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Quem manda no futebol ?

Rui Gomes, em 15.08.19

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Fui consultar, no site da FPF, a Plataforma da Transparência, na qual, alegadamente, as SAD deveriam ter dado as informações sobre os detentores do seu capital, mas sem sucesso. Espero que seja uma situação provisória, porque só haverá transparência se a informação for acessível ao público e devidamente escrutinada.

Digo isto porque há situações, a nível do investimento, sobretudo estrangeiro, no futebol que, justamente, deveriam ser esclarecidas; nada tenho contra, sublinhe-se, haver quem aposte nas equipas portuguesas, mas, sobretudo a nível da origem dos capitais e dos seus últimos beneficiários, algumas interrogações estão por responder.

O Futebol Clube de Famalicão tem como accionista maioritário uma sociedade israelita, denominada Quantum Pacific, com ligações também ao Atlético Madrid.

O Tondela está ligado ao Hope Group, que gere igualmente o Granada e o Parma.

O Desportivo das Aves está ligado ao Galaxy Believers, com interesses também no recém-promovido Vilafranquense.

O Portimonense tem como accionista de referência um tal Theodoro Panagopoulos, que por vezes também é Fonseca, envolvido na transferência de Nakajima para o FC Porto, depois de este ter saído, intrigantemente (considerando a sua categoria), para um clube do Médio Oriente.

Tenho vindo a defender que, à semelhança de outros sectores, o futebol deveria ter um organismo de supervisão que escrutinasse, ‘ex ante’, estes investimentos, certificando a sua idoneidade. Na falta desse mecanismo, ao menos que se saiba ao que vêm e de onde vem o dinheiro, sob pena de todas as especulações, algumas delas bastante justificadas.

O mesmo se diga quanto ao Belenenses SAD, para afastar definitivamente o rumor que corre que se trata de fundos ligados à Operação Marquês.

Neste momento, compra posições qualificadas em SAD quem quer e todos sabemos que há muitos lados lunares no futebol.

A credibilidade passa por muitos aspectos (a Casa de Transferências é um deles), mas saber-se quais são os interesses que comandam os clubes é, certamente, elementar.

Há, pois, um longo caminho ainda por percorrer.

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

publicado às 04:32

Desperdício

Rui Gomes, em 01.08.19

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O que é que têm em comum jogadores como Bruma, Eric Dier, Merih Demiral e Rafael Leão ?

Todos eles jogam em grandes equipas europeias: Bruma no PSV, Eric Dier no Tottenham, Merih Demiral na Juventus, Rafael Leão no Lille e, ao que tudo indica, a caminho do Milan.

Todos eles passaram pela Academia de Alcochete e, infelizmente, por diversas razões, o Sporting não lucrou com a sua venda aquilo que podia e devia.

Se a estes juntarmos o Félix Correia, transferido para o Manchester City, e o Tiago Djaló, a caminho do Lille, vemos que em todos há um denominador comum, o prejuízo do clube que os formou como jogadores, ou seja, o Sporting.

É absolutamente necessário inverter este ciclo de desperdício, porque, em primeiro lugar, não é justo que quem aposta no jovem jogador, não receba a justa contrapartida e, depois, porque, esta é uma fonte de receita, por excelência, do clube.

Alcochete, recuperando a sua excelência formativa, tem de render mais ao Sporting Clube de Portugal, seja nos jogadores que acabam por ascender à primeira equipa, seja naqueles que escolhem outras paragens.

Ver outros enriquecer à nossa custa, seja desportiva, seja financeiramente, é doloroso.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz

publicado às 05:03

Um estilo certo

Rui Gomes, em 13.06.19

Ainda é cedo para fazer um balanço da administração Varandas.

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Do ponto de vista desportivo, no futebol profissional, a época correu acima das expectativas, considerando as adversidades conhecidas do arranque. E não falo só das duas taças; nos sub-23, o Sporting esteve na corrida do título até final e na formação repetiu o título de iniciados, razoável nos juvenis, fraco nos juniores.

Para quem agoirava o colapso no futebol jovem do Sporting, a resposta está aí; restará aos senhores seleccionadores das equipas dos escalões jovens olhar mais para os talentos de Alcochete e menos para o marketing do Seixal, como a recente e prematura eliminação nos sub-20 bem demonstrou.

Será interessante analisar o orçamento para a próxima época, a política de contratações e a gestão financeira, nomeadamente o resgate das VMOC, que tarda e que é crucial para a estabilidade futura da SAD.

O futuro dirá se Varandas esteve à altura e se conseguiu superar os obstáculos externos e internos com que teve, e ainda tem, de se confrontar. Numa coisa acho que já se impôs: no estilo.

Varandas teve o bom senso de fazer duas coisas.

A primeira foi resistir aos clichés do presidente-vedeta, do presidente-providência ou do presidente-omnipresente.

A segunda foi assumir-se tal e qual é, sem subterfúgios, evitando o ridículo de presidentes que leem discursos redigidos por outros ou que vivem a mandar recados, por interpostos assessores de comunicação.

Os protagonistas no Sporting voltaram a ser os jogadores e o treinador; acabaram-se de vez as voltas olímpicas e a bajulação interesseira das claques.

