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 Imagem que acompanha o artigo do El País

 

 

"Probablemente no haya en el mundo un país con futbolistas más pacíficos y dirigentes más violentos. Hablamos de Portugal."

 

"El del Benfica, Luis Filipe Vieira, por presuntos delitos blanqueo, antes el del Oporto, Pinto da Costa, por asociación criminal; Bruno de Carvalho por tráfico de influencias." 

 

EL Pais, Javier Martin Del Barrio, Los incendiarios del fútbol portugués, 2 de Março de 2018

 

 

A operação "E-Toupeira" é um assunto do foro da justiça. Terá seguramente os seus desenvolvimentos. Mas se se comprovarem as suspeitas é um assunto que dá uma imagem degradante do futebol português, ou melhor da sua classe dirigente. Pinto da Costa é um 'chico esperto' que, em tempos, conseguiu criar uma rede de influências para hegemonizar o futebol português. Vieira com muita paciência, noutro contexto, segui-lhe os passos. É um sonso que se faz de peixe morto,  nunca sabe de nada, espera que o tempo faça passar a borrasca. Bruno Miguel é um admirador de Pinto da Costa, e queria imitá-lo no Sporting, mas não tem 'chico espertice' suficiente para o fazer. Escolheu o tempo e os alvos errados, e minou o seu próprio caminho.

 

O futebol português tem praticantes pacíficos mas dirigentes violentos escreve o cronista no Jornal El País. O texto é acompanhado por uma imagem de Bruno Miguel equipado no meio da claque a ver um jogo. E se esta situação de mau dirigismo chegou à imprensa espanhola e se deve ao dirigismo rasca de todos clubes grandes, o certo é que a utilização da imagem do presidente do Sporting não pode deixar de ser significativa. A entrada desta personagem não trouxe nada de bom para o futebol em Portugal. Com um discurso arrogante, que apela à violência e com uma prática revanchista contra o passado do clube que dirige, entre outras atitudes, tem contribuído para um agravamento da imagem do futebol em Portugal.

 

Bruno Miguel deve estar nas suas sete quintas. De ilustre desconhecido já conseguiu que a sua fama ,pelas piores razões, ultrapassasse fronteiras. É uma estrela no universo leonino, pela cegueira dos adeptos, quiçá uma estrela no país, pelo espectáculo triste que teima em representar, e agora também em Espanha por ser um factor ligado à situação degradante que se vive no futebol nacional. Está de parabéns tal como os adeptos, que rezando ladainhas, o levam num andor e que rasgam as vestes à sua passagem. Triste imagem de um clube prestigiado. Triste imagem da situação vergonhosa do futebol nacional.

 

Mas o dirigismo rasca que está a tornar o futebol em Portugal um caso de estudo tem outros protagonistas. Nos dois principais clubes rivais não há exemplos a seguir, e no que diz respeito a uma classe de dirigentes, há a mesma baixa qualidade. No clube do Porto sabemos do uso de práticas desonestas para influenciar resultados e no clube da Luz está tudo cada vez mais obscuro, vivendo num mundo subterrâneo. Contudo, Bruno Miguel, com as suas atitudes primárias, onde impera a falta de bom senso, de inteligência, e a utilização gratuita da grosseria, só veio acrescentar mais descrédito, à imagem de uma modalidade admirada internacionalmente pela qualidade dos praticantes. Os campeões europeus em futebol e futsal, não merecem isto. Este mau dirigismo é digno de chacota.

 

Quando há coragem para mudar?

 

publicado às 04:29

 

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As apostas desportivas correm o risco de contaminar - se não é que já contaminaram - os relvados portugueses. E o motivo é simples: as verbas que giram à volta de cada encontro são cada vez mais avultadas. Por outras palavras, está a tornar-se mais lucrativo “pagar” a jogadores para viciar resultados.

 

De acordo com o Diário de Notícias esta segunda-feira, as apostas desportivas para cada jornada da I e II Liga chegam aos 340 milhões de euros.

 

Em média, cada encontro da Liga NOS gera apostas no valor de 32 milhões de euros - por jornada, as casas de apostas online recebem prognósticos de todo o mundo no valor de 288 milhões. Mas em caso de clássico este valor pode disparar para mais de 100 milhões de euros.

 

Na II Liga, a média por encontro ronda os cinco milhões. Já no Campeonato de Portugal, os valores envolvidos são mais reduzidos: 122 mil euros por jogo.

