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Tenaz revisitada

Rui Gomes, em 24.08.22

21105016_F4Vcq.pngO SL Benfica vendeu o seu melhor jogador, mesmo antes de se apurar para a Champions e contratou em sua vez, um substituto de tal modo bom, que ainda não jogou.

O FC Porto no auge da discussão do título da época passada, transferiu o Luís Díaz, por absoluta necessidade financeira. No defeso, partiram Fábio Vieira, praticamente despachado, Vitinha e Francisco Conceição.

Estes episódios foram abordados pela generalidade dos comentadores e dos media, com muito menos especulação e dramatismo, do que a operação Matheus Nunes. Porque será?

Mesmo no foro interno do Sporting, a saída de João Mário, na véspera, curiosamente, de um jogo contra o FC Porto, ou mesmo de Bruno Fernandes, levantaram muito menos celeuma.

Só encontro duas explicações.

A primeira é que o Sporting de 2022 é muito mais relevante do que aquele que existia no passado.

A segunda é que qualquer acontecimento no Sporting é transformado pela concorrência em crise convulsiva, justamente porque o clube passou da irrelevância ao estatuto de ‘major player’. Esta evolução incomoda muito boa gente, nomeadamente aqueles que defendem que o país desportivo é pequeno demais para três e querem reparti-lo só entre eles.

Deu jeito Matheus sair nesta altura? Claro que não, mas a pressa do Wolves em ter o jogador, terá limitado a margem de negociação, como o prova o facto de ter entrado directamente na equipa, em partida crucial.

Gostei do discurso do Rúben Amorim? Pela primeira vez discordei, embora compreenda que a evolução das coisas, nem sempre é amiga da coerência.

Se acho que Frederico Varandas já se devia ter pronunciado?... Porventura sim, mas ele saberá gerir os seus tempos de comunicação.

A gestão de uma equipa de futebol e de um clube em défice crónico de tesouraria, não tem de ser uma orquestra sinfónica, em que tudo tem de estar afinado e não se toleram cacofonias.

Que a poderosa máquina de propaganda dos rivais alvoroce, não me admira. Que os alcochetistas e os saudosos do “Varandas out”, protestem, também não surpreende.

O que verdadeiramente espanta é que haja sportinguistas que não percebam todo este envolvimento e embarquem em descrenças derrotistas, que o passado recente não justifica.

Não quer isto dizer que se passem indefinidamente cheques em branco, nem o Sporting tem essa cultura de entronização. Agora desunir, quando tudo está ainda em jogo é, como a experiência dolorosamente ensina, regredir.

Artigo de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 12:30

O enigma Sérgio Oliveira

Rui Gomes, em 14.07.22

21105016_F4Vcq.pngPinto da Costa, interrogado sobre as recentes vendas de futebolistas importantes, não hesitou em farpear o Sporting CP, como é agora prática recorrente, chamando a atenção que também se tinha visto na necessidade de transferir um internacional A, o João Palhinha, por 20 milhões.

Subentenda-se das palavras sempre sibilinas do presidente do FC Porto, o propósito de sublinhar o contraste entre os montantes que o Porto cobrou, alegadamente superiores, ou seja do género “eu sei fazer aquilo que tu não sabes”, comissões à parte, claro está.

O que a Pinto da Costa não dá jeito mesmo nenhum comentar, são os estranhos números da transferência de Sérgio Oliveira, também ele internacional A.

Sérgio Oliveira tem no ‘Transfermarkt’, uma cotação de valor do passe de 12 milhões.

Na janela de Janeiro, foi emprestado à Roma, por 1,5 milhões de euros e cláusula de opção de compra de 13 milhões, podendo ir até aos 20.

Sérgio foi importante na campanha da equipa italiana, que culminou com a conquista da Liga Confederação e, naturalmente, os media deram conta que a Roma estava interessado na sua permanência, embora por valores mais reduzidos.

Inesperadamente, ou talvez não, o jogador assinou pelos turcos do Galatasaray, por… 3 milhões de euros.

Por outras palavras o FC Porto negoceia Sérgio Oliveira por cerca de um sétimo do valor de Palhinha e ainda tem a distinta lata de apontar o dedo ao Sporting.

É difícil perceber o racional desta operação, a não ser que as necessidades de aligeirar a folha salarial imponham estes saldos, premência que também explicaria a inexplicável partida de Mbemba, seja qual for a idade que afinal tenha. O que significaria que o “fair-play” financeiro ainda paira sobre o dragão.

Mais uma estória do FC Porto envolta em brumas, a juntar a tantas outras; se acontecesse no Sporting era – justamente – questionada; como é no FC Porto, ninguém faz perguntas, como de costume.

Com a idade que tem e desterrado para um campeonato periférico, Sérgio dificilmente recuperará a visibilidade que merece e que gozava justificadamente em Itália. Só espero que, ao menos, o dinheiro compense.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 03:03

Pavonear revisionismos

Rui Gomes, em 07.07.22

21105016_F4Vcq.pngÉ oficial e assumido. O Benfica congratulou-se publicamente com a não decisão da assembleia geral da FPF em rever os critérios de atribuição dos títulos de campeão nacional e consequente rectificação dos números.

O comunicado do Benfica chega mesmo ao ponto de desejar que se deixem de "pavonear revisionismos", mensagem que foi claramente dirigida ao grande impulsionador desta iniciativa, ou seja o Sporting.

