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Aquela velha noção dos ingleses que o futebol é a coisa mais importante, das coisas menos importantes, ainda tem razão de ser? No meio de uma pandemia onde morrem pessoas, consegue o futebol ser o regresso semanal à infância, e um espaço de liberdade único onde somos selvagens e sentimentais, de que falava Javier Marias?

Escrevo isto com muita preocupação, e sim, pessimismo e desencanto, parece-me que o futebol vai entrar numa crise muito profunda com o que se está a passar. Parece-me que há pessoas que estão de algum modo como os passageiros do Titanic, à beira do naufrágio, mas não prescindindo do quarteto de cordas para entreter...

Olho para a foto do post, do futebol de antigamente da minha infância, e redobro a minha determinação de ser veemente contra o regresso, sobretudo por se perceber que o mesmo é precipitado por uma indústria corrupta que criou um monstro incontrolável, à margem de todas as noções de legalidade, e sobretudo da mínima decência.

Tudo o que estamos a viver é novo, volátil, inexplicável e sobretudo imprevisível. Ninguém vai sair exactamente igual do momento que vivemos, a concepção sobre o que é a vida vai necessariamente mudar, e isto que se está a passar no Mundo é demasiado avassalador para as pessoas se distraírem por duas horas com pão e circo, metendo em risco a vida e a saúde dos profissionais da modalidade, que são tratados como os gladiadores na Roma antiga. A lógica? São bem pagos, têm mais é que comer e calar, porque há uns abutres que precisam de aproveitar este momento para atenuar as perdas da crise...

No futebol puro do tempo do senhor Rui Manuel Trindade Jordão isto não existia, porque a televisão era um fenómeno residual, quando hoje faz simplesmente parte da indústria global do entretenimento. Questiono-me... se alguém consegue sentir o mesmo prazer, paixão e alegria com o futebol no contexto em que estamos.

Penso para trás, e penso no que era a grande falta de racionalidade da minha vida. Até há dois meses, eu era louco por bola, adorava futebol, era capaz de ver uns vinte jogos por semana, sem exagero, senão vejamos:

Via os jogos todos do Sporting, do Benfica, do Porto, às vezes os jogos do Braga...! Via os jogos do Atlético de Madrid, do Real Madrid, do Barcelona, do Liverpool, do United, do City, da Juventus, às vezes os jogos do Inter assim com os do Bayern e do Dortmund... À terça escolhia um jogo da Champions, à quarta escolhia outro, à quinta via o nosso Sporting na Liga Europa...! Quando era época de selecções para além do jogo de Portugal, via sempre mais um ou dois jogos.

Estamos a entrar no terceiro mês consecutivo sem bola, e sinto que isto só nos faz bem; permite uma pausa na vertigem semanal e faculta racionalizar a realidade. Era absurda a vertigem em que estávamos, onde o futebol fazia parte do entretenimento nocturno diário da vida dos adeptos.

Ah... e quando não eram os jogos de futebol, eram os sempre intermináveis programas a falar sobre os jogos. Eram os dias seguintes, os prolongamentos, e o diabo a sete.

Isto era um mundo digno de uma peça de Ionesco, e pessoalmente esta pandemia fez-me concluir que gastava muitíssimo mal o meu tempo. Mas sobretudo ficar com a certeza que vou passar a ter uma relação muito mais racional com o futebol.

Por todas estas razões sou vincadamente contra o regresso do futebol nesta altura. Não vejo a menor necessidade neste cenário, e pior creio que vai contribuir para o afastamento dos adeptos. Mas enfim, um futebol que acha uma nova normalidade nos jogos à porta fechada, não quer saber dos adeptos para rigorosamente nada. Se os adeptos reagirem e virarem as costas ao futebol, ninguém pode estranhar.

Texto da autoria de Pedro Soares (Originalmente publicado num Grupo de Facebook), a quem agradecemos desde já a gentileza.

publicado às 04:04

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14 comentários

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De Carlinha MR a 14.05.2020 às 08:55

Percebo e concordo com o Pedro Soares, porque como disse num outro post, a saúde e a sobrevivência estão acima de tudo!

Por outro lado temos o factor económico que se sobrepõe, que dita a sobrevivência dos clubes!
Muitos começam a sentir desespero por não haver futebol que, sem dúvida, é uma paixão incontrolável e uma companhia!
Contudo, quem esteja com a ilusão de que tudo irá normalizar a breve trecho, que se desengane!
Tão cedo, não acredito!
E para quando a vacina? Ninguém sabe, ainda há muito que descobrir, estudar e evoluir até que se chegue à solução mais segura! Nada é garantido!