 

Estes valores foram fornecidos ao matutino pela Sportradar, empresa de monitorização de apostas que trabalha para a FIFA e que identifica situações que indiciem viciação de resultados.

 

E qual é a solução ?

 

publicado às 15:55

 

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O que seria do nosso Campeonato se, subitamente, S.Braga, V.Guimarães e Belenenses criassem condições económicas e estruturais favoráveis à disputa de títulos nacionais? Aceitariam os 3 Grandes a centralização dos Direitos Televisivos na Liga de Clubes, e por consequência, uma justa e proporcional distribuição de receitas a todos os emblemas do primeiro escalão? Concordaria o Adepto pagar um valor mínimo de €30 por bilhete por um Sporting vs Moreirense que valesse a pena – se a qualidade da equipa do distrito de Braga lhe conferisse, por exemplo, uma Odd de 40% em Alvalade?

 

A certeza de uma coisa impõe-se sobre a garantia de outra. Fique o Leitor descansado, pois de certeza que os exemplos acima descritos nunca irão suceder – tão garantido quanto o nosso Campeonato de Futebol continuar a ser nas próximas décadas, para além de um marasmo competitivo, um dos menos atractivos paleolíticos circenses do Mundo. Quando se criaram as Sociedades Anónimas Desportivas em Portugal (SAD, doravante), seria suposto acionar o motor que impulsionasse o Futebol nacional. Seria suposto, no mínimo, uma mudança de mentalidade estrutural. A montanha pariu – como demonstram os seguintes exemplos – um filme de comédia. Escolha entre os seguintes, o melhor exemplo.

 

Nem o Marquês do Pombal teria mão nisto…

 

Nos primeiros meses de existência, o V.Setúbal geriu a SAD através de uma Comissão de Gestão… sem Presidente. Filipe Vieira liderava um emblema ribatejano cuja SAD não tinha sequer eleito um Conselho de Administração. Vale e Azevedo prometia saneamento financeiro enquanto delapidava património e aumentava o Passivo (algo surreal!). N’Os Beleneses, foi necessária a intervenção de um “Dragão de Ouro” para evitar a dissolução de um Clube já de rastos, a troco da maioria da SAD. O Estoril-Praia deambulou a sua SAD entre os interesses de José Veiga, da Traffic… e um falido organizador-mor de uma competição de Ténis – nem a pobre bancada do Coimbra da Mota escapa a esta fatalidade.

 

Se aos nível de Clubes o cenário revelava-se alucinante, nas instituições políticas e federativas dançava-se o Fandango. Em 1999, Gilberto Madaíl e José Sócrates traziam para Portugal uma competição tão incomportável para com a nossa economia (mais de €400 Milhões de prejuízo), quanto útil para as pretensões promocionais dos próprios – o Euro 2004. Num golpe de teatro, colocou-se Carlos Cruz como testa-de-ferro de uma Comissão de Organização (não fosse a coisa correr mal para o Engenheiro com aspirações) e aldrabaram-se todos os estudos que apontavam como insustentável a realização do evento (algo que viria a ser confirmado pelo próprio apresentador, anos mais tarde). Tudo, com a conivência de Lennart Johansson.

 

Portugal: o melhor cliente do FMI

 

A realização do evento desportivo de 2004 e consequente construção dos estádios, custou tanto o desequilíbrio financeiro dos nossos principais Clubes, como do próprio País. Aparentemente, ninguém previa que o assinalável desenvolvimento económico decorrente de 1970 a 1990 (a grosso modo, com uma Taxa de Crescimento Real do PIB na ordem dos 7% ao ano), caísse para um pobre TCR médio de 0,56%, ao longo da década de 2000. Para além do desemprego, os portugueses perderiam poder de compra. No Sporting, o Passivo que rondaria os €30 Milhões pré-SAD, ultrapassaria os €160 Milhões consolidados*, por influência compreensível de todo o imobiliário construído.

 

O Sporting tinha criado mais Património, mas infelizmente viria a sofrer uma significativa quebra de receitas resultantes tanto pela construção do seu novo Estádio como por consequência dos tempos – menos 20 mil lugares sentados no Alvalade XXI e incapacidade dos adeptos em acompanhar uma obrigatória inflação de bilheteira, que nunca viria a ser implementada. Aquela que seria no futuro a maior fonte de receitas em território nacional – royalties sobre transmissões televisivas – representava ainda um mero delírio.

