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Uma reportagem do jornal O Jogo, através da qual os autores Bruno Fernandes e Filipe Alexandre Dias alegam que estão negociações em curso entre o Sporting e Rafael Leão para "atenuar a dívida", com o empresário Jorge Mendes no papel de intermediário.

"A Sporting, SAD e Rafael Leão estão em contacto por um acordo que permita selar o contencioso que os separa desde que o atleta rescindiu unilateralmente contrato com os leões a 14 de Junho de 2018, ingressando depois no Lille. Entretanto transferido para o AC Milan, o avançado foi condenado pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), no dia 18 de Março, a ressarcir os verdes e brancos em 16,5 milhões de euros por não lhe ser reconhecida justa causa, mas O JOGO sabe que as partes entraram em diálogo para acordar uma verba e selar a questão de vez".

Enquanto se admite que tudo é possível, com este jornal como fonte, a história não parece ser muito credível. O Tribunal Arbitral do Desporto já condenou o jogador a indemnizar o Sporting e o recurso de desespero que foi entretanto apresentado tem poucas ou mesmo nenhumas probabilidades de sucesso.

Por outro lado, uma vez que o Lille parece ter salvaguardado a sua posição - assinou Rafael Leão a custo zero e posteriormente transferiu-o para o AC Milan por cerca de 35 milhões de euros, sem aparentemente assumir qualquer responsabilidade directa por eventuais decisões de indemnização sobre o jogador - não é nada claro como Rafael Leão vai poder ressarcir o Sporting com 16,5 milhões de euros.

A questão que fica no ar é se o Sporting deve ou não aceitar negociar a dívida. É por de mais evidente que o jogador não merece o mínimo de consideração, mas a sua capacidade financeira poderá ser um factor incontornável.

Já o seu advogado, na altura da condenação do TAD, queixou-se que o jogador não tem meios para pagar tão elevada indemnização e que nem sequer poderá vir a ganhar tanto em toda a sua carreira.

publicado às 04:17

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O mais jovem estreante de sempre na história do Sporting, Santamaria (alcunha com que ficou conhecido o defesa-central Ricardo Duarte), agora com 38 anos no Alta de Lisboa - e funcionário da EMEL -, espera que Eduardo Quaresma trilhe um percurso diferente do seu.

Santamaria foi lançado por Mirko Jozic contra o Chaves em 1998/99 quase a chegar aos 17 anos (aos 16 anos, 11 meses e 12 dias). O central, que nessa partida até entrou para o lado direito para render Patacas, fez mais um jogo nessa temporada, mas depois nunca vingou no clube. A Quaresma pede que saiba ouvir e que procure bons conselheiros.

"Ele está nessa posição porque tem qualidade e é muito bom que já seja aposta. Agora apostam muito mais nos jogadores jovens, até porque os clubes atravessam uma fase difícil financeiramente, enquanto que na minha altura havia mais dinheiro e iam buscar mais jogadores lá fora. Agora é mais fácil ser da formação e ser lançado, muito mais fácil. Aconselho-o a ser ele mesmo, que acredite nas suas capacidades, que procure ser bem aconselhado e acima de tudo que tome as melhores opções de carreira.

Mais vale cair em graça que ser engraçado... É importante saber ouvir. Tem de tomar decisões acertadas, eu tomei algumas não acertadas... e como eu há outros que mesmo com qualidade se perdem. Não foi por vaidade. Recomendo que tenha paciência e que acredite", insistiu, após apreciar o que Quaresma mostrou na estreia:

"Não conheço o Eduardo Quaresma assim tão bem, mas falaram-me muito bem dele. Lembro-me de um lance no jogo em que é ultrapassado e depois recupera em grande velocidade e consegue incomodar a ação do adversário... Fez muitos passes e ganhou confiança com bola no pé, os colegas deram-lhe essa confiança e acreditaram nele."

Reportagem de Rafael Toucedo e Rui Miguel Gomes, O Jogo

publicado às 06:04

Acabou a trégua

Rui Gomes, em 08.05.20

image.pngAinda falta definir muita coisa quanto à logística total que suportará o regresso da Primeira Liga. Se pensarmos bem, falta até garantir que esta regressará de facto: num país que não adoeceu mas também não imunizou, com alguns infecciologistas a insistir na precocidade deste desconfinamento e com virologistas a insistir no risco de novo surto de Covid-19, o que, a confirmar-se, ainda pode fazer tudo voltar para trás. Estas duas semanas serão decisivas.

Agora, defina-se o que se vier a definir, é urgente juntar um plano de segurança pública às prioridades de topo. As claques portaram-se geralmente bem durante o confinamento, em alguns casos até especialmente bem ainda antes dele. Mas o tom em que os SuperDragões expressaram o seu apoio ao FC Porto à volta do Olival já era dúbio. Este vandalismo na Rotunda Cosme Damião, eventualmente perpetrado por adepto do Sporting, é um alerta.

