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O nosso "amigo" Rogério Casanova, jornal Expresso, está de volta depois de gozar umas boas férias e brinda-nos com a sua análise ao plantel do Sporting, nomeadamente no que diz respeito aos casos mais problemáticos, como sempre, com uma boa dose de humor à mistura. Optámos por não dividir a crónica em capítulos, tornando-se, portanto, um pouco extensa para o que é habitual.

 

Problema: Schelotto e Zeegelaar

 

Para evocar a escala verdadeiramente geológica da questão, apresento o seguinte facto: em conjunto, estes dois defesas-laterais jogaram mais minutos pelo Sporting do que os minutos gastos por Fábio Coentrão a desbloquear a sua situação fiscal em Espanha antes de poder assinar contrato (e com menos resultados práticos). E ainda cá estão, tecnicamente, mas presume-se que não por muito tempo. Ambos, na verdade, reúnem as condições para irem embora muito depressa. Schelotto, honra lhe seja feita, sempre demonstrou a capacidade para ir embora muito depressa; é talvez a sua característica mais elogiável, embora seja frequente vê-lo ir embora muito depressa na direcçãoerrada, com toda a lucidez táctica de um fluxo piroclástico. Se Schelotto vivesse em Pompeia aquando da erupção do Vesúvio em 79, seria hoje um meme viral: uma figura petrificada, preservada para sempre na postura de quem cavalgava a toda a velocidade direito ao vulcão. Entreguem-lhe uma bola e ele cavalga muito depressa até ao adversário. Entreguem-lhe uma lista de compras pararisotto e ele cavalga muito depressa até à secção do esparguete. Existe aparentemente uma proposta para o levar para o Médio Oriente, a troco de cinco cabeças de gado e uma saca de cereais. O principal risco é que apanhe um avião para o Canadá, portanto esperemos que esteja a ser devidamente assessorado.

 

Quanto a Zeegelaar, líder isolado dos rankings Opta e GoalPoint no parâmetro "Jogador Que Mais Vezes Obrigou os Adeptos a Erguer As Sobrancelhas Com um Ar Incrédulo", a explicação mais plausível é que se trata neste momento de um homem paralisado por uma hipertrofia de autoconfiança. O homem deixou o insucesso subir-lhe à cabeça. Acredito que atenda cada telefonema do empresário com genuína perplexidade por o mesmo não lhe apresentar convites do Chelsea ou da Juventus. Não será um qualquer Feyenoord a demovê-lo deste elevadíssimo altar: que hipóteses tem a modesta liga holandesa, quando até o planeta Terra parece demasiado pequeno para os seus talentos? O melhor será enviá-lo para um dos exoplanetas habitáveis cuja descoberta a NASA anuncia de meia em meia hora, e deixá-lo criar sozinho a sua própria equipa, o seu próprio desporto, a sua própria sociedade.

 

Solução: Se aquilo que ambicionamos é um mero upgrade, a solução estará mais ou menos encontrada. Um Fábio Coentrão que entre em campo com um cigarro em cada mão e um esporão calcâneo em cada pé, e que precise de constantes transfusões de sangue durante o jogo para se manter vivo, não conseguirá jogar pior do que Zeegelaar. E arrisco que Piccini conseguirá jogar melhor do que Schelotto até depois de uma lobotomia - ou até durante uma lobotomia.

 

E no entanto: será sonhar demasiado alto exprimir o desejo de que se contrate um lateral cujo pai é um diplomata marfinense que se apaixonou por uma advogada uruguaia num baile de máscaras organizado na embaixada em Brasília? Que tenha passado a infância no Brasil, antes de se mudar com a família para Alemanha aos 9 anos, onde foi prontamente integrado na Academia do Borussia Mönchengladbach, tendo alinhado em todos os escalões jovens da selecção do seu país adoptivo, embora não ponha de parte a hipótese de escolher a Costa do Marfim ou o Uruguai para a sua carreira sénior? Que se encontre neste momento tapado num clube do meio da tabela na Bundesliga pelo experiente titular, mas não deixe por isso de custar pelo menos 8 milhões de euros, tendo em conta o seu inquestionável potencial? Que seja rápido, forte, potente, meça 1,85m, exiba peitorais de titânio e tranças oxigenadas, tenha um bom primeiro toque e saiba cruzar por alto, embora prefira o cruzamento rasteiro e atrasado? Que se chame, por exemplo, Maximiliano Cissé ou Juan Ramón Traoré ou Pablito Coulibaly?

 

Não é um conjunto assim tão utópico de características: é meter o scouting a trabalhar, e passar o cheque.

 

Problema(s): a venda de Rúben Semedo, o pé direito de Paulo Oliveira, o pé esquerdo de Paulo Oliveira, o título de 1999/00, a persistência da memória, a ilusão tóxica da nostalgia

 

É a característica mais pitoresca do coro dogmático constituído pelos adeptos de um clube durante o defeso: a convicção de que o propósito central do período de transferências é a regeneração da memória colectiva, e a consequente vontade de reproduzir as condições exactas do maior sucesso do passado recente. A juntar a isto, precisamos de um defesa-central.

 

Solução: Era uma questão de tempo até tentarmos encontrar uma sequela de André Cruz. Um central trintão, experiente, esquerdino, internacional pelo seu país e com passagens por grandes clubes, mas com uma reputação surpreendentemente periférica para a qualidade que tem e o currículo que acumulou. Que seja alto e até algo corpulento, embora com uma pujança mais etérea do que propriamente física, que seja mais esperto do que rápido, mas que se destaque acima de tudo com a bola no pé, que é como vai passar 90% do tempo em 90% dos jogos. Deste ponto de vista, bem vistas as coisas, o principal problema na contratação de Mathieu é ter acontecido agora e não em Dezembro, como medida desesperada. (E não saber marcar livres, o que é uma pena).

 

Problema: Francisco de Oliveira Geraldes continua a ler livros.

 

Solução: Pô-lo a jogar, sempre.

 

Problema(s): a provável perda de William, a natureza efémera da felicidade

 

Não deve passar desta pré-época: William Carvalho vai levar o seu roupão de flanela e banhar-se numa outra cascata de Martinis, lá longe, no estrangeiro. No seu lugar deixa um vazio, mais profundo ainda no coração de quem sabe quão injusto é o cepticismo que o rodeia. Apesar de tudo, é possível que, caso as coisas sejam bem feitas, os adeptos percam mais do que a equipa, que, para usufruir regularmente de uma fracção do seu talento precisa de transcender limitações razoáveis, com benefícios nem sempre aparentes. William joga como um espelho cuja superfície não reflecte a luz, optando por absorvê-la, anexando confiantemente as suas características. E debaixo daquela elegante solidariedade, notava-se quase sempre uma impaciência severa, um juízo moral em plena execução. Resta-nos colmatar a perda dos inúmeros momentos em que sentimos o cérebro subitamente inundado por químicos de altíssima qualidade (um passe imaculado produz muitas vezes este efeito, especialmente quando se é adepto do Sporting) com a sensação semi-exultante e semi-fraudulenta de que se conseguiu algo a troco de nada.

 

Solução: Antes de mais, assimilar a noção de que a vida continua. De seguida, resistir à tentação de o substituir por uma réplica e apostar num modelo diferente: um trinco brutamontes, que se comporte como um senhor feudal à procura de camponeses para subjugar, e não como um Prometeu moderno, que nos tenta mostrar o segredo do fogo perante o nosso olhar cretino e ingrato.

 

Problema: a birra de Aquiles

 

É uma história antiga. Na verdade, é a mais antiga de todas: a Literatura começou assim. No último ano da Guerra de Tróia, décima temporada de Aquiles com a camisola dos Aqueus, o valoroso guerreiro sentiu-se desrespeitado por Agamemnon, quando este lhe roubou Briseia (uma escrava de quem Aquiles se tornara personal trainer a título pro bono) e lhe bloqueou uma transferência milionária para o exército Eólio. Aquiles artilhou uma birra épica, retirou-se para a tenda de campanha, e garantiu numa entrevista exclusiva concedida ao pergaminho diário Jogus que não voltava a sair enquanto a situação não fosse resolvida, comportamento de resto caucionado pelo pai, que tratou de explicar a quem o quisesse ouvir que o seu filho "sempre honrou a camisola grega, e não merece ser tratado desta maneira". A situação ficou bastante complicada, mas Aquiles acabou por ceder e sair da tenda, prometendo dar tudo em prol do grupo de forma a ajudar as tropas de Agamemnon a conquistar os objectivos, mas o certo é que a qualidade das suas exibições no campo de batalha nunca mais foi a mesma, e o seu estatuto entre os adeptos sofreu por arrasto, e portanto cá estamos.

