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Equipa do Sporting (1922-23)

 

 

A polémica sobre o número de títulos de Campeão Nacional que o Sporting conquistou ao longo do seu percurso desportivo é debatida periodicamente pelos adeptos leoninos. Agora, renasceu com um novo impulso através da Sporting TV, do jornal do Clube e de alguma blogosfera sportinguista, considerando-se que as quatro vitórias no Campeonato de Portugal nas décadas de 1920 e 1930 possuem a categoria de Campeão Nacional. Serão, portanto, 22 títulos e não 18 como é contabilizado actualmente.

 

A reivindicação foi apresentada da pior maneira ao associá-la à contabilidade dos títulos de Campeão que, segundo a Federação Portuguesa de Futebol, o Benfica terá alcançado. O passado e o presente são igualmente essenciais para moldar o nosso futuro, mas a obsessão prejudica o discernimento. Somos Sporting, somos a maior potência desportiva nacional, e não precisamos de cavalgar falsas querelas com a finalidade de desviar a atenção daquilo que verdadeiramente interessa.

 

A pretensão do Sporting carece do reconhecimento institucional. Por isso, seria preferível que, num primeiro momento, tivesse sensibilizado determinadas associações regionais para a possibilidade do enriquecimento do palmarés competitivo de alguns dos seus clubes filiados. Depois, teria de apresentar sólidos argumentos jurídico-desportivos que permitissem rever a decisão federativa de 1938 e o imaginário dos adeptos do futebol, demonstrando que a essência do Campeonato de Portugal teve continuidade no Campeonato Nacional da 1ª Divisão.

 

O Campeonato de Portugal, inspirado na Copa del Rey espanhola, foi criado em 1921 pela União Portuguesa de Futebol (1) e constituiu a primeira competição nacional realizada no nosso país. Até aí disputou-se a Taça Império, extinta em 1918, e os campeonatos distritais, que continuariam até 1947. O apuramento para a nova competição decorria dos referidos campeonatos distritais e estava organizada em eliminatórias. Com excepção da primeira edição, o vencedor era decidido numa final em campo neutro. O primeiro triunfo do Sporting na prova aconteceu numa final com a Académica disputada em Faro, em 1923, e a imprensa da época considerou-o “Campeão de Portugal”. O Campeonato de Portugal foi substituído em 1938 pela Taça de Portugal (2).

 

Olhanense, Marítimo e Carcavelinhos venceram o Campeonato de Portugal na década de 1920, mas não há memória de, federativamente, terem sido designados de campeões nacionais. Aliás, durante muito tempo falou-se em Portugal dos “Quatro Grandes”, precisamente os clubes que conquistaram o título principal em futebol. A eles juntou-se o Boavista muito recentemente. A revisão do conceito de Campeão Nacional permitiria uma nova visão sobre aqueles clubes populares e encarados como “pequenos” (a fusão do Carcavelinhos com o União de Lisboa deu origem ao Atlético Clube de Portugal).

 

A direcção do Sporting terá de provar que a essência desportiva do antigo Campeonato de Portugal foi assumida pela prova que passou a conceder o título de Campeão Nacional. Talvez resida aí a maior dificuldade, pois o Campeonato Experimental da Liga estabeleceu desde logo a diferença com o Campeonato de Portugal ao assumir-se como uma competição destinada apenas às melhores equipas, restrigindo a participação a quatro distritos (Lisboa, Porto, Setúbal e Coimbra). Cândido de Oliveira, Plácido de Sousa, Ribeiro dos Reis e outros, que propuseram o modelo da nova prova, consideravam que esta estabeleceria o “Campeão Nacional”. Ricardo Ornelas escreveu sobre isso no jornal Os Sports. No entanto, durante alguns anos a Federação Portuguesa Futebol utilizou apenas a expressão “Campeão da Liga”.

