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A lebre e a 'tortuga'

Rui Gomes, em 16.10.19

21285923_RdzlC.jpegÉ uma pergunta com uma resposta algo curiosa: até antes do jogo Portugal-Luxemburgo, quem era o jogador utilizado mais vezes por Fernando Santos na Selecção?... A lógica obrigaria o leitor mais incauto a responder Cristiano Ronaldo, mas essa não seria a escolha correcta. O capitão somava então 46 jogos por Portugal, mas ainda tinha dois colegas à frente dele. Com 51 jogos, a outra resposta mais óbvia, pela posição que ocupa: Rui Patrício, claro está. Mas, com 52 presenças nos 67 jogos do seleccionador, ainda havia um outro preferido: William Carvalho.

É provável que isto surpreenda os mais distraídos, mas o médio de 27 anos raramente está fora das escolhas de Fernando Santos, seja a '6', ou, mais recentemente, a '8', tendo até demonstrado uma espécie de veia goleadora nos jogos contra Lituânia e Sérvia, quando marcou um golo em cada um deles.

William, que foi dispensado devido a uma hérnia e já não defrontou o Luxemburgo, tem sofrido ao longo da sua carreira com um preconceito que assola alguns dos jogadores de futebol que têm muito pouca vocação para o atletismo: "é lento". Ou, como escreveu um desportivo espanhol após uma das primeiras exibições de William Carvalho pelo Bétis: é uma "tortuga" ("tartaruga", bem entendido).

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Ora, não tendo, obviamente, a velocidade clássica de deslocamento de uma lebre, William compensa com o posicionamento que adopta, com a interpretação do jogo e, claro, com a qualidade de tudo aquilo que faz com a bola - e com a rapidez com o que o faz. Como disse Fernando Santos, depois do jogo frente à Lituânia: "Tenho a certeza que William tem capacidade para fazer qualquer posição, 6,8 e 10. É um jogador de grande qualidade. Parece lento mas não é, tem uma passada muito larga, recupera facilmente".

E, nisto das lebres e das tartarugas, já sabemos todos que mais vale devagar e bem, do que rápido e mal... uma história um pouco (muito) à semelhança do apuramento (quer dizer, dos apuramentos) da selecção portuguesa com Fernando Santos. A corrida pode não começar tão bem como se quer, mas à chegada são as tartarugas que festejam.

Mariana Cabral, Tribuna Expresso

publicado às 03:32

Foto do dia

Rui Gomes, em 04.10.19

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Mariana Cabral - Coordenadora do futebol feminino do Sporting

publicado às 03:32

Uma cambada de malucos

Rui Gomes, em 03.10.19

21285923_RdzlC.jpegPrimeiro, uma espécie de disclaimer: eu gosto muito de Silas. Gostei quando pegou no Belenenses (que então ainda não era só SAD) e colocou a equipa a jogar um futebol predominantemente ofensivo - porque uma coisa é jogar para ganhar, outra coisa bem diferente é jogar somente para não perder; gostei quando foi entrevistado pela minha colega Alexandra Simões de Abreu e admitiu, sem problema nenhum, algo que muitos nem admitiriam em privado: Vivi numa barraca. A primeira vez que vi um chuveiro pensei que era um telefone, encostei ao ouvido e abri a água; gostei quando sempre disse o que pensava nas conferências de imprensa, não se coibindo de criticar as exibições da equipa, mesmo ganhando, ou vice-versa - uma análise lúcida à produção em campo e não ao resultado, que falta a muito boa gente em Portugal; e, por fim, gostei de ouvi-lo quando chegou ao Sporting.

No relvado de Alvalade, na sexta-feira, ou na Academia de Alcochete, no domingo, Silas foi o que sempre costuma ser: confiante, sincero, desarmante. Ou, como o próprio disse: "Eu sou o mais maluco de todos".

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Se Bruno Lage foi uma lufada de ar fresco quando assumiu o Benfica, Silas já é o mesmo no Sporting. Mas convém ressalvar, para os mais distraídos, que exigir novidades - e resultados - apenas com uma mão cheia de treinos efectuados, isso sim, é que é coisa de malucos.

Como seriam, por exemplo, estas outras vincadas maluqueiras: insultar os árbitros todas as semanas; adeptos do mesmo clube à porrada na bancada; um presidente a apertar o pescoço de um adepto; continuar a haver jogos às 21h30 da noite; uma Liga subitamente parada por 30 dias; ou um treinador ter de esperar uma década - dez anos - para poder ter o curso de quarto grau para treinar ao mais alto nível.

Afinal quem são os malucos?

