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Fotografia com história dentro (44)

Leão Zargo, em 30.04.17

 

Juca e Bettencourt Cardoso 1949.jpg

Juca homenageado por Abel Bettencourt Cardoso, presidente do Sporting

de Lourenço Marques, 1949 (Fotografia in “The Delagoa Bay Company”)

 

 

Juca

 

 

Júlio Cernadas Pereira (o inesquecível Juca) nasceu para o futebol nas camadas juniores do Sporting de Lourenço Marques. Era guarda-redes e disputava a baliza com Costa Pereira. Fosse por causa da concorrência, ou pela sua qualidade para jogar na linha média, a verdade é que o seu treinador o colocou no meio-campo. Desportista eclético, também praticou basquetebol.

 

Em 1949, apenas com 20 anos idade, Juca já era titular na Selecção de Moçambique e brilhava graças ao seu futebol elegante e tecnicista, com grande visão de jogo. Um dos directores da filial sportinguista laurentina, o proprietário da Papelaria Progresso, convenceu o Sporting - sede a contratá-lo. Depois, foi a longa viagem para Portugal no navio “Mouzinho de Albuquerque”, durante trinta e um dias.

 

Juca chegou a Lisboa em 10 de Setembro de 1949, acompanhado por Mário Wilson. Estreou-se na equipa principal leonina pouco tempo depois, em Outubro, num jogo com o Lusitano VRSA. Jogava na linha média, normalmente a quarto-defesa, uma espécie de trinco da altura, uma novidade no futebol. Como era inteligente tacticamente, adaptou-se sem problemas ao lugar. Por ser eficaz a jogar de cabeça, chamaram-lhe o “cabecinha de ouro”.

 

Juca vestiu a camisola leonina até 1958, foi Campeão Nacional cinco vezes e conquistou uma Taça de Portugal. Foi o autor do primeiro golo no Estádio de Alvalade inaugurado em 1956, num jogo com o Vasco da Gama. Terminou prematuramente a carreira em virtude de grave lesão num joelho. Em 1961-62 conduziu o Sporting ao título, tornando-se aos 33 anos no mais jovem treinador a sagrar-se Campeão Nacional em Portugal.

 

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publicado às 13:05

 

SCLM 59-60.jpg

Sporting de Lourenço Marques - 1959/60

 

 

São conhecidas as palavras injustas de Eusébio sobre o Sporting de Lourenço Marques (SCLM), associando-o ao racismo. O jogador foi injusto com o clube que o projectou e que levou o Benfica a contratá-lo por uma elevada quantia para a época. Foi injusto com o director Vigorosa Almeida e o treinador Nuno Martins que sempre o apoiaram nos seus primeiros anos de futebolista, para além dos companheiros brancos, negros, mestiços, indianos e chineses que, como ele, vestiam a camisola leonina laurentina. 

 

O SCLM, na década de 1950, era um produto da sociedade em que estava inserido, mas nunca possuiu uma “política racial” para os seus atletas no sentido restrito da expressão. A certidão de assimilado que exigia aos jogadores negros era injusta e cruel, mas usual nas sociedades coloniais. A sociedade moçambicana evoluiu bastante a partir do início dessa década e com ela o SCLM. Na verdade, os dirigentes do SCLM daquele tempo eram cidadãos comuns, normais, sabendo-se que pessoas como Nelson Mandela é que são raras, únicas.

 

Apesar da certidão ser obrigatória, o poeta José Craveirinha, que jogou futebol no rival Desportivo, escreveu que na secção de atletismo do SCLM havia, no início da década de 1950, muitos negros e “nenhum deles possui alvará de assimilação e no entanto são dos mais disciplinados e bem comportados atletas da cidade”. Considerou o comportamento do clube “um rasgo de puro e desassombrado desportivismo, um caso absolutamente ímpar”. (in “Brado Africano”, 23 de Janeiro de 1954). Uma coisa é certa: o SCLM nunca aceitou fazer uma digressão pela África do Sul deixando de fora alguns dos seus jogadores em virtude da cor da pele. Iam todos ou não havia digressão.

 

O magriço Hilário foi o primeiro negro a jogar no clube (1956). Entretanto, em virtude da evolução social e cultural em Moçambique, nos anos seguintes jogaram no SCLM, para além de Eusébio, outros jogadores que não eram brancos: Satar, Merali, Maurício, Sérgio Albasini e Roberto da Mata, entre muitos. Para além de Morais Alves e Armando Manhiça que também representaram o SCP. Madala, talvez o melhor amigo de Eusébio no clube, era um dos avançados em 1960 e negro como ele. Os moçambicanos de origem chinesa possuíam, por tradição, uma grande ligação afectiva aos leões laurentinos. Socialmente, a equipa de futebol do SCLM tornou-se transversal.

 

As sociedades estão muito longe de serem as ideais e os homens não são perfeitos. Mas, as sociedades e os homens para serem compreendidos têm de ser inseridos no seu contexto histórico. É um princípio que permanece válido, ontem como hoje, e que permite entender o passado e tomar boas decisões no presente.

 

O Maxaquene, que substituiu o SCLM, não reivindica actualmente a condição de filial nº 6 do SCP e talvez agora seja a ocasião para reatar uma antiga amizade. No Maputo, o Núcleo Sportinguista de Moçambique pode constituir uma excelente ponte entre os leões de Portugal e o Maxaquene. Oxalá o Conselho Directivo do SCP sonhe com um reencontro. É que, como cantam os Deolinda numa belíssima canção de amor, “tem de acontecer, porque tem de ser e o que tem de ser tem muita força”.

 

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publicado às 13:07

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