 

* em rastreio, o Passivo Consolidado do Grupo Sporting, em 2007, era de €200 Milhões. Em 2008, de €244 Milhões. Em 2011, sobe para €360 Milhões. Em 2017, ultrapassaria os €490 Milhões consolidados – só a SAD terá, actualmente, um Passivo de cerca de €430 Milhões.

 

Ser Visionário em terra de Cegos. 

 

No Sporting, o Passivo Corrente inibia o investimento no Futebol. Estávamos em 1999, período onde o regulamento da Comissão de Mercado Mobiliário constrangia uma instrumentalização de aquisição de dívida através uma aplicação bastante comum noutros mercados – os Reverse Convertible Notes, semelhantes ao que conhecemos como VMOC. Então, o plano B: numa manobra inédita em Portugal, o sistema bancário entraria num Clube  – o Sporting – através de um protocolo semelhante ao de Investidor (ao contrário do posicionamento de Credor já comum em todos os outros clubes).

 

O Banco Comercial Português compraria toda a dívida do Sporting, a ser paga em 10 anos, desenvolvendo uma bolsa orçamental tanto para investimento aplicado ao Futebol como ao financiamento imobiliário (cerca de €12 Milhões/ano, na altura). Existiam igualmente conversações com diversos investidores directos, caso da Coca-Cola (que viria a roer a corda), Centralcer e Telecel, protocolo que no conjunto, traria em retorno metade do investimento no novo estádio.

 

A privatização da Sporting SAD

 

Finalmente, o detalhe que provavelmente maior impacto teria provocado no futuro do Sporting. Contra qualquer expectativa gerada pelo low-profile do Presidente – uma visão desportiva conciliatória entre gestão sustentada, Treinadores de baixo-custo (Jozic, Inácio e mesmo Boloni que seria recomendado pelo próprio Roquette) e conciliação de Atletas da formação com pontuais contratações de renome –, são criadas as condições ideais para o Sporting abrir a sua participação a um grande investidor.

 

Pela acção de dois associados sportinguistas (cuja sua particular identidade não se revela fundamental por agora), proporcionou-se um jantar na Quinta da Marinha onde Roquette conheceu as diversas personalidade idóneas e capazes de 1) reestruturar a hierarquia desportiva do Futebol leonino, 2) internacionalizar da Marca Sporting, 3) relacionar a SAD com uma diversificação de negócios em Inglaterra e 4) promover a imagem do Clube num hemisfério mais afastado, afim de serem criados protocolos comerciais com instituições ligadas a sectores do Turismo e Aviação. Tudo isto obrigaria a um Franchising da SAD do Sporting – exactamente o que o Leitor poderá estar a pensar. Questiono: a quem incomodaria a presença no Capital Social do Sporting os nomes de pessoas e instituições como Peter Lim, Peter Kenyon, Singapore Airlines, Adidas, Lloyds Bank Commercial, Blackstone HF, por exemplo?

 

Às ambições dos "todo-poderosos" Luís Duque e Godinho Lopes.

 

Ps. As razões que nos levam a lamentar pelo que ficou pelo caminho, são as mesmas pelas quais, como sportinguistas, devemos valorizar a própria história do Clube. Se existe uma razão pela qual sempre se adiou Clube, essa razão sempre esteve dentro do próprio Clube. Nunca existirá Clube Grande, sem Grandes pessoas. Pela extensão do texto, que lamento não poder sintetizar afim deste perder alguma clarividência, será o mesmo concluído numa 3ª parte.

 

publicado às 03:20

 

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Boas intenções…

 

Num período compreendido entre 1996 e 2004, a UEFA, o Estado e a Banca mobilizaram-se no sentido de apoiarem as instituições desportivas portuguesas a trilhar um caminho de progresso e modernização. Esta nossa indústria dispunha da oportunidade de se elevar estruturalmente e financeiramente, tanto pela implementação das Sociedades Anónimas Desportivas, como pelo apoio público à criação de novas e melhores infra-estruturas, tendo em vista o Europeu de 2004. Previa-se o nosso Futebol colocado na vanguarda, orientado de modo sustentado pelos mais diversos meios administrativos e competitivos, tão proeminentes quanto competentes.