O presidente do Sporting tem intervindo publicamente quando e sempre que é necessário, no seu registo próprio, que não sendo um modelo de oratória tem o mérito de ser genuíno e directo.

Acho que o Sporting só ganha em se demarcar do modelo de dirigismo da concorrência, que criou um ambiente insuportável de peixeirada durante o campeonato transacto e que vive em disputas laterais, que desacreditam o futebol.

Aqui, como noutras coisas, o Sporting é (agora) diferente.

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

publicado às 05:04

Reflexão do dia

Rui Gomes, em 24.05.19

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Carlos Barbosa da Cruz, adepto sportinguista, advogado e comentador desportivo afirmou que... "A péssima qualidade das arbitragens, designadamente as das últimas jornadas, entre outras situações, ensombra o sucesso do Benfica".

Esta e outras considerações disponíveis aqui.

publicado às 04:17

Reflexão do dia

Rui Gomes, em 12.04.19

 

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"Quanto mais assisto a esta inenarrável regateirice em que se tornou a ponta final do campeonato, em particular pela abordagem que dela fazem os principais candidatos ao título, mais me convenço que, sem sombra de dúvida, o lugar do Sporting no desporto português é fundamental.

O desportivismo e o fair-play foram riscados do léxico do futebol e todas as semanas recrudescem os decibéis do ruído crítico, seja às arbitragens – próprias e dos outros – seja à suspeição pela atitude das equipas que jogam contra os rivais, seja aos dirigentes, numa escalada de violência verbal (por enquanto) verdadeiramente desprestigiante.

Benfica e FC Porto estão a converter o futebol numa imensa zaragata de comadres, num lixo de miséria moral, que nada tem a ver com os valores do desporto.

Custa-me muito que, no meio disto tudo, o Sporting ainda não consiga fazer ouvir a sua voz, mas espero que esteja para breve o momento em que consiga ser campeão, não 'espadeirando' contra tudo e todos, não praticando jogo subterrâneo, mas sim porque foi melhor".

 

Excerto da crónica semanal de Carlos Barbosa da Cruz, no jornal Record

 

publicado às 03:32

Tondela e Sporting

Rui Gomes, em 21.11.18

Os leitores que generosamente se interessam por esta coluna, perguntarão qual o racional deste, aparentemente, estranho título.
 
Explico.
 

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O Tondela tornou público há dias, que vendeu a maioria do capital (80%) da sua SAD, a um grupo internacional, já proprietário do Granada e do Parma.

 
As razões são por de mais cristalinas: o Tondela não tem músculo financeiro para aguentar um projecto sustentável na primeira divisão e, assim sendo, vende as suas acções a quem, alegadamente, o tem.
 
Este é, pragmaticamente, o destino escrito de muitos clubes em Portugal; já aconteceu com o Famalicão, Belenenses e o Estoril, e, muitos outros, na minha opinião, se seguirão.
 
A alienação não é um caminho necessariamente mau, tem é de ser regulamentado.
 
Por duas razões: em primeiro lugar, porque o fenómeno desportivo, atrai capital ligado a actividades ilícitas, desde o branqueamento de capital ao match fixing, e faz-me impressão que, em Portugal, qualquer pessoa possa ser dona de uma SAD.
 
Em segundo lugar, porque já houve clubes que foram no canto da sereia e se entregaram a vendedores de ilusões, com desfechos catastróficos, como foram os casos do Olhanense, do Beira-Mar e do Atlético.
 
Defendo, por isso, que em sede de auto-regulação, se justifica haver uma verificação de idoneidade prévia, de qualquer entidade, que queira investir no futebol profissional.
 
O que tem isto a ver com o Sporting? Muito simples; os sócios do Sporting têm defendido e bem, que o Clube deve manter a maioria do capital da SAD.
 
Só que este legítimo desiderato, comporta uma obrigação: se se veda a outrem o apport de capital à SAD, terão de ser os seus accionistas e, em última análise, os sócios e adeptos do Sporting, quem tem de providenciar pela sua sustentabilidade financeira. Já disse e repito, acabaram os bancos, as entidades públicas e os salvadores da pátria.
 
Trocando por miúdos: o Sporting tem dois desafios financeiros pela frente, a subscrição do empréstimo obrigacionista e a recompra das VMOC; sem os resolver, entrará num ciclo de fragilidade, que pode culminar, com a maior das fragilidades, na perda da maioria da SAD. 
 
O sportinguismo de cada um de nós está à prova. A não ser que queiramos acabar como o Tondela, sem desprimor, claro está.
 
Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record
 
*** O autor, devoto sportinguista, também participou na reunião realizada em Alvalade na segunda-feira, referenciada neste nosso post.
 

publicado às 03:48

Que fazer com a Juve Leo ?

Rui Gomes, em 14.11.18


Este artigo já estava pensado antes da detenção do líder da Juve Leo e as consequentes reflexões não são afectadas por essa circunstância.

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Assisti ao aparecimento, ainda no Estádio antigo, da Juve Leo; foi uma lufada de ar fresco, uma alegria contagiante no apoio à equipa, uma plástica inovadora, abrilhantada com a música dos Vapores do Rego. Nesta, como em muitas outras frentes, o Sporting inovou, foi o primeiro.

