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O adeus de um grande jogador

Rui Gomes, em 19.04.17

 

O meu último jogo e o jogo que ele fez

 

 

Este jogo não é sobre mim.

 

Mas, ao descer aquelas escadas divididas para o relvado, olho à volta e lembro-me como, antes, estava do outro lado da vedação. Tenho saudades. Por mais que me vire e olhe e observe e procure, em lado algum vejo alguém como eu. Estou velho em idade de jogador, estou a sentir muita coisa cá dentro, a mexer, estou nas últimas - é a minha última época a jogar, é a última vez que jogo neste estádio, pode ser a última oportunidade que tenho para ganhar a Liga dos Campeões por três clubes diferentes. Não seria mau acabar como o Seedorf, o único que já o fez. Mas nem estou a pensar muito nisso.

 

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Penso nos cinco anos que estive aqui. A passar, a correr, a lutar e a viver a vida no campo, passando. No vício com toda a gente tinha nesta competição, as fotos que há de quem a ganhou, a forma como a contam. Uma, duas, três, quatro, até à décima que ganhei e à undécima, que os vi ganhar. Sei que é a gasolina para a vida deles, porque já foi para a minha. O Cristiano, o Benzema, o Bale, que por diós não joga, o Luka, o Dani, penso no perigo que eles sempre são sozinhos, mesmo quando juntos, como equipa, não o parecem ser.

 

Por isso tento, como sempre, ser simples. Poucos toques na bola, passes rápidos, diretos ao pé, sem complicar. Quero simplificar para que os meus tenham espaço e tempo para complicarem. Descobrimos caminhos por fora com a preocupação que o Real tem em tapar-nos por dentro. O Alaba e o Ribéry aceleram à esquerda, tabelam, mas o corpo do Marcelo tapa a bola que o Thiago remata, na área. Ia lá para dentro, tenho a certeza. É o melhor que conseguimos fazer.

 

Queremos controlar, ser protagonistas aqui, onde é raro sê-lo alguém de fora. Gostamos de ser rápidos e intensos e mandar na bola e mandatar os outros com ela. É tão difícil, em parte, porque dificultamos a nossa vida. Queremos tocar perto e passar rasteiro qualquer bola que temos, à frente, no meio ou atrás. O Real sente-o, cheira-nos a insistência, transforma a nossa confiança em estupidez. Pressionam-nos com tudo quando perdem a bola e o Carvajal bate um remate para o Neuer se estica com a grandeza dos maiores. Mas ele não agarra a bola que o Dani cruza pouco depois. O Boateng está na linha, encostado ao poste, e não deixa que a recarga de quem mete a garra e a alma em tudo entre na baliza. Lidar com Sergio Ramos é um pesadelo, sou eu que o tenho de marcar nos cantos.

 

Fico nervoso. Começo a falhar passes. Vejo-os na minha cabeça, são simples, mas falho-os. E eles não me deixam esquecer como eram, e são, rápidos e frenéticos e intensos a contra-atacar. Já não tenho as pernas nem a velocidade, nunca a tive, para os parar. O Cristiano assusta-nos duas vezes. O Kroos, que vivia na casa onde hoje vivo em Munique (literalmente), ainda remata outra. Joder, eles estão melhor e, assim, parecem ser melhores.

 

Não vos digo o que Ancelotti nos disse. Mas o Carlo sabe em que botões carregar, nós gostamos dele e ele gosta de nos picar com as palavras. Há confiança para isso. E entramos com confiança e caímos em cima deles, depois do intervalo, com tudo. Aceleramos e fazemos mais do que fizemos, e eles sofrem. O Marcelo está na linha para barrar o remate do Arjen, no fim de uma bela jogada nossa. Já não está lá quando a classe do esguio Lewi engana o Navas no penálti que o Robben arranca. Ele é um tipo de jogos grandes, apesar de a reputação e senso popular não o achar.

