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Fotografia com história dentro (144)

Leão Zargo, em 21.04.19

 

Carlos Gomes.jpg

 

O guarda-redes desapareceu no intervalo do jogo

 

Entre o leque de grandes guarda-redes do futebol português, Carlos Gomes foi o mais desconcertante de todos. Era um leão indomável senhor dos seus direitos, para além de orgulhoso e de uma frontalidade exasperante. Isso levou-o a ser injusto e até cruel para muitos companheiros, como aconteceu com João Azevedo, e alimentou sempre uma aura de rebeldia e de polémica.

 

Na juventude, no Barreiro, colocava-se atrás da baliza de Francisco Silva, a quem chamava de Ti Chico, para quem ia buscar água fresca e laranjas roubadas nos pomares vizinhos. Aos dezanove anos, suplente no Sporting, exclamou com ironia que “o velho já nem vê a bola”, referindo-se a Azevedo, o “Hércules do Barreiro”, então na fase descendente. A um jornalista que lhe perguntou porque equipava de preto, respondeu que “visto-me de preto, pois enquanto o futebol português estiver nas mãos dos doutores, estou de luto”. Em Espanha, quando teve salários em atraso, garantiu ao presidente do clube que “no hay dinero, no hay portero”.

 

Carlos Gomes regressou de Espanha em 1961 para jogar no Atlético, e foi nessa altura que se verificou um episódio célebre, com contornos na penumbra provavelmente exagerados pela lenda. Ele tinha-se envolvido em determinadas embrulhadas e receava ser preso. Queixava-se de que era perseguido pela polícia política do regime do Estado Novo.

 

Na verdade, em tempos o guarda-redes foi agredido na sede da PIDE, em Lisboa, na sequência de uma discussão por ter estacionado o automóvel numa área reservada aos funcionários. Noutra ocasião, passou uma semana em prisão militar depois de ter troçado de Santos Costa, Ministro da Guerra, quando este discursava numa cerimónia da Selecção Militar de futebol.

 

Por essa razão, Carlos Gomes preparou a sua fuga de Portugal durante uma partida entre o Atlético e o Vitória de Guimarães, em 21 de Janeiro de 1962. Perto do intervalo do jogo chamou o massagista queixando-se de uma lesão. Foi conduzido para o balneário e no regresso das equipas para a segunda parte os agentes da polícia que o vigiavam levaram algum tempo até perceber que ele já não estava na Tapadinha.

 

Escondido na bagageira de um automóvel, Carlos Gomes fugiu em direcção à fronteira espanhola, e viajou depois para Marrocos onde obteve o estatuto de refugiado político e continuou a sua carreira de futebolista, alinhando pelo Ittihad Tânger. Mais tarde, foi treinador na Argélia e na Tunísia. Só voltou a Portugal em 1983.

 

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publicado às 12:50

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6 comentários

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De Naçao Valente a 21.04.2019 às 17:40

Boa Páscoa.

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