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Ser Sporting não se implora, não se ensina, não se espera, somente se vive... ou não.
Paulo Bento foi treinador do Sporting ainda há relativamente pouco tempo e o seu desempenho profissional suscitou sempre acalorados debates entre os sportinguistas. Todos nos recordamos das conversas intermináveis sobre “losangos” e das ironias a propósito da “tranquilidade” da equipa e, principalmente, como se criticava a sua teimosia e o futebol “à moda” do treinador com o risco ao meio. Aqueles jogos fatídicos com o Bayern desgraçaram muito do que de bom foi feito e o 2º lugar na 1ª Liga de 2008-09 e o mau começo na Liga na época seguinte precipitaram o desenlace.
Paulo Bento deixou Alvalade em Novembro de 2009, nunca se imaginando a hecatombe que se desenhava no horizonte. Sucessivamente Carlos Carvalhal, Paulo Sérgio, José Couceiro, Domingos Paciência, Sá Pinto, Oceano Cruz e Frank Vercauteren foram “queimados” no relvado e na praça pública, até que Jesualdo Ferreira garantiu a organização e a coerência competitivas indispensáveis a um clube como o Sporting. Depois, o que se seguiu é do conhecimento de todos.
É possível quantificar, pelo menos parcialmente, a qualidade do trabalho realizado por Paulo Bento nos leões. Sentou-se no banco pela primeira vez num Sporting-Gil Vicente, em 23 de Outubro de 2005, e pela última num jogo da Liga UEFA, em 5 de Novembro de 2009 (Sporting-Ventspils):
2005-06: 2º lugar na Liga a 7 pontos do FC Porto, Meia-Final da Taça de Portugal (eliminado no Dragão nos penaltys) e Fase de Grupos na Champions;
2006-07: 2º lugar na Liga a 1 ponto do FC Porto (o ano da mão de Rony), Taça de Portugal e Fase de Grupos na Champions;
2007-08: 2º lugar na Liga, Taça de Portugal, Supertaça e Quartos de Final na Liga UEFA;
2008-09: 2º lugar na Liga, Supertaça e Oitavos de Final na Champions;
2009-10: saiu com o Sporting em 7º lugar na Liga portuguesa e garantido o apuramento para a fase seguinte da Liga UEFA.
Enquanto treinador principal, lançou jovens atletas da Formação, nomeadamente Nani, Miguel Veloso, Yannick Djaló, Pereirinha, Rui Patrício, Adrien Silva, Daniel Carriço, André Marques e Carlos Saleiro. Deu a titularidade a Nani logo no seu primeiro jogo como treinador. Mas, muitos adeptos consideram que Varela não foi bem avaliado. Outros, como Celestino, Semedo, Tomané, David Caiado ou Paez, nunca se conseguiram impor no futebol leonino.
Não considero que Paulo Bento tenha fracassado no Sporting, mas nunca foi encarado como um vencedor. Ao contrário do que é habitual, começou logo pelo topo. Observador e conhecedor do meio, estudioso e autodidacta impôs-se e fez-se respeitar por dirigentes, jogadores e adeptos. Se falhou terá sido mais pela estrutura envolvente do que por ele próprio. E porque terá faltado alguma qualidade individual à equipa de futebol. Nos conflitos com jogadores, mesmo os mais carismáticos, impôs a sua autoridade de forma correcta e, em geral, o tempo deu-lhe razão.
O facto de não ter conseguido o título de Campeão Nacional e as fracas exibições da equipa penalizaram-no perante os sportinguistas. O modelo técnico-táctico do Sporting parecia esgotado, principalmente na última época. O futebol da equipa era lento e previsível, com amplitude e profundidade insuficientes o que não possibilitava um jogo apoiado produtivo. A posse de bola apoiada era infrutífera por a estruturação do espaço ser ineficaz.
Paulo Bento treinou o Sporting numa época de contenção de custos e de grande aproveitamento da Formação e fez com pouco o que alguns só fazem com muito. Deu sempre a cara pelo Clube e nunca teve o hábito de mandar os recados por outros. Exprimiu em inúmeras circunstâncias as suas convicções e protestos, o que lhe valeu críticas, dissabores e castigos. O temperamento frontal e o carácter intransigente tornaram-no incómodo e inflexível, não suscitando grandes lamentos a sua partida. No entanto, foi sempre honesto, vertical e coerente, mesmo depois de terminado o seu ciclo em Alvalade.
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