Outros comentadores mais abalizados explicarão as razões desportivas, e outras, que conduziram à subversão deste espírito inicial e empurraram a Juve Leo para aquilo que hoje é. Não quero adjectivar, mas quero dizer que nesta história não há inocentes, de agora ou de antes.

Em minha opinião, há coisas que mais vale atalhar do que remediar; o que a Juve Leo fez assume tamanha gravidade que é inaceitável à luz dos valores que devem reger o clube e este não pode deixar-se ficar.

Com todo o respeito, não creio que o assunto se resolva com a proibição de ir no charter da equipa ou no encurtamento do prazo de reembolso dos bilhetes; compreendo a boa intenção, mas viu-se a reacção e esta diz tudo.

O Sporting CP tem, de uma vez por todas, de demarcar-se da Juve Leo; e, se não a pode juridicamente extinguir, pode exercer os seus direitos enquanto entidade promotora do espectáculo desportivo, nomeadamente denunciar com justa causa o protocolo existente, proibir o acesso ao estádio, acabar com as tolerâncias e o apoio financeiro.

Costumo dizer que a Justiça distributiva em Portugal só poderá existir quando houver um governo que não ceda à chantagem dos sindicatos dos professores (os funcionários mais bem pagos de Portugal, na opinião da OCDE); só existirá paz no Sporting no dia em que o clube se livrar da nefasta dependência da Juve Leo.

A argumentação de que tudo é permitido porque esses adeptos é que se sacrificam pelo clube e o apoiam em todo o lado tem limites. Haja alguém que assuma que gente da laia de Fernando Mendes ou de Mustafá não é digna de chefiar uma claque do Sporting, que comportamentos como Alcochete, as tochas em cima de Rui Patrício, as intimidações e agressões, a ordinarice das palavras de ordem não são toleráveis e que, conclusão lógica, a Juve Leo, tal como é hoje, não tem lugar, não encaixa nos valores e práticas do clube.

Se houve, no passado, o rasgo de criar a Juve Leo, haverá que ter agora a clarividência de acabar com ela. Até porque há mais claques e outras podem ser criadas. E haverá sempre, mas sempre, adeptos que apoiem o clube.

 

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 04:18

Castanha seca

Rui Gomes, em 24.10.18

 

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Eu não quero ser descortês nem injusto para com o Luc Castaignos, de alguma forma, o involuntário protagonista da crónica de hoje. Admito que o Luc seja uma jóia de rapaz e um atleta meritório; não duvido um minuto. Da mesma maneira, acho que o Luc não tem quaisquer condições para jogar no Sporting. Se dúvidas houvesse, a performance contra o modesto Loures, encarregou-se de as dissipar.

 
O Luc só joga no Sporting por três razões: nenhuma equipa o quer (o Vitesse mandou-o de volta), o Sporting não o conseguiu colocar e não há outros para jogar. Simplesmente não acho que o Luc seja o principal culpado da situação, antes pelo contrário, ele é mais vítima, porque seguramente dá o seu melhor em cada jogo; a culpa foi de quem o contratou, provavelmente porque foi barato ou tinha um empresário com argumentos persuasivos.
 
E aqui se situa o busílis da questão, na inusitada quantidade de Luc Castaignos desta vida que vão desfilando na equipa do Sporting, sem qualquer contribuição útil, votados a um irremediável anonimato.
 
Veja-se o caso do Doumbia, que, a custo zero (e muito a custo...), rumou para Girona, mas perdendo o Sporting os sete milhões e duzentos mil euros pagos pelo passe. E não falo no Sinama-Pongolle, que ainda me está a atravessado e custou mais do que isso.
 
O rácio de sucesso nas contratações do Sporting tem urgentemente de melhorar, porque por cada Bruno Fernandes e Bas Dost, ainda pesam os Alan Ruiz, Douglas, Shikabalas e quejandos, que não jogam, custam muito dinheiro e massacram os orçamentos. Se não há dinheiro, é indispensável haver mais critério.
 
Eu sei que nos mercados em que o Sporting se move a margem de erro é muito maior e que comprar o Diaby não é bem o mesmo que comprar o Harry Kane, mas impõe-se uma prática de rigor que evite estes erros de 'casting', para os quais o Sporting, por vezes, tem uma propensão recorrente.
 
É que, nesta vizinhança do São Martinho, não há nada mais desolador do que as castanhas secas, às quais nem sequer se consegue tirar a casca.
 
Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 03:03

O tempo e o modo

Rui Gomes, em 18.10.18

 

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Estou perfeitamente à vontade no tema, porquanto não fiz parte da estrutura de apoio à candidatura de Frederico Varandas, como de nenhum outro participante. 

 

A partir do momento em que ele foi eleito, com um inequívoco apoio, face à já esperada dispersão de votos, à luz dos mais elementares princípios de coesão, Frederico Varandas passou a ser o presidente do clube e de todos os sportinguistas, quer tenham votado nele ou não.

 

Já escrevi, várias vezes, que o futebol não é política, num clube, não faz sentido, estatutos de situação e oposição. Por respeito à soberania electiva dos sócios, os candidatos deixam de o ser, no dia mesmo do sufrágio.