Pessoas ligadas à saúde dizem que, se reunidas todas as condições, que é tranquilo! Assim seja, desejo o melhor!
Se correr para o torto, quem será o responsável? O Camões ou Don Afonso Henriques? Ah, a dona Urraca também poderá entrar nessa equação!

Boa sorte a todos é o meu mais profundo desejo!
Bem-vindo meu estimado amigo Pedro Soares, gostei de ler este teu texto.

Beijinhos verdinhos,
Carlinha
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De Rui Gomes a 14.05.2020 às 13:18

As consequências do regresso que está agendado são imprevisíveis. A sociedade global e a indústria futebol reagirão mediante acontecimentos.

De uma forma ou outra, mesmo com a pandemia ultrapassada, pouco ou nada irá "normalizar" a breve trecho, mas eventualmente regressará ao status quo, mesmo que hajam alguns ajustamentos.
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De Schmeichel a 14.05.2020 às 09:34

Não me parece que realizar jogos sem espectadores possa criar algum tipo de risco acrescido…. e como é obvio as sociedades têm de se entreter e o futebol sendo o desporto rei tem um papel muito importante na sociedade portuguesa.

Queria apenas acrescentar um ponto….. na minha forma de ver a gestão do futebol tem de mudar…. os custos antes do Covid na gestão de um clube de futebol eram exagerados e fora da realidade, pagar 10% de comissões a agentes que não contribuem para o futebol, pagar valores exorbitantes por treinadores e jogadores não pode continuar.
Os orçamentos dos clubes têm vindo todos os anos a subir sem isso se refletir num aumento de qualidade, o que aumentou foi apenas a mama e aumentou a dependência de empresários e fundos de investimento para coim isso manter a rolar a máquina das compras e vendas de jogadores por valores obscenos e com isso manter a máquina das comissões a trabalhar.
Não tem sentido apostarmos num puto da formação e passado 1 mês já o estamos a vender…. e depois vamos comprar um estrangeiro qualquer…. fazendo as contas o lucro é irrisório e o que fica é que deixamos de ser um clube de futebol para ser uma empresa de futebol….. coisas muito diferentes e que esta crise vai ter o condão de trazer o futebol para uma gestão mais humilde mas mais condizente com a realidade das receitas.
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De Rui Gomes a 14.05.2020 às 13:12

Compreende-se o argumento, ou pelo menos o desejo, mas eu acredito veemente que com a crise ultrapassada, partindo d princípio que o vamos conseguir, tudo eventualmente voltará à "normalidade".

Não devemos subestimar a ganância do homem...
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De Leão Zargo a 14.05.2020 às 12:02

Caro Pedro Soares

Li com muito interesse (e prazer) o seu texto. O Pedro "verbalizou" de uma forma muito precisa um certo sentimento, nem sempre entendido por todos, deste tempo pandémico perigoso e instável que vivemos. Agora, qualquer decisão é falível e reversível como provavelmente nunca aconteceu nas nossas vidas.

O parecer técnico da DGS (divulgado pela FPF e Liga) determina que:

"A FPF, a Liga Portugal, os clubes participantes na Liga NOS e os atletas assumem, em todas as fases das competições e treinos, o risco existente de infeção por SARS-CoV-2 e de COVID-19, bem como a responsabilidade de todas as eventuais consequências clínicas da doença e do risco para a Saúde Pública."

Este compromisso terá de ser assinado por todos os agentes desportivos envolvidos. E se alguns (por exemplo, jogadores ou médicos) se recusarem a assinar? Jogadores por natural receio, médicos por não pretenderem assumir a responsabilidade de consequências que lhes sejam alheias.

Gostei muito de ler "estamos a entrar no terceiro mês consecutivo sem bola, e sinto que isto só nos faz bem; permite uma pausa na vertigem semanal e faculta racionalizar a realidade." É isso mesmo. Obrigado.

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De Rui Gomes a 14.05.2020 às 13:08

Mas essa pausa é uma pausa forçada e não voluntária, o que implicará que quando deixar de o ser tudo regressará aos status quo, tanto com a indústria como com o adepto.

Creio, no entanto, que mesmo que a pandemia seja resolvida num futuro próximo, o que por agora é muito duvidoso, o que falta desta temporada e os próximos tempos serão muito diferentes do que estávamos habituados.

