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Futebol com humor à mistura (28)

Rui Gomes, em 23.04.18

 

Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, neste caso concreto de Gelson Martins, Marcus Acuña e Stefan Ristovski, no jogo de domingo frente ao Boavista.

 

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Gelson Martins

 

O que fazer perante um jovem jogador que, mais uma vez, se fartou de improvisar desequilíbrios individuais, transformar bolas perdidas em lances de perigo com um ou dois toques, rematar à baliza, assistir colegas, e auxiliar incansavelmente o lateral no seu corredor? Perante um jogador que vai mostrando uma disponibilidade física e mental quase sobrenaturais? Que se revela o único com frescura suficiente nos últimos minutos de uma vantagem mínima para decidir, sempre com acerto, quando temporizar e recuar, ou quando acelerar e esticar o jogo? E tudo isto na fase final de uma época em que já leva mais de 4000 minutos nas pernas (além de treze golos e dez assistências)? Creio que a reacção mais apropriada e mais sportinguista é colocar de imediato três questões: “Porque é que não és melhor?” “Porque é que não fazes TUDO bem, em vez de fazeres apenas a maioria das coisas bem?” “Porque é que de vez em quando nos irritas?”.

 

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Marcus Acuña

 

Quando algo é feito com tanta insistência, e reiterado de forma tão constante, é legítimo supor que se trate de algo deliberado: fruto de uma crença enraizada e não de uma mera resposta pragmática às circunstâncias. Acuña repete tantas vezes os mesmos dois movimentos – (1) receber a bola e virar as costas ao marcador directo; e (2) cruzar às cegas na direcção geral da área – não porque julga serem essas as melhores alternativas em determinados momentos do jogo, mas porque acredita nas ideias enquanto ideias: na ideia de receber a bola e virar as costas ao marcador directo; na ideia de cruzar às cegas na direcção geral da área. Acuña é um ideólogo e vai lutar por isto da mesma maneira que algumas pessoas lutam por um Estado Mínimo, e outras por um Rendimento Básico Incondicional: até ao limite das suas forças, ou até integrar um elenco governativo.

 

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Stefan Ristovski

 

Ao minuto 11 deixou-se fintar perto da linha do meio-campo e ficou estatelado no meio do chão enquanto Mateus arrancou com a bola por ali fora. A medida mais rigorosa da exibição de Ristovski esta noite é que foi ele próprio a ir fazer a dobra, aparecendo alguns segundos depois a desarmar Mateus já dentro da área. Sempre agressivo, muito bem na antecipação, e despachado no ataque, está a criar as condições para o que o Sporting se veja eticamente obrigado a entregar setecentos e cinquenta mil euros adicionais ao Rijeka.

 

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publicado às 15:35

 

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Durante a semana, o Sporting assegurou de forma ligeiramente dramática um lugar na final da Taça de Portugal, num jogo intenso, frente ao FC Porto, em que os leões tiveram de fazer horas extraordinárias e ainda guardar mais um bocadinho para as grandes penalidades.

 

Foi uma vitória saborosa para o Sporting. Não só porque é um troféu que fica ali à mão de semear, mas também porque os jogadores de Jorge Jesus não quebraram fisicamente, como temia o treinador leonino, após mais de meia centena de jogos - Jesus chamou-lhe alma e talvez seja, nos grandes momentos uma pessoa dá o que tem e o que não tem e isso talvez se chame mesmo alma.

 

Mas não quebrou o Sporting no clássico, quebrou esta noite em Alvalade, em jogo para o campeonato frente ao Boavista. Uma ressaca que apareceu nos últimos 20 minutos, altura em que os leões foram obrigados a defender com aquela tal força que às vezes não se sabe que se tem o 1-0 que conseguiram no seu melhor período, na 2.ª metade dos primeiros 45 minutos (...).

 

Lídia Paralta Gomes, jornal Expressoaqui.

 

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publicado às 05:08

Um soneto para Battaglia

Rui Gomes, em 19.04.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com o seu usual humor, dedicou um poema a Battaglia, o médio argentino que, segundo o autor, corre à doida e nem sempre está na melhor posição, mas sempre que é preciso, manda um "gajo ao chão":

 

O meu Battaglia nos olhos sol não tem
Seus beiços são menos rubros que o coral 
se a relva é verde, a chuteira suja-a bem, 
e sob a pele há um esqueleto de metal. 
Já vi trincos brancos, rubros, cor-de-rosa;
a cor deste é verde, curto bué contemplá-la, 
não existe fragrância mais deleitosa
do que o bafo que o meu Rodrigo exala.
Gosto de o ver correr à doida, contudo sei 
que nem sempre está na melhor posição, 
de vez em quando um gajo passa, eu reparei
mas o Battaglia a seguir manda-o ao
 chão.
Creio no entanto o meu amor tão raro
quão falsas ilusões a que o comparo. 

 

Shakespeare, Soneto 130 (Tradução de Vasco Graça Moura)

 

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publicado às 19:00

 

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"O Atlético de Madrid fez apenas um remate na baliza e foi domado durante mais de 70 minutos por um Sporting melhor, mais intenso, mais pressionante e com alma bem maior que, por isso, ganhou.

 

O problema é que marcou apenas um (1-0) dos três golos que precisava e, por isso, a vitória real dos números é (bem) menor do que a vitória moral das sensações".

 

Crónica de Diogo Pombo, jornal Expresso, disponível aqui.

 

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publicado às 03:39

Futebol com (pouco) humor à mistura

Rui Gomes, em 06.04.18

 

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Substituído prematuramente aos 20 segundos, deixando no seu lugar a cratera fumegante onde outrora, em tempos mais inocentes, a auto-estima de Sebastián Coates existia e respirava e fazia planos para o fim-de-semana. Não fez... não fez um bom jogo.

 

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A dupla de centrais que formou com Cratera Fumegante tinha uma tarefa complicada pela frente: um duelo de noventa minutos com uma dupla de avançados que incluía Douglas Costa. Pode dizer-se que superaram a primeira prova em qualquer confronto com Douglas Costa, na medida em que não levaram um pontapé no peito, uma joelhada nos testículos ou uma cotovelada nas trombas. Nas provas subsequentes - não entregar bolas ao adversário, não falhar cortes fáceis, não perder na antecipação, etc - estiveram ambos um pouco aquém do desejado.

 

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A época tem-lhe corrido bem em termos de sorteios e calendário, providenciando-lhes várias oportunidades de passear por territórios amigos (Barcelona, Luz, Porto, Braga, estádio do Atlético Madrid) e dessa forma enriquecer o seu considerável espólio de isqueiros. Hoje, contra todas as expectativas, não recebeu brindes da bancada, apesar do esforço que dedicou à actividade que melhor pratica depois de jogar futebol: irritar as pessoas que estão a ver futebol. Deu o tudo por tudo quando improvisou uma vasectomia a Griezmann na segunda parte, mas os adeptos da casa não se irritaram o suficiente e a única coisa que conseguiu foi ver o amarelo que o afasta do jogo seguinte. Quando hoje fumar o último cigarrinho do dia, vai ter de usar fósforos.

 

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Ah, Bas Dost, o anjo exterminador, brandindo um gládio em chamas: o seu olho lúcido expõe todos os vícios secretos: dele, dos colegas, de quem os treina, de quem os vê. É como se toda a manobra colectiva se apresentasse perante um tribunal revolucionário: "tu, o que fazes aqui?", "tu, estás a tentar passar a bola a quem?, "tu, onde é que estavas no minuto 72?", "tu, o que é que achas desta porra toda?". Não há boas respostas a qualquer uma destas perguntas, tal como não há boa resposta ao dilema filosófico que Dost representou ao longo de duas épocas: o que fazer, e como jogar, com alguém que parece a solução para todos os problemas em 40 jogos por época, e um problema sem solução nos restantes 10?

 

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Não sabemos exactamente onde foi parar a bola depois do remate que tentou ao minuto 92, a não ser que não acertou em nenhum dos dois alvos úteis naquelas circunstâncias: o fundo das redes, ou em cheio no smartphone do Presidente.

 

Texto de Rogério Casanova, jornal Expresso

 

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publicado às 12:00

"Só há amor com Bas Dost"

Rui Gomes, em 13.03.18

 

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"Há um antes e um depois do minuto 56 no Chaves-Sporting. Até esse momento, o Sporting era assim uma espécie de membro de casal de namoro com data de validade a expirar, sendo que nesta metáfora, o outro membro do casal é a Liga. A relação foi boa, chegou a ser muito bonita mas, alguns meses depois, o Sporting já não parecia assim tão interessado. Até porque lá fora, na Europa, o leão andava já a catrapiscar outra conquista.

 

Porque foi a pensar na Liga Europa que Jorge Jesus engendrou um onze de recurso, face a tantas ausências, fosse por lesão ou castigo. Não arriscando colocar Bas Dost de início, deixando Ristovski no banco para dar as laterais a Bruno César e Battaglia, oferecendo a titularidade no meio-campo a Misic. E durante 56 minutos, de facto, o Sporting esteve com a cabeça em outro sítio, na República Checa talvez, por achar que cá dentro as coisas estavam mais que condenadas.

 

Mas há sempre uma réstia de amor. E essa réstia, essa esperança, está na cabeça de um holandês de sorriso fácil e sempre de braços abertos para receber alguém contra o seu corpo com quase 200 centímetros de altura. Porque no Sporting, quando há Bas Dost, há sempre mais uma oportunidade".

 

Crónica de LÍDIA PARALTA GOMES, jornal Expresso, disponível aqui.

 

 

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Nota: Para que não hajam quaisquer equívocos, avisamos, desde já, que não toleraremos propaganda avulsa "encarnada" sobre o primeiro golo de Bas Dost. Isto, muito em especial para todos aqueles que não sabem fazer a distinção entre a nossa postura crítica para com o actual presidente do Sporting e o nosso Sportinguismo.

 

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publicado às 04:27

Futebol com humor à mistura (25)

Rui Gomes, em 03.03.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, no jogo da 25.ª jornada do campeonato frente ao FC Porto:

 

Rui Patrício

 

Tocou na bola com os pés poucos segundos após o apito inicial, no que poderia ser um prenúncio de uma daquelas noites a fazer de líbero em part-time. E foi-o, na verdade, embora mais como auxiliar de construção do que propriamente como bombeiro atento às dobras, onde a sua intervenção praticamente não foi necessária. Ao minuto 26, por exemplo, viu Marega embalar isolado direito à sua baliza, e encarou o momento com a segurança e tranquilidade de quem sabe que o maliano foi condenado pela entidade reguladora do Karma cósmico a não marcar golos ao Sporting esta época, como se veio a verificar também noutro lance a dez minutos do fim.

 

Ristovski

 

Não pareceu sair muito bem do lance do primeiro golo, tal como toda a gente. Terá sido, na verdade, apenas o último, de entre todos os que não saíram muito bem no lance do primeiro golo, a não sair muito bem do lance do primeiro golo. Também não esteve nada feliz no lance do segundo golo, em que curiosamente voltou a ocupar o último lugar na fila dos que não estiveram muito felizes no lance do segundo golo. Eu próprio, para ser franco, não estive muito feliz no lance do primeiro golo, nem no segundo. Tem agora uma viagem inteira de autocarro para ouvir explicações sobre a ancestral doutrina filosófica que consiste em levantar a cabeça.

 

Coates

 

Cabeceou por cima, num pontapé de canto, ao terceiro minuto de jogo, não concretizando a oportunidade de golo que o enorme caudal ofensivo da equipa nos primeiros dois minutos e cinquenta e nove segundos já justificava. A situação repetiu-se mais um par de vezes, com o mesmo resultado. Cá atrás, Marega, Paciência e Aboubakar foram-lhe proporcionando um treino eficaz para o importantíssimo embate contra Michael Krmenčík, o possante avançado do Viktoria Plzen, cuja capacidade de choque, mobilidade (apesar do seu metro e oitenta e sete) e sentido de baliza já lhe permitiram marcar dezassete golos esta época. Uma ameaça à qual convém estar muito atento.

