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O país é Ronaldo e mais 23%

Rui Gomes, em 19.10.18

 

A questão do IVA carrega um equívoco: o futebol é que está a dar pouco ao Governo.

 

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A directora-executiva da Liga critica o Governo, com razão integral, por excluir o futebol na descida do IVA para os espectáculos públicos. Esse tema já foi aqui abordado várias vezes, a última delas ontem pelo nosso director-adjunto, que tocou nos pontos todos, incluindo no drama do "estigma" da promiscuidade, que nunca fez sentido e menos ainda fará no momento actual do futebol europeu: o Estado não precisa de dar nada ao futebol; precisa de aprender a ganhar mais dinheiro com ele, como faz em todas as outras áreas de negócio internacionalizadas.

 

Olhar para o resto da Europa, ver como a Liga portuguesa está a ser varrida para o lixo pelos ratings clandestinos dos mais ricos, reparar no fluxo das transferências de jogadores e ter a (pouca) perspicácia de perceber que se está a perder muitos milhões de euros de receita fiscal não seria subserviência; seria ter um mínimo de competência para governar. Assim como recusar intervir no debate da centralização dos direitos televisivos, que é chave para resolver o problema, não é evitar promiscuidades; é cobardia ou muito pior do que isso.

 

Seria impopular entre os eleitores dar incentivos ao futebol profissional, mesmo sabendo que isso traria lucros mais tarde? É para isso que servem as manhas da política, ou "a arte do possível", como lhe chamava Bismark. Negoceiem, imponham regras duras, saiam deste filme como o Governo que domou a bola; o que quiserem. Mas não façam de conta que Portugal pode deitar fora o impacto do futebol ou esquecer-se de que ele existe.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 11:00

Grande notícia para Leonardo

Rui Gomes, em 11.10.18

 

O treinador a quem só pediam para ganhar equipas sai do Mónaco por perder jogos.

 

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O presidente Enrico Preziosi, do Génova, chicoteou David Ballardini, que considera "um treinador terrível": "A carreira dele comprova isso. Foi despedido 13 vezes nas últimas 14 épocas." O curioso é que, não só Ballardini tinha o cadastro actual bem à vista em 2017, quando Preziosi o contratou, como já havia sido contratado por ele antes, em 2010/11. Dos 13 despedimentos, só consegui encontrar seis, pelo que nem essa parte deve ser honesta.

 

Os treinadores são um par de ombros largos, à disposição de qualquer banana (ou do Pogba) para lhe branquear a incompetência. Na soma de quatro anos, Leonardo Jardim vendeu 800 milhões de euros em jogadores do Mónaco, cumpriu uma Liga dos Campeões estratosférica e venceu um campeonato inimaginável ao Paris Saint-Germain. De época para época, conformou-se a treinar equipas cada vez menos reforçadas, por decisão estratégica do clube e a mero troco de uma reputação efémera de "formador". Fez-se um agricultor de talentos.

 

Mas o despedimento, que será confirmado hoje, condena a tal ideia fresca do viveiro que o Mónaco parecia representar. Afinal, o unicórnio do clube-escola e infinitamente paciente com os resultados regressa ao reino da fantasia assim que põe os olhos num nome vistoso como o do alegado sucessor, Thierry Henry, campeão da Europa e do Mundo pela França, em 1998 e 2000.

 

E Jardim, o treinador a quem só pediam para ganhar equipas, sai do Mónaco por perder jogos, como acontece a todos os comuns mortais que aspiram a taças. A boa notícia é que o livram do calvário desta espécie de auto-exílio competitivo, muito abaixo do seu potencial, e ainda lhe devem pagar uma valente indemnização por cima. Ah... e o patrão Ryobolev vai ver-se à rasca para lhe encontrar despedimentos como os de Ballardini no currículo.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

P.S.: Já é oficial, Leonardo Jardim foi despedido do Mónaco, prova absoluta que nenhum treinador está seguro, mesmo com um registo de vencedor.

 

Mensagem de despedida do vice-presidente Vadim Vasilyev:

 

"Tenho de felicitar com muito respeito o Leonardo pelo trabalho realizado. No banco do Mónaco tornou-se uma referência na Europa e deixa um balanço muito positivo. A sua passagem ficará como uma das mais belas da história do nosso clube. O Leonardo vai continuar a fazer parte da família do Mónaco".

 

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publicado às 13:26

O castigo das visitas

Rui Gomes, em 09.10.18

 

É nos jogos fora que os adeptos se portam pior. E haver castigados por tabela também resulta.

 

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A Polícia de Segurança Pública quer castigar os adeptos que se portem mal no estádio dos outros com "jogos de torcida única", ou seja, sem espectadores visitantes. Se os clubes treparam pelas paredes só com os jogos à porta fechada, esta ideia vai pô-los, no mínimo, a hiperventilar, embora tenha ainda mais lógica do que a anterior. É nos jogos fora que os adeptos, sobretudo os dos três grandes, se portam pior.

