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Passaram esta quinta-feira 18 anos de um dos maiores escândalos da justiça e mais uns quantos da perpetuação de uma das maiores mentiras que alimenta o mundo do futebol.

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Há dezoito anos, incomodado com as escutas do Apito Dourado, o Governo de Durão Barroso despachou os dois coordenadores da investigação, Teófilo Santiago e Massano de Carvalho. As escutas a Valentim Loureiro revelavam a velha central de favores no futebol mas também na política. Isso incomodou o governo. De telemóvel na mão, o major metia cunhas para a sua vida de autarca, pedia ajuda para o seu amigo Sousa Cintra construir na paisagem protegida da Costa Vicentina, exigia favores a vários ministros e secretários de Estado, insultava funcionários do Estado mais apegados a cumprir a lei.

A PJ do Porto respeitou escrupulosamente a investigação, resistiu a pressões e respeitou a separação de poderes, nada dizendo ao Governo sobre o que estava no processo. Os coordenadores do caso foram afastados, o director da PJ do Porto exonerado e quase ia sendo preso.

Esses dias negros para a Justiça ficam por conta do Governo de Barroso e é, também por isso, que estas escutas são importantes. Para memória futura. É nesse momento, aliás, que começa a grande mentira sobre a propalada ilegalidade das escutas. Esse primeiro ataque ao processo abriu a porta para quem tinha interesse em destruí-lo, sobretudo na parte mais quente, no que mostrava sobre o poder de Pinto da Costa.

As escutas do processo Apito Dourado foram totalmente legais, autorizadas e validadas judicialmente. Serviram, aliás, para condenar todos os arguidos no processo que envolvia o Gondomar. O que aconteceu foi que não eram, como não são, admissíveis para processos disciplinares na justiça desportiva, essa grande aberração, não apenas portuguesa, onde os estados abdicam de parte da sua própria soberania, entregando a justiça ao mundo do futebol e retirando-a dos tribunais.

O ónus da sua utilização está, portanto, em quem quis fazê-lo na dita justiça desportiva e não no processo judicial, nem nos investigadores. Elas não só foram completamente legais como, sim, é pura verdade, mostraram a corrupção activa e passiva reinante no futebol. Mostraram o ‘sistema’ de poder que fabricava resultados, a fruta que o alimentava e as cumplicidades que dispunha na construção e destruição de carreiras de árbitros, dentro da própria Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e nas associações. Mostraram, finalmente, dirigentes desportivos que, pese embora os sucessos desportivos ao longo de 40 anos, são tudo menos exemplares. De resto, ao contrário do que disse há dias um membro do actual governo e, de outro modo, confirmando tudo o que pensa e disse o presidente de um dos três grandes sobre a dita corrupção activa.

Artigo da autoria de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado, em Record

publicado às 06:04

O pesado silêncio da culpa - II

Rui Gomes, em 28.05.22

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Os cobardes que matam e depois choram são um pouco melhores, apesar de tudo, do que os outros que os educaram e incentivaram a meter a força e a pura irracionalidade no lugar da decência. Uns e outros, não têm lugar numa sociedade livre e democrática. Espera-se, por isso, que este debate não morra nos gestos simbólicos criados pela oportunidade de agendas, como o caso das ausências de Marcelo e Costa da final da Taça de Portugal. Ou que se fique pelo caso isolado, quando já existe uma verdadeira ‘cantera’ de violência, e abra alas para que o actual chefe da claque apareça a liderar a claque de todos nós nos jogos do Mundial. O que seria uma vergonha mais, para um sistema político e desportivo que já carrega, em ruidoso silêncio, uma culpa imensa por tudo isto ter chegado ao estado a que chegou.

Outro excerto do artigo de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado, em Record, ainda referente aos Super Dragões e afins.

publicado às 03:02

O pesado silêncio da culpa

Rui Gomes, em 27.05.22

img_192x192$2020_02_13_19_45_22_1663516.pngOs Super Dragões e os seus mandantes são os donos de dinheiro proveniente da venda de bilhetes tanto no futebol como nas muitas modalidades do FC Porto que enchem pavilhões. São os donos de dinheiro que vem do ‘franchising’ de produtos do clube e, alguns dos chefes da claque, são também os padrinhos que dominam o negócio da protecção mafiosa na noite do Porto, de narcóticos e de um vasto conjunto de criminalidade bagatelar, mas sempre instrumental de crimes maiores e mais danosos.

