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As claques podem fazer falta a muita gente que anda no futebol – desde logo, aos líderes das claques, aos seus funcionários e membros, aos presidentes dos clubes que se servem deste lumpemproletariado da bola para intimidar adversários internos e pôr os jogadores na linha, uma espécie de guarda pretoriana de baixo custo, cães de guarda que os próprios presidentes seguram frouxamente pela trela, deixando no ar a ameaça implícita de que se podem soltar a qualquer momento – mas as claques não fazem falta nenhuma ao futebol.

Quando alguém ousa criticar as claques – uma crítica a sério e não as picardias clubísticas disfarçadas de surtos de ética – aparece sempre um lírico, um idiota inútil, a louvar a contribuição histórica das claques para o desenvolvimento da modalidade, as coreografias asiáticas que levam tanta gente aos estádios, o apoio inexcedível em comparação com o espírito soturno dos adeptos que desanimam desde o apito inicial. Assim à distância e com esta descrição ninguém conseguiria distinguir claques de futebol de grupos de escuteiros amantes de trabalhos manuais.

Quando se vê de perto, o caso muda de figura. Porém, há quem prefira fechar os olhos.

Essa tem sido a atitude da direção do Benfica em relação às suas claques, e em particular à sua claque principal, os No Name Boys, uma confraria de bons rapazes sem existência oficial e que o clube escolheu não ver. Agora paga o preço dessa cegueira voluntária. O relativo silêncio que se seguiu ao apedrejamento do autocarro do clube – imagine-se a gritaria se tivessem sido adeptos de outro clube a cometer o ato, as reuniões que já teriam sido pedidas, os comunicados pungentes, os apelos à intervenção da ONU – demonstra até que ponto o clube está refém destes grupos recheados de indivíduos perigosos, violentos, desocupados e que canalizam para a pertença a estas seitas para-futebolísticas todas as suas frágeis noções de identidade e de valor individual e também todas as suas frustrações e raivas acumuladas.

A legalização das claques – ou “grupos organizados de adeptos”, em juridiquês assético – tem o único mérito de reconhecer a sua existência, que é um primeiro passo para acabar com elas. No fim de contas, só se pode acabar com aquilo que existe. O grande problema da atitude da direção do Benfica em relação às claques é o da auto-manietação.

Julgavam-se muito espertos, com aqueles truques do “claques? Não faço ideia do que está a falar”, e agora, quando elementos das claques apedrejam o autocarro da equipa e vandalizam as casas dos jogadores, são obrigados a ficar calados sob pena de terem de reconhecer aquilo que estrategicamente sempre negaram.

Diga-se que este tipo de cegueira selectiva não se limita às claques.

O caso de Paulo Gonçalves, o ex-assessor jurídico da SAD amigavelmente afastado do núcleo dos negócios, mas não da sua órbita, é outro exemplo da crença desta direção no poder da palavra ou das aparências. As claques não existem, o clube não tem nada que ver com o senhor Paulo Gonçalves, mesmo que este, apenas por mera casualidade, seja agora intermediário de negócios em que o clube está envolvido. E, pronto, se fingirmos que a realidade não existe, viveremos candidamente no melhor dos mundos.

Uma certa dose de cinismo é aceitável em todas as áreas da vida. Aquilo a que chamaria de “blindagem técnica e jurídica” também faz parte da vida de muitas empresas. Mas há limites para a esperteza. Dito de outra forma, aceito que alguém, dentro do Benfica, tenha achado muitíssimo inteligente a estratégia de não reconhecer as claques, mas a partir do momento em que o erro fica exposto, a única solução é a de arrepiar caminho e não se enredar ainda mais em novelos jurídicos e auto-justificativos. Ou Luís Filipe Vieira assume de uma vez que tem um problema em mãos ou o problema rebenta-lhe nas mãos, quer ele o reconheça, quer não.

A pedrada no autocarro do Benfica foi uma pedrada no charco, no pântano em que se tem tornado o futebol português. Porém, não foi uma pedrada para agitar as águas. Pelo contrário, foi como se a pedra tivesse sido expelida pelo próprio charco. É um sintoma – um de muitos – que devia forçar os responsáveis a procurar uma cura. Já se sabe que, no Futebol Clube do Porto, apesar de um ou outro desaguisado, a relação de Pinto da Costa com os Super Dragões só é ultrapassado pela de Deus Todo-Poderoso com o seu exército de anjos.

No Sporting, por razões bem conhecidas, Frederico Varandas está numa duradoura guerra de baixa intensidade com a principal claque do clube.

No Benfica, a bola está do lado do presidente. Pode aproveitar o momento para pôr a claque na ordem ou pode, uma vez mais, fechar os olhos. Se optar pela primeira, será líder. Se jogar como até aqui, será cúmplice.

Artigo da autoria de Bruno Vieira Amaral (assumido benfiquista), em Tribuna Expresso.

publicado às 04:33

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