Independentemente do mau gosto semântico, que não surpreende, esta posição teve o mérito de trazer à luz do dia, o que desde há décadas era sabido, mas conspirado na sombra, ou seja, o Benfica era o maior opositor à reconsideração histórica dos títulos de campeão nacional.

Tem alguma graça o Benfica vir acusar o Sporting de pavonear revisionismos – seja lá o que isso for – quando porventura a maior ficção histórica do nosso futebol, é o ano de fundação das águias. Porque de papel passado e reconhecido no notário a 1 de Julho de 1906, só o Sporting, o resto são reconstituições feitas à medida.

Na altura da primeira decisão da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) sobre o assunto, poderia fazer sentido a posição do Benfica, que via ameaçado o que então era o seu maior feito desportivo, o tri do Campeonato Experimental; à luz dos acontecimentos de hoje, só a entendo por uma raivinha atávica de não querer que o seu principal rival tenha mais títulos de campeão nacional, esquecendo-se das suas glórias a quem nega essa distinção, como é o caso de Carlos Alves, Vítor Silva ou Albino, entre outros.

Está percebido também o racional da óbvia displicência com que a direcção da FPF tratou o assunto, encaminhando-o de forma a que tudo ficasse na mesma, para não beliscar os interesses instalados.

A cultura do "fair-play" no nosso futebol, que deveria ser assumida como motor da sua credibilização, dificilmente vingará, com estes tratos de polé. Como dizem os ingleses, old habits die hard…

Resta a consolação que este é só um mero percalço, de uma convicção que não vai nunca esmorecer, escreva quem escrever a história.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruzem Record

publicado às 03:34

Reescrever a História

Rui Gomes, em 16.06.22

21105016_F4Vcq.pngPortugueses e espanhóis defrontaram-se em 1476 na Batalha de Toro, perto de Salamanca. Os historiadores têm-se dividido sobre quem ganhou a batalha. Os espanhóis, como se esperaria, acham que foram eles e os portugueses vice-versa. Imagine-se agora que a Assembleia da República delibera que foram os portugueses os vencedores e manda incluir a verdade histórica assim obtida nos manuais de História. Toda a gente diria que, no mínimo, é um contra-senso.

Mutatis mutandis, é justamente isto que a nossa FPF se arrisca a fazer, ao submeter a uma assembleia geral dos seus sócios os pareceres contraditórios que, alegadamente, existem sobre a questão da qualificação dos títulos nacionais de futebol, entre 1921 e 1939.

Devo sublinhar que continuo a não perceber o desinteresse, para não dizer hostilidade, que o FC Porto e o Benfica votam a esta questão. Fez 100 anos que o FC Porto ganhou o primeiro título nacional e nem um festejo comemorativo desta façanha.

Perguntar-me-ão, ao invés, por que razão o Sporting CP insiste em não deixar cair este assunto, que, ao fim e ao cabo, nem sequer é da actualidade. Respondo, em primeiro lugar, por fidelidade à sua História e, em segundo lugar, por respeito ao esforço dos atletas, simbolizados entre outros, pelo grande capitão Jorge Vieira, que deram o seu melhor para se sagrarem campeões de Portugal, o que, à época era pacificamente reconhecido.

É bem evidente que, convidar as Associações regionais, a Liga, o Sindicato de Jogadores, a Associação Nacional de Treinadores, a Associação Portuguesa de Árbitros, a Associação Portuguesa de Dirigentes, a Associação Nacional de Enfermeiros e Massagistas e até a Associação dos Médicos a opinar sobre uma matéria de tão específica tecnicidade, da qual compreensivelmente nada percebem, só pode ter dois desfechos: ou disparate ou deixar tudo como está.

Parece-me que nenhuma destas alternativas é minimamente desejável, embora a segunda pareça corresponder aos desejos das forças que habitualmente mandam nestas instâncias.

Este é um assunto exclusivo de interpretação histórica e, como tal, tem de ser decidido por historiadores. Se eles não estão de acordo, emtão que discutam entre si, que se peçam mais opiniões, que se aprofunde até onde for possível.

Pode acontecer inclusivamente que, no final, não reconheçam razão ao Sporting. Mas essa conclusão será fruto de rigor científico e honestidade intelectual e não da trapalhada que se anuncia.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 03:34

Não conheço adepto de nenhum clube que esteja contente com o funcionamento da justiça desportiva em Portugal. Talvez só os do Benfica, afinal as instâncias revogaram oito jogos de interdição do Estádio da Luz, que lhe tinham sido aplicados.

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A ideia que transparece para o exterior é que a justiça desportiva é tacticista na definição dos seus tempos e lenta na sua concretização. Dificilmente se compreende porque é que alguns casos são decididos com celeridade e outros nem por isso. De igual modo, a existência alargada de instâncias de recurso propicia um enorme desfasamento entre o ilícito e a decisão final.

Como é óbvio, estes défices de transparência e funcionalidade fragilizam a credibilidade de todo o sistema.

Impõe-se, assim, uma reflexão séria, desejavelmente isenta daqueles subterfúgios em que os nossos clubes são tão pródigos, sobretudo aqueles que mais prevaricam e que levam ao entorpecimento da actividade sancionatória, criando a convicção de que no futebol, como infelizmente noutras actividades, o crime compensa. Aqui fica um conjunto de sugestões:

- Concentrar toda a acção disciplinar na FPF, acabando com a Comissão de Instrutores da Liga;

- Fundir o Conselho de Disciplina e o Conselho de Justiça num único órgão;

- Estabelecer prazos peremptórios para a instrução e conclusão dos inquéritos disciplinares, com reforço de efectivos, se necessário;

- Abandonar a ficção da "field of play doctrine", permitindo uma efectiva correcção dos erros cometidos pela arbitragem e, consequentemente, melhor justiça;

- Não admitir recursos das decisões do TAD para os tribunais administrativos.

