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O fabuloso Fernando Peyroteo

Rui Gomes, em 15.04.20

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A tão expressiva evocação, no Camarote Leonino, do grande Fernando Peyroteo – o maior goleador de todos os tempos do futebol português e um dos maiores do futebol mundial – fez perpassar pela minha memória o 'filme' de muitos momentos fabulosos, gratificantes e inolvidáveis proporcionados por um grande futebolista que sendo uma autêntica força da natureza era, igualmente, uma verdadeira e notável personalidade de excepção, homem de exemplares integridade e lealdade, um verdadeiro gentleman dentro e fora dos terrenos de jogo – detectando-se nele algo de aristocrático, talvez derivado de, como se admitia então, ser sobrinho-bisneto do Conde de Torres Novas, um antigo Governador da então Índia Portuguesa.

Era eu então apenas um miúdo quando, levado por amigos sportinguistas dos meus pais ao velhíssimo Estádio do Lumiar me deslumbrava perante aquela fenomenal “máquina” de marcar golos, comungando do êxtase da multidão que gritava “golo!” ainda a bola não tinha sido disparada dos seus pés ou da sua cabeça…

Relembro-me que, tendo eu os meus catorze anos, me atrevi a escrever uma carta pessoal a Fernando Peyroteo, endereçada à sede do Sporting, pedindo-lhe um bilhete para um jogo entre a seleção militar portuguesa (que ele integrava) e uma selecção da britânica Royal Air Force, realizado em 17 de Fevereiro de 1946.

Dois dias antes do confronto, ao regressar do colégio, a minha mãe, de ar bem severo, interpelou-me surpreendentemente..."Ouve lá, tu mandaste alguma carta ao Senhor Peyroteo? É que ele telefonou para cá, para tu estares no domingo, à uma da tarde, no Quartel da Graça”... (partida da selecção militar para o Estádio Nacional). Impressionada pela minha espontânea explosão de euforia, ela acedeu a interceder pela imprescindível concordância do meu pai, e ambos, perdoando a minha grande ousadia, acabariam por me conduzir à Graça…

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Acolhendo-me muito afavelmente, Peyroteo foi de uma extrema generosidade. Chegados ao mítico estádio – onde, dois anos antes, ele marcara o histórico golo inaugural – pediu a um membro da comitiva que me conduzisse ao meu lugar especial na bancada. E após o jogo (que terminou 1-1, com mais um golo da sua autoria) concedeu-me o enorme prazer de me sentar a seu lado na viagem de retorno ao quartel, durante a qual mantivemos uma animada conversa.

Até ao final da sua prodigiosa carreira futebolística, Fernando Peyroteo – o melhor e mais verdadeiro avançado-centro que teve até hoje o futebol nacional – continuou a oferecer incontáveis alegrias aos sportinguistas e numerosos títulos ao seu e nosso Clube – que, já muito depois da sua morte, prestaria à sua memória a impressionante consagração que inteiramente merecia e lhe devia – lamentando-se, a propósito, o tão injusto olvido em que naufragou o seu extraordinário companheiro de rota e de sucesso João Azevedo (talvez o melhor guarda-redes português de sempre e ainda hoje recordista do número de títulos e troféus conquistados pelo Sporting).

Estive presente na inauguração da loja de artigos desportivos que Peyroteo abriu na Rua Nova do Almada, em Lisboa, e reencontrei-o em Luanda, durante uma missão jornalística a Angola, em 1961, estava ele com os seus 43 anos – tendo-me chocado profundamente a depressão e a amargura que então manifestava, resultante não apenas do seu débil estado de saúde, mas também do esquecimento e da ingratidão de que se considerava injusta vítima. Faleceria em Novembro de 1978, com apenas 60 anos.

Texto da autoria de Leão da Guia

publicado às 03:49

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