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Em Janeiro, Augusto Inácio tornou-se no último treinador a vencer uma prova nacional sem ser nos três grandes (na Taça da Liga, eliminou FC Porto e Benfica e ganhou a final ao Braga). Ao comando do Moreirense, mostrou que é possível bater o pé aos poderosos ao serviço dos pequenos, pelo que contesta as recentes queixas do... actual técnico dos cónegos.

 

Concorda com as palavras de Manuel Machado, que falou em "campeonato dos três grandes", sendo o resto "carne para canhão"?

 

Nesta época, o primeiro a falar da diferença de orçamentos até foi o Abel, quando o Braga visitou o Benfica. Depois, sim, foi o Manuel Machado. Desde que ando no futebol sempre foi assim. Obviamente o que se vai exigir a um Moreirense é que fique na Liga, não que seja campeão. Não concordo com a expressão porque já treinei pequenos. O Moreirense ganhar a Taça da Liga é uma excepção, mas pode acontecer. Acho que essas palavras são mais no contexto de alguma frustração por querer ter mais jogadores, mais qualidade... O campeonato português está bom, mais competitivo, mas cada um com os seus objectivos. Na Taça da Liga ganhámos ao FC Porto e ao Benfica porque eles facilitaram, deixaram andar. Porque ganhamos um jogo em dez, certamente. É possível moer o juízo aos grandes e às vezes há surpresas.

 

Que medidas se poderia tomar para dar equilíbrio?

 

Para o campeonato ser mais competitivo não há dúvida que o melhor era a centralização dos direitos televisivos. E acho que se podia limitar o número de inscrições por clube: em vez de Benfica, Sporting e FC Porto estarem a emprestar vinte jogadores a clubes da Liga, sobrariam muitos jogadores para alimentar as equipas pequenas. Há muitos emprestados por interesse de quem empresta e não de quem os recebe. Essas equipas teriam mais qualidade e com jogadores seus.

 

Essa política dos grandes de excesso de jogadores nos quadros e muitos empréstimos a clubes da Liga gera subserviência e dependência?

 

Claro. É uma bola de neve. É um jogo de interesses que depois tem impacto nos votos e decisões em sede da Liga, por exemplo - se votam contra não recebem emprestados... Seja que clube for, o vício é tanto que quando se empresta é a clubes "amigos".

 

E qual é a razão que leva os pequenos a não se libertar dessa teia e a começar a valorizar activos próprios?

 

Aos pequenos falta-lhes tomates. Basta ver a polémica do cigarro electrónico: o Benfica propôs o tema a votação, contra Bruno de Carvalho, e os pequenos não votaram. Ninguém tem voz para dizer se concorda ou não? Se isto não é subserviência e medo, o que é? Por isso digo que faltam tomates ao dirigismo dos pequenos. Têm medo, comem a sua sopinha e por isso as coisas andam como andam. Os pequenos seguem a voz dos grandes, ninguém sabe o que eles sentem genuinamente, têm medo de represálias.

 

Torna-se repetitivo usarem sempre o mesmo argumento? Há intenção de desculpabilização?

 

Quando se assina por qualquer clube, já se sabe a realidade. O Abel falou da diferença do orçamento entre Braga e Benfica, mas acontece o mesmo entre o Braga e o Portimonense e custou-lhe ganhar! O futebol é bonito porque a surpresa pode estar ao virar da esquina. E o futebol mudou, quem tem dinheiro realmente tem os melhores jogadores, mas isso não significa que tenha a melhor equipa.

 

Com boa gestão, os pequenos podem dar um salto e equilibrar, apesar do histórico e dos orçamentos díspares?

