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A reestruturação - notas adicionais

Rui Gomes, em 27.06.13

O que nos é pedido para aprovarmos na AG do próximo dia 30 de Junho é uma reestruturação global do passivo do Grupo Sporting, alicerçada em cinco vertentes fundamentais:

 

1) A passagem do direito de superfície do Clube para a SPM por 33 anos, e a fusão desta na Sad, gerando um aumento de capital de 8 milhões por esta via.

 

2) A conversão de créditos da SAD   em capital (20 milhões da Holdimo) e quase-capital (80 milhões de novas VMOCS do BCP/BES, a 12 anos). Existe aqui óbvio ganho por redução de custos financeiros incorridos, incomportáveis aos níveis anteriores, e óbvia diminuição de controlo e autonomia, na SAD.

 

3) A reestruturação da dívida do Clube  num novo empréstimo de 68 milhões e o que parece ser a reestruturação das actuais VMOCS, em nova emissão de valor semelhante ao da anterior (55 milhões de VMOCS, já detidas pelo BES/BCP), passando as novas a vencer a 12 anos. Empurram-se problemas para a frente (40 anos aparenta ser o prazo novo do empréstimo ao SCP-Clube).

 

4) A oneração global de todo o património do Sporting (hipotecas sobre os imóveis e penhor das acções das sociedades) para responder à globalidade da dívida contraída pelo Grupo Sporting. Diga-se que seria inevitável que isto acontecesse, numa reestruturação feita sob este formato.

 

5) A entrada prevista de 18 milhões de capita "fresco" vindos de investidor(es) externo(s). Este valor, a entrar, deverá ir direitinho para liquidar responsabilidades bancárias assumidas. Este novo investidor representará cerca de 23 por cento do capital da SAD, tendo pois posição de relevo na sua gestão.

 

Relativamente a estas, concordo com o teor global do acordo. É um acordo desesperado, obtido junto de Bancos que estão muito pressionados para não deitarem tudo a perder, por uma Direcção que entra de mãos a abanar e que pouco tem para oferecer, pelo que aproveita tudo o que os credores lhe dão - incluindo até o novo accionista já conhecido. É um acordo menos favorável do que aquele esteve estruturado entre a anterior Direcção e os credores, que passaria por um "hair-cut" à dívida mas, verdade seja dita, na situação actual, essa é uma análise que já não interessa absolutamente para nada. Dito isto, é importante notar que a declaração do presidente do Sporting na sua recém-entrevista - insistindo que o que foi assumido pela anterior Direcção era um PER- não corresponde à verdade, uma vez que um plano de reestruturação foi formulado através de Godinho Lopes em combinação com o BES e BCP, apoiado pela KPMG. O PER era somente uma alternativa de último recurso, na eventualidade da antecipada oposição ao plano pelo actual presidente e apoiantes, vir a resultar na sua reprovação em Assembleia Geral, semelhante ao cenário que foi agora sugerido pelo próprio presidente. Esta informação vem de fonte cem por cento fidedigna, desinteressada, mas com directo conhecimento de causa.

 

Tenho de apontar três fortes motivos de discordância com esta proposta, os dois primeiros de substância e um terceiro de forma:

 

i) A escolha do novo accionista (Holdimo), que vai totalmente ao arrepio do que foi prometido antes, por esta mesma Direcção, em período eleitoral. As palavras têm de ter consequências, seja no nosso trabalho, no nosso Clube ou no nosso Parlamento. Nada me move contra o Sr. Álvaro Sobrinho, mas é inquietante vermos a velocidade com que se abandonam promessas e se deixa de dar valor à palavra dada. Para além do mais a Holdimo vai eleger um Administrador para a SAD, ficando os Bancos com outro (na verdade é alguém da KPGM, mas todos sabemos quem exigiu a sua presença fiscalizadora).