 

Mathieu

 

Mais confortável a partir do meio da segunda parte, onde pode finalmente regressar às funções de defesa central e deixar para trás a carreira temporária de guarda-costas da faixa esquerda. Disparou à baliza de livre direto, mas o remate, embora enquadrado, levou pouca força. Pode ser que tenha nova oportunidade na quinta-feira, e saiba aproveitar da melhor maneira a reduzida elasticidade do veterano guardião eslovaco Matus Kozacik.

 

Fábio Coentrão

 

Como tem sido habitual esta época, voltou a não entrar bem num jogo contra o Porto, em que teve de enfrentar o único tipo de ameaça ofensiva para o qual tantos anos a treinar no Real Madrid não o podiam preparar: um jogador como Marega. Acertou modestamente o passo na segunda parte, embalado pelo carinho de um público que o adora e que, como em tantos outros palcos neste país, insiste em presenteá-lo com isqueiros. Esteve também envolvido no episódio que culminou com a expulsão de dois elementos do INEM, um gesto que, se dúvidas houvesse, selou simbolicamente a sua emancipação definitiva da medicina convencional.

 

William Carvalho

 

Uma exibição quase (quase) à altura da que fez no mesmo estádio na época 2013/14, em que esse "quase" se deverá também ao facto de nessa altura não ter de segurar sozinho um meio-campo preso por arames. A reter a bola, pareceu hoje sempre dispor de um segundo a mais que os outros, um segundo dedicado não a praticar a modalidade finita que ocupa os que o rodeiam - com as suas regras, os seus limites temporais, as suas efémeras vitórias e derrotas - mas sim um jogo infinito, que consiste numa única jogada, cujo propósito se esgota em continuar a existir. Berrou fisicamente a um quarto de hora do fim, depois de um contra-ataque concluído com a única má decisão que tomou em noventa minutos.

 

Battaglia

 

Como teriam sido as coisas se o hiper-talentoso médio sérvio Radosav Petrovic tivesse sido despenalizado a tempo de integrar o onze titular (e não àquela hora convenientemente tardia) constituindo com a sua mera presença um meio-campo para todos os efeitos intransponível? Nunca saberemos. Sabemos apenas que Battaglia fez um jogo tão desinspiradamente anónimo que levou Luís Freitas Lobo, durante a 2ª parte, a afirmar que seria capaz de falar durante horas a fio sobre o "duelo tático" que travou com Herrera e Sérgio Oliveira, uma das frases mais ameaçadoras jamais ouvidas na televisão portuguesa. Ao minuto 79, alivou um chapéu de Marega em cima da linha de golo, num esforço inútil: mesmo que ninguém lhe tocasse, a bola arranjaria maneira de não entrar.

 

Bruno Fernandes

 

Houve alturas na primeira parte em que parecia um oásis portátil de talento, tanto no último terço ofensivo como até a defender (ao minuto 14 veio a correr desarmar Brahimi já na área, num lance que até Piccini deve ter testemunhado com um discreto aceno de apreciação). Alvejou a baliza várias vezes, criou desequilíbrios, e manteve até ao fim - mesmo depois de recuar no terreno - uma lucidez e um critério que deviam ser incompatíveis com o cansaço, mas com ele nunca são.

 

Bryan Ruiz

 

Também ele se esgatanhou todo para safar em cima da linha de golo um remate de Marega, logo ao minuto 11. Concedo que nessa circunstância não era fácil imaginar uma forma alternativa de a bola não entrar, mas isso compete ao Universo e não a nós, meros mortais. O gesto foi apenas o primeiro indício de que jogou num paroxismo de hubris: agressivo na luta pela posse de bola, sem medo de arriscar os duelos individuais, tentando várias vezes o 1x1, excelente a definir jogadas, e assistindo Leão para o golo do empate - Ruiz parecia hoje possuído pelo espírito do jogador que foi na época de estreia. Na segunda parte ainda cabeceou ao poste numa oportunidade de golo que nem sequer o era, uma intrigante e ousada alternativa ao que costumava acontecer-lhe em jogos decisivos.

 

Acuña

 

Travou com Maxi Pereira um duelo para o qual toda a evolução física, morfológica e cultural do Planeta Terra os preparou a ambos, desde que a Deriva Continental dividiu a Pangeia, separou os continentes, e lançou as bases futuras dos estereótipos sul-americanos. Estranhamente, foi poupando e poupando o seu inevitável amarelo, acabando por gastá-lo não em Maxi, mas em Corona. De qualquer maneira cumpriu o objectivo principal de poder descansar na próxima jornada, estando assim em condições de dar uma luta sem tréguas ao corredor direito do Viktoria Plzen.

 

Doumbia

 

Desenhou a primeira ação da equipa no meio-campo contrário, não com régua e esquadro, mas com o equivalente técnico-atlético de uma pedra lascada e uma moca de pregos. Usou a mesma combatividade rudimentar para ganhar as costas a Marcano ao minuto 20, numa lance em que só uma saída-relâmpago de Casillas o impediu de acrescentar mais um golo anulado à sua conta pessoal. Saiu lesionado ainda antes do intervalo, com certeza uma sequela do toque que sofreu de Dalot dentro da área, num dos contactos físicos mais fortes na história do futebol.

 

Rafael Leão

 

Um golo ao primeiro toque na bola, e uma corrida festiva para a bandeirola de canto, onde se viu de imediato cercado por colegas em pânico a gritar «Não te dispas! Não te dispas!». Certamente pouco habituado a ouvir tal exclamação, teve de esperar que chegasse a voz mais calma de Bruno Fernandes para lhe explicar que não se deve despir a camisola durante um festejo, não apenas pelo risco de ver um cartão amarelo, mas também para evitar que alguém vá a correr abrir o processador de texto para escrever uma coluna a repensar a toda civilização ocidental. Pouco solicitado na segunda parte, ainda conseguiu sacar um amarelo a Filipe na única vez que o deixaram embalar em velocidade. Ao minuto 88, teve a oportunidade para dar o primeiro do que se adivinham vários desgostos a adeptos benfiquistas ao longo da sua carreira; predestinado que é, não a desperdiçou.

 

Rúben Ribeiro

 

Um cruzamento letal para Rafael Leão, um passe incompreensivelmente falhado para Coentrão (que estava a um metro de si), duas ocasiões a segurar bem a bola para ganhar tempo (e faltas). Ainda assim, fez mais coisas boas e menos disparates totais do que naquela primeira parte em Astana.

 

Montero

 

Entrou a minutos do fim, para trazer uma lufada de metano fresco à manobra ofensiva da equipa.

 

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publicado às 04:48

 

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O antigo capitão do Sporting Pedro Barbosa disse esta segunda-feira que as acusações do seu antigo treinador Augusto Inácio são "falsas e caluniosas" e anunciou que vai processar o agora comentador.

 

Este domingo, em entrevista publicada na Tribuna Expresso (leia ou releia AQUI), Inácio revelou que Barbosa quis perder, de forma propositada, um jogo contra o Benfica: "Fez-me a cama no Sporting. Fez tudo para perdermos por 3-0 na Luz".

 

Barbosa, que jogou no Sporting durante 10 anos, acusou o antigo técnico, que o orientou nas épocas de 1999/2000, na qual se sagraram campeões nacionais, e 2000/2001, de prestar "declarações falsas e caluniosas", não só à Tribuna Expresso, mas também, antes, ao Observador e ao podcast 'online' Sporting160, entre 27 de Janeiro e 25 de Fevereiro.

 

Entre as acusações de Inácio, está a crítica a Barbosa por ter agido contra os interesses do Clube, incluindo ter forçado uma expulsão num Benfica-Sporting (3-0) em 2000/2001, entre outros momentos, que, considerou o antigo técnico, funcionaram para o afastar do comando técnico da equipa 'verde e branca'.

 

"Após dezoito anos, e do nada, Augusto Inácio vem, incompreensível e gratuitamente, tecer considerações inverídicas e maldizentes", afirmou o antigo internacional, num esclarecimento enviado à Lusa.

 

O jogador considera que as menções "deturpam" a sua imagem por "ofensas verbais, de falsidades óbvias, de insinuações infundadas e, até, de situações inventadas" que não afectam "toda a dedicação demonstrada enquanto atleta", surgindo "só para justificar a chicotada psicológica de que foi alvo e da qual, pelos vistos, nunca recuperou".

 

Barbosa lembra os anos como jogador e depois como dirigente ao serviço dos 'leões' e acusa Inácio de "uma miserável, raquítica, impotente e torpe tentativa de deturpação do trabalho sério e honesto de uma vida, falsificando a realidade e fomentando intriga desnecessária e verdadeiramente fora de época".

 

Pedro Barbosa, também ele a trabalhar como comentador desportivo, explicou ainda que vai accionar "todos os mecanismos legais", incluindo os tribunais, "para repor a verdade e o bom nome".

 

Reportagem de jornal Expresso e agência Lusa.

 

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publicado às 12:00

Futebol com humor à mistura (23)

Rui Gomes, em 21.02.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua usual crónica humorística sobre a performance dos jogadores do Sporting, nesta 23.ª jornada da I Liga, frente ao Tondela. Como sempre, a brincar e com humor, fiz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Fez uma grande defesa a desviar para canto um remate que ia entrar junto ao poste, situação que sucedeu ao minuto 32, e quando digo "ao minuto 32" estou obviamente a designar o minuto que senti no interior do meu coração e não num qualquer instrumento opressor do patriarcado cronológico, que tanto procura zelar pela manutenção da ditadura do tempo, algo quanto a mim incompatível com os valores pluralistas que constituem esse património colectivo a que chamamos Liberdade.

 

Piccini

Adicionou mais uma pérola à sua já impressionante colecção privada de atrasos de peito ao guarda-redes, mas não esteve tão irrepreensível nos duelos individuais como em Astana, em especial durante a primeira parte. Subiu muito de nível depois do intervalo e, depois da expulsão de Mathieu, alargou o raio de acção para cobrir o excesso de largura e profundidade que o campo ganhara, acumulando algumas dobras importantes. Perto do fim, subiu bem e ganhou um canto, na sequência do qual tentou um remate de ressaca: a bola subiu à troposfera, onde a meteorologia é deliberada e distribuída pelos vectores naturais, e voltou a descer, aterrando algum tempo depois algures em Salamanca, uma ocorrência que pode configurar uma exportação ilegal.

 

Coates

Mantém-se firme naquela postura de eremita que acabou de regressar do topo da montanha, onde passou um semestre a jejuar e reflectir até decidir renunciar à violência (e à velocidade; e à agilidade; e ao sentido posicional). Os cortes, quando acontecem, são no limite. Os alívios, quando os consegue, vão para adversários. Os passes longos, quando os tenta, vão para fora. Os piques, quando arranca, ganham jet-lag pelo caminho. E quando remata, nem sequer olha para a porra da baliza. É, em suma, o melhor jogador do mundo de sempre e uma dádiva que nos foi entregue pelos Céus. Uma vénia.

 

Mathieu

Podia dizer-se que colheu os benefícios de ter sido poupada à viagem ao Cazaquistão, mas a verdade é que mantém a mesma frescura física e mental desde que se sagrou espectacularmente Campeão de Inverno 2017/18. Há um lance a meio da primeira parte em que defendeu um canto na sua área, e logo a seguir foi à área contrária ganhar outro. Teve duas boas oportunidades para marcar ainda antes do intervalo e alguns cortes impecáveis depois, antes de ser expulso por segundo amarelo por criticar sensualmente a forma como um jogador do Tondela tinha os pelos faciais aparados, num gesto que merecerá certamente um forte protesto do Sindicato Nacional dos Barbeiros, Cabeleireiros e Ofícios Correlativos.

 

Brunos Césares

Ocuparam em conjunto o lugar do castigado Coentrão e dividiram entre eles a função de lateral-esquerdo. Um deles desenhou a primeira jogada ofensiva da equipa, com um passe a rasgar para a corrida de Doumbia, que por acaso ainda não estava em campo, e ao qual Dost não conseguiu chegar a tempo. Outro deles também foi responsável pelo primeiro remate da equipa. Substituídos na segunda parte, para irem formar o seu próprio sindicato.

