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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo com a Juventus. Como sempre, a "brincar" diz-se muitas verdades... 

 

Rui Patrício

Na melhor tradição de Schmeichel, detectou premonitoriamente um livre directo executado na perfeição e limitou-se a supervisionar a trajectória da bola. E livres directos executados na perfeição são algo para o qual Patrício deve ter um radar apuradíssimo, tendo em conta a quantidade deles que já testemunhou. Bruno Alves, Carlos Eduardo, Tiago Silva, Valbuena, Cristiano Ronaldo (x2), Lindelof: não há ninguém que não execute livres directos na perfeição contra Rui Patrício. Adrien Silva saiu do clube com a reputação de não saber marcar livres directos. É esperar pelo primeiro Leicester-Sporting.
 

Cristiano Piccini

Intratável a defender, quase sempre insuperável no 1x1, e a fazer aquilo que eludiu gerações inteiras de laterais do clube, direitos ou esquerdos: fechar por dentro os cruzamentos da faixa oposta. Teve a primeira boa incursão ofensiva ao minuto 47, num lance que começou com uma das suas maiores virtudes - nunca perder a calma - e culminou no que não é propriamente o seu maior defeito, mas sim o principal motivo que o fará custar três (bem gastos!) milhões de euros para todo o sempre: a falta de capacidade de improviso no último terço. Piccini é uma heurística com pernas, uma navalha de Occam ambulante: em qualquer situação de escolha múltipla, escolhe invariavelmente a menos complicada (para ele, para os colegas e para o adversário). É um alívio permanente para os defesas - da sua equipa e da outra; e um obstáculo permanente e insuperável para os extremos - idem aspas.
 

Sebastián Coates

Algumas falhas no controlo da profundidade na primeira parte e um ou outro calafrio faziam temer o pior, mas acabou para embalar para uma exibição positiva, e esteve imperial dentro da área, com a cabeça ou com os pés. A três minutos do intervalo, cabeceou por cima, depois de um dos livres "ensaiados" mais bem sucedidos que me lembro de ver o clube fazer nos últimos tempos.
 

Jérémy Mathieu

Um deslize ao minuto 23 deixou Dybala em posição de remate. Um deslize de Mathieu. Mais do que um percalço conjuntural, vi o episódio como um cataclismo, algo que abalou a minha fé na estrutura básica da Natureza. Após o incidente, olhei ao meu redor à procura de qualquer coisa: de um cigarro, ou da minha identidade enquanto indivíduo. Tudo o que encontrei foi uma pilha de cromossomas arrumada a um canto, e que baptizei como "Jonathan". Mathieu, por seu lado, e como era de esperar, fez o que costuma fazer: amnesiou-se instantaneamente e fez um jogo ao seu nível - calmo, clarividente e eficaz.
 

Fábio Coentrão

É o melhor funcionário público do mundo: integra uma burocracia sólida e experiente, é extremamente competente, está persuadido até à medula das suas responsabilidades colectivas, executa todas as suas tarefas com brio, independência e orgulho profissional - e nunca abdica do impulso de picar o ponto uns minutos antes da hora. Fez um jogo quase perfeito até danificar uma das peças sobressalentes. Uma pena que as suas saídas prematuras de campo sejam agora o equivalente futebolístico à presença de Sean Bean num ecrã: um spoiler irrevogável sobre o resto do filme.
 

William Carvalho

Não fez um jogo ao nível do que fez contra o Barça e até contra o Porto, algo que evidentemente não é culpa sua, mas do jogo em particular, do desporto em geral, da sociedade e, por inerência, do Universo. Quando a inadequada interiorização de normas colectivas dá origem a comportamentos desviantes, William penetra linhas de ruptura conceptual, procedendo à segmentação das opções que previamente o constituiram como agente estruturado-estruturante capaz de se articular na complexa relação de domínio ideológico com o grupo-matriz, permitindo-lhe assim redefinir-se, na sequência de tal segmentação, e através da reconfiguração dos vectores significante do espaço técnico-táctico, enquanto alternativa à praxis. Quer dizer, isto nem sequer tem discussão.
 

