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Catar: Mundial, Trafulhice e Morte

Ou a derrota do futebol pela corrupção

Rui Gomes, em 17.11.22

A escassos dias do início do Campeonato do Mundo de Futebol no Catar (a famosa grande potência futebolística do planeta…) acentua-se o sentimento geral de que – apreendido e explorado por uma extensa rede de corruptores – o popular e excitante jogo se afundou na mais vil das vergonhas, com a única finalidade de servir e promover um país onde, como é sabido, os direitos humanos fundamentais não são integralmente respeitados.

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Os artistas da bola vão jogar em relvados de estádios bem espectaculares, cuja construção custou a vida de vários milhares de trabalhadores emigrantes barbaramente escravizados. Segundo denunciado pela imprensa internacional, mais de 6.500 homens recrutados na Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka morreram nas obras de construção dos estádios e outras infra-estruturas relacionadas com o Mundial, sem que as suas famílias recebessem qualquer tipo de indemnização, com o argumento de as fatalidades terem sido, oficial (e manhosamente) atribuídas a ”causas naturais"…

Como é por demais evidente, tão chocante tragédia humana deriva da vasta corrupção mundialmente organizada, que, envolvendo pessoalmente os então presidentes da FIFA e da UEFA, possibilitou a atribuição ao Catar do Campeonato Mundial de 2022. Segundo o “New York Times”, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos terá concluído, após anos de pesquisa, que – a exemplo da Rússia, em 2018, usando a sua poderosa empresa estatal Gazprom, cujo presidente era simultaneamente vice-presidente da FIFA – também o Catar subornara os principais dirigentes do organismo que assume a  superintendência do futebol mundial a fim de garantir a vitória na votação para acolher o Campeonato de 2022.

mortos_copa_qatar_2022.jpg

As grandes suspeitas de corrupção remontam, porém, a 2015, quando sete dirigentes da FIFA foram detidos na sequência de uma investigação que foi então iniciada pelo FBI, que conduziu seguidamente à queda de todos os 22 mais altos cargos do organismo máximo do futebol mundial, acusados de ”lavagem de dinheiro, subornos e más práticas em geral” e que culminou posteriormente na demissão do seu presidente, o suíço Sepp Blatter, que apoiou empenhadamente a candidatura do Catar – mas que agora, passados doze anos, considera publicamente “um erro” a realização do Campeonato do Mundo naquele país…

Também apanhado pelo turbilhão, o presidente da UEFA, Michel Platini, antigo ídolo do futebol francês, foi posteriormente suspenso por suspeita de negócios obscuros com o seu amigo Blatter e de intervenção directa na compra do Paris Saint-Germain pelo Governo do Catar, considerada como uma justa compensação pelo seu papel activo na atribuição do Mundial de 2022.

É, pois, neste clima alta e grosseiramente degradante, manchado de trafulhice, tragédia e desumanidade, sem mesmo nada de comum com desporto, ofendendo irremediavelmente o futebol que é tão amado por multidões de todo o universo, que os jogadores dos países qualificados se irão confrontar dentro de dias nos estádios do Catar.

Quanto pesará a sua consciência?

Texto da autoria do nosso colaborador Leão da Guia

publicado às 03:19

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30 comentários

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De João F. a 17.11.2022 às 09:18

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De Diogo U. a 17.11.2022 às 09:26

Muito bom texto.
É de facto muito estranho nao haver sequer um jogador que se recuse a ir a este mundial. Será que nenhum tem consciência? Será que não sabem para onde vão e o que se tem passado?
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De Anonimus a 17.11.2022 às 10:22

Recusavam-se a ir ao mundial, recusavam-se a assinar pelo psg, recusavam-se a jogar em ligas que vendem direitos à China ou às Arábias...
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De LG a 17.11.2022 às 09:40