 

William Carvalho

Tem uma capacidade única no actual plantel: consegue interpretar a liberdade criativa como um veículo para tomar sempre a decisão menos inesperada para toda a gente, mas, de uma forma qualquer difícil de explicar, mais inesperada para o jogo em si. É um processo dialéctico que permite à manobra colectiva atravessar o seu período saudável de disputa e argumento, e emergir do outro lado, numa nova quietude, racionalmente melhorada, num parágrafo que é capaz de arrancar um forte aplauso do Sindicato dos Produtores e Vendedores de Bebidas Alcóolicas.

 

Bruno Fernandes

Logo a abrir, podia ter sido o elemento intermédio num contra-ataque letal iniciado por Dost, mas o último passe saiu-lhe como lhe sai quase tudo: como se fosse um remate. Mais tarde tentou uma penetração central, tendo passado por dois jogadores do Tondela e fintado Montero para disparar ao lado. Alguns remates passaram mais perto, mas no geral teve mais boas ideias do que boas execuções (especialmente ao nível do passe). Mérito na maneira como conseguiu disfarçar o cansaço até ao fim.

 

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Gelson Martins

Teve à frente um oponente temível (Joãozinho, o melhor lateral-esquerdo em toda a história das opiniões de Jesualdo Ferreira), mas não se deixou atemorizar e fez um jogo à sua altura, que parece ainda mais alta desde que regressou da paragem. Absolutamente intratável nas compensações defensivas, fez dobras, fez cortes, bloqueou um remate que levaria muito perigo, e nunca lhe faltou energia para continuar a chegar à frente, onde conseguiu desequilibrar sempre que teve bola no pé perto da área, numa consistência que poderia merecer fortes protestos do Sindicato de Fabricantes de Balanças.

 

Acuña

É um estilo de jogo muito peculiar, que envolve menos o uso público da Razão, e mais uma espécie de psicopatologia motora, desfazendo-se em lapsus pedis e metendo-se em sarilhos e emergências até encontrar uma maneira de dar significado às suas inadvertências técnicas. Tudo isto é um sintoma, e merece ser diagnosticado: Acuña é um homem que não pode ter tempo, nem espaço, e que precisa da ameaça constante da calamidade para explorar o seu génio. E veio parar ao Sporting! Há horas de sorte.

 

Fredy Montero

Sofreu a primeira falta do jogo, mas a partir daí pareceu sempre retraído nas bolas divididas. Com a bola no pé, foi simultaneamente lúcido, rigoroso e pouco acutilante. Saiu ao intervalo, numa acção que talvez não origine protestos oficiais da Embaixada Colombiana.

 

Bas Dost

Arrisco que fez os melhores 45 minutos da época, e talvez da carreira, na primeira parte. Cada toque na bola - sempre de primeira, a tabelar, a variar de flanco, até a devolver um passe com a nuca, de costas - criou automaticamente uma boa jogada, quase ex nihilo. Mereceu o golo que marcou e mereceu ainda mais ter oferecido a bola que resultou no golo da vitória, um golo marcado ao minuto que os sportinguistas bem entenderem, pois, enquanto criaturas autónomas e independentes, capazes de pensar pelas suas próprias cabeças, não precisam que qualquer autoridade externa ande de forma paternalista a tentar explicar-lhes que horas são.

 

Doumbia

Teve na cabeça a oportunidade de marcar, depois de solicitado na área por Acuña, mas atirou alguns centímetros por cima da barra, numa acção que merecerá fortes protestos do Sindicato dos Operadores do VAR Responsáveis por Invalidar Golos Limpos ao Doumbia.

 

Rúben Ribeiro

Cometeu algumas faltas desnecessárias e também ganhou algumas faltas que os adversários não precisavam nada de cometer. Parecem ser as suas duas grandes especialidades, além do inquestionável requinte complacente com que trata a bola, como alguém com grande orgulho pessoal na sua caligrafia.

 

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publicado às 05:00

Futebol com humor à mistura (22)

Rui Gomes, em 12.02.18

 

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A análise humorística de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre a performance dos jogadores do Sporting no jogo da 22.ª jornada da I Liga diante o Feirense. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades.

 

Rui Patrício

 

Setenta minutos de ansiedade à distância até que, como já vem sendo hábito, alguém decidiu faltar-lhe ao respeito: uma desonestidade intelectual de Edson que só não teve sequelas mais graves porque Patrício conseguiu desviar o remate para o poste. Continua a ser o homo sacer do futebol português: não é permitido incluí-lo em rituais de sacrifício colectivo, mas toda a gente insiste em tentar matá-lo de desgosto.

 

Piccini

 

Mais uma noite segura, a contribuir para a estabilidade da sua cotação. Foi o primeiro jogador da equipa a conseguir esticar o jogo com sucesso, e ao minuto 77 ainda lá andava lá por cima, a ganhar lances no um para um perto da linha de fundo e, em vez de tentar cruzar (instinto contra o qual vai lutando corajosamente) optando antes por ganhar cantos. Mas, numa noite cheia de novidades, aconteceu-lhe também algo pela primeira vez: em cima do intervalo, perdeu um lance de cabeça para um adversário nas suas costas que conseguiu ganhar-lhe o espaço à sua frente. Foi um momento filosófico, que ao lembrar-nos que nada é certo nesta vida, acaba por nos reconciliar com a nossa própria falibilidade humana.

 

Coates

 

Ao contrário do que aconteceu demasiadas vezes últimos tempos, não foi o principal responsável pelo frenético incinerar de cigarros entre os espectadores, esse flagelo social que tanto atinge as vozes mais livres e independentes do país. Algumas boas aberturas a rasgar, soltando Piccini ou Gelson pelo corredor, e até as suas já lendárias polguices beneficiaram da presença de Doumbia no onze, pois assim conseguem por vezes assemelhar-se mais a “passes em profundidade” e menos a “charutadas lá para a molhada”.

 

Mathieu

 

Continua a ser impressionante que um jogador com um currículo tão escasso na conversão de livres directos tenha conseguido agora, aos 34 anos, transformar cada lance desses num legítimo momento de esperança entre os adeptos. Hoje tentou um rasteiro, para a direita de Caio Seco, e outro mais canónico, a meia-altura e para o lado esquerdo. Felizmente nenhum deles entrou, ou era possível que fossem anulados, caso o VAR detectasse uma irregularidade na Carta Constitucional de 1826, outorgada pelo Rei D. Pedro IV.

 

Bruno César

 

Estiveram geralmente bem, mas podiam ter aproveitado melhor o facto de serem imensas pessoas para criar situações de superioridade numérica no ataque. Acabaram por ser mais úteis a defender, como se viu ao minuto 14 minuto, depois de uma falha de Piccini ter dado origem a um contra-ataque venenoso do Feirense: felizmente os adversários eram apenas três e os Brunos Césares eram muitos mais, conseguindo dessa maneira cortar o lance de perigo. Saíram todos a vinte minutos do fim, vários deles com a noção do dever cumprido.

 

William Carvalho

 

O Mostrengo que vive no fundo do VAR,
Os cornos lhe veio hoje chatear;
No meio do relvado chatices causou,
E um golo limpíssimo invalidou.
O Homem da Braçadeira,
Que golos não mete,
Lá veio de urgência,
Fazer o frete.
Porque mais que o Mostrengo que no VAR se mete,
E soprou no apito daquele gatuno,
Manda a vontade de não ser croquete,
D'El Rei De Carvalho, o Bruno.

 

Gelson Martins

 

Primeiro minuto: saída rápida do Feirense, interrompida no segundo exacto antes de poder criar perigo porque Gelson teve velocidade suficiente para vir ao meio atrapalhar a variação de flanco. Minuto 12: sem sequer acelerar muito, o Feirense conseguiu manter a posse e trocar a bola em progressão pelo meio campo do Sporting, até Gelson vir do outro lado do campo ao flanco esquerdo resolver o problema. Minuto 27: apareceu na sua área, a interceptar um cruzamento e cedendo canto, segundos depois de ter sido ele a criar perigo na área contrária. Houve mais momentos análogos, sempre intercalados com a hiperactividade do costume no último terço, e a fiabilidade habitual para criar problemas ao adversário de dois em dois minutos. Ainda assistiu Montero para o 2-0. Não é nenhum crime de lesa-majestade apontar as falhas de Gelson ao nível da decisão e do último passe; mas há alturas em que, ao olhar para a totalidade do seu rendimento em campo e para a equipa, falar nas suas más decisões é também uma má decisão.

 

Bruno Fernandes

 

Sacou o primeiro amarelo do jogo depois de uma boa aceleração pelo meio, e foi dessa maneira que produziu, aqui e ali, alguns desequilíbrios. Mas, na linha do que tem acontecido de há umas semanas para cá, aquelas típicas rotações em que não toca na bola para tentar ir buscá-la com mais espaço ao outro lado acabaram muitas vezes em bolas perdidas, algumas delas em zonas pouco recomendáveis. Teve o 3-0 nos pés mas, apesar de só faltarem 20 segundos para o jogo acabar, decidiu (bem) não submeter os nervos colectivos a esse resultado tenebroso. Além que o lance teria provavelmente sido anulado, caso o VAR detectasse uma irregularidade no Tratado de Zamora, que reconheceu a independência do Reino de Portugal em 1143.

 

Bryan Ruiz

 

Desde que foi reintegrado no plantel, a dúvida quando o víamos surgir em campo era sempre se ia jogar bem ou mal. Bryan Ruiz foi optando pela resposta salomónica (no sentido de Diogo Salomão): nem uma coisa nem outra. Hoje, pela primeira vez, e em especial durante a primeira parte, deu uma resposta mais conclusiva, e terá feito se calhar os melhores 45 minutos desde a sua primeira época, para os quais despertou mentalmente ao minuto 14: apareceu na quina da área, teve tempo de avaliar todas as opções para se refugiar na segurança, fazer um passe atrasado inócuo, ou até perder honestamente a bola, mas lembrou-se de repente que já foi um belo jogador. Portanto rematou em arco, para uma boa defesa (e ainda falhou mais uma oportunidade clara). Mas pode ser que o lembrete lhe sirva para o resto do semestre.

 

Montero

 

Mais solto e com mais mobilidade do que nos jogos anteriores, mas acima de tudo mais confiante a reter a bola sob pressão e mais incisivo a soltar os colegas em profundidade (percebeu bem mais depressa que muitos outros elementos do plantel qual a melhor maneira de tirar algum partido da agressividade de Doumbia a atacar as costas das defesas). Depois de se juntar à epidemia colectiva de falhanços escandalosos (rematou contra clavículas de guarda-redes, septos nasais de defesas, painéis publicitários, etc) acabou por merecer fechar a contagem, num lance que até podia ter sido anulado, caso o VAR tivesse detectado irregularidades no processo de Deriva Continental que desmantelou a Pangeia e permitiu indirectamente o golo de Montero.

 

Doumbia

 

FADE IN:
EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

A voz de David Attenborough sussurra através da folhagem

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

(…) temos aqui uma rara oportunidade para observar o instinto predatório do Doumbia no seu habitat natural

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, a tirar o guarda-redes da frente e a engalfinhar a bola contra um defesa que ali aparecera.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

Nem sempre o Doumbia consegue atingir os intentos para os quais a evolução o preparou. A única certeza é de que vai continuar a tentar, até a mudança das estações o obrigar a partir para terrenos mais férteis.

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, a marcar um golo e a vê-lo anulado.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

Infelizmente, ainda não é desta que o Doumbia consegue capturar a sua presa. A Natureza, na sua infinita sabedoria, decidiu anular a caçada, depois de o VAR detectar uma qualquer irregularidade na formação dos primeiros organismos multicelulares no Mesoproterozóico.

EXT. #1 – FLORESTA TROPICAL

Grande plano de Doumbia, isolado, a rematar a bola para o raio que o parta.

DAVID ATTENBOROUGH (Voz off)

E a vida continua, numa dança tão antiga como o próprio Tempo, da qual somos aqui, por momentos efémeros, espectadores privilegiados.

 

Rafael Leão

 

Assim que entrou fez um remate perigoso à baliza que não deu em golo, e logo a seguir assistiu um golo que viria a ser anulado, integrando-se assim perfeitamente no espírito do jogo. Tem várias características físicas e técnicas que auguram um bom futuro, além de uma característica mental tão ou mais importante: uma mistura muito específica de calma e descaramento.