 

Solução: Vender o homem por 30 milhões a um clube que os queira pagar será o primeiro passo. Para o seu lugar, quem sabe? Bruno Fernandes parece a escolha óbvia, mas discernir as intenções de Jorge Jesus transformou-se numa actividade cabalística, onde se procura adivinhar a sequência correcta dos caracteres que compõem o Nome divino. Há quem olhe para Bruno Fernandes e veja alguém que pode ter um papel semelhante ao de João Mário, derivando das linhas para fornecer apoios interiores. Há quem olhe para Marcos Acuña e veja alguém que pode ter um papel semelhante ao de Adrien, uma espécie de charrua topo de gama para lavrar o terreno inteiro entre duas áreas. Battaglia, cujas características serão talvez as mais semelhantes, fica a perder em termos estritamente qualitativos, e parece aliás ser candidato a uma posição mais recuada.

 

Ou seja, a época pode teoricamente começar com um médio-centro adaptado á faixa direita, um médio-ala adaptado ao centro do terreno, e um todo-o-terreno adaptado a trinco posicional. É um cenário intrigante (e que não creio vir a cumprir-se), mas que colocaria estimulantes dúvidas adicionais. Como se comporta Jorge Jesus no seu dia-a-dia? O que faz, por exemplo, quando lhe apetece comer um prego? Compra uma carcaça e um bife de vaca? Ou compra uma almofada e uma courgette e tenta adaptá-las?

 

Problema: Orçamento

 

De acordo com a internet, continua a existir uma situação de seu nome VMOCs, com respectivos "prazos de conversão", que pelos vistos não sei quê e não sei que mais.

 

Solução: Aprender a pronunciar a palavra VMOC de forma mais criativa - o "O" homossexualmente prolongado, um semi-mudo "E" antes do "M" - como se invocássemos o nome de um obscuro poeta simbolista francês, e conduzir todas as conversas, especialmente com adeptos de clubes adversários, para esse campo ("pouca gente fala na profunda influência em Apollinaire da obra de Vemôque", etc).

 

Problema: Iuri Medeiros

 

Iuri Medeiros não é propriamente um problema, mesmo que não saibamos ainda o que é. Sabemos o que parecia ser, e sabemos o que pode vir a ser, que são duas coisas algo diferentes, e o jogador lá vai deambulando de empréstimo em empréstimo com este ontologicamente problemático estatuto.

 

Num conto de Henry James intitulado The Private Life, há uma personagem chamada Lord Mellifont, universalmente reconhecido como a figura mais carismática de toda a Grã-Bretanha, com o dom de dizer sempre a palavra certa na situação certa, e a capacidade para dominar qualquer grupo onde seja inserido. A dada altura no conto, outra personagem (e o leitor) faz uma descoberta assombrosa: Lord Mellifont só existe na presença de terceiros, e desmaterializa-se quando sozinho. A temporária não-existência é o preço da sua enérgica e assídua incisividade: "que outra forma de repouso", pergunta o narrador, "poderia restaurar tamanha plenitude de presença?"

 

Gelson Martins e Podence jogam como talentos precoces de 16 anos, e continuarão a jogar dessa maneira durante muito tempo; Iuri joga como um veterano de 34, e joga dessa maneira pelo menos desde os juvenis: como quem protege o segredo do seu declínio, como quem se sabe obrigado a conservar energias, como quem aposta as fichas todas num ataque furtivo e quase sempre bem sucedido. É o equivalente futebolístico a um submarino, cuja eficácia depende de não ser visto até ser tarde demais. Apesar da aposta contra-intuitiva em Alan Ruiz (que, no somatório de qualidades e defeitos, tem mais em comum com Iuri Medeiros do que com qualquer outro jogador do plantel), sabe-se que o actual treinador prefere lanchas rápidas a submarinos atómicos, e que o seu naipe de preconceitos tem menos a ver com tipologias físicas do que com estilos de intensidade. O que ele quer é alguém 90 minutos ligado à corrente, e não quem aparece cinco vezes por jogo a carregar no botão para uma demolição controlada.

 

Solução: A tentação é escrever "Iuri Medeiros", mas Iuri Medeiros não é propriamente uma solução para o problema de Iuri Medeiros, mesmo que não saibamos ainda o que é. A solução alternativa é espatifar 16 milhões de euros em Pity Martinez, que a julgar por três jogos e alguns vídeos do YouTube, já fez mais cuecas na vida do que a Victoria's Secrets, e rezar que tudo corra bem.

 

publicado às 16:11

Futebol com humor à mistura (30)

Rui Gomes, em 24.05.17

 

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Terceira série - e última edição desta época - de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting na 34.ª jornada a I Liga diante o Chaves:

 

Podence

Vê-lo a receber a bola sozinho no meio de calmeirões continua a estimular o instinto maternal de qualquer pessoa saudável, mas na verdade precisa tanto de protecção como um troll do 4chan a semear a discórdia por motivo de lulz. Aquele constante frenesim de agitação, e a capacidade para acelerar o jogo com e sem bola, deram frutos logo aos 10 minutos, quando sacou um penalty - e proporcionou um divertidíssimo momento ao minuto 36, quando conseguiu colocar - sozinho - dois defesas do Chaves em inferioridade numérica.

 

Bas Dost

Acumulam-se os sinais de uma incompreensível falta de egoísmo. Ao minuto 26, com tempo e espaço na área para receber a bola, sentar-se, puxar de um tablet, preencher a declaração de IRS, esperar que a aplicação Java carregasse, validar, submeter, levantar-se, e consumar o hat-trick, preferiu assistir de cabeça um colega que não chegou a tempo. Mais preocupante ainda foi o momento em que veio dobrar Jefferson à lateral esquerda, recuperando uma bola em esforço e atrasando para Beto.

 

Não sei se o merecemos. Despediu-se do jogo, e encerrou oficialmente a Liga, com mais um golo (o segundo penalty do jogo), que agradeceu de forma típica, envolvendo nos seus braços o amor que emanava das bancadas.

 

Bruno César

Adaptado a Bryan Ruiz, cumpriu, na medida em que, certamente, e, portanto e em suma, sem dúvida.

 

Francisco de Oliveira Geraldes, visconde de Alvaláxia, e futuro Prémio Nobel da Literatura em 2053

Entrou bem, para surpresa de exactamente ninguém.

 

Gelson Dala

A última substituição da época, que assim a definiu na perfeição: não chegou a tocar na bola.

 

publicado às 04:21

Futebol com humor à mistura (29)

Rui Gomes, em 23.05.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo de domingo passado com o Chaves:

 

Palhinha

Lance paradigmático aos 7 minutos: depois de uma perda de bola de Gelson e desposicionamento de Esgaio, mostrou noção perfeita do espaço que podia cobrir, deu passos na direcção certa, desarmou um contra-ataque potencialmente perigoso antes sequer de o rastilho acender, e transformou o sobressalto em novo ataque com dois toques simples. A segunda parte da equação nem sempre lhe corre tão bem (e falhou o único passe mais arriscado que tentou), mas é intratável nos duelos individuais, sabe usar o corpo como poucos, e desde que se refugie na lucidez que possui, pode vir a dar melhor jogador do que alguns (eu, por exemplo) adivinhavam.

 

Gelson Martins

Uma exibição de capoeira a decorrer em permanência no interior de um TGV: para o bem e para o mal, Gelson é isto. E é quase tão difícil assimilar aquela hiperactividade enquanto colega do que enquanto adversário. Formou, nos primeiros 45 minutos, uma intrigante tripla de trincos todo-o-terreno com Adrien e Podence: um vendaval de intensidade sem bola que mostrou um vislumbre daquilo que poderia ter sido uma época diferente. Com bola, a intermitência do costume na decisão, mas capacidade suficiente para desequilibrar sempre que quer, e para somar mais uma assistência.

