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João Azevedo: o eterno ignorado

Rui Gomes, em 17.10.20

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Nos seus dezassete anos consecutivos (1935-1952) e 567 jogos de Leão ao peito (incluindo os não oficiais), João Azevedo foi, “apenas”, o jogador de futebol que, até hoje, mais títulos e troféus conquistou para o Sporting Clube de Portugal: 25 (8 Campeonatos Nacionais, 2 Campeonatos de Portugal, 10 Campeonatos de Lisboa, 4 Taças de Portugal e, também, a Taça Império, na inauguração, em 1944, do Estádio Nacional).

É, ainda, o recordista português do maior número de jogos sem sofrer golos: 159 de baliza inviolada – um registo histórico deveras impressionante e realisticamente imbatível – e, igualmente, dos chamados “clássicos”: 87, dos quais 29 seguidos.

Guardião da fabulosa equipa dos “Cinco Violinos” (cujo conjunto chegou a capitanear, após a retirada de Álvaro Cardoso, outro grande ícone do Sporting) e apelidado de “O Violino das Balizas”, Azevedo foi justamente considerado um dos melhores guarda-redes portugueses de sempre, senão mesmo o melhor, e nas décadas de 1930-1940, como um dos mais categorizados no continente europeu – celebrizando-se na histórica primeira vitória de Portugal, em Madrid, sobre a Espanha (1937) como “O Tigre Português” e num surpreendente empate com a Alemanha (1938) como “O Gato de Frankfurt”. Somou dezanove internacionalizações, numa altura em que os confrontos internacionais eram ainda bastante esporádicos.

Tendo vivido a transição da fase final dos duros campos de terra batida para os suaves pisos relvados actuais e jogando num tempo que não oferecia, nem de longe, as condições de conforto, de progresso, de assistência, de apoio e ainda económicas de que desfrutam os futebolistas da era moderna, o lendário João Azevedo destacou-se notavelmente pela sua extrema dedicação e inigualável fidelidade ao Sporting CP, expressivamente comprovada pelas extraordinárias coragem, arrojo e espírito de sacrifício com que cumpria a sua missão de servir o Clube.

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Ficou para sempre gravado na história o inolvidável fim-de-tarde de 17 de Novembro de 1946, quando, na alcunhada “Estância de Madeira” (então temporariamente cedida pelo Sporting ao Benfica), no Campo Grande, Azevedo, de braço esquerdo ao peito, devido a uma fractura da clavícula aos 43 minutos (então ainda não eram permitidas substituições), insistiu em regressar à baliza a meio da segunda parte, executando, apenas com o braço direito, um punhado de assombrosas defesas, que garantiu a vitória sportinguista (3-1) e a consequente conquista do Campeonato de Lisboa – tendo sido passeado em triunfo, aos ombros dos seus companheiros, perante longas e vibrantes ovações de todo o público, de pé – incluindo os muitos adeptos benfiquistas (tempos civilizados, esses…). Simplesmente emocionante e empolgante!

Numa outra final, em 1948, contra o Belenenses, nas Salésias, jogou quase todo o tempo com um pé fracturado, que mal podia mexer e, num outro desafio, insistiu em manter-se na baliza depois de suturado com doze pontos na cabeça…

Reconhecido globalmente pelo seu heroísmo, o temerário “Leão Voador” tornou-se um venerado inspirador para muitos dos guarda-redes que lhe sucederam – entre os quais se salientaria notoriamente, nas décadas de 1970-80, o também admirável e lendário Vítor Damas, cujo estilo deveras espectacular gerou uma longa e excitada idolatria entre as novas gerações de adeptos.

Damas foi imortalizado pelo Sporting com a atribuição sucessiva do seu nome à baliza sul do Estádio José Alvalade, a uma placa do “Passeio da Fama”, junto ao Pavilhão João Rocha, a uma rua na mesma área e, agora, também ao campo de treinos nº. 1 da Academia e à entrada principal do estádio, embora o seu currículo sportinguista – 15 anos e 456 jogos, divididos por duas fases, e 6 títulos (2 Campeonatos Nacionais, 3 Taças de Portugal e 1 Supertaça) seja substancialmente inferior ao de João Azevedo.

Enfrentando a realidade dos factos, facilmente se conclui o óbvio: o histórico jogador do Sporting CP mais titulado de sempre é, lamentável e incompreensivelmente, um eterno ignorado pelo seu próprio Clube, que ele serviu tão longa, abnegada e gloriosamente.

O nosso querido Sporting Clube de Portugal continua com uma grande dívida à memória do mítico, saudoso e incomparável João Azevedo, falecido em Janeiro de 1991, a condigna consagração que o “Violino das Balizas” absolutamente justifica e inteiramente merece!

Texto da autoria de Leão da Guia

publicado às 03:47

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