 

Lumor

 

Teve a sorte de entrar com a equipa balançada no ataque pelo que conseguiu logo apresentar-se com um excelente cruzamento. A defender, perdeu um lance de cabeça na área, mas no dia histórico em que até a Piccini aconteceu o mesmo, é precipitado tirar grandes conclusões. Até porque para tirar conclusões imediatas sobre um novo jogador, e dizê-las cantando a toda a gente, está lá o treinador.

 

Battaglia

 

Hoje entrou demasiado tarde para poder extrair o fémur a um adversário sem anestesia e beber-lhe a medula óssea de penálti, resta-lhe esperar pela próxima oportunidade.

 

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publicado às 03:43

 

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Exmo. Senhor

 

Bruno de Carvalho, Presidente

 

Estádio José Alvalade
Rua Professor Fernando da Fonseca Apartado 4120,
1501-806 Lisboa

 

“I wonder if you're lonesome tonight
You know someone said that the world's a stage
And each must play a part...”

 

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Parabéns, Presidente.

 

Espero que esta o encontre bem, mas a fazer fé em tudo o que se diz a coisa não está famosa, pois não? Ele há semanas levadas da breca e parece-me que o Presidente está a atravessar uma dessas semanas.

 

Eu cá vou andando, meio baralhado com toda esta situação relacionada com o Sporting Clube de Portugal. Confesso que não percebo nada de assembleias-gerais, acho qualquer conversa sobre estatutos tão aborrecida como uma assembleia-geral e o futebol, digamos, já me ocupou mais tempo. Mas há algo a que não sou indiferente: aos sonhos de uma criança. São esses sonhos que fazem o mundo avançar — ainda que não seja exactamente claro para onde e em que circunstâncias.

 

Vejamos o que se passou na segunda-feira à noite. Sentei-me diante da televisão após um dia de trabalho e mais uma hora dentro do carro, sozinho, a ouvir na rádio os lamentos dos jornalistas que estavam nas instalações do clube a que preside ansiosos por conhecerem a sua decisão relativamente ao futuro. E ali estava o Presidente, o menino feito homem. O sonho feito realidade. A realidade feita pesadelo.

 

Achei-o péssimo. Cansado, zangado. É sempre assim quando estamos prestes a acordar de um sonho bom. A televisão é terrível e, como bem sabe, muitas vezes quanto pior, melhor. Fiquei a ouvi-lo, incapaz de mudar de canal. As frases sucediam-se. Veio o “tinham VAR é no raio que vos parta”, depois o “tem sido um forrobodó no telemóvel da minha mulher”, mais o “não abram a pestana, não”, e ainda o “se quisesse era o gajo mais popular de Portugal”.

 

Senti-o agastado, mas eu estava apenas hipnotizado – a tal ponto que, ao fim de cinco minutos, roguei a um familiar que me esbofeteasse com força apenas para saber que não estava a sonhar. E foi precisamente aí que proferiu as palavras que mais me tocaram:

 

“O meu sonho aos seis anos foi ser presidente deste clube.”

 

É assim que se vê a fibra das pessoas. Eu, por exemplo, aos seis anos sonhava ser jogador de futebol, um daqueles avançados que levantam o estádio com golos incríveis. Aos doze ainda sonhava com o mesmo. Mas depois, aos 14, num daqueles jogos no intervalo da escola, um colega meu, o Alfredo, que jogava nas horas, disse-me algo que nunca mais esqueci: “Tu sabes como é que se faz. Não sabes é fazer”. Foi o fim. Na altura não tinha carro, nem carta, mas se tivesse imagino que me ia sentar ao volante, sozinho, longe da família e a acelerar pela autoestrada em direção a lugar nenhum.

 

Imagine agora a minha surpresa quando, na quarta-feira à noite, leio no seu ressuscitado Facebook — talvez o mais revolucionário da era moderna do futebol português, antes e depois de o abandonar — que estava a caminho de Lisboa como se fosse um miúdo de 14 anos a quem tinham acabado de roubar o sonho mais importante no campo pelado da escola. “Dentro de 45m farei 46 anos, sozinho, na autoestrada, triste pelo resultado e longe da minha família. Isto é demais...”, escreveu o Presidente, antes, espero, de arrancar.

 

Sabe, Presidente, somos quase da mesma idade, e é uma idade dada a estas coisas. Do nada, começamos a pensar em tudo. Uns mais do que outros, é certo. Ao Presidente, por exemplo, na segunda-feira à noite passaram-lhe várias coisas pela cabeça. Veio o “vou explicar devagarinho”, depois o “está mortinho para deixar de andar na sombra e pedir aos peões de brega”, mais o “falha, saímos” e ainda o “da próxima vez que olhe para trás e veja uma parede é a vez que saio em definitivo”. O Presidente está forte nas imagens. Lembra-me o Alfredo a jogar à bola.

 

Sei que gosta de música e foi por isso que lhe dediquei aquelas pequenas palavras do Rei ao início. Não é o rei dos benfiquistas. É o Rei. Todos temos o nosso papel no curto período de tempo que passamos no berlinde azul. Veja o meu caso: podia ter sido um ponta-de-lança extraordinário e acabei a escrever cartas a pessoas que não as vão ler. Não há de acontecer consigo, ainda que as suas enigmáticas condições democráticas não me deixem muito descansado. Há três condições para tudo ficar como está depois de dia 17, duas têm a ver com alterações aos estatutos e a última é uma espécie de sim ou sopas. Agora imagine que ganha a primeira, imagine que ganha a segunda e imagine que perde a terceira. Sai? E se perder a primeira? Ainda se votam as outras duas? Ou sai logo da sala?

 

Presidente, não complique. Bem sei que o céu está cinzento, que chove e ainda está frio. Mas não é por ser o tempo ideal para o fim que o fim tem de acontecer. Por outro lado, se chegar a hora, lembre-se das palavras (emprestadas) que o Rei cantou, naquele fato branco cheio de efeitos dourados.

 

“And now, the end is near / And so I face the final curtain / My friend, I'll say it clear / I'll state my case, of which I'm certain / I've lived a life that's full /
I've traveled each and every highway / But more, much more than this
I did it my way”

 

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Faça sempre à sua maneira. O Presidente sabe como se faz.

 

Cumprimentos

 

PS: Fiquei sem saber se a festa de aniversário que a Joana estava a organizar para domingo, depois do jogo em Alvalade, sempre avança ou não... De qualquer modo, vou aparecer. Oito e meia, no Café In. É 25 euros, não é?

 

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Artigo da autoria de Ricardo Marques, jornalista, jornal Expresso

 

***Ainda agradecemos a referência ao leitor LEÃO DA GUIA.

 

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publicado às 15:32

 

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Usualmente, transcrevemos as populares análises humorísticas de Rogério Casanova, jornal Expresso, sobre as performances de jogadores do Sporting em jogos da I Liga. Desta vez, ele aproveitou o aniversário de Bruno de Carvalho, e as suas circunstâncias de momento "para dizer algumas – bom, muitas – coisas sobre o homem que tanto pode ser visto como “assassino de gatinhos” ou como o melhor presidente do Sporting". 

 

O escrito começa assim, e por ser mesmo muito extenso, o leitor poderá ler o resto aqui. Com tudo isto, uma coisa é por de mais evidente; Bruno de Carvalho está a ter o que sempre procurou, dia após dia, desde que assumiu a liderança do Sporting: ser o centro das atenções mediáticas. Esta circunstância serviu para, entre outras questões, desviar o foco da denominada Operação Lex, Luís Filipe Vieira e as buscas pela Polícia Judiciária, e-mails, etc..

 

"Foi há aproximadamente sete anos que ouvimos falar pela primeira vez em Bruno de Carvalho, o que significa que foi há aproximadamente sete anos menos quinze minutos que ouvimos dizer pela primeira vez que Bruno de Carvalho era um vigarista histriónico pronto a levar o Sporting para o abismo. Sete anos passaram, e os dois pares ainda cá andam na pista de dança: o Sporting e o abismo (estes significativamente mais afastados que em 2011), e Bruno de Carvalho e a as opiniões sobre Bruno de Carvalho - esses ainda no mesmo sítio, mas sujeitos ao desconforto dos reajustamentos constantes, drásticos ou infinitesimais, como uma comichão emocional difícil de coçar.

 

Muitas delas - as opiniões - foram instintivas e imediatas: para todas as pessoas que, quinze minutos depois de ele se materializar na vida pública portuguesa, o identificaram corretamente como alguém incapaz de identificar corretamente um garfo de ostras. Outras foram cristalizando na sequência de uma campanha eleitoral que ele (por necessidade e temperamento) conduziu como um bolchevique, e que a lista de Godinho Lopes (por necessidade, temperamento e Cunha Vaz) conduziu como uma mistura de Dinastia Romanov, Pravda e Jornal do Incrível.

 

Da síntese dessas duas circunstâncias, surgiu a ubíqua criatura mitológica conhecida como “o Bruno de Carvalho”: o arrivista chico-esperto, o arruaceiro com sede de protagonismo, o tiranete suburbano, o operador de esquemas-pirâmide, o prestigiado assassino de gatinhos; alguém que a qualquer momento, mais tarde ou mais cedo, iria deixar em escombros uma instituição centenária e fugir para Vladivostoque, deixando na sua esteira resmas de multas por pagar, mensalidades do condomínio em atraso, e bandas gástricas descartadas pelo caminho" (...).

 

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publicado às 18:42

Futebol com humor à mistura (21)

Rui Gomes, em 05.02.18

 

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Hoje não será um dia em que o humor abunda entre sportinguistas, mas nem por isso vamos deixar de publicar a usual coluna de Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting frente ao Estoril Praia:

 

Rui Patrício

 

Nos primeiros seis minutos foi vítima de violentos ataques ad hominem por parte de adversários que, com a colaboração ignóbil do vento, lhe tentaram marcar golos de canto directo, num dos casos mais ultrajantes de desonestidade intelectual que testemunhei em toda a minha vida. Eram motivos mais do que suficientes para toda a equipa ter abandonado o terreno de jogo em protesto, mas decidiu-se continuar a legitimar aquela farsa, por motivos que me ultrapassam.

 

Piccini

 

Ganhou a linha de fundo várias vezes, com uma facilidade que recordou a todos os adeptos o milagre que foi a sua contratação ter custado uns meros 3 milhões de euros. No seguimento dessas jogadas, tentou algumas vezes cruzar, com uma dificuldade que recordou a todos os adeptos a tolerância que devem estender a alguém cuja contratação custou uns meros 3 milhões de euros. Pontos de bónus por ter sido o único jogador da equipa a conseguir, num lance de um para um, roubar a bola a Lucas Evangelista.

 

Coates

 

Manteve o nível dos últimos tempos, sem erros cataclísmicos, mas com dúbios posicionamentos, falhas na saída de bola e uma geral lentidão de processos a contribuir decisivamente para o processo de gentrificação da defesa do Sporting, que hoje assistiu a um dramático influxo de turistas cheios de vontade de fazer barulho e causar chatices.

 

Mathieu

 

Demorou oitenta e oito minutos a perceber que era o jogador em campo mais qualificado para impedir que o resultado final fosse aquele, e só nessa altura foi lá à frente, para fazer (evidentemente) o remate mais competente de toda a segunda parte. O guarda-redes do Estoril acabou por desviá-lo para canto, num dos exemplos mais repugnantes de desonestidade intelectual a que assisti em toda a minha vida.

 

Fábio Coentrão

 

Safou bolas em cima da linha, ganhou cantos, rematou à baliza (com o pé e com a cabeça) e ainda fez as melhores assistências: ao minuto 43 descobriu Coates sozinho na área; no minuto seguinte descobriu Bruno César sozinho na área; no minuto seguinte descobriu que estava sozinho no mundo. Amarelado na segunda parte, foi substituído pouco depois, quando ainda estava a ser dos melhores elementos da equipa, numa decisão que se compreende, por duas razões: a) a possibilidade de tentar desfazer à batatada mais um banco de suplentes, levando um recinto estruturalmente frágil a desabar por completo, merecia pelo menos ser testada; e (b) de qualquer maneira era injusto obrigá-lo a ficar a aturar aquilo até ao fim.