 

A pacificação também depende de como cada clube educa os seus adeptos, venham eles da bancada ou do estúdio de televisão. A motivação para o fazerem, até agora, foi sempre nula. Ter uma claque feroz ainda traz mais vantagens do que desvantagens.

 

As objecções à torcida única são muito fáceis de antecipar. Dois terços das equipas da I Liga seriam castigadas por tabela, por dependerem muito das receitas geradas pelas visitas dos grandes, mas a lei nunca é suficiente para a mudança. O clube que é vítima colateral passa a interessar-se, nas assembleias da Liga, por pressionar os infractores e votar melhores regulamentos: o teu problema passa a ser o nosso problema. Essa frase confunde o futebol profissional.

 

Quase todas as decisões são tomadas com leviandade, com o umbigo, ou nascem das intrigas mais absurdas, como prova o facto de os clubes terem resolvido contestar o castigo de jogos à porta fechada, cuja presença nos regulamentos da Liga foi proposta por eles e aprovada por maioria. Os adeptos também ser educados assim, quando se lhes dá a entender, diariamente, que ser troca-tintas, ofensivo ou mesmo mentiroso não faz mal nenhum.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 05:15

A violência da opinião

Rui Gomes, em 06.10.18

 

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As mulheres têm todo o direito de dizer não e de ver essa vontade respeitada, independentemente da hora a que o digam, do local, da roupa que vistam ou da profissão que tenham. E Cristiano Ronaldo tem o direito de ser julgado sozinho e não em nome do saco de gatos em que se transformou o #MeToo, movimento global nascido para combater o assédio e assalto sexual.

 

Li muito sobre o caso nestes últimos dias e poucas opiniões conseguiram navegá-lo sem maltratar, pelo menos, um destes dois princípios sagrados, até as que tentaram ser delicadas. Escrevo apenas para não fugir a um tema que tomou conta da actualidade mundial e que é grave sob qualquer ponto de vista. Tomar partido com leviandade implica ferir uma causa que compreendemos e defendemos ou presumir culpas, de Ronaldo, que só duas pessoas no planeta podem, eventualmente, avaliar. Por isso, mais do que este parágrafo não, obrigado.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

 

Entretanto, há quem tenha princípios e uma linha de pensamento radicalmente diferentes de José Manuel Ribeiro, como é o caso de Paulo Dentinho, director de informação da RTP, que se deu a publicar o que só pode ser considerado um vergonhoso post, alegando que "estava a preparar um programa sobre o aniversário do movimento 'Me Too' e isso, aliado ao facto de ter três filhas, fez-me ter um momento emocional. Não me estava a referir ao caso concreto de Cristiano Ronaldo":

 

"Há violadas de primeira, violadas de segunda categoria, violadas de terceira categoria, etc. Depende muito do estatuto delas mas, sobretudo, do estatuto deles. Questão de perspectiva... Um "não" de uma puta - e tem também ela direito a dizer não - vale nada. É mercadoria. E se o violador tiver a auréola de herói nacional, é puta de certeza, no mínimo dos mínimos uma aproveitora sem escrúpulo algum. Logo, puta! Os factos, que se fodam os factos. Estava a pedi-las, foi o que foi. Felizmente não é a mamã, a filhota ou o filhote de ninguém. Porque nesta justiça será sempre uma filha ou um filho da puta".

 

E é este indivíduo director de informação da estação pública ?... Por mim, deixava de exercer o cargo imediatamente.

 

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publicado às 03:48

Os santos dos clubes

Rui Gomes, em 28.09.18

 

Reacção do G15 à nova lei de segurança é, em simultâneo, uma cambalhota, um ataque de amnésia, uma hipocrisia, uma prova e um bom sinal.

 

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O G15 acha que a nova lei de segurança "diminui os clubes" e "assume a indústria do futebol como um problema para a segurança pública". Para um movimento que se iniciou com o pretexto de pôr na ordem os três grandes, por ser considerado que estavam a "incendiar" o ambiente, o mortal à rectaguarda não podia de modo algum ser mais pronunciado, nem contraditório.

 

As diligências que os clubes têm supostamente feito para controlar os respectivos adeptos vão de inexistentes a duvidosas, na maioria dos casos, e a manipulação deliberada e suja que alguns deles fazem das massas já está provada, em documentos e testemunhos, sem que o G15 tenha mencionado essa praga, sequer de raspão.

 

Por outro lado, há uma série de casos em tribunal, alguns já com sentenças, que provam inúmeros tipos de más condutas de clubes - e aí não são apenas os grandes, como não são apenas eles que falam de árbitros, como geralmente também não são eles que irritam os adeptos com antijogo e muitas outras práticas que compõem a actual cultura do futebol português.