Mariana Cabral, Tribuna Expresso

publicado às 06:49

Reflexão do dia

Rui Gomes, em 05.05.19

 

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"Actualmente, é recorrente medir o fracasso pela obtenção de vitórias ou derrotas, o que é, obviamente, demasiado redutor para ter algum fundamento. Felizmente, no caso de Nuno Dias (Sporting CP) houve clarividência suficiente para perceber que o trabalho de uma equipa e, particularmente, de um treinador, não se mede simplesmente pelos resultados positivos e negativos, como quase sempre nos pretendem vender.

 

Para ganhar, ou para perder, é preciso estar lá - e só se chega "lá", repetidamente, com competência e trabalho. Depois, hélas, vem a sorte. E a verdade é que, ganhando e perdendo, temos estado sempre lá, em quase tudo: no futsal, em clubes e na selecção e com o melhor do mundo; no futebol, com clubes e com as mais variadas selecções da base até ao topo e com o melhor do mundo; e também, no futebol de praia, com clubes e com a selecção e com o melhor do mundo. É assim que se cresce, batalha a batalha".

 

Excerto da crónica de Mariana Cabral intitulada "A batalha de Almaty", em Tribuna Expresso.

 

publicado às 05:03

As nêsperas do futebol português

Rui Gomes, em 18.12.18

 

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A Nêspera

 

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

 

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A meio da semana, ao quinto jogo da era Marcel Keizer, não se falava noutra coisa: finalmente, o Sporting não sofria golos. É que, antes, tinha sofrido sempre: um, um, um e um. Ou seja, quatro. Mas faltava falar no reverso da medalha: marcou quatro, seis, três e quatro. Ou seja, 17. E foi por isso que o treinador holandês disse o seguinte, quando questionado pelos jornalistas sobre o assunto, antes do Sporting-Nacional: “Se marcarmos mais, não é um problema. Para mim o futebol é marcar golos. Prefiro ganhar por 3-2 do que por 1-0”.

 

Domingo à noite, os deuses do futebol pareciam estar atentos: o Nacional entrou confiante em Alvalade, começou a jogar bem melhor do que o adversário e rapidamente ficou em vantagem, 2-0. Pumba, mais dois golos sofridos. Os mais cínicos já preparavam ralhetes ao "futebol positivo" desse inconsciente chamado Keizer, como fez recentemente José Mota, que disse que os treinadores portugueses são especialistas em "anular" o jogo (a esse propósito, vale a pena ler este texto do treinador Blessing Lumueno), mas tiveram de arrumar a viola no saco quando o Sporting fez aquilo que o treinador mais quer que a equipa faça: atacar, com qualidade e variedade, para marcar mais golos do que o adversário.

 

Porque, como bem disse a minha querida colega Lídia Paralta Gomes na sua crónica do jogo, a regra primordial do futebol é esta: ganha quem marca mais golos - que é como quem diz que não ganha quem sofre menos golos.

 

Mais: o saldo do sonolento Sporting de José Peseiro era melhor? Vejamos: em seis jogos, a equipa de Marcel Keizer tem 25 golos marcados e seis golos sofridos; em 14 jogos, a equipa de Peseiro teve 24 golos marcados e 14 sofridos. Ou seja, em menos de metade dos jogos, este Sporting já marcou bem mais golos e, no fundo, mantém exactamente a mesma média de golos sofridos do que anteriormente, um por jogo. Afinal parece que isto de ser proactivo não é assim tão mau.

 

Mariana Cabral, jornal Expresso

 

publicado às 03:32

 

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Não deixa de ser curioso que já publiquei várias crónicas de Mariana Cabral, jornal Expresso, sem nunca me aperceber que a jornalista é também treinadora de futebol e que, em facto, liderou a equipa feminina de juniores do Sporting ao título nacional na época passada.

 

Em reconhecimento deste feito, Mariana Cabral recebeu um voto de congratulação do Grupo Parlamentar da Região Autónoma dos Açores, aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa do arquipélago. A homenagem surge após a jovem técnica de 29 anos conquistar o título com o registo de 20 vitórias em 20 jogos.

 

Natural do Pico da Pedra, Açores, residente no continente desde os 18 anos, não esquece a sua terra natal:

 

"É obviamente um grande orgulho para mim porque grande parte da minha vida tem sido feita fora dos Açores e saber que, mesmo estando cá desde a faculdade, ou seja desde os 18, as pessoas lá ainda seguem o meu trabalho é sempre muito bom e recompensante".

 

Vou lá regularmente e tenho notado que, desde que treino no Clube, têm existido mais conversas sobre isso. Querem saber como estão a correr as coisas. O Sporting CP deu um grande impulso ao futebol feminino em Portugal e as pessoas notaram isso, o que é muito bom para mim também. Apesar de ter saído da ilha, a ilha está sempre cá dentro".