Tenho para mim que a Frederico Varandas, não podem ser assacadas responsabilidades, no estado de coisas, a que o clube chegou. Presumo ainda, legitimamente, duas coisas.

A primeira, é que o conjunto daquilo que, eufemisticamente, se qualifica de contingências, é vasto, complexo e delicado, e que não se resolve num mês. Não quer isto dizer que se esteja a considerar um estado de graça, quando acabei de referir que futebol não é política, mas nada do que até agora vi feito ou não feito (de igual importância), me parece passível de grande polémica ou discordância.

A segunda, é que, o Presidente do Sporting e a sua equipa, se empenharão com todas as suas capacidades, para resolver as inumeráveis e intrincadas pendências do pós-brunismo.

Devo dizer, que do ponto de vista exclusivamente do estilo, tenho gostado da sua postura discreta, digna e comedida, ao nível da instituição que corporiza e representa. A ribalta voltou a pertencer aos jogadores e ao treinador, acabaram-se os vedetismos usurpados e a normalidade operacional foi reposta.

Conseguirá Frederico Varandas dar conta do recado? Penso que todos os sportinguistas, esperam ardentemente que sim; os que votaram nele, por maioria de razão; os que não votaram, por espírito democrático e porque não faria sentido, nesta altura, pensar de outro modo. Como diria Saramago, não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.

 

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 03:47

Uma questão de literacia

Rui Gomes, em 11.10.18

 

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1. José Calado tinha 56 anos e era, pelos vistos, adepto do Sporting. Morreu assassinado por um adepto do Benfica, de 54 anos, domingo passado, após o jogo com o FC Porto.

 

Desconheço as circunstâncias do homicídio, mas tudo leva a crer que foi o triste desfecho funesto de uma discussão mais acalorada. Não é a discussão que interessa – quem não as teve –, o que impressiona é que, em Portugal, no século XXI, se mate por causa do futebol.

 

Percebo mais a violência que existia no campo, no século passado, por motivo de questões de serventia de águas, indispensáveis para o trabalho agrícola, que alguém tire a vida a outro, numa banal querela de café e por mero delito de opinião.

2. No jogo com o Portimonense, que ainda hoje me custa engolir, uma coisa me entristeceu e incomodou, ainda mais do que o resultado. Havia na claque do Sporting, uma visível tarja a exigir a libertação dos presos preventivos, por motivo da invasão da Academia de Alcochete, em Maio passado.

A exigência é duplamente inexplicável. Em primeiro lugar, porque a detenção preventiva já foi confirmada pelo tribunal da Relação, o que reforça a sua justeza. Em segundo lugar, porque não vislumbro minimamente qual o motivo atendível para libertar pessoas sobre quem impendem fundadas suspeitas da prática de crime violento, cobarde e hediondo pela forma como foi perpetrado e que reúnem todos os pressupostos legalmente estatuídos para esta medida de coação. Que se peça o seu julgamento, ainda compreendo; agora a sua libertação? 

Nestas páginas, sempre tenho defendido a coesão e reconciliação da família sportinguista, sobretudo depois dos cinco anos negros da intolerância do consulado brunista; não sinto, contudo, qualquer tipo de leniência, relativamente aos crimes perpetrados na Academia de Alcochete, que muito me indignam e revoltam enquanto cidadão e sobretudo, enquanto sportinguista. Espero, confiadamente, que a Justiça identifique e puna severamente os responsáveis.

 

Às vezes parece que o futebol é um mundo à parte, onde os valores e princípios normais da vida comum, como o respeito e a sã convivência não vigoram.

Pelos vistos, há ainda muito trabalho a fazer para que o futebol seja encarado e valorado na dimensão que é a sua e que fenómenos como aqueles que hoje referi – e muitos outros infelizmente se poderiam adicionar – sejam erradicados. Os valores do futebol são a vida, a competição e a paz; não o seu contrário.
 
Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record
 

publicado às 04:34

Adormecidos

Rui Gomes, em 04.10.18

 

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Não gosto especialmente de falar sobre o Benfica, nem é a vocação desta coluna. Não posso, contudo, deixar de comentar o actual estado de coisas, até pelo irresistível paralelismo com o passado recente do Sporting: em ambos os casos, os clubes foram capturados por uma visão autocrática e messiânica, que muitas vezes confunde interesses e agendas pessoais, com os das instituições que dizem servir.

 

É paradigma desse estado de alma o desabafo genuíno do presidente do Benfica, num bate-boca a quente - longe dos papéis que alguém lhe escreve - quando diz que vão levar com ele "ainda muitos anos". Apetece perguntar, então aquilo que os benfiquistas decidirem, não conta?

 

Face aos últimos acontecimentos, confesso que estava curioso de saber como iria decorrer esta assembleia geral. Duas coisas me impressionaram. 

A primeira é que o presidente não tenha tido a humildade de pedir desculpa aos sócios pelas embrulhadas em que se meteu o clube; mesmo que rejeite responsabilidades ou proveitos, o certo é que o director jurídico era funcionário e as claques eram apoiadas e o Benfica está nas bocas do mundo e na mira da Justiça.

