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Futebol com (algum) humor à mistura

Rui Gomes, em 18.09.18

 

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Este foi o fim de semana em que a famigerada Taça da Liga, que já conheceu um bom número de designações oficiais e oficiosas, conquistou a sua carta de alforria competitiva. No Dragão, viveram-se minutos dignos de Champions, com a expulsão do sempre combustível Sérgio Conceição e uma mão de Vata, perdão, de Aboubakar, que não valeu. Em Alvalade, Peseiro lá vai levando a água ao seu moinho em pezinhos de lã, que é como quem diz, em pezinhos de Bruno Fernandes. Na Luz, escreveu-se mais uma página dessa bonita história de amor entre o clube e a taça que era parente pobre, mas que agora já é remediada e que, um dia, talvez venha a pertencer à classe média. Em Paços de Ferreira, jogou-se à porta fechada, mas nem isso impediu uma desavença tipicamente lusitana rematada com corte de relações entre pacenses e avenses.

 

Por sua vez, em Itália, Cristiano Ronaldo reatou relações diplomáticas com o República do Golo e fê-lo na baliza onde, há meses, assinou o melhor da carreira, aquela bicicleta impossível que, de certa forma, o transportou de Madrid para Turim. O bis de Ronaldo – dois golos contra a angústia e a pressão – deveria ser a notícia do fim de semana se o companheiro do madeirense, Douglas Costa, não tivesse guardado para os minutos finais do jogo contra o Sassuolo uma portentosa exibição de pontaria.

 

A história conta-se em poucas linhas, como costumam dizer os prolixos: com a Juventus a ganhar 2-0, Douglas Costa sofre uma falta no meio-campo adversário. O árbitro manda jogar. Na sequência da jogada, Douglas Costa tira desforço de Federico Di Francesco, mas o Sassuolo marca um golo que semeia a incerteza no resultado (bonita expressão dos meandros futebolísticos). Bola ao centro, Costa e Di Francesco trocam algumas palavras, presume-se que no idioma de Moravia, e, sem que nada o fizesse prever, o jogador brasileiro presenteia o adversário com uma cuspidela certeira. O árbitro, alertado pelo VAR, exibe o cartão vermelho a Costa, que terá lamentado não se fazer acompanhar de um cigarro eletrónico que lhe servisse de álibi.

 

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Cuspir num adversário é talvez a agressão mais vil e nojenta em sociedade, desportos de contacto incluídos. Um insulto pode trazer para a discussão terceiros que nada têm que ver com o caso e um murro ou uma cabeçada certamente doem muito mais. Mas, como desconsideração, como ofensa, não há nada que se compare a esta cedência indesejada de fluidos. Nenhum adepto de futebol poderá esquecer o ignominioso escarro com que Frank Rijkaard atingiu Rudi Völler no Mundial de Itália, em 1990, com a agravante de se ter emaranhado na farta permanente do avançado alemão. Em Inglaterra, cuspir num adversário dá seis jogos de suspensão. Como escreveu um jornalista do Guardian, “cuspir adquiriu uma importância simbólica. É um crime que visa diretamente os valores originais do desportivismo, em grande medida imaginários.”

 

Em certas culturas, o ato de cuspir serve para manter o mal à distância, para afastar o mau-olhado e para proteger os recém-nascidos. Douglas Costa não terá tido motivações culturais para o seu gesto, nem terá tido a intenção de proteger Di Francesco do olho gordo de vizinhos invejosos, embora não fosse má ideia defender-se com um qualquer ritual de uma tribo amazónica em que acertar com uma cuspidela em alguém seja sinal de distinção e deferência.

 

O grande Nelson Rodrigues, nas suas habituais prédicas de nostalgia encenada, queixava-se do desaparecimento da escarradeira da paisagem urbana do Rio da sua infância. A escarradeira era um símbolo de civilização. Bem, de uma certa civilização. Hoje, usar um adversário como escarradeira é tão somente o gesto mais indigno no desporto, sobretudo com a omnipresença de câmaras que captam as asas de uma traça como se fossem as de um 747 e mostram ao mundo o alcance e a viscosidade do produto salivar que cada um deve guardar para si.

