quando progride com ela, o que dificultou naturalmente a execução de maus cruzamentos adicionais.

 

Luc Castaignos

A "Hipótese Campbell-Castaignos" poderia ser um bom nome para uma teoria científica sobre o comportamento de partículas sub-atómicas. Nunca poderia, nem nunca poderá, ser uma dupla substituição feita na segunda parte para tentar ganhar um jogo.

 

Francisco Geraldes

DÊEM-LHE. MAIS. MINUTOS. PORRA.

 

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publicado às 05:12

Futebol com humor à mistura (23)

Rui Gomes, em 09.05.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Belenenses:

 

William Carvalho

Desde que a época deixou de proporcionar expectativas realistas para a conquista de algum troféu, William tem alternado exibições no limite inferior do razoável e exibições francamente incompreensíveis. A de hoje esteve num ponto intermédio desse penoso eixo, sempre naquele estilo de deus otiosus: a divindade que imaginou o futebol e todas as suas implicações num passado longínquo, mas que agora encara a Criação com a apatia perplexa de quem sente o fragmentar da sua infalibilidade, de quem vê a sinistra obstinação dos objectos em resistir às suas intenções, de quem prefere retirar-se para o Olimpo e pintar aguarelas em vez de continuar ali a tentar perceber o que raio nos aconteceu a todos, e a ele.

 

Adrien Silva

Na melhor oportunidade da primeira parte, rematou ao lado, e foi ele quem fez a falta que resultou no 1-2. É outro caso de fadiga mental permanente, que lhe parece reduzir a cada lance o número de alvos ao dispor da sua frenética intuição. Dedicou quase toda a energia hoje a recuperar bolas que ele próprio tinha perdido, dissipando o resto em más faltas, e más ideias. O esforço que se lhe vê é nesta altura mais desespero do que garra - joga como um revolucionário cujo objectivo inconsciente não é a tomada do poder, mas a gloriosa auto-imolação.

 

Matheus Pereira

Entrou muito mal na tomada de decisão e presidiu ao velório de algumas jogadas promissoras nos primeiros minutos. Quando passou para a faixa esquerda teve mais bola, e mais espaço - dádivas que encarou sempre com a desconfiança de quem acordou em Tróia e encontrou um enorme cavalo de madeira no sítio onde deviam estar os chinelos de praia. Os gemidos de impaciência da bancada fizeram-se ouvir infalivelmente nas situações erradas - as raras vezes em que arriscou o lance individual, nalgumas perdendo a bola, noutras criando esporádicos desequilíbrios - quando o que devia ser assobiado sem contemplações é a sua propensão para se livrar da bola o mais depressa possível. A ideia que fica desde que se estreou na equipa principal é que lhe falta arrogância à altura do talento.

 

Bruno César

Marcou cantos (com a inócua competência do costume). Tentou desequilíbrios (com a inócua competência do costume). Na sua passagem pela faixa esquerda (jogou, também como é costume, em quatro posições diferentes) construiu a melhor jogada ofensiva da primeira parte, deixando Adrien em boa posição para fazer golo. Acabaria por ser ele a fazê-lo, finalizando em esforço um centro disparatado de Ruiz e embatendo com violência no poste. Para surpresa de todos, não se auto-adaptou a médico para resolver ele mesmo o problema.

 

Terá sido, não pela primeira vez, dos menos maus hoje.

 

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publicado às 04:07

Futebol com humor à mistura (22)

Rui Gomes, em 08.05.17

 

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A já bem conhecida rubrica de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no desaire diante o Belenenses:

 

Rui Patrício

Não teve culpas no primeiro golo sofrido! Ainda adivinhou o lado para o qual Camará rematou, mas era impossível adivinhar que o remate de Camará transportava informação encriptada directamente por Eurípedes sobre a fúria de Medeia, cidades incendiadas, o assassinato de Glauce e Creonte, e a honra ferida da cidade de Corinto, pelo que não era justo pedir-lhe mais. Também não teve culpas no segundo golo sofrido. Nem no terceiro golo sofrido. Durasse o jogo mais noventa minutos e estaria igualmente ilibado de quaisquer culpas no quarto, quinto e sexto golos sofridos. #consistência.