 

As SAD representariam o abandono definitivo do emocional e totalitarista mecenato presidencial, sucedendo-se a abertura do Capital Social aos Sócios e Investidores. Numa gestão profissionalmente focada na diversificação de investimento, os Clubes não estariam agora mais dependentes dos famigerados contratos publicitários e televisivos afim de orçamentarem as épocas desportivas. Em alargada visão económica global, tais medidas inovavam processos de receitas, desde a criação e valorização de activos imobiliários, ao surgimento de departamentos especializados na relação fundamental entre Investimento, sucesso desportivo e consequente Retorno de Investimento. 

 

A grosso modo, o Roupeiro permaneceria como Roupeiro, mas tudo o resto mudaria. O Presidente seria um Director Executivo de gestão, o Tesoureiro um Director Financeiro, os Futebolistas seriam tidos como o principal imobilizado das Sociedades, para além dos estádios e demais infra-estruturas. Os Adeptos tornar-se-iam Clientes, transfigurando o seu papel de meros pagadores de quotas a compradores de Acções e consumidores de produtos e serviços gerados pelo Clube. Aqui, quanto maior o número de simpatizantes, invariavelmente a dimensão do impulso económico gerado.

 

…esbarram nas coisas simples da vida.

 

Decorridos 2 anos após a criação da primeira Sociedade Desportiva em Portugal (a do Sporting), brotavam iniciais sinais de incompatibilidade para com um dos fundamentais princípios das SAD – os Adeptos só representam uma força económica no Clube quando mobilizados em massa, algo que em Portugal apenas ocorre (hoje, como no passado) em consonância com resultados desportivos. Os portugueses não têm o mesmo sentido de associativismo que os ingleses, os alemães, nem mesmo os espanhóis. Nem tão pouco dispõem do seu poder de compra. Poucos aceitaram a inflação da bilheteira. Poucos consumiram os serviços disponibilizados pelo Clube na área da Saúde, Seguros, Viagens e Créditos financeiros ou demais iniciativas. Com acordos de Main-Sponsor que rendiam qualquer coisa como €1 Milhão/Ano ou €600 mil/Ano em Equipment-Sponsor, as opções de financiamento dos Clubes eram diminutas: ou a Olivedesportos, ou a Banca. Sem Banca, sobrava a venda de Atletas.

 

Estávamos no terceiro ano de existência da nossa SAD. Enquanto personagens como Octávio Machado, Carlos Manuel ou José Couceiro procuravam um refúgio existencial nesta nova face da indústria – Santana Lopes, o homem que nunca fez nada de bom nem nada de mau, finalmente procurara um sentido para a vida longe do Sporting –, já os crónicos amotinamentos populares condenavam o caminho traçado pela visão de José Roquette (que longe do domínio público, seria co-responsável pela criação da SAD do FC.Porto). Os Adeptos, como sempre instrumentalizados pela visão em túnel, permitiam que um 4º lugar no campeonato lhes ensaiasse a cegueira sobre o óbvio – o caminho traçado levaria, invariavelmente, o Sporting a Campeão Nacional. E logo no ano seguinte.

 

Havia uma Direcção séria e focada, essencialmente, no Sporting. Havia uma estratégia a médio-longo prazo para cumprir. Haviam pessoas no corpo técnico com experiência de Futebol (e não de simuladores virtuais como hoje). E havia, pasme-se, uma equipa competitiva e financeiramente sustentável com as possibilidades do Clube. Isto tudo, num Sporting que cumpria com pesados acordos com as Finanças e Segurança Social, sem hipotecar verbas futuras. Os créditos de Bilheteira eram do Sporting. Os créditos de Garantia Bancária eram do Sporting. Os créditos de Passes de Atletas eram do Sporting. José Roquette foi lúcido, e acima de tudo paciente. Gastava cerca de €8 Milhões/época em contratações, e nada mais.

 

Uma primeira observação. 

 

Se observarmos, com alguma frieza, o conteúdo do segundo e terceiro parágrafo do texto e sem os condicionarmos à data a que os mesmos se referem, poderemos de algum modo entender uma parte do vazio que impera no Futebol em Portugal – medidas visionárias que nos colocariam na senda da Europa, orgulhosamente profissionalizados, numa competição interna devidamente regulada e competitiva para lá dos 3 Clubes de sempre, resultaram 20 anos mais tarde, à data de hoje... nesta decadência de valores e princípios desportivos a que todos assistimos.