 

Aliás a gestão desta crise tem sido um singular desastre comunicacional: esta de anunciar a contratação de novos - e excelentes - advogados, como se de um triunfo se tratasse, só tem paralelo no tempo em que a nomeação do Dr. Cunha Leal para secretário-geral da Liga de Clubes, foi publicamente arvorada em grande feito.

Mas o que muito mais me impressionou foi a letargia; estava à espera de uma justificada indignação que confrontasse o presidente - claramente só ele conta - com o conjunto de situações em que o Benfica está envolvido; só que, para além de uns gentis ameaços, nada se passou e Vieira saiu incólume.

Conheço muitos e bons benfiquistas, gente de bem e pessoas sérias e cabe perguntar por onde é que eles andam. É que - e falo por experiência - quando mais tarde reagirem, pior! Então ninguém no Benfica ainda se lembrou de exigir um inquérito interno aos óbvios ilícitos do e-toupeira? Ninguém quer tirar a limpo essa questão das claques? Não há um Conselho Fiscal?

 

Como a história ensina, estes projectos autocráticos acabam sempre por colapsar. A pior consequência, porém, é que enquanto durarem, vão minando o associativismo, que é a seiva que alimenta a grandeza dos clubes. Os sócios do Sporting deram uma grande resposta a 8 de Setembro; fico na expectativa de ver como vão os sócios do Benfica reagir.

 

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 04:02

'No pasa nada'

Rui Gomes, em 27.09.18

 

Não sei como é que vão terminar os vários processos judiciais em que o Benfica está envolvido. Não quero antecipar cenários e muito menos substituir-me a quem tem de valorar e eventualmente punir as condutas que sejam ilícitas e os seus agentes.

 

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Da mesma forma como respeito a competência dos tribunais, não posso ignorar aquilo que os media têm divulgado, nomeadamente um conjunto de comunicações electrónicas não desmentidas, que, a serem verdadeiras – como parece que serão –, revelam um confessado propósito de controlar agentes desportivos, de obter informação a que outros não têm acesso, a antecipar comportamentos.

 

Para além de alguns episódios, que passarão a figurar no anedotário nacional, como seja a oportuna amnésia do presidente – visivelmente restabelecido – ou o fervor religioso do director jurídico, vislumbra-se desde já um aspecto que não pode ser escamoteado e que tem a ver com a vertente disciplinar de todo este acervo de condutas.

Patentemente este jogo de bastidores, prosseguido por uma complexa rede que o Benfica alimentava e protegia, e da qual objectivamente beneficiava – com conhecimento ou não do presidente –, visava obter para o clube inúmeras vantagens ocultas, cujo impacto a nível desportivo deve, por obrigação, ser investigado, em paralelo com os inquéritos criminais.

Como se sabe, o poder disciplinar no futebol compete à Federação Portuguesa de Futebol, que, há tempos, anunciou a abertura de inquérito e por aí se ficou; desde então, têm guardado de Conrart o prudente silêncio.

Eu bem sei que a Federação está escaldada com os desfechos disciplinares mais relevantes, como sejam a anulação judicial das sanções do Apito Dourado, ou a repescagem do Gil Vicente, mas, tout de même, há limites.

Estas trapalhadas do Benfica contêm indícios que apontam para o que pode vir a ser o maior escândalo desportivo de sempre em Portugal, e o mínimo que se espera da entidade federativa é que seja deveras diligente e proactiva no âmbito da tutela, que lhe cabe. As circunstâncias assim o parecem exigir.

A justiça desportiva não tem de andar a reboque, nem ficar à espera da justiça criminal, porque diferentes, em larga parte, são os respectivos pressupostos e objectivos.


A Federação não pode mais pretender que nada se passa.

 

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 03:18

Jogo sujo

Rui Gomes, em 20.09.18

 

Enganam-se aqueles que acham que o Apito Dourado, por via do seu desfecho judicial, foi uma oportunidade perdida de regenerar o futebol português.

 

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Se as condenaçõe de registo foram revertidas, por as escutas terem sido rejeitadas como provas processualmente atendíveis, nem por isso as pessoas deixaram de as ouvir e compreender o seu alcance; por outras palavras, aquela célebre conversa da fruta deixará sempre marcas indeléveis nas pessoas que nelas participaram. Podem não ter sido condenadas judicialmente, mas isso não faz delas gente séria. O veredicto final que a Justiça emite, como lhe compete, relativamente aos ilícitos, não tem necessariamente que ver com a reprovação ética que os mesmos possam merecer.

 

Mutatis mutandis é o que se passa com a teia de trapalhada em que o Benfica se deixou enredar; até aceito que os emails pirateados não possam ser aceites como prova em juízo, incluso admito que esse processo dê em nada, mas isso não preclude uma apreciação ética dos factos, que a cada um é sempre legítimo fazer.

O mínimo que se pode dizer é que esta atracão pelo ‘jogo subterrâneo’ é imprópria de uma instituição respeitável; o jogo dos equívocos, subjacente à não legalização das claques, releva pura arrogância comportamental, própria daqueles que se acham impunes.