Claro que esta radical mudança implicaria alterações num conjunto de diplomas legais, alguns de âmbito mais lato do que a modalidade futebol.

Dizem que, havendo vontade política, tudo se consegue. A pergunta crucial , porém, é a seguinte: será que alguma vez haverá?

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruzem Record

publicado às 03:34

Não temos medo

Rui Gomes, em 01.06.22

21105016_F4Vcq.pngTenho criticado muitas vezes nesta coluna a visão bem belicista que o FC Porto tem do desporto em geral. Esse confrontacionismo é hoje transversal a todas as modalidades e identitário de atletas, dirigentes e até comentadores desportivos.

A óbvia agressividade crónica dentro e fora de campo é, no fundo, o afloramento da cultura de que vale tudo para vencer.

O Sporting é visto hoje como o maior inimigo desportivo e institucional do FC Porto e daí o ser alvo preferencial de todo o vasto arsenal de provocações e constrangimentos, que os quarenta anos disto aperfeiçoaram à exaustão.

Mais do que questões pessoais ou conjunturais, eu acho que são duas visões antagónicas do desporto que se confrontam.

Consequentemente, é uma batalha que o Sporting não se pode eximir de travar.

Não tenho dúvidas algumas que os ataques e intimidações vão recrudescer, porque se para o Sporting é uma questão de princípio, para o FC Porto é uma questão de sobrevivência dos negócios de muita gente.

Como é óbvio, o Sporting está preparado para reagir, não da mesma forma e pelos mesmos meios por que é atacado, mas com a firmeza dos seus valores e a consciência tranquila de que, quem está à frente do Clube, não tem lixo acumulado debaixo do tapete.

Fique claro uma coisa: a partir de agora, nada será como dantes e a denúncia será sempre feita com frontalidade e impacto, para que não haja dúvidas de duas realidades: quem prevarica e quem assobia para o lado.

E, já agora: podem falar alto, esticar o dedo, ameaçar e até enviar a tropa de choque. Nós não temos medo.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 13:30

Tóxico

Rui Gomes, em 12.05.22

O Primeiro-Ministro, excluiu os dirigentes do FC Porto, das felicitações que enviou pela conquista do campeonato. O Presidente da República foi mais longe e omitiu qualquer voto, relativamente ao campeão.

Pinto da Costa, igual a si próprio, acusou o toque e lançou-se numa costumeira diatribe contra a centralização e a asfixia de Lisboa.

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O Primeiro-Ministro é um político sagaz que não dá ponto sem nó e o Presidente é aquela pessoa esfuziante que conhecemos, pródiga nos seus afectos. Em circunstâncias normais, ter-se-iam desdobrado em encómios, em altura tão propícia, mas claramente estão concertados nesta surpreendente atitude e a questão será de saber a razão pela qual o fizeram.

Não creio que se trate de sobranceria centralista ou sequer até de distracção. Acho que o fizeram intencionalmente e com um propósito claro de demarcação.

Pinto da Costa, como se sabe, está actualmente a ser investigado no âmbito da "operação prolongamento" e os indícios que apontam para a prática de ilícitos graves são, pelo que diz a comunicação social, muitos e variados.

A presunção de inocência é uma coisa muito bonita, mas não há homem público nenhum que goste de ficar colado ao que pode vir a ser um escândalo de grandes proporções e, em obediência à boa jurisprudência das cautelas, descartam-se.

O mundo mudou, mas Pinto da Costa ainda não percebeu isso e continua agarrado aos estereótipos dos anos oitenta. Pela primeira vez em quarenta anos, o poder político não se vergou a Pinto da Costa e emitiu um juízo, implícito, mas nem por isso menos claro, de reprovação.

Tem a palavra a Justiça. As buscas que o Ministério Público realizou datam de Novembro de 2021. Eu respeito os tempos da investigação, mas este silêncio de quase seis meses, presta-se a todas as especulações.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 07:03

A tenaz

Rui Gomes, em 05.05.22

A comunicação social tem vindo a desvendar facetas da amizade entre Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa, muito para além das filmagens no Estádio da Luz.

Amizade improvável, dirão alguns. Para mim, porém, faz todo o sentido. Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa, não obstante dirigirem clubes rivais, tinham alguma coisa em comum que os unia, e que era a estratégia para reduzir o Sporting à quase insignificância.

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Durante anos, sob o supérfluo pretexto que o mercado era exíguo para três, tentou-se, pelas mais variadas formas e em diversas frentes, com a evidente cumplicidade tolerante de alguma opinião publicada, apear o Sporting da relevância desportiva, o que conduziria inexoravelmente à asfixia financeira e ao desejado declínio; no fundo, fazerem o que o saudoso Belenenses fez a si próprio.

Não nego que, em várias alturas, o Sporting se pôs a jeito para ter este destino, mesmo sem ninguém que o empurrasse para o abismo, mas há coisas que aconteceram e que só se podem explicar por via de uma influência mancomunada. Falo, em concreto e muito da arbitragem, da disciplina, da partilha de lugares de relevo, dos clubes amigos e de apoios externos.

