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Futebol com humor à mistura (22)

Rui Gomes, em 12.02.18

 

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A análise humorística de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo da 22.ª jornada da I Liga diante o Feirense. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades.

 

Rui Patrício

 

Setenta minutos de ansiedade à distância até que, como já vem sendo hábito, alguém decidiu faltar-lhe ao respeito: uma desonestidade intelectual de Edson que só não teve sequelas mais graves porque Patrício conseguiu desviar o remate para o poste. Continua a ser o homo sacer do futebol português: não é permitido incluí-lo em rituais de sacrifício colectivo, mas toda a gente insiste em tentar matá-lo de desgosto.

 

Piccini

 

Mais uma noite segura, a contribuir para a estabilidade da sua cotação. Foi o primeiro jogador da equipa a conseguir esticar o jogo com sucesso, e ao minuto 77 ainda lá andava lá por cima, a ganhar lances no um para um perto da linha de fundo e, em vez de tentar cruzar (instinto contra o qual vai lutando corajosamente) optando antes por ganhar cantos. Mas, numa noite cheia de novidades, aconteceu-lhe também algo pela primeira vez: em cima do intervalo, perdeu um lance de cabeça para um adversário nas suas costas que conseguiu ganhar-lhe o espaço à sua frente. Foi um momento filosófico, que ao lembrar-nos que nada é certo nesta vida, acaba por nos reconciliar com a nossa própria falibilidade humana.

 

Coates

 

Ao contrário do que aconteceu demasiadas vezes últimos tempos, não foi o principal responsável pelo frenético incinerar de cigarros entre os espectadores, esse flagelo social que tanto atinge as vozes mais livres e independentes do país. Algumas boas aberturas a rasgar, soltando Piccini ou Gelson pelo corredor, e até as suas já lendárias polguices beneficiaram da presença de Doumbia no onze, pois assim conseguem por vezes assemelhar-se mais a “passes em profundidade” e menos a “charutadas lá para a molhada”.

 

Mathieu

 

Continua a ser impressionante que um jogador com um currículo tão escasso na conversão de livres directos tenha conseguido agora, aos 34 anos, transformar cada lance desses num legítimo momento de esperança entre os adeptos. Hoje tentou um rasteiro, para a direita de Caio Seco, e outro mais canónico, a meia-altura e para o lado esquerdo. Felizmente nenhum deles entrou, ou era possível que fossem anulados, caso o VAR detectasse uma irregularidade na Carta Constitucional de 1826, outorgada pelo Rei D. Pedro IV.

 

Bruno César

 

Estiveram geralmente bem, mas podiam ter aproveitado melhor o facto de serem imensas pessoas para criar situações de superioridade numérica no ataque. Acabaram por ser mais úteis a defender, como se viu ao minuto 14 minuto, depois de uma falha de Piccini ter dado origem a um contra-ataque venenoso do Feirense: felizmente os adversários eram apenas três e os Brunos Césares eram muitos mais, conseguindo dessa maneira cortar o lance de perigo. Saíram todos a vinte minutos do fim, vários deles com a noção do dever cumprido.

 

William Carvalho

 

O Mostrengo que vive no fundo do VAR,
Os cornos lhe veio hoje chatear;
No meio do relvado chatices causou,
E um golo limpíssimo invalidou.
O Homem da Braçadeira,
Que golos não mete,
Lá veio de urgência,
Fazer o frete.
Porque mais que o Mostrengo que no VAR se mete,
E soprou no apito daquele gatuno,
Manda a vontade de não ser croquete,
D'El Rei De Carvalho, o Bruno.

 

Gelson Martins

 

Primeiro minuto: saída rápida do Feirense, interrompida no segundo exacto antes de poder criar perigo porque Gelson teve velocidade suficiente para vir ao meio atrapalhar a variação de flanco. Minuto 12: sem sequer acelerar muito, o Feirense conseguiu manter a posse e trocar a bola em progressão pelo meio campo do Sporting, até Gelson vir do outro lado do campo ao flanco esquerdo resolver o problema. Minuto 27: apareceu na sua área, a interceptar um cruzamento e cedendo canto, segundos depois de ter sido ele a criar perigo na área contrária. Houve mais momentos análogos, sempre intercalados com a hiperactividade do costume no último terço, e a fiabilidade habitual para criar problemas ao adversário de dois em dois minutos. Ainda assistiu Montero para o 2-0. Não é nenhum crime de lesa-majestade apontar as falhas de Gelson ao nível da decisão e do último passe; mas há alturas em que, ao olhar para a totalidade do seu rendimento em campo e para a equipa, falar nas suas más decisões é também uma má decisão.

 

Bruno Fernandes

 

Sacou o primeiro amarelo do jogo depois de uma boa aceleração pelo meio, e foi dessa maneira que produziu, aqui e ali, alguns desequilíbrios. Mas, na linha do que tem acontecido de há umas semanas para cá, aquelas típicas rotações em que não toca na bola para tentar ir buscá-la com mais espaço ao outro lado acabaram muitas vezes em bolas perdidas, algumas delas em zonas pouco recomendáveis. Teve o 3-0 nos pés mas, apesar de só faltarem 20 segundos para o jogo acabar, decidiu (bem) não submeter os nervos colectivos a esse resultado tenebroso. Além que o lance teria provavelmente sido anulado, caso o VAR detectasse uma irregularidade no Tratado de Zamora, que reconheceu a independência do Reino de Portugal em 1143.

 

Bryan Ruiz

 

Desde que foi reintegrado no plantel, a dúvida quando o víamos surgir em campo era sempre se ia jogar bem ou mal. Bryan Ruiz foi optando pela resposta salomónica (no sentido de Diogo Salomão): nem uma coisa nem outra. Hoje, pela primeira vez, e em especial durante a primeira parte, deu uma resposta mais conclusiva, e terá feito se calhar os melhores 45 minutos desde a sua primeira época, para os quais despertou mentalmente ao minuto 14: apareceu na quina da área, teve tempo de avaliar todas as opções para se refugiar na segurança, fazer um passe atrasado inócuo, ou até perder honestamente a bola, mas lembrou-se de repente que já foi um belo jogador. Portanto rematou em arco, para uma boa defesa (e ainda falhou mais uma oportunidade clara). Mas pode ser que o lembrete lhe sirva para o resto do semestre.

 

Montero

 

Mais solto e com mais mobilidade do que nos jogos anteriores, mas acima de tudo mais confiante a reter a bola sob pressão e mais incisivo a soltar os colegas em profundidade (percebeu bem mais depressa que muitos outros elementos do plantel qual a melhor maneira de tirar algum partido da agressividade de Doumbia a atacar as costas das defesas). Depois de se juntar à epidemia colectiva de falhanços escandalosos (rematou contra clavículas de guarda-redes, septos nasais de defesas, painéis publicitários, etc) acabou por merecer fechar a contagem, num lance que até podia ter sido anulado, caso o VAR tivesse detectado irregularidades no processo de Deriva Continental que desmantelou a Pangeia e permitiu indirectamente o golo de Montero.

 

Doumbia

 

FADE IN:
EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

A voz de David Attenborough sussurra através da folhagem

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

(…) temos aqui uma rara oportunidade para observar o instinto predatório do Doumbia no seu habitat natural

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, a tirar o guarda-redes da frente e a engalfinhar a bola contra um defesa que ali aparecera.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

Nem sempre o Doumbia consegue atingir os intentos para os quais a evolução o preparou. A única certeza é de que vai continuar a tentar, até a mudança das estações o obrigar a partir para terrenos mais férteis.

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, a marcar um golo e a vê-lo anulado.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

Infelizmente, ainda não é desta que o Doumbia consegue capturar a sua presa. A Natureza, na sua infinita sabedoria, decidiu anular a caçada, depois de o VAR detectar uma qualquer irregularidade na formação dos primeiros organismos multicelulares no Mesoproterozóico.

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, isolado, a rematar a bola para o raio que o parta.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

E a vida continua, numa dança tão antiga como o próprio Tempo, da qual somos aqui, por momentos efémeros, espectadores privilegiados.

 

Rafael Leão

 

Assim que entrou fez um remate perigoso à baliza que não deu em golo, e logo a seguir assistiu um golo que viria a ser anulado, integrando-se assim perfeitamente no espírito do jogo. Tem várias características físicas e técnicas que auguram um bom futuro, além de uma característica mental tão ou mais importante: uma mistura muito específica de calma e descaramento.

 

Lumor

 

Teve a sorte de entrar com a equipa balançada no ataque pelo que conseguiu logo apresentar-se com um excelente cruzamento. A defender, perdeu um lance de cabeça na área, mas no dia histórico em que até a Piccini aconteceu o mesmo, é precipitado tirar grandes conclusões. Até porque para tirar conclusões imediatas sobre um novo jogador, e dizê-las cantando a toda a gente, está lá o treinador.

 

Battaglia

 

Hoje entrou demasiado tarde para poder extrair o fémur a um adversário sem anestesia e beber-lhe a medula óssea de penálti, resta-lhe esperar pela próxima oportunidade.

 

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publicado às 03:43

 

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Usualmente, transcrevemos as populares análises humorísticas de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre as performances de jogadores do Sporting em jogos da I Liga. Desta vez, ele aproveitou o aniversário de Bruno de Carvalho, e as suas circunstâncias de momento "para dizer algumas – bom, muitas – coisas sobre o homem que tanto pode ser visto como “assassino de gatinhos” ou como o melhor presidente do Sporting". 

 

O escrito começa assim, e por ser mesmo muito extenso, o leitor poderá ler o resto aqui. Com tudo isto, uma coisa é por de mais evidente; Bruno de Carvalho está a ter o que sempre procurou, dia após dia, desde que assumiu a liderança do Sporting: ser o centro das atenções mediáticas. Esta circunstância serviu para, entre outras questões, desviar o foco da denominada Operação Lex, Luís Filipe Vieira e as buscas pela Polícia Judiciária, e-mails, etc..

 

"Foi há aproximadamente sete anos que ouvimos falar pela primeira vez em Bruno de Carvalho, o que significa que foi há aproximadamente sete anos menos quinze minutos que ouvimos dizer pela primeira vez que Bruno de Carvalho era um vigarista histriónico pronto a levar o Sporting para o abismo. Sete anos passaram, e os dois pares ainda cá andam na pista de dança: o Sporting e o abismo (estes significativamente mais afastados que em 2011), e Bruno de Carvalho e a as opiniões sobre Bruno de Carvalho - esses ainda no mesmo sítio, mas sujeitos ao desconforto dos reajustamentos constantes, drásticos ou infinitesimais, como uma comichão emocional difícil de coçar.

 

Muitas delas - as opiniões - foram instintivas e imediatas: para todas as pessoas que, quinze minutos depois de ele se materializar na vida pública portuguesa, o identificaram corretamente como alguém incapaz de identificar corretamente um garfo de ostras. Outras foram cristalizando na sequência de uma campanha eleitoral que ele (por necessidade e temperamento) conduziu como um bolchevique, e que a lista de Godinho Lopes (por necessidade, temperamento e Cunha Vaz) conduziu como uma mistura de Dinastia Romanov, Pravda e Jornal do Incrível.

 

Da síntese dessas duas circunstâncias, surgiu a ubíqua criatura mitológica conhecida como “o Bruno de Carvalho”: o arrivista chico-esperto, o arruaceiro com sede de protagonismo, o tiranete suburbano, o operador de esquemas-pirâmide, o prestigiado assassino de gatinhos; alguém que a qualquer momento, mais tarde ou mais cedo, iria deixar em escombros uma instituição centenária e fugir para Vladivostoque, deixando na sua esteira resmas de multas por pagar, mensalidades do condomínio em atraso, e bandas gástricas descartadas pelo caminho" (...).

 

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publicado às 18:42

Futebol com humor à mistura (21)

Rui Gomes, em 05.02.18

 

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Hoje não será um dia em que o humor abunda entre sportinguistas, mas nem por isso vamos deixar de publicar a usual coluna de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting frente ao Estoril Praia:

 

Rui Patrício

 

Nos primeiros seis minutos foi vítima de violentos ataques ad hominem por parte de adversários que, com a colaboração ignóbil do vento, lhe tentaram marcar golos de canto directo, num dos casos mais ultrajantes de desonestidade intelectual que testemunhei em toda a minha vida. Eram motivos mais do que suficientes para toda a equipa ter abandonado o terreno de jogo em protesto, mas decidiu-se continuar a legitimar aquela farsa, por motivos que me ultrapassam.

 

Piccini

 

Ganhou a linha de fundo várias vezes, com uma facilidade que recordou a todos os adeptos o milagre que foi a sua contratação ter custado uns meros 3 milhões de euros. No seguimento dessas jogadas, tentou algumas vezes cruzar, com uma dificuldade que recordou a todos os adeptos a tolerância que devem estender a alguém cuja contratação custou uns meros 3 milhões de euros. Pontos de bónus por ter sido o único jogador da equipa a conseguir, num lance de um para um, roubar a bola a Lucas Evangelista.

 

Coates

 

Manteve o nível dos últimos tempos, sem erros cataclísmicos, mas com dúbios posicionamentos, falhas na saída de bola e uma geral lentidão de processos a contribuir decisivamente para o processo de gentrificação da defesa do Sporting, que hoje assistiu a um dramático influxo de turistas cheios de vontade de fazer barulho e causar chatices.

 

Mathieu

 

Demorou oitenta e oito minutos a perceber que era o jogador em campo mais qualificado para impedir que o resultado final fosse aquele, e só nessa altura foi lá à frente, para fazer (evidentemente) o remate mais competente de toda a segunda parte. O guarda-redes do Estoril acabou por desviá-lo para canto, num dos exemplos mais repugnantes de desonestidade intelectual a que assisti em toda a minha vida.

 

Fábio Coentrão

 

Safou bolas em cima da linha, ganhou cantos, rematou à baliza (com o pé e com a cabeça) e ainda fez as melhores assistências: ao minuto 43 descobriu Coates sozinho na área; no minuto seguinte descobriu Bruno César sozinho na área; no minuto seguinte descobriu que estava sozinho no mundo. Amarelado na segunda parte, foi substituído pouco depois, quando ainda estava a ser dos melhores elementos da equipa, numa decisão que se compreende, por duas razões: a) a possibilidade de tentar desfazer à batatada mais um banco de suplentes, levando um recinto estruturalmente frágil a desabar por completo, merecia pelo menos ser testada; e (b) de qualquer maneira era injusto obrigá-lo a ficar a aturar aquilo até ao fim.

 

Battaglia

 

Ao minuto 17 foi fintado pelo guarda-redes do Estoril, num dos episódios mais vergonhosos de desonestidade intelectual que presenciei em toda a minha vida.

 

William Carvalho

 

Uma dedicação total à resolução de problemas, sem histerias, sem sentimentalismos. A sua solidariedade extrema em campo passa por vezes despercebida, pois assume uma forma contra-intuitiva: não é que William ande a correr freneticamente de um lado para o outro a resolver os problemas dos colegas; o que ele faz é andar a pensar freneticamente no mesmo sítio para evitar criar-lhes mais problemas do que eles já criam a si próprios. Foi, na primeira parte, o jogador mais esclarecido em posse, e fez os melhores passes da equipa. A meio da segunda parte decidiu eliminar os intermediários e começar a passar a bola directamente a jogadores do Estoril, para poupar mais embaraços aos colegas.

 

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Bruno César

 

Mostrou-se rápido, alerta e interventivo, ganhando faltas perigosas, pressionando, jogando bem ao primeiro toque. Foi dos que mais tentou o remate, até ao minuto 44, quando em vez de tentar o remate, tentou fazer um .gif. Conseguiu; e desapareceu para sempre no mundo dos feeds online.

 

Acuña

 

Pareceu mais ágil hoje do que nos últimos tempos, física e mentalmente. Mas é cada vez mais óbvio que jogar sem espaço ou com tempo não é o seu forte: a sua tendência instintiva no primeiro caso é sempre para proteger a bola; no segundo (que o obriga a reflectir) para se ver livre dela o mais depressa possível. É muito melhor nas situações inversas, em que o espaço é muito, o tempo é pouco, e cada gesto é uma urgência, canalizando uma resposta emocional não premeditada, no sentido de evitar ou então participar no fim do mundo em cuecas. Emocionalmente, pelo menos, veio parar ao clube certo.

 

Bruno Fernandes

 

Se William é o superego da equipa – o portador dos seus ideais éticos – Bruno Fernandes é o seu id, com a tarefa de produzir os seus desejos. Um meio-campo que tem tudo para funcional lindamente ao nível da saúde psicológica (deles e minha), desde que andasse por ali um terceiro elemento, idealmente equipado com um lança-chamas, a manter a ordem enquanto estes dois perseguem os seus desejos.

 

Doumbia

 

Um remate inócuo ao minuto 16 e uma boa jogada aos 39, a pressionar o defesa, a ganhar no esforço e a soltar no momento certo para Bruno César. De resto foi combativo, deu trabalho a toda a gente, e acumulou mais uma ou outra recuperação ofensiva. Menos bem sempre que tentou os lances de 1x1, ou qualquer outro recurso que o obrigasse a usar os pés, aqueles dois pés que tem, nomeadamente o pé esquerdo e o pé direito, duas das extremidades anatómicas mais intelectualmente desonestas que contemplei em toda a minha vida.

 

Montero

 

Há que ter paciência, não será fácil recuperar toda a qualidade e motivação que certamente perdeu após aquele ano inteiro a ser treinado por Marco Silva.

 

Rúben Ribeiro

 

Dos três suplentes utilizados, foi o único a acrescentar alguma qualidade. Deixou Acuña isolado na cara do golo assim que entrou, e teve o mérito de raramente se precipitar. O que não deixa de ser um elogio, mas repare-se bem nos parâmetros deste elogio: “teve o mérito de raramente se precipitar”. Mais jogos assim e qualquer dia estou a elogiar jogadores com frases do género “teve o mérito de não dar um tiro na cabeça”.

 

Bryan Ruiz

 

Foi o último suplente a entrar, e não esteve bem nem mal, numa das mais pérfidas manifestações de desonestidade intelectual que observei em toda a minha vida.