As saudades do futebol; as tensões acumuladas no lockdown; uma certa atmosfera de fim-do-mundo em que alguns de nós ainda se deixam viver; o agravamento do desemprego e dos problemas socio-profissionais ao longo de Maio; a dispersão de ultras por espaços algo mais difíceis de determinar do que um mero estádio (mas, por outro lado, com eventual concentração numa geografia muito mais pequena do que o país inteiro) - tudo isso vai transformar aquelas oito semanas num período de alto risco, que exige uma estratégia de contingência.

Pode correr tudo bem e, inclusive, pode estar toda a gente determinada a que corra tudo bem - mesmo as claques. Mas, como se sabe, às vezes basta um erro num penálti - que, aliás, o visionamento pela TV vai tornar ao mesmo tempo mais fácil de esclarecer e mais difícil de discutir com civilidade - para que as coisas descambem. Num país exausto, daí à violência pode ser um saltinho.

Joel Neto, jornal O Jogo

publicado às 03:01

Liga das vaidades

Rui Gomes, em 02.05.20

Num só dia, os três grandes vão a São Bento mostrar que a Liga pode ter juízo. Nos seguintes, os colegas fazem tudo para os desmentir.

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Os presidentes de FC Porto, Benfica e Sporting não foram a São Bento por gerirem os maiores clubes, nem por serem os mais mediáticos da I Liga ou os mais privilegiados. Foram a São Bento porque FC Porto, Benfica e Sporting são os maiores focos de instabilidade e conflitos. Porque são eles, sistematicamente, a melhor das desculpas que o nosso Governo pode arranjar para se descartar do futebol.

Faria alguma diferença para o Primeiro-ministro António Costa, e para o país, que Carlos Pereira (Marítimo), Gilberto Coimbra (Tondela) e Wei Zhao (Aves) se lhe apresentassem no gabinete em apaixonada ménage a trois? Seria essa a garantia de que o futebol está pronto a cooperar como vai ser preciso?

Ou, vendo o problema do outro lado, haverá melhor oportunidade do que este momento de fraqueza para começar a impor a FC Porto, Benfica e Sporting responsabilidade e melhores comportamentos em troca da ajuda de que o futebol vai precisar? O futebol todo, Marítimo, Tondela e Aves incluídos.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 05:04

O futebol é a Europa

Rui Gomes, em 22.04.20

Russos, americanos, chineses e árabes, entre outros, vão rapinando o maior chamariz europeu no planeta.

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O desporto vale 2,12% do PIB da União Europeia e a competição gera 1,7 milhões de empregos. Para pôr esses números em real perspectiva: a indústria automóvel vale cerca de 7% do PIB e abarca 14 milhões de empregos.

São números respeitáveis que explicam a preocupação de uma União Europeia normalmente desinteressada desse tema tão mundano.

De Bruxelas chegam sinais de que o desporto entrou no campo de visão dos governantes europeus e isso é fácil de explicar. Só em receitas relacionadas com eventos desportivos, transmissões e bilheteiras, são cerca de 50 mil milhões de euros anuais, dos quais 28,4 respeitantes a uma modalidade muito particular.

Para a Europa, o futebol não são apenas receitas e empregos. O futebol é uma das áreas em que os europeus são líderes incontestados do mercado. Para grande parte do mundo, a Europa é o futebol ou o futebol é a lente pela qual veem a Europa.

Da guerra entre as grandes potências económicas, em que a UE aparece sempre como o parceiro menos agressivo, não sobra muito mais, e mesmo o "futebol europeu" vai sendo repartido aos poucos por (calculem) russos, americanos, árabes e chineses, com certeza por ser irrelevante no tabuleiro planetário, enquanto em Genebra os burocratas preferem nem tomar conhecimento, entretidos a ser robôs ideológicos.

Mas por mais que os repugne, não há como separar a Europa do futebol, embora ele tenha crescido selvagem, sem pai nem mãe em Bruxelas, sem aprender boas maneiras, sem ser cuidado, nem potenciado, nem desparasitado, nem gerido, ao contrário do que as outras grandes potências fazem com as suas maiores mais-valias. E estamos a falar de uma União Europeia que se entretém a medir maçãs com uma régua.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 03:34

Juiz benfiquista ou juiz sem juízo

Rui Gomes, em 19.04.20

Pescar juízes sem clube é complicado, mas deve haver um ou dois com o discernimento de não se meterem no Facebook.

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No caso e-Toupeira, o Tribunal da Relação atacou a competência do Ministério Público para justificar a decisão de não levar a Benfica SAD a julgamento e com aparente razão: o Ministério Público desistiu de interrogar o presidente benfiquista num tema em que isso era mais do que imprescindível, abrindo caminho ao que sucederia depois, isto é, a falta de fundamentação para acusar a SAD.

Até o primeiro-ministro teve de estrebuchar no caso Tancos para prestar depoimento por escrito, mas Vieira diz que está com amnésia e a Justiça portuguesa, que pode mandar a polícia buscá-lo a casa, embarca nisso? Tal como fizeram o país, a Imprensa, os outros juízes, o Conselho da Magistratura?