Ainda estou para perceber as negociatas com a Euroárea e as doações da Câmara do Seixal, que permitiram ao Benfica edificar o seu centro de estágio, onde antes era área protegida, para não falar do escândalo grosseiro que é a utilização quase gratuita do Olival pelo Porto, construído com dinheiros da fundação PortoGaia, ou seja, nossos. O Sporting, esse, pagou Alcochete com língua de palmo. Estão a perceber do que estou a falar?

A questão é esta... Vieira e Pinto da Costa podem ser afinal os melhores compinchas e terem conspirado nas férias, em casa do amigo Adriano. Quanto muito, apontar-se-lhes-á deficit de fair play, mas isso não é, propriamente, grande novidade.

Quem tem de fazer pela sua vida e inverter este rumo é o Sporting, no campo e fora dele, nunca abdicando da sua razão, nunca pactuando, nunca se vergando às tangas do dirigente mais titulado do mundo ou dos seis milhões de portugueses. Mas este é um trabalho de todos os sportinguistas e de todos os dias.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 03:04

A reverência

Rui Gomes, em 28.04.22

Pinto da Costa não faz o meu género como pessoa e dirigente, mas respeito aqueles que o escolhem, mesmo sem fazer perguntas.

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Claro que me interrogo sobre o racional de colocar um geronte à frente de uma instituição centenária que, para mais, se dá ao luxo de dizer que sairá quando entende e que não indigita sucessor. Temo o pior para o ‘day after’, contudo esse é um tema que me transcende. Não gosto nada do estilo, não aprecio os métodos e não me cativa a comunicação mas, repito, esse é um problema meu.

A questão é outra. Arreigou-se uma praxis em que Pinto da Costa diz o que quer sobre tudo e toda a gente, mas se alguém o critica ou aponta o dedo ao FCP é um ai-jesus de virgens ofendidas, como a polémica com o Tito Fontes bem o evidenciou.

Depois existe a tal ‘cerca sanitária’, traduzida numa generalizada subserviência, da qual, infelizmente, não excluo os media, em que ele nunca é confrontado com temas incómodos.

Compreendo que se assinalem os quarenta anos de dirigismo desportivo ou mesmo que se encaminhe o homem para a vitaliciedade; indigna-me, porém, que ninguém o inquira sobre o destino dos dinheiros das transferências dos último quinze anos, o nível salarial e os prémios da administração da SAD, as relações desta com o filho, os negócios com Pedro Pinho e Bruno Macedo, os financiamentos de Theodoro Fonseca, a elevada taxa do último empréstimo obrigacionista, as condições de utilização do centro de estágios do Olival, por exemplo, ou mesmo temas tão comezinhos como as faltas de comparência do basket, o salário de Otávio, ou os comportamentos do seu colega de administração.

Frederico Varandas é sindicado e bem, a meu ver, sobre todos os temas que têm a ver com o Sporting CP, alguns delicados, que tem o dever ético de esclarecer, não só os sócios e adeptos, como a opinião pública. É assim em qualquer instituição de utilidade pública, para mais com a grandeza e impacto do Sporting. Pinto da Costa, esse, só fala.

Ora um homem só é mesmo grande quando confrontado com a dialética do contraditório. Considero que o futebol só se libertará dos miasmas que o atormentam e desvalorizam com uma política transversal de transparência, em que todos sejam chamados a prestar contas. Falar de cátedra e mandar bitaites é fácil. O difícil é mesmo responder a perguntas.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 03:19

Como se ganham campeonatos

Rui Gomes, em 21.04.22

21105016_F4Vcq.pngNão acredito que haja árbitros corruptos, mas sei que os há pouco corajosos e, sobretudo, influenciáveis. No limite, a diferença não é muita.

O FC Porto explora muito habilmente essa faceta, praticando uma cultura de constrangimento permanente. Qualquer falta sofrida, é ampliada com esgares de sofrimento excruciante e qualquer falta cometida é contestada gestualmente (as mãos na cabeça são verdadeiro ex-libris), como se da maior injustiça se tratasse. Esta bem ardilosa coreografia tem um propósito definido: condicionar o trabalho do árbitro.

Na célebre 'falta' que Coates NÃO cometeu sobre Taremi, que lhe valeu um imerecido amarelo, e que acabou por pesar decisivamente no desfecho do jogo, alguém tem dúvidas que o acrobático rebolar e a expressão de padecimento dolorido, bem como a linguagem gestual dos restantes jogadores e do banco, induziram o árbitro ao erro?

Longe vão os tempos das peitadas de Jorge Costa ou das perseguições de Paulinho Santos. O FC Porto refinou a metodologia. Mas só na forma, porque na substância tudo continua igual.

Com isto, consegue-se que os adversários sejam expulsos ou joguem sob essa ameaça, e que se marquem mais penáltis, contabilidade essa, ampliada agora com as notas artísticas dignas de concurso de mergulho olímpico.

Diz-se que o FC Porto é a equipa que pratica melhor futebol, o que não vou sequer discutir. Só direi que é mesmo muito fácil jogar bem contra adversários carregados de cartões ou com menos jogadores. E quando a coisa está preta, há sempre um penálti salvador que, se não há, inventa-se.

Esta é uma fórmula de sucesso, porque, sejamos claros, estamos a falar dos pontos que garantem títulos. Não dá para ganhar sempre, sobretudo quando se gasta mais do que se tem. Mas dá para fazer a grande diferença. Culpo menos o FC Porto – é, quando muito, uma questão de fair play - e mais quem permite que estas práticas se eternizem no nosso futebol.