 

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publicado às 04:42

Futebol com humor à mistura (20)

Rui Gomes, em 01.02.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, no jogo da 20.ª jornada frente ao Vitória de Guimarães. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

 

Desviou um remate para canto nos primeiros minutos e encaixou outro à figura à passagem da meia hora, mas no geral teve mais uma noite descansadinha, onde nem o provável futuro colega conseguiu obrigá-lo a mostrar a qualidade que as equipas que o defrontam têm conspirado para resguardar como se fosse um segredo de Estado. Tal como a esmagadora maioria dos guarda-redes do campeonato nacional, chegou ao fim do jogo em condições de responder à pergunta "sabe qual foi o resultado final?".

 

Ristovski

 

Momento intrigante ao minuto 12, que é legítimo especular só aconteceu porque jogou ele e não Piccini: num pontapé de baliza do Vitória, juntou-se uma molhada de gente na sua zona e o guarda-redes bombeou para lá a bola. Foi um lembrete de outros tempos, quando o plano ofensivo de muitos adversários do Sporting consistia quase exclusivamente em tentar meter a bola por alto nas costas do lateral-direito: um jogo de má memória com o Lokomotiv, em 2015, foi isto do princípio ao fim. Desta vez, por acaso, a jogada até veio a resultar num remate perigoso à baliza de Patrício, e fica a ideia que a diferença de preço entre Piccini e Ristovski (seiscentos e cinquenta mil euros) se deve acima de tudo à diferença de posicionamento - e centímetros - visível nesses lances.

 

Mas não voltou a acontecer, e por bons motivos: Ristovski dá largura (sempre), dá profundidade (quase sempre), dá lucidez e compostura (quando tem a bola), dá raça (quando não a tem), dá atenção dentro da área (fez um corte providencial aos 20 minutos) e dá-nos a todos (sobretudo) um merecido descanso em relação a uma das posições mais traumáticas dos últimos anos.

 

Coates

 

Depois do suplício que passou no sábado passado, teve precisamente o tipo de jogo que tanto ele como o miocárdio colectivo sportinguista mais necessitavam: sem chatices, sem Gonçalos Paciências, sem princípios de enfarte.

 

Mathieu

 

Voltou a fazer o mesmo número que já fizera no fim-de-semana, durante a Suprema Final do Insigne Campeonato de Inverno 2017/18: depois de ganhar todos os duelos defensivos que travou, e à medida que as ideias se iam esgotando lentamente no resto da equipa, apareceu no último quarto de hora a apresentar as suas. Que são, bem vistas as coisas, ideias muito simples: que a bola deve ir para dentro da baliza, e não para fora; que os jogos são para ganhar, e não para empatar; e que todas aquelas que coisas que "o Mundo sabe" enumeradas antes do apito inicial, Mathieu já as sabe de memória.

 

Fábio Coentrão

 

Havia alguma pessoa no estádio inteiro que tivesse menos vontade de empatar este jogo do que Coentrão? Suponho que é teoricamente possível, mas duvido. Mais do que a experiência, mais do que a pura qualidade, voltou a trazer ao jogo aquela hipertrofia competitiva e fobia quase violenta a qualquer outro resultado que não a vitória. E entretanto cumpriu 270 minutos plenos de saúde no espaço de 7 dias, sendo um dos principais responsáveis por não ter que destruir mais um banco de suplentes.

 

Battaglia

 

Regressivo, primordial, telúrico, Battaglia é uma aparição vinda directamente do passado misterioso do futebol: uma Terra Perdida de répteis, cavernas, monossílabos e pedras lascadas. Algures, para lá da colina, vive uma outra tribo, que fala um dialecto diferente do nosso, e que tem uma bola. Battaglia não concorda que eles tenham a bola, portanto vai lá buscá-la. Pelo caminho, é possível que tenha de assassinar alguns camponeses e incendiar algumas cabanas, mas a bola vem com ele. Depois entrega a bola aos seus amigos. Nem sempre é fácil. Battaglia sabe que a bola é uma relíquia sagrada do seu povo, e olha-a com um temor reverencial que o deixa nervoso, e a mim também. No fundo, sente-se mais confortável a assassinar camponeses e incendiar cabanas. Mas também conhece a importância que a bola assume na nossa pequena civilização e lá vai tentando participar nos rituais que a incluem, embora se suspeite que somente o assassinato de camponeses e a incineração de cabanas o deixam verdadeiramente realizado.

 

William Carvalho

 

A jogar mais solto e mais adiantado, começou bem, sofreu intermitências, mas acabou ainda melhor. Terá sido, com a bola nos pés, um dos elementos mais consistentes da equipa, tentando várias vezes na segunda parte organizar a manobra ofensiva por ordem alfabética (Acuña - Bruno - Coentrão - Doumbia), tal como faz com as suas prateleiras de clássicos do jazz. Aos poucos, vai-nos matando as saudades que dele tínhamos; não devemos ser gananciosos e esperar que as mate todas de uma vez.

 

Bruno Fernandes

 

Como o outro Bruno do plantel, está aparentemente condenado a um périplo vocacional por todas as posições em campo, e é uma questão de tempo até fazer uma perninha a lateral-esquerdo. Mostrou a vontade e mobilidade habituais, mas, tal como no fim-de-semana, esteve algo desastrado no passe. Nos últimos minutos, no entanto, foi instrumental a guardar a bola no meio-campo ofensivo e a tentar que equipa defendesse a vantagem não a hiperventilar perto da área, mas lá ao longe e em ritmo de passeio. Quando o treinador fala no "cinismo à italiana", também se deve referir a este tipo de coisas.

 

Rúben Ribeiro

 

Várias acções de qualidade em posse, mas quase todas transitivas e auto-contidas, a flutuar na sua inócua e competente autonomia, como frases de campanha de um político talentoso, que sabe omitir os verbos de acção necessários para transmitir a impressão de fazer imensas promessas sem em qualquer momento assumir um compromisso. Ao vê-lo com a bola no pé, de frente para o jogo, calmo e confiante, fica-se sempre com a sensação de que é um candidato extremamente viável a qualquer coisa. Ainda falta perceber a quê, mas temos tempo.

 

Acuña

 

Não têm sido tempos fáceis para a relação entre Marcos Acuña e a faixa esquerda do meio-campo ofensivo. Ainda há amor, e carinho, e respeito mútuo, mas fisicamente, as coisas simplesmente não têm funcionado. Acuña bem tenta, mas não consegue satisfazer as necessidades da faixa esquerda do meio-campo ofensivo. Não que a faixa esquerda do meio-campo ofensivo se queixe. Pelo contrário: é a primeira a reconhecer que Acuña anda cansado e a primeira a enumerar liricamente todo o léxico do cansaço (a fadiga, a ansiedade, o excesso de trabalho). E é capaz de olhar Acuña docemente nos olhos e dizer-lhe com total sinceridade para ele não se preocupar, que isto também acontece aos outros médios-ala. É uma fase, só isso. Mas enquanto Acuña, por muita impotência que revele em algumas funções fundamentais, continuar a meter comida na mesa, solidariedade na defesa, remates no alvo e assistências no pecúlio, o casamento lá se vai aguentando.

 

Bas Dost

 

Democratizou de tal forma o golo que ausência de um é quase sentida por si como uma privação ou um enfermidade: era uma questão de tempo até que isso se materializasse de forma psicossomática. Esperemos que recupere depressa.

 

Fredy Montero

 

Houve alturas na sua primeira passagem pelo clube em que aquele complacente sangue frio se revelou um atributo crucial para meter em campo nas alturas mais tremidas. Houve outras em que era aflitivo ver tanto talento junto afogado num batido de banana. A sua segunda passagem pelo clube não será diferente.

 

Doumbia

 

Trouxe uma velocidade, agressividade e capacidade de atacar as costas da defesa que os outros avançados do plantel não conseguem dar. Trouxe também os seus pés, que nem sempre facilitam a aplicação mais correcta das virtudes acima descritas.

 

Brunos César

 

Pessoalmente, e mesmo sabendo todas as suas limitações, durmo mais descansado à noite por saber que os Brunos Césares fazem parte do plantel. Entraram bem no jogo esta noite, e até podiam ter marcado.

 

Lumor

 

Em primeiro lugar, bem vindo. Em segundo lugar, e em resposta à tua pergunta: sim, ele é um bocado descompensado. Mas não ligues, há-de correr tudo bem.

 

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publicado às 03:50

 

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O que Rogério Casanova, jornal Expresso, teve para dizer com humor à mistura, sobre as exibições de Bryan Ruiz, Rúben Ribeiro e Fredy Montero. Diz ainda o autor que passou a 2.ª parte de costas para a TV, mas, mesmo assim, consegue explicar como a derrota foi infligida aos pupilos de José Peyroteo Couceiro.

 

Bryan Ruiz

 

Creio que foi ali por volta do minuto 20 que um dos comentadores da RTP afirmou que Bryan Ruiz e Arnold estavam a "travar um duelo intenso".
 
Rúben Ribeiro
 
Jogou 45 minutos, saiu ao intervalo, ganhou uma Taça (confirmada após um dos jogadores vitorianos treinados por José Peyroteo Couceiro ter FALHADO um penalty) e agora anda para ali aos saltos. Já teve dias piores na vida, com toda a certeza. E há de ter melhores, também com toda a certeza.

 

Fredy Montero

 

Ao minuto 16 foi a correr pressionar um jogador do Vitória que estava em posse de bola. Foi um gesto revolucionário que apanhou toda a gente de surpresa. Os restantes jogadores do Sporting devem ter olhado uns para os outros a pensar "quem é que este maluco julga que é?". E lá continuou na sua onda, Montero, a procurar a bola, a procurar os espaços vazios, a tentar devolver a bola ao primeiro toque, e outros anacronismos semelhantes. Foi dos jogadores mais combativos a reagir à perda de posse, e não lhe faltaram oportunidades para o mostrar, pois perdas de bola houve muitas. O facto de os vocábulos "Montero" e "combativo" coexistirem na mesma frase é, aliás, um excelente resumo da primeira parte. Entretanto ganhou mais uma Taça, mesmo não tendo participado no desempate por grandes penalidades que ditou a DERROTA da agremiação sadina, orientada por José Peyroteo Couceiro.
 

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publicado às 03:35

Futebol com humor à mistura (19)

Rui Gomes, em 20.01.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo desta sexta-feira frente ao Vitória de Setúbal. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Passou por alegadas dificuldades ao minuto 45, quando alegadamente demorou a resolver um atraso e ia alegadamente chutando a bola contra um jogador do Vitória, mas as imagens televisivas não mostraram o alegado incidente - uma manifestação de decoro e respeito pela paz e sossego de um campeão europeu que devia servir de exemplo para todos, não só outros órgãos de comunicação social, mas também os adversários que teimam em invadir a sua privacidade com grandes penalidades.

 

Piccini

Era óbvio que algo não estava bem. Desde o primeiro minuto que se notaram indícios de comportamento deficiente na sua estrutura. Será necessário um relatório para apurar as causas das anomalias detectadas, mas à primeira vista eram evidentes algumas fissuras na coxa direita, roturas ao nível do passe curto e longo, uma racha no frontispício do cruzamento fácil e outros sinais de alarme que levaram alguns adeptos mais nervosos a sentir vontade de invadir o campo até tudo ficar esclarecido.

 

Ninguém deve ser obrigado a ver um jogo neste clima de insegurança, quando três milhões de euros que até aqui pareciam tão estáveis de repente ameaçam ruir. Há que proteger o espectáculo. O ideal, o justo, o ético, teria sido interromper a partida, chamar uma equipa de engenheiros para avaliar o problema, e continuar o jogo daqui a uns meses.

 

Coates

Está mais do que na altura de Coates fazer uma introspecção profunda e demorada na maneira como se relaciona com a violência, uma relação cada vez menos eficaz e profissionalizada. Viu um amarelo ao minuto 50 por se encostar ao inofensivo Gonçalo Paciência, que conduzia inofensivamente a bola perto da inofensiva linha lateral. Nos últimos minutos, quando podia e devia ter anulado um problema bem mais sério, pregando uma pantufada ao adversário que lhe virasse os intestinos do avesso, optou por deixar-se comer na profundidade por um jogador com aproximadamente 58 anos de idade.

 

Mathieu

Perfeitamente enquadrado no espírito do clube, respeitador do seu passado, conhecedor das suas tradições, sabia que há um ritual que consiste num defesa-central ser obrigado a cometer uma falta por trás, dentro da grande área, no Estádio do Bonfim, em Janeiro, sobre Edinho, e nos últimos minutos de um jogo decisivo. Limitou-se, portanto, a cumprir à risca o que estava previsto nos estatutos.

 

Fábio Coentrão

Foi o melhor em campo e saiu depois do empate, envolvendo-se de imediato num debate de ideias com o banco de suplentes, tão rancoroso como uma polémica teológica medieval. A interpretação de Coentrão, a julgar pela veemência injustiçada dos seus gestos, pelo seu semblante intransigentemente solitário, devia ser herética e não ortodoxa. O banco de suplentes teve o que merecia (a equipa também, ao contrário de Fábio). Uma coisa é certa: mais uma vez, Fábio Coentrão não caiu, não se aleijou, não sangrou: a não ser por dentro.

 

William Carvalho

O grande passe para Gelson dentro da área ao minuto 10, a placidez com que frustrou ao minuto 14 um projecto de trinta segundos de um jogador do Vitória que consistia em roubar-lhe a bola, o excelente contra-ataque que conduziu logo a abrir a segunda parte, galopando 40 metros e soltando no momento exacto para Piccini, o esclarecimento que mostrou quase sempre com bola: estes são os quatro pontos cardeais de uma boa exibição. O resto - e quando me refiro ao resto, refiro-me à escavação arqueológica a que por vezes se assemelha o meio-campo defensivo da equipa - tem menos a ver com a responsabilidade individual de William Carvalho e mais com a responsabilidade de quem acha que o fantasma de Adrien Silva ainda ali anda a ajudá-lo quando a equipa não tem bola.

 

Gelson Martins

Temporização e definição perfeitas no lance do golo. Grande slalom a partir da própria área ao minuto 77, num lance em que fez tudo bem e que merecia melhor conclusão. Capacidade inesgotável para fazer de lateral, segundo trinco, e segundo avançado, por vezes no espaço de 10 segundos. Aos 89, isolado depois do milionésimo sprint da época, já não teve energia para rematar, e fez com que eu acendesse não um, mas dois cigarros em simultâneo, que posteriormente deixei cair ao chão no momento do penálti, tendo voltado a acender mais dois, e a deixá-los cair também. Pelos meus cálculos, alguém me deve oitenta e oito cêntimos; mas não é Gelson - é quem o deixou, muito literalmente, jogar até cair.

 

Bruno Fernandes

A qualidade que conta nos momentos cruciais. Marcou um golo, na primeira diagonal em que conseguiu aparecer dentro da área. E merecia bisar a dois minutos dos 90, que mais não seja por ter sido dos poucos que se apanhou com a bola dentro da área e tentou metê-la realmente dentro da baliza, em vez de criar uma instalação artística chamada "Andebol". Espero que Coentrão tenha deixado uma parte do banco intacta, pois este também estava com cara de quem precisava de descomprimir à biqueirada.

 

Acuña

Alguns jogadores vêem as jogadas como elas são e perguntam "porquê?" Outros sonham jogadas que nunca foram e perguntam "por que não?" Acuña imagina os dois tipos de jogadas e pergunta "será esta uma boa altura para chutar a bola para a nebulosa de Orion?" E a resposta é quase sempre positiva. Embora o torne inútil como médio-ala, o seu actual momento de forma ainda pode ter utilidade noutras áreas. Os instrumentos de trabalho de Marie Curie permanecem radioactivos xx anos depois da sua morte. Talvez as recentes exibições de Acuña possam ser preservadas num laboratório subterrâneo no Nevada, debaixo das areias do deserto, dentro de um cubículo reforçado por paredes de aço de dois metros de grossura, estudadas pelos andróides que vão preparar armas biológicas para a IV Grande Guerra Mundial.

 

Rúben Ribeiro

Geralmente bem nas combinações ao primeiro toque, esteve envolvido em duas jogadas na segunda parte (ambas com Gelson) em que podia ter decidido ou executado melhor. Creio que o cliché operativo mais adequado neste tipo de situações é "não fez um jogo deslumbrante". E não fez. A não ser para quem se deslumbre com pouco, como eu. Quem se deslumbre, por exemplo, com a capacidade que mostrou ao minuto 85 para, rodeado por três adversários e sem linhas de passe perto da linha, manter a calma, manter a posse, e deixar a situação esclarecida. Saiu no minuto seguinte, e perdeu-se pelo menos um bocadinho dessa lucidez em espaços fechados, e dessa anómala relutância em perder bolas escusadas.

 

Bas Dost

A fada dos golos deve tê-lo informado que hoje não ia marcar e portanto não valia a pena estragar a sua sobrenatural percentagem de eficácia com tentativas condenadas ao fracasso. É pelo menos essa a conclusão a tirar da sua acção ao minuto 86, quando optou por servir Bruno Fernandes, no outro lado da área, em vez de rematar à porra da baliza. E assim se vai agravando a sua preocupante seca de golos, que já se arrasta há 93 minutos.

 

Battaglia, Podence e Doumbia

Foram apenas testemunhas de uma desgraça, e é como tal que devem ser tratados.

 

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publicado às 02:47

Futebol com humor à mistura (18)

Rui Gomes, em 15.01.18

 

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A análise humorística de Rogério Casanova, jornal Expresso, à performance dos jogadores do Sporting no jogo da 18.ª jornada da I Liga frente ao Desportivo das Aves. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades.

 

Rui Patrício

 

Duas saídas afoitas aos pés de adversários e uma defesa fácil a um descompensado remate do meio-campo nos últimos minutos foram os únicos intervalos de acção em mais um jogo que encarou com a tranquilidade atenta e inquisitiva de quem sabe que, à excepção de grandes penalidades, ou das periódicas tentativas de Coates para marcar autogolos, as oportunidades para exercer a sua actividade profissional continuam a ser ultrajantemente reduzidas.