Fico espantado (?) que haja ainda quem defende que, como os actos praticados, sobretudo no quadro do processo E-Toupeira, e vertidos na respectiva acusação, não identificam co-autoria da SAD do Benfica, tudo como dantes. Como disse, não sei se o SL Benfica é o campeão da corrupção, a Justiça dirá. Sei sim que, para já, é o campeão do jogo sujo, os emails e demais práticas, são disso, prova insofismável.

Durante ao Apito Dourado era motivo de orgulho do Sporting estar completamente fora do esquema; por essa razão, o insólito caso Cardinal foi tão fora do contexto da cultura do clube, mesmo não envolvendo a SAD. 

 

A normalização institucional do Sporting pressupõe indissociavelmente o regresso aos valores tão esquecidos do fair play. Para isso há que encarar de frente as sequelas do Cashball; esperemos que não tenham quaisquer reflexos para além dos autores materiais eventualmente envolvidos, mas, se tiverem, salvaguardem-se acima de tudo e todos, os valores do clube. Porque nisso – como noutras coisas – queremos continuar a ser diferentes.

 

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 04:32

Verde intenso

Rui Gomes, em 12.09.18

 

Este dia de votação, no quadro das eleições no Sporting, suscitou algumas reflexões.

Como a esmagadora maioria dos sportinguistas, fiquei orgulhoso pela forma como a massa associativa se comportou, pelos níveis de afluência, pela compostura, pela convivência, pela urbanidade.

 

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Foi uma resposta inequívoca, explícita e implícita. Explícita, porque aos olhos de todo o país, se demonstrou que seis candidatos podem concorrer, pode haver uma campanha eleitoral quentinha, mas que, no dia de escolher, são todos sócios do mesmo clube, irmanados pelo mesmo ideal. Implícita, porque, de algum modo, se quis exorcizar os excessos da época brunista, a intolerância, a agressividade e o despeito, como que a dizer que não era esse o verdadeiro Sporting.


Fala-se muito no risco de 'belenensização' do Sporting, mas tal não é verdade. Quando o Belenenses deixou de ganhar, perdeu dimensão e os sócios desertaram; no Sporting, quando se ganha os sócios estão lá, mas quando se perde também estão. 

O Sporting tem muito aquilo que outros clubes gostariam de ter mas não têm: uma larga quantidade de sócios e adeptos indefectíveis, resilientes e disponíveis; são campeões, que merecem todas as vitórias do mundo.

E a questão que mais se coloca, subsequentemente, é a seguinte: com esta retaguarda, o Sporting devia ganhar no futebol profissional muito mais vezes do que ganha e, sendo assim, é de interesse geral saber-se porque não acontece.

É óbvio que esta interrogação tem diversas respostas algumas desportivas e outras extra-desportivas, umas históricas e outras actuais, umas do mundo visível e outras do sub-mundo, e por aí além. O que eu quero dizer é que, olhando para o passado recente dos últimos dez anos, os sócios, em geral, nunca falharam; os dirigentes, esses, nem sempre acertaram.

Por diversas razões, algumas das quais que têm muito a ver com eles próprios, em diversos momentos cruciais os dirigentes não estiveram à altura, embora, no geral, tenham dado o seu melhor, o que, manifestamente, não foi suficiente.

 

Pelas razões que sabemos, a expectativa relativamente aos novos dirigentes é grande: porque o momento é crítico, porque os escolheram de entre muitos, porque a ansiedade de ganhar é muita.

 

Faço votos para que os recém-eleitos, que são os eleitos de todos, incluindo eu, saibam corresponder e acertar com os sócios tudo aquilo que tarda a saldar, ou seja a diferença entre aquilo que têm dado ao clube e aquilo que o clube lhes tem dado.

 

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 16:53

9 de Setembro

Rui Gomes, em 07.09.18

 

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Gostaria, passadas as eleições:
 

– Que todos aclamassem e reconhecessem o candidato vencedor, como presidente de todos os sportinguistas, independentemente da votação final que vier a ter.

 

– Que não houvesse mau perder, ranger de dentes, recriminações, rancores e azia dos candidatos derrotados.

– Que houvesse modéstia e contenção na vitória.

-- Que o que se disse na campanha eleitoral morresse no dia das eleições.

– Que deixasse de haver ex-candidatos , reservas da república e agendas pós-eleitorais.

– Que, independentemente de haver vencedores e vencidos, haja sobretudo sportinguistas e sportinguismo.

– Que todos aceitassem o resultado final das eleições, sem ameaças de impugnação ou suspeições sobre contagem de votos.

– Que quem ganhar saiba ter um discurso de unidade e coesão de todos.

 

– Que quem perder possa ter idêntico discurso.

– Que quem ganhar saiba dialogar com quem perdeu.

– Que vencedores e vencidos percebam que, dividido, o Sporting não vai a lado nenhum.


– Que quem ganhar saiba aproveitar as boas ideias de quem perder e tenha a humildade de o reconhecer.

– Que quem ganhar saiba cultivar a democracia interna.

– Que quem ganhar reconheça que o Sporting é um projecto comum, onde têm de caber todos, vencedores e vencidos.

– Que quem não ganhar deixe trabalhar quem ganhou, porque foi assim que os sócios quiseram.

– Que os corpos sociais eleitos tenham condições para concluir o seu mandato, porque é assim que devem funcionar as instituições.