De nada vale a competência técnica de um árbitro, quando ele disciplinarmente sucumbe ao ambiente. Mil vezes um árbitro que erra porque se engana, do que um que erra por ter medo.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruzem Record

publicado às 03:19

Regresso ao futuro

Rui Gomes, em 31.03.22

21105016_F4Vcq.pngNão sei se o Sporting este ano vai voltar a ser campeão. Tenho esperança que sim, sobretudo porque fico com a amarga sensação de que a distância que nos separa do primeiro classificado, tem duas causas maiores.

A primeira radica na qualidade das arbitragens nos confrontos contra o FC Porto, que se traduziram objectivamente em perdas de pontos.

A segunda prende-se com o benefício que o Porto colheu de meia dúzia de arbitragens benévolas. É fácil jogar bem contra adversários encolhidos ou reduzidos.

Não partilho da opinião de que a estrelinha, este ano, rumou a Norte; acho outrossim que os santos padroeiros a quem o Porto pré-encomendou o seu destino, estão a responder cientificamente às suas preces.

Qualquer que seja o desfecho, uma coisa me consola: a constatação que a próxima época está a ser preparada, a tempo e horas.

Este é um registo que contrasta mesmo muito com um passado recente, em que o Sporting contratava jogadores, muitos deles de refugo, no último dia da janela de transferências, já com o campeonato a decorrer, com a consequência inevitável de plantéis desequilibrados.

Rúben Amorim joga por antecipação. Projecta aquilo que irá ocorrer na próxima época e procura agir em vez de reagir. Ugarte e Edwards são bons exemplos dessa metodologia.

Se João Palhinha, Mateus Nunes ou Porro tiverem que sair, pela força das condicionantes financeiras, o Sporting não fica órfão, porque já tem plano B.

O que o futuro nos reserva, só Deus sabe, mas eu sei de certeza absoluta, uma coisa: o Sporting 22/23 vai ser competitivo e ambicioso, como o tem sido ultimamente, porque já não há lugar ao improviso voluntarista.

O campeonato português será de todos quantos se disputam na Europa, aquele em que, para além da pouco prestigiante distinção de ser a competição onde menos tempo se joga, os factores exógenos têm mais peso na classificação. Esclareça-se que, factores exógenos são a organização técnica e administrativa, a disciplina e a arbitragem, com VAR incluído.

Vamos ter um Sporting CP à altura dos seus valores e pergaminhos? Não tenho dúvidas, assim os erros – que os haverá sempre - sejam equitativamente repartidos.

Porque a mão invisível só vale na economia de mercado!

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 03:04

Os coletes esquecidos

Rui Gomes, em 18.03.22

Não sei quem lançou as tochas para dentro do relvado, no último Sporting-FC Porto, para a Taça, em Alvalade. Não sei se foram os suspeitos do costume ou se outros quiseram replicar a sua crónica estupidez.

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Sei apenas que eles fizeram um grande favor ao FC Porto, porque desviaram a atenção dos acontecimentos pós-jogo no Dragão. A questão do dia já não são as agressões, a intimidação e a violência organizada, mas o lançamento da pirotecnia, que adquiriu foros da grande nódoa do futebol. Como se isso não bastasse, a claque do Benfica resolveu armar-se em macaco de imitação e temos o FC Porto a esfregar as mãos de contente. Houve até um governante, com tutela sobre o Desporto, que entendeu oportuno pronunciar-se publicamente sobre o flagelo das tochas, mas – pasme-se – deixou-se ficar calado sobre os desacatos no Porto.

Continuo a achar que o que se passou à data no Dragão foi de superlativa gravidade. De igual forma, entendo que o recrutamento de agentes exteriores para exercícios de agressão e constrangimento é das mais deprimentes manifestações de falta de fair-play a que tenho assistido, nos muitos anos em que sigo o futebol.

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Em qualquer outro foro jurisdicional, o Dragão tinha sido preventivamente interditado, os inquéritos disciplinares constituiriam carácter urgente e a generalidade das instituições desportivas e políticas, teriam feito indignado coro na condenação dos acontecimentos. Neste país de brandos costumes, parece que se instalou um pacto de silêncio, à espera do efeito branqueador do esquecimento.

Interrogo-me sobre as razões pelas quais tudo quanto tem a ver com o FC Porto é tão complicado. Porque é que não há ainda arguidos na ‘Operação Prolongamento’, porque é que os árbitros apitam tão mal no Dragão, porque é que há sistemática condescendência para os desmandos disciplinares, os cartões cirúrgicos e por aí fora.

Tenho na memória as peitadas de Jorge Costa a António Rola, a perseguição de Paulinho Santos a José Pratas, a escolta de Pinto da Costa na entrada do Tribunal de Gondomar para concluir que estamos perante uma questão antiga e cultural. Eu sei porque é que as coisas se passam assim. Meter medo ainda assusta muito boa gente.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 04:03

Apipipita

Rui Gomes, em 09.03.22

21105016_F4Vcq.pngMuita tinta vai/deve correr sobre o tema de hoje, que é a recente divulgação de a nossa Liga ser a terceira do mundo (!) com menor tempo útil de jogo e a segunda com mais faltas.

Não faltarão entendidos a argumentar que se trata de uma questão cultural, que carece de pedagogia, que os nossos jogadores são uns fiteiros. Há mesmo quem já tivesse dito que, quando um português joga no estrangeiro, muda logo de atitude.

Será um pouco de tudo isso, mas, em meu modesto entender, nesta pouco ou mesmo nada prestigiosa estatística, ressalta uma causa maior: a arbitragem.

