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Damas versus Azevedo

Rui Gomes, em 03.11.21

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Não tendo a mínima intenção de me imiscuir na absurda polémica provocada pela carta que a filha de Vítor Damas entendeu divulgar publicamente – e cujos tons rancorosos e desabridos se admite não honrar a memória do seu saudoso pai – apenas aproveito esta oportunidade para, uma vez mais, recordar e salientar o seguinte:

Vítor Damas foi, indiscutivelmente, um extraordinário guarda-redes e a fama que deixou é absolutamente justificada. Gozou, nas décadas de 70 e 80, ao serviço do Sporting CP, de enorme popularidade. O seu estilo deveras espectacular e galvanizante gerou uma excitada idolatria entre as novas gerações de adeptos, dando aso a um culto que tem resistido até à actualidade.

Na onda dessa apreciável devoção, o Sporting Clube de Portugal imortalizou Vítor Damas atribuindo o seu nome, sucessivamente, à baliza sul do Estádio José Alvalade, a uma placa no “Passeio da Fama”, junto ao Pavilhão João Rocha, a uma rua na mesma área, ao campo de treinos n.º 1 da Academia e, ainda, à entrada principal do Estádio – tendo cancelado (devido ao burburinho causado pela filha do próprio jogador) o propósito de lhe dedicar também uma camisola.

Ora, todas estas primorosas honrarias acumuladas e centradas num só personagem, activo num período de tempo relativamente limitado, permite chegar à conclusão de estarmos perante um endeusamento realisticamente exagerado, além de incoerente com a verdade histórica da nossa centenária Instituição – em gritante contraste com o inexplicável e inconcebível silêncio face ao lendário João Azevedo.

Nos seus dezassete anos consecutivos (1935-1952) e 567 jogos de leão ao peito (incluindo os não oficiais), Azevedo foi, “apenas”, o jogador de futebol que, até hoje, mais títulos e troféus conquistou para o Sporting Clube de Portugal: 25 (8 Campeonatos Nacionais, 2 Campeonatos de Portugal, 10 Campeonatos de Lisboa, 4 Taças de Portugal e, também, a Taça Império, na inauguração, em 1944, do Estádio Nacional).

É, ainda, o recordista português do maior número de jogos sem sofrer golos: 159 de baliza inviolada – um registo verdadeiramente impressionante e realisticamente imbatível – e, igualmente, dos chamados “clássicos”: 87, dos quais 29 seguidos.

O currículo leonino de Vítor Damas regista, por sua vez, 15 anos e 456 jogos de actuação, divididos por duas fases, com 6 títulos (2 Campeonatos Nacionais, 3 Taças de Portugal e 1 Supertaça). Portanto, substancialmente inferior ao de João Azevedo.

Guardião da fabulosa equipa dos “Cinco Violinos” e apelidado de “O Violino da Baliza” ou de “O Leão Voador”, Azevedo foi justamente considerado um dos melhores guarda-redes portugueses de sempre, senão até mesmo o melhor, e nas décadas de 1930-1940 como dos mais categorizados da Europa.

Nascido no Barreiro (onde está perpetuado com o seu nome numa rua), destacou-se pela sua extrema dedicação e notável fidelidade ao Sporting, expressivamente comprovada pelas extraordinárias coragem, arrojo e espírito de sacrifício com que cumpria a missão de servir o Clube.

Enfrentando, pois, a soma da realidade dos factos, facilmente se conclui o óbvio: o mítico e histórico jogador do Sporting Clube de Portugal mais titulado de sempre é, lamentável e incompreensivelmente, um eterno ignorado pelo seu Clube do coração, que ele serviu tão longa, abnegada e gloriosamente.

O nosso querido Sporting Clube de Portugal continua a manter uma descomunal dívida à memória do mítico, incomparável e saudoso João Azevedo, falecido em Janeiro de 1991: a condigna consagração que ele absolutamente justifica e inteiramente merece!

Texto da autoria do nosso estimado colaborador Leão da Guia

publicado às 03:18

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7 comentários

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De Manuel Parreira a 03.11.2021 às 04:03

Meu saudoso pai teve o prazer de ver jogar o Azevedo, quando o Sporting foi jogar com o Lusitânia a’ ilha terceira e dizia-me ele que foi um espetáculo as defesas que viu ele fazer, o Lusitânia tinha uma boa equipa naquele tempo e um bom guarda redes, mas ver o Azevedo em ação foi algo que meu pai nunca mais se esqueceu.
Estive no continente em 1966/67 e os varios jogos que vi do Sporting foi com o Carvalho na baliza e penso que era o Libânio de suplente e só depois e’ que chegou o Damas, isto para dizer e segundo o meu pai o Damas foi muito bom, mas o Azevedo foi ainda melhor.
Saudações leoninas e votos de uma boa vitória hoje, cá estarei a torcer como sempre pelo nosso Sporting.
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De LondonLion a 03.11.2021 às 06:30

Concordo o Vitor Damas era um grandissimo guarda redes num clube que sempre teve enormes guarda redes mas para mim o terceiro atras do Azevedo e Carlo Gomes.
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De Mike Portugal a 03.11.2021 às 08:25

Eu não sou dessas épocas. Mas todos os atletas que causaram um bom impacto no nosso clube devem ter sempre algo que os faça relembrar, nem que seja uma montra qualquer com um troféu.

PS: Acho que a filha do Damas ficou zangada com alguma coisa que se passou com Eduardo Bettencour pelo que li, mas não tenho a certeza de pormenores.
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De FF a 03.11.2021 às 09:08

Bom-dia,
Quero apenas recordar o jogo, quando ainda não haviam substituições, em que lesionado, jogou com o braço imobilizado tendo ainda, salvo erro, defendido um
pénalti.
Concordo com o Londonlion quanto à ordem dos melhores guarda redes leoninos de sempre.
Saudações Leoninas
FF
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De Manuel Cunha a 03.11.2021 às 22:24

Creio que foi com o braço partido. Hoje, mesmo sem substituições, duvido que qualquer guarda redes fizesse o mesmo. Fantástico.
SL
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De RCL a 03.11.2021 às 11:24

Tenho memória do título de 1958, considerado :"Os últimos acordes dos violinos". Ainda jogaram Travassos, Vasques e João Martins. Vasques marcou o golo decisivo no Barreiro. Carlos Gomes era um grande guarda redes,
Concordo com o comentario acima, Damas será o 3º melhor , atrás de Azevedo e Carlos Gomes. Não tem nada a ver com a polémica das redes sociais.
SL
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De Leão Zargo a 03.11.2021 às 21:10

Caro Leão da Guia

Na verdade, João Azevedo e Vítor Damas foram dois extraordinários guarda-redes, os dois maiores que defenderam a baliza sportinguista. Azevedo era também de uma fibra invulgar, que chegou a jogar com vértebras e costelas fracturadas, com um pé partido ou com doze pontos na cabeça. Jogou de leão ao peito entre 1936 e 1951. Damas vestiu a camisola leonina pela primeira vez em Fevereiro de 1961, e jogou até 1988, sabendo que durante algumas épocas esteve fora do Clube.

Ambos têm em comum terem sido campeões nacionais e capitães de equipa. Viveram em tempos muito diferentes, no contexto político, social e cultural, e também devem ser vistos de acordo com esse facto. Seria de grande justiça atribuir o nome de João Azevedo à outra baliza do Estádio de Alvalade. Justo e inspirador para os jovens guarda-redes leoninos.

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