 

Adrien

O grande passe para isolar Jefferson na esquerda logo a abrir terá sido a sua intervenção ofensiva mais vistosa, mas mostrou mais esclarecimento intuitivo com bola e mais energia nas compensações frenéticas sem ela do que tem sido norma nas últimas semanas e isso contribuiu subterraneamente para aquilo de bom que a equipa fez. Ao minuto 38, aproveitou a primeira ocasião que teve para protestar (uma falta que, de facto, não cometeu) para soltar alguns meses de frustração acumulada. Como eu o compreendo.

 

Matheus Pereira

Entrou com quilos a mais no pé esquerdo e, não pela primeira vez, mostrou mais boas ideias (raramente toma uma má opção ofensiva, excepto quando não arrisca o que sabe) do que boa execução. Toque com demasiada força ao minuto 8, outra excelente ideia estragada com passe demasiado longo ao minuto 24, e um livre indirecto pouco depois que proporcionou à bola a oportunidade de conhecer a mesosfera. À passagem da meia hora, desconfiando que se calhar isto de ser canhoto foi uma mentira que lhe contaram na infância, puxou para o pé direito e marcou golo. Ainda não mostra a intensidade e solidariedade defensiva de Gelson, e deixou por duas vezes o seu lateral sozinho contra dois, mas compensou vindo à faixa contrária cancelar um contra-ataque, numa jogada que lhe valeu o amarelo. Saiu pouco depois.

 

publicado às 04:11

Futebol com humor à mistura (28)

Rui Gomes, em 22.05.17

 

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A última edição da época 2016/17 de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting diante o Chaves:

 

Beto

Assim que se soube a notícia da sua merecida presença no onze inicial havia apenas uma dúvida a esclarecer: seria Beto capaz, depois de tão longo período de inactividade, de se mostrar à altura do titular e não ter culpas no golo sofrido? Não ter culpas no golo sofrido nem sempre é tarefa tão fácil quanto Rui Patrício a faz parecer, e as perspectivas não eram animadoras. Só ao fim de 20 minutos (no segundo exacto em que a greve das claques terminou) Beto conseguiu mostrar trabalho, com uma saída aos pés de Elhouny. E a partir daí pouco mais teve a fazer, excepto resolver episódicos atrasos. O seu ânimo já certamente esmorecia quando, com uma hora de jogo, não teve - de forma triunfante - quaisquer hipóteses de defesa, e portanto quaisquer culpas, no golo do Chaves. Antes do apito final ainda fez mais uma excelente defesa a um livre, mas uma saída atabalhoada num cruzamento podia ter corrido mal. Apesar dessa única falha, provou que podem continuar a confiar nele para não ter, de vez em quando, culpas nos golos sofridos.

 

Esgaio

Um indivíduo tão discreto, tão pacato, com tamanha aura de boa e anónima pessoa, que a obrigação profissional de jogar futebol à frente de tanta gente parece sempre uma maldade que lhe estão a fazer. Ricardo Esgaio faz lembrar uma encarnação de Fernando Pessoa que nunca publicou um verso, e que passou toda a sua santa e tranquila vidinha a traduzir correspondência comercial, a beber um casto copo de vinho ao fim da tarde no Abel Ferreira da Fonseca, e a escrever o ocasional bilhete à Ophélia, antes de se retirar para um quarto alugado e adormecer a inventar heterónimos: o veloz lateral Esgainho, o possante lateral Ricky Esgailéz, o implacável lateral Ryszard Esgayolov...

 

Coates

Um jogo tranquilo, em que algumas pessoas más invadiram de vez em quando a sua privacidade, perturbando assim o funcionamento regular do heteropatriarcado normativo que transporta constantemente num perímetro de 5 centímetros à volta da sua pessoa.

 

Rúben Semedo

O brilhante deslize aos 4 minutos, com uma recepção deficiente dentro da área em que deixou a bola patinar-lhe alegremente pelos pitons a caminho de outra pessoa, podia prometer uma exibição desastrada. Como Semedo reage nestas ocasiões é sempre uma lotaria, mas começa a detectar-se um padrão: encarar a calamidade latente como um desafio, e encontrar o mais depressa possível um ritual de passagem que lhe permita superá-lo. Hoje optou por ensaiar um desarme arriscadíssimo ao minuto 22, em que conseguiu roubar uma bola numa posição quase impossível, e em que o risco de fracasso seria quase de certeza uma grande penalidade e uma penalização disciplinar.

 

Rúben: pardonne-leur, car ils ne savent ce qu'ils font.

 

Jefferson

A cidade de Tebas era assolada por uma cena bué medonha chamada Esfinge, e Édipo, recém-nomeado director-adjunto do Departamento de Lidar Com As Esfinges, foi ao terreno avaliar a situação. Cruzando-se com ela num relvado secundário, abordou-a. A Esfinge pousou a mão na sua fronte e presenteou-o com um enigma: "Qual é a criatura que no início da época tem zero pernas; a meio da época tem uma única perna, mas coxa; e no último jogo, quando já nada interessa, parece ter o número correcto de pernas, o mesmo que tinha durante a época 2013/14?".

 

Édipo pensou um pouco no enigma da Esfinge, e foi nesse dia que começou a fumar.

 

publicado às 05:30

Futebol com humor à mistura (26)

Rui Gomes, em 15.05.17

 

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A segunda edição de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no embate com o Feirense:

 

William Carvalho

A diferença entre a boa forma e a má forma não redefine ontologicamente um jogador, mas ver os mesmos atributos na sua versão satírica tem a rara capacidade de ampliar drasticamente a nossa capacidade para dizer palavrões, dos quais, se formos justos, logo nos arrependemos. Não deixa de ser triste, ver aquele fluído rodopiar sobre flanela reduzido nos últimos tempos a uma colecção de maneirismos de barroca futilidade – como as vénias protocolares diante da Raínha de Inglaterra, em que é preciso um algoritmo para memorizar a sequência correcta de movimentos.

 

Gelson Martins

Marcou o único golo da equipa, na sequência de um lançamento lateral em que a bola não passou pelo pé de nenhum colega antes de chegar ao seu, uma jogada que transporta uma lição valiosa sobre quais as partes do corpo que os futebolistas do Sporting devem evitar usar nesta fase complicada. Além disso, cumpriu a sua função: imprimir desorganização à manobra defensiva adversária, algo que seria colectivamente mais eficaz caso os colegas tivessem a mesma capacidade de improvisar no meio do caos, em vez de parecerem tão surpreendidos como os defesas fintados por Gelson. Mas continua a nem sempre decidir bem. Aos 48 minutos deixou Schelotto isolado na área, com um passe, por definição, indesculpável.

 

Adrien Silva

Ao minuto 72, num espaço de 3 segundos, a bola atingiu a barra da equipa do Feirense, o poste da equipa do Feirense, e a luva direita do guarda-redes do Feirense (neste último caso, rematada por Adrien). Seria a imagem perfeita da época de Adrien, caso a bola tivesse também sofrido um estiramento muscular antes de sair pela linha de fundo.

 

Bruno César

Numa época em que foi médio-esquerdo, médio-direito, médio-centro, segundo avançado, lateral-esquerdo, lateral-direito, vogal da Mesa da Assembleia Geral, fisioterapeuta adjunto, cantoneiro, motorista, nadador-salvador, e czar de todas as Rússias, foi hoje adaptado a nova posição: homem invisível. Cumpriu a tarefa, como faz sempre, com brio e imensa competência.

 

publicado às 19:14

Futebol com humor à mistura (25)

Rui Gomes, em 14.05.17

 

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Mais uma edição de comentários humorísticos da autoria de Rogério Casanova, jornal Expresso, relativamente à performance dos jogadores do Sporting nos jogos da I Liga, desta vez no jogo deste sábado com o Feirense:

 

Rui Patrício

Uma pequena viagem no tempo, e um jogo bastante diferente do que tem sido hábito nesta época penosa. Teve culpas nos golos sofridos? Não, não exactamente. Mas o que teve no primeiro golo foi, num certo sentido, ainda melhor, mais profundo, mais característico: teve um bocado de azar! Antes já tinha evitado outro, com uma defesa por instinto aos 13 minutos, e voltou a fazer excelentes defesas aos 38 e 87. Nos descontos, com todos os colegas animicamente de rastos e sem vontade alguma de estar em campo, deu uma corrida desenfreada para ir buscar a bola fora da área e acelerar a reposição em jogo, na esperança de que o empate ainda fosse possível. Foi o momento mais comovente da noite, e talvez da época.