Vamos ser claros: se há pouco tempo útil de jogo, é porque os nossos árbitros não dão os descontos de compensação adequados às paragens e incidências que o jogo tem.

Se há muitas faltas, é porque os árbitros as marcam.

E, claramente, em Portugal, apita-se demais, apita-se de ouvido e apita-se a pedido.

Isto tem uma explicação: é que, na generalidade dos casos, os nossos árbitros entram em campo mais para se defender, do que para gerir, como é suposto, o desafio.

Um árbitro defensivo e timorato, tem tendência a intervir em todos os lances, pecando sempre por excesso e o resultado são aquelas sinfonias de apito tão nacionais.

Um árbitro defensivo é mais permeável ao caseirismo, ao teatro, ao constrangimento, aos bancos ululantes, ao ambiente, ao protesto. Todos nós conhecemos aquelas equipas que apuraram sofisticadas coreografias de intimidação.

Em Portugal, marcam-se as faltas mais ridículas, mais microscópicas, mais virtuais de toda a Europa, porque, desta forma, o árbitro não pode ser criticado por omitir.

Ainda bem que veio alguém dizer que o rei vai nu, mas isso não basta, há que tirar ilacções. Se preendemos fazer um upgrade da nossa Liga, vender caros os direitos centralizados (condição sine qua non para o seu sucesso), necessitamos de uma arbitragem à altura.

É altura de a APAF estar menos preocupada com a honra dos seus filiados e mais com a sua personalidade e aptidões técnicas.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 13:15

E depois do apito

Rui Gomes, em 02.03.22

21105016_F4Vcq.pngSérgio Conceição não resistiu sequer a duas jornadas de bom comportamento e, no final do empate com o Gil Vicente, lá foi azucrinar o juízo do árbitro, que lhe exibiu o enésimo amarelo.

A questão não é tanto do défice crónico de fair play do treinador do FC Porto, outrossim de um tema que tem vindo, pelas piores razões, para a notória ribalta dos tesourinhos deprimentes do nosso futebol: o pós-jogo.

Os episódios lamentáveis do que se passou no Estádio do Dragão deveriam merecer uma especial atenção dos poderes constituídos, que, pelo seu estrondoso silêncio, mais parece que anseiam que tudo se esqueça.

De pouco vale querer na fachada, modernizar a indústria, quando, no campo, se passam coisas do mais detestável primarismo.

Ficam três simples sugestões, para obviar a estas cenas degradantes. Primeiro, proibir o acesso ao relvado de quaisquer elementos exteriores, uma vez terminado o jogo; segundo, restringir drasticamente o número de pessoas credenciadas para se sentarem nos bancos, que, à última contagem, ia em 32 por equipa; terceiro, impor que no intervalo e no final do jogo as equipas saiam e entrem separadamente para os balneários.

Nenhuma destas medidas colide com a operacionalidade competitiva ou sequer é difícil de implementar. A pergunta é, então, porque é que não se faz nada. Parece que há interesse em deixar tudo como está. Fica então a amarga constatação que os subterrâneos do futebol ainda têm muita força.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 14:00

Pacificação do Clube?

Rui Gomes, em 25.02.22

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"Sou frontalmente contra a readmissão do ex-presidente. Desde logo por não achar que essa medida possa contribuir para unir o Clube, antes pelo contrário, mas, sobretudo, por considerar que a pessoa em questão já provou que nada tem que ver com os valores e princípios que regem o Sporting, desde a sua fundação.

Caberá, como sempre, aliás, a última palavra aos sócios, decisão essa que, obviamente, respeitarei. Os sócios que me desculpem mas, no improvável caso de o ex-presidente ser readmitido, continuarei sportinguista até morrer, mas entregarei o meu cartão. Porque, se for assim, claramente sentir-me-ei a mais no Sporting".

Excerto de um recém-artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz

NOTA: Isto vem a propósito de quem tem em agenda a readmissão dos sócios expulsos, em nome de uma suposta pacificação do Clube.

publicado às 03:48

A legião azul

Rui Gomes, em 18.02.22

21105016_F4Vcq.pngNão é segredo que o FC Porto tem uma concepção eminentemente belicista do desporto, encarando cada confronto numa óptica de hostilidade guerreira, com contornos quase existenciais.

Privado de qualquer dimensão ética, o desporto perde totalmente o seu fascínio olímpico e transforma-se numa psicose obsessiva de vitória a qualquer preço.

Durante anos, este lado lunar do clube do Norte, foi olhado com injustificada tolerância por parte de quem tinha o dever de agir. No fundo, o clássico apedrejamento do autocarro adversário na ponte da Arrábida, a criolina no balneário, o guarda Abel, os cartazes da Carolina Salgado e outros afloramentos do género, eram vistos como excessos de virilidade competitiva, mas desculpáveis à luz da saloiice crónica de quem olha para o país, como se ainda houvesse cristãos e mouros.

Só que o bichinho que mordiscava, transformou-se num monstro.

É preciso ter uma visão doentia do desporto, para arregimentar gente exterior a qualquer desafio e cuja razão de ser é apenas e tão só prestar o serviço para que foram contratados. A incendiária intervenção neste jogo de apanha-bolas, seguranças e supostos arrumadores de publicidade, todos em uníssono molestando física e verbalmente vários jogadores do Sporting, em articulação que não era de modo algum espontânea, fez-me irresistivelmente lembrar um campo de batalha, com o general, lá do alto, a fazer avançar a sua infantaria.

