Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ser ou não ser árbitro - uma reflexão

Naçao Valente, em 11.02.25

Ser árbitro de futebol, pode parecer, mas não é, uma tarefa fácil. Do ponto de vista técnico exige conhecimentos que podem ser aprendidos, mas do ponto de vista de aptidões pessoais, ou se nasce com aptidões, específicas, que se podem aprimorar ou não se nasce, tal como para outras profissões.

Na minha curtíssima experiência como árbitro, ainda bastante jovem, num jogo entre aldeias, e no qual não tive lugar na equipa, pediram-me para o arbitrar. Para além de um jogador da minha equipa me ter pressionado antes do início do jogo, deram-me um apito, que durante mais de quinze minutos, não se ouviu. Acabei de ser substituído por um senhor de idade madura. Deu para perceber bem, apesar da tenra idade, que não tinha nenhuma vocação para tal tarefa.

1000_F_209331651_F4NXmUBLfkpfZY0xSU3sEPCphFbkjYHp.

Passados muitos bons anos, fui aprendendo que para executar tal função, para além do conhecimento das regras, tem que se possuir uma série de características, que passam pela honestidade, capacidade de isenção, grande concentração, autoridade democrática de impor respeito, respeitando. No fundo, para ser um bom árbitro, tem de se roçar a quase perfeição, impossível de atingir por qualquer humano.

Por isso, procuro observar o acto de arbitrar com muita precaução. Enquanto adepto, tenho uma tendência natural para analisar arbitragens vestido com a camisola do meu Clube, por mais isento que queira ser. E seria hipócrita se não o reconhecesse. Tenho consciência que todos os árbitros erram, por incompetência, por desconcentração, ou até por má-fé. E não tenho quaisquer dúvidas que, em casos limite, têm influência directa na conquista de títulos.

A função de arbitrar tem hoje melhores condições para não errar, porque a formação está muito mais desenvolvida e porque houve evolução nas tecnologias, como instrumentos auxiliares. Apesar disso, os erros persistem, devido a situações difíceis de analisar, ou por outras mais discutíveis, de tal modo que se fazem debates entre comentadores e peritos de arbitragem, sem se chegar a um consenso.

Pondo de lado a tendência natural, para avaliarmos de acordo com os nossos interesses futebolísticos, a grande realidade é que a função de arbitrar devia passar por uma selecção rigorosa, assente em aspectos que à partida podemos considerar, como vocacionais. Porém , é muito difícil avaliar atitudes como isenção e/ou rigor. Outro aspecto que merecia uma revisão, tem a ver com a atribuição de responsabilidades a quem erra, sendo o castigo real adequado a cada situação. O que acontece hoje, é de uma total impunidade.

Acredito que grande parte dos candidatos à carreira, o faça por razões económicas, ou seja, como uma forma de ganhar a vida. Isso condiciona à partida a sua actuação. E agindo a natureza humana pelo princípio da sobrevivência, todos, com uma ou outra excepção, são vulneráveis a diversas pressões, sujeitos a quem controla o sector, também com total impunidade.

Deste modo, concluo, que os erros involuntários ou voluntários vão continuar a persistir. A minha esperança é que, dada a evolução tecnológica, com a inteligência artificial, permita construir máquinas programadas para uma função isenta e rigorosa. Mas mesmo assim, tudo depende de como possam ser programadas. Um assunto de difícil resolução e que vai continuar a dar azo a divergências jornada após jornada, e que merecia da parte das estruturas desportivas profunda reflexão, para bem da verdade desportiva.

publicado às 03:34

Comentar

Para comentar, o leitor necessita de se identificar através do seu nome ou de um pseudónimo.


