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O futebol, como fenómeno social, cultural e desportivo possui a extraordinária qualidade de preservar na memória dos seus admiradores um núcleo de histórias míticas, de sinais de glória e de afirmação clubística, que se mantêm de forma permanente como reserva da sua identidade e do seu património.

 

No futebol moderno e empresarial há a absoluta necessidade de recorrer a símbolos que funcionam como a ligação do passado com o presente, como elo aglutinador das diferentes gerações de adeptos e de projecção de um futuro vitorioso.

 

O Sporting não é diferente da generalidade dos grandes clubes e também construiu uma narrativa sobre as glórias passadas que os seus adeptos assumem, embora adequando sistematicamente à evolução do tempo e das mentalidades.

 

Na galeria dos grandes sportinguistas há muito que me fixei em Fernando Mendes, o capitão de equipa que teve a honra de receber e levantar o troféu da Taça dos Vencedores das Taças conquistado em Antuérpia, em 15 de Maio de 1964.

 

Fernando Mendes integra uma restrita plêiade de grandes capitães de equipa do Sporting, juntamente com Francisco Stromp, Jorge Vieira, Álvaro Cardoso e Manuel Fernandes.

 

Na época de 1958-59 avizinhava-se uma importante renovação da equipa, pois seria a última para jogadores carismáticos como Caldeira, Travassos, Vasques e João Martins, entre outros. Carlos Gomes e Juca não iniciaram a época por razões diferentes. Era o tempo para novos protagonistas, como Fernando Mendes um médio combativo e resiliente, com boa técnica e grande disponibilidade física, que em breve revelaria invulgares dotes de liderança.

 

Na publicação Centenário Sporting escreveu-se o seguinte: “Foi um dos melhores jogadores portugueses de todos os tempos e um símbolo do Sporting. Podia não ser tão virtuoso quanto outros, mas dispunha de grande intimidade com a bola e de dinâmica extraordinária; a visão era ampla e a técnica fazia o resto - tinha todas as ferramentas necessárias para o desempenho da função de médio-centro. Dono de um sentido estratégico fora do normal, era ainda um jovem quando assumiu o cargo de capitão de equipa.”

 

Como é sabido, o capitão de equipa desempenha um papel de primeira grandeza, na relação com os directores e os treinadores, na motivação e orientação durante os treinos e os jogos ou na gestão de expectativas entre os companheiros. Contribui de forma decisiva para a coesão de um grupo naturalmente heterogéneo e competitivo entre si, centrando-o em objectivos comuns e agregadores.

 

Fernando Mendes nunca se esquivou ao desempenho rigoroso das suas funções de capitão. Em 1962 foi punido por ter contestado uma multa aplicada pela direcção presidida pelo Comodoro Joel Azevedo da Silva Pascoal aos jogadores da equipa principal e foi suspenso até ao final da época, juntamente com Mário Lino. Por essa razão foram excluídos da final da Taça de Portugal, frente ao Vitória de Guimarães, em 1963.

 

Na final de Bruxelas e na finalíssima em Antuérpia, transmitiu aos companheiros a coragem, a tenacidade e a ambição necessárias para se alcançar a vitória. É referido por muitos dos intervenientes o papel essencial desempenhado pelo capitão de equipa na viragem histórica com o Manchester United, em Alvalade.

 

Mas, Fernando Mendes não se atrapalhava mesmo em situações um tanto invulgares. Em Junho de 1960, nas meias finais da Taça, o Sporting foi empatar à Luz e eliminar o Benfica. Valeu o 3-0 em Alvalade. No regresso o autocarro do clube foi apedrejado num sinal luminoso por adeptos benfiquista e, com o auxílio de Octávio de Sá e Carvalho, deu uma valente corrida aos apedrejadores. Outros tempos!