A partir desse momento, a dúvida por serenar na cabeça das pessoas está justificada. Mas um juiz benfiquista não põe os processos mais em causa do que um juiz portista ou um juiz sportinguista. Seria uma canseira procurar juízes asséticos, sem clube, sem religião e, já agora, assexuados. O problema do juiz Paulo Registo não é ser benfiquista; é não ter o juízo - importante, sendo juiz - para não fazer "likes" no Facebook em coisas que poderá ter de vir a julgar.

Um juiz benfiquista com juízo é diferente de um juiz benfiquista sem juízo. Diria mesmo que juiz com Facebook é diferente de um juiz sem Facebook, não por eles terem menos direitos individuais do que qualquer cidadão comum, mas por levantar dúvidas sobre o discernimento. Os juízes não podem ser levianos em público, nem, remetendo para um caso anterior, "fanáticos" de coisa alguma que não seja a Justiça.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 03:33

Futebol sem adeptos: o novo normal

Rui Gomes, em 15.04.20

O futebol jogado à porta fechada e sem adeptos na bancada não é a mesma coisa, mas talvez as coisas nunca mais voltem a ser as mesmas.

Futebol sem adeptos nas bancadas não é bem a mesma coisa. O argumento, incontestável, repete-se um pouco por todo o lado, como reacção à hipótese de reatar as competições com a realização de jogos à porta fechada.

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Há quem vá muito mais longe e sentencie que, sem condições para os adeptos, também não pode haver condições para os outros e que devemos todos esperar que as autoridades declarem o regresso à normalidade. Ora bem... quando se fala de regresso à normalidade, no contexto actual, está a dizer-se o quê, exactamente? Jogos com 50 mil pessoas nas bancadas? Metro e autocarros cheios de adeptos que se acotovelam nas entradas dos estádios? Abraços e beijos nos festejos de cada golo? É que essa normalidade, a normalidade que era normal há três meses, essa não se sabe quando vai regressar.

As perspectivas mais optimistas para se encontrar uma vacina apontam para o final do ano, sendo que, depois de a encontrar, será necessário produzi-la em massa e finalmente vacinar toda a população do Mundo, talvez com a excepção daqueles que por estes dias forem capazes de lutar e vencer o vírus. Enquanto isso não acontecer, o risco de contágio existe e anula qualquer perspectiva de regresso à desejada normalidade, seja a tempo de concluir a actual temporada, seja a tempo de começar a próxima.

Os jogos à porta fechada não são um capricho para resolver um problema imediato que vai desaparecer por decreto governamental: são, muito provavelmente, a real normalidade a que teremos de nos habituar nos próximos tempos se quisermos que o futebol sobreviva ao vírus.

Jorge Maia, jornal O jogo

publicado às 03:48

O vírus da mudança não é este

Rui Gomes, em 13.04.20

A pandemia não gerou, até ao momento, nenhuma acção inédita, nem surpreendente, nem revolucionária.

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A Selecção Nacional de futebol doou há dias metade do prémio de qualificação para o Euro'2020 ao fundo de apoio aos "amadores" da FPF. Ronaldo e Mendes compraram ventiladores. Multimilionários americanos financiaram pesquisas de uma vacina. Ficámos agora a apreciar os enfermeiros e médicos (não tanto, se calhar, o imigrante que nos traz comida a casa a dois ou três euros de custo que terá de partilhar com uma multinacional). A FIFA diz que o futebol tem de dar um passo atrás. O jornal Financial Times reflecte, em editorial, sobre as fraquezas do capitalismo e a necessidade de procurar novos caminhos.

Centenas de figuras públicas escrevem e dizem todos os dias coisas sensatas, mesmo sobre a inflação demencial no futebol de elite. Outros fazem contas e garantem-nos que nunca mais haverá transferências como aquelas de Neymar ou João Félix, até conseguem dizer ao cêntimo, usando uma ciência obscura qualquer, quanto vale agora cada jogador. No jornal Público, o filósofo José Gil tira a conclusão obrigatória deste contexto... o vírus não mudou nada de significativo.

O gesto da Selecção de nós todos não me surpreende, Cristiano Ronaldo e Jorge Mendes já tinham feito acções do género, os multimilionários americanos têm por hábito financiar sempre pesquisas, por uma questão de marketing, e o facto de simpatizarmos mais agora com o pessoal clínico não nos fará valorizar mais amanhã os professores e muito menos ainda mudarmos de opinião sobre os funcionários públicos. A FIFA fala em passos atrás e à frente desde que o FBI lhe caiu em cima. O "Financial Times" é um farol do capitalismo, mas sempre fez jornalismo decente e as figuras públicas que dizem coisas sensatas já as diziam em 2008, 2011, etc.