 

ii) A não apresentação do outro, ou outros, novos accionistas (os tais 18 milhões) ao escrutínio dos sócios. O pedido na AG inclui a passagem para a Direcção de poderes totais na selecção desses accionistas e a renúncia de preferência pelos actuais accionistas, o que, na prática, impede os sócios do Sporting de se pronunciarem sobre quem será o próximo detentor de quase 1/4 do capital. Aliás, se já existem estes investidores, como já foi dito que existiam, não se percebe esta formulação, que mantém o secretismo sobre os mesmos e vincula os sócios a qualquer que seja a escolha feita pela Direcção, em questão absolutamente vital estratégica como esta. Sou pois totalmente contra este voto em branco em branco à Direcção para passar o Capital da SAD para outrem, sem consulta prévia aos sócios.

 

iii) A total falta de transparência pela não apresentação, com clareza, do plano financeiro destes financiamentos, VMOCS, etc. - agora negociados. É impossível, pelo menos a partir dos documentos divulgados no site do Sporting, termos ideia firme sobre o que serão as nossas obrigações a curto, médio e longo prazo, pois não se faz divulgação dos planos financeiros previstos para amortização de cada uma das reformulações de créditos e quase-capital. Assim, não sabemos de quanto dispomos e quanto temos de entregar aos credores, em cada período, pelo que é impossível, a partir destes dados, elaborar  sobre quanto sobra e qual poderá ser a competitividade desportiva do Clube/SAD, nas diversas modalidades, ao longo dos próximos anos. Advinha-se, pelas declarações da Direcção, que será um plano muito exigente, pelo menos no muito curto prazo. Pode-se ainda afirmar, pelo valor global a ser devolvido aos credores, que o que o Sporting está a ser obrigado a fazer é algo inédito a nível do panorama desportivo nacional.

 

Para finalizar, e quanto às restantes propostas a votação:

 

- O orçamento de funcionamento do Clube do próximo ano, cuja aprovação se propõe, também não é disponibilizado, pelo que não me posso pronunciar sobre o mesmo. Deverá sofrer cortes substanciais, se avaliarmos pelas medidas que estão a ser tomadas nas modalidades, e mereceria análise atempada - que não apenas uma aprovação sem estudo prévio, que é o que esta Direcção se prepara para fazer. Votaria a favor, apenas e só se os esclarecimentos da Direcção na Assembleia Geral me deixassem totalmente tranquilo quanto ao futuro das modalidades, na linha que foram as promessas eleitorais.

 

- Nas questões de quotas e associativismo, acredito que a Direcção tenha um plano para aumentar o número de sócios, para o que necessitará de dar algumas facilidades financeiras à entrada destes no Clube. Deveria apresentá-lo, em lugar de vir com propostas vazias. Ainda assim, votaria favoravelmente o proposto.

 

- Dado o cariz extremamente presidencialista que vêm assumindo as eleições do Sporting, concordo que a assinatura do Presidente seja necessária para obrigar o Clube. Também aqui voto favorável, portanto.

 

Penso, em conclusão, que esta será uma Assembleia Geral sem história. Não há alternativas, nisso o presidente tem razão. As que havia, contemplando uma maior entrada de capital inicial, uma pool de novos accionistas, com outra credibilidade e um tipo de reestruturação junto dos credores menos onerosapara a competitividade do Clube a curto e médio prazo, foram derrotadas nas urnas, pelo que não vale a pena chorar sobre leite derramado. De qualquer modo, é positivo que os Bancos, que sempre estiveram ao lado do Sporting para o que foi sendo necessário, voltem a ser considerados parceiros por quem antes não tolerava a sua ligação ao Sporting Clube de portugal, o que penso ser um significativo passo em frente na pacificação do Clube.

 

P.S. - Só me baseio para esta análise nos documentos disponibilizados no site do Sporting. Caso exista informação adicional sobre esta matéria, proveniente de fonte credível, agradeço que me seja transmitida afim de reformular este texto na medida em que tal se mostre necessário.

 

* Texto da autoria de Desert Lion.

 

Nota: Pelos seus afazeres profissionais, Desert Lion poderá não poder responder prontamente a questões que sejam levantadas pelos leitores, aos quais agradecemos, desde já, a devida compreensão. Relativamente a alguma matéria que esteja sob o meu domínio de conhecimento, responderei eu.

 

publicado às 04:33

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