 

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Além de treinadora das sub-19 verdes e brancas, Mariana Cabral é também jornalista no Expresso - actividade na qual foi distinguida no ano passado ao receber o prémio de Revelação Imprensa Escrita, atribuído pelo CNID - e diz que, apesar de nem sempre ser fácil conciliar as duas áreas, tem sido um caminho proveitoso, dado o gosto por ambas. "Não é fácil, mas como se diz quando se corre por gosto não se cansa. Tem sido assim. Tento sempre conciliar estas duas grandes paixões, sobretudo o futebol, que é também aquilo sobre o que escrevo mais".

 

publicado às 03:25

 

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13 de Outubro de 1993. Dou um momento ao leitor para se lembrar do que andava a fazer nessa altura — esta jornalista tinha 6 anos, de modo que tem pouco para recordar — e seguimos para o que interessa: já tinha passado o ‘Verão quente’ em que Paulo Sousa e Pacheco trocaram a Luz por Alvalade (João Vieira Pinto resistiu à tentação, mas anos depois aconteceu o que se sabe), Fernando Santos já havia começado o campeonato liderando o Estoril Praia (que iria ficar em último lugar), e Cristiano Ronaldo, bom, Cristiano Ronaldo tinha 8 anos e estava a estrear-se pelo Andorinha.

 

Nessa noite, no antigo Estádio das Antas, na cidade do Porto, mais de 40 mil pessoas viram a selecção portuguesa fazer algo que, desde então, nunca mais conseguiu: vencer a Suíça. “Joguei de início, mas não foi um jogo muito bem conseguido, porque, como era hábito, quando a selecção jogava com um ponta de lança contra dois centrais gigantes, era complicado retirar partido das nossas capacidades”, recorda o então ponta de lança titular, Jorge Cadete.

 

Ainda assim, com um golo de João Vieira Pinto, a selecção do professor Carlos Queiroz vencia um dos últimos jogos decisivos e continuava a sonhar com o apuramento para o Mundial-1994. Mas, infelizmente, acabaria por ficar pelo caminho, ao perder com a Itália e ao ver a Estónia ser derrotada pelos suíços. “Foi quando a Suíça começou a despontar como uma selecção mais coesa. Pensava-se que ia ser um jogo fácil, mas, devido ao facto de a maior parte dos jogadores actuar no campeonato alemão, isso tornava-os mais fortes do que nós”, explica Cadete, então jogador do Sporting. A selecção de Ciriaco Sforza, Alain Sutter e Stéphane Chapuisat terminou com mais um ponto do que a geração de Cadete, Futre e Paulo Sousa e qualificou-se para o Mundial-1994, nos EUA.

 

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Outra vez os (malditos) suíços

 

24 anos depois, a Suíça está de novo no caminho de Portugal rumo a um Mundial, mas, desta vez, Cadete não tem dúvidas de que serão os portugueses a qualificar-se para a prova do próximo ano na Rússia. “Sendo nós campeões europeus, quem irá para o playoff será a Suíça. Digo isto com convicção”, explica. “A Suíça é uma selecção forte, mas nós somos fortíssimos, somos campeões europeus e jogamos em Portugal, perante o nosso povo, o que nos dará uma energia extra.”

 

Portugal recebe a Suíça na terça-feira, dia 10 do mês 10, na que será a 10ª jornada do grupo B de apuramento e na que pode ser a 10ª qualificação consecutiva da selecção para fases finais; as outras foram: Euro-2000, Mundial-2002, Euro-2004, Mundial-2006, Euro-2008, Mundial-2010, Euro-2012, Mundial-2014 e Euro-2016.

 

E é aqui que está a diferença: se, em 1993, Portugal ainda lutava para se afirmar entre os grandes, escorregando aqui e ali, em 2017 é 3º classificado do ranking mundial FIFA (a Suíça é 7ª), já é tão grande como os maiores. E é por isso que todos esperam uma qualificação directa, em 1º lugar do grupo, evitando a passagem pelo playoff, destinado ao 2º classificado.

 

Só que a Suíça não é, historicamente, um adversário fácil. Além de, no apuramento actual, só ter somado vitórias (veja as tabelas), ultrapassa Portugal no registo histórico (em 21 jogos, 10 vitórias para os suíços, 6 para os portugueses e 5 empates) e ganhou os últimos dois jogos que disputou com a selecção nacional: no Euro-2008 (2-0, com os únicos ‘sobreviventes’ de então a serem Bruno Alves, Pepe, Quaresma, Patrício, Moutinho e Ronaldo) e em Setembro do ano passado, no que foi o primeiro jogo do grupo de apuramento (2-0).