Sóp para se ter uma dimensão do que está em causa, cito o início de uma notícia do Público de hoje:
"Seis mil milhões de dólares em ganhos estimados a entrar para os cofres da FIFA</>, dos quais uma fortuna de muitos milhões vinda directamente de patrocínios de marcas imbatíveis como a Coca-Cola ou a Adidas; um conjunto de grandes obras a rondar os 200 mil milhões de dólares em contratos entregues a 18 gigantes do sector da construção
A isto podemos somar as pressões (em parte referidas no texto) sobre Platini, devido aos investimentos que coincidentemente o Estado do Qatar fez em França após lhe ter sido atribuído o Mundial (compra do PSG, criação de canal dsportivo, compra de 50 Airbus para a Qatar Airways, ...)

Como sempre, é o dinheiro que faz girar o mundo, e as conversas dos jogadores e de vários dirigentes do futebol não é mais do que isso: conversa.
É tudo uma grande hipocrisia, se de facto quissesem fazer alguma coisa "só" teriam de boicotar o Mundial. Mas para isso ninguém tem coragem, claro, porque o espetáculo deve sempre continuar

"É, pois, neste clima alta e grosseiramente degradante, manchado de trafulhice, tragédia e desumanidade, sem mesmo nada de comum com desporto, ofendendo irremediavelmente o futebol"
Aqui não concordo, o futebol também é muito isto.
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De Rui Gomes a 17.11.2022 às 21:51

Para que é a letra bold?
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De Anonimus a 17.11.2022 às 10:25

Quem pode realmente marcar uma posição são os adeptos. Ignorem o Mundial. É fácil. Não vejam na TV (é de lá que vêm as massas), não leiam na comunicação social, não escrevam nas redes sociais.
Se o mundial for um fracasso, tenho 99,9% de certeza que um Qatar não se repete.
Claro que é mais fácil sentar no sofá a ver a bola enquanto se cospe impropérios sobre os jogadores que não se recusaram a ir ou o tipo que ganhou uns dinheiros para ir cantar na cerimónia de abertura.
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De Elitista a 17.11.2022 às 10:59

Assustador...
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De Marcos Cruz a 17.11.2022 às 11:11

Não vou ver este Mundial.
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De Luísa de Sousa a 17.11.2022 às 11:45


Parabéns Leão da Guia por nos trazer esta triste realidade

Beijinhos, Rui
Feliz Dia
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De Julius Coelho a 17.11.2022 às 11:57

Já comentei aqui que sigo este assunto faz tempo, tento saber de todos os pormenores que vêm a público, inclusive ler as declarações de vários trabalhadores que lá estiveram e que contam como tudo se viveu no interior das construções, como eram tratados e como os engaram com promessas de valores que nunca receberam, pagando-lhes bem menos do acordado, foram enganados mas sobreviveram, outros tiveram um fim bem mais trágico, perderam a vida e nada de nada foi dado às suas famílias, tanta gente que morreu afinal de "causas naturais", é assim que as pessoas são tratadas como animais ainda nos dias de hoje.

As construções ergueram-se ao toque do chicote e do tratamento escravizado, os estádios novos e imponentes do Qatar são aos nossos olhos, as novas Pirâmides agora do século XXI, no seu interior jazem milhares de humanos mortos e todo aquele cimento foi mesclado com sangue e carne humana.

Recuso-me a ver os jogos, seria como aceitar saciar-me nessa orgia de ações de tamanha crueldade e tão desumanas, iria causar-me danos, pesar-me fortemente na consciência e tudo isto porquê e para quê? Para um pequeno grupo de pendejos oportunistas encherem os bolsos de dinheiro.