 

Não foi o caso de Douglas Costa. Diga-se que, antes da cuspidela, já tinha tentado acertar uma cabeçada em Francesco. Tivesse ele revelado a mesma precisão com a cabeça e talvez escapasse com uma simples advertência. Assim, espera-o uma sanção pesada, que pode ir até aos cinco jogos de suspensão. Durante o tempo em que estiver fora dos relvados, poderá tentar inscrever o seu nome no Livro do Guiness que, a par de feijoadas e demais recordes gastronómicos, também contempla arremesso de saliva, cuspidelas de pevides e de outros projéteis naturais. Por ora, só tem direito a figurar no desonroso livro dos grandes cuspidores futebolísticos.

 

Bruno Vieira Amaral (escritor) Tribuna Expresso

 

***Crónica original intitulada "O Ignominioso Douglas Costa".

 

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publicado às 04:00

O refrescante Sousa Cintra

Rui Gomes, em 10.09.18

 

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Quando o estadista romano Caio Mecenas morreu, Jesus Cristo ainda não tinha nascido, o que faz do mecenato uma prática muito mais antiga do que o Cristianismo. Mecenas, amigo do imperador Augusto, não abdicou da fortuna que herdou, como Cristo haveria de exortar os ricos a fazerem, mas usou-a para patrocinar homens de talento como Virgílio e Horácio. Séculos depois, durante o Renascimento, o seu exemplo foi seguido por famílias poderosas como os Médici e os Sforza, a quem devemos a existência de obras-primas de artistas como Miguel Ângelo e Botticelli.

 

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José Sousa Cintra não patrocinou, tanto quanto se saiba, nenhuma obra de arte imortal digna de exposição nas paredes do Louvre ou do Prado, mas poucas equipas do Sporting, se é que alguma, estiveram tão perto do sublime como aquela que a liberalidade do empresário ajudou a financiar nos anos 90. Com “O Rapto do Pacheco e do Sousa” (água com gás sobre relva, 110X75, Estádio José Alvalade), o próprio Sousa Cintra assinou uma das peças artísticas mais audazes da história do futebol português, levando a parte verde do país à euforia e lançando numa profunda depressão estival a parte vermelha, subitamente a contemplar o Apocalipse nas praias algarvias.

 

Cintra, o génio por trás do golpe, entusiasmou-se tanto com a sua astúcia que provocou os deuses com o despedimento de Bobby Robson, ele que tinha conseguido a proeza de o contratar. A partir daí nada lhe correu bem no Sporting e o epitáfio da sua presidência foi João Vieira Pinto – o jogador que ele não foi capaz de desviar ao rival – quem o assinou, destruindo com os próprios pés a obra de arte que Cintra demorara cinco anos a cinzelar com escopo e cheques.

 

Quando o empresário saiu do Sporting, anunciavam-se os tempos das SAD e dos clubes-empresa. Tinha acabado a era dos mecenas. À gestão financiada pelos bolsos liberais de uns carolas, com os seus caprichos e excitações, sucedeu-se a abordagem racional dos gestores desapaixonados (cof, cof).

 

Mas, com o fim da era dos mecenas, também acabou o tempo em que os clubes precisavam mais dos seus presidentes do que os presidentes precisavam dos seus clubes. Talvez em 1989 Sousa Cintra tenha precisado do Sporting para se tornar conhecido – a vaidade, como reconheceu há uns tempos um ex-primeiro-ministro, é um poderoso motor da acção humana – mas o Sporting precisava muito mais do dinheiro de Sousa Cintra. O próprio o reconheceu, com a habitual candura, em entrevista ao Expresso: “Não se pagava aos jogadores e ao pessoal há sete meses. Pagámos a toda a gente e fiz isso por amor ao clube. […] Meti muito dinheiro do meu bolso. Tive de meter, então, ninguém emprestava dinheiro ao Sporting!”

 

Entretanto, o homem das águas desapareceu de circulação futebolística e da vida do Sporting e muitos se perguntavam se ainda estaria vivo e se ainda teria fortuna. A resposta chegou neste verão e pode dizer-se, agora que Sousa Cintra já passou o testemunho ao próximo presidente do Sporting, que o seu regresso, ainda que temporário, foi das melhores coisas que aconteceu, não só ao clube, como ao futebol nacional.

 

Em primeiro lugar, Cintra afirmou não ter qualquer intenção de permanecer em funções após este período limitado de transição, o que, num clube que tem algo de shakespeariano nas oscilações de poder e de fidelidades, em que todos temem a própria sombra, foi um sinal saudável de desprendimento, sobretudo depois de um consulado traumático de um aspirante a Nero com a sua corte de personagens grotescas e instáveis.