 

De lá para cá, Portugal tem tido algo que naquele jogo inaugural não teve: Cristiano Ronaldo, claro está. O capitão não jogou contra a Suíça, por lesão, mas desde então tem sido peça fundamental no ataque português: é o mais rematador da zona europeia de qualificação (64 tentativas) e só não é o melhor marcador, com 14 golos, porque esta semana o polaco Robert Lewandowski fez um hat-trick contra a Arménia e chegou aos 15, o máximo histórico de golos apontados numa qualificação europeia.

 

Mas Ronaldo ainda tem dois jogos para ultrapassar essa marca, começando já hoje, no jogo que Fernando Santos apelidou de “meia-final”, antes da “final” com a Suíça. É certo que Portugal é amplamente favorito perante a frágil Andorra (venceu sempre com goleadas), mas há constrangimentos a ter em conta: a partida disputa-se num campo sintético e há seis portugueses em risco de ficar de fora contra a Suíça caso sejam ‘amarelados’ esta noite: Fonte, Cédric, André Gomes, Gelson, Quaresma e... Ronaldo.

 

Pelo menos no que pode controlar, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não deixou nada ao acaso, com a selecção a viajar numa aeronave C-295 da Força Aérea, uma operação custeada (habitualmente à volta de €30 mil) pela FPF, que permitiu aterrar no aeródromo de La Seu D’Urgell, em Andorra, e evitar um percurso de mais de três horas de autocarro, que teria de ser cumprido em caso de deslocação num voo comercial para Lérida. A viagem seria especialmente massacrante após a partida contra Andorra, já que o período de recuperação para o jogo com a Suíça é curto. Mas, assim, o impacto nos jogadores é menor e as hipóteses de sucesso maiores. Ou seja, está tudo pronto para a “final”.

 

 

Mariana Cabral, jornal Expresso

 

publicado às 11:00

 

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"Este gajo só inventa". Se conhecer um adepto que nunca proferiu a frase anterior, esqueça - não é um verdadeiro adepto. Faz parte do futebol (bom, na realidade, da natureza do ser humano) a aversão à mudança, especialmente a que rompe radicalmente com o que está estabelecido.

 

Mas, se olharmos bem para o assunto, o que é um treinador se não um inventor? Vejamos: do zero, ou perante o que existia na época anterior, tem de inventar na sua cabeça um modelo de jogo, com dezenas de posicionamentos e referências de um qualquer sistema, para depois passá-lo para a cabeça de 20 e tal jogadores que irão colocá-lo em prática, nos treinos e nos jogos. É ou não é “inventar”?

 

Nesta pré-época, a grande invenção surgiu, como habitualmente, da cabeça de Jorge Jesus. Contra o Basileia e contra o V. Guimarães, o Sporting tentou o 1-3-4-3 (às vezes é ignorado, mas o guarda-redes também faz parte dos números), um sistema que não era visto em Portugal (tirando uma ou outra utilização esporádica, na Liga dos Campeões da época passada, pelo mesmo Sporting) desde 2005/06, quando o holandês Co Adriaanse o implementou (às vezes até 1-3-3-4) no FC Porto e foi campeão, apesar da — claro está — contestação dos adeptos.

 

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A verdade é que, ultimamente, o 1-3-4-3 de influência holandesa tem ressurgido em força. Johan Cruyff foi o primeiro a implementá-lo no Barcelona (onde as camadas jovens são ensinadas a jogar primeiro em 1-3-4-3 e só depois em 1-4-3-3), nos anos 90, e Pep Guardiola seguiu a tendência, ainda que de forma menos regular, na Catalunha e em Munique, tal como o rival Thomas Tuchel, no Borussia de Dortmund.

 

Mas o grande impulso para o ressurgimento do sistema (ainda que com algumas nuances diferentes, incluindo um espírito bem mais defensivo) foi outro: o Chelsea de António Conte. Depois de um início de época desastroso, o treinador italiano — que já tinha utilizado o 1-3-5-2 na Juventus — aproveitou uma derrota contra o Arsenal, no final de Setembro, para introduzir o novo alinhamento e... vencer o campeonato inglês. “Não é o meu preferido. O meu sistema preferido é o que permita que a minha equipa vença”, explicou o italiano, pouco dado a “romantismos” ideológicos.

 

Desde então, uma vez que é difícil contrariá-lo, muitas equipas procuraram replicá-lo: Tottenham (foi assim que Pochettino conseguiu derrotar o Chelsea), West Ham e até o Manchester United de Mourinho.