O debate que um Estado de Direito Democrático tem a fazer sobre uma situação destas é simples. A lei tem de representar uma forte e verdadeira cerca sanitária sobre este tipo de criminalidade. O Estado tem de recorrer a todos os meios ao seu alcance para erradicar este tipo de bandos, que medram na sombra tutelar dos clubes, não apenas do FC Porto. Lei e Estado têm de enquadrar este tipo de fenómenos como o que efectivamente são, associações de malfeitores que vivem da intimidação e da violência, a começar, como se viu no caso de Igor Silva, dentro da própria casa, recorrendo à violência para eliminar adversários no processo de afirmação tribal do chefe. Há alguma dúvida?

Excerto do artigo de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado, em Record

publicado às 12:30

Somos todos Ucrânia

Rui Gomes, em 26.02.22

img_192x192$2020_02_13_19_45_22_1663516.pngComo se sabe... o futebol nunca viveu fora do mundo. Bem pelo contrário, o maior movimento social que existe em torno de um desporto sempre foi alimentado pelas paixões políticas e pelos sentimentos de injustiça. Nos primórdios, em Inglaterra, naquele que será o início da sua história popular, o futebol foi muito o território de afirmação da classe trabalhadora contra os patrões, donos do dinheiro e da terra em geral. Foi essa dialéctica social, entre os que procuravam uma voz forte através do futebol e os que viam nele apenas um entretenimento da classe mais alta, que construiu a imensa força que o desporto-rei tem em todo o mundo, em todas as classes e povos. Está tudo no excelente livro de Mickael Correia, "Uma História Popular do Futebol".

Essa dimensão social e popular é o que dá verdadeira importância e força ao futebol, como se viu na vincada contestação à elitização do espectáculo através da falhada Super Liga Europeia. Não são os potentados de dinheiro bem sujo, russo, árabe ou outro, que violam direitos humanos e representam algumas das piores ditaduras da história? Interesses que têm apenas utilizado o futebol para mitigar os crimes que lhes estão colados à pele.

Este é o mundo que Vladimir Putin representa e que deve ser repudiado pelos seus crimes. O que espera, afinal, o alto poder institucional do futebol para banir os clubes russos das competições internacionais?

Os mesmos clubes que procuraram tornear as regras do fairplay financeiro com o apoio de um dos ‘mísseis’ económicos de Putin, a Gazprom, devem agora ser um dos instrumentos sancionatórios contra a Rússia pela invasão ilegal e miserável da Ucrânia. Esses clubes têm sido um braço da estratégia imperial de Putin, que os entregou ao naipe de oligarcas que lhe prestam réditos e vassalagem.

Devem ser severamente sancionados na medida em que essa também é uma das linhas por onde se pode aferir a decência no mundo do futebol. Mas também porque a agressão de Putin é uma violação de todos os valores mais essenciais à paz no mundo, que, de resto, o futebol sempre teve nas suas prioridades. Afinal, que não subsistam dúvidas: somos todos Ucrânia quando uma guerra é declarada contra a democracia. Não podem ficar quaisquer dúvidas.

Artigo da autoria de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado, em Record

publicado às 02:30

img_192x192$2020_02_13_19_45_22_1663516.pngNa visão artística e simpática da coisa, os últimos acontecimentos no futebol português davam um inesquecível bolero de faca e alguidar. Mais bolero do que tango. A música desta canção do bandido é mais maviosa do que dramática. Até podíamos chamar-lhe a canção do bandido e a bala perdida. No palco da canção do bandido, a propaganda sempre foi anti qualquer coisa. Marchou-se contra os mouros, contra Lisboa, contra o centralismo, contra o fisco, contra as retretes penhoradas, contra os clubes da segunda circular, contra os jornalistas de quem não se gosta, contra as ovelhas tresmalhadas.

