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O refrescante Sousa Cintra

Rui Gomes, em 10.09.18

 

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Quando o estadista romano Caio Mecenas morreu, Jesus Cristo ainda não tinha nascido, o que faz do mecenato uma prática muito mais antiga do que o Cristianismo. Mecenas, amigo do imperador Augusto, não abdicou da fortuna que herdou, como Cristo haveria de exortar os ricos a fazerem, mas usou-a para patrocinar homens de talento como Virgílio e Horácio. Séculos depois, durante o Renascimento, o seu exemplo foi seguido por famílias poderosas como os Médici e os Sforza, a quem devemos a existência de obras-primas de artistas como Miguel Ângelo e Botticelli.

 

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José Sousa Cintra não patrocinou, tanto quanto se saiba, nenhuma obra de arte imortal digna de exposição nas paredes do Louvre ou do Prado, mas poucas equipas do Sporting, se é que alguma, estiveram tão perto do sublime como aquela que a liberalidade do empresário ajudou a financiar nos anos 90. Com “O Rapto do Pacheco e do Sousa” (água com gás sobre relva, 110X75, Estádio José Alvalade), o próprio Sousa Cintra assinou uma das peças artísticas mais audazes da história do futebol português, levando a parte verde do país à euforia e lançando numa profunda depressão estival a parte vermelha, subitamente a contemplar o Apocalipse nas praias algarvias.

 

Cintra, o génio por trás do golpe, entusiasmou-se tanto com a sua astúcia que provocou os deuses com o despedimento de Bobby Robson, ele que tinha conseguido a proeza de o contratar. A partir daí nada lhe correu bem no Sporting e o epitáfio da sua presidência foi João Vieira Pinto – o jogador que ele não foi capaz de desviar ao rival – quem o assinou, destruindo com os próprios pés a obra de arte que Cintra demorara cinco anos a cinzelar com escopo e cheques.

 

Quando o empresário saiu do Sporting, anunciavam-se os tempos das SAD e dos clubes-empresa. Tinha acabado a era dos mecenas. À gestão financiada pelos bolsos liberais de uns carolas, com os seus caprichos e excitações, sucedeu-se a abordagem racional dos gestores desapaixonados (cof, cof).

 

Mas, com o fim da era dos mecenas, também acabou o tempo em que os clubes precisavam mais dos seus presidentes do que os presidentes precisavam dos seus clubes. Talvez em 1989 Sousa Cintra tenha precisado do Sporting para se tornar conhecido – a vaidade, como reconheceu há uns tempos um ex-primeiro-ministro, é um poderoso motor da acção humana – mas o Sporting precisava muito mais do dinheiro de Sousa Cintra. O próprio o reconheceu, com a habitual candura, em entrevista ao Expresso: “Não se pagava aos jogadores e ao pessoal há sete meses. Pagámos a toda a gente e fiz isso por amor ao clube. […] Meti muito dinheiro do meu bolso. Tive de meter, então, ninguém emprestava dinheiro ao Sporting!”

 

Entretanto, o homem das águas desapareceu de circulação futebolística e da vida do Sporting e muitos se perguntavam se ainda estaria vivo e se ainda teria fortuna. A resposta chegou neste verão e pode dizer-se, agora que Sousa Cintra já passou o testemunho ao próximo presidente do Sporting, que o seu regresso, ainda que temporário, foi das melhores coisas que aconteceu, não só ao clube, como ao futebol nacional.

 

Em primeiro lugar, Cintra afirmou não ter qualquer intenção de permanecer em funções após este período limitado de transição, o que, num clube que tem algo de shakespeariano nas oscilações de poder e de fidelidades, em que todos temem a própria sombra, foi um sinal saudável de desprendimento, sobretudo depois de um consulado traumático de um aspirante a Nero com a sua corte de personagens grotescas e instáveis.

 

Em segundo lugar, Cintra tudo fez para repor a normalidade e demonstrar aos adeptos e ao mundo que o Sporting não era o hospício em que os episódios de maio e Junho tinham ameaçado transformá-lo. Trazer de volta Bas Dost, Bruno Fernandes e Battaglia, que muitos julgavam ser uma missão impossível, ajudou a afastar de vez a possibilidade de um cataclismo definitivo.

 

Tão importante como o facto foi a forma. Sousa Cintra não lhes acenou com um livro de cheques, mas com uma bandeira branca, sinal de paz e boa vontade. Teve a capacidade de compreender o problema humano e, por isso, tentou resolvê-lo com humanidade. Fê-lo com dois instrumentos que não se vendem e não se compram: honestidade e bom-senso. Numa estratégia capaz de meter na algibeira déspotas de algibeira, manejadores, nem sequer exímios, da ameaça e da coação, fez com que os jogadores se sentissem desejados e protegidos.

 

Anjinho, porém, Sousa Cintra nunca foi. Despachou Mihajlović sem remorsos, não cedeu às pressões de certos empresários, foi inflexível com o Atlético de Madrid no caso Gelson e, quando sentiu que esticar a corda poderia obrigar o seu sucessor a enforcar-se com ela, recuou, nos seus termos e condições.

 

As críticas também não o demoveram de aceitar o convite do Benfica para ir para a tribuna do estádio da Luz: “a rivalidade é dentro de campo”, disse, com uma sabedoria e uma simplicidade que andavam desaparecidas do nosso futebol, o homem que quase destruiu o rival naquele célebre verão quente de 93.

 

Talvez a postura assumida só fosse possível nestas circunstâncias peculiares e em alguém com a sua também peculiar personalidade. O tempo desgasta, o poder corrompe e, muitas vezes, até o mais circunspecto dos líderes cede ao apelo do populismo quando vê o seu lugar ameaçado.

 

Seja como for, a incontornável presença de Sousa Cintra durante este interlúdio, com o seu optimismo militante e a independência que distingue os muito ricos ou os indigentes, tornou a atmosfera um pouco mais respirável, matou a nossa sede de decência e fez-nos ter saudades dos tempos em que, por amor ao clube, os mecenas patrocinavam a felicidade de milhões de adeptos famintos de alegrias.

 

Bruno Vieira Amaral, escritor, Tribuna Expresso

 

publicado às 16:00

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