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A barriga de Maradona

Rui Gomes, em 26.11.20

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Na era da grande democratização do acesso à televisão, que começa nos finais da década de sessenta do século passado, o melhor golo de sempre deu-se no Mundial de 1986 e teve a assinatura de  Maradona. Nesta obra de arte, Maradona, com uma finta de corpo, ainda no seu meio campo, tira dois ingleses da jogada e arranca num longo sprint de 50 metros, com os dribles necessários até passar o guardião, Peter Shilton, e fazer o seu segundo golo no jogo, o primeiro que foi inteiramente legal, já que no anterior teve a batota que ficou eternizada como a ‘Mão de Deus’.

A Argentina passava assim os ingleses nos quartos-de-final, a caminho do título mundial. Dessa fase de ouro da carreira do enorme artista argentino, muitos irão falar nestes dias de despedida. Outros optarão por coçar a ferida da sua longa decadência, até esta morte que, sendo prematura, tardou vinte anos ou mais, face à incapacidade de Maradona se adaptar à vida fora das quatro linhas.

Foi muito duro para tantos milhões de fãs testemunhar a degradação física e mental deste semideus. Maradona tinha-se destinado a morrer cedo. Poeta dos relvados, será eterno. Pena termos os últimos longos anos para apagar da memória.

Voltemos ao que mais importa de Maradona. Enquanto futebolista, tornou-se um enorme líder, catalisador de invulgar coragem e ousadia para todo o grupo. Isso ficou provado de forma incrível na campanha para o Mundial de 1994, nos Estados Unidos. O ídolo estava velho e gordo. Meio retirado depois de sombria passagem pelo Sevilha. Sem o astro, no apuramento para o Mundial, ver jogar a Argentina era um sofrimento só suportável por razões profissionais. O futebol não saía apesar da qualidade de muitos craques. Foi preciso chamar Maradona, com mais de 15 quilos acima do peso, para os jogos de repescagem frente à Austrália. E o futebol argentino renasceu.

Não foram os seus golos do Mundial de 1986, ou a capacidade de carregar o Nápoles até ao pináculo da sua história em Itália, que colocam Maradona num lugar inatingível. É o milagre de Maradona, com proeminente barriga, a devolver o cérebro à selecção argentina na campanha de 1994, que o coloca acima de todos.

Depois, a história já é muito mais conhecida, Maradona – amigo de Fidel e devoto de Che – preparava-se para levar a Argentina à disputa de mais um título mundial. De novo em forma, é na fase final deste Mundial que Maradona descobre o caminho da festa para as câmaras de televisão. Pela primeira vez, um jogador festejou um golo com o Mundo. Foi Maradona, no jogo frente à Grécia.

Um controlo antidoping, positivo para efedrina – que terá usado para emagrecer – pôs fim à euforia argentina e à carreira internacional deste astro.

Terminou então a vida de Diego Maradona no céu do futebol. Arrastou-se até ontem neste purgatório de simples mortais, que nunca logrou entender.   

Artigo da autoria de Octávio Ribeiro, em Record 

publicado às 03:31

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9 comentários

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De Julius Coelho a 26.11.2020 às 08:01

Esse episodio da efedrina sempre a tive como uma vingança da FIFA para o castigar, Maradona sempre viveu fora dos sistemas sempre teve a coragem de enfrentar os deuses da FIFA que mais tarde tombaram contaminados pela corrupçao.
Mas nunca lhe perdoaram a ousadia e encontraram na efedrina o motivo e o momento para se vingarem.
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De Rui Gomes a 26.11.2020 às 11:05

Julius,

Essa sua 'novela' é querer perverter a realidade das coisas!!!

Já nesse tempo, nem todos nós comíamos gelados com a testa.
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De Julius Coelho a 26.11.2020 às 12:15

Uma coisa era a coca e aí foi mau demais outra bem diferente foi essa efedrina quando a tomou para o emagrecimento acelarado para poder estar no mundial.
Que raro nesses testes nao ser apanhado com a coca sendo ele um viciado de alto nivel mas tinham que lhe pegar em alguma coisa ele incomodava bastante.
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De Julius Coelho a 26.11.2020 às 08:08

Maradona chegou ao topo dos topos quando descobriu o Napoles levando-o aos titulos mesmo quando em Italia a equipa dos sete magníficos o Inter de Matheus queria açambarcar tudo.