 

Algum presidente censura um treinador por o ter feito? Ou por insultar um árbitro à vista de todos? Castigam internamente um jogador por agressão? Ou por simular um penálti? Abrem inquéritos a adeptos? Expulsam-nos? Talvez tenha acontecido, mas não tenho notícia disso. Sei é que as câmaras de vigilância de alguns deles avariam em momentos convenientes; que os castigos aplicados até agora não funcionam e que os jogos à porta fechada os incomodam muito, sinal de que devem manter-se na lei (embora fosse preferível a interdição pura e dura).

 

É a mentalidade dos clubes que tem de mudar primeiro e a pronta reacção do G15 ao esforço da nova lei foi pôr essa hipótese imediatamente de parte. Comprovando-a.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:01

Meta volante na Pedreira

Rui Gomes, em 24.09.18

 

O ponto alto da 5.ª jornada joga-se em Braga, na segunda-feira, com a eventual pressão do Benfica sobre os dois candidatos sombra.

 

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Já há muito tempo que um jogo Braga-Sporting é uma meta volante do campeonato. Só lhe faltava, em importância, que o Braga perdesse os complexos e apontasse ao título, como sucede esta época. Se lhe juntarmos um Sporting que também pretende ser visto como um candidato que corre por fora, temos uma espécie de governo sombra na Pedreira que vai medir as aspirações de ambos, embora seja cedo para diagnósticos profundos.

 

Na tabela classificativa, as diferenças são poucas e favorecem o Braga, que tem o segundo melhor ataque da prova e melhor diferença de golos, apesar de ter os piores resultados defensivos dos sete primeiros da classificação. Os sete golos marcados contra três sofridos do Sporting são argumentos para a desconfiança da crítica. José Peseiro venceu cinco dos seis jogos que fez, mas, em geral, "não convenceu", para usar a expressão mais repetida na Imprensa.

 

Há outras leituras ao alcance. Uma delas é que pode ter abandonado o desprendimento atacante que lhe marcou a carreira e optado, desta vez, por começar a equipa lá por trás, pela defesa. A outra é faltar-lhe Bas Dost e os outros avançados ficarem muitas milhas atrás da qualidade do holandês. Falamos sempre de quatro jornadas apenas, mas cada uma tem a sua história.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:18

O medo de não parecer corajoso

Rui Gomes, em 22.09.18

 

É verdade que o Bayern está ainda mais rico e mais forte, mas o futebol português precisa de ficar mais burro?

 

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É mais compreensível que o Qarabag, dos confins do Azerbaijão, oponha resistência ao Sporting, em Alvalade, ou que o Benfica não oponha resistência ao Bayern no Estádio da Luz? A confiar no grosso da opinião publicada sobre o segundo destes jogos, perder com o campeão alemão era uma fatalidade que se adivinhou logo nos primeiros instantes. Aliás, não foi o Benfica que perdeu, foi o "futebol português" por atacado, ainda que, abusivamente, só Rui Vitória tivesse voto na matéria quanto às decisões tácticas.

 

Toda a gente chegou à conclusão de que as diferenças são demasiado grandes, que se há de fazer? Primeiro: não entrar em negação e conversa fiada só porque se é comentador e benfiquista. Isso nem o Benfica ajuda. As diferenças são grandes, sem dúvida, mas não são maiores do que as existentes entre o Chaves e o FC Porto. O que separa o Chaves deste Benfica - ou, noutros tempos, do FC Porto e do Sporting - é o ego que substituiu a inteligência colectiva do país futebolístico e proíbe algo tão simples como jogar à defesa. Nenhum treinador dos três grandes quer ser apanhado a perder, jogando à defesa ou sequer usando alguma ratice que possa ser confundida com isso.

 

Uma boa parte dos treinadores portugueses sofre do paradoxo mais palerma do planeta: o medo de não parecer corajoso. Portanto, se o mundo do futebol mudou (e mudou), se os Bayerns estão cada vez mais ricos (e estão) e se os portugueses estão cada vez mais longe deles, talvez a mentalidade precise de se ajustar ao novo contexto. Antes de ser bonito ou feio, destemido ou medroso, o futebol precisa de ser um bocadinho inteligente.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 02:52

Paulo Gonçalves explica quanto ?

Rui Gomes, em 07.09.18

 

Por trás do processo e-Toupeira há uma pilha de emails e comportamentos que combinam demasiado bem com ele. É feio fingir que não.

 

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1 A resposta oficial de Luís Filipe Vieira aos avanços do processo e-Toupeira tem um problema, apesar de irrelevante para a maioria benfiquista: o Benfica talvez possa desligar-se de Paulo Gonçalves, mas como é que se desliga de todos os outros emails que encaixam tão estranhamente bem neste caso? Como é que se separa as toupeiras do padrão de comportamento que ressalta daquela informação toda? Ou do PowerPoint com a receita do "domínio total", de que já ninguém se lembra? E da desproporcionalidade cada vez mais notória no espaço de opinião das televisões? Ou das próprias reacções da SAD, negando repetidamente notícias e emails que sabe serem verdadeiros, entre outras manobras mediáticas questionáveis? Paulo Gonçalves pode explicar uma parte razoável, mas não finjam que explica tanto.