Aos poucos descobriremos, sem doutoramento em bioquímica nem surpresa, que o vírus não deixa boas sequelas.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

Nota: Uma visão muito cínica de José Manuel Ribeiro em que todas as acções em prol do combate à pandemia em curso, indiferente da razão de ser, são vistas com elevado grau de descrença. Porquê... o Mundo estaria melhor sem elas?

O facto destas acções não serem "inéditas", "surpreendentes" ou "revolucionárias" - se de facto assim são - nega o benefício das mesmas?

publicado às 16:30

Rui Pinto: sensibilidade e bom senso

Rui Gomes, em 12.04.20

Rui Pinto vai colaborar com a justiça portuguesa e essa é uma boa notícia, especialmente para a justiça portuguesa.

Rui Pinto encontra-se em prisão domiciliária, num apartamento inteiramente controlado pela Polícia Judiciária, sem acesso directo à Internet e com a obrigação de colaborar com a Justiça.

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Como acontece quase sempre nestas coisas, há quem veja o copo meio cheio e quem o ache meio vazio, discutindo se foi o Ministério Público a ceder ao hacker e à pressão cada vez mais generalizada para que os documentos revelados por ele sejam investigados, ou se foi o próprio a ceder ao MP perante a forte ameaça de ser julgado e condenado, pelos crimes que terá cometido, sem qualquer atenuante.

A verdade é que, pelo menos a esta distância, é pouco mais do que irrelevante saber quem cedeu a quem. Aquilo que realmente interessa sublinhar é que, tanto quanto se sabe até agora, o acordo a que as partes terão chegado defende os melhores interesses da justiça. Desde logo porque garante que Rui Pinto continuará a ter de responder pelos crimes de que é acusado até ao momento e, logo a seguir, porque abre a porta à possibilidade de investigação e eventual acusação de pessoas responsáveis por crimes tão ou mais graves ainda.

Aliás, não custa recordar que as revelações do criador do Football Leaks já serviram para, por exemplo, castigar o clube Manchester City por desvios ao fair play financeiro da UEFA, condenar vários jogadores por fraude fiscal em Espanha e, fora do âmbito do futebol, denunciar as actividades ilegais da empresária Isabel dos Santos.

Perceber, finalmente, que a justiça portuguesa está tão interessada em responsabilizar Rui Pinto pelos crimes que ele terá cometido como em investigar os crimes que ele revelou é certamente uma boa notícia, num tempo é que não há assim tantas para dar.

Jorge Maia, jornal O Jogo

publicado às 03:30

Vítimas e vilões

Rui Gomes, em 10.04.20

Os clubes que actuam de boa fé não têm de estar preocupados com rescisões unilaterais.

O anúncio, por parte dos clubes profissionais, de que nenhum deles contratará jogadores que rescindam unilateralmente durante este invulgar período de emergência sanitária, é uma espécie de arma de dissuasão contra uma ameaça que, em boa verdade, não existe.

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Afinal, aquilo que se tem visto por parte da larguíssima maioria dos jogadores é uma atitude de responsabilidade e compromisso, seja na forma como a vasta maioria aceitou negociar cortes mais ou menos profundos nos salários, seja na abertura para o prolongamento dos contratos para além do prazo natural de 30 de Junho - permitindo então que as competições possam ser concluídas -, seja ainda na antecipação do gozo de férias numa altura em que as limitações à circulação e os apelos ao isolamento domiciliário as condicionam no seu propósito de permitir a recuperação física e psíquica prevista na lei.

De resto, os clubes já estão bem protegidos de eventuais rescisões unilaterais pelas mais recentes directrizes da FIFA, que tratou de assegurar que qualquer disputa do género terá em conta, entre outros factores, a tentativa por parte dos clubes de chegar a um acordo com os jogadores, a situação económica dos clubes e a proporcionalidade de qualquer ajustamento aos contratos.

Ou seja, todos os clubes que ajam de boa fé em relação aos jogadores, e que felizmente são a larga maioria, não têm nesta altura quaisquer motivos para estarem preocupados com rescisões unilaterais. E os outros, os que optam por aproveitar uma situação excepcional para camuflar incumprimentos antigos, não merecem a sua protecção sob pretexto de uma solidariedade deslocada que coloca as vítimas - leia-se jogadores com vários meses de salários em atraso - no papel de vilões.

Jorge Maia, jornal O Jogo

publicado às 04:02

Das obscenidades

Rui Gomes, em 08.04.20

Obsceno é o número de clubes que precisam mesmo de ajuda em tão pouco tempo.

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É claro que toda a gente acha obscenas as cifras do futebol, mas temos verdadeira noção? Vou citar algumas... A receita conjunta das dez maiores ligas da Europa chegou, em 2018/19, aos 18 mil e 300 milhões de euros. Repartido esse valor pelos 182 clubes desses campeonatos, ficamos com um parcela de 100 milhões de euros para cada um, ou seja, teríamos 182 clubes com orçamentos semelhantes aos de Benfica e FC Porto. Respeitando o fair play financeiro da UEFA, afectamos 70% desse valor (70 milhões) para salários, dividimos por um plantel de 25 e sobra-nos um vencimento anual bruto de 2,8 milhões de euros para cada um dos 4550 jogadores.