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Tenho defendido que, por forças dessas e doutras circunstâncias, passam-se sempre coisas nas Antas/Dragão, que não se verificam em nenhum outro campo do país. Os níveis de intimidação que ali são há muito sistematicamente praticados e infelizmente consentidos, condicionam objectivamente a arbitragem e os adversários e isto traduz-se em resultados.

O garantismo da nossa muito desprezada justiça desportiva, vai provavelmente desfasar e amortecer a aplicação de qualquer sanção, se é que, a máquina branqueadora que já está em curso, não surtir, entretanto, os seus efeitos.

Em qualquer outro campeonato, o Dragão seria preventivamente interditado. Neste país de brandos costumes, porém, o que releva é o empurrão do Bruno Tabata, ou a fantasiosa provocação do Adán e siga a marinha.

Baptista-Bastos escreveu que... "o fascismo nunca experimentou inibições lógicas ou morais: valeu-se de tudo, sem pudor, para se perpetuar no poder e rudemente impor a desvalorização do ser humano".

Ao ver aquele efectivo paramilitar a evoluir no relvado, pensei, confesso, na legião azul.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 03:04

Encanto na despedida

Rui Gomes, em 15.01.22

O treinador Álvaro Cervera foi despedido do Cádiz, da primeira divisão espanhola.

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A notícia teria a banalidade própria de mais uma mera chicotada psicológica, não fora a circunstância de, na hora de saída, a ‘afición’ do clube o ter brindado com uma estrondosa ovação. E não era por menos, Álvaro Cervera treinou o Cádiz CF mais de cinco anos e cometeu a proeza de o levar da terceira divisão ao estrelato da La Liga. Assentou bem aos adeptos ter memória e gratidão, valores raros no mundo cão do futebol.

Não sei quando é que Rúben Amorim vai abandonar o Sporting, nem em que eventuais circunstâncias o fará. Espero bem que só daqui a muitos anos e muitos títulos. Sei que, independentemente do que o futuro reserva, deixará uma marca indelével na história do clube. E não apenas pelos resultados desportivos, que, como é evidente, pesam sempre.

O que torna Amorim tão especial é a linearidade da sua comunicação, com um discurso, ao mesmo tempo profissional mas também muito alegre e descontraído, que de algum modo espelha a forma como a equipa joga.

O acento tónico no colectivo, a defesa intransigente dos jogadores quando criticados, a recusa absoluta de narcisismos, bodes expiatórios e recriminações, tão em voga noutros treinadores, a grande lucidez e a ironia, são as suas marcas de água. Poucos treinadores se identificam tão bem com os valores do Sporting. Só tenho que agradecer ao próprio e a quem teve a ousadia de o contratar.

Já se viu que Rúben não vai em cantos de sereia, não é vira-casacas e tem um projecto de crescer com o clube. Se ele se tornar no Alex Ferguson do Sporting, encantado! Mas se alguma proposta milionária o resgatar, ou mesmo numa muito improvável contingência de rescisão unilateral por via de maus resultados, a minha gratidão mantém-se, por tudo o que ele deu e devolveu ao meu Clube.

Rúben, mesmo que saias a mal (o que não antecipo claro!), se vires um velhote do outro lado da rua a aplaudir forte, sou eu. E tenho a certeza que terás alguma dificuldade em me identificar, porque serei um entre muitos.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruzem Record

publicado às 03:32

Centralização bicuda

Rui Gomes, em 08.09.21

Surpreendentemente, e daí talvez não, a cimeira de presidentes da Liga, considerou a antecipação da centralização de direitos televisivos, porventura já na próxima época.

Lembre-se que o DL nº 22-B/2021 previa a centralização, a partir da época 2027/2028, embora admitisse que, por consenso dos interessados, pudesse ocorrer mais cedo. Porquê agora esta pressa? Em minha opinião, este volte-face tem um nome, que é CVC Capital Partners.

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Em Espanha, com base única na sociedade veículo que comercializa os direitos de transmissão, a CVC adiantou aos clubes 2,1 mil milhões de euros e, em contrapartida, cedeu 11% dessa sociedade durante 50 anos. Esta bazuca, veemente contestada pelo Real Madrid, veio aliviar fortemente as tesourarias dos clubes, depauperadas pelo Covid.

Só também centralizando em Portugal se conseguirá obter um enquadramento jurídico, que permita pensar numa operação semelhante. Este percurso confronta-se, porém, com alguns escolhos.

O primeiro tem muito a ver com os contratos actualmente vigentes e que teriam de ser denunciados. O segundo prende-se com os financiamentos que a generalidade dos clubes obteve com base nas receitas futuras, justamente com origem em tais contratos e que estão dadas como garantia às entidades mutuantes. O terceiro, last but not least, consiste na grande dificuldade em acomodar os interesses de todos os intervenientes, sobretudo dos três grandes que, naturalmente, não querem perder receitas com a centralização.

Se estiveram atentos às declarações de Rui Costa na cimeira, foi isso exactamente o que ele quis dizer. Tendo em conta o fosso quantitativo entre o que recebem, em Portugal os três grandes, e os outros, acomodar todos os interesses releva da quadratura do círculo.

Acresce que La Liga tem argumentos de elevada qualidade, organização e protagonistas que, infelizmente, não se replicam nas nossas competições. Desejo a maior sorte a Pedro Proença nesta missão tão espinhosa. Talvez o aliciante de um maná de dinheiro ajude a amenizar irredutibilidades. Mas que é difícil, é sim senhor.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 03:02

O leitão do nosso descontentamento

Rui Gomes, em 06.07.21

Foi dado grande destaque mediático ao recente encontro dos presidentes dos clubes da Primeira Liga, no restaurante o Rei dos Leitões, na Mealhada.