 

Schelotto

Aos cinco minutos, em vez de cruzar, preferiu poupar tempo a todos os envolvidos (colegas, adversários, público) chutando a bola directamente contra os painéis publicitários em vez de a catapultar para trás da baliza de Ventura. Decisão que se compreende a aplaude, e que chegou a sugerir aos mais optimistas o florescer de uma nova maturidade competitiva. Ainda voltou a fazê-lo na segunda parte, mas um episódio de recidivismo levou-o depois a tentar cruzar para a área. Também na segunda parte - antes, muito antes, de perder criativamente a bola que viria a resultar no penálti para o Belenenses - mostrou toda a sua capacidade para a inesperada proeza de coordenação motora, ao fazer um carrinho em esforço para conseguir chegar a uma bola que lhe tinha sido passada para os pés, e quando estava sozinho junto à linha. O dia em que usa o "carrinho em esforço" até para entrar em campo não deve estar longe.

 

Paulo Oliveira

Quando nos metemos em cima de uma balança, estamos essencialmente a aprender a soma dos núcleos dos nossos átomos, essas centelhas de massa que nos dotam de integridade e (em casos excepcionais) competência, no interior de uma nanovastidão de espaço vazio; subtraíssemos essa massa e pesávamos todos 20 gramas. É tudo uma questão de escala: se o núcleo de um átomo fosse uma bola de futebol no centro do planeta, os electrões seriam uma nuvem de pevides a pairar nas camadas exteriores da atmosfera. Entre a bola e as pevides, não haveria nada: nem níquel, nem ferro, nem magma, nem solo, nem Terra, nem ar, nem amor, nem sorte, nem a perna esquerda do Paulo Oliveira, nem tão pouco a direita, e muito menos a cabeça. Apenas a presença solidamente espectral de Gonçalo Silva, natural do Barreiro, onde se situam, de resto, imensos electrões.

 

Coates

Começou o jogo a dobrar William, que tentava dobrar Bruno César, que tentava dobrar Zeegelaar, que tentava dobrar Hezron, que tentava dobrar Amminadab, que tentava dobrar Jehoshaphat, que tentava dobrar Eliakim - e assim sucessivamente, na intrigante recriação do Evangelho segundo São Mateus que foi hoje o processo defensivo do Sporting. Ao minuto 57, depois de nova dobra defensiva em que desarmou Camará depois de este ultrapassar Paulo Oliveira, ensaiou uma dobra ofensiva, desenvolvendo a melhor jogada feita por um indivíduo na posição de lateral-direito durante a partida de hoje.

 

Zeegelaar

Tal como filmes e romances, os desportistas também se podem dividir em géneros. Há desportistas trágicos, com carreiras dramaticamente enriquecidas por várias calibrações de desgraça e acidente; desportistas épicos, destinados a percursos coroados com momentos de glória. Há desportistas que são ficção científica (Messi); e desportistas que são epopeias bélicas ao estilo Tora! Tora! Tora! (Ronaldo). Há desportistas da Harlequin, cuja popularidade depende menos da qualidade do que de satisfazerem outras preferências (Nuno Capucho, Anna Kournikova). E depois há desportistas que laboram a vida inteira num equívoco, absolutamente convencidos de que são um soneto de Petrarca, quando na verdade são uma curta-metragem de Ed Wood: tentáculos de borracha presos por arames, erguidos no topo de um ego inexplicável.

 

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publicado às 03:30

Futebol com humor à mistura (21)

Rui Gomes, em 03.05.17

 

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A terceira e última edição de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no recém-embate com o SC Braga:

 

Alan Ruiz


Não entrou bem; falhou os primeiros passes longos que tentou e perdeu uma bola perigosa no meio-campo aos 12 minutos. Pouco depois, encontrou pela primeira vez o espaço necessário para armar um remate (um processo que lhe exige sempre um colossal esforço administrativo), mas saiu ao lado. Não chegou à meia-hora, e a maneira como se agarrou ao joelho indica que teremos de aguardar várias meias-horas até o voltarmos a ver.