 

Schelotto

“Onde reside a contradição cómica?”, perguntam vocês, tendo fumado a quantidade suficiente de charros para tal. Aqui, por exemplo, respondo eu, a partir das profundezas intoxicadas da minha total incredulidade: na colisão entre as leis imutáveis e inorgânicas que regulam o universo material (que não possui telos) e o comportamento de criaturas vivas e conscientes – que são dirigidas por impulsos de curto ou longo prazo, ou então, em casos raros, se chamam Schelotto. Ignorar o presente em função do futuro é o que nos torna humanos. Mas também é o que nos faz tropeçar no obstáculo ignorado, ou espatifar passes simples contra tornozelos não antecipados, ou então, em casos raros, ganhar uma internacionalização pela Itália e jogar no Sporting. “Porquê, porquê”, perguntam vocês, acendendo mais uma. Porque lol, porque nothing matters, porque um dia vamos todos morrer.

 

Coates

Quase sempre intransponível nos lances disputados com os avançados do Feirense, roubando bolas no confronto directo com a tranquilidade do costume. A construir esteve menos bem, e participou em algumas saídas de bola atabalhoadas e precipitadas, o que pode reflectir apenas uma vontade de se integrar no espírito de grupo. Aos 92, numa altura em que ainda podia haver algumas dúvidas sobre a exibição do guarda-redes adversário, teve a generosidade suficiente para ir lá à frente permitir-lhe uma defesa para acabar com as dúvidas.

 

Rúben Semedo

Adivinhou-se-lhe cedo a intenção de conceder imunidade diplomática ao adversário, e a defender foi intransigente na aplicação da doutrina da coexistência pacífica. A bola, quando existe, é para todos, e não seria Rúben Semedo a criar as condições de opressão para impedir 50% da população em campo de se divertir também com ela, tendo por esse motivo evitado fazer muitos cortes. Mas quando um avançado do Feirense lhe ganhou espaço já dentro da grande área, considerou que isso era ir longe demais e abusar da sua magnanimidade, tendo retaliado de pronto.

 

Jefferson

Ronaldinho Gaúcho patenteou a habilidade que consiste em olhar para um ponto indefinido à sua frente e passar a bola para o colega ao seu lado. Imbuído da mesma criatividade brasileira, Jefferson desenvolveu a proeza análoga de olhar para um colega ao seu lado e passar a bola para a bancada à sua frente. Apesar de tudo, não fez um jogo horrível (é este o padrão de avaliação actual), e ganhou algumas faltas com jogadas de insistência. Nota artística também ao minuto 82, quando teve algum espaço na linha, mas antes de efectuar novo cruzamento, decidiu ensaiar uma pequena dança regional em cima da bola.

 

publicado às 15:00

Futebol com humor à mistura (24)

Rui Gomes, em 10.05.17

 

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A terceira e última série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no encontro da última jornada com o Belenenses:

 

Bryan Ruiz

Grande momento ao minuto 33 quando apalpou a bola com a perícia de um connoisseur e exigiu ao árbitro a sua troca imediata. "A bola", esclareceu o comentador da Sport TV, "que é um instrumento fundamental neste jogo". É irrefutável. Outro instrumento fundamental neste jogo é a presença em campo de jogadores que saibam fazer mais do que perceber se a bola tem ar ou não.

 

Bas Dost

Um jogo em que supervisionou atentamente o tráfego aéreo de bolas que sobrevoaram o seu instinto finalizador ao longo de noventa minutos. A época que fez, o número de golos que marcou, é própria de um titular num clube campeão (embora em jogos como o de hoje pareça um milagre). Por outro lado, sem Dost, a época seria um cadáver encontrado num contentor nas traseiras de um armazém em Xabregas.

 

Joel Campbell

Substituiu Ruiz e assumiu ele as despesas de fazer maus cruzamentos a partir da faixa esquerda. Entrou cheio de vontade de cumprir essa honrosa missão, e nos primeiros minutos em campo conseguiu fazer maus cruzamentos por alto, maus cruzamentos rasteiros, e maus cruzamentos contra os adversários. Depois foi-lhe faltando a versatilidade necessária para conseguir não tropeçar na bola quando progride com ela, o que dificultou naturalmente a execução de maus cruzamentos adicionais.

 

Luc Castaignos

A "Hipótese Campbell-Castaignos" poderia ser um bom nome para uma teoria científica sobre o comportamento de partículas sub-atómicas. Nunca poderia, nem nunca poderá, ser uma dupla substituição feita na segunda parte para tentar ganhar um jogo.

 

Francisco Geraldes

DÊEM-LHE. MAIS. MINUTOS. PORRA.

 

publicado às 05:12

Futebol com humor à mistura (23)

Rui Gomes, em 09.05.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo com o Belenenses:

 

William Carvalho

Desde que a época deixou de proporcionar expectativas realistas para a conquista de algum troféu, William tem alternado exibições no limite inferior do razoável e exibições francamente incompreensíveis. A de hoje esteve num ponto intermédio desse penoso eixo, sempre naquele estilo de deus otiosus: a divindade que imaginou o futebol e todas as suas implicações num passado longínquo, mas que agora encara a Criação com a apatia perplexa de quem sente o fragmentar da sua infalibilidade, de quem vê a sinistra obstinação dos objectos em resistir às suas intenções, de quem prefere retirar-se para o Olimpo e pintar aguarelas em vez de continuar ali a tentar perceber o que raio nos aconteceu a todos, e a ele.

 

Adrien Silva

Na melhor oportunidade da primeira parte, rematou ao lado, e foi ele quem fez a falta que resultou no 1-2. É outro caso de fadiga mental permanente, que lhe parece reduzir a cada lance o número de alvos ao dispor da sua frenética intuição. Dedicou quase toda a energia hoje a recuperar bolas que ele próprio tinha perdido, dissipando o resto em más faltas, e más ideias. O esforço que se lhe vê é nesta altura mais desespero do que garra - joga como um revolucionário cujo objectivo inconsciente não é a tomada do poder, mas a gloriosa auto-imolação.

 

Matheus Pereira

Entrou muito mal na tomada de decisão e presidiu ao velório de algumas jogadas promissoras nos primeiros minutos. Quando passou para a faixa esquerda teve mais bola, e mais espaço - dádivas que encarou sempre com a desconfiança de quem acordou em Tróia e encontrou um enorme cavalo de madeira no sítio onde deviam estar os chinelos de praia. Os gemidos de impaciência da bancada fizeram-se ouvir infalivelmente nas situações erradas - as raras vezes em que arriscou o lance individual, nalgumas perdendo a bola, noutras criando esporádicos desequilíbrios - quando o que devia ser assobiado sem contemplações é a sua propensão para se livrar da bola o mais depressa possível. A ideia que fica desde que se estreou na equipa principal é que lhe falta arrogância à altura do talento.

 

Bruno César

Marcou cantos (com a inócua competência do costume). Tentou desequilíbrios (com a inócua competência do costume). Na sua passagem pela faixa esquerda (jogou, também como é costume, em quatro posições diferentes) construiu a melhor jogada ofensiva da primeira parte, deixando Adrien em boa posição para fazer golo. Acabaria por ser ele a fazê-lo, finalizando em esforço um centro disparatado de Ruiz e embatendo com violência no poste. Para surpresa de todos, não se auto-adaptou a médico para resolver ele mesmo o problema.

 

Terá sido, não pela primeira vez, dos menos maus hoje.

 

publicado às 04:07

Futebol com humor à mistura (22)

Rui Gomes, em 08.05.17

 

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A já bem conhecida rubrica de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no desaire diante o Belenenses:

 

Rui Patrício

Não teve culpas no primeiro golo sofrido! Ainda adivinhou o lado para o qual Camará rematou, mas era impossível adivinhar que o remate de Camará transportava informação encriptada directamente por Eurípedes sobre a fúria de Medeia, cidades incendiadas, o assassinato de Glauce e Creonte, e a honra ferida da cidade de Corinto, pelo que não era justo pedir-lhe mais. Também não teve culpas no segundo golo sofrido. Nem no terceiro golo sofrido. Durasse o jogo mais noventa minutos e estaria igualmente ilibado de quaisquer culpas no quarto, quinto e sexto golos sofridos. #consistência.