 

Piccini

 

Lasciò la fuga ad Amilton alle 12 minuti e fu nuovamente superato da un altro cittadino a 67. Oltre a ciò, nei primi minuti fu eccessivamente complicato, mancando qualche passaggio. Molto limitato! Tre milioni di euro? Uno scandalo! Sono stati una rapina! Non è un giocatore per grandi squadre, tanto meno per la Juventus, o qualsiasi altra squadra del campionato italiano, abituato a grandi difensori. Piccini è solo un Topo Gigio. Niente di tutto questo. Meglio andare altrove. Buon pomeriggio, ragazzi e scoutini transalpini.

 

Coates

 

Mesmo num jogo fácil, ficou mais uma vez a sensação de que não atravessa um bom momento de forma. Fez um passe terrível ao minuto 18, deixou-se antecipar dentro da área, permitindo um cabeceamento à barra, e já na segunda parte falhou uma intercepção em esforço, após um passe feito para as suas costas. Tratando-se de Coates, diria que a questão é menos de técnica ou de táctica, e mais de endocrinologia: relembrá-lo de que o futebol é um combate de hormonas, e que precisa de voltar a odiar avançados, descartando esta recente tendência para a simpatia.

 

Mathieu

 

Andersonpolgou dois passes longos esquisitos, perdeu uma bola semi-perigosa no meio-campo e deixou-se estatelar na grande área após uma finta de Salvador Agra, tudo na primeira meia-hora. O que aos olhares mais desatentos poderiam parecer sinais de desconcentração foram na verdade acções deliberadamente tomadas em nome de um projecto igualitário, suportando a nobre intenção de nivelar oportunidades e abolir temporariamente hierarquias de talento e qualidade. Após essa efémera experiência social cansou-se, e voltou a impor o seu habitual estilo fascista.

 

Fábio Coentrão

 

Protagonizou um momento de frisson ao minuto 85 quando, numa disputa de bola perto da linha de fundo, levou uma joelhada em cheio na cabeça. Todo o estádio, e toda a comunidade científica internacional, arregalou os olhos de curiosidade: seria desta que Coentrão iria mostrar algum desconforto físico? Ainda não, mas a forma como coçou a cabeça durante alguns segundos indica que sentiu uma leve comichão, um sintoma a acompanhar atentamente nas próximas horas. Mas tudo indica que a forma mais provável de voltar a cruzar-se com o Dr. Varandas é este sofrer um problema qualquer no banco, e Coentrão ter de sair das quatro linhas para lhe prestar assistência médica.

 

William Carvalho

 

Estreou-se finalmente no ano civil de 2018 e fez um bom jogo, desenrolando aquelas espirais que reproduzem os blocos de ácido desoxirribonucleico, os braços de galáxias distantes, as contorções de saca-rolhas a afundar-se na cortiça.

 

Bruno Fernandes

 

Mais recuado no meio-campo, passou a primeira parte em tarefas administrativas e de gestão de recursos, incluindo os seus, limitando-se a fazer as coisas simples invariavelmente bem e a deixar aos outros a tarefa de as complicar. Com a saída de Rúben, avançou uns metros e começou a jogar mais no risco, sem grande sorte. Tentou a bujarda da ordem aos 79 e foi ele a desmarcar Piccini no flanco para o 3-0. Nos últimos minutos, adoptou a já habitual postura perante o facto de não conseguir marcar um golo: a vontade mal reprimida de escavacar à biqueirada tudo à sua volta.

 

Gelson Martins

 

Sofreu a primeira falta, fez o primeiro drible, ganhou o primeiro canto, sofreu o primeiro penalty, acendeu-me o primeiro cigarro, e o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto. Não anda claramente num pico de inspiração, e parece atacar cada lance com uma estranha forma de hipocondria: qualquer que seja a condição da jogada, Gelson reage como se a mesma corresse um qualquer risco iminente, necessitando da implementação imediata de um plano de emergência. Precisa de calma, a mesma calma que algumas das suas decisões em campo nos vão impedindo de ter.

 

Marcus Acuña

 

Embora existam romances intitulados Oliver Twist e Jane Eyre e David Copperfield e Silas Marner e Moll Flanders e Taras Bulba e Eusébio Macário, é altamente improvável que alguém tenha vontade, após esta noite, após as últimas semanas, de escrever um romance intitulado Marcos Acuña. E por bons motivos. Nesta fase dos acontecimentos, um romance intitulado Marcos Acuña não teria princípio, nem fim, nem meio. Não teria capítulos, nem parágrafos. Não teria pontuação. Não teria páginas. Não teria personagens. Não seria lido, publicado, folheado, ou sequer incinerado.

 

Rúben Ribeiro

 

Uma das estreias mais incompreensíveis em toda a história do futebol. Sacudido por tremores de ansiedade, sem sequer saber o nome dos colegas, foi tentando timidamente algumas combinações ao primeiro toque e, em acessos de puro pânico, aberturas para o espaço vazio (uma para Gelson, de calcanhar, outra para Piccini, deixando-o isolado na linha), tudo para tentar disfarçar a confusão que sentia. Ao minuto 31, num momento confragedor, viu-se com a bola na área, completamente perdido: tal como um catavento, virou-se para um lado, virou-se para outro, e em desespero acabou por cruzar para a molhada, onde a bola, por milagre, chegou à cabeça de Dost.

 

Substituído ao minuto 65, certamente sem saber porquê, nem onde estava, nem qual era o resultado, nem que dia é hoje. Um fiasco em toda a linha. E lá foi ele, a caminho de um balneário irremediavelmente destruído pela sua titularidade.

 

Bas Dost

 

Observou anonimamente o panorama com a paciência de um agente de mudança confiante nas suas capacidades e que sabe quão rápida e radicalmente pode alterar a ordem vigente, com todo o caos arquivado na sua cabeça e pronto a ser distribuído. O seu propósito na vida é marcar golos. E o camião de golos que continua a acumular prova, entre outras coisas, que quando se tem um propósito, isso funciona melhor que um objectivo, que por sua vez funciona melhor que um intuito, que por sua vez funciona melhor que um desígnio, que por sua vez funciona melhor que uma resolução, que por sua vez funciona melhor que um intento, que por sua vez funciona melhor que um plano, que por sua vez funciona melhor que um alvo, ou uma vontade, ou uma desinência, ou uma Somersby.

 

Battaglia

 

Não entrou tão bem como na semana passada, pelo que, logicamente, hoje não tem direito a física quântica.

 

Bryan Ruiz

 

Numa frase que pareceria ficção científica há apenas três meses, substituiu na ala esquerda um jogador que, nesta altura, parece oferecer menos à manobra ofensiva do que ele.

 

Daniel Podence

 

Numa frase que pareceria ficção científica há apenas três meses, perdeu a titularidade para um jogador com o cabelo mais oxigenado que o seu.

 

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publicado às 16:29

Futebol com humor à mistura (16)

Rui Gomes, em 04.01.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no «derby». Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Poughkeepsie, perdão, pouquíssimo trabalho ao longo dos noventa minutos, tal foi a superioridade da sua equipa perante um adversário retraído, receoso, inofensivo. Foi um dó de alma testemunhar a panóplia de subterfúgios encontrados pelos jogadores do Benfica para evitarem testar as capacidades de Patrício: chutaram por cima, chutaram ao lado, chutaram contra cabeças de colegas, contra suponho que os peitos de colegas, contra suponho que os ombros e pescoços de colegas, até à barra chutaram! Tudo com medo legítimo de um duelo de igual para igual com Rui Patrício. A única vez que o tentaram foi numa situação de nítida desigualdade de circunstâncias. Cobardes.
 

Piccini

Leitor sóbrio! Mon semblable, mon frère! Tens porventura na tua posse três milhões de euros? Ou pelo menos tiveste na tua posse três milhões de euros num passado recente? Eis uma lista não-exaustiva de usos que podiam ser dados a uma quantia de três milhões de euros nos últimos meses:
 
- comprar um Aston Martin Valkyrie;
- pagar a caução de Ricardo Salgado;
- financiar o custo total do fogo-de-artifício na passagem de ano do Funchal;
- Contratar os serviços de 625 jornalistas, pagando 400 euros por mês a cada um, no âmbito de um blogue dedicado à defesa intransigente da Verdade Desportiva;
- comprar Marvin Zeegelaar (caso fossem o Watford);
- comprar Ezequiel Schelotto (caso fossem o Brighton);
- comprar três milhões de isqueiros baratos, um lote considerável que duraria pelo menos oito semanas;
- comprar Piccini
 
É fazer as contas.
 

Coates

Dado o seu recente regime exibicional de alternância bipolar, a grande dúvida para hoje era saber que Sebastián Coates iria apresentar-se em campo: o Coates bom ou o Coates mau? Yin ou Yang? Jekyll ou Hyde? O raio de luz que ilumina a escuridão ou o raio que nos parta a todos? Acabou por aparecer toda a gente em campo, numa peça de ensemble extraordinariamente... perdi o raciocínio, peço imensa desculpa. Segundo as minhas notas, tentou marcar o auto-golo da praxe ao minuto 59, foi amarelado por um contacto erótico com Kristallnachtovic ao minuto 69 e ao minuto 77 desperdiçou nova oportunidade para fazer um autogolo, num gesto de fino recorte técnico, mas em que o remate de primeira lhe saiu escassos centímetros acima da barra. Também fez algumas coisas positivas, e outras razoáveis. É um polivalente.
 

Mathieu

É um bom jogador, Mathieu. Fez um bom jogo, no âmbito geral de ter jogado bem.
 

Fábio Coentrão

Regressou a uma casa que bem conhece e foi recebido com o carinho que se dedica aos filhos pródigos. A multidão em delírio presenteou-o com uma torrente de oferendas: soutiens, incenso, mirra, origamis, e até, numa das maiores manifestações de carinho que se pode mostrar a outro ser humano, um isqueiro! O espectáculo foi tão bonito que o próprio Coentrão não conteve a emoção e por duas ocasiões ajoelhou-se brevemente, sensibilizado, tentando dominar o pranto interior. Quanto ao jogo, ganhou mais lances do que perdeu, e acumulou alguns cortes decisivos, com o pé esquerdo, com a coxa e com outras partes extremamente legais da sua anatomia - anatomia essa, diga-se, em excelente estado clínico. O futebol português precisa de tranquilidade.
 

Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas

Numa opção táctica inesperada, pois toda a gente contava com a titularidade de William Carvalho, Jesus apostou na supresa e deixou que Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas se estreasse hoje em jogos competitivos. Não foi um jogo fácil para Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas, que raramente se conseguiu impor no meio-campo, e no cômputo geral, pode dizer-se que Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas não fez uma exibição positiva. Resta saber se esta estreia menos feliz de Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas marcará o regresso de William Carvalho ao onze inicial, ou se, por outro lado, Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas voltará a merecer mais uma oportunidade.
 

Battaglia

Uma primeira meia-hora intensa, muito envolvido na manobra ofensiva, usando a sua técnica de passe curto, mas certeiro, para iniciar várias combinações no meio-campo do Benfica. Com jogadores do Benfica. Alterou ligeiramente os seus princípios estratégicos na segunda parte, na medida em que conseguiu muitas vezes endossar a colegas de equipa as várias bolas que recuperou. Acabou por ser ele a cometer o penálti. Não recomendo a bebida Somersby, em termos de sabor.
 

Gelson Martins

Conseguiu por duas ou três vezes fugir à marcação de Grimaldo quando ensaiou diagonais para o meio ou quando foi desmarcado nas costas do lateral, mas (creio que com uma única excepção na segunda parte) não lhe ganhou um lance no 1 para 1. Essas raras incursões para o centro foram suficientes para inaugurar o marcador (aproveitando a sua estatura colossal e o seu internacionalmente reconhecido poderio no jogo aéreo) e para ter a segunda melhor oportunidade do jogo, ao minuto 42. Foi substituído, tal como o meu estado fisiológico, perto do fim.
 

Acuña

Um grande plano do seu rosto junto à linha lateral ao minuto  do jogo mostrou-o completamente transpirado. Outro grande plano do seu rosto junto à linha lateral ao minuto 39 mostrou-o completamente limpo desse nítido testemunho fisiológico. O que aconteceu ao suor de Acuña nesses 22 minutos? O que é que nos andam a esconder? Que mais vai ser revelado por leaks de informação na internet? Fica a questão. De resto, mostrou-se em belíssima sintonia com os adeptos leoninos presentes no estádio e em casa, artilhando proezas de tradução quase simultânea, convertendo bolas aparentemente controladas em suspiros, potenciais contra-ataques em insultos, e situações de superioridade numérica em cigarros acendidos na ponta de cigarros ainda acesos. Não há, por enquanto, razões para entrar em depressão, até porque, nos dias de hoje, nove milhões de euros não é uma quantia assim tão inflaccionada para pagar pelo que será (com bastante certeza) um futuro lateral-esquerdo.
 

Bruno Fernandes

Foi, por tão larga distância, o melhor jogador do Sporting esta noite, que a frase vai terminar assim, deixando importunada por adereços supérfluos a sua mensagem central, que é a Bruno Fernandes ter sido, por larga distância, o melhor jogador do Sporting esta noite.
 

Bas Dost

Muito útil a aliviar bolas altas da área na sequência de cantos do Benfica, foi também razoavelmente útil a disputar bolas altas na sequência de lançamentos laterais do Sporting. Continua, numa certa categoria de jogos nos quais se inclui o de hoje, a parecer uma aparição fantasmagórica que se materializou súbita e inesperadamente num mundo de protocolos alternativos e convenções indecifráveis, uma situação da qual a responsabilidade me parece apenas residualmente sua.
 

Bruno César

Entrou, sofreu duas faltas, cometeu uma, o que fazendo um rápido cálculo de cabeça (2-1=1) configura um resultado clara e triunfantemente positivo.
 

Bryan Ruiz

"Olha, vai entrar o Bryan Ruiz", disseram algumas vozes quando vislumbraram a sua figura junto à linha lateral. "O que raio é que se está a passar, em nome de Deus, Jesus e toda a porra de Santos que existem neste infernal buraco cósmico em que todos vivemos e morremos?", terão dito outra vozes. É desta multiplicidade polifónica que se faz uma comunidade de seres humanos.

 

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publicado às 04:17

Futebol com humor à mistura (15)

Rui Gomes, em 18.12.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Portimonense, a contar para a 15.ª jornada da Liga NOS. Como sempre, com humor e a brincar diz-se muitas verdades.

 

Rui Patrício

 

Encaixou o primeiro remate – fraco, rasteiro, à figura – pouco antes do intervalo. Foi o único. E foi mais um jogo em que estar Rui Patrício na baliza ou estar lá um cartaz pintado com as palavras “RUI PATRÍCIO” seria igual. É um caso tão exagerado de excesso de qualificações para a função que normalmente desempenha que a sua carreira nacional quase parece a de um daqueles exilados vocacionais, vítimas de forças macroeconómicas: o astrofísico bielorrusso que lava pratos em Oeiras, o neurocirurgião ucraniano que transporta baldes de massa em Almada – ou o guarda-redes campeão europeu que passa noventa minutos a trocar passes ocasionais com os colegas e a tentar evitar a hipotermia.

 

Cristiano Piccini

 

Ao minuto 29 fez um sprint de três milhões de metros para cancelar um contra-ataque de Nagasaki com um corte por trás. Aos 40, furou para zona interior perto da área do Portimonense e rematou, a centímetros do poste, com o pé que aqui há tempos usava quase exclusivamente para fazer alguns atrasos dúbios para Rui Patrício. Esse foi, já agora, apenas um de vários dribles bem sucedidos que acumulou ao longo da partida. Onde antes via a terra incognita da faixa ofensiva com o olho do explorador intrépido, Piccini vê-a agora com a placidez descontraída do turista que avalia criticamente algumas brochuras promocionais. Aquilo qualquer dia é tudo dele. E ele é nosso – por apenas 3 milhões de euros, como nunca será despropositado recordar.

 

Sebastián Coates

 

Deixou Nagasaki desmarcar-se nas suas costas sem conseguir fechar o ângulo de passe e com isso permitiu ao Portimonense a sua única oportunidade clara de golo. Tirando isso, teve pouco trabalho, pois as circunstâncias do jogo tornaram supérflua a sua magistratura de influência e preferiu nem sequer procurar em episódicas manifestações de virilidade as compensações dessa despromoção. Por duas ocasiões, adversários procuraram o contacto físico consigo, tentando sacar faltas. Coates limitou-se a abanar a cabeça, com um sorriso bem disposto; mas era visível uma expressão magoada, traída, no seu olhar: “Eu não vos esmigalhei os crânios com as minhas mãos nuas, e é assim que me pagam?”

 

Jérémy Mathieu

 

Logo aos seis minutos levou um duplo baile de Paulinho dentro da área, ficando estatelado no meio do chão, sem que a sua dignidade saísse minimamente beliscada do lance – pois a dignidade, mais do que uma condição, é um processo. Ninguém pode ficar à espera de ter dignidade; é preciso trabalhar, e por vezes agir como se a dispersão da mesma fosse um jogo de soma zero (o que talvez explique o episódio ao minuto 73 quando, com várias outras opções disponíveis, Mathieu decidiu ganhar um lançamento lateral atirando a bola meticulosamente contra o nariz de um adversário). Quanto ao resto: é uma apólice de seguro com pernas, e uma das pechinchas da época.

 

Fábio Coentrão

 

Aos 41' recuperou uma bola no choque usando toda a sua clinicamente comprovada saúde, saiu a jogar, combinou com não sei quem, e foi concluir o lance à grande área, onde tentou marcar um golo de cabeça: aos dezassete dias do mês de dezembro de 2017, é este o estado de coisas no que diz respeito a Fábio Coentrão, uma pré-anunciada lesão ambulante que teima em não se materializar.

