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"Este gajo só inventa". Se conhecer um adepto que nunca proferiu a frase anterior, esqueça - não é um verdadeiro adepto. Faz parte do futebol (bom, na realidade, da natureza do ser humano) a aversão à mudança, especialmente a que rompe radicalmente com o que está estabelecido.

 

Mas, se olharmos bem para o assunto, o que é um treinador se não um inventor? Vejamos: do zero, ou perante o que existia na época anterior, tem de inventar na sua cabeça um modelo de jogo, com dezenas de posicionamentos e referências de um qualquer sistema, para depois passá-lo para a cabeça de 20 e tal jogadores que irão colocá-lo em prática, nos treinos e nos jogos. É ou não é “inventar”?

 

Nesta pré-época, a grande invenção surgiu, como habitualmente, da cabeça de Jorge Jesus. Contra o Basileia e contra o V. Guimarães, o Sporting tentou o 1-3-4-3 (às vezes é ignorado, mas o guarda-redes também faz parte dos números), um sistema que não era visto em Portugal (tirando uma ou outra utilização esporádica, na Liga dos Campeões da época passada, pelo mesmo Sporting) desde 2005/06, quando o holandês Co Adriaanse o implementou (às vezes até 1-3-3-4) no FC Porto e foi campeão, apesar da — claro está — contestação dos adeptos.

 

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A verdade é que, ultimamente, o 1-3-4-3 de influência holandesa tem ressurgido em força. Johan Cruyff foi o primeiro a implementá-lo no Barcelona (onde as camadas jovens são ensinadas a jogar primeiro em 1-3-4-3 e só depois em 1-4-3-3), nos anos 90, e Pep Guardiola seguiu a tendência, ainda que de forma menos regular, na Catalunha e em Munique, tal como o rival Thomas Tuchel, no Borussia de Dortmund.

 

Mas o grande impulso para o ressurgimento do sistema (ainda que com algumas nuances diferentes, incluindo um espírito bem mais defensivo) foi outro: o Chelsea de António Conte. Depois de um início de época desastroso, o treinador italiano — que já tinha utilizado o 1-3-5-2 na Juventus — aproveitou uma derrota contra o Arsenal, no final de Setembro, para introduzir o novo alinhamento e... vencer o campeonato inglês. “Não é o meu preferido. O meu sistema preferido é o que permita que a minha equipa vença”, explicou o italiano, pouco dado a “romantismos” ideológicos.

 

Desde então, uma vez que é difícil contrariá-lo, muitas equipas procuraram replicá-lo: Tottenham (foi assim que Pochettino conseguiu derrotar o Chelsea), West Ham e até o Manchester United de Mourinho.

 

E, em Portugal, Jorge Jesus, que tem sido um influenciador do (nosso) jogo e que disse isto: “O 4-3-3 é o sistema mais fácil de anular.” Culturalmente, o 1-4-3-3 sempre foi mais utilizado em Portugal, até por permitir uma ocupação mais racional do espaço, mesmo que o treinador não imprima grande grau de pormenor aos posicionamentos.

 

Mas, actualmente, quantas equipas jogam em 1-4-4-2, depois de Jesus o ter introduzido no Benfica? Inúmeras. E, agora, Jesus tenta voltar a um sistema que utilizou em 1995/96, no Felgueiras, depois de ter ido a Barcelona perceber as ideias de Cruyff — “uma equipa que me apaixonou”, explicou mais tarde. Porquê? Talvez porque, na verdade, em termos estratégicos, quanto mais vezes se joga contra determinado sistema e equipa, mais eficaz se é a anulá-lo, especialmente quando os praticantes não diferem muito de nível (aliás, no futebol moderno, há estrategas de classe mundial - como Mourinho, claro) - ou seja, tudo tem de evoluir.

 

O 1-3-4-3 é um sistema perfeito para quem quer mandar no jogo, porque permite, em organização ofensiva, ter muitos jogadores no corredor central, entre os sectores adversários, pelo que as opções de passe para o portador são sempre maiores e diversas — com a largura a ser proporcionada pelos alas, que tanto são falsos laterais como falsos extremos — no Felgueiras, Jesus chamava-lhes “flanqueadores” (um deles era... Sérgio Conceição).

 

Mais: uma vez que há poucas equipas a jogar assim, é sempre mais difícil para o adversário adaptar-se a defender contra uma equipa que ataque assim, porque as referências são outras e os problemas são necessariamente novos.

 

E, em organização defensiva, o sistema tanto permite efectuar uma pressão mais alta no campo, com os "flanqueadores" a integrarem o sector intermédio; ou mais moderada, com apenas um dos "flanqueadores" (do lado da bola) a subir e o outro a fazer de lateral, formando um sector defensivo de quatro jogadores; ou até bem mais cautelosa, com a formação de uma defesa de cinco jogadores, um meio-campo de quatro e apenas um avançado mais à frente, por exemplo, assumindo claramente um bloco baixo (como fazia o Chelsea de Conte).