 

Schelotto

Aos cinco minutos, em vez de cruzar, preferiu poupar tempo a todos os envolvidos (colegas, adversários, público) chutando a bola directamente contra os painéis publicitários em vez de a catapultar para trás da baliza de Ventura. Decisão que se compreende a aplaude, e que chegou a sugerir aos mais optimistas o florescer de uma nova maturidade competitiva. Ainda voltou a fazê-lo na segunda parte, mas um episódio de recidivismo levou-o depois a tentar cruzar para a área. Também na segunda parte - antes, muito antes, de perder criativamente a bola que viria a resultar no penálti para o Belenenses - mostrou toda a sua capacidade para a inesperada proeza de coordenação motora, ao fazer um carrinho em esforço para conseguir chegar a uma bola que lhe tinha sido passada para os pés, e quando estava sozinho junto à linha. O dia em que usa o "carrinho em esforço" até para entrar em campo não deve estar longe.

 

Paulo Oliveira

Quando nos metemos em cima de uma balança, estamos essencialmente a aprender a soma dos núcleos dos nossos átomos, essas centelhas de massa que nos dotam de integridade e (em casos excepcionais) competência, no interior de uma nanovastidão de espaço vazio; subtraíssemos essa massa e pesávamos todos 20 gramas. É tudo uma questão de escala: se o núcleo de um átomo fosse uma bola de futebol no centro do planeta, os electrões seriam uma nuvem de pevides a pairar nas camadas exteriores da atmosfera. Entre a bola e as pevides, não haveria nada: nem níquel, nem ferro, nem magma, nem solo, nem Terra, nem ar, nem amor, nem sorte, nem a perna esquerda do Paulo Oliveira, nem tão pouco a direita, e muito menos a cabeça. Apenas a presença solidamente espectral de Gonçalo Silva, natural do Barreiro, onde se situam, de resto, imensos electrões.

 

Coates

Começou o jogo a dobrar William, que tentava dobrar Bruno César, que tentava dobrar Zeegelaar, que tentava dobrar Hezron, que tentava dobrar Amminadab, que tentava dobrar Jehoshaphat, que tentava dobrar Eliakim - e assim sucessivamente, na intrigante recriação do Evangelho segundo São Mateus que foi hoje o processo defensivo do Sporting. Ao minuto 57, depois de nova dobra defensiva em que desarmou Camará depois de este ultrapassar Paulo Oliveira, ensaiou uma dobra ofensiva, desenvolvendo a melhor jogada feita por um indivíduo na posição de lateral-direito durante a partida de hoje.

 

Zeegelaar

Tal como filmes e romances, os desportistas também se podem dividir em géneros. Há desportistas trágicos, com carreiras dramaticamente enriquecidas por várias calibrações de desgraça e acidente; desportistas épicos, destinados a percursos coroados com momentos de glória. Há desportistas que são ficção científica (Messi); e desportistas que são epopeias bélicas ao estilo Tora! Tora! Tora! (Ronaldo). Há desportistas da Harlequin, cuja popularidade depende menos da qualidade do que de satisfazerem outras preferências (Nuno Capucho, Anna Kournikova). E depois há desportistas que laboram a vida inteira num equívoco, absolutamente convencidos de que são um soneto de Petrarca, quando na verdade são uma curta-metragem de Ed Wood: tentáculos de borracha presos por arames, erguidos no topo de um ego inexplicável.

 

publicado às 03:30

Futebol com humor à mistura (21)

Rui Gomes, em 03.05.17

 

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A terceira e última edição de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no recém-embate com o SC Braga:

 

Alan Ruiz


Não entrou bem; falhou os primeiros passes longos que tentou e perdeu uma bola perigosa no meio-campo aos 12 minutos. Pouco depois, encontrou pela primeira vez o espaço necessário para armar um remate (um processo que lhe exige sempre um colossal esforço administrativo), mas saiu ao lado. Não chegou à meia-hora, e a maneira como se agarrou ao joelho indica que teremos de aguardar várias meias-horas até o voltarmos a ver.

 

Bas Dost


Cumprida a formalidade de enviar uma remessa de mais dez milhões de euros ao Wolfsburgo (com um pedido de desculpas por termos pago tão pouco no verão passado), creio ser altura de reservar parte do orçamento do próximo defeso para contratar um artista plástico e fazer uma escultura: Bas Dost, sozinho na área, à excepção do ramalhete de jogadores adversários pendurados no seu dorso como decorações natalícias, com um olho a supervisionar a trajectória da bola na direcção da baliza, e o outro já à procura de um colega para abraçar. (Ou, como aconteceu hoje com Schelotto, ignorar - de forma a preservar o bom nome do futebol).

 

Podence


Entrou aos 27 minutos, e ganhou um penalty aos 29. Com repentismo e vivacidade para corrigir quase sempre os lances que não resultam à primeira, é daqueles jogadores (um pouco como Adrien, curiosamente) cuja lucidez opera melhor quanto maiores forem as contrariedades circunstanciais. Em zonas centrais, ganhou várias vezes o espaço necessário (numa fracção do tempo de Alan Ruiz) para rematar de longe (com uma fracção da potência de Alan Ruiz). Merece a titularidade no resto da época, até para podermos confirmar uma série de coisas.

 

Bryan Ruiz


De todos os futebolistas na pré-reforma a jogar regularmente numa liga do Médio Oriente, é claramente o que mais minutos continua a acumular nos relvados europeus.

 

Jefferson


Entrou para impedir que Zeegelaar continuasse a fazer o seu competentíssimo jogo e visse um competentíssimo segundo amarelo.

 

publicado às 19:00

Futebol com humor à mistura (20)

Rui Gomes, em 02.05.17

 

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A segunda edição de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo contra o SC Braga:

 

William Carvalho


Fernando Pessoa (bom começo de texto, muito promissor; vamos ver o que nos guarda o resto do parágrafo), Fernando Pessoa, dizia, definiu a sátira como a capacidade para traduzir um objecto, sem erro de tradução, para algo que, mantendo as propriedades intactas, é inferior a si próprio. O audacioso projecto estético de William Carvalho na primeira parte do jogo de hoje foi isto: mimetizar acrobaticamente a incompetência em tarefas especializadas - como Chaplin (bom parêntesis, este, muito pertinente) - apresentando-nos uma versão atenuada de faculdades ainda assim reconhecíveis como as suas. Veja-se por exemplo, a maneira como substituiu os seus rodopios episcopais pelos gestos típicos de quem ficou com a bengala presa entre duas pedras da calçada! Ou a maneira versátil como divulgou passes longos na primeira parte: alguns foram parar a adversários; outros a colegas, mas em posição de fora-de-jogo; outros ainda à linha lateral, ou à bandeirola de canto. Na segunda parte sentiu a exaustão própria dos projectos avant-garde e jogou melhor; mas a obra fica, para sempre.

 

Gelson Martins


Criou praticamente todos os desequilíbrios da equipa: ganhou as costas à defesa do Braga inúmeras vezes, sofreu o penalty, obrigou Schelotto a cruzar bem no lance do golo decisivo e mostrou, no geral, uma indisfarçável incapacidade para esgotar a pilha, como uma daquelas sondas da NASA cujo prazo de validade devia expirar a seguir a Júpiter, mas que por motivos misteriosos continuam a funcionar até à Cintura de Kuiper, já depois de o programa ter sido encerrado, transmitindo informação específica sobre a percentagem de metano e amónio nos tornozelos de laterais-esquerdos distantes.

 

Adrien


A energia e a vontade estão lá (a espaços); o esclarecimento em alta rotação é que só aparece de vez em quando. Por muito que nos custe (e em grande parte pela sucessão de lesões), foi o principal impulsionador do processo de gentrificação ocorrido no meio-campo do Sporting: o bairro tradicional da época anterior é agora uma realidade com dinâmicas sociais tão alteradas que qualquer turista se sente mais confortável que os antigos moradores. De jogos em que Adrien parecia liderar a orquestra na Cavalgada das Valquíria, passámos a vê-lo sozinho em casa a martelar num xilofone. Não é que tenha feito um jogo péssimo (como fez há duas semanas); é só que, para isto funcionar, precisamos dele a um nível sobrenatural.

 

Bruno César


Foi o marcador de cantos de serviço - o que nos primeiros 45 minutos foi um emprego a tempo inteiro. Conseguiu marcá-los todos bem e ao mesmo tempo não criar qualquer perigo com nenhum, no fundo um bom resumo da sua exibição. Numa época em que a sua versatilidade competente foi testada até aos limites do absurdo, não seria má ideia enviá-lo uns tempos para o Luso.