 

2 O secretário de Estado do Desporto reagiu ontem à tempestade IPDJ, na SIC Notícias, e ficámos na mesma, porque ninguém quer saber se o ex-presidente Augusto Baganha é bom ou mau funcionário. Há uma lei que proíbe o apoio dos clubes a claques ilegais. Pergunta básica, sem mais nada ao barulho: por que razão é que essa lei ficou tantas vezes por cumprir nos seus nove anos de existência? A falta de uma resposta e a permanente indiferença do secretário de Estado é que denegriram o IPDJ. As acusações de Baganha, desonestas ou não, chovem no molhado.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 03:41

Podem e mandam

Rui Gomes, em 05.09.18

 

Antes de ser justa ou injusta, a promoção de Vítor Pataco à presidência do IPDJ é outra bofetada nos cidadãos de segunda.

  

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A anunciada promoção de Vítor Pataco à presidência do Instituto do Desporto (IPDJ), depois de demitido Augusto Baganha, navega entre a irrelevância e o descaramento. A irrelevância reside no papel do IPDJ, que vai perder a curto prazo a jurisdição sobre as claques e, com ela, as atenções sempre venenosas do futebol profissional. A pouca-vergonha leva mais tempo a explicar.

 

No momento em que, ao fim de nove anos de surdez, o Instituto castiga o Benfica por apoiar ilegalmente as suas claques (que não estão registadas, como exige a lei), o Governo tinha a obrigação mínima de abrir um inquérito para explicar aos cidadãos esta década de omissões e acusações graves. Há duas muito importantes.

 

A primeira é a existência, revelada pela Imprensa, de um relatório estatal de 95 páginas que menciona vários autos da polícia, ao longo dos anos, narrando exemplos de apoio do Benfica às claques (que o IPDJ ignorou).

 

A segunda é a acusação, nunca desmentida pelo Instituto, de que era o vice-presidente Vítor Pataco, ex-funcionário do Sport Lisboa e Benfica, o responsável pelo processo das claques benfiquistas. Pataco pode ser o mais sério, o mais preparado e o mais competente dos administradores públicos - acredito que seja -, mas chega ao cargo como prova da existência, em Portugal, de cidadãos de segunda classe.

 

Porque é o que sucede quando, tantas e tantas vezes, se deixa tão claro que as leis não são para todos. Nomear Vítor Pataco sem, pelo menos, esclarecer estes nove anos é mandar metade do país àquele sítio. E a rir dos palermas que votam, incluindo benfiquistas. É que se há imunidades para clubes, também há para partidos, para amigos, etc., etc.

 

Nota: o futebol profissional é uma incumbência microscópica do IPDJ, que é muito mais importante para todas as outras modalidades. Com o carácter certo, não falta ali o que estragar.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 03:20

Sporting precisa de mais golos

Rui Gomes, em 07.08.18

 

As equipas de Peseiro têm uma característica em comum: não sobrevivem marcando uma vez por jogo.

 

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Sousa Cintra fez quase tudo bem. Acho que sou o último a escrevê-lo. Escolheu um treinador português com algum passado na casa e bem informado sobre o campeonato nacional, porque era preciso parar a desagregação iniciada com as rescisões e a saída de Jorge Jesus. E resgatou Nani, que até poderá não vir a ser uma solução fenomenal no campo, mas ajuda a atenuar a perda total de referências, depois de perdidos Patrício e William.

 

Esse é o maior problema do Sporting e aquele em que são mais evidentes as distâncias para FC Porto e Benfica. As surpresas, como será forçosamente esta equipa nova, esgotam-se depressa e, para a etapa seguinte, falta também em Alvalade um fora de série ou, pelo menos, um incendiário como Gelson. Essa figura foi importante em todos os recentes campeões. O FC Porto ainda tem Brahimi e uma remota esperança em Corona, o Benfica abre uma grande interrogação com a venda de Jonas e a Peseiro resta esperar a explosão de Matheus Pereira ou Raphinha.

 

Quando se esgota a táctica, que é o futebol em fato e gravata, as equipas precisam do imprevisível ou, pelo menos, de algum recurso que os adversários tenham dificuldade em parar, mesmo sabendo o que aí vem. Marega é um exemplo disso. No caso do Sporting, esse papel é duplamente fundamental, porque as equipas de Peseiro precisam de mais golos para saldar os muitos que sofrem. FC Porto e Benfica talvez possam ganhar um campeonato na defesa; este Sporting não.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:48

Alfa e Geraldes: a Liga 2018/19

Rui Gomes, em 30.07.18

 

A luta pelo título está a ganhar potência mas a perder talento. E as manadas não se conduzem sozinhas.

