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Reflexão do dia

Rui Gomes, em 17.09.19

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Leonel Pontes vai ter mais três semanas para provar que consegue ressuscitar o Sporting, sendo razoável acreditar que a próxima paragem da I Liga, para os confrontos da Selecção Nacional no início de Outubro, possa ser aproveitada por Frederico Varandas para ponderar se a situação algo precária do treinador será ainda sustentável. Serão seis jogos no espaço de 19 dias, incluindo os duelos europeus com o PSV (depois de amanhã, na Holanda) e o Lask Linz (os austríacos jogam em Alvalade no próximo dia 3). Esta dedução, está bom de ver, é muito contingente e respalda-se essencialmente no ‘modus operandi’ do presidente aquando da troca de Peseiro por Keizer. 

Mas, claro, tudo pode ser precipitado pelo acumulado de fiascos (que, nesta altura, parece ser algo mais do que uma simples contingência). E também pelo calibre da contestação nas bancadas. Até porque não é seguro que Varandas já tenha assimilado plenamente que o clube não pode ser governado de fora para dentro. E muito menos em função das diatribes de uma minoria escabreada que só quer que o tempo volte para trás para poder voltar a beneficiar dos negócios esconsos que o submundo do futebol ainda vai oferecendo. 

Varandas anunciou Leonel Pontes como um técnico "sem prazo" e com "uma tarefa". Mas a missão depressa se transformará numa quimera se ao madeirense for exigido que resolva, num estalar de dedos, a multiplicidade de carências da equipa. E comparar o contexto da ‘chicotada psicológica’ no Sporting com o que levou à afirmação de Bruno Lage no Benfica nunca será um exercício honesto se não se levarem em conta as diferenças gritantes em termos de qualidade do plantel e de solidez directiva. 

Excerto de uma crónica intitulada "Como ressuscitar em três semanas"  de Bruno Prata, jornal Record.

publicado às 03:46

Bas Dost e outras coisas...

Rui Gomes, em 23.08.19

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Não existem jogadores de futebol insubstituíveis, mas existem jogadores que os adeptos e os treinadores não gostam nem querem ver partir. Nalguns casos, detestam mesmo perdê-los: pelas suas qualidades para a sua função e, muitas vezes também, pela empatia que o futebolista granjeou junto das bancadas e do balneário. E é mais isso que ressalta da iminente transferência de Bas Dost para o Eintracht Frankfurt, mesmo que, importa acrescentar, no caso de Marcel Keizer, os recorrentes panegíricos ao avançado não pareçam bater muito certo com o arquétipo tático que o técnico holandês perfilhou para o desamparar mais do que para o servir.

Provavelmente este sentimento algo melancólico também perturba a administração do Sporting, especialmente o seu presidente, que testemunhou de perto a idoneidade de Bas Dost bem como a forma como ele se transformou, involuntariamente, no mártir principal da bárbara invasão a Alcochete. Mas, já se sabe, a gestão responsável de uma SAD não se pode compadecer com estas pieguices, mesmo estando em causa um craque a quem os adeptos cantarolavam a música "Thunderstruck", dos AC/DC. Até porque a cada vez mais provável continuidade de Bruno Fernandes (essa sim uma excecional perspetiva tanto para o técnico como para os adeptos) poderá inviabilizar o expediente mais descomplicado e óbvio de regular o orçamento. Isto só acontece, vale sempre a pena repisar, porque Bruno de Carvalho olhou para a discussão do título como se de uma corrida de 100 metros se tratasse, gastando (e muitas vezes mal) o que havia e também por conta do que só devia ser embolsado nos próximos anos.

E, à conta disso, quem administra agora o clube terá de encarar a corrida do campeonato como se de uma maratona se tratasse, o que implica outro de tipo de gestão da logística, da energia e até de paciência. Mas se é fácil entender a necessidade imperiosa de reduzir a folha salarial (as notícias dando conta que o Sporting irá recuperar um valor próximo dos 11 milhões de euros que, em 2016, pagou ao Wolfsburgo por Bas Dost acabam por relevar principalmente a poupança dos quase 12 milhões que o holandês iria receber pelos dois anos que ainda tinha de contrato), fica mais difícil aceitar a forma como o holandês foi sendo diariamente enxotado nos jornais e nas televisões, como se não fosse legítima a sua vontade de continuar com o ordenado gordo e numa liga tão ou mais proeminente. A comunicação do Sporting é muitas vezes acusada, sem razão, de falta de acutilância, mas o seu principal problema continua a ser a incapacidade de gerir os tempos e a forma como passa a mensagem. (...)".
 