 

William Carvalho

 

Melhor jogo das últimas semanas – o facto de ter ocorrido durante os melhores primeiros 45 minutos da equipa em casa esta época não será mera coincidência – e algumas entradas promissoras para a sua futura colecção de gifs. Ao minuto 25, por exemplo, sem uma linha recta acessível para executar o passe que idealizara, teve de improvisar um balão para isolar Podence na linha. Ou o do minuto 47, em que um jogador do Portimonense tentou ingenuamente fintá-lo e pareceu chocar contra um bisonte em contramão. Ou o do minuto 87, em que fez uma vénia para abrir espaço à passagem da bola por trás do seu pescoço de forma a ir imobilizá-la com a canela ao outro lado, só porque sim.

 

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Bruno Fernandes

 

Abriu as hostilidades ao segundo minuto com um passe longo para Podence que só pecou por partir tacitamente da premissa que Podence podia convertê-lo em golo. Alguns minutos depois, decidiram inverter os papéis e a coisa correu melhor. Deve, no entanto, ter custado imenso a Bruno Fernandes marcar um golo tão perto da baliza, e passou o resto do jogo a tentar rectificar o que certamente acredita ter sido uma fraqueza moral da sua parte. Tentou marcar quase junto à bandeirola de canto. Tentou um pontapé de bicicleta. Durasse o jogo mais tempo e era capaz de tentar um chapéu com a omoplata atrás da linha de meio-campo.

 

Gelson Martins

 

Quando combina com Podence à velocidade média de ambos, há três maneiras de a jogada acabar: um lance de perigo; uma falta sofrida; ou um erro não forçado cometido por um deles no momento de definição. O que não costuma acontecer é alguém tirar-lhes a bola por mérito próprio. Nesse sentido, Gelson cumpriu hoje uma noite de desequilíbrios democráticos, que acabaram por afectar toda a gente por igual: colegas, adversários, público, treinador. Mais rápido que toda a gente, por vezes dá ideia de apanhar de surpresa até a realidade material, que não reage às suas ideias com a celeridade necessária para evitar escorregões e derrapagens. Ao minuto 72, conseguiu meter a bola no único sítio possível para não ser golo, truque que viria a repetir ao minuto 85. Conseguir desequilibrar tantas vezes, mesmo quando poucas coisas lhe correm bem, acaba por ser uma medida da sua qualidade intrínseca – e da justificada paciência que por vezes é preciso ter com aqueles últimos passes.

  

Marcus Acuña

 

Segundo a teoria de que o nível das suas exibições é inversamente proporcional ao seu nível de cansaço – joga melhor quando está exausto – pode concluir-se que hoje acordou fresquinho e cheio de saúde. O índice da sua desinspiração é o lance ao minuto 33, quando tinha vinte metros de espaço vazio à sua frente para correr e optou por fazer um passe longo para o meio, obrigando Podence a receber a bola de costas e rodeado por um exército de terracota. Na segunda parte ainda ensaiou dois sprints pela faixa, mas acabou por ser substituído quando se tornou óbvio que estava insuficientemente fatigado para as coisas melhorarem.

 

Daniel Podence

 

Primeira jogada de perigo do encontro e tudo aquilo que se pode esperar de Podence: excelente a imaginar a eficácia da desmarcação, excelente a aplicar a velocidade necessária, excelente no primeiro toque (de peito), excelente no segundo toque (com o pé, a preparar o remate)... e depois o remate, que não sendo propriamente horrível, foi aquilo que todos os remates de Podence costumam ser: inofensivos. No que ele é bom – a receber e virar, a sair do meio para as costas dos laterais, a cruzar, ou a desmarcar colegas na vertical – é realmente bom, e com a vantagem adicional de ser realmente bom a 100 à hora. Desde que nunca mais na vida tente rematar à baliza tem uma grande carreira pela frente. Um reparo para a maneira como usou a sua pouco ética escassez de centímetros para agredir a mão de Hackman com o rosto, um gesto muito feio que escapou à alçada disciplinar do árbitro.

 

Bas Dost

 

Depois de um remate à figura, de um cabeceamento ao lado, e da jogada em cima do intervalo em que um defesa lhe evitou um golo em cima da linha, a grande dúvida para a segunda parte era saber que parte do estádio iria Dost pontapear com raiva quando marcasse o inevitável golo. A bandeirola de canto? Um pedaço solto de relva? Um painel publicitário? Um poste da baliza? A solução de compromisso foi uma explosão de vernáculo que cada vez tem mais condições para ser bilingue.

 

Bruno César

 

Ganhou uma falta ao minuto 71, através da aplicação das suas reconhecidas habilitações ao nível do drible curto e da mudança de velocidade na óptica do utilizador.

 

Rodrigo Battaglia

 

Entrou para precaver a hipótese perturbante de a equipa marcar o 3-0 e ser portanto necessário defender desesperadamente esse perigoso resultado nos últimos minutos, uma situação que os colegas acabaram por evitar sozinhos.

 

Bryan Ruiz

 

Um dos poucos jogadores esta noite a não falhar uma oportunidade de golo.

 

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publicado às 04:10

Futebol com humor à mistura (14)

Rui Gomes, em 11.12.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, e a sua usual análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, esta do jogo da 14.ª jornada diante do Boavista, no Bessa. Como sempre, com humor e a brincar diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Mais um jogo a líbero, mais um jogo em que as pequenas criaturas olhavam dos centrais para o guarda-redes e do guarda-redes para os centrais, mas já era impossível distinguir quem era central e quem era guarda-redes. Embora, na sua forma actual, talvez fosse preferível ser ele e não Coates a tentar fintar avançados à entrada da área.
 

Piccini

O seu valor é de uma estabilidade tão grande nestes tempos de incerteza que começa a ser ridículo encarar a sua cotação como flutuante. Aliás, é uma questão de tempo até aparecerem maluquinhos na Internet a defender a organização das economias mundiais num regime cambial de padrão-Piccini, em que uma autoridade monetária é obrigada a possuir Piccinis suficientes para converter todo o dinheiro representativo que emite em Piccinis, de acordo com taxas de câmbio fixas. Neste sistema, seria a quantidade de reservas de Piccinis de cada país a determinar a sua oferta monetária. Depois, se um país for superavitário na sua balança de pagamentos, deve importar Piccinis de países deficitários, elevando a sua oferta interna de moeda, e levando a uma expansão da base monetária. Caso tenha uma balança comercial deficitária, exportaria então Piccinis, sofrendo a respectiva contracção monetária e aumentando a competitividade de seus produtos no exterior. Não sei, quer dizer, já ouvi ideias piores.

 

Coates

São legíveis no seu rosto os vestígios do ancestral combate entre o instinto animal e o protocolo social. O instinto diz-lhe para pegar numa submetralhadora MP5 da Heckler & Koch e despejar uma rajada ininterrupta de metal fundido na direcção de um jogador do Boavista, sacundindo-lhe o cadáver numa tarantela blasfema sob a torrente de balas até nada restar a não ser um charco de espuma carmesim no relvado, com alguns farrapos dispersos de Rochinha lá no meio. Mas as pressões da sociedade dizem-lhe para fazer antes um corte em carrinho e ver o consequente cartão amarelo, ou então para o tentar fintar à entrada da área e perder a bola. Mesmo que nem sempre se tome a decisão mais correcta, é nestes impulsos contraditórios - e nas respectivas lições - que se forma o carácter humano.
 

Mathieu

Um jogo - mais um - à altura de uma parábola Zen: «O Sporting foi ter com um monge sábio que se retirara para meditar e perguntou-lhe: 'Mestre, qual o caminho que devo seguir?' E o monge sábio respondeu-lhe "a luz do amor é como um relâmpago, mas a luz da sabedoria é como um cometa. E metal do arado que lavra a terra é o mesmo da espada que deixa a água incólume". E enquanto o discípulo fez uma vénia e ficou a reflectir sobre o assunto, o jogo já estava ganho, e a equipa provisoriamente em primeiro lugar.
 

Fábio Coentrão

Travou o que se costuma chamar "um duelo interessante" com Kuca, um daqueles extremos chatos que nunca param quietos e que, por algum motivo, têm quase sempre tranças. Fez o primeiro remate da equipa, que saiu por cima, levando-me de imediato a fazer o único comentário que a situação exigia: "Mas este gajo remata à baliza porquê? Ele alguma vez marcou um golo sequer?".
 

William Carvalho

Porque é que as coisas acontecem como acontecem dentro de campo? Ninguém sabe, nem nunca ninguém soube. Um dos efeitos colaterais curiosos do actual momento de forma de William é que acaba por reforçar a ideia de causalidade, denunciando um jogo repleto de ecos, relações, processos, movimentos - mas fá-lo denunciando ao mesmo tempo essa causalidade como refém perpétua de forças que lhe escapam, deixando-a assim suspensa no território indeterminado entre a Razão e o Desconhecido, e entretanto pelo menos até Domingo à noite estamos isolados no primeiro lugar, portanto não pensem mais nisto.
 

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Gelson Martins

Talvez por ser o jogador mais capacitado para o fazer, foi também o primeiro a perceber que alguém tinha urgentemente de começar a deixar jogadores do Boavista para trás, de forma a evitar que nos aparecessem tantos jogadores do Boavista à frente. O facto de esse esquema revolucionário o ter deixado muitas vezes sozinho (já que os colegas ficavam também eles para trás) não foi especialmente problemático, pois Gelson é uma pessoa paciente, além de que pode aproveitar esses momentos de solidão para descansar. Um grande slalom individual (o quarto na partida) já nos descontos, foi uma lição de como defender desesperadamente um resultado perigoso nos últimos minutos: fintar depois da linha do meio-campo, e não antes; e a finta ser feita por Gelson e não por Coates.

Bruno Fernandes

Fez a exibição possível para alguém que dá todas as indicações físicas de ter saído de uma unidade de cuidados intensivos cinco minutos antes de o jogo começar. O talento não é propriamente afectado, apenas a velocidade a que opera. Bruno Fernandes demora mais três quartos de segundo a pensar no que vai fazer a seguir, e entretanto já um ou outro chato do Boavista lhe cancelou os planos. A fadiga - física e mental - acumulada foi óbvia para todos, excepto talvez para Alan Ruiz, que assistiu do banco boquiaberto a esta demonstração de energia, agilidade e rapidez de execução. Útil nas bolas paradas, residualmente melhor na segunda parte do que na primeira, foi substituído só a cinco minutos do fim. "Até que enfim", pensaram os adeptos. "Este gajo precisa é de descanso". "Incrível", pensou Alan Ruiz, "como ele se mexe!"
 

Bruno César

Um médio-ala pós-moderno, na medida em que apenas finta, cruza ou remata ironicamente. Criou a melhor oportunidade da equipa nos primeiros 25 minutos de jogo, e fê-lo sem sequer tocar na bola (desviou-se para deixar a bola chegar a Coentrão). Ainda voltou a não tocar na bola várias vezes, mas sem o mesmo sucesso. Aliás, as vezes em que tocou na bola e as vezes em que não tocou na bola tiveram, daí em diante, resultados equivalentes.
 

Daniel Podence

Estreou nos relvados o seu novo visual - um cruzamento estilístico entre o Dunga dos Sete Anões e um teledisco do Billy Idol - e passou quarenta e quatro minutos essencialmente a dancing with himself. Quando finalmente concluíu que nada lhe estava a sair bem à primeira, deu-lhe um assomo de perfeccionismo e decidiu repetir a mesma acção várias vezes (no caso, uma finta no corredor direito) até a mesma atingir o ponto, altura em que fez o único cruzamento decente do jogo inteiro para Coentrão inaugurar o marcador. Na segunda parte, antes de sair, ainda voltou a desenhar uma jogada de golo que Dost preferiu não aproveitar. Com altos e baixos, o certo é que vai sendo decisivo.
 

Bas Dost

Eis o milagre da conversão brusca da matéria: de um lado o material em bruto, informe (uma esfera, perdida no ar), do outro, o objecto perfeito, humano, acabado (a bola dentro da porra da baliza); e entre os dois extremos nada, a não ser um trajecto quase invisível de sublimação, vigiado e fiscalizado apenas por Bas Dost, uma mistura de autómato, demiurgo e melhor pessoa do mundo de todos os tempos.
 

Marcus Acuña

Nos seus pés, o cruzamento continua a ser um signo que, semiologicamente falando, opera excessivamente, desacreditando-se ao expor de forma tão óbvia a sua finalidade. Mas o canto que deu origem ao 0-2 foi ganho por ele, e não seria, numa reprodução exacta das mesmas circunstâncias, ganho por muitos outros jogadores.
 

Rodrigo Battaglia

Entrou para recuperar bolas e foi exactamente o que fez, que os tempos não estão para desobedecer a ordens.
 

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publicado às 09:57

Futebol com humor à mistura (13)

Rui Gomes, em 02.12.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística da performance dos jogadores do Sporting no jogo da 13.ª jornada da I Liga. Com humor e a brincar, diz-se muitas verdades...

 

Rui Patrício

Como o participante mais passivo num jogo de Cluedo com a cronologia invertida, Patrício voltou a passar o tempo tentando adivinhar a solução do crime que costuma ocorrer nos últimos minutos, e que consiste em fazê-lo sofrer um golo após um jogo inteiro sem trabalho algum. Quem seria hoje? Quem, onde e como? O mordomo, com um punhal, na biblioteca? O Pereirinha, com um charuto, nos descontos? Incaracteristicamente, a Ordem e a Justiça prevaleceram.

 

Piccini

Aquele corte de cabeça a um cruzamento do corredor contrário ao minuto 23? Ou o desarme simples e higiénico quando apanhou um adversário de frente no 1x1 dentro da área ao minuto 31? Ou a paragem de peito a controlar um pontapé de baliza aos 58? Tudo coisas simples. Tudo episódios cumulativamente avaliáveis em 3 milhões de euros. Tudo frases não podiam ser escritas sobre laterais-direitos do Sporting até este ano. Mais do que qualquer outro futebolista contemporâneo, Cristiano Piccini faz-me querer fumar menos cigarros.

 

Sebastián Coates

A reificação de um poder estrutural que deriva a sua eficácia totalizante de um sistema interseccional de relações de domínio e submissão, permitindo que o estatuto de subordinação dos indivíduos do Belenenses ao heteropatriarcado fosse de tal forma internalizado que na verdade Coates não precisou de exercer conscientemente os seus privilégios para sair triunfante das várias interacções sociais, sobrando-lhe inclusive tempo de lazer para ir lá à frente duas vezes brincar aos avançados.

 

Jérémy Mathieu

Exibe a serenidade de um prestigiado faquir oriental em pleno exercício das suas místicas funções, sejam estas levitar, engolir cacos de vidro ou evitar chatices na área. Ainda assim não foi dos seus jogos mais brilhantes, e acumulou dois ou três lances esquisitos no último quarto de hora. Ao minuto 83, por exemplo, subiu em posse de forma esquisita, perdeu a bola de forma esquisita e acabou por ver amarelo, depois de cometer uma falta esquisita. Foi a sua maneira de perguntar, como Shylock “Se me picarem, não sangro eu? Se me fizerem cócegas, não desato a rir?” não vá a gente pensar que o homem não é homem, nem humano.

 

Fábio Coentrão

Cumpriu os noventa minutos pelo segundo jogo consecutivo, e com um fôlego que nem sequer permitiu ao espectador mais ansioso pensar em problemas musculares. Deu, no entanto, demasiado espaço a Diogo Viana na primeira meia-hora, deixando-o rematar ou cruzar por três ocasiões. E mesmo no ataque foi menos influente do que é hábito, estragando algumas combinações promissoras não com más decisões, mas com execuções deficientes, sugerindo que os recentes elogios a Zeegelaar em Inglaterra podem ter afectado a sua solidez psicológica. Se for esse o caso, posso garantir-lhe que não está sozinho.

 

William Carvalho

Jogando bem ou mal (hoje terá jogado mais ou menos), transmite sempre a sensação de existir fora do tempo. Uma atemporalidade que por vezes o leva a transcender a natureza efémera das circunstâncias do jogo, e por vezes o isola dentro delas. Ao minuto 40 fez um passe intrigante para um painel publicitário, num gesto que foi em simultâneo uma comovente manifestação de solidariedade com um colega de selecção e também um gesto modernista, mostrando-nos o medo numa mão cheia de pó. Soltou-se mais na segunda parte, conduziu alguns contra-ataques, e teve a serenidade necessária, quando confrontado com uma oportunidade de golo, para não alargar uma vantagem que deixaria toda a gente nervosa.

 

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Bruno Fernandes

Impecável na recepção orientada seguida de abertura rápida para um flanco. Menos rigoroso quanto variou a metodologia (tentando a progressão em drible ou o passe longo), falhando tantas vezes como as que acertou. Com a entrada de Battaglia, subiu no terreno e começou a tentar o remate de fora da área com uma veemência que cada espectador – no estádio ou em casa – comprendeu perfeitamente. Estamos a chegar ao ponto em que, quando voltar a conseguir um golo num remate de longe, corremos o sério risco de Bruno assassinar alguém na euforia dos festejos.

 

Gelson Martins

É cansativo, é tudo muito cansativo, produzindo por isso, e consequentemente, cansaço. Gelson chegou ao fim do jogo cansado, tal como os colegas, tal como os adversários, tal como eu, tal como vocês. Anda ali de um lado para o outro a esfalfar-se, tenta uma coisa, tenta outra, percebe que não vai ser assim, volta para trás, volta a tentar – numa espiral que este parágrafo percebe perfeitamente, como podem reparar. A procura de desequilíbrios, na relva ou no parágrafo, é uma actividade desgastante, às vezes precisamos todos de descansar um bocadinho.

 

Marcus Acuña

Um remate de primeira com o pé esquerdo e um remate de primeira com o pé direito foram a soma da sua contribuição ofensiva relevante. De alguém para quem o andamento e a rotatividade representam 50% do orçamento qualitativo, é natural que pareça metade do jogador que é após uma paragem. Além disso, apanhou Pereirinha pela frente, factor que compreensivelmente desperta muito menos o instinto competitivo e muito mais a curiosidade antropológica.