Gelson Martins

Mostrou uma precoce e exemplar memória corporativa ao falhar um golo isolado perante Buffon, deixando a um colega de equipa do mesmo a tarefa ingrata de fazer passar a bola por ele, a caminho das redes. Uma coisa é tratar Marcelos e Busquets com condescendência, outra é faltar ao respeito ao Senhor Doutor Gianluigi. Para quem achasse que tinha sido um mero acidente e não uma decisão deliberada, dez minutos mais tarde tentou fintar outro "histórico", Chiellini, em velocidade - algo que muitos tentaram antes dele, e com o mesmo sucesso (zero). De resto, fica a mesma ideia que tem ficado nos últimos jogos: anda a oferecer ao mundo apenas excertos avulsos do seu talento, abreviados e parafraseados, sem nunca propriamente abrir o livro.
 

Rodrigo Battaglia

Tanto nos contos de fadas como na literatura épica - Virgílio, Dante, Milton - a floresta é o lugar encantado onde uma pessoa vai. Onde vai o bom rapaz (para perceber se é heróico) ou o gajo complicado (para perceber se é vilão). Acima de tudo, é um lugar onde se vai para ser testado. Injectado à bruta no meio da floresta densa que foi o meio-campo da Juventus, Battaglia não emergiu com uma espada mágica, mas também conseguiu não ser engolido. Incomodou as progressões pelo meio o melhor que pode, e ainda ensaiou algumas vezes (a do minuto 24 foi a que mais agradou) o expediente que desenvolveu para compensar o facto de não conseguir fazer passes a colega algum: galopar por ali fora até perder a bola de forma a conseguir recuperá-la logo de seguida numa zona mais adiantada. Não é bonito, mas de vez em quando é tremendamente eficaz.
 

Marcus Acuña

Aproveitando certamente o facto de pela primeira vez em muito tempo não ter jogado 78 jogos numa semana, entrou espevitado e alerta, acumulou uma mão cheia de recuperações (o golo inaugural começou com uma) e na primeira parte foi dos poucos, com a ajuda de Coentrão, a conseguir fazer alguma retenção de bola em zonas mais avançadas. Veio do intervalo com a mesma genica, fazendo mais algumas recuperações ofensivas, mas aí começou a apostar no cruzamento automático, algo que, dadas as circunstâncias (Dost sozinho na área, rodeado de toda a população de Itália) é menos uma opção estratégica do que um apelo à magia, como lançar uma moeda à fonte, ou comprar uma raspadinha.
 

Bruno Fernandes

Foi forçado a jogar inúmeras vezes sozinho contra uma multidão entusiasmada e num pico de adrenalina, e as multidões entusiasmadas e num pico de adrenalina são quase sempre de evitar. Num momento estão apenas a curtir o som, mas no momento seguinte desatam a derrubar governos ou querem matar judeus. Neste caso específico, a multidão só queria a bola, vontade que Bruno Fernandes nem sempre lhes fez. Mostrou a profunda dignidade que reside sempre no esforço para mostrar lucidez e generosidade, mesmo quando rodeado de bárbaros e, além de lançar Alex Sandro no lance do golo, ainda sacou livres perigosos e criou a última e melhor oportunidade da equipa na segunda parte.
 

Bas Dost

Passou os primeiros momentos a chegar demasiado tarde a passes demasiado curtos, a saltar demasiado baixo a bolas demasiado altas (e demasiado optimistas), e a tentar incomodar com a sua presença demasiada isolada dois corpos demasiado italianos. Por quatro ou cinco ocasiões mostrou uma qualidade ao primeiro toque que nem todos os colegas tiveram. Convém é que se criem condições para lhe permitir direccionar esse toque para a baliza. E isso é tarefa de outros, não dele.
 

João Palhinha

Entrou com mais energia que todos os colegas que ainda permaneciam em campo, circunstância que se manifestou na alacridade com que chegou a cortar bolas em lances de antecipação não apenas ao adversário, mas a colegas de equipa que já lá estavam a tratar do assunto.
 

Jonathan Silva

A maneira como ficou a olhar para a bola durante o cruzamento de Douglas Costa lembrou a reacção de uma tribo amazónica quando o primeiro missionário entrou pela aldeia dentro com um fonógrafo ou um guarda-chuva. Que criatura é esta, capaz de tamanha magia? Devo ajoelhar-me e venerá-lo? Cozinhá-lo e comê-lo? Na conferência de imprensa pós-jogo, Jorge Jesus chamou-lhe "Jonas", com toda a certeza uma das coisas mais simpáticas que alguém lhe vai chamar hoje.
 

Seydou Doumbia

Ao minuto sporting chegou uns meros dois milisportings de sporting atrasado em relação a uma oportunidade de golo extremamente não-sporting, tendo o lance corrido de acordo com os trâmites.
 

publicado às 04:17

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