Foi uma receita de sucesso em 40 anos de triunfos. O cimento demagógico empurrou os compositores e intérpretes pelos caminhos da glória. Criou uma ânsia mimética nos rivais, que também criaram os seus boleros de amor e traição. Um deles acabou preso e a oficiar missas na cadeia. Outro imitador grosseiro acabou na gaiola das malucas televisiva, de onde saiu por estes dias com a justiça à perna, sem a protecção da velha guarda pretoriana que lhe garantia as vitórias nas assembleias gerais.

Por fim, o mais esperto dos imitadores triunfou, mas sem a longevidade do criador da obra original e originária. Encontrou o caminho da sua caverna de Ali Babá e dos mesmos esquemas de ensacar a fidelidade dos homens do apito. Simples. Sempre repetindo a velha receita. Juiz reformado, controla juiz novo, que é como quem diz, macaco velho apascenta os macacos novos, numa paixão eterna pelo vil metal. O macaco velho acompanha a vida, as celebrações, amores e desamores do macaco novo e de toda a família. Sabe as datas certas para as prendas habituais.

Para o fim, a coisa até não correu bem e nem o rei dos frangos lhe valeu. O velho crocodilo ficou a reinar ainda mais no pântano deveras fedorento, onde os pequenos jacarés, alguns disfarçados com coletes azuis, já se dão ao luxo de brincar com os velhos códigos da mafia, as balas perdidas e essas coisas. Muito mais espertos do que as toupeiras gorduchas. Num panorama destes é simples. Se as instituições que ainda têm um pingo de dignidade não reagirem, com firmeza e actualidade, acabarão por afundar-se na javardice colectiva de um pântano que desautoriza toda e qualquer narrativa de sucesso e modernização do futebol português.

Artigo da autoria de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado, em Record

publicado às 03:03

As crises e o exemplo

Rui Gomes, em 04.02.22

img_192x192$2020_02_13_19_45_22_1663516.pngOs sinais estão todos em cima da mesa. E atravessam os três grandes do futebol português. O Benfica atravessa uma grave crise desportiva e reputacional que resulta, total e exclusivamente, da gestão de Luís Filipe Vieira. Quando um clube se presta a comprar jogadores sem critério desportivo e só de racionalidade empresarial, obedecendo apenas aos interesses privados de quem o dirige, não há milagres.

Já no FC Porto não há grande coisa a dizer, quando o desespero e a necessidade imperiosa de fazer entrar dinheiro, desde logo para pagar os salários, são mais eloquentes do que qualquer palavra ou acto.

Por fim, o Sporting de Frederico Varandas, que se prepara para ir a eleições. Estão lá todos os ingredientes que colocam o clube nos antípodas do caminho que percorrem os outros dois rivais. Transparência, integridade, racionalidade de gestão, aposta na formação e na respeitabilidade, tanto dentro como fora do futebol, resultados desportivos e fair-play. Frederico Varandas e Rúben Amorim estão a reconstruir um clube que é hoje o grande exemplo do que deveria ser todo o futebol português. Mostrando que só por este caminho se constrói valor e consolida uma instituição, desde o relvado e o jogo, até às bancadas e aos adeptos, passando pela sólida reputação de respeitar a palavra dada.

Excerto do artigo de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado, em Record

publicado às 03:33

"Fora daqui ainda era pior"

Rui Gomes, em 07.01.22

img_192x192$2020_02_13_19_45_22_1663516.pngOs trabalhos recém-publicados pela ‘Sábado’, Record e ‘CM’ sobre os negócios e o ambiente que se viveu no Sport Lisboa e Benfica durante a presidência de Luís Filipe Vieira são um expressivo e exemplar radiografia sobre o decadente estado do clube. Em grande medida, são um retrato implacável do próprio futebol português, da impunidade reinante, da promiscuidade com uma parte da banca, dos interesses transversais que não têm em mínima consideração os suportes essenciais da vida de um clube, como o são os seus adeptos e a sua história.

