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Podemos tentar ensinar alguém a ser Ronaldo, mas nada em Messi é "conhecimento" transmissível ao próximo.

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O tédio do isolamento social descambou em tiro ao Ronaldo. Porque está na piscina, porque ostentou (e ostentou?) as ajudas aos hospitais portugueses e porque há um fulano chamado Hristo Stoichkov a quem chegou a vez de se meter no drama existencial entre Cristiano e Messi. Defender Ronaldo, que é crescidinho em todos os sentidos, soa-me sempre a patrioteirismo, mas não me importo de entrar nesse barco para defender, antes dele, a racionalidade.

Para um ex-presidente da Juventus, aparenta ser lamentável que ele cumpra a quarentena na Madeira, apanhando sol numa "megapiscina". As delícias do teletrabalho nem sempre convencem: para alguém tantos meios e uma obsessão tão grande, qual é a diferença entre isolar-se em Turim ou no Funchal? Já as ofertas de dinheiro e equipamentos aos hospitais levam a um debate estafado que confunde os óbvios benefícios com juízos de intenções.

Gosto muito do comedimento e ficaria um milhão de vezes mais bem impressionado se descobrisse que Cristiano Ronaldo anda há dez anos a servir à mesa na sopa dos pobres sem ninguém saber. Mas saber-se também tem valor, ou alguém duvida de que esta chuva de contribuições dos futebolistas e treinadores estão ligadas umas às outras?

Por último, o disparate de Stoichkov, búlgaro que fez história no Barcelona e que exclui entrevistar Cristiano Cristiano porque o que quer são "ensinamentos" e "conhecimento". Erro crasso. Se há uma vantagem evidente, chamemos-lhe assim, de Ronaldo para Messi ela está precisamente na ciência. Ronaldo tem uma vida de afinações, métodos e flexões abdominais para ensinar a quem for inteligente; o que mora dentro de Lionel Messi nem se ensina, nem se aprende.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 03:18

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