 

Bas Dost


Cumprida a formalidade de enviar uma remessa de mais dez milhões de euros ao Wolfsburgo (com um pedido de desculpas por termos pago tão pouco no verão passado), creio ser altura de reservar parte do orçamento do próximo defeso para contratar um artista plástico e fazer uma escultura: Bas Dost, sozinho na área, à excepção do ramalhete de jogadores adversários pendurados no seu dorso como decorações natalícias, com um olho a supervisionar a trajectória da bola na direcção da baliza, e o outro já à procura de um colega para abraçar. (Ou, como aconteceu hoje com Schelotto, ignorar - de forma a preservar o bom nome do futebol).

 

Podence


Entrou aos 27 minutos, e ganhou um penalty aos 29. Com repentismo e vivacidade para corrigir quase sempre os lances que não resultam à primeira, é daqueles jogadores (um pouco como Adrien, curiosamente) cuja lucidez opera melhor quanto maiores forem as contrariedades circunstanciais. Em zonas centrais, ganhou várias vezes o espaço necessário (numa fracção do tempo de Alan Ruiz) para rematar de longe (com uma fracção da potência de Alan Ruiz). Merece a titularidade no resto da época, até para podermos confirmar uma série de coisas.

 

Bryan Ruiz


De todos os futebolistas na pré-reforma a jogar regularmente numa liga do Médio Oriente, é claramente o que mais minutos continua a acumular nos relvados europeus.

 

Jefferson


Entrou para impedir que Zeegelaar continuasse a fazer o seu competentíssimo jogo e visse um competentíssimo segundo amarelo.

 

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publicado às 19:00

Futebol com humor à mistura (20)

Rui Gomes, em 02.05.17

 

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A segunda edição de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo contra o SC Braga:

 

William Carvalho


Fernando Pessoa (bom começo de texto, muito promissor; vamos ver o que nos guarda o resto do parágrafo), Fernando Pessoa, dizia, definiu a sátira como a capacidade para traduzir um objecto, sem erro de tradução, para algo que, mantendo as propriedades intactas, é inferior a si próprio. O audacioso projecto estético de William Carvalho na primeira parte do jogo de hoje foi isto: mimetizar acrobaticamente a incompetência em tarefas especializadas - como Chaplin (bom parêntesis, este, muito pertinente) - apresentando-nos uma versão atenuada de faculdades ainda assim reconhecíveis como as suas. Veja-se por exemplo, a maneira como substituiu os seus rodopios episcopais pelos gestos típicos de quem ficou com a bengala presa entre duas pedras da calçada! Ou a maneira versátil como divulgou passes longos na primeira parte: alguns foram parar a adversários; outros a colegas, mas em posição de fora-de-jogo; outros ainda à linha lateral, ou à bandeirola de canto. Na segunda parte sentiu a exaustão própria dos projectos avant-garde e jogou melhor; mas a obra fica, para sempre.

 

Gelson Martins


Criou praticamente todos os desequilíbrios da equipa: ganhou as costas à defesa do Braga inúmeras vezes, sofreu o penalty, obrigou Schelotto a cruzar bem no lance do golo decisivo e mostrou, no geral, uma indisfarçável incapacidade para esgotar a pilha, como uma daquelas sondas da NASA cujo prazo de validade devia expirar a seguir a Júpiter, mas que por motivos misteriosos continuam a funcionar até à Cintura de Kuiper, já depois de o programa ter sido encerrado, transmitindo informação específica sobre a percentagem de metano e amónio nos tornozelos de laterais-esquerdos distantes.

 

Adrien


A energia e a vontade estão lá (a espaços); o esclarecimento em alta rotação é que só aparece de vez em quando. Por muito que nos custe (e em grande parte pela sucessão de lesões), foi o principal impulsionador do processo de gentrificação ocorrido no meio-campo do Sporting: o bairro tradicional da época anterior é agora uma realidade com dinâmicas sociais tão alteradas que qualquer turista se sente mais confortável que os antigos moradores. De jogos em que Adrien parecia liderar a orquestra na Cavalgada das Valquíria, passámos a vê-lo sozinho em casa a martelar num xilofone. Não é que tenha feito um jogo péssimo (como fez há duas semanas); é só que, para isto funcionar, precisamos dele a um nível sobrenatural.

 

Bruno César


Foi o marcador de cantos de serviço - o que nos primeiros 45 minutos foi um emprego a tempo inteiro. Conseguiu marcá-los todos bem e ao mesmo tempo não criar qualquer perigo com nenhum, no fundo um bom resumo da sua exibição. Numa época em que a sua versatilidade competente foi testada até aos limites do absurdo, não seria má ideia enviá-lo uns tempos para o Luso.