 

publicado às 05:30

Futebol com humor à mistura (19)

Rui Gomes, em 01.05.17

 

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Mais uma edição de comentários humorísticos da autoria de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting na última jornada, diante o SC Braga:

 
 

Rui Patrício


Imbatível, mais uma vez, a efectuar os gestos necessários para recuperar a bola do fundo das redes e devolvê-la ao centro do terreno. Insuperável, como sempre, no esporádico resgate aéreo de bolas inofensivas. Inactivo, como é habitual, durante grande parte do jogo. Isento, para não variar, de quaisquer culpas em ambos os golos sofridos. Imutável - demonstravelmente imutável - este estado de coisas (e de parágrafos), pelo menos a curto prazo.

 

Schelotto


É um cenário muito comum na época estival. Imaginem uma mosca a desenhar as suas parábolas contra uma parede branca. Procuramos acertar-lhe furtivamente com um exemplar enrolado da Dica da Semana; falhamos; voltamos a tentar; a mosca elude quatro ou cinco ataques; a nossa exasperação aumenta - e a violência das tentativas também, até ao ponto em que a Dica da Semana já retém poucas das propriedades essenciais de um objecto sólido, ao contrário da mosca, cujos ziguezagues erráticos são agora ainda mais enérgicos. À medida que este ciclo progride, a mosca terá consciência de participar num "ciclo"? Será capaz de monitorizar o comportamento repetitivo do agressor? De sentir a ameaça de uma conspiração organizada contra os seus melhores interesses? De formular e/ou assimilar conceitos como "potência hostil" ou "ataque concertado"? Mudando de assunto: Schelotto fez a assistência para o golo da vitória.

 

Coates


Os centrais, como os agentes da autoridade em filmes policiais, avaliam-se enquanto duplas e não isoladamente. Coates é claramente um protagonista, e o ideal seria ter um sidekick fiável e discreto, que se contentasse em ter as provas já todas recolhidas num saquinho de plástico quando ele chega à cena do crime, ainda despenteado e com o hálito a cheirar a whisky - razão pela qual sentimos intuitivamente que Paulo Oliveira é um melhor parceiro do que esse Mel Gibson em Arma Mortífera chamado Ruben Semedo. Hoje, no entanto, Coates foi forçado a cumprir várias tarefas administrativas sozinho, quase sempre bem, mas by the book - e sem tempo livre para avarias extra-curriculares.

 

Paulo Oliveira


A característica mais notável nos cortes ou desarmes de Coates é que os adversários parecem ir direitos a ele. O mesmo nunca acontece com Paulo Oliveira: cada desarme é uma transpiradíssimia espargata em carrinho, a decepar folhas de relva à sua frente, até a bomba ser desactivada no último segundo. É um jogador cuja competência floresce em esforço. E é também um jogador demonstravelmente sem sorte nenhuma. Não é o único, e até é possível fazer boas carreiras internacionais com este problema. Jamie Carragher, por exemplo, era um jogador com pouca sorte, e teve uma carreira digna. Foi-se safando, Jamie Carragher. Pode ser que Paulo Oliveira tenha a mesma sorte, dentro do azar que o acompanhará para sempre.

 

Zeegelaar


É forte, é ágil, tem poder atlético, é veloz, joga razoavelmente com os dois pés. Esteve geralmente bem a controlar a profundidade na defesa. Fez pelo menos dois cortes importantes. No lance do golo, ganhou a bola sozinho, na persistência, a dois adversários, progrediu uns metros e fez um cruzamento tecnicamente perfeito para Dost. Deve, em suma, ser dispensado o mais depressa possível, de preferência ainda esta semana.

 

publicado às 15:25

Futebol com humor à mistura (18)

Rui Gomes, em 25.04.17

 

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A terceira e última edição de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no «derby» de sábado diante o Benfica:

 

Alan Ruiz

Adivinhou-se (resiganadamente) nos primeiros minutos que a rapidez e intensidade do jogo não era a mais indicada para os seus talentos específicos, e passou ao lado de muitos momentos, tanto na pressão ofensiva como na construção em zonas mais adiantadas. Ainda assim, foi tentando uma ou outra jogada que teria resultado certamente em ocasiões de perigo - não contra esta, mas contra dezasseis outras equipas da Liga. Depois de algumas faltas ofensivas (quase sempre desnecessárias) veio dar uma perninha cá atrás e fez uma falta perto da sua área - a última acção em campo antes de ser substituído. Foi azar. (E foi golo).

 

Bas Dost

Conseguiu pressionar Ederson, obrigando-o a má recepção, e ganhar um penálti, sem em nenhum momento eu dizer em voz alta a frase "parecia o Slimani", o que talvez indique que atravessámos um ponto importante na relação entre as expectativas dos adeptos e a consolidação da sua imagem. Ganhou vários duelos aéreos e conseguiu combinar bem com colegas (mostrando, a espaços, qualidade de recepção de passes longos a lembrar Berbatov). Oportunidades claras é que foram poucas. A não ser aquela, mas não vale a pena falar nisso agora.

 

Bryan Ruiz

Não entrou nada, nada bem. Estamos num ponto em que a sua lucidez é pura e simplesmente auto-destrutiva. Ou então não, e isto é um exagero, e precisamos todos de ir beber um copo, ou de férias.

 

Daniel Podence

Bom lance individual na direita, ultrapassando dois adversários, mas perdendo o timing certo para soltar a bola. Ainda teve tempo para uma corrida pelo meio em que testou a integridade molecular do abdómen de Luisão; e para pouco mais.

 

Joel Campbell

Tentou, com optimismo panglossiano, ser útil. Não foi possível.

 

publicado às 04:03

Futebol com humor à mistura (17)

Rui Gomes, em 24.04.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no embate contra o Benfica:

 

William Carvalho

Fez um amplo e eficaz trabalho invisível, acumulou cortes, intercepções e desarmes (quatro nos primeiros três minutos). Enorme a recuperação em velocidade ao minuto 53, desarmando Rafa e anulando um contra-ataque perigoso. Em posse não conseguiu ser omnipotente, mas é como diz o provérbio popular (um provérbio popular que só William usa): nuns dias conseguimos coreografar o caos; noutros dias, resta-nos improvisar no meio dele.

 

A verdade é que se tornou o super ego da equipa - e também dos adeptos: um braço perpetuamente estendido, apontando na distância, com suprema autoridade, e para lá da linha do horizonte, o raio que vos parta a todos.

 

Adrien Silva

Marcou exemplarmente aquele que podia ter sido um dos penáltis mais celebrados da história do Porto e fez uma boa exibição, com uma frescura física a milhas de distância da que mostrou na semana passada (em que parecia estar a recuperar não de uma lesão, mas de uma adolescência em Chernobyl). Capacidade de choque, forte nas bolas divididas, lúcido a distribuir, e voltando até a mostrar o seu jeito para manter a posse de bola não só com circulação, mas com mini-incursões centrais em velocidade.

 

Gelson Martins

Era a única pessoa do onze inicial capaz de ultrapassar pessoas com fintas e em velocidade, portanto, dedicou-se a ultrapassar algumas pessoas com fintas e em velocidade, confiante de que o resto viria por acréscimo. Tem sido intrigante, a relação de Gelson esta época com o resto do talento disponível no Sporting; intrigante, mas nem sempre sinergética: como ver uma pessoa sem capacidade de interpretar silêncios (incapaz, por exemplo, de decifrar se significam conforto ou tensão) tentar obsessivamente manter uma conversa com um grupo de pessoas que procuram constantemente mudar de assunto.

 

Bruno César

Jogo de esforço, em que foi mais visível a fazer faltas e cortes de carrinho, a cobrir, dobrar e pressionar, do que propriamente a criar. Ainda assim, no ataque, conseguiu a proeza significativa de ser um extremo eficaz e esporadicamente perigoso sem ter ganho um único lance no 1x1 a Nelson Semedo. De assinalar a notável superioridade atlética que mostrou sobre Lindelöf num lance dividido dentro da área, ainda na primeira parte, conseguindo ganhar uma bola de cabeça ao sueco usando apenas partes do corpo localizadas abaixo do pescoço. Saiu aos 79 minutos, esgotado. E fez falta, como faz sempre que não está lá.