Por curiosidade o destino trouxe essas 2 grandes equipas a Alvalade e o Sporting esteve quase quase a elimina-las.
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De FF a 26.11.2020 às 09:34

Bom-dia, Julius Coelho
Recordo apenas ter o grande Maradona perdido a aposta com o Ivkovic, que defendeu a grande penalidade.
FF
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De Julius Coelho a 26.11.2020 às 14:15

Sim mas na 2 Mao en Napoles mas pouco valeu a defesa porque o Gomes acertou na trave
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De Rampante a 26.11.2020 às 10:10

A história do Mundial de 1994 é porventura um dos primeiros momentos que tenho presente como "marcante" na minha memória futebolística.
Dado que sou um adepto fervoroso do jogo "não jogado", a história do doping à época marcou-me imenso, pois nessa altura "doping" era uma palavra quase desconhecida.

Oficialmente foi sempre dito que Maradona tomou efedrina por esta ser usada para emagrecer e efetivamente quem o visse não duvidava que ele precisava mesmo de perder peso.

Outros disseram que foi encontrada efedrina porque essa era uma substância utilizada para "cortar" a cocaína.

Pessoalmente sempre acreditei que a verdade estava no meio termo. A Efedrina serve efetivamente para emagrecer e os seus efeitos são potenciados se previamente se consumir cocaína...
Ora, para uma pessoa adicta como Maradona não é difícil de imaginar que esta seria a solução perfeita (consumir e emagrecer) aliada a uma "desculpa" perfeita (a necessidade urgente de emagrecer)... cocaína 1º e efedrina logo de seguida, em separado.


Quanto à noticia do dia.
Lamento a sua morte na medida que lamento a morte de qualquer Ser Humano, mas perdoem-me por não ter nunca conseguido ser seu fã.
Tenho este defeito de não conseguir separar o homem do desportista e como tal vejo Maradona não como um produto da genialidade humana, mas como resultado da "potencialização" química.
Digo hoje o mesmo de Maradona, que direi um dia se alguém me disser que Lance Armstrong foi o melhor ciclista de todos os tempos. Para mim, nem um nem outro.

A Maradona perdoo a ingenuidade, pois o conhecimento existente nos anos 80 não era o mesmo de hoje e disso ele não tem culpa; tal como eu não tenho culpa de olhar para ele e não me entusiasmar, e face a todos os que aqui o veneram perdoem-me por não partilhar da vossa emoção.

Que descanse, finalmente em paz!
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De Julius Coelho a 26.11.2020 às 12:21

Concordo com parte a das drogas tem a sua lógica a sua analisé mas ja nao posso concordar que elas explicam tudo porque outros tambem snifavam e nem perto chegaram ao que ele fez depois ainda ele era um niño sem conhecimento ainda desses “luxos” que encontrou em Italia e ja os sentava a todos com as suas fintas.
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De Rampante a 26.11.2020 às 13:13

Juliuscoelho, eu vejo os jogadores da bola como artistas...

Nascem com capacidades acima da média, tal como Maradona nasceu,
mas que conseguem "transcender-se" quando são "ajudados"...

Quantos pintores, músicos, etc não são fenomenais naquilo que fazem, mas quando "tomam aditivos" conseguem transcender-se??? Não é por acaso que existem n histórias semelhantes, não só de agora nas historicamente...

A diferença é que ao contrário das artes, no desporto foi estabelecido que "ajudas" não seriam toleradas e isso acabou por "manchar" grandes nomes do desporto...

E podemos fazer o seguinte exercício: se Messi pudesse tomar "extras" não poderia ele ser ainda melhor???
Se CR7 pudesse tomar extras não seria ele ainda mais transcendental???


Mas agora pouco interessa discutir isso... ele marcou uma geração e fez a sua história... o que relatei é apenas uma "tosca justificação" para mostrar o porquê de eu não partilhar da comoção generalizada

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