 

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publicado às 05:30

Futebol com humor à mistura (19)

Rui Gomes, em 01.05.17

 

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Mais uma edição de comentários humorísticos da autoria de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting na última jornada, diante o SC Braga:

 
 

Rui Patrício


Imbatível, mais uma vez, a efectuar os gestos necessários para recuperar a bola do fundo das redes e devolvê-la ao centro do terreno. Insuperável, como sempre, no esporádico resgate aéreo de bolas inofensivas. Inactivo, como é habitual, durante grande parte do jogo. Isento, para não variar, de quaisquer culpas em ambos os golos sofridos. Imutável - demonstravelmente imutável - este estado de coisas (e de parágrafos), pelo menos a curto prazo.

 

Schelotto


É um cenário muito comum na época estival. Imaginem uma mosca a desenhar as suas parábolas contra uma parede branca. Procuramos acertar-lhe furtivamente com um exemplar enrolado da Dica da Semana; falhamos; voltamos a tentar; a mosca elude quatro ou cinco ataques; a nossa exasperação aumenta - e a violência das tentativas também, até ao ponto em que a Dica da Semana já retém poucas das propriedades essenciais de um objecto sólido, ao contrário da mosca, cujos ziguezagues erráticos são agora ainda mais enérgicos. À medida que este ciclo progride, a mosca terá consciência de participar num "ciclo"? Será capaz de monitorizar o comportamento repetitivo do agressor? De sentir a ameaça de uma conspiração organizada contra os seus melhores interesses? De formular e/ou assimilar conceitos como "potência hostil" ou "ataque concertado"? Mudando de assunto: Schelotto fez a assistência para o golo da vitória.

 

Coates


Os centrais, como os agentes da autoridade em filmes policiais, avaliam-se enquanto duplas e não isoladamente. Coates é claramente um protagonista, e o ideal seria ter um sidekick fiável e discreto, que se contentasse em ter as provas já todas recolhidas num saquinho de plástico quando ele chega à cena do crime, ainda despenteado e com o hálito a cheirar a whisky - razão pela qual sentimos intuitivamente que Paulo Oliveira é um melhor parceiro do que esse Mel Gibson em Arma Mortífera chamado Ruben Semedo. Hoje, no entanto, Coates foi forçado a cumprir várias tarefas administrativas sozinho, quase sempre bem, mas by the book - e sem tempo livre para avarias extra-curriculares.

 

Paulo Oliveira


A característica mais notável nos cortes ou desarmes de Coates é que os adversários parecem ir direitos a ele. O mesmo nunca acontece com Paulo Oliveira: cada desarme é uma transpiradíssimia espargata em carrinho, a decepar folhas de relva à sua frente, até a bomba ser desactivada no último segundo. É um jogador cuja competência floresce em esforço. E é também um jogador demonstravelmente sem sorte nenhuma. Não é o único, e até é possível fazer boas carreiras internacionais com este problema. Jamie Carragher, por exemplo, era um jogador com pouca sorte, e teve uma carreira digna. Foi-se safando, Jamie Carragher. Pode ser que Paulo Oliveira tenha a mesma sorte, dentro do azar que o acompanhará para sempre.

 

Zeegelaar


É forte, é ágil, tem poder atlético, é veloz, joga razoavelmente com os dois pés. Esteve geralmente bem a controlar a profundidade na defesa. Fez pelo menos dois cortes importantes. No lance do golo, ganhou a bola sozinho, na persistência, a dois adversários, progrediu uns metros e fez um cruzamento tecnicamente perfeito para Dost. Deve, em suma, ser dispensado o mais depressa possível, de preferência ainda esta semana.

 

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publicado às 15:25

Futebol com humor à mistura (18)

Rui Gomes, em 25.04.17

 

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A terceira e última edição de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no «derby» de sábado diante o Benfica:

 

Alan Ruiz

Adivinhou-se (resiganadamente) nos primeiros minutos que a rapidez e intensidade do jogo não era a mais indicada para os seus talentos específicos, e passou ao lado de muitos momentos, tanto na pressão ofensiva como na construção em zonas mais adiantadas. Ainda assim, foi tentando uma ou outra jogada que teria resultado certamente em ocasiões de perigo - não contra esta, mas contra dezasseis outras equipas da Liga. Depois de algumas faltas ofensivas (quase sempre desnecessárias) veio dar uma perninha cá atrás e fez uma falta perto da sua área - a última acção em campo antes de ser substituído. Foi azar. (E foi golo).