Não contem comigo. Cada um decide o que pretende fazer.
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De RCL a 17.11.2022 às 14:49

Julius
Boa Tarde
O jogo de hoje em Alalade já tem lotação esgotada.
Num joirnal desportivo, li :" finalmente o Estádio de José Alvalade vai encher!".
Ainda temos que levar essa; não há dúvidas que os adeptos do Sporting são pouco militantes, muitos só aparecem para comemorar.
Vou ver o jogo de hoje , os do Catar, talvez.. Não perco a seleção do Brasil, para comentar com os meus primos brasileiros por WhatsApp.
Vou torcer pelo Brasi, o que faço desde 1958. Depois de Portugal, o Brasil é o meu candidato.
SL
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De Rumo Certo - Ventos Favoráveis a 17.11.2022 às 12:01

Caro Leão da Guia,
Parabenizo o conteúdo do texto e a coragem de se juntar, como mais uma voz, a denunciar esta soez atribuição de um evento desportivo e o repugnante miserabilismo conexo, ou seja, o cúmulo da indecência moral.
A construção das infraestruturas, custou a vida de vários milhares de trabalhadores emigrantes, explorados e barbaramente escravizados. Foram mais de 6.500 seres humanos, recrutados em países asiáticos, que acabaram "assassinados", por total violação das Leis da O.T.I. e ausência de elementares regras de segurança, higiene e condições de trabalho, nas obras de construção relacionadas com este "Mundial da Vergonha".
Como muito bem diz, nem sequer as suas famílias receberam qualquer tipo de indemnização, com o argumento de as fatalidades terem sido, oficial (e manhosamente) atribuídas a ”causas naturais"…
Até parece o Conselho de Disciplina da FPF, que passa a vida a praticar extorsão ao Sporting CP, por via de injustificável punição, por tudo e mais alguma coisa.
Ainda existem instâncias superlativas, como o TAD, que de forma sistemática e recorrente, têm vindo a reposicionar o equilíbrio, a sensatez, a imparcialidade, o direito e a justiça.
Chegámos ao ponto de despudoradamente, haver árbitros de futebol (abusivamente apelidados «juízes"), escreverem inverdades e mentiras em relatórios, que depois servem de lastro para persecutoriamente, penalizar e castigar o Sporting CP.
Isto é intolerável e inadmissível num Estado de Direito e regime democrático, são práticas que configuram crime, atentatório dos direitos, liberdades, garantias, do bom nome e imagem de qualquer instituição, mais parecendo uma organização kafkiana e mafiosa, que usa e abusa, de poderes ilegítimos e sem qualquer cobertura no ordenamento jurídico em Portugal.
Uma verdadeira aberração jurídica, este Conselho de Disciplina, que a tutela continua a permitir, admitir e por omissão a proteger.
Voltando ao «Mundial da Vergonha», repugna constatar que organizações políticas, tais como a ONU e a UE, estejam manietadas de tal forma, caladas e mudas, que não se dignam dedicar uma única palavrinha que seja a condenar, sancionar e boicotar esta «circense» realização, manchada de sofrimento, sangue e morte.
Quando se quer, elaboram-se pacotes e mais pacotes, a sancionar empresas e economias de países, ao confisco de bens pertencentes a estados soberanos e a pessoas a título individual.
Mas neste saco em particular, nada, nadinha mesmo.
Bastava a UE adotar uma simples medida dissuasora, dando indicações aos governos que a integram - isto sim, seria uma medida de humanização, solidariedade e coesão, tida para com quem morre e é vítima de Injustiça Política, Laboral, Social, Económica e Familiar.
Ao que chegou a (des)Humanidade, em termos de hipocrisia e cinismo.
Tudo em submissão ao vil metal, pisando e esmagando valores e princípios.
Fraterno Abraço Leonino.
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De Leão do Norte a 17.11.2022 às 12:53

Esta é, infelizmente, uma triste realidade que diariamente se multiplica por inúmeras actividades. São os "valores" que norteiam muitas instituições, empresas, sociedades...
É um "rolo compressor" que, à boleia da globalização, cria necessidades e condicionamentos, oferecendo benefícios, directos ou indirectos, para muitos. Mesmo quem justamente se indigna e onde também me tenho de incluir.

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