 

Estamos vivos e eu prefiro fazer-me de moribundo. O Real fica mais prudente, recua as linhas, mas fico atrás, tento aproveitar o espaço para dar o primeiro vazão à bola e parar de errar passes sob pressão. Lá me mantenho, perto do Hummels e do Boateng. E tão bem que eles defendem, os dois, automáticos na contenção que fazem nos contra-ataques que têm de aguentar sozinhos, com os números contra eles. Empatam a decisão de quem tem a bola, obrigam a adiá-la.

 

Eles vão-nos salvando enquanto o jogo fica duro. Vejo faltas à minha volta e faço um par delas, feias, males menores para evitar que maiores aconteçam. O Robben joga como um miúdo, finta e cruza e remata e tudo o que temos de bom vem dele. As coisas ficam rápidas demais para mim - consigo acelerar a bola o quanto quiser, mas percebo o Carlo, a minha lentidão não é precisa quando a bola não é nossa. Ele tira-me, eu saio. Ouço aplausos, muitos, os que queria ouvir. Aplaudo-os de volta, insisto em retribuir até chegar ao banco. Mas, quando me estou a sentar, não me consigo acalmar.

 

O Casemiro, o bruto, ladrão e incansável Casemiro, rouba-nos uma bola a meio campo e, desengonçado, pica-a para a área. Ele viu o Cristiano como não pode estar e todos o vimos, sozinho, a cabecear para golo. Nem há um minuto tinha saído do campo. Não quero acreditar, como me custa a crer no que, segundos depois, vejo. Nem percebo como, é um corte na área, misturado com um ressalto e tudo a acontecer à queima-roupa, mas o Sergio Ramos marca um auto-golo. Faltam 12 minutos, a eliminatória está empatada, estamos em cima do Real no Bernabéu, onde toda a gente costuma ficar por baixo.

 

Estamos vivos. Que partidazo estava a ser, para se jogar e para se ver. Até que o árbitro, em quem ninguém estava a reparar por ele não querer estragar o jogo, decidiu estragá-lo. O Vidal foi limpo a tirar a bola ao Asensio e viu o segundo amarelo que já lhe tinha sido perdoado, embora menos, bem menos, que ao Casemiro - que bateu, derrubou, puxou e até se fez a um penálti. Os 10 que nos restaram passaram a morrer aos poucos.

 

Aguentámo-nos, valentes, até ao prolongamento. O Hummels, que vinha lesionado, arrastou-se. O Robben foi buscar os restos dos 20 anos que tinha dentro, e resistiu. O Lahm e o Thiago, pequenotes, foram a todas as bolas, e correram por dois ou três. Mas o Real eram os tipos que conheço tão bem. Agigantaram-se para a ocasião, o Sergio aos berros, o Luka sem perder bolas, o Kroos a fazer-nos persegui-la com os olhos.

 

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E o Cristiano, que sempre está no sítio certo da área e à espera da hora certa, fez-nos cair. Com o peito e o pé esquerdo marcou, primeiro com um passe do Ramos e um fora de jogo de posição; com o pé direito marcou outro, depois de o Marcelo nos cortar ao meio com a bola colada, e em sprint, e lhe oferecer o centésimos golo na Liga dos Campeões. Sim, são 100, quase tantos quanto os jogos (119) que levo comigo nesta competição.

 

Ele pode já não jogar metade do que o que marca, mas é um animal. Um monstro que nos marcou cinco golos numa eliminatória. Depois de ele nos matar em cinco minutos, o miúdo Asensio atropela-nos num último contra-ataque. Já estamos de rasto, sem pernas, nem motivação, ou esperança. Acabaram connosco, acabou-se. E acabou para mim.

 

Entro em campo, cumprimento quem consigo. Abraço o Lahm, que está a sentir o que sinto e deve sentir-se triste por também ter sido o último jogo destes para ele. O Cristiano, só sorrisos, agarra-se a uma bola e leva-a, carrega o direito de quem marca três golos num jogo. Todos do Real Madrid sorriem como ele, porque estão nas meias-finais pela sétima temporada seguida, é obra e é um recorde. Eles têm uma história bonita, como acho que foi a minha.

 

Eu sou o Xabi Alonso e foi um prazer passar a bola para vocês.

 

publicado às 04:04

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