 

Daniel Podence

Como qualquer agente vanguardista, a sua violência tem sempre um alvo duplo: os filisteus adversários são alvo da violência estética; mas a violência moral é contra a sua própria casta, da qual recebeu o paradoxal encargo da auto-contestação. Nas suas esporádicas aparições a titular, Podence mostra-se sempre capaz de acelerar o metabolismo da equipa, que hoje, e não pela primeira vez, lhe deve directa ou indirectamente as melhores manobras colectivas. Foi o melhor em campo na primeira parte, e o posterior eclipse (já uns minutos antes da substituição) redistribuiu igualitariamente a qualidade exibicional da equipa, que passou toda a jogar ao mesmo nível, com a pulsação 15 batidas mais baixa.

 

Bas Dost

Falhou um golo de cabeça logo ao segundo minuto, mas seria ele a inaugurar o marcador, num penalty que o fez chegar ao golo 50 com a camisola do clube – e seguido de uma celebração indicativa de que descartou definitivamente os abraços personalizados, aderindo agora a uma política de festejos estritamente comunista. Na 2ª parte tentou ser a diástole da equipa – relaxando-lhe os ventrículos e promovendo uma circulação serena sempre que a bola lhe chegava em condições. Já era um grande ponta-de-lança quando chegou, mas é cada vez mais um grande jogador.

 

Rodrigo Battaglia

Impediu que acontecessem coisas graves. Pelo menos em Alvalade. No outro estádio não, a julgar pela algazarra que aqui vai no café.

 

Bryan Ruiz

Uma primeira intervenção promissora, ganhando um ressalto e desenhando uma combinação que viria a resultar num canto. A cinco minutos do fim, rematou a bola para uma baliza onde o guarda-redes já não estava. Exactamente. Foi isso mesmo. Uma simetria entusiasmante, daquelas que quase nos convencem que as variáveis secretas do Universo, no conforto da sua privacidade inacessível, respeitam as mesmas leis que nos regem.

 

Bruno César

Entrou para marcar um pontapé de canto e para ceder um pontapé de baliza, tarefas que cumpriu por esta ordem, e no pleno respeito dos termos e condições do contrato.

 

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publicado às 04:56

Futebol com humor à mistura (12)

Rui Gomes, em 27.11.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo deste domingo frente ao Paços de Ferreira. Como sempre, com humor e a "brincar", diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

 

À excepção de duas defesas de grau médio-baixo de dificuldade, serviu acima de tudo como órgão consultivo para os colegas, que de vez em quando lhe entregavam a bola para ver se, por acaso, Patrício tinha algum projecto de jogada mais promissor do que os deles. Sofreu o golo da praxe nos últimos minutos (depois de ter feito a melhor defesa da noite), de forma a impulsionar a venda de tabaco em território nacional.

 

Piccini

 

Alguém que não seja adepto do Sporting tem toda a legitimidade em ver a exibição de Piccini esta noite e defini-la como meramente razoável, apontando as ocasionais falhas que teve e os poucos momentos em que as suas insuficiências se fizeram notar. Um adepto do Sporting, por outro lado, tem a obrigação moral de comparar a exibição de Piccini com as exibições hipotéticas de todos os titulares prévios do seu cargo nos últimos anos e, depois de observar, por exemplo, os cortes na área que fez aos minutos 16 e 67, chega rapidamente à conclusão de que, sem Piccini, o clube regressaria hoje de Paços de Ferreira com três milhões de euros a mais e três pontos a menos.

 

Coates

 

Escolheu bem o momento (na medida em que se revelou, ao fim de contas, não precisarmos de mais do que isto) para fazer talvez o seu jogo mais trôpego desde o play-off da Champions. Em especial na primeira parte – quando toda a gente, desde Whelton a Tom Bombadil, o conseguiu ultrapassar em drible ou numa simples corrida em linha recta – pareceu menos o defesa-central que sabemos ser, do que um anónimo participante recrutado pela Aximage para aparecer hoje na Capital do Móvel e fazer perguntas simpáticas.

 

Mathieu

 

Calmo e clarividente, foi a última redundância no sistema imunitário da equipa. Tentou apostar na prevenção, para que o perigo não chegasse sequer a começar. Quando isso não foi possível, fez sempre o necessário para prestar às jogadas moribundas os melhores cuidados paliativos, como ao minuto 33, quando foi a correr interromper o resultado aparentemente inevitável de uma sequência de falhas sistémicas – um gesto que repetiu, com menos espectacularidade, mas igual eficiência, mais 5 ou 6 vezes durante o resto do jogo.

 

Fábio Coentrão

 

Jogou com o desespero compreensível de quem sabia que Jonathan Silva não estava no banco para o substituir aos 80 minutos, circunstância que lhe trouxe a responsabilidade acrescida de tentar não apanhar uma lesão ou doença gravíssima até ao apito final. Nesse sentido dedicou-se, com sucesso retumbante, a não contrair uma distensão muscular, ou uma artrite enteropática, ou hipofosfatemia, ou gliconecose de tipo IX, ou osteocondrite dissecante. Depois de arranjar tempo para fabricar o segundo golo da equipa, e sobreviver à autoestrada que Bruno César ajudou a abrir, conseguiu ainda chegar ao fim do jogo sem qualquer quisto sinovial, espondiloartropatia, policondrite recidivante, ou trombastenia de Glanzmann.

 

William Carvalho

Uma exibição acima do esperado, tendo em conta que se encontra claramente num dos seus já lendários momentos de má forma. Atento e bem posicionado a defender, a má forma acabou por se notar menos em erros comprometedores do que nos inevitáveis dois segundos extra que demora a concluir as suas sessões de auto-esclarecimento quando em posse de bola.

 

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Battaglia

 

Estreou-se a marcar na Liga, aplicando o seu temível e reputado golpe de cabeça ao segundo poste, e fez um belíssimo jogo. Nota-se-lhe um conforto maior (que até pode ser ilusório) com a bola no pé, tendo até arriscado algumas variações de flanco bem sucedidas; quando optou pelo expediente mais familiar de queimar metros em transporte, fê-lo hoje com timing quase sempre imaculado. Saiu a 20 minutos do fim, por dois motivos muito fáceis de explicar: eu não percebo patavina de futebol, e vocês também não.

 

Gelson Martins

 

O seu estilo de finta assemelha-se cada vez mais a um distúrbio obsessivo-compulsivo, que se manifesta na tendência para tentar sempre recuperar as condições iniciais, mas na verdade é um artifício mais astucioso do que isso. Aquele maneirismo de simular o início de dois dribles em direcções opostas, traçando duas linhas invisíveis equidistantes na relva, antes de uma rotação rápida do corpo devolver todos os intervenientes ao posicionamento original, como quem recorda um itinerário cognitivo assombrado pelas próprias vésperas, é uma forma metafórica de se colocar a si próprio entre aspas, reduzindo-se a uma abstracção, para ser mais fácil materializar-se de repente, para perene espanto dos adversários, a fazer cortes importantes na defesa, ou a matar o jogo antes que o jogo me mate a mim.

 

Acuña

 

Ainda mal o jogo tinha começado e assistiu, com consternação argentina, a um fenómeno estranhíssimo: o árbitro brandia uma cartolina rectangular na sua direcção, tão amarelo como o Sol, tão amarelo como os narcisos do campo, tão amarelo como os dedos de um fumador que sabe sempre encontrar o seu isqueiro. Acuña esboçou uma expressão incrédula, irada. O General Videla devia fazer a mesma cara sempre que lhe mostravam um cartaz numa manifestação estudantil. O quarto de hora que se seguiu a esse lance consistiu em Acuña a tentar transcender-se, numa proeza de auto-domínio, para não ver o segundo amarelo, tarefa que, contra todas as expectativas, conseguiu cumprir.

 

Bruno Fernandes

 

As suas três primeiras intervenções no jogo foram bolas perdidas (passes demasiado longos, fintas demasiado curtas) e a bola teimou em sair-lhe mal dos pés um número incaracterístico de vezes. Depois do intervalo, mergulhou num revigorante período de hibernação, do qual emergiu 25 minutos depois para rematar de primeira ao poste.

 

Bas Dost

 

Passou por um episódio invulgar ao minuto 18, falhando um golo só com o guarda-redes pela frente, meras horas depois de ter efectuado uma longa viagem de autocarro na companhia de Bryan Ruiz, circunstância em nada relacionada com a primeira e que se menciona apenas a título de curiosidade. O certo é que a partir daí deu (mais) uma lição de como jogar ao primeiro toque, em que cada devolução sua funcionou como um solvente artifical a corroer o tecido colectivo, apontado aos restantes neurónios um caminho desobstruído pela soma de todas as opções rejeitadas. Raras vezes faz sentido descrever um ponta-de-lança como o cérebro da equipa, mas foi isso que Dost foi hoje.

 

Bruno César

 

Ajudou Coentrão a desenhar a jogada do 0-2, mas fez uma exibição bem mais fraca do que costuma fazer na Champions ou em jogos “grandes” (aos quais a sua utilização devia ser limitada em exclusivo). Três deslizes comprometedores a defender: um valeu-lhe um amarelo, outro um breve susto colectivo, o terceiro um cigarro nervosamente acendido ao contrário da minha parte.

 

Bryan Ruiz

 

Interrompeu uma curta carreira enquanto Afonso Martins do século XXI para fazer a sua estreia esta época, numa notícia que trará certamente uma explosão de alegria a todos os cidadãos da Costa Rica, pelo menos até lhes explicarem que Ruiz jogou a trinco.

 

André Pinto

 

Entrou numa altura do jogo em que provavelmente havia mais nervos fora de campo do que dentro.

 

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publicado às 03:35

Futebol com humor à mistura (11)

Rui Gomes, em 06.11.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting, agora diante do SC Braga. A "brincar", diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

No regresso a um campeonato que teima em conspirar para não o deixar fazer qualquer defesa impressionante, preservou a dignidade com os únicos recursos à sua disposição nas competições domésticas: devolver a bola em condições aos colegas (hoje falhou um passe, algo que, salvo erro, não acontecia desde o jogo com o Steaua), encaixar alguns remates inofensivos, e aceitar com calma resignação a diferença entre Dybalas e Danilos: enquanto um faz 2 ou 3 bons remates por jogo, outro faz 1 remate indefensável por ano – contra si.

 

Stefan Ristovski

Apesar do resultado, foi uma noite extremamente positiva e elogiosa para a maneira como o clube gasta dinheiro em jogadores. Após duas exibições impressionantes em duas competições que não interessam a ninguém (Taça da Liga e Champions), Ristovski mostrou hoje dois dos indicadores que a mão invisível do mercado utilizou para avaliar correctamente o seu preço: que será um pouco mais ágil e multidimensional em posse ofensiva, mas que no 1x1 não é o muro intransponível que Piccini é quase sempre. São contas a fazer no fim da época, mas é provável que cheguemos à conclusão de que os setecentos mil euros que os separam até fazem imenso sentido.

 

Sebastián Coates

Depois do passe desastrado logo ao quarto minuto, fez uma exibição globalmente positiva até meio da segunda parte, dobrando Ristovski com eficácia um par de vezes, bloqueando no último segundo um remate de Paulinho na área, e proporcionando até, na área contrária, a defesa da noite a Matheus. Um dos muitos jogadores em sobrecarga de esforço, foi pena aquela gravíssima rotura simultânea dos lóbulos frontal, temporal e parietal, que o obrigou a jogar os últimos 20 minutos física e intelectualmente diminuído.

 

André Pinto

Uma contratação a custo zero, tal como fez questão de recordar nos últimos minutos, em mais uma demonstração triunfante da maneira como o mercado avalia os preços de jogadores.

 

Jonathan Silva

Ao minuto 33, aproveitando uma interrupção, foi à linha lateral receber instruções de Jorge Jesus, que lhe explicou sucintamente o que era uma bola, e qual devia ser a sua conduta na presença de um objecto tão inesperado. Foi uma intervenção necessária, e talvez tardia, pois Jonathan comporta-se perante a bola como qualquer pessoa normal se comporta perante um cão enorme: dedica todos os seus esforços a mostrar que não tem medo. Mas tem, e a bola, tal como o cão, consegue senti-lo a léguas. A defender, não foi a catástrofe habitual: foi apenas uma catástrofe ligeiramente mais contida (a diferença, digamos, entre um furacão de nível 4 e uma tempestade tropical). Uma decisão incompreensível da equipa de arbitragem impediu que ficasse hoje associado a mais golo sofrido: um erro que, ao apagar dos registos oficiais um motivo adicional para dispensar Jonathan, acaba por prejudicar gravemente o Sporting.

 

Rodrigo Battaglia

É um homem de convicções fortes. Acontece que essas convicções são apenas duas: a bola não deve estar perto de si, e a bola não deve estar longe de si. Na tensão irreconciliável entre estes dois objectivos antagónicos residem todas as suas virtudes e defeitos – que, tal como as convicções, também são muito fortes, e também são apenas duas em número. Fez hoje, de todas as coisas possíveis e imaginárias, aquilo que menos se espera dele: um jogo discreto e quase anónimo.

 

Bruno César

Para surpresa de exactamente ninguém, jogou pior contra o Braga do que contra a Juventus, tal como no passado jogou pior contra o Rio Ave do que contra o Real Madrid e tal como num futuro próximo, jogará pior no Bessa do que no Camp Nou. E até teve uma primeira parte razoável, sempre que jogou simples e ao primeiro toque, e com a disponibilidade que se lhe reconhece para nunca deixar ninguém sem linhas de passe. Depois da saída de Acuña derivou para a esquerda e, tal como Freitas do Amaral, raramente voltou a acertar uma. Ainda assim, pertence-lhe um dos melhores cruzamentos do jogo, ao minuto 63.

 

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Gelson Martins

Continua a exibir, embora só uma ou duas vezes por jogo, uma facilidade tão grande em desembaraçar-se de adversários e deixá-los para trás em velocidade, que até parece mal não o fazer mais vezes. Reagimos como se não o fizesse por não querer fazê-lo, o que faz tanto sentido como ficar chateado com alguém que gagueja. Manteve o nível que apresenta desde Setembro, pecando na decisão ou na execução quase sempre que conseguiu ganhar espaço no último terço. Acção mais meritória (como também começa a ser hábito) aconteceu a defender: ao minuto 76 impediu com o corpo o que podia perfeitamente ter sido um golo de Ricardo Esgaio. Quer dizer, era o que faltava.

 

Marcus Acuña

Um bom índice da sua qualidade é a rapidez com que se transformou na solução automática para todo e qualquer colega que não sabe o que fazer à bola. Num passado não muito distante, em situações de aperto, o último recurso era centrar para a área adversária, mesmo que estivessem atrás do meio-campo. Hoje em dia, preferem disparar a bola na direcção geral de Acuña, na perfeita confiança de que ela vai lá chegar e sentir-se em casa. Pouco antes do intervalo, finalizou um sprint ao pé coxinho e agarrado à coxa, mimetizando na perfeição o que aconteceu ao meu estado de espírito nesse preciso instante.

 

Bruno Fernandes

Teve o golo nos pés logo a abrir, mas não estava a quarenta metros da baliza e portanto não teve confiança para tentar o remate, optando por servir um colega. Não fez um bom jogo, Bruno Fernandes. Mas mais interessante e pertinente do que o facto de Bruno Fernandes não ter feito um bom jogo é o facto de ter estado nos dois golos, e ter sido o jogador da equipa que mais bolas recuperou, que mais ocasiões criou, que mais lucidez demonstrou.

 

Bas Dost

Foi o melhor da equipa. Sempre bem a solicitar colegas ao primeiro toque, fartou-se de aliviar bolas defensivas em cantos, e inaugurou o marcador com um remate onde se viu cada cêntimo dos milhões de euros que custou. Leva 42 golos em 42 jogos na Liga e, no momento em que caiu no relvado agarrado à coxa, levou 42 mil pessoas a sentir o que devem ter sentido os amigos do Willem Defoe no "Platoon", quando viram do helicóptero o que lhe estava a acontecer.

 

Daniel Podence

Entrou bem, conduzindo um contra-ataque rápido na saída de um canto e sacando um amarelo. Ao segundo minuto da segunda parte, perdeu um sprint contra Esgaio, um evento traumático que talvez lhe tenha toldado o discernimento no resto do jogo. Criou esporádicos focos de algazarra e confusão, mas hoje viu-se rodeado de gente também ela demasiado confusa para os saber aproveitar. Ao minuto 64 tentou rematar à baliza, algo que, francamente, devia ser proibido de fazer, nem que seja através de uma cláusula contratual explícita para esse efeito.

 

Seydou Doumbia

Foi menos útil e decisivo que Alan Ruiz, um destino improvável e que não se deseja a ninguém.

 

Alan Ruiz

Usou a sua inteligência para cometer uma importante falta ofensiva já nos descontos, quando a equipa estava a perder, certamente para gastar tempo e evitar o 1-3 do Braga. Ao sentir que os ânimos estavam mais calmos, decidiu sofrer uma falta, em vez de a cometer, e ganhou o penálti do empate.

 

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publicado às 04:35

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no embate desta terça-feira da Liga dos Campeões, frente à Juventus. A "brincar", diz-se muitas verdades...

 

Rui Patrício

 

Uma noite atípica, mas apenas na medida em que se viu rodeado de caras pouco familiares, como naquelas festas em casa do amigo de um amigo, em que não conhecemos praticamente ninguém. Fora isso, tudo dentro da normalidade, tanto no golo sofrido, como no punhado de defesas seguras, como na quantidade de passes longos precisos (com superior taxa de acerto aos de Anderson Polga), como na discrição com que voltou a lembrar-nos que, algures nos últimos dois anos, por um qualquer processo misterioso, deixou de ser um bom guarda-redes e passou a ser um grande guarda-redes - ou pelo menos o mais próximo que é possível chegar a ser um grande guarda-redes e ainda assim passar a carreira inteira em Portugal.
 