Luís Filipe Vieira seguiu o exemplo de Pinto da Costa, mais velho na arte de transformar o clube no seu próprio escudo e em rentável negócio pessoal. No momento em que se afirma "cansado" e até em que precisa de "descanso na cabeça", Vieira congratula-se por ser presidente do Benfica "porque, senão, fora daqui ainda era pior".

Na conversa com José António Santos, o ‘nadador salvador’, como o qualifica nas escutas do processo ‘Cartão Vermelho’, Vieira dá-nos a confirmação plena de que o clube é apenas e tão só a fortaleza que o defende dos inimigos, em particular da justiça. Felizmente, Vieira enganou-se.

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Em mais de quarenta volumes, a justiça mostra como Vieira ganha dinheiro e como o clube é instrumental. Mostra que gere o Benfica quase exclusivamente em função dos seus interesses. Mostra como criou uma teia de cumplicidade num grupo de comissionistas e facturou em tudo o que foi transferência. Percebe-se bem, por ali, que é praticamente impossível que este grandioso ‘modus operandi’ fosse desconhecido de pessoas envolvidas directamente na gestão da SAD, em particular alguns dos seus mais altos responsáveis e que lá estão ainda. Percebe-se bem, também, como já aqui se escreveu, que esse ambiente putrefacto foi criando um pântano que não seca e desaparece de um dia para o outro.

Podemos ficar à espera das provas que sustentem um julgamento em juízo mas o que o dinheiro e o seu rasto mostram, nas mais diversas operações, já deveria ter desencadeado punições na esfera dos reguladores e das autoridades que gerem o futebol. Se continuarem todos a meter a cabeça na areia, persistirá o futebol profissional português na marcha em direcção ao abismo. A caminho da extinção por manifesta falta de objecto, seja ela a verdade desportiva, que há muito se foi, ou o prazer dos adeptos, pelo menos daqueles que não estão fanatizados por claques que se movem apenas e só pelo seu quinhão no saque a que todos estamos a assistir. Em directo e a cores!

Artigo da autoria de Eduardo DâmasoDirector da Sábado

publicado às 04:02

Violência no futebol

Rui Gomes, em 10.12.21

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"Uma palavra final sobre a violência no futebol. No Dragão e na Luz, com amplitudes diferentes mas significados bem iguais, permanece a vergonha. Num caso, a inaceitável desculpabilização, com o argumento de que os jornalistas espanhóis foram ‘só ofendidos, mas não agredidos. No caso da Luz, a também inaceitável resignação de transformar o recinto e periferia numa batalha campal.

Aqui, a culpa transcende as autoridades nacionais mas deixa no ar perguntas há muito persistentes sobre a passividade da UEFA na repressão deste tipo de comportamentos em muitos estádios europeus. A continuar assim, nem no ano três mil vão regressar as famílias e a desejada normalidade da festa aos estádios de futebol, reservados que ficam, em exclusivo, para a tribalização eterna da rivalidade".

Excerto de um artigo de Eduardo DâmasoDirector da Sábado

*** Imagem da recém-batalha campal entre adeptos do Benfica e do Dínamo Kiev.

publicado às 03:15

A Liga da traficância

Rui Gomes, em 15.10.21

O conflito entre Rui Pinto e o alegado empresário de jogadores César Boaventura, ou o "erro de percepção mútuo", como diria Mário Centeno, entre o FC Porto e o empresário de Otávio referente aos 15 milhões que o jogador terá recebido como prémio de assinatura, exemplificam demasiado bem os problemas com que o futebol português se debate.

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Opacidade é a palavra mais óbvia, se de facto quisermos puxar pela diplomacia e não carregar demasiado nas tintas da casa. Não adianta desqualificar Rui Pinto, como faz César Boaventura, num assunto que é óbvio. As negociatas que fez com Luís Filipe Vieira, envolvendo as sociedades anónimas desportivas do Benfica e Atlético são claras. Podemos tentar envolver tudo num qualquer embrulho de verdade formal, com papelada, documentação, registos para cá e para lá, mas nada disso resiste aos buracos deixados em aberto.