– Que seja por todos reconhecido o grande mérito e abnegação do trabalho da Mesa da Assembleia Geral, que conseguiu preservar a democracia e legalidade do clube, em especial a Jaime Marta Soares.

 

– Que seja dado conveniente agradecimento pelo trabalho da Comissão de Gestão e do Conselho de Administração da SAD, em especial a José Sousa Cintra.

– Que o Sporting faça vida nova, regresse aos seus valores e ética comportamental.

 

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 03:42

O Ruiz que interessa

Rui Gomes, em 29.08.18

 

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Depois de Florent Sinama-Pongolle, Alan Ruiz será, seguramente, uma das contratações mais mal sucedidas da história do Sporting. Comprado ao Colón da Argentina e tendo custado mais de oito milhões de euros, nunca justificou o investimento, porque, efectivamente, mesmo em Portugal, não é possível jogar à velocidade que ele queria.

Resultado: foi recambiado ao Colón, por empréstimo e ainda estou para saber se o Sporting pagará parte do salário. Ao Colón, que já recebeu – pelo menos assim parece – o dinheiro da transferência, saiu vigésimo premiado, já o Sporting, que pagou por nada, ficou com a fava.

Nestas coisas de apelidos, há aquele mito urbano do Sporting, que nos anos setenta, quis contratar um jogador peruano muito bem cotado, que se chamava Mosquera, e veio um com o mesmo nome, mas que, segundo parece, era o tio…

Desta vez a malapata não se terá repetido e o Sporting juntamente com um Ruiz ruim, tem um que, aparentemente, o não é.

Chama-se Leonardo Ruiz, é colombiano, veio em 2014 para o Porto, acabou no Sporting, esteve emprestado ao Boavista e, julgava eu, era uma aposta firma para a equipa de sub-23, este ano.

No primeiro jogo, em Setúbal, sempre difícil, marcou três golos e contribuiu decisivamente para a vitória. Leio agora, com surpresa, que foi emprestado a um clube de segunda linha … na Ucrânia (!).

Confesso que tenho alguma dificuldade em perceber este racional, em particular, que vantagem haverá em deslocar um jogador jovem para tão longe e porque é que o fazem.

Aqui surge a segunda grande perplexidade: a política de comunicação da SAD. Se há uma explicação plausível, relativamente a este inesperado empréstimo para as longínquas estepes, conviria esclarecer os sportinguistas. Neste e em todos os casos.

Já agora, também seria útil, esclarecer o que se passa com João Palhinha. O Sporting diz que está emprestado um ano ao Braga e volta no fim da época; o Braga, por seu lado, refere que o Sporting, para o ter de volta ao fim do primeiro ano, terá de indemnizar (?) o Braga. Em que ficamos? Mais do que uma obrigação legal, é um princípio ético de transparência, a SAD informar o mercado em geral e os sportinguistas em especial.

 

Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record

 

publicado às 18:12

O BES e as cantinas

Rui Gomes, em 23.08.18

 

Gostei mais do que não gostei do debate conjunto entre os candidatos à presidência do Sporting e gostei francamente do primeiro confronto a dois.

 

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Constato, com muita satisfação, as análises bem trabalhadas sobre temas tão interessantes quanto a organização do futebol, a excelência, a formação, o ecletismo, a liderança, a marca, a internacionalização, a estrutura financeira, a militância e por aí fora.

 

Sigo as eleições do Sporting há alguns anos e arrisco dizer que a valia e qualidade das propostas apresentadas, pese as inevitáveis sobreposições, é, de longe, a melhor de sempre.

Estas eleições têm, consequentemente, tudo para correr bem; e se o número de candidatos pode parecer excessivo - como efectivamente é o caso - o reverso é que permite ao sócio a escolha entre uma multiplicidade de projectos muito criteriosos e desafiantes.

O 'downside' foi a óbvia tentação, muito portuguesa, de entrar na questão pessoal. Nesta matéria, a minha posição é simples: estamos nas eleições do Sporting e conta aquilo que cada candidato e a sua equipa propõem aos sócios e, acessoriamente, aquilo que cada um fez até hoje pelo Sporting. O que cada candidato foi ou é fora do Sporting, salvo casos extremos, não releva.

Não podemos andar a dizer que o Sporting CP é diferente e, ao mesmo tempo, usar os métodos, daqueles de que nos queremos distanciar. Até por uma razão adicional: saímos de uma época em que os ataques pessoais, alguns deles verdadeiramente baixos, eram a pedra de toque de quem mandava no clube.
 
É importante e salutar que se passe aos sócios a mensagem, na teoria e na prática, que esses tempos baixos acabaram. Tenho a certeza de que, durante o que resta da campanha eleitoral, o sportinguismo, entendido como a vivência dos verdadeiros valores do clube de tolerância, respeito e fair-play, vai prevalecer.

Acho ainda que é de pedir um esforço adicional aos candidatos. Com toda a probabilidade, face à dispersão de votos, quem ganhar terá maioria relativa, mas não absoluta. Ou seja, numa outra perspectiva, são mais os sócios que votaram noutros candidatos do que naquele que ganhou. É fundamental enterrar o machado de guerra no dia das eleições e apoiar o vencedor, qualquer que seja a sua votação.