Stefan Ristovski
 
A saída de bola da Juventus após o apito inicial confirmou que os olheiros italianos não brincam em serviço; podem não ter tido oportunidade prévia de observar Ristovski, mas observaram certamente todos os laterais-direitos do Sporting na última década e fizeram recomendações em conformidade: despejar-lhes bolas para as costas. Com Schelotto, com João Pereira (e, nos piores dias, até com Cedric) era quase sempre o plano A do adversário, e quase nunca era preciso um plano B. Bastou uma verba acumulada de 5,2 milhões de euros para os obrigar a pensar noutras letras do alfabeto. Fez um grande jogo, e teve até direito ao seu baptismo oficial: ao minuto 23 fez um cruzamento completamente disparatado que saiu perto da bandeirola de canto. Levantou o braço e pediu desculpa aos adeptos, que, num gesto de grande cumplicidade, lhe dedicaram uma salva de palmas, como quem diz: "escusas de estar com merdas que já percebemos que és um achado".
 
Sebastián Coates
 
Está em tão boa forma, e interpreta de tal maneira à letra o conceito de consistência, que transformou as suas acções em campo num repertório, limitando-se a reproduzir o mesmo material de palco em palco. A ousada intercepção de um cruzamento de frente para a baliza e com a sola do pé, cedendo um canto quando muitos marcariam um auto-golo? Hoje surgiu ao minuto 16. O habitual truque de fintar o primeiro adversário, entusiasmar-se, passar por mais dois, galopar até à área contrária, e só perder a bola para o quarto? Hoje veio ao minuto 28. O cartão amarelo que o afasta da recepção ao Olympiacos, e que viu por protestos, de forma a compensar o seu desejo secreto de enforcar Higuain com os atacadores das próprias chuteiras, rasgar-lhe o abdómen de alto a baixo com uma unha pontiaguda, e brandir o seu coração ainda palpitante à luz dos holofotes, gritando "ARE YOU NOT ENTERTAINED?" Tudo isso foi ao minuto 79.
 
André Pinto
 
Foi já por volta do minuto 60 que me ocorreu subitamente que ainda não tinha pensado uma única vez em Mathieu, sussurrando o seu nome com um sorriso melancólico e o olhar perdido no horizonte de pixels ensaboados e pop-ups de sites de apostas. Não fez um jogo perfeito: uma falha de coordenação com Coates na primeira parte permitiu a Khedira cabecear isolado na área, e por uma ou outra ocasião não tratou a bola com a devida serenidade gaulesa (apesar de, nesse aspecto específico, ser um claro upgrade em relação a Paulo Oliveira). Mas esteve sóbrio, certinho e, até pela oposição que encontrou, terá deixado muita gente mais descansada com a qualidade do plantel.
 
Jonathan Silva
 
Entrou cheio de confiança e estreou-se logo aos 35 segundos com um passe triunfante e inesperado para os pés de um colega de equipa. Foi o mote para uma noite repleta de novidades em que chegou até a fazer um cruzamento bastante razoável para Dost (minuto 32) e a ganhar dois ou três lances no um-para-um com Cuadrado. Não descartou por completo (era o que faltava) os cortes erráticos, os passes absurdos e as más decisões ofensivas, mas, acima de tudo, conseguiu não ser um desastre de proporções Bíblicas, o que é desde logo uma vitória. Soube, grande parte do tempo, refugiar-se nos hábitos e formalismos da posição, e guiar-se pela regra básica de poupar esforços e não arranjar sarilhos, talvez o antídoto mais eficaz ao seu estilo de jogo instintivo - que é um estilo de jogo essencialmente histérico.
 

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Rodrigo Battaglia
 
Representa um interessante desafio técnico aos responsáveis por agregar estatísticas sobre "posse de bola". Porque a "posse de bola", quando Battaglia está envolvido, ou apenas nas imediações, será sempre um conceito problemático e contestado. Estará a equipa adversária verdadeiramente "em posse de bola" com Battaglia por perto? Duvidoso. Por outro lado, estará a sua equipa em "posse de bola" quando é Battaglia a conduzi-la? Não por muito tempo (e hoje até esteve melhor no passe do que é habitual). Porque Battaglia parece alimentar profundas objecções de princípio a que alguém tenha "a posse de bola" e dedica todo o seu esforço a este meritório combate filosófico: demonstrar a precariedade básica de um conceito que, tal como o gato de Schrödinger e a localização do material de Tancos, é mais uma sobreposição quântica do que uma condição estável e observável.
 
Gelson Martins
 
Tal como inteligentemente se explicou neste espaço nas últimas semanas, Gelson encontra-se num mau momento de forma, incapaz de criar desequilíbrios ofensivos, e propenso a tomar más decisões. Por conseguinte, criou o golo num lance individual, fartou-se de desenhar boas combinações (especialmente com Bruno Fernandes) e foi dos que mais lutou para esticar o jogo na pior fase da equipa, entre os 60 e os 85 minutos.
 
Bruno César
 
Depois de algumas experiências entre o inconclusivo e o penoso a médio-ala e a lateral, recuperou finalmente a posição onde fez as exibições mais agradáveis ao serviço do clube, e a única onde ainda pode ser útil (em particular contra este tipo de oposição): terceiro homem do meio-campo, mas a subir até à linha de Dost quando a equipa perdia a posse. Inaugurou o marcador com o seu polivalente remate de pé esquerdo (hoje adaptado a pé direito), viu outros dois passarem perto dos ferros, e não deu descanso a ninguém. Até pode ser coincidência, mas é depois da sua saída que a equipa recua 10 metros e que a Juventus parte para os minutos de maior sufoco. Belo jogo.
 
Mascus Acuña
 
Continua a implementar a sua abordagem revolucionária à pressão alta: correr do ponto a ao ponto b à mesma velocidade com que a bola é trocada entre o adversário no ponto a e o adversário no ponto b, de forma a conseguir pressioná-los alternadamente, mas, na prática, ao mesmo tempo. É um processo tão contra-intuitivo e, por um par de ocasiões, deixou os jogadores da Juventus tão incrédulos que acabaram por entregar a bola a Acunã e foram reflectir um bocadinho. Terá jogos mais influentes ofensivamente, marcará mais golos, fará mais assistências, mas suspeita-se que os seus lances paradigmáticos serão sempre parecidos com o do minuto 49, quando veio fechar ao meio, recuperou uma bola na meia-lua, passou por Pjanic em velocidade e desmarcou Dost, tudo em menos tempo do que demora a dizer "nove milhões extremamente bem gastos".
 
Bruno Fernandes
 
Estreou um novo penteado, respondendo assim às dúvidas de todos aqueles que um dia perguntaram qual seria o aspecto de um contabilista da Gestapo que decidisse integrar uma boys band. Fez uma excelente primeira parte, cheia de rodopios e recepções orientadas para ganhar tempo e espaço, e sempre com boas ideias para aproveitar o tempo e espaço que conseguia ganhar. Hibernou por meia-hora depois do intervalo, deixou de conseguir segurar a bola, e a equipa ressentiu-se. Voltou a sair da toca ao minuto 88, livrando-se de um adversário no corredor central e rematando de longe, por cima da trave: reagiu como se tivesse falhado um penalty, o que, no seu caso, até se compreende.
 
Bas Dost
 
Não marcou, mas fez um daqueles grandes jogos que aprendeu a fazer nestas ocasiões: ágil a mover-se e a pensar, e exímio a encontrar uma solução ao primeiro toque, mesmo quando essa solução estava nas suas costas. Foi assim que isolou Gelson na primeira jogada da 2ª parte, e que assistiu Bruno César para dois remates perigosos. Falhou, salvo erro, um único passe: uma devolução demasiado curta no círculo de meio-campo ao minuto 47, que o fez levar imediatamente as mãos à cabeça em desespero. (Se Jonathan Silva reagisse da mesma forma sempre que comete um erro semelhante, já estaria careca). Antes de sair, viu um amarelo justíssimo, que mais não seja porque, presenteado com a oportunidade de desfazer as trombas de Chiellini à cotovelada, não a soube aproveitar.
 
João Palhinha
 
Conseguiu trazer ao meio-campo alguma da agressividade de Bruno César, mas vários metros atrás, ou seja, viu-se mais a bloquear remates do que a recuperar bolas. Sempre que tentou subir no terreno cometeu faltas, algumas das quais até foram bem assinaladas.
 
Doumbia
 
Hoje não resultou.
 
Petrovic
 
Muito bem a fazer exercícios de aquecimento antes de entrar, mostrando que merece novas oportunidades para dar saltinhos intensos e vigorosos na linha lateral a um minuto dos noventa.
 

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publicado às 11:50

Futebol com humor à mistura (10)

Rui Gomes, em 28.10.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo frente ao Rio Ave. A "brincar"... diz-se muitas verdades.

 

Rui Patrício

 

Um jogo com sabor aos bons velhos tempos, antes deste recente e lamentável acréscimo geral de segurança defensiva que o transforma em figurante na maioria das ocasiões. Entre meia dúzia de encaixes seguros, fez pelo menos duas "defesas da noite": uma a evitar um golo de cabeça do advogado João Nabais, e outra em resposta a um remate de longe do sociólogo António Barreto. O grande momento, no entanto, surgiu ao minuto 84, quando safou o 1-0 usando apenas o seu prestígio: depois de esbofetear para a frente um remate traiçoeiro, deixou a bola à mercê de Guedes, que, em vez de calcular a altura de Patrício (1,90m), optou por avaliar correctamente a sua estatura moral (cerca de 40 metros), tendo por isso rematado por cima da barra, e na direcção do meu cardiologista.
 
Cristiano Piccini
 
Piccini, não sei se já repararam, nunca pensa em movimento; os seus instantes de reflexão acontecem invariavelmente antes de começar a correr. É fácil verificar isto, porque é sempre possível perceber quando Piccini está a pensar. Quando não está a pensar parece um concorrente do Secret Story que perdeu o depilador de sobrancelhas e portanto aguarda que os pelos caiam naturalmente. Quando está a pensar tem exactamente o mesmo aspecto, mas um bocadinho mais intenso: os globos oculares estremecem e perscrutam o horizonte, à procura de Gelson, Coates ou Rui Patrício, as únicas pessoas no hemisfério Norte a quem alguma vez tentou passar a bola. Não fez a sua melhor exibição, mas foi um lateral de quatrocentos mil euros a atacar e um lateral de cinco milhões e seiscentos mil euros a defender, mantendo dessa forma a estabilidade da sua cotação.
 
Sebastián Coates
 
Deixou-se antecipar uma única vez (ao minuto 32), mas antes e depois foi acumulando uma série de cortes de grau de dificuldade elevado, com destaque para uma bola que conseguiu aliviar para canto em vez de marcar o auto-golo que tanto o historial do clube como Paulo Oliveira nos habituaram a esperar. Já na segunda parte, percebeu também que a manobra ofensiva não estava a carburar e recuperou um hábito da época passada, ensaiando uma maradonice por ali fora, em que conseguiu passar por todos os adversários menos pelo adversário que não passou.
 
Jérémy Mathieu
 
Como diz a velha maldição chinesa, estamos prestes a viver umas semanas interessantes.
 
Fábio Coentrão
 
Pouco antes do intervalo, após um sprint pela faixa esquerda, caiu ao chão e ficou agarrado a várias partes do corpo em simultâneo, como de resto Nostradamus previu numa das suas centúrias. Temeu-se o pior, mas uma das vantagens de ter 50% do corpo constituído por próteses, enxertos e placas de metal unidas com adesivo e elásticos é a invulnerabilidade a lesões menores. Felizmente. Até nem teve uma noite muito inspirada, mas o simples facto de não ser substituído a dez minutos do fim foi o suficiente para garantir os três pontos.
 
William Carvalho
 
Grande parte do que acontece num meio-campo, qualquer meio-campo, sendo essencialmente o resultado de efémeros acordos de cooperação entre a vontade humana e a arbitrariedade do Universo, consiste em momentos nos quais um futebolista revela sensibilidade suficiente para resgatar ao caos ao possibilidade mais próxima, normalmente escondida uns centímetros à direita ou à esquerda da sua intenção consciente (a consciência curva-se na direcção da verdade, mas é o instinto que lá chega primeiro). No caso de William, que por vezes nem parece um terráqueo, quanto mais um centrocampista, a analogia mais correcta é um orador muito talentoso a ler um discurso no teleponto, com a nuance de que não só foi ele a escrever o discurso, mas também foi ele a construir o teleponto na sua oficina. Essa sensação de que joga sem improvisar, cumprindo um plano prévio, e num plano temporal alternativo ao resto do jogo, está sempre presente, quer quando descongestiona qualquer barafunda com decisões tão clarividentes que parecem inevitáveis (como aconteceu várias vezes esta noite) quer quando os adversários passeiam à vontade pelos calendários de espaço que deixa sistematicamente vazios nas suas costas (como também aconteceu várias vezes esta noite).
 
Gelson Martins
 
A utilidade do costume a fazer de segundo lateral-direito, ou a corrigir na recuperação defensiva as bolas que ele próprio perdeu, mas o certo é que já vamos quase em Novembro e a sua prestação ofensiva mais desequilibrante da época continua a ser a do jogo de apresentação aos sócios contra o Mónaco. E apesar de a temperatura continuar a mesma, já lá vão mais de três meses, a hora está quase a mudar, e começa a ser altura de termos uma conversa séria sobre fontes de energia alternativas.
 

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Bruno Fernandes
 
Sem estar muito em jogo - como seria de esperar numa ocasião em que a sua equipa foi para o intervalo com 40% de posse de bola - foi o elemento mais esclarecido em posse durante toda a primeira parte, e o único a conseguir fazer com sucesso quase tudo o que tentou, ou seja, descobrir a única linha de passe ofensiva que por acaso não estava bloqueada por setenta jogadores do Rio Ave. Na segunda parte avançou no terreno e continuou a fazer o seu melhor para descobrir espaços vazios; encontrou alguns, o maior dos quais na minha alma, depois de festejar o que ambos julgámos ser o golo inaugural com um chorrilho de palavrões que as circunstâncias confirmaram pouco depois ser inteiramente justificado.
 
Marcus Acuña
 
Adoptou alguma da aura polivalente de Bruno César, com a (significativa) diferença de que, enquanto Bruno César podia ser médio-ala, médio-centro e defesa-lateral no mesmo jogo, Acuña pode ser médio-ala, médio-centro e defesa-lateral na mesma jogada. É uma situação de superioridade numérica em forma humana. É possível que a sua esposa esteja a praticar poligamia apenas por ser casada com ele.
 
Daniel Podence
 
Pareceu desde o primeiro minuto o candidato mais forte a criar ocasiões de perigo (ou pelo menos de desequilíbrio pré-perigo, a sua especialidade), e o único capaz de receber a bola com um adversário nas costas, e conseguir virar-se e ultrapassá-lo com apenas dois toques. O facto de ter sido ele, e não Gelson, a sair ao intervalo, só tem uma explicação, que é também o maior elogio ao Rio Ave feito esta noite: Gelson defende melhor.
 
Bas Dost
 
A sequência de jogos sem marcar (ou sequer rematar) conferiu-lhe o aspecto de vítima de maldição, convertendo geometricamente todos os seus escrúpulos e receios numa linha recta que lhe trespassava os ombros como um cabide, deixando-o suspenso no deserto de cinco metros quadrados permanentemente instalado à sua volta. O hat-trick da semana passada restaurou a normalidade e devolveu-lhe uma confiança que se nota até quando anda para ali a correr atrás de bolas impossíveis ou a disputar na mesosfera pontapés de Rui Patrício. Marcou o golo da vitória: caído do céu, tal como ele.
 
André Pinto
 
Defensivamente, as coisas não pioraram quando substituiu Mathieu. Uma vez que a expectativa mais optimista era que as coisas piorassem apenas um pouco (em vez de piorarem de forma catastrófica) acabou por ser uma surpresa positiva. Lá na frente, pouco antes do intervalo, uma carga de ombro ilegal sobre Bas Dost, impedindo-o de marcar golo, devia ter sido punida com falta, cartão amarelo, e um calduço na nuca.
 
Rodrigo Battaglia
 
Entrou para dar músculo ao meio-campo e reforçar a capacidade defensiva da equipa, portanto evidentemente não recuperou uma única bola e fez o cruzamento para o golo com o seu pior pé. #Sistemas_Tácticos
 
Seydou Doumbia
 
Aposto mil euros em como Doumbia não se lembrava do resultado do jogo quando tentou marcar o que podia ser o golo da tranquilidade com toda a brandura de um trovador medieval a dedilhar o seu alaúde. Aposto outros quinhentos em como nesta altura já se voltou a esquecer.
 

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publicado às 11:00

Futebol com humor à mistura (9)

Rui Gomes, em 23.10.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, através da qual, a brincar, se diz muitas verdades. O seu alvo neste dia, o jogo com o Desportivo de Chaves.

 

Rui Patrício

 

Um jogo agradável como elemento mais recuado do meio-campo ofensivo, dando sempre linhas de passe aos colegas e revelando segurança com a bola no pé. Falta-lhe algum rasgo para arriscar mais no drible, no remate, e nos cruzamentos, mas no geral esteve bem nas suas novas funções. Nos últimos minutos recuou para guarda-redes, onde voltou a mostrar que não possui a característica essencial que, como aprendemos esta semana, distingue os grandes guarda-redes: ter culpa nos golos sofridos.
 
 
Cristiano Piccini
 
O tipo de exibição que deve obrigatoriamente levar muitos adeptos a levar à mão à consciência e a pistola ao cepticismo. Eu próprio faço desde já um mea culpa, autorizando que Piccini, a partir de hoje, possa ser valorizado em três milhões oitocentos e setenta e cinco mil euros. Insuperável no 1x1, mesmo dentro da área, a qualidade habitual na recepção com pé, coxa e peitorais, e intervenção directa em três dos golos, a última das quais com uma daquelas situações em que um futebolista profissional encosta o pé a uma forma esférica no sítio correcto e com força suficiente para fazer essa forma esférica sobrevoar um grupo de cidadãos adversários até chegar à cabeça de um cidadão amigo.Há um nome para isso, que nunca será escrito neste espaço, pelos mesmos motivos que os actores nunca dizem o nome de uma certa peça de Shakespeare, chamando-lhe sempre "a peça escocesa".
 