 

Bas Dost

Conseguiu pressionar Ederson, obrigando-o a má recepção, e ganhar um penálti, sem em nenhum momento eu dizer em voz alta a frase "parecia o Slimani", o que talvez indique que atravessámos um ponto importante na relação entre as expectativas dos adeptos e a consolidação da sua imagem. Ganhou vários duelos aéreos e conseguiu combinar bem com colegas (mostrando, a espaços, qualidade de recepção de passes longos a lembrar Berbatov). Oportunidades claras é que foram poucas. A não ser aquela, mas não vale a pena falar nisso agora.

 

Bryan Ruiz

Não entrou nada, nada bem. Estamos num ponto em que a sua lucidez é pura e simplesmente auto-destrutiva. Ou então não, e isto é um exagero, e precisamos todos de ir beber um copo, ou de férias.

 

Daniel Podence

Bom lance individual na direita, ultrapassando dois adversários, mas perdendo o timing certo para soltar a bola. Ainda teve tempo para uma corrida pelo meio em que testou a integridade molecular do abdómen de Luisão; e para pouco mais.

 

Joel Campbell

Tentou, com optimismo panglossiano, ser útil. Não foi possível.

 

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publicado às 04:03

Futebol com humor à mistura (17)

Rui Gomes, em 24.04.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no embate contra o Benfica:

 

William Carvalho

Fez um amplo e eficaz trabalho invisível, acumulou cortes, intercepções e desarmes (quatro nos primeiros três minutos). Enorme a recuperação em velocidade ao minuto 53, desarmando Rafa e anulando um contra-ataque perigoso. Em posse não conseguiu ser omnipotente, mas é como diz o provérbio popular (um provérbio popular que só William usa): nuns dias conseguimos coreografar o caos; noutros dias, resta-nos improvisar no meio dele.

 

A verdade é que se tornou o super ego da equipa - e também dos adeptos: um braço perpetuamente estendido, apontando na distância, com suprema autoridade, e para lá da linha do horizonte, o raio que vos parta a todos.

 

Adrien Silva

Marcou exemplarmente aquele que podia ter sido um dos penáltis mais celebrados da história do Porto e fez uma boa exibição, com uma frescura física a milhas de distância da que mostrou na semana passada (em que parecia estar a recuperar não de uma lesão, mas de uma adolescência em Chernobyl). Capacidade de choque, forte nas bolas divididas, lúcido a distribuir, e voltando até a mostrar o seu jeito para manter a posse de bola não só com circulação, mas com mini-incursões centrais em velocidade.

 

Gelson Martins

Era a única pessoa do onze inicial capaz de ultrapassar pessoas com fintas e em velocidade, portanto, dedicou-se a ultrapassar algumas pessoas com fintas e em velocidade, confiante de que o resto viria por acréscimo. Tem sido intrigante, a relação de Gelson esta época com o resto do talento disponível no Sporting; intrigante, mas nem sempre sinergética: como ver uma pessoa sem capacidade de interpretar silêncios (incapaz, por exemplo, de decifrar se significam conforto ou tensão) tentar obsessivamente manter uma conversa com um grupo de pessoas que procuram constantemente mudar de assunto.

 

Bruno César

Jogo de esforço, em que foi mais visível a fazer faltas e cortes de carrinho, a cobrir, dobrar e pressionar, do que propriamente a criar. Ainda assim, no ataque, conseguiu a proeza significativa de ser um extremo eficaz e esporadicamente perigoso sem ter ganho um único lance no 1x1 a Nelson Semedo. De assinalar a notável superioridade atlética que mostrou sobre Lindelöf num lance dividido dentro da área, ainda na primeira parte, conseguindo ganhar uma bola de cabeça ao sueco usando apenas partes do corpo localizadas abaixo do pescoço. Saiu aos 79 minutos, esgotado. E fez falta, como faz sempre que não está lá.

 

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publicado às 03:53

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