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A desobediência do circo

Rui Gomes, em 14.04.20

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Estamos em estado de emergência e o circo foi incluído na lista de actividades suspensas.

O circo está parado, mas não várias formas de circo paralelo.

Uma das maiores é aquilo que estamos a ver acontecer no futebol.

Não há nenhuma dúvida que esta paragem forçada causa danos imensos e nalguns casos irreparáveis.

Nenhuma dúvida que, sem se sair da grande-área do bom senso, todos queremos voltar o mais breve possível a apreciar os talentos dos artistas, no futebol e no âmbito de outros espectáculos ou actividades culturais.

Ninguém ganha com a grave estagnação da(s) economia(s). Todos temos muita vontade de voltar às nossas vidas. Mas…

Acabo de ler um extenso documento patrocinado pela Liga Portugal subordinado ao título RETOMA PROGRESSIVA À COMPETIÇÃO - Plano de Acção, Abril 2020.

Não queria acreditar no que estava a ler.

É um documento (“indicativo e orientador”) que consta de 19 páginas e “foi elaborado pelos médicos das Sociedades Desportivas participantes na Liga NOS e na LigaPro” e, apesar de ser sublinhada a advertência de que “esta retoma progressiva à competição apenas poderá ser iniciada quando for legalmente autorizado pelas entidades oficiais competentes”, não consigo perceber bem se vivemos todos no mesmo Mundo ou se há, na verdade, um ‘mundo do futebol’ diferente daquele que milhões de terráqueos habitam.

A certa altura senti-me como um telespectador de um filme de ficção científica.

O documento prevê 3 fases de adaptação no quadro da retoma da competição:

FASE 1 - Regresso progressivo aos treinos; treinos individualizados no campo durante duas semanas, com avaliações antes das sessões (com máscaras e salas próprias), na presença de treinador e elemento do departamento médico (com máscaras e respeitando distâncias de 2 metros). Não há cruzamento com outros jogadores ou staff. E é admissível a presença de 2 jogadores, cada qual no seu meio-campo.

FASE 2 - Treinos de grupo com contacto (3.ª e 4.ª semanas), mas respeitando ‘normas básicas’.

FASE 3 - Campeonato inicialmente à porta fechada, no qual os jogos ‘fora’ obedecem a viagens mesmo no próprio dia da competição, com autocarros higienizados e os jogadores distribuídos segundo as normas de segurança (1 atleta para cada 2 lugares e com máscara). Nos balneários, 1 jogador por cada 25m2 e, nos ginásios, já agora, recomendação de distância mínima de 5 metros entre atletas.

Não imaginam até onde vai a particularidade das recomendações publicadas: alimentação, limpeza, higiene, viagens, estágios com menor duração possível, equipamentos e rouparia, balneários, ginásios, massagens, banhos, reuniões, relva, etc.

Saúdo o esforço da equipa de médicos em não querer deixar nada ao acaso e não estão em causa, obviamente, as questões clínicas que devem ser analisadas especificamente nesse âmbito. Tudo parece previsto; nada é deixado ao acaso.

Este documento mostra-se insensível, contudo, a realidade que estamos a viver e não podemos ignorar que já há presidentes, como Rui Alves, do Nacional (com interesse na subida de divisão), a anunciar o regresso aos treinos já na próxima segunda-feira. Quer dizer: o Presidente da República e o Governo a darem nota de que os portugueses devem continuar confinados e o Nacional a anunciar que vai voltar aos treinos?!…

O presidente do Governo Regional e o Governo da República não dizem nada? Estaremos perante um crime de desobediência ou, como defende Rui Alves, o decreto-lei 2-B/2020 permite este contra-senso e todas as recomendações avançadas, diariamente, pela DGS e pela ministra da Saúde?

A menos que se chegue à conclusão de que não nos vamos livrar desta pandemia e que estaremos condenados a viver neste regime para todo o sempre, isto é, a contabilizar mortes todos os dias, a desinfectar as mãos todos os dias, a manter a distância de 2 metros todos os dias, a não trocar beijos e abraços e a adaptar as economias a esta espécie de ‘holocausto sensorial’; a menos que nos obriguem a sair de casa de máscara (tipo antigás), a ir aos estádios e olhar com desdém para o desfalecimento do parceiro do lado (a tombar a 2 metros de distância, no mínimo) e proclamem a morte como um facto que não se deve retardar e, ao invés, acelerar, então tudo isto é ridículo, tudo isto é um circo (paralelo), tudo isto é uma palhaçada, com todo o respeito pelos palhaços, agora confinados e sem vontade de nos fazer rir, aprisionados nas suas (e nas nossas) angústias.

Uns a fazer sacrifícios e… outros na palhaçada?! Alguém põe ordem nisto?

Rui Santos, SIC Notícias

publicado às 03:18

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1 comentário

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De Orlando Santos a 14.04.2020 às 09:02

O vírus não vai desaparecer por decreto. Até todo o mundo estar vacinado é melhor habituarmo-nos a conviver com ele.

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