 
Sebastián Coates
 
Negou o direito à auto-determinação dos avançados flavienses e tomou todas as medidas necessárias durante o jogo para subjugar pontuais focos independentistas, administrando com tranquilidade a sua zona de soberania. Ao minuto 69 foi dar uma perninha ao meio-campo e fez uma pirueta por entre dois elementos subversivos, um dos quais o derrubou em falta. Revejam o sorriso que Coates esboçou nesse momento: é aquele o rosto do Poder; é assim que o Leviathan arreganha os dentes quando algo o diverte.
 
 
Jérémy Mathieu
 
Mathieu fez hoje um jogo esquisito. Quanto mais penso no assunto, mais esse me parece o termo técnico adequado para descrever o seu jogo hoje.
 
 
Fábio Coentrão
 
Voltou a sair a 10 minutos do fim, e a equipa voltou a sofrer um golo. Era certamente isto que imaginava o Dr. Alfredo Augusto das Neves Holtreman, quando numa luminosa manhã estival há cento e onze anos decidiu emprestar dinheiro ao seu visionário sobrinho para que este fundasse um clube tão grande como os maiores da Europa: que um século mais tarde esse clube conseguisse lutar arduamente para se reposicionar na senda dos triunfos domésticos - DESDE QUE ESTEJA SEMPRE TUDO RESOLVIDO AO MINUTO 79.
 
 
William Carvalho
 
Estão a ver aqueles dias em que William encarna uma presença remota e autónoma, como se impelida por forças estritamente naturais - o resultado de equações intemporais e não de algo tão banal como "características técnicas" ou "indicações tácticas" - preenchendo o firmamento com a cintilante astronomia das suas aberturas por alto, desenhando uma canópia de ângulos e perspectivas convergentes, e efectuando translações incandescentes sobre o seu próprio eixo, numa órbita de adversários pálidos que circundam o seu corpo com o respeito equidistante típico dos anéis de Saturno?... Hoje não foi um desses dias.
 
 
Gelson Martins
 
Como um blogger libertário ou praticamente qualquer colunista nacional, Gelson comportou-se hoje como um iconoclasta: uma voz livre contra o consenso bien pensant, uma viatura em controversa contra-mão perante o fluxo de ideias feitas e opiniões não-examinadas. Se o lugar-comum da ocasião é que os centros devem ser feitos de uma maneira, lá vai Gelson fazê-los de outra maneira. Se o rebanho determina que a bola deve ir numa determinada direcção, lá vai Gelson atirá-la numa direcção oposta. A postura serviu-lhe para falhar inúmeros passes, contabilizar uma assistência, ajudar q.b. na defesa da causa defensiva, e sair de campo convencido de que, ame-se ou odeie-se a sua exibição, "não deixou ninguém indiferente".
 
 

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Bruno Fernandes
 
Algumas perdas de posse escusadas na primeira meia-hora por apostar demasiado na sua capacidade para se desenvencilhar de situações de inferioridade numérica num centro do terreno com excesso de população. Melhorou quando passou a usar a mobilidade e inteligência para encontrar espaços vazios, e encarregou-se de fazer circular a bola, algo que conseguiu quase sempre, excepto quando, como aconteceu ao minuto 50, o árbitro conseguia interceptar atentamente um dos seus passes. Tentou por duas vezes o remate de longe, algo que claramente não é o seu ponto forte. Aliás, é duvidoso que Bruno Fernandes alguma vez consiga voltar a marcar golos de fora da área. Diria até que é impossível que tal aconteça. Certinho. (Pode ser que resulte).
 
 
Marcus Acuña
 
Um jogo indelével que fica marcado por algo que fez duas vezes - e nem sequer me refiro a ter marcado dois golos. Em duas ocasiões, Acuña foi perseguir desalmadamente uma bola perdida que se encaminhava para fora das quatro linhas com o intuito de impedir um lançamento lateral para o adversário, objectivo que em ambas as ocasiões, falhou por milímetros. Fê-lo quando o resultado estava 3-0, fê-lo quando o resultado estava 4-0, e voltaria a fazê-lo, com o mesmo esforço, com um resultado de 750-0 e no último minuto de descontos, circunstância que considero tão sugestiva, profunda e comovente como o último parágrafo d' Os Maias.
 
 
Daniel Podence
 
Usou os primeiros minutos do jogo para declarar os termos da sua dupla abordagem ao jogo desta noite: sem bola, procurar em velocidade o espaço vazio entre as costas do central e as costas do lateral; com bola, procurar o espaço vazio cinco centímetros à frente do pé ou da cabeça da Bas Dost. Demorou apenas um quarto de hora a unir essas duas propensões, assistindo para o 2-0. Foi o melhor em campo na primeira parte, e saiu cedo para descansar, com o jogo resolvido - uma frase bonita e improvável que não me importaria de repetir imensas vezes.
 
 
Bas Dost
 
Muitas conversas entre um adepto sportinguista que tenta informar outro adepto sportinguista sobre um jogo que o segundo não pode, por algum motivo, acompanhar costumam incluir o seguinte diálogo: "então e depois, o que é que aconteceu?" "O que aconteceu? Bem, não vais acreditar, mas..."
 
Só que o interlocutor normalmente acredita, mesmo que aquilo que lhe é dito seja inacreditável, porque a vida nos foi ensinando coisas suficientes para aprendermos algumas. Bas Dost é o futebolista ideal para o clube porque, tal como nós, nunca parece achar nada "inacreditável". Tal como a Alice de Lewis Carroll, consegue acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço: que vai chegar àquela bola antes dos adversários; que um hat-trick é uma resposta perfeitamente natural a 360 minutos com um único remate à baliza; que o País das Maravilhas existe; que a felicidade é possível, mesmo que seja efémera.
 
 
Rodrigo Battaglia
 
Ficou na retina uma jogada ao minuto 83, em que se esfarrapou todo para travar a progressão de Djavan e roubar-lhe a bola, como se o resultado estivesse 0-0 e do sucesso dessa acção dependesse a viabilidade das democracias Ocidentais.
 
 
Seydou Doumbia
 
Estava ainda a pensar na melhor maneira de festejar o golo mais feio da sua carreira quando reparou, com visível e compreensível alívio, que o mesmo fora anulado. Pode assim dormir em paz esta noite.
 
 
Bruno César
 
Não foi um alívio ver que ele ia entrar, mas foi um alívio ver que era ele quem ia entrar, se é que me faço entender.
 

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publicado às 04:41

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo com a Juventus. Como sempre, a "brincar" diz-se muitas verdades... 

 

Rui Patrício

Na melhor tradição de Schmeichel, detectou premonitoriamente um livre directo executado na perfeição e limitou-se a supervisionar a trajectória da bola. E livres directos executados na perfeição são algo para o qual Patrício deve ter um radar apuradíssimo, tendo em conta a quantidade deles que já testemunhou. Bruno Alves, Carlos Eduardo, Tiago Silva, Valbuena, Cristiano Ronaldo (x2), Lindelof: não há ninguém que não execute livres directos na perfeição contra Rui Patrício. Adrien Silva saiu do clube com a reputação de não saber marcar livres directos. É esperar pelo primeiro Leicester-Sporting.
 

Cristiano Piccini

Intratável a defender, quase sempre insuperável no 1x1, e a fazer aquilo que eludiu gerações inteiras de laterais do clube, direitos ou esquerdos: fechar por dentro os cruzamentos da faixa oposta. Teve a primeira boa incursão ofensiva ao minuto 47, num lance que começou com uma das suas maiores virtudes - nunca perder a calma - e culminou no que não é propriamente o seu maior defeito, mas sim o principal motivo que o fará custar três (bem gastos!) milhões de euros para todo o sempre: a falta de capacidade de improviso no último terço. Piccini é uma heurística com pernas, uma navalha de Occam ambulante: em qualquer situação de escolha múltipla, escolhe invariavelmente a menos complicada (para ele, para os colegas e para o adversário). É um alívio permanente para os defesas - da sua equipa e da outra; e um obstáculo permanente e insuperável para os extremos - idem aspas.
 

Sebastián Coates

Algumas falhas no controlo da profundidade na primeira parte e um ou outro calafrio faziam temer o pior, mas acabou para embalar para uma exibição positiva, e esteve imperial dentro da área, com a cabeça ou com os pés. A três minutos do intervalo, cabeceou por cima, depois de um dos livres "ensaiados" mais bem sucedidos que me lembro de ver o clube fazer nos últimos tempos.
 

Jérémy Mathieu

Um deslize ao minuto 23 deixou Dybala em posição de remate. Um deslize de Mathieu. Mais do que um percalço conjuntural, vi o episódio como um cataclismo, algo que abalou a minha fé na estrutura básica da Natureza. Após o incidente, olhei ao meu redor à procura de qualquer coisa: de um cigarro, ou da minha identidade enquanto indivíduo. Tudo o que encontrei foi uma pilha de cromossomas arrumada a um canto, e que baptizei como "Jonathan". Mathieu, por seu lado, e como era de esperar, fez o que costuma fazer: amnesiou-se instantaneamente e fez um jogo ao seu nível - calmo, clarividente e eficaz.
 

Fábio Coentrão

É o melhor funcionário público do mundo: integra uma burocracia sólida e experiente, é extremamente competente, está persuadido até à medula das suas responsabilidades colectivas, executa todas as suas tarefas com brio, independência e orgulho profissional - e nunca abdica do impulso de picar o ponto uns minutos antes da hora. Fez um jogo quase perfeito até danificar uma das peças sobressalentes. Uma pena que as suas saídas prematuras de campo sejam agora o equivalente futebolístico à presença de Sean Bean num ecrã: um spoiler irrevogável sobre o resto do filme.
 

William Carvalho

Não fez um jogo ao nível do que fez contra o Barça e até contra o Porto, algo que evidentemente não é culpa sua, mas do jogo em particular, do desporto em geral, da sociedade e, por inerência, do Universo. Quando a inadequada interiorização de normas colectivas dá origem a comportamentos desviantes, William penetra linhas de ruptura conceptual, procedendo à segmentação das opções que previamente o constituiram como agente estruturado-estruturante capaz de se articular na complexa relação de domínio ideológico com o grupo-matriz, permitindo-lhe assim redefinir-se, na sequência de tal segmentação, e através da reconfiguração dos vectores significante do espaço técnico-táctico, enquanto alternativa à praxis. Quer dizer, isto nem sequer tem discussão.
 

Gelson Martins

Mostrou uma precoce e exemplar memória corporativa ao falhar um golo isolado perante Buffon, deixando a um colega de equipa do mesmo a tarefa ingrata de fazer passar a bola por ele, a caminho das redes. Uma coisa é tratar Marcelos e Busquets com condescendência, outra é faltar ao respeito ao Senhor Doutor Gianluigi. Para quem achasse que tinha sido um mero acidente e não uma decisão deliberada, dez minutos mais tarde tentou fintar outro "histórico", Chiellini, em velocidade - algo que muitos tentaram antes dele, e com o mesmo sucesso (zero). De resto, fica a mesma ideia que tem ficado nos últimos jogos: anda a oferecer ao mundo apenas excertos avulsos do seu talento, abreviados e parafraseados, sem nunca propriamente abrir o livro.
 

Rodrigo Battaglia

Tanto nos contos de fadas como na literatura épica - Virgílio, Dante, Milton - a floresta é o lugar encantado onde uma pessoa vai. Onde vai o bom rapaz (para perceber se é heróico) ou o gajo complicado (para perceber se é vilão). Acima de tudo, é um lugar onde se vai para ser testado. Injectado à bruta no meio da floresta densa que foi o meio-campo da Juventus, Battaglia não emergiu com uma espada mágica, mas também conseguiu não ser engolido. Incomodou as progressões pelo meio o melhor que pode, e ainda ensaiou algumas vezes (a do minuto 24 foi a que mais agradou) o expediente que desenvolveu para compensar o facto de não conseguir fazer passes a colega algum: galopar por ali fora até perder a bola de forma a conseguir recuperá-la logo de seguida numa zona mais adiantada. Não é bonito, mas de vez em quando é tremendamente eficaz.
 

Marcus Acuña

Aproveitando certamente o facto de pela primeira vez em muito tempo não ter jogado 78 jogos numa semana, entrou espevitado e alerta, acumulou uma mão cheia de recuperações (o golo inaugural começou com uma) e na primeira parte foi dos poucos, com a ajuda de Coentrão, a conseguir fazer alguma retenção de bola em zonas mais avançadas. Veio do intervalo com a mesma genica, fazendo mais algumas recuperações ofensivas, mas aí começou a apostar no cruzamento automático, algo que, dadas as circunstâncias (Dost sozinho na área, rodeado de toda a população de Itália) é menos uma opção estratégica do que um apelo à magia, como lançar uma moeda à fonte, ou comprar uma raspadinha.
 

Bruno Fernandes

Foi forçado a jogar inúmeras vezes sozinho contra uma multidão entusiasmada e num pico de adrenalina, e as multidões entusiasmadas e num pico de adrenalina são quase sempre de evitar. Num momento estão apenas a curtir o som, mas no momento seguinte desatam a derrubar governos ou querem matar judeus. Neste caso específico, a multidão só queria a bola, vontade que Bruno Fernandes nem sempre lhes fez. Mostrou a profunda dignidade que reside sempre no esforço para mostrar lucidez e generosidade, mesmo quando rodeado de bárbaros e, além de lançar Alex Sandro no lance do golo, ainda sacou livres perigosos e criou a última e melhor oportunidade da equipa na segunda parte.
 

Bas Dost

Passou os primeiros momentos a chegar demasiado tarde a passes demasiado curtos, a saltar demasiado baixo a bolas demasiado altas (e demasiado optimistas), e a tentar incomodar com a sua presença demasiada isolada dois corpos demasiado italianos. Por quatro ou cinco ocasiões mostrou uma qualidade ao primeiro toque que nem todos os colegas tiveram. Convém é que se criem condições para lhe permitir direccionar esse toque para a baliza. E isso é tarefa de outros, não dele.
 

João Palhinha

Entrou com mais energia que todos os colegas que ainda permaneciam em campo, circunstância que se manifestou na alacridade com que chegou a cortar bolas em lances de antecipação não apenas ao adversário, mas a colegas de equipa que já lá estavam a tratar do assunto.
 

Jonathan Silva

A maneira como ficou a olhar para a bola durante o cruzamento de Douglas Costa lembrou a reacção de uma tribo amazónica quando o primeiro missionário entrou pela aldeia dentro com um fonógrafo ou um guarda-chuva. Que criatura é esta, capaz de tamanha magia? Devo ajoelhar-me e venerá-lo? Cozinhá-lo e comê-lo? Na conferência de imprensa pós-jogo, Jorge Jesus chamou-lhe "Jonas", com toda a certeza uma das coisas mais simpáticas que alguém lhe vai chamar hoje.
 

Seydou Doumbia

Ao minuto sporting chegou uns meros dois milisportings de sporting atrasado em relação a uma oportunidade de golo extremamente não-sporting, tendo o lance corrido de acordo com os trâmites.
 

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publicado às 04:17

Futebol com humor à mistura (8)

Rui Gomes, em 02.10.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, brinda-nos com a sua usual humorística análise à performance dos jogadores do Sporting no jogo deste domingo frente ao FC Porto. E, com este humor, diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Passam-se meses sem termos oportunidade para recordar que Patrício é um bom guarda-redes, e de repente, como os autocarros, chegam várias ao mesmo tempo. Boa defesa a remate traiçoeiro de Brahimi ao minuto 2, grande saída aos pés de Aboubakar ao minuto 40 e mais uma ou outra demonstração de segurança e estabilidade. A coroa de glória, no entanto, surgiu aos setenta e nove minutos, quando evitou um golo certo de Marega, no momento mais importante da sua carreira desde que se estreou no futebol profissional em Novembro de 2006.

 

Trave da Baliza Vítor Damas, no Topo Sul

Passam-se meses sem termos oportunidade para recordar o que é que a trave está exactamente ali a fazer, e hoje parecia outra noite igual, sem trabalho, em que se limita a ser uma espectadora atenta dos acontecimentos. A coroa de glória, no entanto, surgiu aos quarenta e quatro minutos, quando evitou um golo certo de Marega, no momento mais importante da sua carreira desde que se estreou no futebol profissional em Agosto de 2003.

 

Piccini

Ganhou um primeiro canto da equipa aos sete minutos, depois de um lance que ele próprio iniciou exibindo um dos seus melhores atributos: o imaculado controlo de bola ao receber passes longos. Pouco tempo depois, foi inteligente a temporizar e a conter Brahimi, esperando que ele perdesse a bola sozinho. Nem sempre conseguiu fazê-lo, mas mesmo nos lances em que foi ultrapassado (e não há muita gente no planeta que consiga passar um jogo inteiro sem ser ultrapassado por Brahimi) encarnou sempre um semáforo amarelo: Brahimi conseguiu avançar, mas com cautela e sem maluquices. Ao minuto 33 conseguiu ainda mostrar aos adeptos mais impacientes (que teimam em querer vê-lo cruzar) porque é que isso quase nunca acontece: porque Piccini, além de perceber muito de futebol, também percebe muito de Piccini.

 

Coates

Não adoptou a sua habitual postura de hostilidade reprimida em relação a espécies invasoras, comportando-se mais com a distante competência que costumamos associar aos assistentes pessoais de celebridades – um daqueles intermediários na relação entre entidades VIP (neste caso a baliza) e os impulsos voyeurísticos ou predatórios do mundo exterior. Sem espalhafato, mas com intransigente competência, encarnou o papel de relações-públicas taciturno, ou guarda-costas aborrecido, e desfiou 90 minutos de intercepções à porta de entrada e cancelamento abrupto de credenciais. Houve gente que passou, mas poucos passaram por ele.

 

Mathieu

O corte crucial sobre Marega na área ao minuto 36 já seria mais do que suficiente para lhe garantir uma futura estátua no museu, mas é de assinalar também a demonstração de inteligência emocional que deu na segunda parte. Ao perceber, com a perspicácia dos predestinados, que Jonathan é incapaz de receber um bom passe, começou a fazer-lhe maus passes, em série, dando o mote para o resto da equipa começar a fazer o mesmo. Foi uma brilhante jogada psicológica, que alcançou o objectivo essencial: Jonathan não voltou a estragar jogadas com a sua incompetência, porque as jogadas já lhe chegavam competentemente estragadas.