O Benfica faz negócios, como o da aquisição de Mika, com empresas que não declaram impostos ou que se refugiam em paraísos fiscais? Sociedades que aparecem e desaparecem à velocidade de um fósforo a arder. Foi esse ambiente de promiscuidade e opacidade que conduziu o clube e Vieira a um abismo reputacional. Conduziu também a práticas de pura traficância, em que a mercadoria são os jogadores mas os corsários que os representam, vendem ou compram é que levam a fatia de leão.

É esse mesmo ambiente que se detecta na brutal discrepância entre os 15 milhões inscritos no Relatório e Contas da FC Porto SAD, a título de prémio de assinatura, e a não menos brutal declaração do empresário de Otávio, que fez um desmentido tonitruante: "O jogador não recebeu nem um euro!". Em que ficamos? É difícil que seja possível sustentar um prémio de 15 milhões para uma renovação de contrato, num clube que já não tem capacidade de reter jogadores valiosos e os deixa sair a custo zero.

Onde fica a polícia do mercado, a CMVM, se ficar calada e não exigir esclarecimentos? Onde vai parar esta Liga Portugal se deixar crescer o ambiente de traficância que está instalado? Que credibilidade tem um futebol que gera os melhores jogadores do mundo mas também os piores gestores do planeta? Já para não falar dos alegados empresários, que enchem os bolsos vendendo a cumplicidade que os presidentes que se julgam donos dos clubes necessitam para fazer as suas negociatas. Uns e outros são a toxina mortal para este futebol e esta Liga da traficância.

Artigo de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado, em Record

publicado às 03:03

O fair-play é uma treta

Rui Gomes, em 18.09.21

img_192x192$2020_02_13_19_45_22_1663516.pngJorge Jesus não tinha razão quando disse que o fairplay era uma treta. Teria razão para dizer agora que o fairplay financeiro é uma treta. Ainda não foi nesta jornada inaugural da Champions que se fez a prova plena do desequilíbrio introduzido no futebol pelos clubes financiados pelos petrodólares do Qatar e de outros emirados árabes onde os direitos humanos são a mais pura das tretas.

Desde logo porque o trio milionário feito por Mbappé, Messi e Neymar foi incapaz de cilindrar o muito modesto Brugge. Ou porque o também milionário Atlético Madrid não conseguiu ganhar a um bravíssimo FCPorto, onde continua a abismar o talento mas, sobretudo, a garra, entrega e determinação de todos, de jogadores a treinador. Mas que vamos a caminho de uma espécie de Liga dos Milionários fáctica, reduzida a meia dúzia de clubes, restam poucas dúvidas.

Mesmo por cá, o grande desequilíbrio do dinheiro vai deixando os seus traços. O Sporting claudicou perante o Ajax e poderia ter evitado a goleada se tivesse armado o autocarro em frente à baliza. Optou pela aventura romântica de jogar o jogo-pelo-jogo até ao fim, de querer contrariar a dinâmica dos acontecimentos pela generosidade do esforço físico e pela superação da vontade. Falhou rotundamente e deve retirar as devidas ilacções.

Sobretudo, duas: como gerir um plantel inegavelmente muito curto de opções, como é bem evidenciado pela fatídica conjugação de lesões e castigos; como ultrapassar a dura realidade de ter perdido um jogador, João Mário, que custaria ao clube mais do que todo o meio-campo do Sporting. E se a primeira questão já abre a porta grande para o problema financeiro, a segunda demonstra claramente que, também por cá, fairplay-financeiro é uma boa treta.

Sobra, por fim, uma terceira questão que emerge das outras duas. Até que ponto vai o Sporting aguentar a pressão, no campeonato nacional, de ter um plantel pequeno, limitado e barato, assente em grande parte na formação, que funcionou o ano passado num quadro competitivo diverso e numa ruptura com o modelo de negócio clássico, marcado pelo irrealismo financeiro?! Principalmente, perante adversários que gastaram muito mais ou que aguentam plantéis mais caros mas muito mais diversificados nas soluções. É que se o fairplay financeiro ainda não é uma treta, cá pelo burgo, anda lá muito perto.

