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Promiscuidade ao mais alto nível

Rui Gomes, em 23.09.18

 

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Quem segue as minhas intervenções públicas sabe que, em relação ao 'Benfica de Vieira', sempre apresentei as minhas teses em dois planos:


1. A vincada evolução que o clube conheceu, do ponto de vista da ultra modernização das infra-estruturas, com óbvia repercussão na qualidade do projecto desportivo;


2. A obsessão em querer ver tudo controlado, fora das quatro linhas, como espécie de 'lei' conferida pela sua dimensão, sendo esta sobretudo nacional - número de adeptos, maior atractividade comercial, etc., etc.


Com Vieira, tem havido '2 Benficas': um pujante e progressivo, e profissional, no que diz respeito à sua 'roupagem' de grande clube; um outro capaz de promover mecanismos e dinâmicas de sedução pouco recomendáveis - e o eufemismo nem sequer pretende mitigar a acusação do Ministério Público em relação ao 'e-toupeira', segundo a qual a SAD está acusada de 1 crime de corrupção activa, 1 crime de oferta ou recebimento indevido de vantagem e 28 crimes de falsidade informática.

 

Nesta óbvia obsessão de ver tudo controlado (Arbitragem, Disciplina, Justiça, Parlamento, Comunicação Social, etc.), os responsáveis do Benfica têm sido de uma arrogância que lhes pode ser fatal. Acharam que nada os podia atingir, protegidos pela força da 'marca Benfica', e a revelação dos emails, depois de ter aberto a 'caça ao hacker', mostra acima de tudo - e o que de resto as investigações determinarem - uma grande promiscuidade. Promiscuidade ao mais alto nível.

 

Esta clara ideia de promiscuidade à solta, sob a convicção de que a Justiça não pune os poderosos, representa um olhar redutor de um país periférico, sem lei, sem autoridade, sem dignidade. Um olhar próprio de quem vê, através de um umbigo espelhado, uma República das Bananas.

O acesso ilegítimo é punido por lei. Mas, como tenho sempre dito, o acesso ilegítimo não pode ser apenas censurado quando nos sentimos invadidos na nossa privacidade; também tem de ser (auto) reprovado quando se acede, ilegitimamente, aos processos que deveriam estar em recato na máquina do aparelho judicial e judiciário.

O Benfica perde qualquer tipo de razão ao criticar a devassa do seu sistema informático e não o consegue fazer quando devassa o sistema informático da Justiça. Ambas as situações são graves e punidas por lei.

Há um denominador comum em todos os processos a envolver o Benfica: tentar 'prender o rabo' a várias figuras ligadas, directa e/ou indirectamente, ao futebol. Foi assim com os vouchers, foi assim com a criação das toupeiras, foi assim com o processo de rangelização do 'aparelho judicial'. A ideia é a mesma: que nenhum 'árbitro' tenha condições ou a ousadia de tomar decisões contra os alegados interesses do Benfica. Uma espécie de (boa) polícia de usos e costumes, à prova de qualquer iniciativa policial.

Quando um clube de futebol ousa criar uma espécie de 'ultra-polícia', para tentar estar um passo à frente das investigações, algo está profundamente errado no cérebro de algumas pessoas. A ideia é demasiado ousada e arriscada para ser patrocinada ou em negação ou em doses contraditórias de decisões que nunca são assumidas em pleno, como no caso vertente de Paulo Gonçalves.

 

As ligações do Benfica com Paulo Gonçalves são tão fortes que, mesmo na hora de prescindir dos seus serviços, foram necessários (em comunicado) mais do que mínimos salamaleques. O reconhecimento da lealdade (de Paulo Gonçalves) legitima a leitura de que ele estava alinhado com uma estratégia e com o projecto em todas as suas vertentes. A não assumpção, por parte da Benfica SAD, da responsabilidade de prescindir dos serviços do seu ex-assessor jurídico já significa muito. A proposta foi de Paulo Gonçalves; não foi do Benfica. Quer dizer: ambos podem ter concertado posições, no sentido de, no limite, se protegerem um ao outro, numa manobra de contorcionismo desconfortável e impossível, mas a imagem que fica é muito redutora para o Benfica: não foi capaz de tomar uma posição clara, e a recente imagem de Paulo Gonçalves na tribuna de honra [vide foto deste texto] adensa essa ideia de que o Benfica se deixou aprisionar.

Esta ideia de um Benfica aprisionado (e verdadeiramente em apertos) é perturbante e penaliza muito a imagem de Luís Filipe Vieira.

 

Rui Santos, jornal Record

 

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publicado às 03:32

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4 comentários

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De Dk Nepo a 23.09.2018 às 09:41

Concordo com a globalidade do texto, acreditando que tudo o que acusam o Benfica é verdade. Inclusive, tenho sido criticado no seio dos meus amigos mais próximos, todos nós benfiquistas, porque eles defendem a existência de uma cabala e eu não, já tendo sido chamado de dragarto ainda que nesta parte seja em tom de brincadeira.
Mas há um ponto que lhes tenho que dar razão, que é, porque os e-mails vão sendo libertados, e publicados na imprensa a ordem de 2/3 de vez em quando, e em datas estratégicas? Claro que em cima disso falam em adulteração de e-mails, mas aí, não têm como provar. Como isto incomoda verdadeiros benfiquistas, só espero rapidez da justiça, dê por onde der, e acabar com este limbo constante. Não quero ser defensor de algo grave que o meu clube possa ter feito, quando critiquei o apito dourado e em que para os adeptos do FC Porto foi na passa nada... Os mesmos que são hoje uns falsos puritanos e que vão passando pelos pingos da chuva... Já agora, ontem em Setúbal foi tudo normal?
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De Pacheco a 23.09.2018 às 17:07

Adulteração pode ter acontecido, já provar depende de quão bem o Rui Pinto fez o trabalhinho, mas se se conseguir provar que ele entrou no servidor de e-mails do Benfica, essa hipótese fica em cima da mesa e pode ser suficiente para anular os e-mails como prova. Também depende de outras provas que a PJ tenha obtido e quão bem encaixam nos e-mails ou não.

Dito isto, já há vários anos que fiquei com a sensação que o controlo da arbitragem tinha passado do Porto para o Benfica simplesmente pela actuação dos árbitros. Se não me falha a memória, a época em que o Eusébio faleceu foi a época de transição em que as coisas foram balanceadas em termos de arbitragem. Nas épocas seguintes até metade da última, o Benfica dominava claramente.

Quaiquer que sejam as consequências, só espero que o cromo do Rui Gomes da Silva não seja o próximo Presidente.
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De Mike a 23.09.2018 às 14:26

O bruno de carvalho e que tinha razão qd disse que este tinha um pikinho a azedo
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De Leão Zargo a 23.09.2018 às 16:15

Rui Santos faz uma análise muito assertiva do Benfica actual presidido por Luís Filipe Vieira. De facto, um dos maiores defeitos do Benfica é a sobranceria e arrogância com que olha para os outros clubes, instituições, etc. Mas, sobranceria e arrogância em excesso têm um efeito perverso, pois provocam fragilidade pelo pavor de se perder o que se conquistou em determinado momento. Daqui ao resto...

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