O futebol europeu está submerso em dinheiro. Se pensarmos que a maior parte dele se concentra em cerca de 10% daqueles 182 clubes, a obscenidade ainda consegue crescer, mas nada nos prepara para a maior de todas: apenas uma mão-cheia daquelas quase duas centenas de empresas não está, neste momento, em pré-falência, sem meios para garantir mais do que dois meses de hibernação, e talvez eu esteja a exagerar quando falo em dois meses. O futebol não é uma máquina de fazer dinheiro; é uma máquina optimizada para garantir que não fica lá um cêntimo.

O presidente do Sindicato dos Jogadores acerta quando ataca a moralidade do bicho, mas não quando dá a entender que os clubes só têm uma dorzita de barriga. Não, estão mesmo nas últimas e alguns precisam mesmo de ajudas do Estado, por culpa deles, primeiro, por culpa da UEFA, por culpa da União Europeia e também muito por culpa das organizações sindicais de jogadores que combatem tectos salariais, que ajudaram a desregular o futebol na UE chegando a exigir o fim das janelas de transferências, para que o negócio durasse o ano inteiro. Não há santos aqui. Mas há falidos, sem dúvida nenhuma, e às mãos-cheias.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 11:30

UEFA quer achatar a curva

Rui Gomes, em 06.04.20

A UEFA insiste em levar as competições de clubes até ao fim e há centenas de milhões de razões para o fazer.

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Se a ameaça de exclusão das provas europeias da próxima temporada produzida por Aleksander Ceferin perante a perspectiva de a federação belga dar desde já por concluído o respectivo campeonato, estipulando a actual classificação como definitiva, não foi completamente elucidativa, o último esclarecimento da UEFA não deixa margem para dúvidas: a prioridade do organismo que superintende o futebol a nível europeu é jogar o que resta da actual temporada de clubes até ao fim.

Claro que o objectivo será fazê-lo o mais depressa possível, respeitando as indicações das autoridades sanitárias e com o mínimo impacto no calendário da próxima época, mas a UEFA tratou de clarificar que não há um prazo de validade definitivo e que está em aberto a possibilidade de estender as decisões pelos meses de Julho e Agosto. É evidente que a intransigência do organismo europeu se explica com a urgência de diminuir o impacto financeiro do vírus no futebol, o que pode ser chocante numa altura em que o número de vítimas ultrapassa as 60 mil em todo o mundo.

Não falta quem defenda que o ideal seria dar já por concluídas todas as provas, até para evitar os riscos de contágio associados à realização de jogos, mesmo sendo à porta fechada. A questão é que, por um lado, a capacidade que o futebol europeu como um todo terá para se reerguer das cinzas dependerá em larga medida da limitação do impacto imediato da crise nas respectivas finanças e, por outro, não há nenhuma garantia de que as condições sanitárias permitam o regresso à normalidade dos estádios cheios nem agora, nem na próxima temporada.

No fundo, o que a UEFA quer é achatar a curva, evitando que um pico abrupto de falências ultrapasse a capacidade do futebol para responder ao estado de crise a longo prazo. E isso parece sensato.

Jorge Maia, jornal O Jogo

publicado às 12:36

Um dia só

Rui Gomes, em 05.04.20

As notícias sobre o impacte do PSG-Borussia na disseminação da Covid-19 em Paris não são apenas mais uma prova de que, na generalidade, os franceses (como os espanhóis) demoraram muito mais do que - por exemplo - os portugueses a aceitar os perigos do coronavírus. É também um rude golpe na instituição dos jogos à porta fechada.

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Também é daí que vêm a disponibilidade do Brescia para descer de imediato à segunda divisão italiana, desde que não tenha de jogar; a indignação de Overmars, agora director do Ajax, com a insistência da UEFA em manter até agora os campeonatos em suspenso; e, claro, a recomendação da Liga na Bélgica que levará provavelmente à atribuição imediata ao Club Brugge, líder provisório da Jupiler Pro League, do título de campeão.

Há cada vez mais gente com medo. E o medo tem razão de ser.

Evidentemente, a situação belga é distinta da nossa: o Brugge leva 15 pontos de vantagem, enquanto em Portugal FC Porto e Benfica estão colados. Mas a aprovação da medida, aliás quase garantida, deixará também as despromoções, bem menos decididas de momento, a cargo da secretaria. E não surpreenderá ninguém se isso gerar um efeito-dominó Europa fora.

Vamos ter de perceber que esta época está perdida e o futebol não poderá voltar. A fazê-lo, terá de ser por um dia só, com finalíssimas e liguilhas à porta fechada, cordões sanitários à volta dos vários estádios e um policiamento rigoroso das ruas e locais de ajuntamento em todo o país.