 

Battaglia

 

Ao minuto 17 foi fintado pelo guarda-redes do Estoril, num dos episódios mais vergonhosos de desonestidade intelectual que presenciei em toda a minha vida.

 

William Carvalho

 

Uma dedicação total à resolução de problemas, sem histerias, sem sentimentalismos. A sua solidariedade extrema em campo passa por vezes despercebida, pois assume uma forma contra-intuitiva: não é que William ande a correr freneticamente de um lado para o outro a resolver os problemas dos colegas; o que ele faz é andar a pensar freneticamente no mesmo sítio para evitar criar-lhes mais problemas do que eles já criam a si próprios. Foi, na primeira parte, o jogador mais esclarecido em posse, e fez os melhores passes da equipa. A meio da segunda parte decidiu eliminar os intermediários e começar a passar a bola directamente a jogadores do Estoril, para poupar mais embaraços aos colegas.

 

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Bruno César

 

Mostrou-se rápido, alerta e interventivo, ganhando faltas perigosas, pressionando, jogando bem ao primeiro toque. Foi dos que mais tentou o remate, até ao minuto 44, quando em vez de tentar o remate, tentou fazer um .gif. Conseguiu; e desapareceu para sempre no mundo dos feeds online.

 

Acuña

 

Pareceu mais ágil hoje do que nos últimos tempos, física e mentalmente. Mas é cada vez mais óbvio que jogar sem espaço ou com tempo não é o seu forte: a sua tendência instintiva no primeiro caso é sempre para proteger a bola; no segundo (que o obriga a reflectir) para se ver livre dela o mais depressa possível. É muito melhor nas situações inversas, em que o espaço é muito, o tempo é pouco, e cada gesto é uma urgência, canalizando uma resposta emocional não premeditada, no sentido de evitar ou então participar no fim do mundo em cuecas. Emocionalmente, pelo menos, veio parar ao clube certo.

 

Bruno Fernandes

 

Se William é o superego da equipa – o portador dos seus ideais éticos – Bruno Fernandes é o seu id, com a tarefa de produzir os seus desejos. Um meio-campo que tem tudo para funcional lindamente ao nível da saúde psicológica (deles e minha), desde que andasse por ali um terceiro elemento, idealmente equipado com um lança-chamas, a manter a ordem enquanto estes dois perseguem os seus desejos.

 

Doumbia

 

Um remate inócuo ao minuto 16 e uma boa jogada aos 39, a pressionar o defesa, a ganhar no esforço e a soltar no momento certo para Bruno César. De resto foi combativo, deu trabalho a toda a gente, e acumulou mais uma ou outra recuperação ofensiva. Menos bem sempre que tentou os lances de 1x1, ou qualquer outro recurso que o obrigasse a usar os pés, aqueles dois pés que tem, nomeadamente o pé esquerdo e o pé direito, duas das extremidades anatómicas mais intelectualmente desonestas que contemplei em toda a minha vida.

 

Montero

 

Há que ter paciência, não será fácil recuperar toda a qualidade e motivação que certamente perdeu após aquele ano inteiro a ser treinado por Marco Silva.

 

Rúben Ribeiro

 

Dos três suplentes utilizados, foi o único a acrescentar alguma qualidade. Deixou Acuña isolado na cara do golo assim que entrou, e teve o mérito de raramente se precipitar. O que não deixa de ser um elogio, mas repare-se bem nos parâmetros deste elogio: “teve o mérito de raramente se precipitar”. Mais jogos assim e qualquer dia estou a elogiar jogadores com frases do género “teve o mérito de não dar um tiro na cabeça”.

 

Bryan Ruiz

 

Foi o último suplente a entrar, e não esteve bem nem mal, numa das mais pérfidas manifestações de desonestidade intelectual que observei em toda a minha vida.

 

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publicado às 04:42

Futebol com humor à mistura (20)

Rui Gomes, em 01.02.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting, no jogo da 20.ª jornada frente ao Vitória de Guimarães. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

 

Desviou um remate para canto nos primeiros minutos e encaixou outro à figura à passagem da meia hora, mas no geral teve mais uma noite descansadinha, onde nem o provável futuro colega conseguiu obrigá-lo a mostrar a qualidade que as equipas que o defrontam têm conspirado para resguardar como se fosse um segredo de Estado. Tal como a esmagadora maioria dos guarda-redes do campeonato nacional, chegou ao fim do jogo em condições de responder à pergunta "sabe qual foi o resultado final?".

 

Ristovski

 

Momento intrigante ao minuto 12, que é legítimo especular só aconteceu porque jogou ele e não Piccini: num pontapé de baliza do Vitória, juntou-se uma molhada de gente na sua zona e o guarda-redes bombeou para lá a bola. Foi um lembrete de outros tempos, quando o plano ofensivo de muitos adversários do Sporting consistia quase exclusivamente em tentar meter a bola por alto nas costas do lateral-direito: um jogo de má memória com o Lokomotiv, em 2015, foi isto do princípio ao fim. Desta vez, por acaso, a jogada até veio a resultar num remate perigoso à baliza de Patrício, e fica a ideia que a diferença de preço entre Piccini e Ristovski (seiscentos e cinquenta mil euros) se deve acima de tudo à diferença de posicionamento - e centímetros - visível nesses lances.

 

Mas não voltou a acontecer, e por bons motivos: Ristovski dá largura (sempre), dá profundidade (quase sempre), dá lucidez e compostura (quando tem a bola), dá raça (quando não a tem), dá atenção dentro da área (fez um corte providencial aos 20 minutos) e dá-nos a todos (sobretudo) um merecido descanso em relação a uma das posições mais traumáticas dos últimos anos.

 

Coates

 

Depois do suplício que passou no sábado passado, teve precisamente o tipo de jogo que tanto ele como o miocárdio colectivo sportinguista mais necessitavam: sem chatices, sem Gonçalos Paciências, sem princípios de enfarte.

 

Mathieu

 

Voltou a fazer o mesmo número que já fizera no fim-de-semana, durante a Suprema Final do Insigne Campeonato de Inverno 2017/18: depois de ganhar todos os duelos defensivos que travou, e à medida que as ideias se iam esgotando lentamente no resto da equipa, apareceu no último quarto de hora a apresentar as suas. Que são, bem vistas as coisas, ideias muito simples: que a bola deve ir para dentro da baliza, e não para fora; que os jogos são para ganhar, e não para empatar; e que todas aquelas que coisas que "o Mundo sabe" enumeradas antes do apito inicial, Mathieu já as sabe de memória.

 

Fábio Coentrão

 

Havia alguma pessoa no estádio inteiro que tivesse menos vontade de empatar este jogo do que Coentrão? Suponho que é teoricamente possível, mas duvido. Mais do que a experiência, mais do que a pura qualidade, voltou a trazer ao jogo aquela hipertrofia competitiva e fobia quase violenta a qualquer outro resultado que não a vitória. E entretanto cumpriu 270 minutos plenos de saúde no espaço de 7 dias, sendo um dos principais responsáveis por não ter que destruir mais um banco de suplentes.

 

Battaglia

 

Regressivo, primordial, telúrico, Battaglia é uma aparição vinda directamente do passado misterioso do futebol: uma Terra Perdida de répteis, cavernas, monossílabos e pedras lascadas. Algures, para lá da colina, vive uma outra tribo, que fala um dialecto diferente do nosso, e que tem uma bola. Battaglia não concorda que eles tenham a bola, portanto vai lá buscá-la. Pelo caminho, é possível que tenha de assassinar alguns camponeses e incendiar algumas cabanas, mas a bola vem com ele. Depois entrega a bola aos seus amigos. Nem sempre é fácil. Battaglia sabe que a bola é uma relíquia sagrada do seu povo, e olha-a com um temor reverencial que o deixa nervoso, e a mim também. No fundo, sente-se mais confortável a assassinar camponeses e incendiar cabanas. Mas também conhece a importância que a bola assume na nossa pequena civilização e lá vai tentando participar nos rituais que a incluem, embora se suspeite que somente o assassinato de camponeses e a incineração de cabanas o deixam verdadeiramente realizado.

 

William Carvalho

 

A jogar mais solto e mais adiantado, começou bem, sofreu intermitências, mas acabou ainda melhor. Terá sido, com a bola nos pés, um dos elementos mais consistentes da equipa, tentando várias vezes na segunda parte organizar a manobra ofensiva por ordem alfabética (Acuña - Bruno - Coentrão - Doumbia), tal como faz com as suas prateleiras de clássicos do jazz. Aos poucos, vai-nos matando as saudades que dele tínhamos; não devemos ser gananciosos e esperar que as mate todas de uma vez.

 

Bruno Fernandes

 

Como o outro Bruno do plantel, está aparentemente condenado a um périplo vocacional por todas as posições em campo, e é uma questão de tempo até fazer uma perninha a lateral-esquerdo. Mostrou a vontade e mobilidade habituais, mas, tal como no fim-de-semana, esteve algo desastrado no passe. Nos últimos minutos, no entanto, foi instrumental a guardar a bola no meio-campo ofensivo e a tentar que equipa defendesse a vantagem não a hiperventilar perto da área, mas lá ao longe e em ritmo de passeio. Quando o treinador fala no "cinismo à italiana", também se deve referir a este tipo de coisas.

 

Rúben Ribeiro

 

Várias acções de qualidade em posse, mas quase todas transitivas e auto-contidas, a flutuar na sua inócua e competente autonomia, como frases de campanha de um político talentoso, que sabe omitir os verbos de acção necessários para transmitir a impressão de fazer imensas promessas sem em qualquer momento assumir um compromisso. Ao vê-lo com a bola no pé, de frente para o jogo, calmo e confiante, fica-se sempre com a sensação de que é um candidato extremamente viável a qualquer coisa. Ainda falta perceber a quê, mas temos tempo.

 

Acuña

 

Não têm sido tempos fáceis para a relação entre Marcos Acuña e a faixa esquerda do meio-campo ofensivo. Ainda há amor, e carinho, e respeito mútuo, mas fisicamente, as coisas simplesmente não têm funcionado. Acuña bem tenta, mas não consegue satisfazer as necessidades da faixa esquerda do meio-campo ofensivo. Não que a faixa esquerda do meio-campo ofensivo se queixe. Pelo contrário: é a primeira a reconhecer que Acuña anda cansado e a primeira a enumerar liricamente todo o léxico do cansaço (a fadiga, a ansiedade, o excesso de trabalho). E é capaz de olhar Acuña docemente nos olhos e dizer-lhe com total sinceridade para ele não se preocupar, que isto também acontece aos outros médios-ala. É uma fase, só isso. Mas enquanto Acuña, por muita impotência que revele em algumas funções fundamentais, continuar a meter comida na mesa, solidariedade na defesa, remates no alvo e assistências no pecúlio, o casamento lá se vai aguentando.

 

Bas Dost

 

Democratizou de tal forma o golo que ausência de um é quase sentida por si como uma privação ou um enfermidade: era uma questão de tempo até que isso se materializasse de forma psicossomática. Esperemos que recupere depressa.

 

Fredy Montero

 

Houve alturas na sua primeira passagem pelo clube em que aquele complacente sangue frio se revelou um atributo crucial para meter em campo nas alturas mais tremidas. Houve outras em que era aflitivo ver tanto talento junto afogado num batido de banana. A sua segunda passagem pelo clube não será diferente.

 

Doumbia

 

Trouxe uma velocidade, agressividade e capacidade de atacar as costas da defesa que os outros avançados do plantel não conseguem dar. Trouxe também os seus pés, que nem sempre facilitam a aplicação mais correcta das virtudes acima descritas.

 

Brunos César

 

Pessoalmente, e mesmo sabendo todas as suas limitações, durmo mais descansado à noite por saber que os Brunos Césares fazem parte do plantel. Entraram bem no jogo esta noite, e até podiam ter marcado.

 

Lumor

 

Em primeiro lugar, bem vindo. Em segundo lugar, e em resposta à tua pergunta: sim, ele é um bocado descompensado. Mas não ligues, há-de correr tudo bem.

