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Sem ovos fazem-se omeletas !

Leão Zargo, em 20.12.15

 

SCP 61-62.jpg

 

Qualquer treinador de futebol em momento de aperto tem por hábito puxar de umas quantas frases batidas e que, à falta de melhor justificação, costumam fazer o seu caminho. É o caso da célebre sentença “sem ovos não se fazem omeletas”. Aposto singelo contra dobrado que esta frase é bem conhecida por todos os leitores do Camarote Leonino. O que alguns não saberão é que ela foi proferida por Otto Glória, sendo treinador do Sporting em 1961, na sequência de um empate com o Lusitano de Évora e de uma chuva de assobios no final do jogo em Alvalade. Para compor o ramalhete, no jornal Sporting duvidou-se da capacidade do treinador para fazer as mudanças consideradas necessárias para que o Clube readquirisse a hegemonia do futebol português.

 

Otto Glória foi contratado quase no final da época de 1960-61 para substituir o argentino Alfredo Gonzalez depois de uma derrota frente ao Barreirense que comprometeu definitivamente as aspirações ao título no Campeonato Nacional. A Direcção do Sporting viu nele a grande oportunidade de, finalmente, recuperar o terreno perdido para o Benfica desde meados da década de 1950. E talvez houvesse razões para isso pois, nos anos anteriores, o técnico brasileiro foi campeão por duas vezes ao serviço do clube da Luz, para além de ter vencido a Taça de Portugal em três edições. Também no Belenenses conquistou a Taça de Portugal.

 

Terminada a época de 1960-61 com nenhuma glória, Otto preparou a seguinte. Desilusão completa. O Sporting ficou pelo caminho logo na primeira eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus derrotado pelo Partizan de Belgrado. Pior ainda terá sido o empate em casa com os eborenses, na primeira jornada do Campeonato Nacional. Talvez tudo fosse ultrapassado se ele não tivesse proferido a frase “não posso fazer omeletas sem ovos”, aliás muito ao jeito do brasileiro. Referia-se à ausência de dois jogadores de gabarito, o argentino Diego e o brasileiro Géo.

 

Certo ou errado, a verdade é que a frase caiu mal no balneário. Depois dos assobios dos adeptos e das dúvidas expressas pelo redactor do jornal do Clube, alguns dos jogadores leoninos ficaram de pé atrás com o renomado treinador por se terem sentido desvalorizados. Na segunda jornada havia uma deslocação complicada às Antas e o presidente Gaudêncio Costa não hesitou: despediu Otto Glória e apostou no jovem Júlio Cernadas Pereira (Juca).

 

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Juca, vindo do Sporting de Lourenço Marques, vestiu de verde e branco de 1949 a 1958. Foi cinco vezes Campeão Nacional e a camisola sportinguista foi a única que envergou. Era o treinador-adjunto de Otto Glória quando este foi despedido. Passando a treinador principal, pegou numa equipa marcada pelo insucesso da época anterior e pelo fracasso da eliminatória com o Partizan. Em poucos dias preparou os jogadores para o difícil embate com o FC Porto, com algumas alterações no meio campo e na linha avançada. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, costuma-se dizer. Nem mais. Vitória no Estádio das Antas por 2-0 e início de uma cavalgada que só terminaria com a conquista do Campeonato Nacional (1961-62).

 

A decisão do título foi remetida para a última jornada. Sporting e FC Porto estavam em igualdade pontual, os leões defrontavam o eterno rival em Alvalade e os portistas viajavam até Guimarães. O Sporting conquistou o Campeonato com uma deliciosa vitória sobre o Benfica (3-1) que pouco tempo antes vencera o Real Madrid na final dos Campeões Europeus, enquanto que o Porto saía da cidade-berço vergado por uma derrota. E Juca aos 33 anos foi o mais jovem treinador de sempre a sagrar-se campeão nacional. Afinal, sem ovos fazem-se omeletas, senhor Otto Glória!

 

 

Nota: Cartaz com a equipa do Sporting Clube de Portugal campeã nacional em 1961-62:

Em cima - Carvalho, Lúcio, Mário Lino, Fernando Mendes, Pérides, Hilário, Libânio, Manuel Marques     (massagista) e Juca (treinador)

Em baixo - Hugo Sarmento, Figueiredo, Diego, Géo e João Morais

 

 

P.S.: Em 1961-62 competiram dois clubes portugueses na Taça dos Clubes Campeões Europeus em virtude da vitória do Benfica frente ao Barcelona, em Berna. Por essa razão, apesar de ter ficado em 2º lugar no Campeonato Nacional, o Sporting teve direito a participar.

 

publicado às 12:07

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