A "normalidade", com todos os seus quês e porquês, será recuperada gradualmente.
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De Greenlight a 14.05.2020 às 12:11

Como é dito no post, no futebol de antigamente a televisão era residual. Mas hoje é crucial. Antigamente também não havia telemóveis, internet, etc. A Realidade hoje é outra, goste-se ou não. Lembro-me de ler, numa entrevista, há cerca de 20 anos atrás, a Francisco Brennand, grande artista plástico brasileiro, onde ele dizia que quando se deslocava à Europa, vinha sempre de barco, pois os dias da viagem eram necessários para fazer a transição do novo para o velho mundo. Hoje e após esta pandemia, a globalização poderá sofrer alterações no que às viagens de pessoas e mercadorias dizem respeito, mas a viagem da informação vai ser incrementada e a TV é um dos meios por excelência para esse propósito. Assim não me parece que faça sentido falar da saudade do futebol sem TV. Quanto ao monstro da corrupção e dos artistas habilidosos que o alimentam e dele beneficiam, como é o caso em Portugal, não são uma inevitabilidade resultante do papel omnipresente da TV como se pode constatar na Inglaterra.
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De Rui Gomes a 14.05.2020 às 12:59

Parece-me que a transmissão de jogos e tudo o que isso implica e a corrupção que existe na indústria, nomeadamente em Portugal, são duas questões distintas.

Por outro lado, também é verdade que a luta por todos os meios para chegar à Champions - com os respectivos prémios milionários provenientes dos contratos com as operadoras - é uma ligação directa e incontornável.
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De Helder Mestre a 14.05.2020 às 12:44

Diz-se que o futebol tem que ser retomado, porque os clubes não conseguem sobreviver. Então que deem dois passos atrás e vivam com as receitas que geram sem necessidade de viver num modelo de roleta russa. A verdade, é que os abutres que gravitam à volta desta atividade, esses sim, não querem que este modelo de futebol lavandaria acabe. E é a esses agiotas que interessa a retoma deste futebol. Não seria, esta a altura indicada, para refundar o futebol? Eu, por mim, não sinto nenhuma saudade do futebol que nos vinha intoxicando até há dois meses.
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De Rui Gomes a 14.05.2020 às 12:53

Um cínico diria que assim a que a crise (pandemia) for resolvida, voltará tudo ao mesmo de sempre, especialmente em Portugal.
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De Alice Dias a 14.05.2020 às 13:02

Subscrevo inteiramente pois o futebol enquanto desporto de massas não devia priorizar interesses financeiros em detrimento da vontade dos seus atletas, que não terão voz ativa nesta retoma, nem secundarizar os seus adeptos que vivem este desporto com paixão e intensidade. Os jogos à porta fechada perderão parte intrínseca da sua componente pois para mim é inconcebível dissociar um jogo sem adeptos presentes.
O nosso velho lema "só eu sei porque não fica em casa"... passa a não ter razão de ser pois o novo imperativo é - Assistam aos jogos em casa.
Tempos estranhos estes, onde se implementam novas regras que acarretam muitas mudanças que paulatinamente e a contragosto teremos que enraizar.
Será que não estaremos a matar o futebol na sua essência?
SL
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De Rui Gomes a 14.05.2020 às 15:56

Estamos perante a proverbial faca de dois gumes.

Há argumentos válidos para os dois lados, mas é por de mais óbvio que o que está em curso, a começar pela FIFA e UEFA, é uma tentativa de evitar que a indústria caia no abismo.

Os jogos à porta fechada servem sobretudo para viabilizar o resumo das receitas das transmissões televisivas, sem as quais um bom número de clubes não conseguirão sobreviver.
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De Indiana Julio a 14.05.2020 às 14:29

Essa imagem é a do 3 golo do Sporting no jogo do titulo em Alvalade contra o União de Leiria o tal golo que dei uma mãozinha ao Jordão.

Ele correu para trás da baliza a grande velocidade mas quando percebeu que ia ser apanhado pelo publico virou de novo para o relvado sempre com o pé no acelerador.

A minha explicação para as questões que levanta o texto é simples e ja a descrevi aqui outras vezes.

>Nesse tempo da foto o planeta tinha pouco mais de 4 Biliões de pessoas hoje estamos quase no dobro.
E esse aumento desmesurado está a trazer consequências que terão tendência a agravar-se
Quando um dia decidirem todos parar para pensar e refletir nesse problema então irão compreender que terão que fazer alguma coisa .
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De Rui Gomes a 14.05.2020 às 15:59

Bem... adianta uma opinião muito generalizada que acaba por dizer muito pouco no contexto da actual situação.

Nós sabemos que há questões globais que afectam a vida do nosso Planeta, mas não me parece que seja esse aspecto que o autor refere no seu texto.

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