 

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publicado às 03:50

Futebol com humor à mistura (19)

Rui Gomes, em 20.01.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no jogo desta sexta-feira frente ao Vitória de Setúbal. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Passou por alegadas dificuldades ao minuto 45, quando alegadamente demorou a resolver um atraso e ia alegadamente chutando a bola contra um jogador do Vitória, mas as imagens televisivas não mostraram o alegado incidente - uma manifestação de decoro e respeito pela paz e sossego de um campeão europeu que devia servir de exemplo para todos, não só outros órgãos de comunicação social, mas também os adversários que teimam em invadir a sua privacidade com grandes penalidades.

 

Piccini

Era óbvio que algo não estava bem. Desde o primeiro minuto que se notaram indícios de comportamento deficiente na sua estrutura. Será necessário um relatório para apurar as causas das anomalias detectadas, mas à primeira vista eram evidentes algumas fissuras na coxa direita, roturas ao nível do passe curto e longo, uma racha no frontispício do cruzamento fácil e outros sinais de alarme que levaram alguns adeptos mais nervosos a sentir vontade de invadir o campo até tudo ficar esclarecido.

 

Ninguém deve ser obrigado a ver um jogo neste clima de insegurança, quando três milhões de euros que até aqui pareciam tão estáveis de repente ameaçam ruir. Há que proteger o espectáculo. O ideal, o justo, o ético, teria sido interromper a partida, chamar uma equipa de engenheiros para avaliar o problema, e continuar o jogo daqui a uns meses.

 

Coates

Está mais do que na altura de Coates fazer uma introspecção profunda e demorada na maneira como se relaciona com a violência, uma relação cada vez menos eficaz e profissionalizada. Viu um amarelo ao minuto 50 por se encostar ao inofensivo Gonçalo Paciência, que conduzia inofensivamente a bola perto da inofensiva linha lateral. Nos últimos minutos, quando podia e devia ter anulado um problema bem mais sério, pregando uma pantufada ao adversário que lhe virasse os intestinos do avesso, optou por deixar-se comer na profundidade por um jogador com aproximadamente 58 anos de idade.

 

Mathieu

Perfeitamente enquadrado no espírito do clube, respeitador do seu passado, conhecedor das suas tradições, sabia que há um ritual que consiste num defesa-central ser obrigado a cometer uma falta por trás, dentro da grande área, no Estádio do Bonfim, em Janeiro, sobre Edinho, e nos últimos minutos de um jogo decisivo. Limitou-se, portanto, a cumprir à risca o que estava previsto nos estatutos.

 

Fábio Coentrão

Foi o melhor em campo e saiu depois do empate, envolvendo-se de imediato num debate de ideias com o banco de suplentes, tão rancoroso como uma polémica teológica medieval. A interpretação de Coentrão, a julgar pela veemência injustiçada dos seus gestos, pelo seu semblante intransigentemente solitário, devia ser herética e não ortodoxa. O banco de suplentes teve o que merecia (a equipa também, ao contrário de Fábio). Uma coisa é certa: mais uma vez, Fábio Coentrão não caiu, não se aleijou, não sangrou: a não ser por dentro.

 

William Carvalho

O grande passe para Gelson dentro da área ao minuto 10, a placidez com que frustrou ao minuto 14 um projecto de trinta segundos de um jogador do Vitória que consistia em roubar-lhe a bola, o excelente contra-ataque que conduziu logo a abrir a segunda parte, galopando 40 metros e soltando no momento exacto para Piccini, o esclarecimento que mostrou quase sempre com bola: estes são os quatro pontos cardeais de uma boa exibição. O resto - e quando me refiro ao resto, refiro-me à escavação arqueológica a que por vezes se assemelha o meio-campo defensivo da equipa - tem menos a ver com a responsabilidade individual de William Carvalho e mais com a responsabilidade de quem acha que o fantasma de Adrien Silva ainda ali anda a ajudá-lo quando a equipa não tem bola.

 

Gelson Martins

Temporização e definição perfeitas no lance do golo. Grande slalom a partir da própria área ao minuto 77, num lance em que fez tudo bem e que merecia melhor conclusão. Capacidade inesgotável para fazer de lateral, segundo trinco, e segundo avançado, por vezes no espaço de 10 segundos. Aos 89, isolado depois do milionésimo sprint da época, já não teve energia para rematar, e fez com que eu acendesse não um, mas dois cigarros em simultâneo, que posteriormente deixei cair ao chão no momento do penálti, tendo voltado a acender mais dois, e a deixá-los cair também. Pelos meus cálculos, alguém me deve oitenta e oito cêntimos; mas não é Gelson - é quem o deixou, muito literalmente, jogar até cair.

 

Bruno Fernandes

A qualidade que conta nos momentos cruciais. Marcou um golo, na primeira diagonal em que conseguiu aparecer dentro da área. E merecia bisar a dois minutos dos 90, que mais não seja por ter sido dos poucos que se apanhou com a bola dentro da área e tentou metê-la realmente dentro da baliza, em vez de criar uma instalação artística chamada "Andebol". Espero que Coentrão tenha deixado uma parte do banco intacta, pois este também estava com cara de quem precisava de descomprimir à biqueirada.

 

Acuña

Alguns jogadores vêem as jogadas como elas são e perguntam "porquê?" Outros sonham jogadas que nunca foram e perguntam "por que não?" Acuña imagina os dois tipos de jogadas e pergunta "será esta uma boa altura para chutar a bola para a nebulosa de Orion?" E a resposta é quase sempre positiva. Embora o torne inútil como médio-ala, o seu actual momento de forma ainda pode ter utilidade noutras áreas. Os instrumentos de trabalho de Marie Curie permanecem radioactivos xx anos depois da sua morte. Talvez as recentes exibições de Acuña possam ser preservadas num laboratório subterrâneo no Nevada, debaixo das areias do deserto, dentro de um cubículo reforçado por paredes de aço de dois metros de grossura, estudadas pelos andróides que vão preparar armas biológicas para a IV Grande Guerra Mundial.

 

Rúben Ribeiro

Geralmente bem nas combinações ao primeiro toque, esteve envolvido em duas jogadas na segunda parte (ambas com Gelson) em que podia ter decidido ou executado melhor. Creio que o cliché operativo mais adequado neste tipo de situações é "não fez um jogo deslumbrante". E não fez. A não ser para quem se deslumbre com pouco, como eu. Quem se deslumbre, por exemplo, com a capacidade que mostrou ao minuto 85 para, rodeado por três adversários e sem linhas de passe perto da linha, manter a calma, manter a posse, e deixar a situação esclarecida. Saiu no minuto seguinte, e perdeu-se pelo menos um bocadinho dessa lucidez em espaços fechados, e dessa anómala relutância em perder bolas escusadas.

 

Bas Dost

A fada dos golos deve tê-lo informado que hoje não ia marcar e portanto não valia a pena estragar a sua sobrenatural percentagem de eficácia com tentativas condenadas ao fracasso. É pelo menos essa a conclusão a tirar da sua acção ao minuto 86, quando optou por servir Bruno Fernandes, no outro lado da área, em vez de rematar à porra da baliza. E assim se vai agravando a sua preocupante seca de golos, que já se arrasta há 93 minutos.

 

Battaglia, Podence e Doumbia

Foram apenas testemunhas de uma desgraça, e é como tal que devem ser tratados.

 

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publicado às 02:47

 

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Holandês tem eficácia de 50%, o melhor registo das cinco principais ligas europeias. Jesus nunca teve um goleador tão eficaz.

 

Bas Dost é caso insólito nas principais ligas europeias. O holandês toca poucas vezes na bola durante as partidas do campeonato e quando o faz é com uma eficácia a toda a prova. Segundo os dados estatísticos do site Goalpoint, o avançado do Sporting apenas toca, em média, 25,6 vezes na bola a cada 90 minutos - só Mauro Icardi, do Inter Milão, toca menos vezes na bola (25) - e marca a cada 2,1 remates que faz, tendo por isso um índice de eficácia de 50%.

 

Ou seja, Bas Dost tem um total de 19 golos na Liga e para atingir esta marca apenas precisou de rematar 38 vezes, superando todos os avançados dos cinco principais campeonatos que se disputam na Europa (Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, Itália e França). O segundo melhor registo pertence ao inglês Wayne Rooney (Everton), que marcou dez golos num total de 32 remates, o que representa uma eficácia de 31,2%, estando no terceiro lugar deste ranking o colombiano Radamel Falcão, que ao serviço do Mónaco já marcou 15 golos no campeonato em 49 remates, numa eficácia de 30,6%.

 

Se compararmos com Jonas, o actual melhor marcador da Liga, com 21 golos, verificamos que o brasileiro do Benfica precisa de fazer, em média, cinco remates para marcar um golo.

 

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Na realidade, Bas Dost potenciou a sua eficácia desde que chegou ao Sporting na época passada, quando já terminou o campeonato com maior percentagem de remates convertidos em golo nas principais ligas europeias, totalizando 39,5% - 34 golos num total de 86 remates, o que representou o melhor registo desde 2014-15. Aliás, só o francês Alexandre Lacazette se aproximou desses números na época passada ao serviço do Lyon: 33,3%. O certo é que, se Bas Dost mantiver o actual rendimento, poderá bater a marca da época passada, embora não seja fácil manter a média de 50% de aproveitamento de remates nas 16 jornadas que ainda faltam.

 

O mais impressionante no holandês do Sporting é o escasso número de acções com bola em que participa durante os 90 minutos, pois tem uma média de 25,6 toques na bola por partida, precisando apenas de tocar 24,1 vezes para marcar, uma média incrível, que supera as 26 acções com bola de Edinson Cavani, do Paris Saint--Germain, para marcar um golo.

 

Curiosamente, na partida com o Marítimo, da 16.ª jornada da Liga, Bas Dost marcou três golos e apenas tocou 14 vezes na bola... marca bastante inferior à sua média.

 

Segundo os dados do Goalpoint, tendo em conta apenas jogadores com mais de 360 minutos em campo, Bas Dost é mesmo o que menos vezes toca na bola no campeonato, sendo os mais próximos do holandês o guarda-redes José Sá (FC Porto), com 26,6 acções com bola por partida, e o avançado Hélder Guedes (Rio Ave), com 27,5.

 

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Bas Dost melhor do que Cardozo

 

Apesar dos números, Jorge Jesus assumiu após o jogo com o Desp. Aves que Bas Dost não é o melhor avançado que treinou até ao momento. "Claro que não, já estive noutro grande, com grandes pontas-de-lança, que foram sempre os melhores marcadores", atirou o treinador do Sporting.

 

Só que os números dizem o contrário. Nenhum avançado treinado por Jesus terminou um campeonato com média superior a um golo por jogo como Bas Dost na época passada (1,09), levando agora 1,05 por partida. O que mais se aproximou foi Oscar Cardozo, que em 2009-10 - a primeira do técnico no Benfica - terminou a Liga com a média de 0,89 golos por partida. Já em Alvalade, Slimani concluiu o campeonato 2015-16 com 0,81 golos por jogo.

 

 

Carlos Nogueira, Expresso

 

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publicado às 12:03

Futebol com humor à mistura (18)

Rui Gomes, em 15.01.18

 

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A análise humorística de Rogério Casanova, jornal Expresso, à performance dos jogadores do Sporting no jogo da 18.ª jornada da I Liga frente ao Desportivo das Aves. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades.

 

Rui Patrício

 

Duas saídas afoitas aos pés de adversários e uma defesa fácil a um descompensado remate do meio-campo nos últimos minutos foram os únicos intervalos de acção em mais um jogo que encarou com a tranquilidade atenta e inquisitiva de quem sabe que, à excepção de grandes penalidades, ou das periódicas tentativas de Coates para marcar autogolos, as oportunidades para exercer a sua actividade profissional continuam a ser ultrajantemente reduzidas.

 

Piccini

 

Lasciò la fuga ad Amilton alle 12 minuti e fu nuovamente superato da un altro cittadino a 67. Oltre a ciò, nei primi minuti fu eccessivamente complicato, mancando qualche passaggio. Molto limitato! Tre milioni di euro? Uno scandalo! Sono stati una rapina! Non è un giocatore per grandi squadre, tanto meno per la Juventus, o qualsiasi altra squadra del campionato italiano, abituato a grandi difensori. Piccini è solo un Topo Gigio. Niente di tutto questo. Meglio andare altrove. Buon pomeriggio, ragazzi e scoutini transalpini.