 

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Alfa Semedo e Francisco Geraldes são os nomes da semana. Entre um e outro, há 13 quilos, 15 centímetros e mais um mundo inteiro de diferenças, apesar de jogarem ambos no meio-campo e até na mesma posição, com algum esforço. Se juntássemos as mais-valias deles num só jogador, acabaríamos num negócio de cento e muitos milhões de euros. Também ajudam a descodificar o último campeonato do mundo e a prever como será a I Liga esta época, em resposta ao FC Porto/Marega de 2017/18.

 

Alfa é a "surpresa" do Benfica, embora só surpreenda quem não esteve atento a este último ano; Francisco Geraldes forçou a saída do Sporting por achar que o onze estava vedado pela imponência do regressado Bruno Fernandes. O apetite de José Peseiro por Enzo Pérez (intensidade+intensidade+intensidade) descartava a hipótese (já remota) de lhe ser dada a vaga de segundo médio. Geraldes é leve e pausado num futebol esfomeado por poder físico e stress.

 

Neste momento, FC Porto, Benfica e Sporting estão mais preocupados em comparar watts de potência do que talento, e têm razão: a liga portuguesa pode (e vai) ser ganha no músculo. Mas isso não significa que se possa dispensar os Geraldes, os Otávios e os Zivkovics, tal como um carro não dispensa a caixa de velocidades, por muito poderoso que o motor seja.

 

Estou a ver os três grandes (o FC Porto nem tanto, e isso é mau) a ganharem quilos e centímetros, mas a perderem (ou na iminência de perderem) talento e a preocuparem-se pouco com isso.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 03:40

 

Entrevistas (alarmadas) do director de segurança do Benfica sobre o futuro cartão de adepto sugerem que a proposta acerta na mouche.

 

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A Assembleia da República vai votar uma proposta de lei que cria, nos estádios, zonas exclusivas para as claques da casa e às quais só têm acesso membros registados e munidos de um novo cartão de adepto, facultado pela futura Alta Autoridade para o Combate à Violência no Desporto. Fora desses espaços não haverá bombos, megafones, nem a habitual parafernália, por força de lei. Ou seja, acaba-se, especificamente, o festival do Benfica, cujas claques não são registadas, mas mantêm todos os privilégios das claques legais, a par do pior cadastro nacional.

 

A esta notícia, o Benfica reagiu a jacto com duas entrevistas alarmadas do seu director de segurança, contestando a proposta com base nesta cândida ideia: as claques da Luz não vão aceitar legalizar-se, porque entendem que os seus membros já são sócios do clube e que isso é registo suficiente. E como não aceitam, obrigadinho pela intenção, mas guardem lá isso. Para quê mudar e afrontar estes cavalheiros, se o Benfica até os controla, à parte um ou outro homicídio? O cartão do adepto, ideia do presidente da Federação, não é um beliscão ao Benfica; o Benfica é que tem sido um beliscão à lei da segurança.

 

Com este registo, autónomo dos clubes (supomos nós, porque o Instituto do Desporto também era), passa a ser teoricamente possível limpar as bancadas de quem não tem maneiras, seja nos estádios, seja fora deles. E isso, a funcionar bem, será verdade para Benfica, FC Porto, Sporting e por aí adiante. O único argumento contrário que qualquer deles pode apresentar é a lista dos sócios que baniram a seguir a cada caso de mau comportamento nos últimos dez anos. Por lapso, com certeza, não há referência a nada parecido com isso nas duas entrevistas do preocupado director de segurança do Benfica.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 03:16

O próximo amador

Rui Gomes, em 14.07.18

 

A escolha do novo presidente do Sporting tem de ser assim, como se gerir um clube de Champions ou um rancho folclórico fosse igual.

 

Os presidentes de clube à portuguesa têm, em geral, um defeito inultrapassável: o dinheiro não é deles. São eleitos pelas hormonas saltitantes dos sócios. Vêm dos gabinetes, dos estaleiros de obras, dos bancos, das fábricas de pneus e quase nunca do futebol, embora só isso garanta pouco.

 

Quando chegam, mudam funcionamentos e pessoas, trocando-as por outras que caem lá de paraquedas. Com alguma competência ou sorte à mistura, ficarão o suficiente para aprenderem qualquer coisa e reunirem uns quantos profissionais, ou semiprofissionais, que o presidente seguinte dispensará, para recomeçar tudo do princípio, às vezes do zero absoluto.

 

Normalmente, nem sequer há a preocupação de buscar o melhor cérebro possível para o futebol, com anos de experiência, contactos, conhecimento do mercado e trabalho feito. Procura-se um ex-jogador que impressione os adeptos - e quando calha de ser um ex-jogador que já fez de director, ninguém pergunta se foi um desastre na tarefa.

 

É mesmo assim que o futebol funciona, em Portugal, para lá do balneário. Os microciclos, a periodização táctica, os índices lesionais, o ácido láctico e as subtilezas do tiki-taka encontram correspondência no improviso e nos palpites dos gabinetes.

