Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Ser Sporting não se implora, não se ensina, não se espera, somente se vive... ou não.

Moniz Pereira, o “Senhor Atletismo”, escreveu no prefácio do livro “Fernando Mamede - O Recordista” que “na primavera do ano de 1968, ao ler os resultados dos campeonatos escolares de atletismo do distrito de Beja, fiquei muito admirado por o vencedor da corrida de 1000 metros ter feito o tempo de 2’38’’, o que, para um jovem de 17 anos, era realmente uma proeza, e só descansei quando a secção de atletismo do Sporting Clube de Portugal conseguiu entrar em contacto com a família dele para que autorizasse a sua inscrição no clube”.
Iniciou-se, então, a história de um dos maiores atletas sportinguistas. Apesar do muito que conquistou, dos grandes feitos nas pistas de atletismo em todo o mundo, há quem valorize que ele tinha medo de falhar. Mamede era um perfeccionista, um atleta que sentiu sempre a responsabilidade de ter de vencer. É que era enorme a expectativa que existia na sua capacidade de ganhar uma e outra vez. Foi um grande atleta, um dos maiores fundistas portugueses, reconhecido por todos os que competiram e conviveram com ele.
Fernando Mamede participou em três edições dos Jogos Olímpicos - 1972 em Munique, 1976 em Montreal e 1984 em Los Angeles -, tendo conquistado inúmeros campeonato nacionais e inúmeras medalhas, de que se destaca o bronze que ganhou em 1981 nos Campeonatos do Mundo de Corta Mato, em Madrid. Em 1984, já com 32 anos, Mamede bateu o recorde mundial dos 10 000 metros no Meeting de Estocolmo, com um registo que perdurou durante muitos anos.
A Câmara Mnicipal de Beja agraciou-o com a “Medalha de Prata de Mérito Desportivo”, atribuindo igualmente o seu nome ao Complexo Desportivo da cidade, cerimónia onde Moniz Pereira esteve presente ao lado de Mamede. Também a Corrida Cidade de Beja, que ocorre no “Dia da Cidade”, adotou a designação de “10km Fernando Mamede”.
O Sporting distinguiu-o com o Prémio Stromp na categoria “Atleta Amador” e em 1984 foi-lhe atribuído um Stromp especial com a categoria única “Recorde Mundial”. Foi ainda declarado Sócio de Mérito do Clube, onde depois de ter encerrado a sua brilhante carreira, continuou a colaborar na secção de Atletismo. Foi-lhe atribuído o prémio Leões Honoris Sporting na categoria “Honra Especial”, no dia 1 de Julho de 2015.
Na fotografia, Fernando Mamede quando bateu o recorde mundial dos 10 mil metros em Estocolmo, em 1984.
«Foi uma corrida estranha mas que revelou o verdadeiro campeão que foi o Fernando Mamede. Digo estranha porque, antes da prova, eu afirmei que numa corrida cerrada o Fernando era o atleta para bater o recorde do mundo - o que veio a acontecer três anos mais tarde - só que, nesse dia, ele arrancou muito cedo. Logo nos primeiros quilómetros deu a sapatada e pirou-se de toda a gente, o que para bater qualquer recorde é muito mais difícil. Normalmente, as grandes marcas são fixadas em corridas com "lebres" e com muita competição dentro da própria corrida. Ali, isso não aconteceu. O Fernando foi sozinho e sozinho foi somando os quilómetros e reduzindo tempo. Eu, do lado de fora, ia-me apercebendo que era possível bater a melhor marca que era do inglês Bredan Foster.
Tinha desenhado o esquema de corrida num caderno. Se o Fernando passasse aos 4 quilómetros com umdeterminado tempo e aos 6 ou 7 com outro, dava para ver ser era possível ou não atacar o tempo do inglês. Tudo apontava para que isso viesse a acontecer mas só havia um senão: o Fernando Mamede estava a correr sozinho... o segundo era o Carlos Lopes, mas a uma grande distância. Aquela corrida de 10 mil metros passou a ser, praticamente, um contra-relógio individual. Mas o Mamede não baixava o ritmo, nparecia que estava a correr contra ele próprio. Era a única forma que ele tinha de se superar, foi extraordinário !
Quando o Fernando Mamede cruzou a linha, eu olhei para o cronómetro e vi: 27m27.07. "Batemos o recorde da Europa ! Batemos o recorde da Europa Fernando ". Tirámos 5,3s ao anterior máximo. Foi o momento mais marcante do atletismo do Sporting no estádio de Alvalade.»
* Do livro "Estórias d'Alvalade" por Luís Miguel Pereira
Torneio Internacional de Lisboa - 30 de Maio de 1981 - Fernando Mamede bate recorde da Europa 10.000 metros -27m27s07c.
Eram 15 mil pessoas de pé, batiam as palmas de forma sincopada, ao mesmo tempo que gritavam «M-A-M-E-D-E.» Fernando, passava a mão direita pelo rosto, enxugando as lágrimas que lhe rolavam no rosto. Fernando Mamede acabava de bater o recorde da Europa dos 10.000 metros, era o primeiro europeu a baixar a barreira dos 27m30s e ainda era o segundo mais rápido do mundo de todos os tempos.
O feito resultou, em grande medida, de uma cavalgada impressionante na última volta. A recta da meta, essa palmilhou-a num tiro! Moniz Pereira comoveu-se até ao limite da sensibilidade humana. Era ele quem estava destinado pelo jornal A Bola para escrever o texto daquele dia mas, ao ser abraçado pelo jornalista Luís Lopes, o «velho» professor passou a pasta: «Faz tu a crónica disto. Eu fico com as meninas. Não consigo fazer os homens...»
* Do livro "Estórias d'Alvalade" por Luís Miguel Pereira
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.