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Ser Sporting não se implora, não se ensina, não se espera, somente se vive... ou não.
O húngaro Joseph Szabo e Fernando Peyroteo são duas figuras míticas do Sporting Clube de Portugal e que trabalharam em conjunto ente 1937 e 1945. Nutriam, entre eles, o maior respeito e a mais absoluta admiração.
Szabo, treinador húngaro, revolucionou o futebol do Sporting ao impor uma disciplina férrea no quotidiano dos atletas, o planeamento desportivo da época, o rigor absoluto nos treinos e um sistema táctico revolucionário, o WM. Era frequente utilizar um tabuleiro com vinte e duas figuras para explicar a “táctica”.
Por vezes algum jogador mais brincalhão escondia-lhe os “bonecos” o que provocava fúrias ao treinador que rapidamente se esmoreciam. No fundo, o húngaro era um grande folgazão com um forte espírito disciplinador.
É Szabo quem está na origem dos "Cinco Violinos", ao descobrir o talento ímpar de Peyroteo e de Jesus Correia e conceber o esquema táctico que iria integrar os cinco avançados. Permaneceu oito épocas consecutivas à frente da equipa do Sporting, conquistando treze títulos, um record que ainda hoje se mantém. Voltaria ao Sporting, mais tarde, nas décadas de 1950 e de 1960.
A época de 1939-40 foi particularmente desastrosa, uma vez que o Sporting não conquistou qualquer título nas provas em que participou. O F. C. Porto venceu o Campeonato Nacional e o Benfica a Taça de Portugal e o Campeonato Regional de Lisboa. A contestação foi forte até porque Szabo também fazia questão de granjear as suas animosidades e o presidente Joaquim Oliveira Duarte hesitava na renovação do contrato. Perante a indecisão do presidente e a contestação de alguns directores e sócios, Peyroteo assumiu a defesa do treinador e aconselhou o presidente a manter o técnico. E assim aconteceu.
Ninguém podia adivinhar, mas a época 1940-41 seria extraordinária pois o Sporting venceu pela primeira vez o Campeonato Nacional e a Taça de Portugal, nos novos moldes, para além do Campeonato Regional de Lisboa. O “tri”, como se dizia na altura!
Curiosamente, Szabo não era nada “meigo” com Peyroteo, o seu jogador eleição e que ele considerava a grande estrela da equipa. É célebre a sua exclamação quando Peyroteo se acercava da baliza adversária e o golo era eminente: “Cárega, Maria”! Precisamente por isso, por ser o melhor jogador, Peyroteo tinha responsabilidades acrescidas.
Num dia em que Szabo prolongou a prelecção muito para além do que era habitual e Peyroteo e outros tinham comprado bilhetes para a “matinée”, tendo soado um reparo, de pronto se ouviu o mestre: “Sinhor Férnando, o seu cinéma é este”. Sempre o goleador a ter que dar o exemplo!
Naquele tempo de semi-profissionalismo os jogadores treinavam antes de irem para os empregos. No Sporting, era normal o treino iniciar-se às 7.45 horas ou até antes. Peyroteo residia em Sintra e tinha de apanhar o comboio das 6.03 horas para chegar a tempo ao treino. Um dia que se atrasou, Szabo não permitiu que Peyroteo se juntasse aos jogadores em exercícios de aquecimento. Antes, mandou-o dar quatro voltas em corrida e quatro em marcha ao rectângulo de jogo.
Nesse tempo a equipa realizava dois treinos semanais, mas Peyroteo, que treinava ainda outros dois dias com nove quilómetros de corrida e treino com bola, ficou confiante que o assunto ficaria arrumado com um pedido de desculpas e uma justificação a propósito do despertador que não o teria acordado.
Nada disso. No final do treino, Szabo chamou-o de parte e disse-lhe: “Sinhor Férnando, ter que ser multado dez per cente no ordenado, Férnando ter quê dar exemplo. Tudos égales, Férnando... Ok, Férnando, você treinar quatro vezes por sêmana, eles dois, mas não treinar para mim, treinar para si. Não poder desculpar, outros dizer quê você mênino bonito... Todos égales.”
Como era costume, depois do treino ambos apanharam o eléctrico do Lumiar para os Restauradores. Szabo tinha um plano e Peyroteo começou a desconfiar que o assunto não estaria arrumado. Então, para quebrar o gelo entre ambos, o treinador prazenteiro virou-se para a estrela e disse que lhe perdoava a multa se comprasse um despertador novo escolhido por ele. Peyroteo, aliviado, disse logo que sim. Entraram numa relojoaria da Baixa e foi Szabo que escolheu o despertador. Caríssimo, terá custado 50 escudos!
No domingo, antes do jogo, durante a prelecção à equipa, Szabo estava muito bem humorado: “Sinhores, Férnando não chigar mais atrasado a training. Fumos comprar déspertador, experimentar tocar lá na loja e fazer barulheira quê Azêvedo vai ouvir no Bareiro”.
(Texto adaptado de “Fernando Peyroteo”, por Carlos Loures, e da Wiki Sporting)
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