 

A administração de clubes, em Portugal, é apenas uma administração de condomínio a uma escala maior, como se o futebol de alta competição não fosse específico e complicado de gerir. O operador de empilhadora do 2.º esquerdo ou o banqueiro do 8.º direito servem perfeitamente.

 

E o terrível é que as eleições têm mesmo de ser como esta do Sporting: a democracia é o pior dos sistemas, tirando todos os outros. Mas do outro lado continuarão Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira, António Salvador e até Júlio Mendes, com épocas e épocas e épocas de avanço.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 12:00

Insolventes

Rui Gomes, em 30.06.18

 

Os advogados "peritos" estão em débito com o futebol, mas agem sempre como se fosse ao contrário.

 

O Sporting desconfia da Comissão Arbitral Paritária, um órgão da Liga que hoje serve, exclusivamente, para carimbar os pedidos de rescisão, incluindo dos nove jogadores que debandaram de Alvalade. A CAP até não poderá fazer grande mal ao Sporting, mas a desconfiança tem razão de ser.

 

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Há pouco mais de um ano, um dos seus elementos teve de se demitir por ser pateticamente fanático por um determinado clube grande e a substituta trabalha no gabinete de advogados que representa, em nome do sindicato, alguns dos jogadores que rescindiram. O elemento que sobra é comentador crónico de direito do desporto num vasto número de títulos da Imprensa e teceu dezenas de sentenças sobre a vida do Sporting nos últimos meses, para além de ser conotado com o mesmo determinado clube, cujas posições costuma partilhar quase à sílaba.

 

Esta é a parte muda dos bastidores do futebol que não se cura com banhos de silêncio e harmonia. O "perito" em direito do desporto de hoje, mais perito ainda em escalada social, é o presidente do Conselho de Disciplina de amanhã, ou estará pelo menos entre os vogais; fará parte do lote de juízes do Tribunal Arbitral e, com bons ventos, até chegará a secretário de Estado ou presidente da Câmara de Sintra.

 

A camada adiposa formada por este tipo de advogados que se entranha no futebol - os "peritos" - foi responsável por múltiplas agressões à modalidade, neste século, que provocaram estragos tão grandes ou maiores do que o Apito Dourado, o caso Pereira Cristóvão, os emails e o Cashball todos juntos. Não são opiniões: são decisões transitadas em julgado que o dizem. Os juristas estão em débito com o futebol. Têm de provar que merecem alguma confiança das pessoas, em vez de continuarem a portar-se mal e a promoverem mil tipos de promiscuidades diferentes, às vezes com um descaramento inconcebível.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:19

Maradonismos

Rui Gomes, em 29.06.18

 

Queiroz, Quaresma, Maradona: a elegância é sempre facultativa.

 

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Conheci o outro Maradona em 1995, no aeroporto de Frankfurt. Regressávamos os dois da final da Taça dos Campeões, entre Ajax e Milan. Pedi-lhe umas palavras, para um jornal português, e ele deu-mas, mas não as que eu esperava nem aquelas que, em princípio, se publicam na Imprensa. Em cinco segundos (e para a eternidade), o mito degenerou em dejeto e a admiração num asco profundo.

 

Nos 23 anos seguintes, fui concluindo que ser Maradona não lhe dá o direito a falar daquela maneira, mas também não lho tira. Jogar (muito, muito, muito) bem à bola não obriga a seguir um código de conduta, nem sequer a ser civilizado. Tarde ou cedo, neste caso 23 anos depois de mim, uma câmara russa voltada para o cavalheiro durante o Nigéria-Argentina põe o planeta a debater se Maradona merece, ou não, ser tolerado.

 

Fora da relva, até em Portugal o futebol é capaz de produzir maradonismos, pessoas com um determinado estatuto que decidem falar sem filtros ou viver sem restrições. Quaresma e Carlos Queiroz, por exemplo. O primeiro preferiu a liberdade à carreira e ninguém o pode condenar por isso. Qual de nós tem legitimidade para lhe dizer: "Devias ter sido infeliz. Ter corrido mais nos treinos; ter sido submisso aos teus treinadores; ter sido altruísta no campo; ter preferido o cruzamento à trivela"?

 

E também não consigo ensinar Queiroz a ser o herói nacional que talvez fosse suposto. Desde a "merda" na FPF, há quase três décadas, que ele exerce apenas o direito à liberdade de expressão, sem autocontrolo nem concessões, como talvez fizesse se, em vez de figura revolucionária no futebol nacional, tivesse continuado a ser um professor de educação física, por estes dias a berrar contra o congelamento da carreira, em vez de berrar com Quaresma. Ninguém tem de gostar do outro. Nem o outro tem de gostar dele.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 11:25

Coro dos tribunais

Rui Gomes, em 04.06.18

 

Os estatutos, as leis e os contratos assinados não se alteram com sessões de esclarecimento do presidente do Sporting.