 

Esta primeira parte do texto visa, essencialmente, uma necessária confrontação entre o que  vontade desejou, mas a intenção nunca fez. Tudo está errado numa competição onde se fala das maiores assistências ou dos maiores lucros, perante bancadas que ainda racham pelo meio. O que nos leva a concluir que em Portugal tudo é aparência, até alguma coisa tremer. A segunda parte deste texto poderá explicar, entre outras questões:

 

– como Gilberto Madaíl e José Socrates hipotecaram o futuro do nosso Futebol, em 1999? 

– o misterioso e inédito modo de Roquette financiar o Sporting campeão.

– quem esteve para adquirir a Sporting SAD em 2002?

– porque razão Luís Filipe Vieira e Godinho Lopes são intocáveis em Portugal?

– porque razão os Adeptos procuram o conforto do Totalitarismo Presidencial?

– porque razão é impossível um Presidente fazer do Sporting um crónico campeão?

– como pode o Sporting tornar-se, em 10 anos, o Clube português mais poderoso?

 

publicado às 10:30

 

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Bruno de Carvalho anda há quase cinco anos a puxar a conversa sempre mais para baixo. Desde o início, quando foi eleito presidente do Sporting, assumiu um comportamento que confunde a generalidade dos participantes no futebol português. O jornal Expresso chamou-lhe “presidente sem filtro”. Em teoria, quem se mete com ele… leva. Quase ninguém tem pedalada (ou paciência, ou até interesse) para o acompanhar nas suas constantes diatribes.

 

Esse comportamento acelerou-se ultimamente, o que tem uma razão de ser. É que o Sporting já não é o que foi no passado, mas ainda não se tornou num clube com futuro. Está num intervalo entre o passado e o futuro. Chama-se a isso “ser ainda não”. E “ser ainda não” preocupa muito os sportinguistas. Quando se vai à guerra com pouca sapiência e nenhuma estratégia sabe-se que muita coisa pode correr mal.

 

A conversa rasca de Bruno de Carvalho não constitui uma novidade. Comporta-se assim desde o primeiro dia. A novidade está na vulgaridade transgressiva da sua linguagem que se revela na forma como agora se dirige a tudo e a todos. Na grosseria permanente, na degradação pública que se tornou irreversível. Ele esqueceu-se de que o arqueiro é, simultaneamente, aquele que visa o alvo, o que o atinge, mas que pode ser atingido. 

 

(O cântico entoado pela claque leonina ontem no Dragão Caixa é consequência, em grande parte, da conversa rasca do actual presidente do Sporting. Convém distiguir o episódio patético do contexto que o favoreceu.) 

 

publicado às 13:01

 

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João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e Desporto, em entrevista à Rádio Renascença, adiantou algumas considerações sobre o que ele considera ser o actual mau clima no futebol português:

 

"Não há no meu quotidiano com quem fale que não reconheça que, efectivamente, hoje, as coisas estão muito para lá do que seria desejável, do ponto de vista de um discurso inflamado que nada tem que ver com o desporto e com os valores do desporto.

 

Estou disponível para tentar apaziguar, até porque estar publicamente mais ou menos interventivo não quer dizer que não se esteja activo. Competitividade é uma coisa, outra coisa distinta é agressividade e partirmos para discursos que incitam atitudes menos compaginadas com o que são os valores do desporto.

 

Perante isto, o executivo tentará acabar, de vez, com o clima nefasto já em 2018. Prometo, desde já, um conjunto de medidas e de propostas que procurarão pôr cobro ao clima que o Governo quer erradicar do futebol português, destacando-se mais sanções e mais expressivas".

 

Certíssimo, mas como bem sabemos, no mundo da política, falar é barato e fazer algo de concreto é outra coisa muito distinta. Um cínico diria que será aconselhável esperar sentado por estas medidas do Governo.

 

publicado às 04:40

 

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Taça "O Século" - 1948

 

 

O processo que conduziu ao profissionalismo no futebol terá nascido no dia em que foi cobrado o primeiro bilhete para um jogo. No caso português, na década de 1920 já havia pagamentos muito significativos a jogadores, mas o futebol só assumiu um carácter claramente profissional no decurso dos anos de 1950. No entanto, a profissão de futebolista ainda não era formalmente reconhecida. Nessa época, inscrevia-se no Bilhete de Identidade de cada cidadão a respectiva profissão, mas isso não se aplicava aos jogadores, constando sempre uma outra actividade profissional.