30 comentários

Sem imagem de perfil

De Luis Carvalho a 11.02.2025 às 15:27

Estou de acordo com uma afirmação do Caro Nação Valente, que a maior parte dos árbitros, o são por questões económicas, sobretudo num país pobre como Portugal. Também há alguns que o são por tradição familiar, levados a ser porque os avós e país já o foram. Creio também que há outros que foram chamados para o serem, porque pouco jeito tinham na prática do desporto( não só futebol, mas outras modalidades, futsal, basquetebol, andebol, etc). O problema essencial da arbitragem em Portugal e agora referindo-me particularmente ao futebol, é a forma como são “ fabricados” os árbitros. Já aqui o escrevi diversas vezes, não há nada pior no futebol Português que o caciquismo, o amiguismo, a corrupção que se vive nas associações distritais de futebol. E se quisermos olhar um pouco para as maiores, vejam quem as lidera, quem liderou nos últimos muitos anos? Tive, por acaso a felicidade de há talvez uns oito, nove anos atrás, almoçar em Évora num restaurante de um benfiquista doente, eis colega de escola, numa mesa ao lado do responsável da arbitragem da associação distrital de Évora( que desconhecia e ele a mim) fui escutando as conversas, entre o dito cujo e o dono do restaurante. Despontava então o árbitro Luís Godinho, Borbense, e tendo ouvindo expressões, “ é um dos nossos”, “ sabe bem o que faz”, “ vai ter um grande futuro”, , não me contive e meti-me na conversa. O tom mudou, “ não, é um pessoa íntegra”, “ é do Benfica, mas quando entra em campo, despe a camisola”, etc. E é aqui que tudo começa, em pessoas que até podem ter bons princípios, mas em primeiro lugar estão completamente controlados pelos dirigentes das associações, quem não for da cor não sobe, e só chegam lá acima esses, e só lá perduram os que “ alinham” no status! Sei que há por aqui alguns que não gostam de expressões em língua estrangeira, mas no caso, não conheço melhor expressão, “ it’s a win win situation/ business”.
Imagem de perfil

De Naçao Valente a 11.02.2025 às 16:54

Caro Luís Carvalho

Concordo com a descrição que faz e que exemplifica como funciona o comportamento humano, geralmente condicionado por interesses económicos,

Em princípio, qualquer cidadão é honesto até deixar de o ser. Alguns em função da sua própria natureza, outros em função das circunstâncias. A nossa reflexão tem que ir no sentido de saber como se ultrapassa isto, o que não parece fácil.

Não conheço nenhuma solução simples, mas tendo em conta o que escrevi, penso que nada se resolve sem uma profunda reforma do sistema da arbitragem, em que os méritos sejam compensados, e os deméritos castigados.
Sem imagem de perfil

De Luis Carvalho a 11.02.2025 às 17:25

Concordo em absoluto com o seu último parágrafo. A arbitragem é hoje por hoje uma profissão bem paga, tem um problema termina muito cedo, como tal a profissionalização dos árbitros, sem qualquer outra ocupação ou negócio é complicada. O futebol tão gerador de receitas milionárias, poderia olhar para este assunto de uma forma séria, o que não faz. Criar escolas de árbitros com vista ao profissionalismo, a nível europeu; rotação de árbitros a nível europeu para as Ligas locais, aumento de receitas para viagens, estadias suportadas pelas ligas nacionais com fundos das transferências dos jogadores( % para quem compra, % para quem vende, % importante para agentes) ; o mesmo fundo seria responsável por pagamento de pensões aos que após retirada não tivessem outros rendimentos adequados com o que tinham aquando do activo, um género de pensão para profissão de desgaste rápido. Ser muito claro na questão de avaliação dos árbitros, passando de um CA, observadores, etc, para um grupo multidisciplinar europeu, onde uma arbitragem de um Sporting-Benfica fosse avaliada por gente nada interessada no resultado, nas consequências do mesmo. Poderia continuar por aqui a expor as minhas ideias, mas já vai extenso o comentário, há quase tudo por fazer, mas não há vontade, quer por aqui, como na UEFA, é tudo farinha do mesmo saco.

Comentar post





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Taça das Taças 1963-64



Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2014
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2013
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2012
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D




Cristiano Ronaldo