Artigo da autoria de Eduardo Dâmaso, em Record

publicado às 03:02

Quando Al Capone entra em cena

Rui Gomes, em 28.05.21

Quinze dias depois já se percebe muito melhor a 'Operação Covid Free'. Confrontado com uma investigação demasiado complexa – e longa – para a justiça portuguesa, agora que, segundo alguns ideólogos do processo penal resultadista, os chamados megaprocessos têm os dias contados, o Ministério Público abraçou o teorema de Al Capone.

Expliquemos: perante uma investigação difícil e deveras complexa sobre o dinheiro do dono (chamemos-lhe assim) do Portimonense, que entra nos cofres do FC Porto, dos negócios em que as comissões correm para quem vende e quem compra, das sociedades-ecrã em paraísos fiscais, a justiça optou por um caminho aparentemente mais fácil.

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Apanhando a traficância dos testes covid negativos à boleia daquele notável processo principal, através de uma informação que ali caiu, certificada formalmente por uma denúncia anónima mas, muito provavelmente, sacada de um espírito santo de orelha que caiu no colo dos investigadores por via um pouco mais tecnológica do que pela mesquinhez humana, estes fizeram as contas da simplicidade.

Os protagonistas são os mesmos do primeiro processo, a pena aplicável no caso dos testes Covid é muito mais alta dos que a dos crimes em causa no processo das negociatas, o bem jurídico violado é a própria saúde pública, portanto, mais capaz de recolher a censura social generalizada do que aquelas, a prova é, incomensuravelmente, mais fácil de fazer.

As peças do puzzle encaixam todas no teorema Al Capone e, na verdade, é de se lhes tirar o chapéu. Isto, claro, se a investigação não demorar os habituais seis ou sete anos da justiça portuguesa sempre que os visados são gente que se pode sentar à mesa de alguns polícias, procuradores ou juízes, seja em jantares de comissões de honra de ilustres recandidaturas à presidência de clubes cá do burgo ou almoçaradas comemorativas de um título qualquer no restaurante do Parlamento.

A finalizar, João Félix e Frederico Varandas...

João Félix não foi tão decisivo como Suarez ou Oblak no título do Atlético de Madrid, é bem verdade. Mas o Atlético jamais seria campeão se Félix não tivesse sacado aquele passe quasi-genial que, aos 82 minutos, começou a reviravolta contra o Osassuna, na penúltima jornada. Classe, inspiração e muito talento. Os 120 milhões voaram para dentro da baliza adversária naquela bola. E o título para o Atlético.

O discurso vitorioso de Varandas, na Câmara Municipal de Lisboa, é um grande momento de síntese sobre o que vai mal no futebol português. Só não terá gostado quem enfiou o gorro que aquelas palavras levavam.

Artigo da autoria de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado

publicado às 03:04

O crocodilo velho e o bandalho

Rui Gomes, em 30.04.21

img_192x192$2020_02_13_19_45_22_1663516.pngPinto da Costa faz lembrar, definitiva e vivamente, a parábola do crocodilo velho. O crocodilo velho sabe que o tempo já não é o mesmo. Que é mais curto. Que o futuro já não é seu. Também sabe que o pântano vai continuar o mesmo de sempre, que é imutável. Águas podres, cheiro nauseabundo e a concorrência impiedosa do bando de predadores mais novos. Venham eles das suas hostes ou da outra tropa do sector sul, liderada pelo caimão de grossas escamas avermelhadas, que lhe disputa a influência sobre o território e sobre quem arbitra o respeito pelas poucas regras do pântano.