 

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A Doyen, os ex-presidentes, Marco Silva, a Gestifute, os sportingados, as televisões, os jornais, os comentadores, Octávio Machado, Jorge Jesus, a Holdimo, a Liga, a FPF, José Meirim, a banda do Sporting, os jogadores, os médicos, os fisioterapeutas, o fulano do catering, Marta Soares, António Salvador, os membros da mesa da AG, os membros do Conselho Fiscal, os membros do Conselho Leonino e alguns eteceteras de que não me lembro agora.

 

O problema não pode estar nesta gente toda, por mais sessões de esclarecimento que o presidente do Sporting faça para abater cada um. Ao contrário do que Bruno de Carvalho parece pensar, a chegada dos tribunais ao problema sportinguista não é uma boa notícia para ele, porque os estatutos dos clubes, as leis e os contratos assinados não se alteram com a retórica, nem com pequenos truques de manipulação (é para isso que lá está Nuno Saraiva?) como a repetida divulgação de comunicados em cima da hora de fecho dos jornais, para não serem mitigados pelo contraditório.

 

O presidente não faz o que quer, por muito que ele o tenha repetido aos jogadores, segundo a carta de rescisão de Rui Patrício. Por outro lado, a retórica funciona junto de quem já está arregimentado, mas todos os outros (e são muitos) vêem facilmente para lá das artimanhas, ou foram eles próprios alvos das constantes vagas de insultos, insinuações e, pelo menos no caso da Imprensa, de algumas mentiras. Bruno de Carvalho pode esperar justiça, como qualquer cidadão, mas seria pouco inteligente esperar também boa vontade. Os tribunais não o verão pelos olhos do público de uma sessão de esclarecimento.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 12:00

Idade da Inacência

Rui Gomes, em 24.05.18

 

O avismo e o inacismo juntam-se ao brunismo, cada um à sua maneira.

 

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1 - O brunismo e o avismo (de Desportivo das Aves) são filosofias parecidas. Esta novidade de culpar a FPF pela falta de licenciamento para competir na UEFA recorda-nos que esta época, ou estas épocas, tiveram bem mais do que um Bruno. Há muitos anos que os clubes conhecem o imperativo de pedir uma licença para jogar a Liga Europa e a Liga dos Campeões. Já houve fiascos públicos nessa matéria e existe um regulamento bastante óbvio. Se, em Dezembro, ninguém do Aves imaginou que jogaria a final do Jamor, paciência, é assumir o erro e aprender com ele.

 

Muitos dos detritos que emperram o nosso futebol são asneiras próprias empurradas para outros. O que foi a hecatombe do brunismo senão culpas repetidamente sacudidas por um presidente para cima do treinador e dos jogadores? Embora passem a vida a falar-me nisso, não sei como eram os homens de antigamente (suspeito que havia de tudo, como agora), mas julgo saber como lhes era exigido que, pelo menos, parecessem.

 

2 - Augusto Inácio ao salvamento: é o que se conclui da nomeação do novo director-geral do Sporting. Do nada surge um aliado e, em simultâneo, uma almofada entre o presidente e os jogadores que lhe são alérgicos. Uma bisnaga de Fenistil e está tudo bem outra vez. Mas é muito diferente partir da inocência com Bruno de Carvalho em 2013 ou assinar por baixo tudo o que ele fez nestes cinco anos, incluindo as duas últimas semanas. Sendo sempre bonita, a lealdade também é sempre correcta e bem dirigida?

 

Como o escritor Mark Twain já foi antes chamado ao brunismo, sem poder defender-se, não será mais uma volta no túmulo a dar-lhe cabo das cruzes: "Lealdade à nação, sempre; lealdade ao governo, quando ele merece."

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 05:58

 

O Sporting está acima de tudo como?

 

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Como disse Bruno de Carvalho ao jornal Expresso, os jogadores de futebol podem e devem ser criticados. Talvez até seja verdade também que, em Portugal, somos demasiado mornos nessas críticas. Mas para um presidente de clube, fazer as repreensões à equipa em público só tem uma vantagem, entre vários prejuízos evidentes: sacudir as culpas próprias.

 

E dar uma entrevista, repetindo os ataques aos jogadores e fazendo mira ao treinador, na véspera de um jogo tão importante como o Marítimo-Sporting é a mesma coisa. Não traria qualquer benefício a ninguém do clube, exceptuando ao presidente caso o resultado fosse mau. Por outras palavras, Bruno de Carvalho pôs o objectivo de sacudir culpas (ou pior, a vingançazinha adolescente) acima dos 30 milhões de euros que a Liga dos Campeões poderia valer e do estado de espírito que se deseja a uma semana da final da Taça de Portugal.