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Esta reunião até nada teria de singular não fora dois significativos pormenores. O presidente da Liga não foi incluído e os presentes fizeram questão que isso se fosse conhecido. Foi noticiado ainda, pouco depois, um muito improvável tête-à-tête, entre os presidentes do Benfica e do FC Porto, no exacto mesmo restaurante. Desta feita, consta que o presidente da Liga teria participado em pelo menos parte da conversa. Finalmente dá-se agora eco à possibilidade de os principais clubes da Primeira Liga formarem uma associação independente para dialogar com o Governo sobre o incerto futuro do futebol.

Esta cronologia justifica algumas reflexões. A primeira é que o futebol está em tempo de divisão. Parece óbvio que os grandes clubes não se sentem representados pela Liga e, dentro desses grandes clubes, há quem se posicione para liderar o processo. A segunda é que causa impressão ver assuntos tão importantes tratados entre duas trinchadelas. A terceira é que FC Porto e Benfica querem voltar a liderar o futebol português, mesmo que, para isso, tenham de engolir ressentimentos ancestrais.

Se há alguma coisa que o ‘Apito Dourado’ e o ‘E-Toupeira’ ensinam é que os presidentes actuais do Benfica e FC Porto alimentam um sentimento proprietário relativamente ao futebol e que eles não hesitam sequer na legalidade dos meios utilizados para alcançar esse desiderato. Como é óbvio, o FC Porto não encara, nem por um minuto, partilhar o poder com o Benfica; aproveita-se, sagazmente, das debilidades actuais do presidente do Benfica para o atrair com cantos de sereia. Depois, quando for altura, descarta-o, se a oposição interna não o fizer antes.

Toda esta movimentação pressupõe a marginalização da Liga, que fica remetida a um mero papel de gestora administrativa do futebol profissional. A hegemonia que o Sporting Clube de Portugal conquistou este ano desencadeou um abalo telúrico de enormíssimas proporções na concorrência, porque os confrontou com a amarga constatação que já não mandavam como outrora.

Com estes protagonistas e esta mentalidade, o futebol não pode esperar a transparência, sustentabilidade e competitividade tão necessárias à sua credibilização. Este ‘dueto do leitão’ lembra-me irresistivelmente os velhos dos Marretas, que teimam em não sair de cena.

A alternativa, portanto, é continuar a ser afilhado destes padrinhos ou assumir o Ipiranga de um novo modelo de modernidade, no seio das ditas instituições a quem foi legalmente cometido o encargo de gerir o futebol.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

publicado às 12:30

Afirma Pereira

Rui Gomes, em 02.06.21

Descansem os leitores que não vou transformar esta crónica numa apreciação literária do magnífico livro de António Tabucchi, mas, em última análise, até seria melhor.

O enredo não é ficção, mas triste realidade.

O presidente da ANTF, José Pereira, na recém-cerimónia de (justa) homenagem a alguns treinadores locais, transmitiu que Rúben Amorim continuava sem ter a licença UEFA Pro, correspondente ao famigerado IV grau.

Note-se que a grande preocupação do dito presidente não foram as condições laborais, o desemprego, os salários em atraso, a dignificação da classe, a ética das relações entre profissionais, nada disso. O tema foi, espantosamente... Rúben Amorim.

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O dito presidente nada disse sobre a circunstância de o último curso ter sido organizado pela FPF, em Novembro de 2020, circunscrito a 20 candidatos e deixando de fora 199 (!) pretendentes, corporizando uma violação deveras enviesada do direito ao trabalho. Se calhar essa circunstância não o apoquenta, porque na prática são menos os concorrentes para os escassos lugares vagos.

A queixa da ANTF no Conselho de Disciplina da FPF é de uma deprimente sibilinidade. Não diz simplesmente que Rúben não tem as certificações exigidas, outrossim acusa-o, a ele e ao Sporting, de simulação e fraude, na elaboração do contrato de trabalho, pondo em causa o poder conformativo da prestação laboral, que assiste ao Sporting, enquanto entidade patronal, e o dever de obediência que impende sobre Rúben Amorim, enquanto trabalhador.

Rúben Amorim já deu a resposta em campo e, sem a UEFA Pro, ganhou o campeonato. Eu sei que do ponto de vista legal não tem relevância, mas é uma bofetada de luva branca no corporativismo da ANTF, que, por exemplo, ficou calada perante as cenas macacas de Sérgio Conceição e Paulo Sérgio ou na pública descortesia de Jorge Jesus com Lito Vidigal, assuntos que deve ter considerado menores.

Tive de fazer uma grande busca na internet, para saber que clubes o presidente da ANTF tinha treinado, antes de se alcandorar à posição cimeira da classe e fiquei elucidado. Como treinador e como presidente, o registo é igual: fraca figura.

Artigo da autoria de Carlos Barbosa da Cruz, em Record

NOTA: Como referenciámos ontem, o Sporting CP e Rúben Amorim foram absolvidos das acusações de falsas declarações e fraude e de fraude na celebração dos contratos, com a acusação ao Clube de quadro técnico sem as habilitações mínimas a ser arquivada.

Apesar desta decisão, a ANTF emitiu um comunicado através do qual vinca a sua posição sobre Rúben Amorim.

publicado às 03:19

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