 

Em segundo lugar, Cintra tudo fez para repor a normalidade e demonstrar aos adeptos e ao mundo que o Sporting não era o hospício em que os episódios de maio e Junho tinham ameaçado transformá-lo. Trazer de volta Bas Dost, Bruno Fernandes e Battaglia, que muitos julgavam ser uma missão impossível, ajudou a afastar de vez a possibilidade de um cataclismo definitivo.

 

Tão importante como o facto foi a forma. Sousa Cintra não lhes acenou com um livro de cheques, mas com uma bandeira branca, sinal de paz e boa vontade. Teve a capacidade de compreender o problema humano e, por isso, tentou resolvê-lo com humanidade. Fê-lo com dois instrumentos que não se vendem e não se compram: honestidade e bom-senso. Numa estratégia capaz de meter na algibeira déspotas de algibeira, manejadores, nem sequer exímios, da ameaça e da coação, fez com que os jogadores se sentissem desejados e protegidos.

 

Anjinho, porém, Sousa Cintra nunca foi. Despachou Mihajlović sem remorsos, não cedeu às pressões de certos empresários, foi inflexível com o Atlético de Madrid no caso Gelson e, quando sentiu que esticar a corda poderia obrigar o seu sucessor a enforcar-se com ela, recuou, nos seus termos e condições.

 

As críticas também não o demoveram de aceitar o convite do Benfica para ir para a tribuna do estádio da Luz: “a rivalidade é dentro de campo”, disse, com uma sabedoria e uma simplicidade que andavam desaparecidas do nosso futebol, o homem que quase destruiu o rival naquele célebre verão quente de 93.

 

Talvez a postura assumida só fosse possível nestas circunstâncias peculiares e em alguém com a sua também peculiar personalidade. O tempo desgasta, o poder corrompe e, muitas vezes, até o mais circunspecto dos líderes cede ao apelo do populismo quando vê o seu lugar ameaçado.

 

Seja como for, a incontornável presença de Sousa Cintra durante este interlúdio, com o seu optimismo militante e a independência que distingue os muito ricos ou os indigentes, tornou a atmosfera um pouco mais respirável, matou a nossa sede de decência e fez-nos ter saudades dos tempos em que, por amor ao clube, os mecenas patrocinavam a felicidade de milhões de adeptos famintos de alegrias.

 

Bruno Vieira Amaral, escritor, Tribuna Expresso

 

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publicado às 16:00

Os menosprezados guarda-redes

Rui Gomes, em 28.08.18

 

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(Ante) Ontem foi dia mundial do cão. Cave Canem rezam os avisos à entrada de certas propriedades, maneira erudita de dizer “cuidado com o cão”. Tais avisos, mesmo que em língua vulgar, deveriam estar nas traves das balizas, alertando para a presença de Cérberos de uma só cabeça, guardiães do terreno que, para uns, é inferno e, para outros, há de ser a terra prometida.

 

Não por acaso, os espanhóis chamam aos guarda-redes cancerberos, em homenagem ao porteiro tricéfalo do Hades, que impedia que os mortos dali saíssem e os vivos ali entrassem, e aos outros, os que para lá iam, recebia com suspeita amabilidade em tão horrenda criatura. Como comemoração antecipada da feliz data, no sábado futebolístico os guarda-redes brilharam mais que os avançados.

 

O falecido árbitro de futebol Vítor Correia, da Associação de Futebol de Lisboa (ainda hoje acho que a apresentação de um árbitro só fica completa com a referência à respetiva associação regional – um Veiga Trigo de Braga e não de Beja, não seria um Veiga Trigo, como um Carlos Xistra pede nitidamente uma Associação de Futebol de Castelo Branco), costumava dizer, como prova de experiência e da sua magra capacidade de espanto, que, desde que vira um porco andar de bicicleta, já nada o surpreendia.

 

Não menos extraordinário do que um suíno ciclista será um lobo voador, mas foi isso que, anteontem, o mundo inteiro pôde testemunhar no estádio Molineux, em Wolverhampton: um “lobo” a voar para defender uma bola que ia de tal forma colocada que o guarda-redes lupino ainda precisou do auxílio da trave para completar a defesa.