Ainda creio ser esta a melhor solução, mas não vejo como isso possa acontecer muito antes do limite de Julho - até face à indispensável disponibilidade das forças de segurança. E, mesmo assim, vamos a ver. Temos podido contar com os portugueses. Connosco. Mas vale bem a pena lembramo-nos de como, frequentemente, nos comportamos tanto nas vitórias como nas derrotas, suspendendo a noção de medida e a civilidade a pretexto do futebol.

Joel Neto, jornal O Jogo

publicado às 05:01

Se a ruína dos clubes fosse irrelevante para as operadoras de televisão, estaria mesmo tudo perdido. Ou maluco...

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As operadoras de televisão pagam vagões de dinheiro pelo futebol porque, calculem, ele interessa-lhes. Por muito que tentem negá-lo no fogo cruzado de notícias e comunicados, feito de simulações e bluffs, há uma simbiose entre MEO, NOS, Sport TV, etc., e os clubes. O destino da bola não lhes é indiferente, como também não lhes deve ser indiferente a realidade de que, para os clubes, será muito difícil financiarem-se nos próximos tempos.

Quer isto dizer que devem ser elas então a suportar os clubes durante a depressão do vírus, pagando por jogos que não existem? Talvez não, mas, se calhar, convém-lhes participar na solução, sob pena de haver mesmo jogos (não agora, mas dentro de uns meses largos) que as pessoas só quererão ver de graça ou a preços muito baixos - e que elas terão de pagar na mesma, respeitando os contratos que pretendem fazer valer agora.

Ninguém melhor do que as operadoras sabe como são muito poucos e disputadíssimos os "conteúdos" valiosos, nem como é ameaçadora, para elas, a onda dos chamados serviços de "streaming", Netflix, Amazon Prime, HBO, Disney, etc.

Quem disse que precisaremos de operadoras no futuro? E, neste exacto momento, o que têm elas que essas novas plataformas não ofereçam mais barato? Assim na ponta da língua, talvez o futebol (por enquanto), mesmo combalido e incerto. Como as operadoras, que não são geridas por gente distraída, também não levo demasiado a sério o regresso do campeonato em Junho.

Não estamos fechados numa qualquer caixa, a pandemia espalha-se a tempos diferentes pelo planeta e, enquanto durar lá fora, durará aqui, mas acaba por ser irrelevante. As coisas estão tão complexas que, em tantos e tantos casos, será difícil perceber se estamos a ajudar o outro ou se, fazendo isso, estamos a salvar-nos a nós próprios.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 05:02

Estado da união

Rui Gomes, em 01.04.20

Jogadores e clubes têm de se entender. Pela sobrevivência de todos.

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Faz sentido o apelo de Joaquim Evangelista para que os jogadores não negoceiem revisões salariais com os clubes de forma individual, mobilizando-os para uma discussão conjunta e até articulada pelo sindicato. Afinal, em qualquer discussão deste tipo, a união faz a força e é evidente que a capacidade negocial de todos os jogadores juntos é maior do que a de cada um considerado individualmente.

Desde logo porque, sendo todos iguais, há obviamente alguns jogadores que são bastante mais iguais do que outros, seja no salário que recebem, seja no peso específico que têm nas respectivas equipas ou mesmo até em termos de estatuto reflectido, por exemplo, no valor comercial de cada um no mercado de transferências. Claro que essas diferenças também representam um desafio em termos de uma eventual negociação colectiva, onde uma solução igual para todos está longe de ser uma solução equitativa.

Unir numa frente comum e solidária realidades tão diferentes como as que separam, por exemplo, os jogadores dos três grandes dos restantes, ou até os jogadores da I dos da II Liga, será certamente um desafio para o sindicato. Mais discutível do que esse apelo à união é a ideia de que os clubes não têm motivos para discutir reduções salariais porque já anteciparam as principais receitas. Mais uma vez há uma diferença considerável entre o que é a realidade financeira dos maiores clubes portugueses e a dos restantes, onde qualquer variação nas receitas afecta de forma séria a liquidez.

De resto, mesmo os grandes enfrentam desafios complicados, seja pela perda imediata de bilheteira, seja pelo adiamento de receitas extraordinárias impostas pelo cada vez mais inevitável prolongamento da temporada, ou ainda até pela desvalorização de activos que a actual crise implica. No fundo, jogadores e clubes estão condenados a entenderem-se pela sobrevivência de todos, de preferência garantindo que uma situação excepcional não é argumento para beliscar direitos de forma definitiva.

Jorge Maia, O Jogo

publicado às 03:31

Os hunos por trás dos Átilas

Rui Gomes, em 31.03.20

Quem acha que os obstáculos ao bom senso são quatro ou cinco presidentes idiotas não fez as contas como devia.