 

O Sporting teve supremacia do futebol português desde a época de 1940-41 até à primeira metade da década de 1950. Nesse período, conquistou nove vezes o Campeonato Nacional e cinco vezes a Taça de Portugal. Por essa razão, em 1955 foi convidado para participar na primeira edição da Taça do Clubes Campeões Europeus em representação de Portugal. De súbito, de modo algo surpreendente, a hegemonia esfumou-se a favor do Benfica. Essa alteração verificou-se na segunda metade da década de 1950 e durante a de 1960.

 

Em Dezembro de 1961 o jornal Sporting, nº 568, publicou um extenso artigo de Couto e Santos, redactor do Mundo Desportivo, com o sugestivo título “Um Sporting campeão faz falta ao futebol português”. É o primeiro artigo de fundo sobre esta problemática de que conheço referência na imprensa desportiva. Era ainda muito jovem quando o Sporting conquistou o Campeonato Nacional em 1966, mas recordo-me perfeitamente da intensidade emocional com que esse título foi festejado pelos sportinguistas. Ainda estava bem presente a memória do período mítico dos “cinco violinos” e muitos tinham-nos visto jogar.

 

A alteração na hegemonia do futebol português, pela sua profundidade e extensão, viria a adquirir com o tempo um carácter estruturante. De tal forma que, apesar de todos os esforços realizados nas décadas que se seguiram (1970 em diante), o Sporting procura, ainda hoje, alterar o status quo que se estabeleceu no nosso futebol. Agora, no início de uma nova época desportiva, essa ambição continua bem presente na vontade e na crença dos sportinguistas.

 

Penso que o Clube não foi capaz de fazer uma transição eficaz do semiprofissionalismo para o profissionalismo no futebol na década de 1950. Isso decorreu de uma espécie de tempestade perfeita, com causas internas e externas, onde se conjugaram a matriz ideológica olímpica do Sporting que dificultou essa transição, a demora na compreensão da nova realidade resultante da economia industrial nos anos 1950 e 1960, as persistentes dificuldades financeiras e o Benfica de Otto Glória e Bella Guttman.

 

A matriz ideológica olímpica do Sporting

 

Na primeira metade do século XX verificou-se no Sporting um movimento estrutural definido pela disseminação no Clube, ao nível ideológico, de uma concepção formativa e olímpica do desporto, em geral, e do futebol, em particular. Essa concepção olímpica decorreu do próprio acto fundacional em 1906 e da acção e pensamento de uma geração de directores, em que muitos foram atletas, como Mário Pistacchini, Soares Júnior, Júlio de Araújo, Sanches Navarro, Salazar Carreira e outros.

 

Por exemplo, em consequência desse princípio formativo, o Sporting criou em 1939 a primeira escola de futebol em Portugal através do antigo jogador e director Alfredo Perdigão e do treinador Joseph Szabo. Da concepção olímpica resultou o reconhecido ecletismo leonino bem representado no Estádio de Alvalade (1956) com as argolas olímpicas na tribuna da bancada central e as pistas de ciclismo e de atletismo que circundavam o relvado.

 

Essa filosofia desportiva sportinguista está muito bem expressa em “Os 10 mandamentos do Sporting” (1924) e no “Estatuto do Jogador do Sporting” (1950), ambos da autoria de Salazar Carreira. Neles considerava-se uma honra e um motivo de orgulho vestir a camisola leonina, não se encarando o futebol e os seus praticantes numa perspectiva moderna e capitalista.

 

A demora na compreensão da nova realidade resultante da economia industrial nos anos 1950 e 1960 

 

A década de 1950 foi um período de grande transformação em Portugal, em particular nos domínios económico, social e cultural, com reflexos significativos na superestrutura política e ideológica. Essa mudança, decorrente da significativa industrialização económica, impregnou o futebol de competição que já se tinha transformado num extraordinário espectáculo de massas. Aos jogos entre os grandes clubes acorriam muitos milhares de espectadores, esgotando os estádios (os ‘campos’ na linguagem da época). A profissionalização dos jogadores, que já existia em muitos países europeus, tornou-se inevitável.

 

Na sua maioria, os dirigentes do Sporting nas décadas de 1940 e 1950 eram oriundos da administração pública, ou tinham fortes ligações sociais e profissionais, do sector industrial e das forças militares. Os do Benfica, em geral, possuíam uma cultura mais adequada à realidade sócio-cultural emergente, mais capitalista, em consequência do perfil-tipo dos seus dirigentes, caracteristicamente uma burguesia liberal na perspectiva da época. Por isso, tiveram uma percepção mais rápida da mudança dos tempos e adequaram-se com maior eficácia à nova realidade. É reveladora disso mesmo a forma como o Benfica aceitou as exigências do treinador Otto Glória ou a prontidão audaciosa com que aliciou Eusébio.