 

A carreira desportiva de Fernando Mendes foi prematuramente interrompida por uma grave lesão no joelho direito sofrida aos 3 minutos de um Checoslováquia-Portugal, disputado em 25 de Abril de 1965. A época seguinte foi de recuperação, mas nem o seu espírito de sacrifício nem as mãos milagrosas de Manuel Marques conseguiram que voltasse a ser o mesmo jogador. Disputou o último jogo em Abril de 1968, num Sporting-Académica, praticamente três anos depois da terrível lesão de Bratislava.

 

Em virtude da lesão não foi convocado para o Mundial de Inglaterra, em 1966, mas devido ao seu carácter agregador, à capacidade de liderança e ao espírito motivacional, para além da importância que teve na fase de qualificação, foi incluído na comitiva portuguesa.

 

Recebeu o Prémio Stromp em 1964 como atleta profissional integrado na equipa vencedora da Taça das Taças e em 1980 na categoria Técnico.

 

 

P.S.: Fernando Mendes entrou para os escalões de Formação em 1953 e manteve-se ininterruptamente ligado ao clube até 1968. A camisola verde e branca foi a única de um clube desportivo que ele envergou. Conseguiu um feito invulgar, sendo campeão nacional como futebolista (1957-58 e 1961-62) e como treinador (1979-80).

 

publicado às 08:07

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8 comentários

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De L a 16.05.2015 às 09:11

Mais um excelente post do Zargo e não quero deixar de testemunhar mais um grande Leão! Sobretudo porque deixei de prestar a homenagem mais apropriada nesta fase ao grande Morais: Paz à sua alma e para sempre no coração de todos os sportinguistas.
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De Leão Zargo a 16.05.2015 às 09:21

Verdade, L. Um grande Leão! E nem sempre nós somos capazes de celebrar os nossos grandes atletas!
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De Rui Gomes a 16.05.2015 às 09:40

Caro Leão Zargo,

Indiscutível grande «capitão» que eu tive o prazer de ver jogar na minha juventude e homem com quem tive ocasião de privar várias vezes ao longo dos anos.

Recordo um dia ainda nos velhos campos de treino no antigo estádio, era ele treinador dos juniores, durante uma sessão de trabalho tivemos oportunidade de trocar algumas impressões sobre os miúdos enquanto o Carvalho treinava os guarda-redes. Dizia-me ele "já temos aqui miúdos a ganhar 300 e 400 contos". Isto, terá sido no início da década de 90.
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De Leão Zargo a 16.05.2015 às 09:48

Caro Rui
Um grande homem e um atleta extraordinário! E que teve uma carreira de técnico muito interessante e dedicada ao Sporting, coroada com o título de campeão nacional!
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De Sérgio Palhas a 16.05.2015 às 11:27

Toda a história do Sporting sempre me fascinou é para mim com grande prazer que leio todos estes posts cujo tema são as nossas antigas glórias para mais quando são atletas que não tive oportunidade de ver jogar (é o que dá ter nascido em 75).

SL,
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De Leão Zargo a 16.05.2015 às 12:47

Sérgio
A história do nosso clube é de grande riqueza humana, cultural, social... e desportiva, pois claro!
As instituições não se "imobilizam" no tempo, têm de se adaptar às novas realidades com que se defrontam. Mas, a matriz identitária está naqueles que nos antecederam e que é assumida e integrada por todos nós. Todos "somos sporting"!
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De PSousa a 16.05.2015 às 15:06

Obrigado Leão Zargo!
Estes seus POSTS podem não dar muitos comentários e muitas "guerras" de palavras, mas são estes que nos enriquecem com a sua leitura. Grato!
SL
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De Leão Zargo a 16.05.2015 às 15:34

PSousa
Eu sei que é assim que as coisas hoje em dia se passam no Sporting. E eu participo no debate que se verifica no clube e tomo partido sem hesitações. Não me esquivo, portanto. Mas, quem sabe, talvez um dia este tipo de textos tenham um maior número de comentários, porque interesse terão sempre. Afinal, trata-se das nossas coisas!
Abraço

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