 

publicado às 03:53

Futebol com humor à mistura (16)

Rui Gomes, em 23.04.17

 

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A rubrica de Rogério Casanova, jornal Expresso, de comentários humorísticos sobre a performance dos jogadores do Sporting no «derby» deste sábado:

 

Rui Patrício

O Júlio Isidro das balizas nacionais começa a acumular um currículo assinalável na revelação de talentos insuspeitos (ou recuperação de talentos hibernados). Cristiano Ronaldo, depois de um período prolongado em que os seus livres directos se limitavam a acrescentar novos satélites à órbita de Júpiter, recuperou consigo (e esta época) a alegria dos livres indefensáveis; o na altura improvável Bruno Alves também lhe marcou um em 2008 (e neste estádio). E agora Lindelöf, numa estreia absoluta. Quem será o próximo a marcar-lhe um livre directo? Um guarda-redes? Vera Roquette? Pinto Balsemão?

 

Schelotto

Fez uma grande jogada aos 22 minutos, uma cavalgada indesculpável, que dependeu de ganhar uma estatisticamente absurda sucessão de ressaltos. Depois perdeu algumas bolas. Fez outra grande jogada dez minutos depois, concluída com um triunfante cruzamento para o fosso. Acumulou perdas de bola em lances controlados, depois do intervalo, seguidas de várias recuperações, seguidas de novas perdas. Aos 59, desarmou Cervi, avançou uns metros, puxou o gatilho, e enfiou a bola na gaveta (da mesosfera). É possível que alimente uma superstição elaborada que o impede de fazer duas coisas normais seguidas.

 

Coates

Mostrou grande controlo emocional em quase toda a partida, sempre com a testosterona em ponto de embraiagem. O corte com os testículos à meia-hora foi, no fundo, uma tentativa de descompressão. Só começou a chatear-se nos últimos 10 minutos, tentando sair com a bola colada ao pé, não tanto para iniciar jogadas ofensivas, mas sim para perder a posse em zonas mais adiantadas e poder aviar (por exemplo) Felipe Augusto sem correr o risco de sanção disciplinar. Vejam aquele rosto, quando está irritado: conseguimos ler nele a veemente revogação de todos os edifícios que os seres humanos construíram para se entenderem - todos os acordos, todos os tratados. Mas não magoou ninguém! Um exemplo de responsabilidade e abnegação.

 

Paulo Oliveira

Foi comovente a homenagem a Rúben Semedo mesmo em cima do intervalo, com um alívio de calcanhar em zona perigosa - mas, na verdade, não enganou ninguém. O seu estilo despojado está nos antípodas da sobre-ornamentação do colega, e falar em "estilo" já é uma deturpação, a não ser que estejamos a falar de estilos cardiovasculares. Fez o que pode, e tentou o que não pode, em permanentes picos de esforço, sempre à beira do colapso, transformando cada sprint numa prova de meio-fundo, e cada corte in extremis na batalha do Álamo, com a expressão de um homem que prefere perder a dignidade do que o lance à sua frente.

 

Jefferson

Não esteve mal, Jefferson. Não fez um mau jogo. É bom começar por aqui (e depois explicar que esta avaliação preliminar é uma função de expectativas iniciais).

 

Fez o primeiro cruzamento para trás da baliza aos minuto 19. Fez outro ainda na 1ª parte. Fez outro ao minuto 70. E fez ainda vários que em vez de saírem para trás da baliza, saíram pela linha lateral do outro lado. Um deles foi tão lento que foi possível ver a bola a atingir a puberdade pelo caminho.

 

Qual é, exactamente, a natureza do problema com os cruzamentos de Jefferson? É possível que a situação se resolva com uma chuteira ortopédica? Com um relvado ortopédico? Um planeta ortopédico?

 

publicado às 11:25

Futebol com humor à mistura (15)

Rui Gomes, em 11.04.17

 

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Terceira e última série de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting contra o Boavista:

 

Alan Ruiz

Independentemente da bastante simpática contabilidade de golos, tem mostrado com alguma consistência ser dos jogadores ofensivos com mais critério da equipa. Os seus movimentos de distribuição descontraída - recuando, recebendo, girando - são invariavelmente bem pensados e só raramente mal executados. E mesmo nesses raros momentos em que o passe final não sai, mostra uma disponibilidade (física e, suponho, mental) para pressionar que não se lhe via, ou sequer adivinhava, nas primeiras semanas da época.

 

E, claro, mais um para a conta pessoal: ao minuto 19, aproveitou o espaço que lhe deram dentro da área e rematou como se a baliza tivesse insultado a sua família e saqueado a sua cidade natal.

 

Bas Dost

Deve ter-se apercebido ainda em tenra idade da sua compulsão para abraçar pessoas, e mostrou a maturidade precoce para enveredar por uma actividade profissional que lhe permitisse dar seguimento a esse apetite de uma forma socialmente sancionada. Quebrou hoje um jejum de abraços que já durava há uns preocupantes 101 minutos, e merece destaque o seu refinado gesto técnico no lance do 1-0 (que viria a reproduzir na segunda parte) colocando o pé de apoio no momento do remate na posição que lhe permitira correr mais depressa na direcção de Bruno César.

 

Adrien

Substitui Bryan Ruiz e deu o seguimento adequado ao trabalho do colega, inclusive no capítulo das bolas perdidas. Ainda longe, como é óbvio e natural, da melhor condição física - e uma entrada ao tornozelo já perto do fim sugere que os adversários insistem em vê-lo menos como uma pessoa do que como um crucigrama de tendão e cartilagem, à espera de ser decifrado por um piton atento.

 

Joel Cambpell

Bom remate de primeira dentro da área com um dos seus piores pés (o direito), que não deu golo por muito pouco.

 

Francisco Geraldes

Excelente abertura a desmarcar Schelotto na direita, pouco depois de entrar, e um grande passe de pé esquerdo para Campbell na esquerda ao minuto 86, dois lances em que ficaram bem patentes todas as suas qualidades ao nível da técnica individual, visão periférica, ortografia e sintaxe.

 

publicado às 05:36

Futebol com humor à mistura (14)

Rui Gomes, em 10.04.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos por Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting, este sábado, diante o Boavista:

 

William

Esteve muito bem na sua missão, que como se sabe consiste em capturar o capricho dos elementos (águas, ventos, ervas, schelottos), encarnar o móbil humano que reduz essas forças naturais à categoria de objectos, e assim fazer da Criação um projecto, deixando que a humanidade se inscreva a si própria no espaço, cobrindo-o de gestos familiares, de usos e intenções, e vergando a obra de Deus à sua vontade domiciliária. E tudo isto sem precisar de correr, que isso é coisa de maluquinhos.

 

Podence

Ainda não havia um minuto de jogo e já Podence tinha ganho um lançamento lateral no meio-campo contrário, respondendo a um passe demasiado longo num lance que devia estar completamente perdido. Foi acumulando incursões em velocidade - mais até pelo meio do que junto às linhas - mas perdendo algumas vezes o tempo certo de passe, até que se redimiu ao minuto 34 quando se desmarcou e, vendo Bryan Ruiz completamente isolado e só com a baliza pela frente, lhe endossou a bola com um pouco de força a mais, salvando assim o colega de mais um falhanço escandaloso.

 

Bryan Ruiz

Lance paradigmático ao minuto 7: excelente a decidir (descongestionando a confusão central derivando a jogada para o flanco mais distante) e péssimo a executar (a bola saiu pela linha lateral). Jogar em zonas mais recuadas expõe-o obrigatoriamente a situações de risco, e viu-se um bocado aflito na primeira parte - reduzido em duas ocasiões a deselegantes alívios. E se há jogador que é aflitivo ver aflito, esse jogador é Bryan Ruiz. Até sair (foi o primeiro a ser substituído) foi alternando excelentes aberturas com passes inacreditavelmente errados.

 

Bruno César

Muito, muito boa exibição, mostrando ao que vinha logo ao 2º minuto, com o primeiro remate da partida. Conseguiu pouco depois transformar um mau cruzamento de Schelotto no que poderia ter sido mais uma assistência de Schelotto, mas cabeceou em esforço às redes laterais, e mais tarde aproveitou um erro defensivo para assistir Dost.