 

O Sporting teve, tradicionalmente, grandes dificuldades na gestão conflitual entre os legítimos interesses do Clube e dos atletas, mesmo de alguns entre os mais carismáticos. A incompreensão das pretensões financeiras de Peyroteo e de melhoria salarial de Carlos Gomes ou a suspensão de capitães carismáticos como Fernando Mendes e Mário Lino quando agiram em nome de reclamações do plantel configuram essa desadequação à nova realidade do futebol moderno.

 

As persistentes dificuldades financeiras do Sporting

 

Na segunda metade da década de 1950, o Sporting atravessou graves dificuldades financeiras devido à construção do Estádio José Alvalade. O custo aproximou-se dos vinte e cinco milhões de escudos e, apesar do elevado valor das contribuições angariadas pela Comissão Central do Estádio, pesou bastante no orçamento do Clube. Esse contexto financeiro condicionou a renovação da equipa que o técnico Enrique Fernandez pretendia efectuar, depois de concluído o ciclo de maior êxito na história do futebol leonino.

 

Mas, essa situação crítica vivida pelo Sporting de um ponto de vista financeiro é muito anterior, tendo raízes nos anos vinte do século XX. Nesta altura verificaram-se vários episódios que confirmam a crise, particularmente a nomeação de uma Comissão Administrativa presidida por Sanches Navarro (1926), e a “Questão Jorge Vieira” (1929). Nas décadas de 1930 e de 1940 houve com frequência anos com saldo negativo, atenuados pelo sucesso desportivo da equipa principal de futebol que evitou uma maior visibilidade das dificuldades financeiras.

 

Mais tarde, nos anos 1960, os aspectos económicos continuaram a determinar a vida administrativa e desportiva do Sporting, conduzindo à criação de uma Comissão Administrativa presidida por Brás Medeiros (1965), que aplicou um severo programa de disciplina orçamental.

 

O Benfica de Otto Glória e Bella Guttman

 

Otto Glória profissionalizou a estrutura benfiquista ligada ao futebol e dispôs de uma autonomia que não se verificava noutro clube em Portugal. As suas ideias implicaram, nomeadamente, a criação do Lar do Jogador, a instauração de concentrações e estágios, a elaboração de regulamentos muito rigorosos e a proibição dos directores de entrarem no balneário.

 

O técnico brasileiro teve um sucesso imediato, conquistou dois campeonatos e três taças de Portugal, e lançou as sementes de uma grande equipa. Bella Gutman deu continuidade ao trabalho do técnico brasileiro, lançando o Benfica europeu.

 

De facto, depois do título conquistado em 1954, o Sporting foi o Campeão Nacional numa estranha sucessão cronológica de quatro em quatro anos (1958, 1962, 1966, 1970 e 1974). Não voltaria a usufruir da supremacia no futebol português, surgindo frequentemente como um outsider a partir do momento em que o FC Porto quebrou o jejum de um longo período sem vencer o título (1978). Nessa altura, João Rocha presidia ao Sporting e, apesar do seu conhecimento, sagacidade e competência, não conseguiu impedir o desenrolar dos acontecimentos.

 

Breve nota final

 

Haverá outros factores que agiram sobre o percurso histórico organizacional e competitivo do Sporting. No entanto, pelo seu carácter estruturante, considero que os três primeiros possuíram uma acção decisiva. O quarto aspecto, aquele que se refere ao Benfica, tem uma dimensão meramente conjuntural, mas produziu um efeito significativo por surgir associado aos anteriores.

 

 

publicado às 14:48

 

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O Sporting Clube de Portugal é uma instituição centenária e co-fundadora do futebol português enquanto grande fenómeno social, desportivo e cultural de massas. Precisamente por essa razão, deve cuidar daquilo que também é seu e não omitir-se, assumindo de forma permanente uma função participativa e construtiva, para além da inequívoca capacidade negocial institucional.

 

Um clube assim, de personalidades históricas do nosso futebol como Francisco Stromp, Fernando Peyroteo e Vítor Damas, do arquitecto Anselmo Fernandez, do massagista Manuel Marques e do técnico Fernando Vaz, de dirigentes como Francisco Gavazzo, Oliveira Duarte e João Rocha, entre tantos outros, não pode ir para o meio da rua gritar a plenos pulmões “antes só do que mal acompanhado”.