Mais uma razão para evitar rancores e feridas desnecessários. Porque muitos candidatos, mas um só Presidente.
 
Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record.
 

publicado às 04:17

 

 

publicado às 04:04

Deslumbre

Rui Gomes, em 15.08.18

 

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Matheus Pereira resolveu desabafar no Twitter a sua frustração por não ter sido incluído na composição final da equipa, no jogo contra o Moreirense. É inteiramente respeitável a decepção do jogador, e até pode ter acontecido - embora me custe a acreditar - que José Peseiro tenha cometido uma injustiça ao deixá-lo de fora. 

 
O que não se aceita, de forma alguma, é que um profissional do Sporting, jovem ou maduro, exteriorize desta forma pública a sua discordância relativamente às opções do treinador, porque é disso que se trata. Este tipo de situações - já as houve no Sporting e noutros clubes - não tem que ver com a liberdade de expressão, é apenas e só uma questão de disciplina. 
 
As escolhas do treinador do Sporting têm, como é óbvio, de ser acatadas pelos jogadores e não podem dar lugar a estados de alma. Não conheço nenhum treinador que não dê oportunidades a quem se esforça nos treinos, para mais com o potencial que se reconhece a Matheus, que possui inegável talento, mas isso, só por si, não chega para fazer dele um atleta com dimensão para jogar no Sporting.
 
Este episódio suscita duas reflexões. A primeira tem que ver com a política de cedências. O ano passado, no Chaves, onde jogou, era Matheus e mais dez. Foi endeusado e projectado aos píncaros. Talvez isso explique o amuo de vedeta que ainda não o é, mas em Trás-os-Montes claramente Matheus não amadureceu. A segunda tem que ver com o que ensinam aos jogadores na Academia, onde Matheus está desde os 14 anos; já com o que aconteceu no ano passado com o Rúben Semedo e com o Gelson senti algum déficit de formação profissional que Matheus veio, infelizmente, a confirmar.
 
A exposição pública de um jogador e a sua relação com as redes sociais são assuntos que devem fazer parte da aprendizagem e regulamentação do clube, fomentando a contenção, a reserva e o respeito pelo emblema. Matheus é jovem e só espero que tenha quem o aconselhe bem. E que use a sua cabeça para outras coisas que não apenas penteados exóticos em dia de jogo. E, que fique claro, sou admirador das enormes qualidades de Matheus, desejo que ele singre e que dê aos sportinguistas muitas alegrias. Por isso lhe dedico este artigo.
 
Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record
 

publicado às 06:02

Fraude à lei

Rui Gomes, em 08.08.18

 

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O presidente destituído do Sporting, por estar a cumprir, enquanto associado, um castigo de suspensão, não tem capacidade eleitoral passiva, ou seja, não pode candidatar-se a qualquer órgão em eleições. Esta evidência é clarinha como água e não é postergada pela providência cautelar que o presidente destituído proclama a seu favor, a qual apenas constata o óbvio, ou seja, que o presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting tem sempre de aceitar as candidaturas (obrigatoriamente compostas por uma lista compreendendo todos os órgãos) e se não forem, no prazo de 48 horas, supridas as irregularidades detectadas, é então a lista rejeitada em bloco.

 
Embora o presidente destituído se tenha proclamado como renascido, ainda não foi desta tentativa que o mistério da ressurreição passou para o domínio da materialidade terrena. Antecipando o chumbo, veio com uma artimanha, ou seja, substituiu o seu nome por um sonante Erik Kurgy, não deixando de avisar, 'urbi et orbi', que o tal de Erik mais não era que um claro expediente, aliás, uma espécie de barriga de aluguer, porque o verdadeiro candidato afinal era ele, Bruno de Carvalho.
 
Neste libreto de verdadeira ópera-bufa, neste jogo de enganos que é a participação do presidente destituído nas eleições, há dois níveis de análise, que importam salientar. Um deles é o plano ético, sendo no mínimo questionável que um momento tão relevante numa instituição centenária, como são as eleições, que os sócios expressamente quiseram, se preste a encenações como esta. Há um nome para este tipo de coisas, que é falta de respeito.
 
Outro é o plano jurídico: deve uma candidatura em que explicitamente se refere que o candidato a presidente do Conselho Directivo não é quem aparece mas outro, e que essa habilidade mais não visa que contornar a incapacidade eleitoral do verdadeiro candidato ser aceite? Penso que é por de mais evidente que estamos perante um exemplo quase académico daquilo que a doutrina qualifica como fraude à lei; ou seja, por via indirecta, através de um ou vários actos lícitos, procura-se obter um resultado que os estatutos, regulamento disciplinar e regulamento eleitoral proíbem. E, para mais, anunciado e assumido.
 
Marta Soares tem uma tarefa delicada entre mãos. Se, por um lado, possui argumentos jurídicos para recusar esta evidente manipulação, por outro, se o fizer, desencadeia o grande risco de as eleições se prolongarem nos tribunais, com o seu inevitável cortejo de desestabilizações. Que é tudo o que o Sporting não precisa. Já basta o que aconteceu".
 
Carlos Barbosa da Cruz, jornal Record
 

publicado às 03:32

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