O crocodilo velho sabe, por isso, que tem de ter a tropa agrupada e manter o pântano em efervescência, sempre a bater forte nos inimigos e a fingir que nada vê dos pecadilhos que apontam aos seus. É a melhor (única) forma de ter um final de reinado sossegado, sem ser estraçalhado pelo cardume de piranhas que anda sempre por ali. Já pouco lhe interessam as guerras de afirmação do bando. Bastam-lhe as suas. Já só tem de chorar, aqui e ali, algumas das suas mais cínicas lágrimas de velho crocodilo e atirar para o lado. Atirar sempre para o lado e manter uma parte da matilha que sobra sempre pronta para atacar. Só assim pode banquetear-se em sossego com as suas vítimas. E nem todas são os seus adversários…

A recém-agressão ao jornalista da TVI por um dos predadores mais novos, nas vestes de bandalho, como muito bem foi qualificado por Rui Rio, mostrou-nos a plenitude dessa parábola pantanosa. O bandalho, primeiro, na agressão servil para brilhar aos olhos do crocodilo velho. Este, depois, a derramar as suas melhores lágrimas para o seu palanque televisivo privado para agregar o seu povo. Como espectáculo, o crocodilo velho continua um mestre na interpretação. É incomparável na arte da vitimização, do cinismo e da manipulação dos sentimentos de pertença a uma espécie de religião que bebe pela mais pura das cartilhas maniqueístas. Os meus bons e os maus lá de baixo, das forças ocultas que nos roubam. Como realidade, é muito triste.

Há um clube e uma cidade deveras extraordinários, que mereciam muito melhor. É a última narrativa sobre a incapacidade atroz do futebol português em mudar, um milímetro que seja. É, também, o resultado das suas insuportáveis dependências, entre clubes que são os legisladores dos regulamentos, desportivos e disciplinares, que montaram uma organização desportiva de fachada, para poderem ser eternamente juízes em causa própria. Tenhamos pena de nós, os que pensávamos gostar de futebol.

Majestoso escrito de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado

publicado às 03:49

O resgate de um grande

Rui Gomes, em 05.03.21

(...) Uma gestão que resgatou o Sporting, um dos grandes, de um futuro sinistro, feito de maus resultados desportivos, de indecência cívica e de grande opacidade financeira no negócio das transferências.

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Um Sporting CP a ombrear com os maiores, tanto no plano interno como internacional, com os pés assentes no chão e na sua capacidade de gerar valor a partir da formação, é uma boa notícia para o futebol português. O mesmo se diga para o SC Braga. Torna-o muito mais competitivo, mais democrático, no sentido em que a diversidade de liderança desportiva é melhor do que a eterna concentração da luta pelo título em apenas dois clubes.

Resta saber se, após a pandemia, os clubes conseguem criar um modelo de gestão mais sério, mais transparente, menos assente na criação de esquemas criminosos de compra e venda de jogadores apenas para potenciar comissões e falsear a verdade desportiva. Se conseguirem, talvez isso devolva alguma pureza a um desporto-rei tão necessitado dela e tão viciado em esquemas tribalistas fora e dentro do campo. Em que uns cantam a canção do bandido e outros cospem para o chão que os adversários pisam.

Excerto da crónica de Eduardo Dâmaso, Director da Sábado, em Record

publicado às 12:00

A lei relativa no futebol

Rui Gomes, em 05.12.20

img_192x192$2020_02_13_19_45_22_1663516.pngJosé Narciso Cunha Rodrigues, que exerceu a função de procurador-geral da República ao longo de 16 anos, publicou há semanas as suas "Memórias Improváveis", Almedina. Um livro essencial para quem queira entender o que foi realmente a história da política, da justiça criminal e da separação de poderes nos anos 80 e 90 cá pelo burgo. Sobre o cargo que ainda exerce na UEFA, onde é presidente do órgão de Controlo Financeiro dos Clubes, Cunha Rodrigues não escreve, exceptuando o facto de deixar bem expressa a sua preocupação de incrementar a rule of law , ou seja, as regras do Estado de Direito, no mundo e nas estruturas do futebol.

Quem o conhece, sabe que essa tem sido a sua preocupação dominante, numa estrutura onde tem uma equipa de juristas e peritos de grande nível a trabalhar consigo. E que, aliás, se viu no processo de violação do fair-play financeiro pelo Manchester City, onde os factos da acusação foram dados integralmente como provados. A equipa de José Narciso Cunha Rodrigues foi buscar inspiração jurídica à jurisprudência suíça para contrariar a tese da arvora envenenada quanto à admissibilidade da matéria probatória, toda ela oriunda de Rui Pinto, e, portanto, condicionada em muitos ordenamentos jurídicos pelo facto de ter sido furtada.