 

Logo no início da 2ª parte decidiu ganhar um penalty, o que não foi nada fácil: o jogador do Boavista deu-lhe tanto espaço para chegar à bola primeiro que Bruno César foi obrigado a fazer o equivalente a uma paradinha e a movimentar-se em elipse para conseguir chegar à bola ao mesmo tempo que a perna do adversário.

 

publicado às 04:09

Futebol com humor à mistura (13)

Rui Gomes, em 09.04.17

 

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Comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo deste sábado com o Boavista:

 

Rui Patrício

A bola pingada vinda de um canto que agarrou com as mãos ambas ao minuto 40 foi um anómalo interregno no jogo de hoje, em que se limitou a devolver à proveniência episódicos atrasos de colegas, e a andar na pequena área de um lado para o outro, como um noivo nervoso antes da cerimónia de casamento, esse sacrossanto vínculo de concórdia indissolúvel que, tal como o sudário de Cristo, nunca poderá ser dividido nem rasgado.

 

Schelotto

Comovente a sua tentativa para receber no ar um passe longo de William (em que nem chegou a tocar na bola), e ainda mais comovente a sua tentativa para desmarcar Podence 2 minutos depois (em que a bola saiu alegremente pela linha de fundo). Parece o último dos Moicanos e mexe-se como o primeiro dos pelicanos, sempre com aquela compenetração bizantina de quem se prepara para despir um casacão invisível e cruzá-lo para dentro da área, pois cruzar qualquer coisa para dentro da área é a sua reacção instintiva a tudo: a indecisão, a inadvertência, o cansaço, a imperfeição humana, etcetera. Fez uma assistência e esteve envolvido em mais uma mão cheia de lances perigosos - um vexame do qual os jogadores do Boavista não vão recuperar animicamente tão cedo.

 

Coates

Mantém viva a tradição de acumular sete segundos desastrados em cada jogo, independentemente do grau de dificuldade do mesmo. Hoje o minuto eleito foi o 27, quando amorteceu de peito para um adversário dentro da área e logo a seguir lhe permitiu cabecear à sua frente sem oposição. Reposta a ordem estabelecida, foi assistindo do interior do seu Panopticon privado aos ternurentos esforços do Boavista para montar uma única jogada ofensiva com princípio, meio e fim, um pouco como quem assiste aos esforços de uma criança de 2 anos para jogar Bridge.

 

Semedo

Ao contrário dos jogadores do Boavista, conseguiu por duas vezes colocar a bola nos pés dos jogadores do Boavista em zonas perigosas. Esteve algo desastrado no tempo de corte, especialmente na primeira parte, e um corte aleatório para canto ao minuto 39 foi dos remates mais perigosos da equipa visitante. Os seus maneirismos atléticos parecem desenhados por um artista da DC Comics nos anos 50: tudo é um pouco caricato, exagerado e, ao nível de forma actual, tão denunciado que cada mudança de direcção merece um painel autónomo. Continua longe da forma que mostrou no início da época.

 

Zeegelaar

Cometeu a primeira falta da equipa, cortando assim um dos vários lances absolutamente inofensivos do Boavista, mas o certo é que esteve defensivamente bem a partir daí. Esteve mesmo bastante bem, frustrantemente bem, indesculpavelmente bem: controlando melhor a profundidade do que é hábito, intransponível nos lances corpo a corpo, e mostrando fôlego suficiente para esticar sempre o jogo pela faixa quando a equipa atacava. É a segunda boa exibição consecutiva que faz, ou seja: andamos nisto. Naquele ponto do relacionamento em que já se prepara uma conversa decisiva - mas em que, à última hora, o parceiro culpado decide limpar a casa de surpresa e comprar um ramo de flores.

 

publicado às 06:16

Futebol com humor à mistura (12)

Rui Gomes, em 05.04.17

 

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Terceira edição de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance de jogadores do Sporting no jogo com o Arouca:

 

Bruno César

Um cruzamento para trás da baliza, um golo decisivo, um aguaceiro portátil de transpiração, um prémio de jogo merecidíssimo, um ser humano cuja presença em campo nunca me desagrada.

 

Alan Ruiz

Tem uma ligação muito idiossincrática com o tempo de jogo, com o relógio, com o calendário - semelhante, aliás, à do Planeta Terra com os diamantes. Algures naquele rectângulo, há objectos preciosos, mas Alan Ruiz não se importa nada de aguardar pacientemente durante trezentos milhões de anos enquanto duas montanhas acasalam com átomos de carbono até vir oferecer jóias aos adeptos. E depois voltar a esperar por fenómenos vulcânicos violentos, enquanto pondera o futuro.

 

E... como será esse futuro? Uma sucessão de acontecimentos discretos, cada um com existência autónoma nas suas próprias coordenadas espaciais? Ou um único acontecimento contínuo, desdobrando-se pela eternidade? E balizas? Há balizas no futuro? Temos tempo para o saber, temos tempo. (Foi o melhor em campo).

 

Bas Dost

Um cabeceamento à figura após um canto e uma tentativa de responder com o calcanhar a uma solicitação de Ruiz foi a soma total das suas semi-oportunidades para molhar a sopa. De resto, passou o jogo a tentar agressivamente assistir os colegas (a melhor das quais com um pique ao primeiro toque para Bruno César, na 2ª parte), exibindo uma curiosidade hostil em saber que jogador correriam eles a abraçar, caso marcassem golo.

 

João Palhinha

Entrou em campo com grande agressividade, como seria de esperar de um jovem de 21 anos que recebe as instruções tácticas gritadas pela capa de um álbum dos Iron Maiden, e fez um corte decisivo sobre Cuca Roseta.

 

Daniel Podence

Teve tempo para desassossegar com a sua velocidade a tarde tranquila que toda a gente desfrutava, para assistir Gelson com um passe em profundidade quase perfeito, e para exibir um triunfante 56 inscrito na nuca, simbolizando o número exacto de centímetros que separa o seu coração e as sobrancelhas intrigadas de Bas Dost.

 

Paulo Oliveira

Noventa segundos em campo e uma dádiva dos céus para todos os cronistas desportivos pagos de acordo com o número de caracteres.

 

publicado às 05:15

Futebol com humor à mistura (11)

Rui Gomes, em 04.04.17

 

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A segunda série de comentários humorísticos de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance de jogadores do Sporting no jogo diante o Arouca:

 

Zeegelaar

Recebeu instruções para se encarregar da primeira fase de construção do jogo ofensivo do Arouca e tentou cumprir a tarefa com brio, dentro das suas limitações, perdendo oitocentas mil bolas na primeira parte, e supervisionando atentamente a movimentação de Mateus no golo inaugural. Borrou a pintura ganhando uma bola na área e assistindo Bruno César para o 1-2. Marvin Zeegelaar é um anagrama de "Rega em relva Nazi". Deixo aqui esta informação, sem comentário adicional.

 

William Carvalho

Esteve muito bem a desdramatizar, de resto a sua principal função hoje. Desdramatizou situações de pressão encolhendo os ombros, desdramatizou picos de confusão no meio-campo com toques de primeira, desdramatizou passes errados dos colegas com recepções orientadas que podem ser traduzidas como "não precisam de pedir desculpa, vai correr tudo bem". Ao minuto 88 desdramatizou uma incursão de um adversário pelo centro do terreno e levou um nada dramático cartão amarelo.

 

Bryan Ruiz

Costuma ser dito de génios visionários - aqueles cujos fracassos são vindicados pelo futuro - que são homens "à frente do seu tempo". Bryan Ruiz é nesta altura um homem "atrás do seu espaço", no sentido em que quase todas as suas acções só seriam vindicadas se as coisas à sua frente fossem outras: se fossem, nomeadamente, as coisas atrás de si. Esta desorientação espacial costuma provocar uma sensação de náusea; eu, pelo menos, começo a senti-la com alguma frequência.

 

Gelson Martins

Continua a trabalhar na sua tese de mestrado de Lógica Modal dedicada aos paradoxos, provisoriamente intitulada "Como combinar com o lateral da minha faixa sem combinar com Schelotto". Mesmo num dia menos inspirado ao nível das habilidades impulsivas, acabou invariavelmente por dar melhor seguimento aos lances quando fez as coisas sozinho. Esteve perto do golo ao minuto 29, com um remate ao ângulo desviado por Bolat, um dos dezasseis mil e quinhentos guarda-redes com contrato profissional com o Porto - o mesmo que evitou aos seus pés, já nos descontos, o golo da tranquilidade.

 

publicado às 06:05

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