 

Ao ver aquela defesa aeronáutica, alguns sportinguistas terão sentido súbitas saudades de Rui Patrício e das muitas defesas que lhe valeram a canonização profana como São Patrício de Alvalade. Porém, à noite, após o fim do jogo no estádio da Luz, poucos terão sido os saudosos do guarda-redes oriundo de Marrazes.

 

Afinal, Romain Salin, que começou a época como suplente de um italiano com bigode de proxeneta, tinha-se sagrado homem do jogo e, com uma mão-cheia de defesas ditas de “elevado grau de dificuldade”, embora nenhuma tão pênsil quanto a de Patrício, impedira a derrota do Sporting.

 

Mas a desgraça do guarda-redes, sobretudo o de um clube grande, é que a celebração efusiva dos seus feitos equivale a um reconhecimento público de fraqueza. Se o guarda-redes é o homem do jogo é porque a equipa não o soube resguardar, não foi capaz de travar as investidas do adversário, esteve à mercê de uma estocada fatal.

 

José Peseiro, que já vai tendo anos e bagagem de raposa velha (já que falamos de cães e seus parentes), veio dizer aquilo que os treinadores, sobretudo os de um clube grande, são obrigados, por estatuto e amor-próprio, a dizer nestas ocasiões: o guarda-redes limitou-se a fazer o trabalho dele. Espera-se que, no balneário, Peseiro se tenha mostrado mais agradecido ao seu guarda-redes e salvador.

 

Que ninguém vá para guarda-redes à espera da gratidão alheia, eis uma lição que, a par das saídas a cruzamentos e jogo com os pés, todos os aspirantes a guarda-redes deveriam aprender. Há exceções, sim, mas normalmente envolvem defender penáltis sem luvas ou segurar resultados improváveis.

 

Este último foi o caso de Rui Patrício, que ajudou o Wolverhampton a travar o rolo compressor do Manchester City. E foi também este o caso de Douglas, guarda-redes do Vitória Sport Clube (ontem ouvi um indignadíssimo adepto do clube vimaranense a exigir que a comunicação social tratasse o clube com o respeito merecido e o chamasse de Vitória Sport Clube e não, como teimam em fazer alguns provocadores a soldo de forças inimigas, Vitória de Guimarães), que contribuiu para um triunfo histórico no Dragão. Uma derrota do Futebol Clube do Porto em casa é um acontecimento raro.

 

Depois de estar a ganhar por 2-0, então, é mais do que um cisne negro, é quase um unicórnio. Por essa razão, as milagrosas defesas de Douglas já nos descontos foram festejadas como deveriam ser sempre festejadas defesas daquelas: como se fossem golos. (O Cérbero vimaranense estragou a noite ao pai, por assim dizer, pois o pai do cão do Hades era o gigante Tifão, de cujos ombros, segundo o relato fidedigno de Hesíodo, saíam cem cabeças de dragão.)

 

Rui Patrício e Douglas receberam o justo louvor. Já o desvalido Salin, talvez por jogar num clube com outras ambições, teve direito a elogios mais comedidos. Porém, lá no fundo, ele sabe (e sabemos nós) que, na noite de sábado, o herói calçava luvas. Contido e discreto, Salin mostrou aquele género particular de heroísmo que se espera de um guarda-redes e que se confunde com a sensação honrosa do dever cumprido. Salve Salin! Cave Salin!

 

Bruno Vieira Amaral, jornal Expresso

 

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publicado às 03:23

O pródigo Nani

Rui Gomes, em 20.08.18

 

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Há quatro anos, quando Nani regressou pela primeira vez ao Sporting, os meus amigos sportinguistas exultaram. Creio que alguns terão mesmo ido ao aeroporto para uma daquelas recepções tipicamente otomanas a jogadores de futebol. Devo dizer que tinham razão para o entusiasmo. O regresso de um jogador como Nani ao futebol português ainda no auge das suas capacidades, mesmo que por empréstimo, justificava festejos precoces e abraços aeroportuários. Para os sportinguistas, por estarem habituados a assistir à distância ao regresso das suas antigas estrelas para os clubes rivais, ainda mais. “É o regresso do filho pródigo!”, dizia-me um amigo meu, eufórico, embora muito ignorante em matérias bíblicas.