Bruno Prata, jornal Record

publicado às 12:15

Contra o sebastianismo

Rui Gomes, em 10.07.19

"Mais do que questionar se a Assembleia Geral do passado sábado, em que uma larga maioria aprovou a expulsão do anterior presidente da condição de associado, significou mesmo o fim de um ciclo tétrico e kamikaze no Sporting, aos actuais dirigentes leoninos e a todos que se preocupam genuinamente com o clube deverá agora interessar a análise de o leque de circunstâncias sociais, culturais e económicas que ajudaram a levar ao poder um incorrigível populista e demagogo.

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Até porque só esse exercício ajudará também a compreender como é que, apesar de todas as transgressões e malfeitorias (que nem sequer foram contestadas pelo inculpado no processo de expulsão), se mantêm as coléricas manifestações tribais em torno de uma figura que achava que a sua profissão era ser presidente do Sporting ad aeternum.

O ex-"querido líder" vai, obviamente, continuar por aí, até porque anda desocupado. E não será nada surpreendente que um canal televisivo não resista, um dia destes, a convidá-lo para um qualquer programa de má-língua. Confirme-se ou não, alguns sportinguistas irão continuar a acreditar que o seu guru irá regressar numa manhã de nevoeiro e montado num leão unicolor, qual D. Sebastião à moda da Quinta do Lambert.

É um sentimento de orfandade que acaba por ser natural e humano. E a melhor forma de contrariar a instabilidade criada por tanto ódio e deletério é evitar a hostilidade gratuita a quem continua a gostar do clube, mesmo que momentaneamente denote uma perversa inversão das prioridades.

Será preferível, pouco a pouco, explicar-lhes que aquele movimento profético gratifica excessivamente um dos piores reis da nossa história e o responsável pelo desaparecimento da maior parte da elite portuguesa na insensata batalha de Alcácer-Quibir. E que aquela atracção shakespeariana por um rei desparafusado e imaturo e por alguém que se achava protegido por um desígnio divino já despertou há cinco séculos e, até hoje, sem grande sucesso.

Será também este grande trabalho de pregação que se irá exigir a Frederico Varandas. O presidente do Sporting terá de continuar a reformular as infraestruturas e a formação de Alcochete. Terá também de equilibrar as finanças e inventar novas receitas, ao mesmo tempo que se impõe o investimento sensato (já realizado, em boa parte) no reforço da equipa de futebol.

Deve ainda cuidar e muito acarinhar as restantes modalidades, mantendo-as tão ou mais competitivas. Mas, ao mesmo tempo, precisa encontrar uma mensagem emancipada e suficientemente impactante junto das restantes instituições, dos seus indefectíveis, mas também junto daqueles que nas AG gritam extemporaneamente pela sua demissão.

Esta espécie de quadratura do círculo será porventura um dos seus principais desafios, até por o obrigar a sair um pouco mais da sua zona de conforto. Mas será a melhor forma de contrariar o sebastianismo".

Bruno Prata, jornal Record

publicado às 04:33

 

 

Gostei de ler este parágrafo de um artigo de opinião da autoria de Bruno Prata e concordo com muito da sua breve análise ao momento do Sporting:

 

«É verdade que ao Sporting lhe custava - até ao jogo em Barcelos - fazer coisas que antes lhe saíam de forma natural, sobretudo os golos. Mas já Arrigo Sacchi se queixava de que se julgam mais os resultados do que a capacidade de trabalho e de que falta gente capaz de compreender que "uma cabana pode ser construída num dia, mas nunca um arranha-céus". Ora, é preciso perceber que Marco Silva está a tentar conceber uma equipa que não se resuma a investir num jogo seguro, no erro alheio e nos ataques rápidos. E este processo de crescimento e transformação nunca é instantâneo. Aos que erradamente defendem que este Sporting tem mais armas do que o de Jardim, importa começar por explicar que formatar uma equipa para funcionar em organização é mais exigente do que para o fazer apenas em transições. Principalmente quando se perdeu a referência defensiva (Rojo) bem com a única alternativa credível (Dier) e se teve de confiar nos pés de chumbo de Maurício e na imaturidade de Sarr. Para as dificuldades na primeira fase de construção contribui ainda o eclipse de um William que precisa fazer reset ao seu software, porque não restam dúvidas de que mantém o hardware dos craques. Enquanto isso não acontecer totalmente, passou pelo menos a haver uma solução que melhora muito a coordenação do jogo ofensivo: João Mário. Com ele, Slimani ganhou um sócio que não tinha e o Sporting passou  ter outra capacidade de definição e agressividade, mais presença na área e remate, o que não é despiciendo num plantel em que só Nani vinha funcionando como verdadeiro reforço.»

 

publicado às 05:20

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