 

Mas, como em todas as invenções... é preciso tempo de adaptação.

 

 

Mariana Cabral, jornal Expresso

 

 

Nota: Muito interessante este artigo de Mariana Cabral sobre sistemas de jogo e o leque de preferências dos vários treinadores da actualidade, embora, inevitavelmente, também muito subjectivo. O problema fundamental com isto, e já se arrasta há muito tempo, é que a vasta maioria de treinadores trai a "regra sagrada" do futebol, ou seja: um treinador deve recorrer a um sistema de jogo adequado às características dos jogadores à sua disposição.

 

Mais vezes do que não, acontece precisamente o inverso. O treinador pré-determina o sistema de jogo que quer ver na equipa que lidera e os jogadores, independente das suas características físicas e técnicas, terão de encaixar nesse sistema.

 

O exemplo clássico mais à mão é o Sporting de Jorge Jesus, muito na época passada e provavelmente também esta época. O técnico insiste impiedosamente no 4x2x4, ocasionalmente no variável 4x2x3x1 (demonstrado na foto), para o qual a equipa leonina não tem jogadores à altura do desafio. Prova evidente os golos sofridos em 2016/17 e na pré-época que terminou há poucos dias. Creio, no entanto, que a evidência à vista não irá mudar de ideias a um treinador reconhecidamente teimoso.

 

Nem me vou dar ao trabalho de comentar o sistema dos três centrais, especialmente tendo em consideração os que temos à disposição neste momento.

 

publicado às 03:31

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3 comentários

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De julius coelho a 02.08.2017 às 11:14

Com todo o respeito para a bela Mariana Cabral isto dos sistemas é conversa de encher chouriços .

Tudo muda de 1 semana para a outra , tudo muda dependendo do adversário , tudo muda com o resultado , tudo muda com as caractristicas e estado físico dos jogadores a jogo, nenhum sistema é infalível , nenhum sistema é garantia de vitórias .
Se os artistas (jogadores) nao produzirem nao haverá sistema que resista.

Para se aplicar qualquer sistema primeiro que tudo os jogadores têm que estar bem na parte física , têm que estar muito bem nesse aspecto fundamental.
Depois a analise as suas capacidades tecnicas e leitura do jogo .
Dependendo de tudo isso e só então se parte para qualquer sistema com adversários inferiores .
Quando tinha os meus jogadores no "ponto" físico cheguei a ensair variados esquemas na teoria porque na prática la dentro tudo funcionava igual .
Cheguei a inciar partidas com 0 3-5-2 com os 5 jogadores do meio campo todos em linha , engodo para o adversário para nao perceber depois as variadas movimentações desses 5 elementos mas no final tudo se transformava nos esquemas tradicionais 1 dos 5 fica mais recuado em diagonal na ligação ao 4º homem da defesa 1 dos 5 avança pelo centro a fazer de 10 , 2 dos 5 avançam pelas linhas laterais para posiçao de extremos e sobra 1 a fazer o papel de 8 nas duas faixas no apoio para linhas de passe e construção de esquemas que permitiam superioridade numerica á esquerda e á direita dependendo para onde se inclinava o jogo com o objectivo claro de ter na zona da chegada 6 jogadores mais 1 do que nas manobras tradicionais.

Por muito que se tente inventar á situações em que nada se pode alterar , as faixas laterias têm que estar protegidas , a zona central bem protegida e sempre com o plano B de ter jogadores á dobra, ponto final.

Grande abraço para todos.
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De Rui Gomes a 02.08.2017 às 11:24

"Tudo muda de uma semana para a outra", diz o Julius...

Não é verdade e o Julius sabe muito bem que não é. Recorrendo a Jorge Jesus como exemplo e salvo as supostas experiências que ele fez na pré-época, toda a época passada o Sporting alinhou num 4x2x4, ocasionalmente no variável 4x2x3x1.

E isto é factual, não mera opinião minha.
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De julius coelho a 02.08.2017 às 11:53

Deveria mudar de 1 semana para a outra claro que sim quando se vê que nao resulta ou que resultou menos bem , mesmo durante o jogo á que ter coragem de o fazer quando se percebe que por ali nao vai sair grande coisa .
Mas temos sempre que levar em conta as caractristicas dos jogadores que levamos para o banco e acima de tudo o estado físico de cada um deles .
Á sempre uma linha bem diferenciável num plantel , os jogadores criativos/volantes (atacantes) e os robotizados aos sistemas (mais defensivos) depois disso os sub grupos dos mais/menos rapidos e dos mais/menos tecnicos.

Só o treinador que lida diariamente com os jogadores os conhece bem incluindo os seus problemas, só ele sabe como fazer para o melhor rendimento da equipa.

Assistimos e demos conta de erros de Jorge Jesus inexplicáveis, sem sentido para o momento, é um facto
Jorge Jesus tem uma parte muito negativa , uma parte muito fraca de análise em variados aspectos que lhe retira qualidade , tendo menos qualidade do que ele mesmo pensa que tem.

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