 

Coates

 

Mesmo num jogo fácil, ficou mais uma vez a sensação de que não atravessa um bom momento de forma. Fez um passe terrível ao minuto 18, deixou-se antecipar dentro da área, permitindo um cabeceamento à barra, e já na segunda parte falhou uma intercepção em esforço, após um passe feito para as suas costas. Tratando-se de Coates, diria que a questão é menos de técnica ou de táctica, e mais de endocrinologia: relembrá-lo de que o futebol é um combate de hormonas, e que precisa de voltar a odiar avançados, descartando esta recente tendência para a simpatia.

 

Mathieu

 

Andersonpolgou dois passes longos esquisitos, perdeu uma bola semi-perigosa no meio-campo e deixou-se estatelar na grande área após uma finta de Salvador Agra, tudo na primeira meia-hora. O que aos olhares mais desatentos poderiam parecer sinais de desconcentração foram na verdade acções deliberadamente tomadas em nome de um projecto igualitário, suportando a nobre intenção de nivelar oportunidades e abolir temporariamente hierarquias de talento e qualidade. Após essa efémera experiência social cansou-se, e voltou a impor o seu habitual estilo fascista.

 

Fábio Coentrão

 

Protagonizou um momento de frisson ao minuto 85 quando, numa disputa de bola perto da linha de fundo, levou uma joelhada em cheio na cabeça. Todo o estádio, e toda a comunidade científica internacional, arregalou os olhos de curiosidade: seria desta que Coentrão iria mostrar algum desconforto físico? Ainda não, mas a forma como coçou a cabeça durante alguns segundos indica que sentiu uma leve comichão, um sintoma a acompanhar atentamente nas próximas horas. Mas tudo indica que a forma mais provável de voltar a cruzar-se com o Dr. Varandas é este sofrer um problema qualquer no banco, e Coentrão ter de sair das quatro linhas para lhe prestar assistência médica.

 

William Carvalho

 

Estreou-se finalmente no ano civil de 2018 e fez um bom jogo, desenrolando aquelas espirais que reproduzem os blocos de ácido desoxirribonucleico, os braços de galáxias distantes, as contorções de saca-rolhas a afundar-se na cortiça.

 

Bruno Fernandes

 

Mais recuado no meio-campo, passou a primeira parte em tarefas administrativas e de gestão de recursos, incluindo os seus, limitando-se a fazer as coisas simples invariavelmente bem e a deixar aos outros a tarefa de as complicar. Com a saída de Rúben, avançou uns metros e começou a jogar mais no risco, sem grande sorte. Tentou a bujarda da ordem aos 79 e foi ele a desmarcar Piccini no flanco para o 3-0. Nos últimos minutos, adoptou a já habitual postura perante o facto de não conseguir marcar um golo: a vontade mal reprimida de escavacar à biqueirada tudo à sua volta.

 

Gelson Martins

 

Sofreu a primeira falta, fez o primeiro drible, ganhou o primeiro canto, sofreu o primeiro penalty, acendeu-me o primeiro cigarro, e o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto. Não anda claramente num pico de inspiração, e parece atacar cada lance com uma estranha forma de hipocondria: qualquer que seja a condição da jogada, Gelson reage como se a mesma corresse um qualquer risco iminente, necessitando da implementação imediata de um plano de emergência. Precisa de calma, a mesma calma que algumas das suas decisões em campo nos vão impedindo de ter.

 

Marcus Acuña

 

Embora existam romances intitulados Oliver Twist e Jane Eyre e David Copperfield e Silas Marner e Moll Flanders e Taras Bulba e Eusébio Macário, é altamente improvável que alguém tenha vontade, após esta noite, após as últimas semanas, de escrever um romance intitulado Marcos Acuña. E por bons motivos. Nesta fase dos acontecimentos, um romance intitulado Marcos Acuña não teria princípio, nem fim, nem meio. Não teria capítulos, nem parágrafos. Não teria pontuação. Não teria páginas. Não teria personagens. Não seria lido, publicado, folheado, ou sequer incinerado.

 

Rúben Ribeiro

 

Uma das estreias mais incompreensíveis em toda a história do futebol. Sacudido por tremores de ansiedade, sem sequer saber o nome dos colegas, foi tentando timidamente algumas combinações ao primeiro toque e, em acessos de puro pânico, aberturas para o espaço vazio (uma para Gelson, de calcanhar, outra para Piccini, deixando-o isolado na linha), tudo para tentar disfarçar a confusão que sentia. Ao minuto 31, num momento confragedor, viu-se com a bola na área, completamente perdido: tal como um catavento, virou-se para um lado, virou-se para outro, e em desespero acabou por cruzar para a molhada, onde a bola, por milagre, chegou à cabeça de Dost.

 

Substituído ao minuto 65, certamente sem saber porquê, nem onde estava, nem qual era o resultado, nem que dia é hoje. Um fiasco em toda a linha. E lá foi ele, a caminho de um balneário irremediavelmente destruído pela sua titularidade.

 

Bas Dost

 

Observou anonimamente o panorama com a paciência de um agente de mudança confiante nas suas capacidades e que sabe quão rápida e radicalmente pode alterar a ordem vigente, com todo o caos arquivado na sua cabeça e pronto a ser distribuído. O seu propósito na vida é marcar golos. E o camião de golos que continua a acumular prova, entre outras coisas, que quando se tem um propósito, isso funciona melhor que um objectivo, que por sua vez funciona melhor que um intuito, que por sua vez funciona melhor que um desígnio, que por sua vez funciona melhor que uma resolução, que por sua vez funciona melhor que um intento, que por sua vez funciona melhor que um plano, que por sua vez funciona melhor que um alvo, ou uma vontade, ou uma desinência, ou uma Somersby.

 

Battaglia

 

Não entrou tão bem como na semana passada, pelo que, logicamente, hoje não tem direito a física quântica.

 

Bryan Ruiz

 

Numa frase que pareceria ficção científica há apenas três meses, substituiu na ala esquerda um jogador que, nesta altura, parece oferecer menos à manobra ofensiva do que ele.

 

Daniel Podence

 

Numa frase que pareceria ficção científica há apenas três meses, perdeu a titularidade para um jogador com o cabelo mais oxigenado que o seu.

 

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publicado às 16:29

Futebol com humor à mistura (17)

Rui Gomes, em 08.01.18

 

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A usual análise humorística de Rogério Casanova, jornal Expresso, à performance dos jogadores do Sporting, frente ao Marítimo, em jogo da 17.ª jornada da I Liga. Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

 

Foi hoje, e pela primeira vez em vários meses, vítima daquela antiga maldição chinesa: “Que possas viver tempos interessantes”. Os tempos interessantes em questão consistiram num intervalo de dois segundos no minuto 18, quando um livre indirecto em zona frontal chegou à cabeça de Diney apanhando Patrício a meio do que pareceu uma expedição indecisa. Seria culpa sua, caso a bola entrasse? Nunca saberemos. Mas são estes os riscos que corre um guarda-redes submetido a uma sucessão de jogos fáceis e de quase total inactividade (Portimonense, Benfica, etc.).

 

Ristovski

 

E se...? Ouçam-me. E se os laterais-direitos muito bons fossem, afinal, também muito fáceis de encontrar? Se calhar são! Que provas temos do contrário? Se calhar há, por essa Europa fora, em dezassete países diferentes, quatro centenas de bons laterais-direitos à mão de semear, muitos deles desempregados. Se calhar, basta sair num terminal ferroviário em Albacete, Skopje, Frankfurt, Budapeste ou Plovdiv, dar cinco passos em qualquer direcção, agarrar no primeiro vagabundo que se encontre e o mesmo virá a revelar-se um excelente lateral-direito. De acordo com esta teoria, que ainda ninguém refutou cabalmente, justifica-se um investimento tão avultado (5,25 milhões de euros no total) apenas para contar com dois excelentes laterais-direitos no plantel? Que isto sirva para promover o debate interno no Sporting.

 

Sebastián Coates

 

Conseguiu aos vinte minutos cumprir o projecto que William e Bruno Fernandes já tinham tentado algumas vezes antes dele, mas sem sucesso: desmarcar um colega nas costas da defesa adversária com um passe que não fosse demasiado longo, nem demasiado curto, mas na medida exacta. Num jogo praticamente sem trabalho defensivo, teve de ser ele a entreter-se sozinho: primeiro com o deslize da praxe (minuto 30, aparente escorregão no círculo central, felizmente sem consequências); depois, nos últimos minutos, com algumas incursões lá na frente para fazer umas fintas.

 

André Pinto

 

Não aproveitou, como o colega que substituiu faria com toda a certeza, o resultado folgado nos minutos finais para ensaiar subidas em sprint pelo campo acima, tentando também ele molhar a sopa, e arriscando uma lesão de esforço. Felizmente para todos, Mathieu já estava lesionado, e portanto não se lesionou. Quanto a André Pinto, cumpriu mais uma vez as duas funções essenciais que se pedem ao terceiro central de um plantel: 1) ser o terceiro melhor central do plantel; 2) jogar, quando joga, como se fosse o segundo melhor central do plantel.

 

Fábio Coentrão

 

Uma única falha, ao minuto 61, corrigida por ele, também ao minuto 61. Não fosse isso e poderia falar-se de um jogo perfeito, e pleno de saúde, como se viu na arrancada que iniciou a jogada do 3-0. Pensar que não há muito tempo, andávamos todos receosos que Coentrão sofresse uma lesão muscular. Uma lesão muscular! Entretanto provou-se que Coentrão não sofre lesões musculares. Nem, provavelmente, qualquer outro tipo de problema. Podem espirrar-lhe directamente na garganta que ele não se constipa. É possível que já nem sangre a fazer a barba. Se o mundo acabasse amanhã num holocausto nuclear, aí sim, talvez acordasse só uma semana mais tarde, e com uma ligeira enxaqueca, antes de começar a ultrapassar em velocidade baratas gigantes.

 

William Carvalho

 

Depois da merecida folga a meio da semana, regressou à titularidade e apresentou-se mais fresco, disposto a extrair magicamente uma unidade ao pluralismo, insistindo que a diversidade de ideias não é mais do que formal e não desmente a existência de uma matriz comum. Mais do que gerir um meio-campo fluente, William salvaguardou o futuro da civilização, ou pelo menos a parcela da mesma que depende de eu não me suicidar.

 

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Bruno Fernandes

 

Podíamos ser românticos e dizer que foi o melhor em campo. Mas o mais provável era que, caso Bruno Fernandes nos ouvisse a dizer uma coisa dessas, rachasse o gargalo de uma garrafa de Somersby no balcão do bar e o brandisse de forma ameaçadora à frente das nossas trombas. E nós temos medo de Bruno Fernandes. Como qualquer pessoa racional deve ter. Portanto sejamos cobardes e tenhamos a cobardia de o julgar de acordo com os seus próprios critérios: Bruno Fernandes hoje não marcou um golo; teve, por conseguinte, uma das noites mais horríveis de toda a sua vida.

 

Gelson Martins

 

Mobilidade, agressividade, sempre a procurar diagonais perigosas para o meio, sempre com disponibilidade para dar linhas de passe ou ajudar na recuperação – e com a assistência decisiva que desbloqueou o resultado. É preciso ser um caso muito especial para merecer uma frase como a anterior numa tarde em que praticamente não acertou um último passe.

 

Bryan Ruiz

 

Marcou um bom golo, hoje. Fez uma boa época, há dois anos. A classe individual nunca se perde, como pode confirmar qualquer pessoa que veja Robert Pires num jogo de veteranos. Robert Pires, que, já agora, se reformou em 2016, aos 42 anos, após uma época no Futebol Clube de Goa. O que significa, entre outras coisas, que o Futebol Clube de Goa se calhar precisa de um médio ofensivo para o seu lugar.

 

Daniel Podence

 

Criou a primeira jogada atacante digna desse nome, mas não teve – nem criou – muitas oportunidades para fazer o seu número mais eficaz: receber no meio, de costas para a maralha, girar, progredir em velocidade, e vasculhar o horizonte à procura de linhas de passe ou pontos de fuga. Ajudou a recuperar algumas das bolas que perdeu, mas de resto dedicou-se hoje, incaracteristicamente, à produção de conteúdos não monetizáveis.

