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Andraž Šporar

Leão Zargo, em 13.04.20

Sporar.jpg

“Se é leão, é um homem de bem.” Anastácio da Silva/António Silva em O Leão da Estrela, de Arthur Duarte (1947). 

publicado às 13:00

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15 comentários

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De ChakraIndigo a 13.04.2020 às 18:37

Mais que ser de Arthur Duarte, é de Félix Bermudes, um dos guionistas do filme, para além de ter sido por duas ocasiões presidente do Benfica.

Nesses tempos, para além da rivalidade imperava o civismo e o desportivismo.
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De Leão Zargo a 13.04.2020 às 21:20

É verdade, ChakraIndigo, Félix Bermudes é um dos guionistas do filme, e é o autor da letra do hino oficial do Benfica. Ele e Alves Coelho (música) compuseram em 1929 um hino intimista, com recurso à simbologia e à história benfiquista, no qual atletas e adeptos se deveriam inspirar na devoção e no esforço pelo clube.

Ao contrário do que muitos pensarão, “Ser Benfiquista” cantado por Luís Piçarra não é o hino do clube. Mas, isto é outra história, a verdade é que o hino nunca é ouvido na Luz, talvez por causa da harmonização coral mais apropriada para um sarau num recinto fechado do que para um Estádio de futebol.
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De Robbie Fowler a 13.04.2020 às 21:56

Existe uma razão histórica para o hino oficial do Benfica, “Avante, Avante P’lo Benfica”, ter caído em desuso, só que isso não entronca em certa efabulação da História.
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De Leão Zargo a 13.04.2020 às 23:43

Robbie Fowler

Quando escreve efabulação creio que se refere ao facto de frequente ouvir-se dizer que a Censura do Estado Novo terá proibido o hino do Benfica, nomeadamente por causa do título “Avante, avante p´lo Benfica” e da sua associação com o jornal “Avante!”, o órgão oficial do Partido Comunista Português.

Não me parece que tenha havido um problema com a Censura, pois a expressão “avante” surge com frequência na primeira metade do século XX. Por exemplo, o italiano Marinnetti utilizou-a (“Avanti!”) no seu manifesto futurista. O hino da Legião Portuguesa terminava proclamando “Avante! Por Salazar! Salazar!”. Por outro lado, o jornal “Avante!” só começou a ser publicado em 1931, dois anos depois da criação do Hino benfiquista.

O hino caiu em desuso por causa da sua sonoridade que não é própria para um Estádio de futebol, é a minha opinião.
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De Robbie Fowler a 14.04.2020 às 00:38

É frequente ouvir-se dizer, porque é uma realidade. O hino foi realmente composto 2 anos antes de surgir o Jornal Avante, e o “aconselhamento” para que o Hino não fosse tocado nas cerimónias, obviamente que foi posterior, com maior incidência após o início da II Guerra Mundial, pois apesar de a sua letra nada ter a ver com a ideologia comunista, havia um aproveitamento pela parte destes, cantando-o de punho cerrado, por não poderem entoar a Internacional, livremente. A sonoridade será a razão para ele não ter sido recuperado mais tarde, pois entretanto surgiu o Ser Benfiquista, na campanha para angariação de fundos para a construção do Estádio da Luz, e que tem uma qualidade musical muito superior. Mas nos anos 30 ou 40, o público não cantava hinos nos estádios para apoiar as equipas.
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De Leão Zargo a 14.04.2020 às 09:55

Robbie Fowler

Se houve aconselhamento foi através de “conversa de boca” pois não existe algum documento da Censura ou de outro organismo do regime político que sustente esse facto. Não existe nem no Arquivo da PIDE ou do Ministério do Interior na Torre do Tombo nem nos arquivos do Benfica.

