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O grande dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues garantiu, um dia, que o Fla-Flu começou “40 minutos antes do Nada”, num tempo tão antigo que já desaparecera da memória do comum dos mortais e que só os entendidos nas coisas do futebol teriam conhecimento disso. Acredito nele, pois claro, mas acrescento que à mesma hora também teve início o derby original entre o Sporting e o Benfica, ao que parece no Sítio das Mouras ali para os lados do Lumiar.

 

Pelos golos marcados em derbys muitos jogadores leoninos ocupam um lugar de destaque no imaginário dos sportinguistas. Talvez por ser o primeiro de que me recordo com absoluta nitidez ocorre-me quase sempre aquela tarde prodigiosa de João Lourenço na Luz em 17 de Outubro de 1965, quando marcou todos os golos da vitória por 4-2 dos leões sobre as águias. Hoje faz precisamente meio século e nesse dia infernizou Melo que substituiu o lesionado Costa Pereira. Os sportinguistas, consolados até dizer basta, chamaram-lhe a “tarde de S. Lourenço”.

 

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Lourenço, contratado à Académica, ia na segunda época no Sporting e jogava a avançado ao lado de Figueiredo, o Altafini de Cernache. Foi um jogador deveras tecnicista e elegante, oportuno e inteligente na movimentação na área, marcando golos espectaculares, nomeadamente em chapéu. Nesse jogo na Luz marcou por duas vezes em chapéu com todas as medidas bem tiradas. O Altafini de Cernache era muito prático e voluntarioso, talvez mais eficaz. A verdade é que nessa época de 1965-66 o Sporting foi campeão e Lourenço teve um papel importante com os 19 golos marcados nos 18 jogos do Campeonato Nacional em que participou. A revista Ídolos do Desporto (nº 1, 4ª série) chamou-lhe “O ‘Homem-Golo’ do Sporting”.

 

Aqueles anos da década de 1960 parecem um tanto distantes, mas recordo que o meu coração volúvel nunca se decidiu entre ele e o Figueiredo. Talvez dependesse dos golos que cada um marcava, quem sabe. Por isso, e pela tarde chuvosa em que o Lourenço lançou um póquer de ases sobre o relvado da Luz, saio para a rua com ironia no olhar enquanto vou entoando uma canção do Sérgio Godinho já muito batida: “Andas a partir corações como quem parte um baralho de cartas…”

 

 

P.S.: Para além de Lourenço, mais dois jogadores leoninos conseguiram o póquer frente aos benfiquistas: Peyroteo (1-4 em 25 de Abril de 1948, no Campo Grande, que garantiu o célebre “Campeonato do Pirolito”) e Manuel Fernandes no inesquecível 7-1 (14 de Dezembro de 1986, em Alvalade).

 

 

Recordar é viver...

 

publicado às 11:43

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6 comentários

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De LEÃO DA GUIA a 17.10.2015 às 12:59

A propósito das proezas de João Lourenço, a recente evocação do grande Fernando Peyroteo – o maior goleador de sempre do futebol português e um dos maiores do futebol mundial – num excelente texto também de Leão Zargo, fez perpassar pela minha memória o filme de momentos fabulosos e gratificantes proporcionados por um atleta, que sendo uma autêntica força da natureza, era, igualmente, uma personalidade de excepção, homem de exemplares integridade e lealdade, um verdadeiro gentleman dentro e fora dos terrenos de jogo – detectando-se nele algo de aristocracia, derivado talvez do facto de ser sobrinho-bisneto do Conde de Torres Novas, que foi um antigo Governador da Índia Portuguesa.

Eu era apenas um miúdo quando, levado por amigos sportinguistas dos meus pais ao Estádio do Lumiar, me deslumbrava perante aquela fenomenal “máquina” de fabricar golos, comungando do êxtase da multidão que gritava “golo!” ainda a bola não tinha sido disparada dos seus pés…

Relembro-me que, tendo eu 14 anos, me atrevi a escrever uma carta pessoal a Fernando Peyroteo, endereçada à sede do Sporting, pedindo-lhe um bilhete para um jogo entre a selecção militar portuguesa (que ele integrava) e uma selecção da britânica Royal Air Force, realizado em 17 de Fevereiro de 1946. Dois dias antes do confronto, ao regressar do colégio, a minha mãe, de ar severo, interpelou-me: “Ouve lá, mandaste alguma carta ao Senhor Peyroteo? É que ele telefonou para cá, para tu estares no domingo, à uma hora da tarde, no Quartel da Graça (de onde o autocarro da selecção militar partiria para o Estádio Nacional)”. Impressionada pela minha explosão de contentamento, ela acedeu a interceder pela autorização junto do meu pai e ambos, perdoando a minha ousadia, acabariam por me levar à Graça.