 

Desta vez, com a nação leonina parcialmente soterrada debaixo dos escombros jurídicos e emocionais deixados pela passagem do furacão Bruno, o regresso de Nani já não motivou metade das comemorações. Não só o jogador tem mais quatro anos, como um segundo regresso tem aquele sabor plastificado das refeições de micro-ondas. O que acaba por ser uma tremenda injustiça para Nani. Num verão em que jogadores como Rui Patrício, William Carvalho, Gelson Martins, Rafael Leão e Podence, todos formados em Alvalade, abandonaram o clube, o seu regresso tem uma força simbólica cuja desvalorização só pode ser explicada pela profunda depressão e incerteza espiritual em que vive o comum adepto sportinguista. Enquanto outros mantêm em relação ao clube uma distância asséptica, como se não quisessem ficar contaminados pelo mal invisível que o assola, Nani, uma vez mais, chegou-se à frente e assumiu responsabilidades, como se estivesse a cumprir um destino. E falamos de um jogador que deu muitos milhões a ganhar ao clube numa época em que este formava como nunca e vendia como quase sempre: mal.

 

Por estas razões, se alguém não merece o epíteto de filho pródigo esse alguém é Nani. Aqui vai um bocadinho de catequese de segunda-feira, que espero que aquele meu bom amigo possa ler. A parábola do filho pródigo é talvez a mais universal e conhecida de todas as que o mestre da Galileia usou para se fazer entender junto dos que o ouviam. Está no evangelho segundo Lucas, e em nenhum outro.

 

O “filho pródigo” é o mais novo dos dois filhos de um rico lavrador. Certo dia, pede ao pai o quinhão da fortuna que lhe cabe, parte para uma terra distante e por lá esbanja todo o dinheiro “de forma isenta de salvação.” Nessa terra longínqua, passa fome e vê-se obrigado a guardar porcos. Lembra-se então dos jornaleiros que trabalham nas terras do pai: nem eles conhecem semelhante miséria. Faminto e infeliz, decide voltar à casa paterna e pedir perdão ao pai. Este, ao vê-lo, fica tão feliz que manda os criados matar um vitelo para que possam festejar e alegrar-se.

 

O filho mais velho ressente-se do gesto do pai: “Eis que há tantos anos te sirvo como um escravo e nunca transgredi uma ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com os meus amigos. Agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com prostitutas, mataste-lhe o vitelo gordo.” O pai aproveita então para lhe explicar como é que as coisas funcionam. Ele sempre tinha estado ali, mas o outro filho tinha morrido e agora voltava à vida, perdera-se e agora fora encontrado. A alegria do pai era a alegria justificada de recuperar a ovelha tresmalhada, o filho pródigo.

 

O leitor certamente já terá reparado que sempre que alguém usa a expressão “filho pródigo” o faz como se o adjectivo fosse laudatório. Talvez o curioso facto se deva à contaminação de outra expressão popular – “o bom filho a casa torna” – talvez se associe o pródigo a prodigiosos prodígios, talvez baste o “pró” para se pensar em vantagens, ganhos, lucros. E, no entanto, pródigo é aquele que esbanja, que desperdiça, que gasta. Como se percebe, um verdadeiro regresso do filho pródigo seria se João Moutinho, a chamada “maçã podre”, voltasse a Alvalade contrito e disposto a fazer as pazes com os adeptos do Sporting. O regresso do filho pródigo teria sido o de Simão Sabrosa depois de brilhar no Benfica. O regresso de Nani é o regresso do bom filho a um clube habituado a que os filhos cuspam no prato onde comeram.

 

Dir-se-á que Nani não é Cristiano Ronaldo, asserção que nem eu me atreverei a contestar. Mas esse azar de ser contemporâneo de um extra-terrestre, e o percurso algo errático e desafortunado dos últimos anos, não deve obliterar os seus méritos e qualidades, que são muitos e raras. São certamente mais do que suficientes para fazer dele o líder do balneário do Sporting e das mais brilhantes estrelas do nosso cada vez mais apagado firmamento futebolístico. Com os seus dois golos na noite de sábado, Nani lembrou aos adeptos que, mais do que o filho pródigo, ele é, na verdade, o filho que nunca transgrediu. O público, a corrigir o lapso da falta de entusiasmo, retribuiu-lhe com uma justa ovação. Como se festejasse o regresso de um filho que nunca abandonou a casa.

 

Bruno Vieira AmaralTribuna Expresso

 

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publicado às 12:00

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