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A imagem do presidente da Bielorrússia, de capacete de hóquei no gelo, stique e ombreiras, com a legenda "Mais vale morrer em pé do que viver de joelhos" (falava sobre o vírus), podia muito bem ser a capa de uma biografia de Átila, o huno. A filosofia é a mesma, a 1500 anos de distância. Lukashenko, Trump, Bolsonaro ou o ministro das Finanças holandês (neerlandês), que considera os povos do Sul preguiçosos e pedintes, são todos o vilão ideal, cada um no seu grau de sacanice e estupidez patentes. Mas sozinhos valem zero, por muito geniais que sejam no Twitter ou no WhatsApp. São 0,1 por cento do problema.

Se o Partido Republicano não suportasse as canalhices de Trump, no senado americano, ele teria caído há muito. Bastaria até que alguns senadores não se esforçassem tanto por aguentar o vómito. Se grandes instituições, como as inexplicavelmente toleradas igrejas evangélicas, não tivessem interferido,  Jair Bolsonaro não seria presidente do Brasil e, sem Putin nos bastidores, Lukashenko teria sofrido bem mais dificuldades na Bielorrússia. O neoliberal Wopke Hoekstra também faz parte de um exército organizado, não é um idiota solitário, nem tem um pensamento assim tão distante de alguns ex-primeiros-ministros portugueses.

Donald Trump e Bolsonaro podem ser uma mera moda passageira e Hoekstra apenas um arrogante particularmente descarado, mas quem os promove ou, podendo fazê-lo, abdica de os eliminar leva décadas de enraizamento, de amizades e de confrades que não têm nada de ignorantes nem de burgessos. O bom senso está em grande desvantagem e tem um longo historial de ingenuidade e inércia no cadastro.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 05:03

TEORIAS DO CAOS - Imaginem que se acabam as ligas até Dezembro e até Maio se joga uma prova milionária para cobrir os prejuízos.

André Villas-Boas propôs que os campeonatos de futebol se estendam até Dezembro e que, a partir daí, se joguem em cada ano civil (ou seja, entre Janeiro ou Fevereiro e o Natal) até 2022.

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Nesse ano, tudo encaixaria com perfeição, porque o Mundial do Catar está agendado para uns estrambólicos finais de Novembro. Depois, suponho, logo se veria como atalhar o necessário regresso ao calendário normal. Na minha ingenuidade, tive uma visão alternativa, na improbabilidade de que FIFA, UEFA e as Ligas saibam o que refundação e solidariedade querem dizer.

Imaginem esta alucinação, com o devido desconto por vir de um maníaco furioso e talvez com o modesto impulso de cinco ou seis cafés, não havendo nada menos legal à mão. Os campeonatos locais, a Liga dos Campeões e a Liga Europa prolongam-se até Dezembro, há campeões, apurados, subidas e descidas de divisão. As edições seguintes são marcadas para Agosto.

Entretanto, o mundo tem um desvario. FIFA e UEFA juntam-se para criar uma tremenda competição mundial conjunta, entre Fevereiro e Maio. Os operadores televisivos de cada liga aceitam interromper os contratos a troco de um prolongamento aos mesmos preços.

Os países participam todos com idêntico número de equipas, começando por apuramentos nacionais e continentais por grupos, seguidos então por uma etapa de "poule" sem divisões geográficas (para potenciar as receitas, paciência), seguida de eliminatórias até à final, sempre em duas mãos.

A partir do momento em que a competição atinja a sua fase continental, as regras são algo (agora é que precisam mesmo de ter paciência com este meu delírio) revolucionárias. Cada clube tem direito a manter 25 jogadores com um valor máximo do plantel estabelecido por algum critério a encontrar, e todos os excedentários entrarão numa poule que os atribuirá por sorteio ou, no formato da NBA, à equipa mais fraca que os escolher (só até encerrar a prova), com partilha de despesas - solidariedade é solidariedade.

Os prémios são iguais para todos, mas dois terços da receita total são distribuídos pelas competições nacionais, mediante um cálculo dos orçamentos. Não faz sentido que uma liga com uma média de gastos, por clube, de um milhão, receba quarenta, por exemplo.

O planeta não resiste a algumas lágrimas por este vincado esforço comum, a economia do futebol conserta-se, existe a microscópica possibilidade de se ter aprendido alguma coisa sobre equilíbrio, Infantino e Ceferin tornam-se os primeiros dirigentes do futebol a ganhar o prémio Nobel da Paz e, graças a um tratamento profilático com metadona, resistem heroicamente à ganância de estoirar com as ligas nacionais e repetir a coisa logo no ano seguinte.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 05:02

Prioridades trocadas

Rui Gomes, em 29.03.20

A primeira preocupação de qualquer pessoa de bom senso nos tempos que correm só pode ser a saúde.

Nuno Lobo, presidente da Associação de Futebol de Lisboa, pontuou a actualidade de sexta-feira ao criticar a decisão da Federação de cancelar os campeonatos dos escalões de formação, garantindo que, pelo menos na capital, essa decisão ainda não é definitiva.