Já ouvi falar de uma directiva governamental datada de 1942, mas na verdade nunca foi encontrada. Historiadores como Ricardo Serrado e Alberto Miguéns consideram que não existe prova documental desse acto censório.
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De Robbie Fowler a 14.04.2020 às 10:14

A "censura" não era exercida apenas por decretos ou normas ou sequer por escrito. Alberto Miguéns, que é um Historiador sério, por acaso refere a mesma coisa que eu disse :



" A "substituição" do Hino pelo "Ser Benfiquista" deve-se a dois motivos, um político e outro musical.

Como e porque surgiu o Hino em 1929
Para comemorar o 25.º aniversário do SLB, a letra do Hino do Benfica foi escrita por Félix Bermudes, antigo futebolista, dirigente e atleta ecléctico, figura histórica de prestígio. Dramaturgo conceituado solicitou ao maestro Alves Coelho, que colaborava com o autor nas operetas e peças musicais escritas a solo ou em parceria por Félix Bermudes, que musicasse a letra, no sentido de fazer uma melodia "intimista" e simples para os jogadores entoarem antes dos jogos ou em momentos de maior concentração e inspiração. Durante muitos anos, praticamente até aos anos 50 e o advento do semi-profissionalismo e profissionalismo, os futebolistas mais novos aprendiam (decoravam) com os mais antigos a letra e melodia que entoavam, SEMPRE, antes dos jogos, com a mão direita sobre o emblema do Clube. Ao intervalo, quando algum jogador sentia que a exibição não estava a decorrer de feição, também era possível que se recolhesse num canto do balneário para rezar ou soletrar em voz baixa o Hino, para se inspirar e procurar inverter a "má sorte". Por vezes, quando o treinador ou um dirigente, não gostavam da atitude/ exibição durante a 1.ª parte "exigiam" que o "onze" voltasse a entoar o Hino como se o jogo estivesse no início. Mas, também era entoado em festas ou dias solenes na história do Clube.

Política
Nos anos 30/40 o Benfica foi "aconselhado" - eufemismo para proibido/ é melhor não tentarem - pelas autoridades do Estado Novo a evitar exibir o Hino em público por ter a palavra Avante, que era o jornal do Partido Comunista Português (PCP) desde 15 de Fevereiro de 1931. A canção "Avante Camarada" hino do PCP só surgiu em 1967, com letra e musica do cantautor Luís Cília.
O Hino do Benfica foi sendo cada vez menos cantado - pelos jogadores e em festas públicas - acabando por ir caindo no esquecimento.

Musicalidade
Melodia destinada, essencialmente, a ter significado para quem defendia os valores desportivos do Clube, com a letra a remeter para o respeito pelo passado e galhardia no presente, honrando os símbolos do SLB, não se pode dizer - é o que me dizem os "entendidos" que eu tenho dificuldade em distinguir o som de um piano do barulho de um martelo - que o Hino tivesse grande brilhantismo musical.

"Substituição"
Quando surgiu, no início dos anos 50, uma melodia vocacionada - letra e música - para a exibição pública e interpretada pela voz brilhante de Luís Piçarra, o "Ser Benfiquista" foi substituindo com facilidade um Hino, que pelos motivos atrás enunciados, estava cada vez mais "ausente"." - Alberto Miguéns
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De Leão Zargo a 14.04.2020 às 12:28

Robbie Fowler

De entre os benfiquistas que escrevem sobre a história do seu clube, provavelmente Alberto Miguéns é o que mais admiro e leio com maior interesse.
Dito isto, sublinho o seguinte:

- No Estado Novo a censura exercia-se através de mecanismos próprios devidamente formalizados e registados documentalmente. São milhares de ofícios e outros documentos oficiais que estão arquivados. Os jornais, cartazes, etc. tinham a menção explícita de terem sido visados pela censura. Se algum dirigente do Benfica se deixou intimidar por causa de uma “conversa de boca” é uma outra questão.

- A palavra “avante” era de utilização frequente na primeira metade do século XX, em manifestos artísticos, canções épicas ou manifestações políticas. No plano político, era utilizada indiferentemente por todos os grupos partidários por ser uma expressão dinâmica, apologética e enérgica. Os fascistas italianos utilizaram-na e o hino da Legião Portuguesa terminava “Avante! Por Salazar! Salazar!”. Pelas mesmas razões terá sido adoptada para nome do jornal do PCP.