 

É possível contestar esta conclusão e fazer uma dúzia de outras interpretações dos actos do presidente; o que não se conseguirá nunca, nem com a ajuda de um argumentista de Hollywood, será explicar como é que isto defende o Sporting. De que maneira está o Clube acima de tudo com aquela entrevista? Bruno de Carvalho é mesmo um presidente-adepto ou será antes um adepto do presidente?

 

Ao fim de três anos e cerca de 20 milhões pagos a Jorge Jesus (por Bruno de Carvalho, sem pistolas apontadas à cabeça), mais o orçamento recorde desta época, impõe-se, claro, reavaliar o percurso. O primeiro problema, pelo menos aos olhos de um observador externo mas, com certeza, também para os sportinguistas serenos, está em perceber o peso, nos fracos resultados, destas perturbações constantes criadas pelo presidente. E, se calhar, reavaliar cada um desses episódios fazendo a pergunta básica: o que ganhou, ou teria a ganhar, o Sporting com qualquer deles?

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 05:22

Esta maratona nem Rosa Mota

Rui Gomes, em 10.05.18

 

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A eterna campeã acertou em cheio no maior obstáculo à integridade no desporto: a pouca importância que, na verdade, lhe damos. Na cimeira de peritos em apostas, integridade e média que se realizou ontem no Porto, a melhor (e mais curta) intervenção foi a de Rosa Mota: por que razão, perguntou ela, há tantos ex-atletas condenados por doping a dirigir ou comentar desporto? A resposta é que o doping, a pequena corrupção (ou, se calhar, a grande), a mentira e as canalhices em geral não nos aborrecem assim tanto, ou - para entrar no futebol - só nos aborrecem no adversário.

 

Por exemplo, o grande incómodo do representante do Sporting com a presença de Paulo Gonçalves, arguido nos casos emails e e-Toupeira, na última Assembleia Geral da Liga devia ser compreensível para toda a gente (e não foi), mas a falta desse incómodo com a chuva de tochas que as claques sportinguistas atiraram ao seu próprio guarda-redes não se entende, como não se entende a simplicidade com que se engole os posts do "pai" de Bruno de Carvalho no Facebook e, em consequência, toda uma linha de comportamento insuportável. Quem escrever isto é anti-sportinguista, ou coisas muito piores, e fica o problema resolvido.

 

A mesma lógica foi usada antes com Benfica e FC Porto, embora me pareça que nunca houve tanto descaramento como agora. Nunca as más acções foram tão claras e, apesar disso, tão ignoradas, com as desculpas falaciosas de que outros fizeram o mesmo ou de que nem sequer podemos falar delas sem, pelo menos, contrabalançarmos com um caso, real ou atamancado, de outro clube para cumprirmos os formulários de "isenção". Já nem importa, como se vê pelos casos citados, que as vítimas do jogo sujo sejam "dos nossos". Rosa Mota tocou na maior ferida de todas, mas receio que nem ela tenha pulmão para essa ultramaratona.

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 04:16

Pinto da Costa e os exclusivos

Rui Gomes, em 25.04.18

 

Em Alvalade, a equipa de Conceição garantiu que a época não lhe fará justiça suficiente. Mas pode ser histórica na mesma.

 

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Ao fim de quatro anos de jejum, sair da Taça em Alvalade nunca poderia ser bem digerido pelo FC Porto ou pelos portistas. O campeonato, que está longe de se confirmar, é pouco para uma equipa tão marcante e, talvez, ameaçada de desmantelamento. O título descreve mal os afazeres de Sérgio Conceição assim como as ganas de um grupo de jogadores muito açoitados, de várias formas, nas épocas anteriores. As duas figuras do momento, Herrera e Marega, são os melhores exemplos disso.

 

Em Alvalade, este FC Porto perdeu, sobretudo, a hipótese de fazer justiça a si próprio e à relevância que devia ter na história. Resta-lhe a hora agá: a possibilidade de roubar ao Benfica, pelo menos por mais meia década, o feito de igualar o penta, um dos exclusivos de Pinto da Costa, que ontem celebrou 36 anos de presidência. A acontecer, será uma intervenção no limite e histórica também por causa disso.

 

Das muitas análises que anteontem ouvi e li à vigência de Pinto da Costa, há um termo reincidente: "Clube regional." Foi usada de duas maneiras, ou para catalogar o FC Porto que este presidente encontrou em 1982, ou (e acima de tudo) para defender que o grande fracasso dele foi nunca ter conseguido dar ao emblema uma dimensão nacional.

 

Para além de desonesta, por ignorar que Sporting e Benfica conseguiram essa dimensão em tempos muito diferentes dos actuais, essa tese esquece um detalhe que está, por estes dias, mais claro do que nunca: a escala nacional do FC Porto dependeu sempre menos de Pinto da Costa do que da grande máquina que o combateu e que continua a combatê-lo sempre que, como agora, invoca o "clube regional". Nem falo de falta de escrúpulos; só de boa vontade, que é óbvia. 

 

José Manuel Ribeiro, jornal O Jogo

 

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publicado às 03:07

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