 

O orçamento não ganha os jogos, são os jogadores. Não acredito em nenhum projecto no futebol português. Porque quando se faz um projecto para três anos, ao fim de duas ou três derrotas o projecto já foi e o treinador vai para a rua. Claro que tem a ver com o dirigismo. O Braga tem uma visão fantástica, mas não consegue chegar ao título. Sem vender e ainda a reforçar-se, podia ter equipa para lutar pelo título. Mas tem de vender e assim não vai chegar ao topo. Para a sua dimensão, é um exemplo. Consegue chatear os grandes, fazer gracinhas, mas não consegue aguentar jogadores. Até o Benfica teve de vender. E orçamentos maiores dá em despesas maiores. Temos de vender. Chega cá um West Ham qualquer e leva o William Carvalho. E ele não merece melhor? Se até os grandes têm de vender, imagine os pequenos. É um ciclo vicioso. Nós, treinadores, vamos vivendo com o resultado de cada domingo para ver se conseguimos manter o emprego.

 

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publicado às 12:32

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3 comentários

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De NMRC a 28.08.2017 às 13:11

O Augusto Inácio tem razão no que diz, o maior problema no futebol português, e não é de agora, são os dirigentes e como encaram os problemas do futebol e principalmente como não os querem resolver.
Nem vou pelo numero de jogadores nos planteis dos "grandes", que é desproporcionado, como toda a gente sabe, e pelos empréstimos que fazem aos outros clubes.
Acho que o maior problema é a existência de jogadores estrangeiros a mais nesses planteis e nos clubes "pequenos" também, tapam os jogadores portugueses que em nada lhes são inferiores, deveriam fazer como a Premier League, só entram jogadores estrangeiros mediante certas condições, não cumprem, não entram.
Centralizar as negociações dos direitos televisivos poderá ser uma boa ideia, mas tendo em conta a população de Portugal, que em nada se pode comparar a Itália, Alemanha, Espanha, França ou Reino Unido, além do interesse que outros países tem ou não em transmitir os jogos do nosso campeonato, pelo que não acredito que venha a fazer diferença no equilíbrio orçamental em os ditos "grandes" e os "pequenos".
Também os nossos "grandes" sofrem do mesmo problema quando comparamos com os orçamentos de outros clubes de Ligas melhores que a Portuguesa, basta ver que o ultimo classificado da Premier League recebe mais em direitos televisivos que o orçamento de FCP, SCP ou SLB.
Para se perceber bem a ordem de grandeza dos montantes distribuídos pela Premier League, basta dizer que o Sunderland, último classificado em 2106/2017, encaixa 107,5 milhões de euros.
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De SMCM a 28.08.2017 às 14:39

Mas a centralização poderia trazer vantagens.
Exemplo: estando centralizada num organismo esse organismo tem maior poder/facildidade de negociar do que cada clube de forma individual. Se se quiser vender os jogos da liga para o estrangeiro, alguém consegue? Alguém vai pagar a 18 entidades diferentes para ter os jogos da liga nacional? Uma das vantagens da centralização da premier league, foi que passou a ser mais fácil vender o pacote de todos os jogos da premier league, para todos os cantos do mundo. Chegando a todos os cantos do mundo, encaixam mais $, atraem mais investidores (os próprios clubes conseguem maiores receitas nas publicidades do estádio e camisolas, uma vez que a imagem é vendida para todo o mundo). Ou seja, mais receitas para os pequenos clubes, mais competitividade, maior capacidade para vender, mais receitas.
Se o nosso futebol estivesse já organizado, não teria havido curiosos e interessados em comprar os jogos da primeira liga após a vitória de Portugal no Euro2016? Tinha..
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De Sim Abelha a 28.08.2017 às 15:20

Julgo que a razão do campeonato portuguese nunca poder ser verdadeiramente competitivo é a falta de adeptos dos clubes ditos "pequenos". Para além de Braga, Guimaraes e Académica (talvez Boavista), mais alguem consegue médias de espectadores "próprios" acima dos 5 mil? Essa é a média da quarta divisão inglesa ou alemã... Mesmo se o Moreirense recebesse 10M de receita televisiva para investir, isso faria diferença? Julgo que um campeonato a 4 voltas com 8 ou 10 equipas tornaria os espetaculos sempre interessantes e tirava o peso dos "derbies" entre grandes.

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