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Ser Sporting não se implora, não se ensina, não se espera, somente se vive... ou não.
Queiroz, Quaresma, Maradona: a elegância é sempre facultativa.

Conheci o outro Maradona em 1995, no aeroporto de Frankfurt. Regressávamos os dois da final da Taça dos Campeões, entre Ajax e Milan. Pedi-lhe umas palavras, para um jornal português, e ele deu-mas, mas não as que eu esperava nem aquelas que, em princípio, se publicam na Imprensa. Em cinco segundos (e para a eternidade), o mito degenerou em dejeto e a admiração num asco profundo.
Nos 23 anos seguintes, fui concluindo que ser Maradona não lhe dá o direito a falar daquela maneira, mas também não lho tira. Jogar (muito, muito, muito) bem à bola não obriga a seguir um código de conduta, nem sequer a ser civilizado. Tarde ou cedo, neste caso 23 anos depois de mim, uma câmara russa voltada para o cavalheiro durante o Nigéria-Argentina põe o planeta a debater se Maradona merece, ou não, ser tolerado.
Fora da relva, até em Portugal o futebol é capaz de produzir maradonismos, pessoas com um determinado estatuto que decidem falar sem filtros ou viver sem restrições. Quaresma e Carlos Queiroz, por exemplo. O primeiro preferiu a liberdade à carreira e ninguém o pode condenar por isso. Qual de nós tem legitimidade para lhe dizer: "Devias ter sido infeliz. Ter corrido mais nos treinos; ter sido submisso aos teus treinadores; ter sido altruísta no campo; ter preferido o cruzamento à trivela"?
E também não consigo ensinar Queiroz a ser o herói nacional que talvez fosse suposto. Desde a "merda" na FPF, há quase três décadas, que ele exerce apenas o direito à liberdade de expressão, sem autocontrolo nem concessões, como talvez fizesse se, em vez de figura revolucionária no futebol nacional, tivesse continuado a ser um professor de educação física, por estes dias a berrar contra o congelamento da carreira, em vez de berrar com Quaresma. Ninguém tem de gostar do outro. Nem o outro tem de gostar dele.
José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo
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