 

Bas Dost

 

Não é a primeira vez que Bas Dost transmite a distinta impressão de só rematar à baliza quando tem a certeza absoluta de que vai marcar golo. O que é suspeito. Deve haver algures uma agência de apostas secreta, só acessível através da Dark Web, com odds estratosféricas para uma aposta sobre recorde de golos marcados com mínimo de toques na bola acumulada com percentagem de eficácia. E Dost tem lá metade dos ordenados investidos. É uma questão para as autoridades investigarem, antes que ele se torne, por larga margem, o homem mais rico de todos os tempos.

 

Rodrigo Battaglia

 

Schrödinger: Portanto o gato está simultaneamente vivo e morto na caixa, numa sobreposição de estados quânt...

Battaglia: Então matam-se os dois gatos. Com o pé.

Schrödinger: Não, não me fiz entender. Não há dois gatos, só há um gato. Um gato que...

Battaglia: Então mata-se esse gato. Com a minha chuteira. O gato fica morto.

Schrödinger: Mas a questão não é essa, o gato existe ao mesmo tempo em dois planos que...

Battaglia: Mata-se o gato nos dois planos. Com a minha chuteira.

 

Marcus Acuña

 

Entrou e fez logo um cabrito a um adversário, para colocar as coisas em perspectiva. Na sua segunda intervenção arriscou um lance no 1 para 1, que evidentemente perdeu. Mais tarde marcou um golo. Seria possível reconstruir em laboratório o tipo de jogador que é só a partir destes três lances.

 

Iuri Medeiros

 

É logicamente possível olhar para a soma das contribuições de Iuri no jogo e tirar duas conclusões opostas: a) entrou muito bem, e b) entrou mal. Escrevi inclusive uma versão de cada e ambas eram extremamente plausíveis (além de extraordinárias também de muitas outras maneiras). Uma pena que nenhuma seja publicada.

 

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publicado às 03:23

Futebol com humor à mistura (16)

Rui Gomes, em 04.01.18

 

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Rogério Casanova, jornal Expresso, com a sua análise humorística à performance dos jogadores do Sporting no «derby». Como sempre, a brincar e com humor diz-se muitas verdades:

 

Rui Patrício

Poughkeepsie, perdão, pouquíssimo trabalho ao longo dos noventa minutos, tal foi a superioridade da sua equipa perante um adversário retraído, receoso, inofensivo. Foi um dó de alma testemunhar a panóplia de subterfúgios encontrados pelos jogadores do Benfica para evitarem testar as capacidades de Patrício: chutaram por cima, chutaram ao lado, chutaram contra cabeças de colegas, contra suponho que os peitos de colegas, contra suponho que os ombros e pescoços de colegas, até à barra chutaram! Tudo com medo legítimo de um duelo de igual para igual com Rui Patrício. A única vez que o tentaram foi numa situação de nítida desigualdade de circunstâncias. Cobardes.
 

Piccini

Leitor sóbrio! Mon semblable, mon frère! Tens porventura na tua posse três milhões de euros? Ou pelo menos tiveste na tua posse três milhões de euros num passado recente? Eis uma lista não-exaustiva de usos que podiam ser dados a uma quantia de três milhões de euros nos últimos meses:
 
- comprar um Aston Martin Valkyrie;
- pagar a caução de Ricardo Salgado;
- financiar o custo total do fogo-de-artifício na passagem de ano do Funchal;
- Contratar os serviços de 625 jornalistas, pagando 400 euros por mês a cada um, no âmbito de um blogue dedicado à defesa intransigente da Verdade Desportiva;
- comprar Marvin Zeegelaar (caso fossem o Watford);
- comprar Ezequiel Schelotto (caso fossem o Brighton);
- comprar três milhões de isqueiros baratos, um lote considerável que duraria pelo menos oito semanas;
- comprar Piccini
 
É fazer as contas.
 

Coates

Dado o seu recente regime exibicional de alternância bipolar, a grande dúvida para hoje era saber que Sebastián Coates iria apresentar-se em campo: o Coates bom ou o Coates mau? Yin ou Yang? Jekyll ou Hyde? O raio de luz que ilumina a escuridão ou o raio que nos parta a todos? Acabou por aparecer toda a gente em campo, numa peça de ensemble extraordinariamente... perdi o raciocínio, peço imensa desculpa. Segundo as minhas notas, tentou marcar o auto-golo da praxe ao minuto 59, foi amarelado por um contacto erótico com Kristallnachtovic ao minuto 69 e ao minuto 77 desperdiçou nova oportunidade para fazer um autogolo, num gesto de fino recorte técnico, mas em que o remate de primeira lhe saiu escassos centímetros acima da barra. Também fez algumas coisas positivas, e outras razoáveis. É um polivalente.
 

Mathieu

É um bom jogador, Mathieu. Fez um bom jogo, no âmbito geral de ter jogado bem.
 

Fábio Coentrão

Regressou a uma casa que bem conhece e foi recebido com o carinho que se dedica aos filhos pródigos. A multidão em delírio presenteou-o com uma torrente de oferendas: soutiens, incenso, mirra, origamis, e até, numa das maiores manifestações de carinho que se pode mostrar a outro ser humano, um isqueiro! O espectáculo foi tão bonito que o próprio Coentrão não conteve a emoção e por duas ocasiões ajoelhou-se brevemente, sensibilizado, tentando dominar o pranto interior. Quanto ao jogo, ganhou mais lances do que perdeu, e acumulou alguns cortes decisivos, com o pé esquerdo, com a coxa e com outras partes extremamente legais da sua anatomia - anatomia essa, diga-se, em excelente estado clínico. O futebol português precisa de tranquilidade.
 

Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas

Numa opção táctica inesperada, pois toda a gente contava com a titularidade de William Carvalho, Jesus apostou na supresa e deixou que Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas se estreasse hoje em jogos competitivos. Não foi um jogo fácil para Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas, que raramente se conseguiu impor no meio-campo, e no cômputo geral, pode dizer-se que Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas não fez uma exibição positiva. Resta saber se esta estreia menos feliz de Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas marcará o regresso de William Carvalho ao onze inicial, ou se, por outro lado, Solução Homeopática Diluída de Michael Thomas voltará a merecer mais uma oportunidade.
 

Battaglia

Uma primeira meia-hora intensa, muito envolvido na manobra ofensiva, usando a sua técnica de passe curto, mas certeiro, para iniciar várias combinações no meio-campo do Benfica. Com jogadores do Benfica. Alterou ligeiramente os seus princípios estratégicos na segunda parte, na medida em que conseguiu muitas vezes endossar a colegas de equipa as várias bolas que recuperou. Acabou por ser ele a cometer o penálti. Não recomendo a bebida Somersby, em termos de sabor.
 

Gelson Martins

Conseguiu por duas ou três vezes fugir à marcação de Grimaldo quando ensaiou diagonais para o meio ou quando foi desmarcado nas costas do lateral, mas (creio que com uma única excepção na segunda parte) não lhe ganhou um lance no 1 para 1. Essas raras incursões para o centro foram suficientes para inaugurar o marcador (aproveitando a sua estatura colossal e o seu internacionalmente reconhecido poderio no jogo aéreo) e para ter a segunda melhor oportunidade do jogo, ao minuto 42. Foi substituído, tal como o meu estado fisiológico, perto do fim.
 

Acuña

Um grande plano do seu rosto junto à linha lateral ao minuto  do jogo mostrou-o completamente transpirado. Outro grande plano do seu rosto junto à linha lateral ao minuto 39 mostrou-o completamente limpo desse nítido testemunho fisiológico. O que aconteceu ao suor de Acuña nesses 22 minutos? O que é que nos andam a esconder? Que mais vai ser revelado por leaks de informação na internet? Fica a questão. De resto, mostrou-se em belíssima sintonia com os adeptos leoninos presentes no estádio e em casa, artilhando proezas de tradução quase simultânea, convertendo bolas aparentemente controladas em suspiros, potenciais contra-ataques em insultos, e situações de superioridade numérica em cigarros acendidos na ponta de cigarros ainda acesos. Não há, por enquanto, razões para entrar em depressão, até porque, nos dias de hoje, nove milhões de euros não é uma quantia assim tão inflaccionada para pagar pelo que será (com bastante certeza) um futuro lateral-esquerdo.
 

Bruno Fernandes

Foi, por tão larga distância, o melhor jogador do Sporting esta noite, que a frase vai terminar assim, deixando importunada por adereços supérfluos a sua mensagem central, que é a Bruno Fernandes ter sido, por larga distância, o melhor jogador do Sporting esta noite.
 

Bas Dost

Muito útil a aliviar bolas altas da área na sequência de cantos do Benfica, foi também razoavelmente útil a disputar bolas altas na sequência de lançamentos laterais do Sporting. Continua, numa certa categoria de jogos nos quais se inclui o de hoje, a parecer uma aparição fantasmagórica que se materializou súbita e inesperadamente num mundo de protocolos alternativos e convenções indecifráveis, uma situação da qual a responsabilidade me parece apenas residualmente sua.
 

Bruno César

Entrou, sofreu duas faltas, cometeu uma, o que fazendo um rápido cálculo de cabeça (2-1=1) configura um resultado clara e triunfantemente positivo.
 

Bryan Ruiz

"Olha, vai entrar o Bryan Ruiz", disseram algumas vozes quando vislumbraram a sua figura junto à linha lateral. "O que raio é que se está a passar, em nome de Deus, Jesus e toda a porra de Santos que existem neste infernal buraco cósmico em que todos vivemos e morremos?", terão dito outra vozes. É desta multiplicidade polifónica que se faz uma comunidade de seres humanos.

 

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publicado às 04:17

As "prendas" de Catarina Pereira

Rui Gomes, em 23.12.17

 

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Carta de Catarina Pereira, jornal Expresso, ao Pai de Natal, através da qual indica as prendinhas que gostaria de receber nesta altura do ano:

 

Querido Pai Natal,


Atendendo ao facto de a minha vida não ter vindo a ser muito agradável nos últimos quatro anos, tendo a desconfiar que algo está a falhar na comunicação entre nós. Normalmente, por esta altura, só te peço um par de meias novo, um pijama quentinho e o primeiro lugar no campeonato, mas só tens vindo a satisfazer dois dos meus três humildes desejos.

 

Portanto, neste Natal decidi ser mais direta. Pensei em mandar-te uma carta, mas os CTT estão em greve. Pensei em mandar-te um email, mas temi juntar-me aos que usam esta via para influenciar resultados. Restou-me esta via, por isso aqui vai. Se ainda for a tempo, aqui estão as prendas que pretendo encontrar no meu sapatinho:

 

Eis duas das prendas:

 

Um hacker anti-Sporting

Entre notas de árbitros, tabelas de vendas da profissão mais antiga do mundo e bolachas da Magda, não tenho dado conta de toda a informação que nos chega dos célebres emails do Benfica, pelo que necessito de alguma novidade que me estimule intelectualmente noutro sentido. Como tal, e olhando também para a tabela classificativa e sobretudo para o que os meus rivais jogam, sugiro que me faças chegar emails comprometedores do outro lado da Segunda Circular. Tenho consciência de que o respeito institucional entre os nossos emblemas pode não o permitir, mas algo me diz que ainda vai ser útil para o que falta do campeonato.

 

Um video-árbitro do vídeo-árbitro

Como sabes, sou a primeira a defender que há uma enorme coerência na arbitragem portuguesa, já que é toda má e está toda contra o FC Porto. Peço que entendas que é natural eu colocar entraves a todos os esforços para a mudar, no sentido de a tornar ainda pior e ainda mais contra o FC Porto. Mas prometo fazer um esforço para compreender todas as tecnologias que permitem, resumidamente, parar mais vezes o jogo e prejudicar mais vezes o FC Porto. Em troca, peço apenas uma maneira de tornar o processo mais transparente, sugerindo uma espécie de vídeo-árbitro do vídeo-árbitro: colocas-me a mim, numa sala, a ver o que todos os árbitros estão a roubar fazer e divulgas as minhas asneiras comunicações, para que não restem dúvidas de que este campeonato está todo manipulado inquinado desvirtuado engraçado!

 

E ainda há quem diga que não há pessoas com senso de humor !!!

 

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publicado às 03:11

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