Acolhendo-me calorosamente, Peyroteo foi de uma afabilidade extrema. Chegados ao mítico Estádio – onde, em 1944, ele marcara o histórico primeiro golo da inauguração – pediu a um membro da comitiva para me conduzir até ao meu lugar. E após o jogo (que terminou 1-1, com mais um golo da sua autoria) concedeu-me o imenso prazer de me sentar a seu lado na viagem de retorno ao quartel, durante a qual mantivemos uma animada conversa.

Até ao final da sua prodigiosa carreira futebolística, Fernando Peyroteo – o melhor (o verdadeiro) avançado-centro que teve até hoje o futebol nacional – continuou a oferecer incontáveis alegrias aos sportinguistas e numerosos títulos ao Sporting – que, tal como no caso de João Azevedo (o maior guarda-redes de sempre e ainda recordista do número de títulos e troféus conquistados pelo nosso Clube) ainda não prestou à sua memória a consagração que inteiramente merece e lhe deve.

Estive presente na inauguração da loja de artigos desportivos que Peyroteo abriu na Rua Nova do Almada, em Lisboa, e reencontrei-o em Luanda, quando de uma missão jornalística a Angola, em 1961, tinha ele 43 anos – tendo-me chocado profundamente a sua expressão abatida e o seu sentir amargurado e deprimido, não apenas consequente do seu débil estado de saúde, mas também pela ignóbil ingratidão do esquecimento de que se considerava (e com toda a razão) injusta vítima. Faleceria em Novembro de 1978, com apenas 60 anos.
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De sloct a 17.10.2015 às 22:28

Extraordinário testemunho!
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De LEÃO DA GUIA a 18.10.2015 às 13:34

Muitíssimo obrigado, caros Leão Zargo, juliuscoelho e sloct, pelas vossas generosas palavras.

Recordar aqueles que fizeram o Sporting grande e especial é uma missão de consciência contra o ostracismo, a ignorância e a ingratidão que, deploravelmente, tem vindo a grassar no nosso Clube.

Estamos a evocar tempos em que se construíam fortes ligações anímicas com quem nos representava nobre e dignamente no terreno das competições, conquistando o nosso apreço pelo seu exemplo moral, ético e desportivo – algo absolutamente inconcebível nestes tempos actuais do futebol industrial e mercenário, dos jogadores saltimbancos, em que o mais ténue sentimento de afecto espiritual por qualquer dos nossos representantes corre sério risco de resultar numa chocante desilusão…

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De HY a 18.10.2015 às 19:06

Nunca esquecerei a elegância do Lourenço, sobretudo os seus golos de cabeça, um simples desvio e lá estava. Ouvi o 4-2 pela rádio, pois ainda não tinha autonomia para is sozinho à Luz e o meu pai gostava mais de Alvalade(só lá pôs os pés muitos anos depois). Mas o elegante Lourenço foi o meu primeiro ídolo vivo do Sporting. Que dia. Lembro-me também de um jogo contra o Valência, 4-0, em que ele marcou 3 se não me engano. Fazia uma excelente dupla com o Figueiredo. Infelizmente, como era do Sporting, nunca teve a glória na selecção que merecia (há uma entrevista muito interessante em que ele conta como o seleccionador Manuel da Luz Afonso o impediu de jogar com a camisola das quinas aí lado do Eusébio.

Também o dia dos 3-0 do Manoel ficará para sempre gravado, podíamos quase ter feito nesse dia o que fizémos dez anos depois, mas a sorte protegeu os lampiões de uma tarosa maior. Descansa em paz grande leão.
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De Leão Zargo a 18.10.2015 às 19:40

Hy,
o Manuel da Luz Afonso foi muito injusto com o Lourenço e o Figueiredo quando do Mundial de 1966. O Figueiredo terminou o campeonato em grande forma e marcou no Campeonato Nacional o mesmo número de golos do Eusébio.
O Lourenço teve uma época de 65-66 um pouco irregular, falhou jogos entre Dezembro e Fevereiro, mas terminou em muito bom plano. Voltaria fazer grandes épocas em 1967-68 e 68-69, mas não foi internacional A. Injustamente.
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De HY a 18.10.2015 às 20:13

Já agora, o mesmo se passou com o Manel. Houve 4 grandes avançados portugueses no seu tempo: ele, o Jordão, o Gomes e o Nené. Comparem as internacionalizações. Lembrem-se de que não o levaram ao México (ainda bem). Lembrem-se quando iam buscar o moinhos à ultima da hora e para substituir alguém que se lesionara e acabava ele por jogar e o Manel ficar no banco. Foi sempre assim, desde os anos 60...até com o Moutinho, que o prof Pardal Queirós não o tenha levado à África do Sul só se pode explicar por incompetência grosseira, anti-sportinguismo primário ou compadrio...

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