 

Seria interessante perceber a razão dessa designação pela Federação. Como seria interessante conhecer o que se escreveu na altura no jornal Sporting e o pensamento de personalidades leoninas como Joaquim Oliveira Duarte, Salazar Carreira e outros sobre esta reorganização desportiva. Curiosamente, nessa altura os leões preparavam-se para um período de hegemonia no futebol português, de 1940 a 1954.

 

Quando se verificou a reforma do futebol português em 1938 (3), o Campeonato Nacional da 1ª Divisão assumiu a filosofia desportiva e a estrutura competitiva do Campeonato da Liga (4) e a Taça de Portugal assumiu o essencial da filosofia do Campeonato de Portugal. O Campeonato destinava-se apenas às melhores equipas que se defrontavam numa prova com duas voltas e a Taça mantinha o carácter tendencialmente universal e as eliminatórias com uma final em campo neutro. Seria interessante conhecer as actas das reuniões da Federação Portuguesa de Futebol em que se tratou desta reforma do futebol (5).

 

O palmarés desportivo nacional do Sporting é notável. Conquistou, até à data, quatro campeonatos de Portugal, dezoito campeonatos nacionais, dezasseis taças de Portugal e oito supertaças. O palmarés revela que o passado é motivo de orgulho e que permite encarar o futuro com confiança. Agora, torna-se fundamental criar condições para que o Clube leonino reencontre o caminho do sucesso e da hegemonia no futebol português.

 

 

Notas:

 

1 - A União Portuguesa de Futebol, criada em 1914, foi a antecessora da Federação Portuguesa de Futebol, que adoptou a designação em 1926.

 

2 - O troféu original do Campeonato de Portugal, com 1,65m de altura e 15 quilos de peso, está sempre presente na final da Taça de Portugal, cuja taça é uma réplica. Numa placa metálica, no corpo principal, estão assinalados os cinco primeiros vencedores do Campeonato. Na base, em placas individuais, constam os restantes vencedores desde 1927 até à actualidade.

 

3 - Consta no Relatório e Contas de 1938-39 da Federação Portuguesa de Futebol: “Por virtude da reforma a que se procedeu no Estatuto e Regulamentos da Federação, os Campeonatos das Ligas e de Portugal passaram a designar-se, respectivamente, Campeonatos Nacionais e Taça de Portugal. O campeonato da 1ª Liga passou a ser Campeonato Nacional da 1ª Divisão e o Campeonato da 2ª Liga obteve a designação de Campeonato Nacional da 2ª Divisão.” 

 

4 - A taça que foi entregue ao vencedor da Liga Experimental, entre 1934 e 1938, é rigorosamente igual à que seria adoptada para o Campeonato Nacional da 1ª Divisão. O FC Porto considera que obteve 27 títulos de Campeão Nacional (1+26), não reivindicando os triunfos no Campeonato de Portugal.

 

5 - É praticamente inexistente a fundamentação jurídico-desportiva da decisão da Federação Portuguesa de Futebol de equiparar o Campeonato da Liga ao Campeonato da 1ª Divisão. De certa forma, prevaleceu a opinião de personalidades influentes como Ricardo Ornelas e Ribeiro dos Reis quanto ao que entendiam ser conveniente para a organização e a competitividade do futebol português. A obra de Ricardo Ornelas, “Números e Nomes do Futebol Português” (1949), é bem elucidativa dessa convicção.

 

publicado às 12:01

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2 comentários

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De Sérgio Palhas a 17.06.2016 às 12:55

Sinceramente não me importa quantos títulos o SCP terá ganho ou não, o meu sportinguismo não depende de títulos assim fosse o SCP não teria a massa adepta que tem.

Dito isto acho que importa isso sim quantos irá ganhar.
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De Leão Zargo a 17.06.2016 às 13:05

Sérgio Palhas
Estamos de acordo e foi essa a opinião que pretendi transmitir no último parágrafo.
Mas, considerando as palavras de ontem de BdC e o artigo no jornal do Clube, receio que esteja lançada mais uma campanha do género "estamos sós contra o Mundo inteiro"!
Na realidade, o essencial é dotar a equipa das melhores condições competitivas.

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