Apesar desse trabalho notável feito pela equipa de Cunha Rodrigues, a política do futebol e dos múltiplos interesses associados ao dinheiro, no entanto, falaram muitíssimo mais alto, como sempre aconteceu nos bastidores do desporto-rei e dos seus órgãos de direcção e fiscalização. Num acto mera e puramente político e diplomático, o Tribunal Arbitral (TAS) preteriu a conclusão do órgão fiscalizador da UEFA e aliviou o Manchester City FC de um castigo de dois anos nas competições europeias.

Duas coisas ficaram aqui demonstradas: o dinheiro árabe (ou russo) fala sempre mais alto do que a lei do futebol e neste impera uma relativização do preceito legal que, salvo um milagre, deverá manter-se até à eternidade. E que resistirá, eventualmente, a um novo volume de memórias de José Narciso Cunha Rodrigues, caso este venha a escrevê-las, inteiramente dedicado às muitas revelações que teria para fazer sobre esta experiência nos meandros do poder no futebol.

Artigo da autoria de Eduardo Dâmaso, Director da 'Sábado'

publicado às 03:01

O triunfo de Varandas

Rui Gomes, em 14.02.20

Eduardo_Damaso_s.jpgSobre as claques organizadas no futebol já sabemos tudo e há demasiado tempo. Há estudos académicos de grande nível, há leis nacionais e da União Europeia, há uma generalizada censura social e política da violência no futebol, mas a "velha" impunidade persiste. Há uma lei, a 39/2009, sujeita a sucessivas alterações na última década, que permanece um monumento à hipocrisia do Estado. Os governos têm feito declarações de circunstância aqui e ali mas, no essencial, lavam as mãos como Pilatos.

O mundo despertou para o perigo das claques com a tragédia de Hysel Park, em Maio de 1985, na tristemente célebre final da Taça dos Campeões Europeus em que morreram 39 pessoas. Mas Portugal nunca despertou. Até aos anos 90 não existiam Super Dragões, Juventude Leonina ou No Name Boys. Existiam adeptos que gostavam de ver futebol, que tinham as suas rivalidades, é certo, mas não eram grupos organizados, financiados pelos clubes. Não existiam líderes eternos nas claques que exibissem verdadeiras fortunas em termos patrimoniais sem nenhuma explicação lógica, que tivessem ligações ao submundo da droga ou fizessem e desfizessem direcções.

O Sporting transformou-se no caso mais grave de todos. É o primeiro exemplo de um clube que foi dominado por uma claque. Uma claque que elegeu um presidente que, por sua vez, deu uma excepcional situação de privilégio a esse grupo, transformando-o na sua guarda pretoriana. O dito presidente saiu mas o vírus ficou.

Os estudos académicos feitos em toda a Europa sobre o hooliganismo e a ideologia ultra explicam muita coisa sobre as claques e, cada vez mais, a sua ligação ao crime organizado. Em Itália, de Milão a Palermo, os comportamentos violentos, a intimidação e o ódio, o poder e os negócios detectados nas três maiores claques portuguesas, são os ingredientes que levam a Mafia a utilizar estes grupos radicais nas suas vinganças e estratégias de terror. Por isso, os que agora se riem da luta de Frederico Varandas contra a Juventude Leonina podem um dia ter de chorar. O mal também está na casa deles. Varandas pode não ganhar esta luta porque a falta de resultados desportivos não agrega vontades. Mas uma coisa é certa: no campeonato da decência Frederico Varandas está a golear por vinte a zero. E é lamentável que os outros clubes ditos ‘grandes’ não se juntem a ele numa frente unida pela paz no futebol, pressionando um poder político totalmente inepto no ataque a esta tragédia social.

Texto da autoria de Eduardo Dâmaso, Director da revista Sábado.

publicado às 15:30

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