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Entrámos na fase do "casinovírus"

Rui Gomes, em 21.04.20

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Rui Santos diz que o futebol nunca saiu da fase da "roletavírus", por causa da pressão económica...

"Já percebemos que, no final deste mês, vai começar a primeira fase do desconfinamento sem sabermos se vai haver uma segunda, até ao regresso da 'normalidade', seja lá o que isso quer dizer, até essa adiada sine die, se é que na verdade vai chegar.

Começamos a ouvir muito frequentemente que... "temos de conviver com o vírus", com a convicção de que ele pode estar em qualquer lado e continua a ser uma ameaça para todos.

Podemos dizer, provavelmente porque soubemos fechar as fronteiras terrestres a tempo de evitar consequências ainda maiores e ter havido uma resposta globalmente positiva da população ao apelo de isolamento social, que saímos vencedores deste primeiro mês, sob as restrições impostas pelo estado de emergência.

Tirando alguns casos de 'infantilidade política', Governo e Oposição foram genericamente responsáveis: o controlo sanitário e o foco na vida das pessoas foi uma aposta indiscutível e, nesse aspeto, fomos campeões e 'ganhámos' o campeonato a países mais fortes, ao ponto de nos apontarem como 'exemplo', o que não deixa de ser relevante e notável, porque elogios ao País temos ouvido basicamente pelo desempenho das Selecções Nacionais e de Cristiano Ronaldo.

Sabíamos, todavia, que a prevalência da saúde sobre a pressão da economia não poderia durar muito. E sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, ter-se-iam que correr maiores riscos sob pena de entrarmos, economicamente, numa espécie de corredor da morte. Na primeira fase de desconfinamento, o perigo maior é o da desresponsabilização individual e esse pode comprometer o efeito do confinamento. Perigosíssimo.

Vamos entrar agora na fase do "casinovírus" ou da "roletavirus", porque é de elementar compreensão que o cansaço acumulado por aqueles que têm estado em casa, a somar aos óbvios problemas de emprego, produtividade e sustentabilidade, vai provocar uma grande pressão e um grau de incerteza supletivos sobre o sistema de saúde, com consequências que neste momento não conseguimos determinar.

O futebol nunca quis saber a fundo do 'guião-coronavírus', porque nunca teve capacidade para abandonar, mentalmente, a fase do "casinovírus" ou da "roletavírus", considerando o impacto da paragem competitiva na respectiva indústria.

Passou a mensagem de que é preciso jogar, em Maio, em Junho, em Julho, em Agosto - seja lá quando for - para terminar a presente época e começar a próxima… "quando Deus quiser".

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A antecipação de receitas pagas pelas principais operadoras de telecomunicações reforçou este poder que se tornou inegociável. A NOS é o grande ventilador que a maior parte dos clubes portugueses necessita para respirar. Sem esse oxigénio, a morte é mais que certa.

O jogo-futebol, tal e qual como o conhecíamos nas suas reais representações endógenas e exógenas, está adiado. Não sabemos até que ponto vai ser recuperado e quando, naquelas suas características que haviam sido padronizadas.

Sabemos que já tínhamos, pelas deformações sistémicas, mais do que futebol, uma espécie de modalidade adaptada chamada "futebolha"... O que vem a seguir, e num período de transição para qualquer coisa neste momento muito imprevisível e inalcançável, será uma deformação do futebol gerada em laboratório: jogos sem público, jogadores a treinar como se estivessem numa nave espacial, qualquer coisa que 'salve o negócio'.

Preparem-se: está a nascer uma nova modalidade desportiva.

É natural que, na recém-entrevista ao Expresso, António Costa tenha revelado 'cuidados especiais' com o futebol, poupando nas palavras. Contudo, quando se referiu aos 'eventos culturais e desportivos', genericamente, disse tudo: "Temos todos de nos compenetrar que durante o próximo ano, ano e meio, não vamos viver como vivíamos antes do mês de Fevereiro. Isso significa que temos de dar passos sem ansiedade e com prudência. O risco que não podemos correr é de termos novamente uma situação em que a pandemia não está sob controlo".

Espero sinceramente que estas palavras sejam bem digeridas pelos portugueses e… pelos agentes desportivos".

Rui Santos, SIC/SIC Notícias

publicado às 08:02

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