 

Jonathan Silva

Algures num arquipélago remoto no Pacífico, numa daquelas grutas que só costumam aparecer em filmes de terror de série B, um soldado japonês com 90 anos de idade, que passou as últimas sete décadas sozinho, convencido que a II Guerra Mundial nunca terminou, a comer ratos assados e a conversar lunaticamente com pássaros, a cumprir obedientemente as suas obsoletas instruções para não abandonar o posto e proteger o Império Nipónico contra o inimigo, dedicou o último segundo da sua existência terrena a pensar: “Sabem que mais, pássaros? Tenho mais controlo de bola, sentido posicional, e juízo nos cornos que o Jonathan Silva”.

 

William Carvalho

O seu estilo ilusoriamente elaborado e deliberado tem o condão de transformar quase todos os espectadores, olheiros e adversários em puristas estéticos, convencendo-se que as superfícies visíveis que admiram contêm profundezas ocultas. Aquele movimento vagaroso não parece minimalista, portanto deve ser barroco. Aquela mudança de direcção não parece realista, portanto a jogada que inicia deve ser surreal. E enquanto eles ficam entretidos a fazer crítica de Arte, William dedica-se ao único propósito que o motiva: o respeito por princípios elementares, a procura da linha recta mais próxima e da distância mais segura entre dois pontos. Conseguiu jogar bem, num meio-campo que não existiu além dele.

 

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Battaglia

Como o funcionário mais diligente de uma ONG humanitária, passou grande parte do jogo a corrigir desigualdades e a tentar construir um campeonato mais justo através da redistribuição de posse de bola. Fez um passe extremamente bem sucedido para um jogador do Porto logo ao sexto minuto, outro ao minuto 12, e depois foi vê-lo entusiasmar-se, tentando, com alguma megalomania, fazer passes para jogadores do Porto com grau de dificuldade cada vez mais elevado, o que o levou, naturalmente, a falhar alguns, que foram parar aos pés de colegas de equipa. Na segunda parte retraiu mais os seus impulsos filantrópicos e pareceu mais sintonizado com a ética da equipa, como se viu no facto de, também ele, ter feito um passe demasiado forte para Jonathan.

 

Gelson Martins

Sem conseguir desequilibrar, rodeado de carraças sem bola, comportou-se como uma carraça com bola, tentando mantê-la junto a si o máximo tempo possível, expediente que, pelo menos durante a primeira parte, era a única forma de a equipa não a perder de imediato. Após o intervalo derivou para o flanco esquerdo, onde artilhou o toque mais artístico do jogo inteiro: um toque de calcanhar que desposicionou momentaneamente a defesa do Porto, e isolou... Jonathan Silva. Foi o equivalente a construir um Stradivarius para tocar o “Jardim da Celeste”, mas fica a intenção.

 

Bruno Fernandes

Foi o último jogador em campo a tocar na bola, o que pode parecer um dado estatístico puramente acidental, mas que reflecte as dificuldades que sentiu para encontrar espaço. Mesmo quando o encontrou, e talvez mais por mérito do Porto do que por demérito próprio, ficou a ideia que lhe faltou sempre uma fracção de segundos adicional para desenvolver a ideia que tinha na cabeça. Caiu-lhe aos pés a melhor oportunidade da equipa ao minuto 59: Bruno Fernandes optou por fazer um remate de longe, opção que se compreende, mas que funciona muito melhor quando está realmente longe, e não, como era o caso, perto.

 

Marcos Acuña

Logo aos quatro minutos, a bola fez uma daquelas coisas que as bolas de futebol fazem de tempos a tempos: colidiu com a bandeirola de campo quando toda a gente pensava que ia sair e virara costas ao lance. Toda a gente, salvo seja, pois Acuña foi quem lá chegou primeiro para resolver o assunto. O lance é uma boa ilustração do jogo que fez: precioso na ajuda defensiva (muitas vezes foi obrigado a ser, por motivos óbvios, lateral-esquerdo), sempre útil na contenção a meio-campo (tem uma esperteza característica a bloquear linhas de passe quando a jogada decorre no centro ou no flanco oposto), e um verdadeiro líbero avançado em situações potenciais de contra-ataque adversário. Travou dois assim, um dos quais perto do fim, quando já não devia ter energia para tal. Tivessem as bolas paradas estado ao mesmo nível – inúmeros cantos demasiado curtos – e seria o melhor do Sporting hoje.

 

Bas Dost

Entre 2007 e 2010, o velejador americano Reid Stowe completou uma viagem marítima de mil cento e cinquenta e dois dias, sem meter o pé em terra, e sem contactar directamente com qualquer outro ser humano, uma experiência talvez um pouco mais isolada e solitária do que a noite de Bas Dost.

 

Bruno César

Duas boas intervenções em que conseguiu jogar bem ao primeiro toque, dois toques que conseguiram ao mesmo tempo descomplicar e acelerar a jogada. Não deram em nada, mas não por sua culpa. Tal como não foi (exclusivamente) culpa sua o anonimato que lhe pautou o resto da exibição.

 

Podence

Ganhou uma falta assim que entrou, através do expediente revolucionário de se mexer mais depressa com a bola do que dois jogadores do Porto sem ela, uma manobra que não testemunhava há tanto tempo que nem me lembrava que era legal: quando o árbitro apitou, julguei que ia marcar falta a Podence.

 

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publicado às 06:00

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Barcelona. Para o efeito deste post, escolhi apenas meia dúzia dos "leões" que ontem "venderam" a derrota bem cara:

 

Rui Patrício

Longe vão os tempos em que Rui Patrício alternava entre não ter qualquer trabalho (e não ter culpas no golo sofrido) aos fins-de-semana - e ser o melhor em campo (e não ter culpas nos 3, 5 ou 7 golos sofridos) às quartas-feiras. Hoje tem uma rotina muito mais estável, que lhe permite fazer o mesmo tipo de exibições a qualquer dia da semana, e sofrer o mesmo número de golos (nos quais não teve qualquer culpa) de Moreirense e Barcelona. Trabalho não teve muito, e só precisou de puxar dos galões já perto do fim, quando alguém chamado Paulinho pretendeu marcar-lhe um golo. Patrício não se importa de sofrer golos de uma pessoa chamada Paulinho. Mas só uma. E nos treinos. E não é este Paulinho.

 

Piccini

É um risco que correm as pessoas que custam três milhões de euros com tão inusitada correcção: começam a ser vistas não como pessoas, mas como três milhões de euros. Foi provavelmente o que pensaram, além dos espertalhões que produzem conteúdos digitais, os jogadores do Barcelona nos cumprimentos pré-jogo, ao passarem pela figura familiar de Piccini, com quem se cruzaram na Liga Espanhola: “olha, aqueles três milhões de euros que fintei no ano passado”. Mas as pessoas não são números, e ao minuto 17 Piccini, um ser humano, recebeu de peito junto à linha, galopou dez metros, desviou-se de vários adversários, e rematou forte de pé esquerdo. A língua alemã tem uma palavra para designar estas situações: a palavra é “Chüpem”. Bom jogo, como é hábito.

 

Coates

Uma exibição despreocupadíssima durante toda a primeira parte, típica de quem percebeu, se calhar ainda no balneário, que o seu colega de sector ia dar conta da maioria dos recados. Esteve mais activo na última meia hora e fez alguns cortes importantes (não obstante um deslize comprometedor já perto do fim). Foi vítima de um azar imerecido e incaracterístico, marcando um auto-golo que julgava só acontecer ao Paulo Oliveira, daqueles em que até a geometria abana a cabeça, quanto mais um adepto de carne e osso.

 

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Mathieu

O tipo de exibição que levou à invenção do bloco de notas, e da cassete de vídeo: corte na área sobre Messi aos 4 minutos, calma sobrenatural na saída de bola (rodeado de adversários e sem linhas de passe) aos 11, outro corte sobre Suárez aos 12, um desvio milagroso depois de um livre a safar um golo certo no último segundo aos 37, e assim sucessivamente. O seu melhor momento (e a escolha é difícil) foi talvez ao minuto 41: no primeiro slalom bem sucedido de Messi, daqueles que deixa meia equipa espalhada pelo relvado depois de carrinhos mal sucedidos, decidiu não se mexer e esperar tranquilamente que a bola viesse ter consigo de livre vontade. O que veio a acontecer. Mesmo a única falta que cometeu foi exemplarmente escolhida: uma cacetada em Busquets, que só pecou por não ter sido dada com mais força, e num órgão vital. É um génio. Chegou ao Sporting com 33 anos, cumpriu 29 assim que começaram os jogos oficiais e festejou hoje os 25. A continuar assim, chegará a Maio sem precisar de fazer a barba.

 

William Carvalho

É a solidez estrutural que suporta efemeridades menores, como paixões humanas, destinos colectivos, e outras questões de vida ou morte. Uma massa compacta de calma e lucidez, William limita-se a ser a temperatura a que decorrem todas estas coisas, a gramática que permite que os outros transeuntes articulem frases. Não fez um jogo perfeito porque, como ele seria o primeiro a lembrar, não existem jogos perfeitos. Actos esporádicos como o passe para Doumbia que fez na direcção de Bas Dost, por exemplo, ou o remate por cima da barra, são apenas a sua maneira de imitar o Rei Canuto, que mandou colocar o trono à beira-mar e ordenou à maré que não subisse, numa tentativa de esclarecer os seus cortesãos sobre os limites do poder secular.

 

Battaglia

O melhor em campo e um debate na internet em forma humana. Apresentou-se ao serviço com os caninos à mostra, os pitons untados com adrenalina, e um cabaz de opiniões. Não tem a menor importância se as opiniões são correctas, ou sequer baseadas em factos. O que é importante é arremessá-las com muita força às trombas de quem possui opiniões contrárias. Do primeiro ao último minuto, ninguém conseguiu ganhar uma discussão consigo: Battaglia falou mais alto, fez mais memes, fez mais barulho, mudou mais vezes de assunto, nunca se cansou, nunca se calou. Toda a gente já fez log-out nesta altura, e metade do plantel já está em casa a dormir, excepto Battaglia, que deve estar em tronco nu, a mudar a mobília toda de sítio, e cheio de vontade que um vizinho venha queixar-se do barulho.

 

Bruno Fernandes

Está mais do que na altura de falarmos naquele rosto. Visto a contra-luz, a silhueta recortada contra os holofotes, podia ser o logotipo da Associação dos Técnicos Oficiais de Contas. É só quando o vemos em movimento que as características ganham definição, e percebemos que podíamos estar perante uma personagem de um romance russo, um daqueles niilistas tuberculosos saídos de Turgenev, que sabem quão pouco o mundo tem para lhes oferecer, que transportam um ressentimento do tamanho da sua geração, e que discutem imenso com o pai e com os amigos, não porque os odeiam, mas porque os amam demasiado. Hoje mostrou que também estes são jogos para ele. Mesmo com os altos e baixos que terá naturalmente ao longo da época, haverá poucos que não sejam.

 

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publicado às 11:28

Futebol com humor à mistura (7)

Rui Gomes, em 24.09.17

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual análise análise humorística à performance dos jogadores do Sporting pela visita a Moreira de Cónegos:

 

Rui Patrício

A bonita carreira de Patrício na Liga Portuguesa arrisca-se a ser o seu arquipélago das Galápagos: um lugar traiçoeiramente confortável onde os seus instintos vão sendo gradualmente suprimidos na ausência de predadores naturais, até ao momento fatídico em que aparece a primeira espécie invasora com trombas de Ruben Micael a emboscá-lo junto ao rio. Daqui a trezentos milhões de anos, é possível que Rui Patrício ainda jogue por cá, já anatomicamente alterado pela selecção natural: com um pescoço musculado que lhe permita abanar a cabeça antes de levantar a cabeça; e com um único braço – o suficiente para ir buscar a bola ao fundo das redes, depois de todos os golos onde não teve quaisquer culpas.

 

Piccini

Foram exibições como esta que levaram o ser humano a desenvolver o hábito de falar no tempo. Uma exibição razoável, em que não cometeu qualquer erro grave, nem somou qualquer acção de destaque, com ou sem bola e, parecendo que não, as noites já começam a ficar mais frescas e dá muito jeito um casaquinho.

 

Coates

O seu principal atributo defensivo é a fé absoluta – e muitas vezes justificada – no poder sacramental da sua própria presença: a crença de que basta aparecer e mostrar o seu rosto taciturno para que toda a gente pare imediatamente de fazer o que está a fazer, arrume os brinquedos no caixote e vá para a cama sem sobremesa, de livre vontade. Resulta muitas vezes, mas há dias em que dava jeito que também ajudasse um bocado na cozinha e fosse meter o lixo lá fora.

 

Mathieu

Em situações análogas no passado recente, conseguiu ser o elemento mais esclarecido da equipa nos minutos finais. Hoje, pelo contrário (e depois de um jogo discreto mas sem mácula) não foi o habitual ponto de estabilidade na fase em que o jogo se partiu ao meio, e ainda se deixou antecipar duas vezes na defesa, em lances aparentemente controlados.

 

Fábio Coentrão

Em boa forma física, totalmente rejuvenescido depois de uma semana sequestrado numa tenda de campanha e submetido a periódicas transfusões de sangue, medula óssea, nicotina e fita-cola. Fez um jogo bastante razoável se não contarmos os centros efectuados para o corte de cabeça do defesa ao primeiro poste. E não os vamos contar, pois não é possível. Há números tão elevados que deixariam até as pessoas responsáveis por calcular a dívida pública momentaneamente atrapalhadas.

 

William Carvalho

Cumpriu a função táctica de narrador omnisciente e heterodiegético, à procura de uma organização e de uma forma que hão-de emergir espontaneamente da história que tem para contar e na qual não participa, embora por vezes seja obrigado a interrompê-la para comentar a organização e articulação do texto, ou para introduzir um deus ex machina. De resto limita-se a afirmar a validade da informação que transmite e o grau de precisão da mesma, com uma focalização autoritária que nunca deixa dúvidas ao leitor: sabe infinitamente mais do que todas as personagens que ali andam.

 

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Bruno Fernandes

Se há jogo no campeonato que se deve evitar a todo o custo resolver com uma bujarda de nove milhões de euros, é precisamente um jogo contra uma equipa treinada por Manuel Machado. Perderam-se dois pontos, é um facto, mas por outro lado ganhou-se paz e sossego, e evitou-se um solilóquio polissilábico de duas horas sobre justiça, orçamentos e competitividade. Vale a pena a troca.

 

Gelson Martins

Um daqueles dias em que cada uma das suas inegáveis qualidades se apresentou em campo juntamente com a etiqueta do preço, que no seu caso não vem em moeda, mas em esforço. Gelson jogou hoje como tem jogado ultimamente: como se o talento fosse um fardo pesadíssimo que é sua tarefa andar ali a arrastar transpiradamente de um lado para o outro. Escorregou a receber passes, tropeçou a fazer cruzamentos, assistiu através de ressaltos, fintou através de quedas. Duvido muito que uma curta paragem beneficiasse a equipa, mas é provável que o beneficiasse a ele.

 

Bruno César

Jogou mais ou menos como uma criança de três anos comunica: sempre de forma expressiva e urgente, raramente de forma elaborada ou elucidativa. Não há cá muitos “por conseguinte” com Bruno César. Não há cá muitos “todavia” ou “em suma”. O que há é a manifestação histérica de estados de alma instantâneos. “Está frio!” “Tenho fome!” “Quero um cão!” Sem qualquer ligação intuitiva com os ritmos de domínio de um jogo, cada movimento seu é uma resposta e não uma ideia. E nem esteve mal a reagir – a sua velocidade de reacção pareceu, aliás, sempre uma fracção de segundo acima dos colegas. Não lhe peçam é para ter ideias.

 

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Alan Ruiz

Sofreu a primeira falta da equipa, ao segundo e ao terceiro minuto. A frase anterior não significa que Alan Ruiz sofreu duas faltas nesse período: significa apenas que Alan Ruiz demora em média cento e vinte segundos a sofrer uma única falta, tal como demora em média cento e vinte segundos a mudar de direcção ou a preparar um remate. Após algumas bolas perdidas de outras maneiras, dedicou-se a um novo projecto, o de tirar adversários da frente através de fintas, para de seguida rematar à baliza. Fê-lo com a convicção de quem leu recentemente um artigo de jornal sobre tirar adversários da frente através de fintas e decidiu puxar o assunto no café ou na paragem de autocarro para impressionar as pessoas. A finta não resultou. Mas as fintas tentadas e falhadas por Alan Ruiz possuem uma vantagem óbvia sobre as fintas tentadas e falhadas por qualquer outro jogador: permitem-lhe estragar uma única jogada no período de tempo em que qualquer outro jogador poderia estragar duas ou três. Esse mérito ninguém lhe tira.

 

Bas Dost

Jogo ingrato, em que passou a segunda parte a fazer o papel de controlador aéreo, tentando desviar bolas altas para as correspondentes pistas de aterragem, em que passou a primeira parte enrodilhado num competentíssimo espartilho táctico constituído pelos defesas-centrais do Moreirense e pelas cláusulas do contrato de Alan Ruiz espalhadas pelo relvado.

 

Doumbia

Já se viu dele o suficiente para comprovar que a vida de qualquer defesa é sempre um bocadinho mais complicada com ele em campo. E ele próprio também já deve ter visto o suficiente para perceber que a sua vida vai ser um bocadinho mais complicada do que na Suíça.

 

Battaglia

Cada bola dividida pertencia ao Moreirense, que por sua vez encarava cada transição ofensiva como um corredor deserto entre as duas áreas: foi este o regular funcionamento das instituições até a entrada de Battaglia em campo demonstrar que há mais do que uma maneira de organizar a sociedade.

 

Iuri Medeiros

Não ter custado oito milhões de euros é o aspecto mais positivo das suas últimas exibições.

 

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publicado às 07:09

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