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Baixas expectativas trazem invariavelmente boas surpresas. Porém, o esforço de baixar as expectativas retira-nos o prazer do optimismo e da confiança. Se, quando as coisas correm bem, estamos sempre a pensar na sua inevitável transitoriedade, acabamos por viver num estado de limbo eterno de tristezas ténues e contentamento medíocre. A existência torna-se insuportavelmente morna.

No entanto, o que é incontestável é que há um prazer específico que decorre de as coisas correrem melhor do que estávamos à espera. Sentimos não só a alegria, mas o resgate da resignação em que nos tínhamos afundado. Isto para falar da inesperada e extraordinária caminhada do Sporting no campeonato até agora. Os sportinguistas têm todas as razões para estarem entusiasmados, mesmo que muitos estejam já a regular o entusiasmo para níveis próximos do pessimismo e do fatalismo, não vá a equipa sofrer um daqueles súbitos bloqueios que em parte explicam dezoito anos de insucessos.

Não me parece que um eventual problema venha dos jogadores que têm jogado. Mais para a frente, lesões e castigos poderão expor a falta de profundidade do plantel, mas os que têm jogado até agora fazem-no de uma forma que contraria tudo aquilo a que já chamei “sportinguidade”. Ao longo das últimas temporadas, há em certos jogadores do Sporting um peso existencial que vai muito para lá das suas condições técnicas. Em alguns deles, esse peso é bem visível assim que chegam ao clube e são de imediato contaminados, como espíritos fracos propensos à possessão demoníaca.

Os mais fortes veem a resistência esgotar-se ao fim de alguns resultados negativos. Basta uma simples bola na barra e o melhor jogador do mundo transforma-se num veterano das distritais. Até os jogadores da formação, que entram na equipa principal com a qualidade e a irreverência natural da juventude, vão-se diluindo aos poucos numa estrutura atávica e repetitiva de frustrações. Isto para nem sequer falar de turistas que chegam a Alvalade por empréstimo exibindo um esplendoroso desinteresse por tudo o que os rodeia como se nem sequer soubessem em que país aterraram.

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O vincado desafio de vencer essa inércia, essa invencível propensão para a derrota, tem sido o grande drama do Sporting nos últimos anos. A equipa joga sobre brasas. A cara de jogadores experimentados, como Coates, exprime muitas vezes um pavor lívido perto do pânico, como se, tal qual um filme de terror, a terra pudesse abrir-se à sua frente e tragá-los ou a bola ganhasse vida e ameaçasse devorá-los. Bruno Fernandes, talvez o melhor jogador do Sporting nos últimos quinze anos, jogava com raiva, agressividade e espírito de luta, mas nunca com alegria. Jogava, como escrevi aqui, exasperado com os colegas, com os árbitros, com o mundo. Jogava contra tudo e contra todos. Jogava num paroxismo de infelicidade.

Podem os especialistas da bola dizer que, no futebol profissional, a alegria nada conta, é um vago estado de espírito que não se pode medir nem avaliar. Em parte, concordo, mas depois vejo a alegria do jovem Pedro Gonçalves a jogar e aquilo que parece confuso torna-se claro. Pote, é assim que o chamam, joga com uma alegria transbordante. Arrisco dizer que, noutra época, jogadores com o perfil de Pote e, em certa medida, de Nuno Santos, já estariam queimados no Sporting. O público de Alvalade pode gabar-se de ser fiel, mas também pode ser uma inegável cruz para os jogadores, uma nuvem negra geradora de uma ansiedade tóxica. E o que vejo é estes jogadores a jogarem sem complexos, sem traumas, sem o temor dos assobios.

A camisola do Sporting pesa-lhes, mas no bom sentido, que é o de jogarem num grande. Jogam leves, sem fatalismos. Pote joga com um sorriso, remata com um sorriso, festeja com um sorriso. Os golos que ele tem vindo a marcar são de uma simplicidade genial. Não têm arabescos, nem cornucópias, nem rodriguinhos, seguem apenas o caminho natural das botas para a baliza. É tão simples que dá vontade de rir. E é por isso que ele se ri muito. E nós também.

Se acham que a alegria é mera conversa de escritor, tudo bem. Voltem lá às análises das transições e desses outros bichos tácticos. Eu apenas recupero as palavras de um dos primeiros treinadores do miúdo: “Ele praticamente cresceu sozinho. Lembro-me que ele foi assaltado algumas vezes e houve um dia que estava triste porque lhe tinham roubado os cromos. Mas nos treinos e nos jogos era sempre um miúdo alegre.” Percebem? Bruno Fernandes – perdoem-me voltar à comparação – de cada vez que rematava fazia-o para pôr fim a uma maldição. Pote, em cada remate, em cada golo, reinventa a alegria.

Artigo de Bruno Vieira Amaral, em Tribuna Expresso

publicado às 04:00

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