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Uma posição estranha, desde logo considerando que o comunicado da FPF garante que a resolução foi assumida depois de ouvidas todas as associações do país. Mas Nuno Lobo foi mais longe, assegurando que, a ser tomada, a decisão de cancelar os campeonatos dos escalões de formação terá em conta "os interesses desportivos" e "os interesses financeiros" dos clubes lisboetas.

Ora, parece que nem de propósito, os dois maiores clubes de Lisboa, Benfica e Sporting, não perderam tempo e trataram de manifestar publicamente o apoio à decisão anunciada pela Federação, sublinhando a importância incontestável de defender esse valor maior que é a saúde e, por tabela, deixando Nuno Lobo na posição estranha de não acompanhar, pelo menos para já, a opinião dos seus dois maiores associados. Claro que, apesar de serem os maiores clubes da capital, Benfica e Sporting são apenas dois, mas não é difícil imaginar que os restantes partilhem uma visão semelhante do problema.

Afinal, ninguém de bom senso ousaria colocar "os interesses desportivos" e "os interesses financeiros" como prioridade perante uma situação de emergência sanitária como a que atravessamos, especialmente quando falamos de escalões de formação.

Jorge Maia, jornal O Jogo

publicado às 03:19

Teletrabalho no Sporting

Rui Gomes, em 27.03.20

Confesso que me parece pouco ou nada relevante se Frederico Varandas se voluntariou para servir o País durante o estado de emergência ou se foi "obrigado" a apresentar-se ao serviço pelo Exército.

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Portugal precisa muito de pessoal clínico para combater a Covid-19, Varandas é médico e neste momento é certamente muito mais útil para todos que ele exerça essa função do que a de presidente do Sporting. De resto, mesmo admitindo que a maior parte dos clubes portugueses é gerida num regime próximo do despotismo mais ou menos iluminado, com os respectivos presidentes no papel de "Rei-Sol", é de supor que uma instituição da dimensão do Sporting não dependa da presença de uma pessoa para continuar a funcionar.

Aliás, o Conselho Directivo a que Varandas preside, é um órgão colegial, enquanto na SAD há pelo menos mais quatro administradores executivos, pelo que a ausência temporária - sublinho o "temporária" - do presidente não deverá ser dramática.

Dito isto, é evidente que o teletrabalho está longe de ser a forma ideal de dirigir um clube, especialmente em contexto da actual crise. O Sporting, como todos os clubes portugueses, enfrenta um momento particularmente delicado, com a evolução da pandemia a alterar as circunstâncias a um ritmo quase diário. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, vai ter de ser decidido como desatar o campeonato, uma discussão da qual o Sporting não se pode abster e onde o peso institucional do presidente do clube terá certamente relevância.

Depois há as múltiplas questões relativas à preparação da próxima época e à negociação de entradas e saídas de jogadores, que dificilmente podem ser devidamente atendidas por telefone. Frederico Varandas está onde tem de estar agora, mas não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Se a situação se prolongar, e todos esperamos que não, isso pode ser um problema.

Jorge Maia, jornal O Jogo

publicado às 04:18

Podemos tentar ensinar alguém a ser Ronaldo, mas nada em Messi é "conhecimento" transmissível ao próximo.

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O tédio do isolamento social descambou em tiro ao Ronaldo. Porque está na piscina, porque ostentou (e ostentou?) as ajudas aos hospitais portugueses e porque há um fulano chamado Hristo Stoichkov a quem chegou a vez de se meter no drama existencial entre Cristiano e Messi. Defender Ronaldo, que é crescidinho em todos os sentidos, soa-me sempre a patrioteirismo, mas não me importo de entrar nesse barco para defender, antes dele, a racionalidade.

Para um ex-presidente da Juventus, aparenta ser lamentável que ele cumpra a quarentena na Madeira, apanhando sol numa "megapiscina". As delícias do teletrabalho nem sempre convencem: para alguém tantos meios e uma obsessão tão grande, qual é a diferença entre isolar-se em Turim ou no Funchal? Já as ofertas de dinheiro e equipamentos aos hospitais levam a um debate estafado que confunde os óbvios benefícios com juízos de intenções.

Gosto muito do comedimento e ficaria um milhão de vezes mais bem impressionado se descobrisse que Cristiano Ronaldo anda há dez anos a servir à mesa na sopa dos pobres sem ninguém saber. Mas saber-se também tem valor, ou alguém duvida de que esta chuva de contribuições dos futebolistas e treinadores estão ligadas umas às outras?

Por último, o disparate de Stoichkov, búlgaro que fez história no Barcelona e que exclui entrevistar Cristiano Cristiano porque o que quer são "ensinamentos" e "conhecimento". Erro crasso. Se há uma vantagem evidente, chamemos-lhe assim, de Ronaldo para Messi ela está precisamente na ciência. Ronaldo tem uma vida de afinações, métodos e flexões abdominais para ensinar a quem for inteligente; o que mora dentro de Lionel Messi nem se ensina, nem se aprende.

José Manuel Ribeiro, Director de O Jogo

publicado às 03:18

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