Conclusão: não me parece que a tese política tenha fundamento, mas não faço cavalo de batalha dessa questão. Por agora, não volto a debater esta problemática.

Mas, acho que se trata de um dos mais belos hinos que foram compostos para um clube desportivo em Portugal, fazendo recordar as “Canções Heróicas” de Fernando Lopes Graça dos anos 40 e 50 do século passado.
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De ChakraIndigo a 14.04.2020 às 17:40

Caro Leão Zargo,

pese embora a força do seu argumento, eu inclino-me para a tese defendida por vários benfiquistas, da censura ao hino oficial do clube, embora o contrário possa ser também verdade, por não haver prova documental que suporte aquela tese.

O hino é na verdade muito bonito na sua letra, quanto à musica ela suscita opiniões díspares. O Maestro António Vitorino de Almeida, por exemplo, só faltou chamar-lhe de cacafonia
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De ChakraIndigo a 14.04.2020 às 17:42

Acho que a efabulação de que fala o Robbie Fowler, é a frequente associação do nome do Benfica como "clube do regime".
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De Leão Zargo a 14.04.2020 às 22:13

ChakraIndigo

Percebo agora a utilização da palavra efabulação. Na verdade, no caso português, não houve o chamado clube do regime. Cada clube, conforme as circunstâncias e as ligações no aparelho do Estado (ministérios, organismos corporativos, câmaras municipais, etc.), procuravam obter as vantagens que lhes interessava. Isso foi evidente, por exemplo, no caso da construção dos estádios de futebol nos anos 50.
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De ChakraIndigo a 14.04.2020 às 17:32

Caro Leão Zargo,
obrigado pelo seu importante contributo na divulgação de conhecimento.

já me fez meditar bastante acerca de vários temas que aqui deixa em forma de letra, especialmente aqueles que entrecruzam a história da mais antiga rivalidade desportiva em Portugal.

Com efeito, Félix Bermudes tem uma importância superlativa na história do Benfica, desde logo, para além das que menciona, por ter sido o proponente do nome "Sport Lisboa e Benfica", para o clube que agora conhecemos popularmente por "Benfica".
Essa proposta consta em acta, numa reunião em que Bermudes era, juntamente com Cosme Damião, representante do Sport Lisboa.
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De Leão Zargo a 14.04.2020 às 22:20

Caro ChakraIndigo

Fico muito satisfeito. Sendo um blogue de sportinguistas para sportinguistas, é um prazer ser lido e apreciado por adeptos de outro clube, nomeadamente do rival desde sempre. Quando se comunica num espaço como este é sempre com a finalidade de sermos lidos e apreciados, discordando ou não do que está escrito.

Saudações desportivas
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De Zacarias Castanho a 13.04.2020 às 21:36

Esta é uma questão que nos leva à distinção entre o bem e o mal.
Homem de bem = Sportinguista.
Outros, os Vale e Azevedos, os Vieiras, os que querem ganhar a qualquer custo são os benfiquistas (alguns portistas, também).
Civismo e desportivismo?
Não me parece, Félix Bermudes, apesar de benfiquista, sabia onde estavam os homens de bem, onde estavam os virtuosos.
Seria, mal comparado, como um bêbado, "sei que o vinho me faz mal mas sabe tão bem".
Um benfiquista diria (diz) "sei que vencemos com batota mas sabe tão bem vencer".
Félix Bermudes seria um homem com princípios, sabia que o "bem" estava no lado do Sporting; mas tinha defeitos ( como todos os seres humanos) apesar de tudo não conseguia deixar de se benfiquista, como o outro do exemplo anterior também não deixa de emborcar a vinhaça.
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De ChakraIndigo a 14.04.2020 às 17:25

Obrigado pela sua dissertação, gosto muito de ler sobre realidades alternativas e mundos paralelos.

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