 

O Sporting é, portanto, uma instituição com responsabilidades e que, de alguma forma, por acção ou omissão, contribuiu para que o nosso futebol seja aquilo que é actualmente. Noutro contexto temporal também sujou as mãos.

 

Compete aos actuais dirigentes do clube levarem a cabo todas as intervenções conducentes à reforma do futebol português, estabelecendo negociações, fazendo alianças e promovendo decisões que, paulatinamente tornem o futebol mais higiénico e saudável. Exige-se aos dirigentes sportinguistas nervos de aço e confiança, firmeza e pragmatismo, para além da disponibilidade e capacidade para ocuparem cargos nas instituições dirigentes que permitam a consecução desse objectivo crucial.

 

Se assim não for, a alternativa é muito perigosa para o Sporting que corre sérios riscos. Com as mãos livres e o caminho desimpedido, Benfica e FC Porto partilharão entre si interesses e vantagens. Aquilo que penosamente se conseguiu no plano financeiro e desportivo revelar-se-á como perigosamente conjuntural e efémero.

 

Quando Bruno de Carvalho afirmou na Assembleia Geral de 28 de Junho que “Portugal não quer o Sporting, o futebol não quer o Sporting. Pelo futebol, isto fica dividido a dois [Benfica e FC Porto]” significa que não percebeu a especificidade histórica e desportiva do clube no contexto do futebol português. A “presença” do Sporting não depende da vontade deste ou daquele, é parte inerente e inalienável do próprio futebol institucional e competitivo.

 

Neste contexto tão conflituante devemos avaliar o peso institucional do Sporting mais de dois anos decorridos sobre a eleição de Bruno de Carvalho. O Sporting não exerce influência nas estruturas dirigentes do futebol português, não estabeleceu cumplicidades e alianças sérias com outros clubes e isolou-se no contexto associativo. Nem com os clubes que são  suas filiais possui um relacionamento desportivo e institucional privilegiado.

 

Ultimamente parece que alguma coisa se alterou. A recente votação sobre a arbitragem revela que, afinal, é possível estabelecer entendimentos. As notícias a propósito das eleições para a presidência da Liga permitem concluir que o Sporting assumirá uma acção mais interveniente e assertiva nas instituições do futebol português. Há um percurso entre as pedras do caminho, um percurso que se realizará com paciência e resiliência, mas também com ousadia e ambição.

 

publicado às 15:03

Futuro procura-se

Rui Gomes, em 13.12.14

 

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Com o primeiro terço do campeonato realizado - 1.ª Liga - verifica-se que 13 clubes, ou seja 72,2 por cento do total, não conseguem meter em média mais do que 3.005 espectadores nos respectivos estádios, nos jogos do campeonato.

 

Perante este acentuadamente desestimulante cenário, é apenas lógico questionar o futuro do futebol português.

 

Winston Churchill disse que " é um erro ver muito longe no futuro. A corrente do destino somente pode ser puxada um ela por vez", mas também há quem acredite que o problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser.

 

publicado às 11:33

 

 

 

Fiquei satisfeito ao verificar no domingo à noite que o nosso amigo Manuel Humberto regressou à escrita no seu blogue Sporting Autêntico, depois de alguns meses de ausência. Felicito-o pela iniciativa, porque quem possui os seus elevados dotes com a pena, deve partilhar os seus escritos com a audiência da blogosfera - sportinguista e não só - quer se concorde ou não com todas as opiniões expressas.

 

Para o efeito, escolhi o texto intitulado "Prioridades trocadas", em que Manuel Humberto se fundamenta na sua leitura - na minha opinião acertada - sobre as diferenças culturais entre o adepto de futebol inglês e o português. Eis um parágrafo desse texto:

 

«Em Portugal o sistema funciona de forma diferente. Com o destaque vedado a jogadores e treinadores as atenções dispersam noutro sentido. Os adeptos aprovam já que no topo das suas preferências também não está o jogo. Antes, a intriga e a arbitragem. Em Portugal o futebol é secundário e serve meramente de pretexto ou anúncio ao evento principal. Reservado não para os dias de jogo mas para todos os dias entre segunda e sexta, os grandes protagonistas do futebol Português são os dirigentes. É costume dizer-se que os adeptos em Portugal não merecem este futebol. Eu discordo.»

 

O texto completo pode ser lido aqui.

   

publicado às 06:20

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