 

E, em Portugal, Jorge Jesus, que tem sido um influenciador do (nosso) jogo e que disse isto: “O 4-3-3 é o sistema mais fácil de anular.” Culturalmente, o 1-4-3-3 sempre foi mais utilizado em Portugal, até por permitir uma ocupação mais racional do espaço, mesmo que o treinador não imprima grande grau de pormenor aos posicionamentos.

 

Mas, actualmente, quantas equipas jogam em 1-4-4-2, depois de Jesus o ter introduzido no Benfica? Inúmeras. E, agora, Jesus tenta voltar a um sistema que utilizou em 1995/96, no Felgueiras, depois de ter ido a Barcelona perceber as ideias de Cruyff — “uma equipa que me apaixonou”, explicou mais tarde. Porquê? Talvez porque, na verdade, em termos estratégicos, quanto mais vezes se joga contra determinado sistema e equipa, mais eficaz se é a anulá-lo, especialmente quando os praticantes não diferem muito de nível (aliás, no futebol moderno, há estrategas de classe mundial - como Mourinho, claro) - ou seja, tudo tem de evoluir.

 

O 1-3-4-3 é um sistema perfeito para quem quer mandar no jogo, porque permite, em organização ofensiva, ter muitos jogadores no corredor central, entre os sectores adversários, pelo que as opções de passe para o portador são sempre maiores e diversas — com a largura a ser proporcionada pelos alas, que tanto são falsos laterais como falsos extremos — no Felgueiras, Jesus chamava-lhes “flanqueadores” (um deles era... Sérgio Conceição).

 

Mais: uma vez que há poucas equipas a jogar assim, é sempre mais difícil para o adversário adaptar-se a defender contra uma equipa que ataque assim, porque as referências são outras e os problemas são necessariamente novos.

 

E, em organização defensiva, o sistema tanto permite efectuar uma pressão mais alta no campo, com os "flanqueadores" a integrarem o sector intermédio; ou mais moderada, com apenas um dos "flanqueadores" (do lado da bola) a subir e o outro a fazer de lateral, formando um sector defensivo de quatro jogadores; ou até bem mais cautelosa, com a formação de uma defesa de cinco jogadores, um meio-campo de quatro e apenas um avançado mais à frente, por exemplo, assumindo claramente um bloco baixo (como fazia o Chelsea de Conte).

 

Mas, como em todas as invenções... é preciso tempo de adaptação.

 

 

Mariana Cabral, jornal Expresso

 

 

Nota: Muito interessante este artigo de Mariana Cabral sobre sistemas de jogo e o leque de preferências dos vários treinadores da actualidade, embora, inevitavelmente, também muito subjectivo. O problema fundamental com isto, e já se arrasta há muito tempo, é que a vasta maioria de treinadores trai a "regra sagrada" do futebol, ou seja: um treinador deve recorrer a um sistema de jogo adequado às características dos jogadores à sua disposição.

 

Mais vezes do que não, acontece precisamente o inverso. O treinador pré-determina o sistema de jogo que quer ver na equipa que lidera e os jogadores, independente das suas características físicas e técnicas, terão de encaixar nesse sistema.

 

O exemplo clássico mais à mão é o Sporting de Jorge Jesus, muito na época passada e provavelmente também esta época. O técnico insiste impiedosamente no 4x2x4, ocasionalmente no variável 4x2x3x1 (demonstrado na foto), para o qual a equipa leonina não tem jogadores à altura do desafio. Prova evidente os golos sofridos em 2016/17 e na pré-época que terminou há poucos dias. Creio, no entanto, que a evidência à vista não irá mudar de ideias a um treinador reconhecidamente teimoso.

 

Nem me vou dar ao trabalho de comentar o sistema dos três centrais, especialmente tendo em consideração os que temos à disposição neste momento.

 

publicado às 03:31

É tudo uma questão de tempo

Rui Gomes, em 22.11.15

 

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A foto é da jornalista Mariana Cabral - jornal Expresso - que além de ter um lindo sorriso também escreve muito bem. Gostei imenso de ler o seu artigo sobre o "derby" de ontem e, em especial, as suas observações sobre Rui Vitória.

 

O artigo intitulado "O tempo perguntou ao tempo quanto tempo Rui Vitória tem" começa deste modo:

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem quanto tempo o tempo tem.

 

E termina assim:

 

O tempo não tem assim tanto tempo e Vitória precisa de destravar a língua. Antes que Vieira responda que Vitória já não tempo.

 

 

Não duvido que o leitor também apreciará o artigo, que inclui as observações de Mariana Cabral sobre o jogo.

 

publicado às 05:37

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